Pacific Crest Trail – S01E01

A trilha da trilha: JJ Cale – Tijuana

Parece cenário de guerra (ou de evento barato): das tendas brancas 6×4 metros montadas lado a lado. Dentro de cada uma seis pessoas ocupando cada espaço disponível. Próximo, outras três tendas menor com menos gente: uma com três, outra com duas e uma última com apenas uma, apesar de poder abrigar pelo menos quatro.

A pessoa na tenda sou eu. O cenário é o quintal da casa de Scout e Frodo, num subúrbio universitário de San Diego, California. Apesar de ouvir os roncos vindo das tendas vizinhas, não acho ruim em estar sozinho. Deito na “meia noite dos caminhantes”, ou nove da noite no horário das pessoas normais, e tento dormir sem sucesso. Acordo às dez, à uma, às quatro, e não durmo mais. Estou ansioso pela batalha.

Pouco depois começa a movimentação na casa e levanto. Esvazio meu colchonete, guardo tudo nos sacos estaque e quando vou colocar na mochila vejo que está tudo molhado: enchi a garrafa de água à noite, não fechei direito e minha mochila está ensopada. Como tudo está dentro de sacos estaque, não tem problema.

O café no Scout é bem servido. Muffins, frutas, gandola, café, chá. Termino e vou checar minha mochila – acho que estou esquecendo algo. “Você pode olhar sua mochila quando chegar lá. O carro está esperando”, diz Scout. São 3 carros, com 15 caminhantes que ficaram na cada deles essa noite. Não quero ser o chato: pego a mochila, coloco no carro e seguimos viagem.

São pouco mais de uma hora até Campo, diz Ron, nosso motorista. Vamos falando da vida, experiência com trilhas, o que cada um faz. Além de mim vão no carro três americanos recém-saídos da faculdade: Sydney, Tyler e mais um.

Na chegada ao monumento fotos, conversa com os voluntários da PCTA – Pacific Crest Trail Association, mais fotos e cada um vai saindo no seu ritmo.

Fui o último a sair, às 8 da manhã. Fiquei fazendo vídeos e conversando com os voluntários. Fui até a fronteira com o México, encostei no muro (ele já existe, feito, me disseram, de restos de fuselagem de avião, e ali do outro lado está Tijuana), voltei ao monumento, encostei nele também, e peguei rumo ao norte.

Nas primeiras milhas a trilha vai margeando a estrada. A polícia de fronteira fica rondando por ali, em suas caminhonetes brancas e adesivos verdes. Vi pelo menos seis carros em um hora. Helicópteros também sobrevoam a região. Paro pra fazer uma foto da primeira milha da trilha e quando procuro, cadê o filtro da lente da câmera? Volto pra poder pegar pelo caminho.

Pouco tempo depois a trilha cruza uma linha de trem e sobe morro acima. O México – e os carros da polícia – podem ser vistos ao longe, e vão sumindo a medida que você sobe. É gradual: nenhuma subida pesada por enquanto.

Cruzo alguns caminhantes pelo caminho: Shuffles, a voluntária que estava no Scout; Joyce, que havia ficado lá; Tyler, outros desconhecidos. Chego meu celular e tem uma mensagem do Scout: “Jeff, você esqueceu sua blusa. Posso deixar pra você em Lake Morena se quiser”. Que maravilha: quando chegou caixa que estava esperando veio dentro um blusa. Tirei o wind breaker que estava usando e ele ficou pra trás.

Não era meu plano do dia – pensava em andar um pouco mais – mas não reclamei em ter que dar o dia por encerrado depois de 32 km, às 5 da tarde. Montei a barraca e fui na única loja da vila comer um hambúrguer e tomar uma cerveja.

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Pacific Crest Trail – Day 0

A movimentação na casa de Scout e Frodo começa cedo. Às 4:30 o café da manhã começa a ser preparado, às 5:30 está pronto à espera dos hikers, às 6:00 todo mundo sai pra trilha, pra chegar às 7:15 em Campo e cada um pegar o seu caminho – que aqui é sempre o mesmo: uma trilha continua ligando a fronteira do México à fronteira do Canadá.

