Estrada Real – o vídeo

Em 2016 eu resolvi caminhar a Estrada Real. Durante o mês de junho andei de Diamantina ao Paraty. Foi a primeira parte do treinamento para a Appalachian Trail, que eu faria no ano seguinte.

Durante a caminhada eu gravava e postava vídeos diários no Facebook, além de escrever relatos diários aqui no blog. Ano passado subi os vídeos para o YouTube e agora resolvi editá-los na sequência. Incluí algumas fotos que tirei durante a viagem e o resultado é o vídeo abaixo. Quase 50 minutos de uma história que durou 32 dias.

Foi bom voltar a essa história e rever alguns dos personagens que conheci naquele ano. O Dedé, o José Sebastião, o Alberico, o Anemércio, o Jorge…. Foi bom rever as cidades, as paisagens, os causos da caminhada. Ouvir de novo as siriemas, os tucanos, o barulho da mata. Tá tudo aí. Bom filme.

 

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Torres del Paine S01E05

Paso a Grey: 10km

Algumas coisas básicas que você precisa saber sobre Torres del Paine: faça as reservas que for precisar o quanto antes. Esteja preparado para o clima severo (ventos fortes, neve no verão, sol inclemente). Não confie na sinalização.

Tenho dito que um quilômetro chileno não mede mil metros, como no Brasil. Ele pode variar de 1200 a 1500 metros, dependendo da localização. Se a placa diz que a distância entre um abrigo e outro é de, digamos, 7 quilômetros (é o que diz o mapa do parque da distância entre Paso e Grey, por exemplo) isso pode ter, na verdade, uns 8 quilômetros ou dez. Nunca tem como saber com precisão.

Saímos do Paso mais tarde que o usual. Como o dia seria curto, ficamos enrolando na barraca até as 8, pra só começar a caminhar as 9. Diferente do mapa, a placa na saída do camping marcava 10 km até Grey. Outra, no meio do caminho, falava em 9 – nessa alguém riscou a numeração e escreveu “falso” abaixo. Confiamos num desenho feito em um pedaço de madeira no acampamento: 45 minutos até a primeira ponte, mais 1h30 até a segunda, 1h até a terceira, 45 minutos dali até Grey.

As pontes são, aliás, a verdadeira atração do setor. Suspensas a cerca de 20 metros do solo, dão um clima meio Indiana Jones à caminhada. De um lado a geleira, do outro a montanha, o vento forte soprando e você lá, cruzando aquela ponte, balançando a cada passo seu.

O Grey é o extremo oeste do Circuito W. Por causa disso foi difícil reservar um lugar pra dormir. Já em outubro o camping estava lotado. A solução foi passar a noite no refúgio em uma “cama armada”: cama com colchão e roupa de cama, travesseiro e edredom, em um quarto com duas beliches. Alê e eu ficamos em uma, um casal Franco-inglês na outra. Todo o conforto e privacidade que 80 dólares por pessoa (o dobro do preço dos ótimos hostels que ficamos em Puerto Natales e Punta Arenas) pode pagar.

Entrando no W esperamos encontrar a partir de amanhã à trilha cheia: até então só se podia caminhar no sentido que vínhamos fazendo, anti-horário. Agora não: além de mais popular, vai ter gente indo e vindo em qualquer direção. O mapa do Parque diz 11 km, 3,5 horas até Paine Grande, o próximo camping. Se vai ser isso mesmo a gente só vai saber ao chegar.

Por que caminhar?

“Caminhar é levar uma existência descascada (o verniz social foi removido), descarregada de pesos, libertada das habilidades sociais, e purgada das futilidades e máscaras.” Frédéric Gros

“O caminhar e a igualdade andam juntos: no excesso e na soberba não há igualdade, com excesso e soberba não se caminha” Adriano Labbucci

IMG_5469Toda vez que converso com alguém sobre as minhas caminhadas, seja o Caminho da Fé, a Estrada Real ou a Appalachian Trail, a pergunta que todos fazem é essa: por que fazer uma viagem dessas? É uma dúvida inevitável. Ainda mais em uma época onde o meio de transporte mais comum é o motorizado – seja o carro, o ônibus, o avião – e em um mundo onde as pessoas andam cada vez menos e o ato mais comum de todo ser humano é visto como algo excepcional, curioso, estranho até.

Costumo dizer que para mim caminhar é uma forma de oração, um jeito prático de organizar os pensamentos. Minha forma de me afastar do mundo e de me aproximar de mim mesmo. Andar é minha Ave Maria e meu Padre Nosso. Mas não é só isso. Caminhar é minha válvula de escape. Meu palavrão gritado a plenos pulmões, seu #@!*@#!!! Meu Atlético x Cruzeiro num Mineirão lotado. Meu carnaval. Meu fora, Temer! Meu rock´n´roll.