Eu não vi o grupo saindo. Ouvi um ou dois despertadores, algumas mochilas sendo fechadas e só. Dormi de novo e acordei às 7:00, com a casa já quase vazia. Shuffles, a sul-africana-neozelandesa que está trabalhando de voluntária, estava sozinha à mesa e me juntei a ela. Pouco depois chega Martin, o theco. Eduard, francês, era o único outro hóspede, isso porque estrangeiros podem ficar até três dias (canadenses dois, americanos um).

O dia foi de espera: a caixa com as coisas que ganhei do Caveman Dirtbag Sponsorship ainda não chegou e passei o dia no balanço na frente da casa aguardando o correio. “Já saiu de manhã para entrega”, me disse Amanda, que é meu contato no patrocinador.

Mas não só isso: ajudei Shuffles na limpeza da cozinha e do banheiro, refiz mais de uma vez minha mochila, pesei de novo cada equipamento, passei permethrin nas minhas roupas e mochilas (ao contrário da Appalachian Trail, carrapatos não são tão problemáticos aqui na Califórnia, mas sabe como é, seguro morreu de velho) e vi a movimentação de chegada de mais e mais caminhantes. De tempos em tempos chega um carro – voluntários ou os próprios Scout e Frodo – com três, quatro, cinco pessoas que irão começar a trilha amanhã ou depois. A casa vai ganhando vida: gente comparando os equipamentos, outros já dispensando o que não querem mais, caras de preocupação, sorrisos de nervosismo e ansiedade. Americanos, australianos, alemães, gente de todo canto, de todo jeito, de todas as idades, com um objetivo comum: completar a trilha.

A caixa só chegou no final da tarde. Saí para ir ao correio mandar pelo correio um livro para a Amanda Lourenço e na volta lá estava a caixa. Dentro chocolates, jaqueta, capa de chuva, gorro e equipamentos que estavam faltando e pedi para que eles mandassem pra mim. Agora sim está tudo pronto. Daqui a doze horas começa a PCT.

A trilha da trilha: Tom Waits – San Diego Serenade

Estrada Real – o vídeo

Em 2016 eu resolvi caminhar a Estrada Real. Durante o mês de junho andei de Diamantina ao Paraty. Foi a primeira parte do treinamento para a Appalachian Trail, que eu faria no ano seguinte.

Durante a caminhada eu gravava e postava vídeos diários no Facebook, além de escrever relatos diários aqui no blog. Ano passado subi os vídeos para o YouTube e agora resolvi editá-los na sequência. Incluí algumas fotos que tirei durante a viagem e o resultado é o vídeo abaixo. Quase 50 minutos de uma história que durou 32 dias.

Foi bom voltar a essa história e rever alguns dos personagens que conheci naquele ano. O Dedé, o José Sebastião, o Alberico, o Anemércio, o Jorge…. Foi bom rever as cidades, as paisagens, os causos da caminhada. Ouvir de novo as siriemas, os tucanos, o barulho da mata. Tá tudo aí. Bom filme.

 

Torres del Paine S01E05

Paso a Grey: 10km

Algumas coisas básicas que você precisa saber sobre Torres del Paine: faça as reservas que for precisar o quanto antes. Esteja preparado para o clima severo (ventos fortes, neve no verão, sol inclemente). Não confie na sinalização.

Tenho dito que um quilômetro chileno não mede mil metros, como no Brasil. Ele pode variar de 1200 a 1500 metros, dependendo da localização. Se a placa diz que a distância entre um abrigo e outro é de, digamos, 7 quilômetros (é o que diz o mapa do parque da distância entre Paso e Grey, por exemplo) isso pode ter, na verdade, uns 8 quilômetros ou dez. Nunca tem como saber com precisão.

Saímos do Paso mais tarde que o usual. Como o dia seria curto, ficamos enrolando na barraca até as 8, pra só começar a caminhar as 9. Diferente do mapa, a placa na saída do camping marcava 10 km até Grey. Outra, no meio do caminho, falava em 9 – nessa alguém riscou a numeração e escreveu “falso” abaixo. Confiamos num desenho feito em um pedaço de madeira no acampamento: 45 minutos até a primeira ponte, mais 1h30 até a segunda, 1h até a terceira, 45 minutos dali até Grey.

As pontes são, aliás, a verdadeira atração do setor. Suspensas a cerca de 20 metros do solo, dão um clima meio Indiana Jones à caminhada. De um lado a geleira, do outro a montanha, o vento forte soprando e você lá, cruzando aquela ponte, balançando a cada passo seu.

O Grey é o extremo oeste do Circuito W. Por causa disso foi difícil reservar um lugar pra dormir. Já em outubro o camping estava lotado. A solução foi passar a noite no refúgio em uma “cama armada”: cama com colchão e roupa de cama, travesseiro e edredom, em um quarto com duas beliches. Alê e eu ficamos em uma, um casal Franco-inglês na outra. Todo o conforto e privacidade que 80 dólares por pessoa (o dobro do preço dos ótimos hostels que ficamos em Puerto Natales e Punta Arenas) pode pagar.

Entrando no W esperamos encontrar a partir de amanhã à trilha cheia: até então só se podia caminhar no sentido que vínhamos fazendo, anti-horário. Agora não: além de mais popular, vai ter gente indo e vindo em qualquer direção. O mapa do Parque diz 11 km, 3,5 horas até Paine Grande, o próximo camping. Se vai ser isso mesmo a gente só vai saber ao chegar.

Por que caminhar?

“Caminhar é levar uma existência descascada (o verniz social foi removido), descarregada de pesos, libertada das habilidades sociais, e purgada das futilidades e máscaras.” Frédéric Gros

“O caminhar e a igualdade andam juntos: no excesso e na soberba não há igualdade, com excesso e soberba não se caminha” Adriano Labbucci

IMG_5469Toda vez que converso com alguém sobre as minhas caminhadas, seja o Caminho da Fé, a Estrada Real ou a Appalachian Trail, a pergunta que todos fazem é essa: por que fazer uma viagem dessas? É uma dúvida inevitável. Ainda mais em uma época onde o meio de transporte mais comum é o motorizado – seja o carro, o ônibus, o avião – e em um mundo onde as pessoas andam cada vez menos e o ato mais comum de todo ser humano é visto como algo excepcional, curioso, estranho até.

Costumo dizer que para mim caminhar é uma forma de oração, um jeito prático de organizar os pensamentos. Minha forma de me afastar do mundo e de me aproximar de mim mesmo. Andar é minha Ave Maria e meu Padre Nosso. Mas não é só isso. Caminhar é minha válvula de escape. Meu palavrão gritado a plenos pulmões, seu #@!*@#!!! Meu Atlético x Cruzeiro num Mineirão lotado. Meu carnaval. Meu fora, Temer! Meu rock´n´roll.

Sabe aquela chacolhada necessária pra deixar as coisas no lugar? O porre do final de semana, o baseado, a academia, a terapia? Pra mim o caminhar é tudo isso. Claro que não importa o destino. Não precisa ser a Appalachain Trail. Mas estes destinos que escolho são muito mais agradáveis que enfrentar o trânsito e o barulho da cidade, esse organismo que a cada dia nos sufoca mais e mais.

“Caminhando desenvolvemos atitudes e qualidades que são o caminho da busca e da realização espiritual: a atenção com o que está fora e a concentração com o que está dentro“. A frase é de um escritor italiano, Adriano Labbucci, que tem um pequeno livro que saiu no Brasil em 2013 pela Editora Martins Fontes chamado Caminhar, Uma Revolução. Em uma outra passagem desse livro ele escreve algo que é bem próximo do meu objetivo com essas caminhadas: “Não se caminha para chegar depressa, caminha-se para que as coisas nos alcancem no tempo propício, caminha-se para ficar com os sentidos despertos e para fazer o ar circular pela mente e pela alma“. É esse o espírito. Veja: o que me atrai nessas viagens não é aventura, não é o desconhecido. É simplesmente o andar. Não é o ir mais rápido, nem o mais longe, nem chegar ao topo. É caminhar. Só isso. É simples.