Sabe aquela chacolhada necessária pra deixar as coisas no lugar? O porre do final de semana, o baseado, a academia, a terapia? Pra mim o caminhar é tudo isso. Claro que não importa o destino. Não precisa ser a Appalachain Trail. Mas estes destinos que escolho são muito mais agradáveis que enfrentar o trânsito e o barulho da cidade, esse organismo que a cada dia nos sufoca mais e mais.

“Caminhando desenvolvemos atitudes e qualidades que são o caminho da busca e da realização espiritual: a atenção com o que está fora e a concentração com o que está dentro“. A frase é de um escritor italiano, Adriano Labbucci, que tem um pequeno livro que saiu no Brasil em 2013 pela Editora Martins Fontes chamado Caminhar, Uma Revolução. Em uma outra passagem desse livro ele escreve algo que é bem próximo do meu objetivo com essas caminhadas: “Não se caminha para chegar depressa, caminha-se para que as coisas nos alcancem no tempo propício, caminha-se para ficar com os sentidos despertos e para fazer o ar circular pela mente e pela alma“. É esse o espírito. Veja: o que me atrai nessas viagens não é aventura, não é o desconhecido. É simplesmente o andar. Não é o ir mais rápido, nem o mais longe, nem chegar ao topo. É caminhar. Só isso. É simples.

Se acreditasse em deus poderia dizer que foi o Caminho da Fé, em 2015, que mudou a minha vida. Estava em um momento de indecisão e cheio de dúvidas. Fiz o Caminho e voltei mais calmo, menos apegado às coisas materiais, menos preocupado e ansioso. Mais ciente de quem eu sou, de meu lugar no mundo. E determinado a caminhar mais. Mas sei que se tivesse dado duas voltas na lagoa da Pampulha todos os dias por duas semanas o resultado teria sido o mesmo. Foi o caminhar que me mudou, não o destino. O mesmo aconteceu na Estrada Real. O percurso desafiou minhas condições física e mental. E aquele esforço me deixou ainda mais determinado, centrado, ciente dos meus limites, de minhas qualidades e meus defeitos. Poderia ter corrido uma maratona por dia durante um mês. Ou feito terapia por dez anos. Acho que daria na mesma.

Sei também que o desafio da Appalachian Trail vai ser extremo. Por mais que tente não me preocupar, por mais que pense que é só andar, é impossível não pensar na dificuldade, no tempo, na saudade, nos perigos, nos animais selvagens, na distância, nas consequências. É claro que não é só andar: é o antes, o durante, o depois, e tudo que isso carrega. São cinco meses na trilha, uma eternidade depois. A trilha exige planejamento, concetração, estudo. Para mim, já é quase um ano de leituras, pesquisas, livros e conversas. Sabe-se lá o que isso vai mexer comigo quando voltar. E como me comprometi a tudo isso, nada melhor que dividir com vocês essa jornada. Se eu estou fazendo, qualquer um pode fazer. Por isso o blog, a página, as fotos, os vídeos, os áudios. Tudo isso com foco em algo que busco nesta e em todas as outras jornadas: simplificar o meu andar e aperfeiçoar o meu olhar. Abrir a mente, aguçar os sentidos e tentar me (re)conectar com o meio ambiente.

O jornalista Pablo Pires Fernandes, amigo de longa data, escreveu recentemente um texto para o Dom Total sobre cozinhar, uma paixão que nós dois temos em comum. “Cozinhar é um ato revolucionário”, diz ele. “Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito. (…) Esse espírito inconformista que busca o novo e o desconhecido estava presente nos navegantes que, famintos, cruzaram mares sem saber onde iam chegar.”  Assim é também o caminhar. Para Labbucci “não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir, hoje dominante, que o caminhar. Ponto.” Ponto, repito.

Talvez a minha (re)descoberta do caminhar seja a minha forma de me reencontrar. Uma forma de retomar não só a légua a pé que minha família tinha que fazer pra visitar minha avó, mas as corridas na adolescência com minha irmã, minhas banda de rock, meus fanzines, minhas calças rasgadas, meus cabelos coloridos, minha inconformação da adolescência. É reviver meu lado inquieto, desobediente, revolucionário. Caminhar, pra mim, é ir na contramão, mas ao meu encontro.

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Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

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Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

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Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

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Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

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Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

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Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.

O que levar para a Appalachian Trail

Li não sei onde que a preparação para uma trilha como a Appalachian Trail (ou qualquer outra trilha de longa distância) é mais complicada que a trilha em si.