Se acreditasse em deus poderia dizer que foi o Caminho da Fé, em 2015, que mudou a minha vida. Estava em um momento de indecisão e cheio de dúvidas. Fiz o Caminho e voltei mais calmo, menos apegado às coisas materiais, menos preocupado e ansioso. Mais ciente de quem eu sou, de meu lugar no mundo. E determinado a caminhar mais. Mas sei que se tivesse dado duas voltas na lagoa da Pampulha todos os dias por duas semanas o resultado teria sido o mesmo. Foi o caminhar que me mudou, não o destino. O mesmo aconteceu na Estrada Real. O percurso desafiou minhas condições física e mental. E aquele esforço me deixou ainda mais determinado, centrado, ciente dos meus limites, de minhas qualidades e meus defeitos. Poderia ter corrido uma maratona por dia durante um mês. Ou feito terapia por dez anos. Acho que daria na mesma.

Sei também que o desafio da Appalachian Trail vai ser extremo. Por mais que tente não me preocupar, por mais que pense que é só andar, é impossível não pensar na dificuldade, no tempo, na saudade, nos perigos, nos animais selvagens, na distância, nas consequências. É claro que não é só andar: é o antes, o durante, o depois, e tudo que isso carrega. São cinco meses na trilha, uma eternidade depois. A trilha exige planejamento, concetração, estudo. Para mim, já é quase um ano de leituras, pesquisas, livros e conversas. Sabe-se lá o que isso vai mexer comigo quando voltar. E como me comprometi a tudo isso, nada melhor que dividir com vocês essa jornada. Se eu estou fazendo, qualquer um pode fazer. Por isso o blog, a página, as fotos, os vídeos, os áudios. Tudo isso com foco em algo que busco nesta e em todas as outras jornadas: simplificar o meu andar e aperfeiçoar o meu olhar. Abrir a mente, aguçar os sentidos e tentar me (re)conectar com o meio ambiente.

O jornalista Pablo Pires Fernandes, amigo de longa data, escreveu recentemente um texto para o Dom Total sobre cozinhar, uma paixão que nós dois temos em comum. “Cozinhar é um ato revolucionário”, diz ele. “Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito. (…) Esse espírito inconformista que busca o novo e o desconhecido estava presente nos navegantes que, famintos, cruzaram mares sem saber onde iam chegar.”  Assim é também o caminhar. Para Labbucci “não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir, hoje dominante, que o caminhar. Ponto.” Ponto, repito.

Talvez a minha (re)descoberta do caminhar seja a minha forma de me reencontrar. Uma forma de retomar não só a légua a pé que minha família tinha que fazer pra visitar minha avó, mas as corridas na adolescência com minha irmã, minhas banda de rock, meus fanzines, minhas calças rasgadas, meus cabelos coloridos, minha inconformação da adolescência. É reviver meu lado inquieto, desobediente, revolucionário. Caminhar, pra mim, é ir na contramão, mas ao meu encontro.

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Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

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Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

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Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

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Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

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Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

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Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.

O que levar para a Appalachian Trail

Li não sei onde que a preparação para uma trilha como a Appalachian Trail (ou qualquer outra trilha de longa distância) é mais complicada que a trilha em si.

Vocês não fazem ideia o quanto estou lendo de livros, blogs, relatos e sites. Nem passa pela cabeça de vocês a quantidade de fóruns e grupos de discussão que participo ou o sem-número de pessoas que sigo no Instagram, Twitter, Facebook, Youtube. Até o Pinterest, acredite você, eu desenterrei…

Tudo pra tentar chegar no equipamento ideal para a trilha. Ainda assim não tenho a mínima certeza se as decisões que estou tomando são as melhores. As dúvidas, pelo visto, não são só minhas: as perguntas sobre tipos de equipamentos são frequentes nas redes sociais.

Para quem quiser ver minha lista completa do que vou levar é só clicar aqui.

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Tô pronto! Levando só o necessário…

Big 3

Pra começar, é preciso definir o seu Big 3. É assim que são chamados os três equipamentos mais importantes da caminhada: sua mochila, sua barraca e seu saco de dormir.

Essas três peças são as mais caras e pesadas da viagem. Dá pra gastar fácil mil dólares por aqui. E foi justamente nesse ponto que ter ficado em segundo na promoção do The Trek mais me ajudou (obrigado a cada um de vocês que votou ou tentou votar! Valeu mesmo! Ainda estou pensando numa forma de recompensar essa ajuda… 🙂

Tomamos a mochila como primeiro exemplo. A que tenho hoje é uma Quechua Forclaz 40 litros. É relativamente leve – pesa 1.020 gramas – e me sinto confortável com ela. Mas será suficiente para levar todas as outras coisas que preciso? 40 litros me parece pouco para levar tudo o que vou precisar por cinco meses…

A mochila que estava na lista de desejos era a Mariposa, da Gossamer Gear. Uma Ferrari: leva 60 litros e 15 quilos de carga e pesa só 800 gramas (927 com os adicionais). Mas a belezura custa mais de 250 dólares… E foi justamente essa a mochila que ganhei na promoção. Transbordei de felicidade!

A definição sobre qual vai ser a sua “casa” durante a caminhada começa a complicar as coisas. A primeira coisa é definir o que você busca: uma barraca, uma rede ou um tarp. O tarp é uma lona simples e leve, que proporciona algum abrigo em chuvas, mas para mim não é ideal. O mesmo vale para rede: é confortável, mas eu preciso de paredes e gostaria de alguma privacidade. Então optei por barraca. Decidido. Então está pronto? Claro que não. Ainda é preciso balancear preço, peso e qualidade. E parece que desses três atributos, apenas dois andam juntos. Se é barata e leve, certamente não é boa. Se é boa e barata, com certeza é pesada. E se é leve e boa, justamente o que estou procurando, pode saber: é cara. Os preços chegam fácil nos 500 dólares.

O que eu queria? Uma Big Agnes Fly Creek UL2, claro. Com espaço pra até duas pessoas, pesa menos de um quilo! Mas, de novo, o preço era o problema: quase 400 dólares… Já tinha me conformado em ir com a minha REI Quarter Dome 1, que não é ruim, pelo contrário. É fabricada e vendida exclusivamente pela rede de lojas de esportes americana, a Recreational Equipments Incorporated, ou simplesmente REI (ou paraíso para quem gosta de esportes outdoor). Mas pesa pouco mais de um quilo e tem um espaço interno de 2,15 x 1 metro e 80 centímetro de altura (contra 2,18 x 1,07 metro e 97 cm de altura da BA). Com um preço em torno de 230 dólares, A REI Quarter Dome 1 era o que cabia no meu bolso. Mas também ganhei a Fly Creek que queria…

Pra decidir minha cama nos próximos 5 meses o dilema foi o mesmo. Saco de dormir no formato múmia ou envelope? Com enchimento natural ou sintético? Com qual temperatura limite e conforto? Levo lençol? E travesseiro? E o isolante térmico, de ar ou espuma? De novo, para cada decisão dessas era acessos e mais acessos a sites, fóruns, leituras de listas de equipamentos de outras pessoas, conversas e tudo mais. O que é importante pra mim nesta situação é não passar frio e ter conforto. E como não saio antes de abril, quando ainda tem neve, nem devo chegar depois do final de setembro, acredito que um saco de dormir de 0 graus é suficiente. O REI Flash é no formato múmia, com enchimento natural de pena de ganso. Custa 170 dólares e pesa 750 gramas. Tá ótimo. E quer saber? foi justamente esse que ganhei…

A diferença entre o isolante de ar e o de espuma é o conforto e o peso. Eu prefiro o primeiro, mais leve e confortável, apesar de barulhento. O modelo é o Therm-a-Rest NeoAir XLite. Pesa só 225 gramas.  Iria de versão mini, que tem pouco mais de 1,20 metros de comprimento – nesse caso a manha é usar a mochila sob os pés. Mas acabei ganhando isso também e optei pela versão maior, com 1,95 metros. É 200 gramas mais pesado, mas acho que vai valer a pena. Não vou levar travesseiro e lençol vou comprar só se esfriar um pouco, já que alguns modelos aumentam a temperatura do saco de dormir. E pra deixar isso tudo seco iria levar tudo dentro de um saco de lixo (25g), dentro da mochila. Mas o pessoal da Gossamer Gear mandou o saco a prova d´água deles de brinde também…

Nesse kit que vou usar meu big 3, os três grandes, a parte mais importante e pesada que vou carregar por esses 5 meses, está pesando no total 2,99 kg. Queria muito abaixo dos 3kg e fiquei ali na tábua da beirada. Veja: menos de três quilos pesam minha mochila, minha barraca, meu saco de dormir e meu isolante térmico SOMADOS…

Cozinha

Cafeteira elétrica, grill, forno de microondas, taças Riedel de cristal, talheres pesados de prata, panelas de pedra e guardanapos de seda. Nada disso infelizmente vai rolar. Minha cozinha vai ser minimalista ao extremo.