Vocês não fazem ideia o quanto estou lendo de livros, blogs, relatos e sites. Nem passa pela cabeça de vocês a quantidade de fóruns e grupos de discussão que participo ou o sem-número de pessoas que sigo no Instagram, Twitter, Facebook, Youtube. Até o Pinterest, acredite você, eu desenterrei…

Tudo pra tentar chegar no equipamento ideal para a trilha. Ainda assim não tenho a mínima certeza se as decisões que estou tomando são as melhores. As dúvidas, pelo visto, não são só minhas: as perguntas sobre tipos de equipamentos são frequentes nas redes sociais.

Para quem quiser ver minha lista completa do que vou levar é só clicar aqui.

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Tô pronto! Levando só o necessário…

Big 3

Pra começar, é preciso definir o seu Big 3. É assim que são chamados os três equipamentos mais importantes da caminhada: sua mochila, sua barraca e seu saco de dormir.

Essas três peças são as mais caras e pesadas da viagem. Dá pra gastar fácil mil dólares por aqui. E foi justamente nesse ponto que ter ficado em segundo na promoção do The Trek mais me ajudou (obrigado a cada um de vocês que votou ou tentou votar! Valeu mesmo! Ainda estou pensando numa forma de recompensar essa ajuda… 🙂

Tomamos a mochila como primeiro exemplo. A que tenho hoje é uma Quechua Forclaz 40 litros. É relativamente leve – pesa 1.020 gramas – e me sinto confortável com ela. Mas será suficiente para levar todas as outras coisas que preciso? 40 litros me parece pouco para levar tudo o que vou precisar por cinco meses…

A mochila que estava na lista de desejos era a Mariposa, da Gossamer Gear. Uma Ferrari: leva 60 litros e 15 quilos de carga e pesa só 800 gramas (927 com os adicionais). Mas a belezura custa mais de 250 dólares… E foi justamente essa a mochila que ganhei na promoção. Transbordei de felicidade!

A definição sobre qual vai ser a sua “casa” durante a caminhada começa a complicar as coisas. A primeira coisa é definir o que você busca: uma barraca, uma rede ou um tarp. O tarp é uma lona simples e leve, que proporciona algum abrigo em chuvas, mas para mim não é ideal. O mesmo vale para rede: é confortável, mas eu preciso de paredes e gostaria de alguma privacidade. Então optei por barraca. Decidido. Então está pronto? Claro que não. Ainda é preciso balancear preço, peso e qualidade. E parece que desses três atributos, apenas dois andam juntos. Se é barata e leve, certamente não é boa. Se é boa e barata, com certeza é pesada. E se é leve e boa, justamente o que estou procurando, pode saber: é cara. Os preços chegam fácil nos 500 dólares.

O que eu queria? Uma Big Agnes Fly Creek UL2, claro. Com espaço pra até duas pessoas, pesa menos de um quilo! Mas, de novo, o preço era o problema: quase 400 dólares… Já tinha me conformado em ir com a minha REI Quarter Dome 1, que não é ruim, pelo contrário. É fabricada e vendida exclusivamente pela rede de lojas de esportes americana, a Recreational Equipments Incorporated, ou simplesmente REI (ou paraíso para quem gosta de esportes outdoor). Mas pesa pouco mais de um quilo e tem um espaço interno de 2,15 x 1 metro e 80 centímetro de altura (contra 2,18 x 1,07 metro e 97 cm de altura da BA). Com um preço em torno de 230 dólares, A REI Quarter Dome 1 era o que cabia no meu bolso. Mas também ganhei a Fly Creek que queria…

Pra decidir minha cama nos próximos 5 meses o dilema foi o mesmo. Saco de dormir no formato múmia ou envelope? Com enchimento natural ou sintético? Com qual temperatura limite e conforto? Levo lençol? E travesseiro? E o isolante térmico, de ar ou espuma? De novo, para cada decisão dessas era acessos e mais acessos a sites, fóruns, leituras de listas de equipamentos de outras pessoas, conversas e tudo mais. O que é importante pra mim nesta situação é não passar frio e ter conforto. E como não saio antes de abril, quando ainda tem neve, nem devo chegar depois do final de setembro, acredito que um saco de dormir de 0 graus é suficiente. O REI Flash é no formato múmia, com enchimento natural de pena de ganso. Custa 170 dólares e pesa 750 gramas. Tá ótimo. E quer saber? foi justamente esse que ganhei…