A decisão aqui passava pelo tipo de combustível (álcool ou gás), o peso final do fogareiro, o custo, a praticidade, a velocidade para se ferver água e a eficiência para trabalhar sob stress – vento ou neve. Cheguei a fazer um fogareiro a álcool com latinha de cerveja – a forma mais barata, leve e divertida – mas não gostei do resultado. Além disso, álcool é proibido em alguns trechos. Mudei o foco então para o gás.

A escolha foi entre o Jetboil Minimo,  um sistema completo, com o fogareiro já acoplado na panela para quase um litro d´água. Além disso, durante o transporte o combustível vai dentro da panela, economizando espaço. Custa salgados 135 dólares. A outra opção era um MSR Pocket Rocket, que pesa míseros 90 gramas e custa 40 dólares, mas iria me exigir a panela. Optei por começar com algo daqui mesmo (daqui = da China). Comprei no Mercado Livre, por R$50,00, uma cópia do Pocket Rocket. Um pouco mais pesado, pode ser que segure o tranco (se não segurar, compro por lá o original). E a panela vai ser também chinesa, simples, mas com pegador, e que vai me servir de copo, se necessário. O kit que comprei vem duas, mas só levo a maior, de 1100 ml. Além disso incluí uma colher de cabo longo de bambu (também presente do pessoal da Gossamer Gear).

Pra acender o fogareiro um isqueiro Bic mini e como plano b um kit de faíscas de magnésio que já inclui também apito e bússola, o Survival Spark Magnesium Survival Fire Starter, que achei na Amazon por dez dólares. Na minha cozinha entra também um saco estanque, onde vou levar minha comida. Assim, quando chegar no acampamento é dependurar em alguma árvore para que os ursos não comam. Pois é…

Para tratamento de água, as opções passavam por filtros, pastilhas e gotas de dióxido de cloro. Água é abundante na Appalachian Trail, e acredito que a maioria de boa qualidade. Mas ainda assim ganhei um filtro portátil da Sawyer que pesa menos de 100 gramas. Ainda penso em levar Aquamira como plano b. São dois compostos, que você combina algumas gotas de cada na água, aguarda 15 minutos e está pronto pra beber. Custa 15 dólares e pesa 90 gramas. Vamos ver, pode ser que deixe de lado. Para transportar a água, duas garrafas de água mineral de um litro cada.

Fechando a cozinha, um canivete suíço do mais básico. Além da faca eu precisava de um que tivesse tesoura (para cortar unha) e pinça (para tirar carrapato). O que meu genro me emprestou (valeu Rick!), além do lado sentimental, pesa só 75 gramas, e faz trabalho.

Seis ítens. Menos de meio quilo. Essa vai ser minha cozinha.

Eletrônicos

Em casa, no dia a dia, sou cercado de tecnologia. Meu Macbook pro, minha tv Samsung, minhas caixas de som Sonos, meu Ipad, meu Kindle. Uso nas viagens minha câmera Canon. E tenho, claro, meu celular, onde controlo quase tudo. Vejo Netflix, ouço Spotify, navego pelo Facebook, busco no Google, curto fotos no Instagram. Tenho luz elétrica, banho quente, ar condicionado, geladeira. Durante a trilha quase tudo isso vai ser uma memória distante.

Optei, mais uma vez, por não levar outra câmera que não seja a do celular. Nada de DSLR. Nada de GoPro. Vou trocar meu Iphone 6 por um 7 Plus. Ele que vai registrar os momentos, seja em foto ou vídeo. Para ajudar na tarefa levo um tripé da Gorillapod. E como fico alguns dias sem acesso à energia elétrica, penso em levar dois carregadores extras: o meu Cygnett atual, que pode fazer às vezes de lanterna, e comprar um Anker de 10 mil.

Um Ipod Nano e fones de ouvido vão ser um artigo de luxo para as noites na barraca. Pesando 42 gramas, vale o esforço. E pra carregar as baterias de tudo isso quando chegar à uma cidade levo um Anker Powerport4, onde dá pra ligar até quatro equipamentos ao mesmo tempo.

Pra dar luz, minha lanterna também vai ser chinesa. Importante aqui é ter luz vermelha, pra não atrapalhar as outras pessoas. Funciona com pilhas aaa e deve dar pro gasto.

E como estou desenvolvendo outros projetos, estou pensando em levar um gimbal, um estabilizador para o Iphone, que deve pesar mais meio quilo, e um gravador portátil.

E é isso. Sem os apetrechos extras são 800 gramas de equipamentos. Que talvez aumente um pouco com um gimbal e o gravador. Mas isso só decido chegando lá.

Roupas

A máxima na trilha é: se você não vai usar uma coisa todos os dias não vale a pena carregar. E isso vale pra roupas. Você tem dois uniformes: o de trilha e o de acampamento. Nada de camiseta extra. A exceção são as roupas de frio.No meu caso, vou usar e levar o que tenho. Se sentir necessidade de algo vou comprar na próxima cidade.

Vou vestir diariamente (você vai cansar de ver essa roupa em fotos) um boné Quechua que tenho e que vem com protetor de pescoço. Ganhei também um boné massa do The Trek, e talvez leve esse pra cidade. A camiseta vai ser uma Kalenji. Um calça 2×1, dessas que viram bermuda, e uma cueca de compressão. Vou levar minha “pochete” da Spibelt, onde vou carregar passaportes, dinheiro e cartões num saco Ziplock.

Como os pés são as partes mais importes do corpo, a ideia aí era não economizar. Mas ganhei três pares de meias de merino da Wigwam, outro par da Injinji, e dois pares de tênis Altra, também a marca que queria.

No backup, dentro do saco estanque, vão mais uma camisa (a da meia maratona de BH, leve e confortável), um short de corridas da Nike (veeelho…), duas bandanas multi uso e os tenis da Tribold, basicamente o que tenho usado esses dias (leves, super confortáveis e antiderrapantes). Pro frio uma segunda pele, uma blusa e ceroulas, tudo da Decathon. Por fim, levo um quebra ventos/capa de chuva/blusa de frio da Quechua e nas mãos, os bastões de caminhada que tenho, também da Quechua. Ao todo visto 2 kg de tralhas.

A questão aqui é se preciso ou não de uma jaqueta mais poderosa, de pena de ganso ou coisa assim. Pesa quase nada, mas custa uns 200 dólares, por baixo. Como começo no verão estou pensando em ir sem ela e se esfriar demais compro uma jaqueta dessas por lá. Mas acho que se isso acontecer vai ser só pro final da trilha.

Higiene e Primeiros Socorros

E aí vem aquele mundo de tralha miúda, chato de conferir, mas que tem que ter. Tipo escova de dentes (daquelas de viagem, mais leves), pasta de dente e fio dental (mil e uma utilidades na trilha). Tampão de ouvido. Papel higiênico e lenços umedecidos. Sacolinhas plásticas de supermercado, pra servir de lixo. Um kit básico de primeiros socorros, com ibuprofeno, cataflan, tilenol, agulha e linha pras bolhas. Outro kit mais pessoal, com as pomadas que uso pra alergia, repelente. Uma trowel, pazinha pra cavar meu banheiro. Uma caneta e um bloco de anotações (vai que acaba a bateria do celular…). E corda, pra dependurar a comida longe dos ursos…

Comida e Água

Comida e água não entram nessa conta de peso base. Porque variam diariamente: você pode levar comida pra dez dias e 6 litros de água num dia e no dia seguinte isso já é menor.

Meu plano inicial era reabastecer e comprar comida exclusivamente nas cidades e vilas por onde vou passar, mas como ganhei algumas caixas de barras de cereal e comida desidratada, vou despachar algumas para mim pelo correio.

E isso é tudo. Minha casa e meus pertences para os próximos 5 meses. Tudo o que vou ter , no corpo e na mochila, vai pesar menos de 10 quilos. Será isso a minha casa, minha cama, minha cozinha, meu guarda roupas. Menos do que é permito levar na bagagem de mão do avião. É como isso que vou viver por 150 dias.

 

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