A diferença entre o isolante de ar e o de espuma é o conforto e o peso. Eu prefiro o primeiro, mais leve e confortável, apesar de barulhento. O modelo é o Therm-a-Rest NeoAir XLite. Pesa só 225 gramas.  Iria de versão mini, que tem pouco mais de 1,20 metros de comprimento – nesse caso a manha é usar a mochila sob os pés. Mas acabei ganhando isso também e optei pela versão maior, com 1,95 metros. É 200 gramas mais pesado, mas acho que vai valer a pena. Não vou levar travesseiro e lençol vou comprar só se esfriar um pouco, já que alguns modelos aumentam a temperatura do saco de dormir. E pra deixar isso tudo seco iria levar tudo dentro de um saco de lixo (25g), dentro da mochila. Mas o pessoal da Gossamer Gear mandou o saco a prova d´água deles de brinde também…

Nesse kit que vou usar meu big 3, os três grandes, a parte mais importante e pesada que vou carregar por esses 5 meses, está pesando no total 2,99 kg. Queria muito abaixo dos 3kg e fiquei ali na tábua da beirada. Veja: menos de três quilos pesam minha mochila, minha barraca, meu saco de dormir e meu isolante térmico SOMADOS…

Cozinha

Cafeteira elétrica, grill, forno de microondas, taças Riedel de cristal, talheres pesados de prata, panelas de pedra e guardanapos de seda. Nada disso infelizmente vai rolar. Minha cozinha vai ser minimalista ao extremo.

A decisão aqui passava pelo tipo de combustível (álcool ou gás), o peso final do fogareiro, o custo, a praticidade, a velocidade para se ferver água e a eficiência para trabalhar sob stress – vento ou neve. Cheguei a fazer um fogareiro a álcool com latinha de cerveja – a forma mais barata, leve e divertida – mas não gostei do resultado. Além disso, álcool é proibido em alguns trechos. Mudei o foco então para o gás.

A escolha foi entre o Jetboil Minimo,  um sistema completo, com o fogareiro já acoplado na panela para quase um litro d´água. Além disso, durante o transporte o combustível vai dentro da panela, economizando espaço. Custa salgados 135 dólares. A outra opção era um MSR Pocket Rocket, que pesa míseros 90 gramas e custa 40 dólares, mas iria me exigir a panela. Optei por começar com algo daqui mesmo (daqui = da China). Comprei no Mercado Livre, por R$50,00, uma cópia do Pocket Rocket. Um pouco mais pesado, pode ser que segure o tranco (se não segurar, compro por lá o original). E a panela vai ser também chinesa, simples, mas com pegador, e que vai me servir de copo, se necessário. O kit que comprei vem duas, mas só levo a maior, de 1100 ml. Além disso incluí uma colher de cabo longo de bambu (também presente do pessoal da Gossamer Gear).

Pra acender o fogareiro um isqueiro Bic mini e como plano b um kit de faíscas de magnésio que já inclui também apito e bússola, o Survival Spark Magnesium Survival Fire Starter, que achei na Amazon por dez dólares. Na minha cozinha entra também um saco estanque, onde vou levar minha comida. Assim, quando chegar no acampamento é dependurar em alguma árvore para que os ursos não comam. Pois é…

Para tratamento de água, as opções passavam por filtros, pastilhas e gotas de dióxido de cloro. Água é abundante na Appalachian Trail, e acredito que a maioria de boa qualidade. Mas ainda assim ganhei um filtro portátil da Sawyer que pesa menos de 100 gramas. Ainda penso em levar Aquamira como plano b. São dois compostos, que você combina algumas gotas de cada na água, aguarda 15 minutos e está pronto pra beber. Custa 15 dólares e pesa 90 gramas. Vamos ver, pode ser que deixe de lado. Para transportar a água, duas garrafas de água mineral de um litro cada.

Fechando a cozinha, um canivete suíço do mais básico. Além da faca eu precisava de um que tivesse tesoura (para cortar unha) e pinça (para tirar carrapato). O que meu genro me emprestou (valeu Rick!), além do lado sentimental, pesa só 75 gramas, e faz trabalho.

Seis ítens. Menos de meio quilo. Essa vai ser minha cozinha.

Eletrônicos

Em casa, no dia a dia, sou cercado de tecnologia. Meu Macbook pro, minha tv Samsung, minhas caixas de som Sonos, meu Ipad, meu Kindle. Uso nas viagens minha câmera Canon. E tenho, claro, meu celular, onde controlo quase tudo. Vejo Netflix, ouço Spotify, navego pelo Facebook, busco no Google, curto fotos no Instagram. Tenho luz elétrica, banho quente, ar condicionado, geladeira. Durante a trilha quase tudo isso vai ser uma memória distante.

Optei, mais uma vez, por não levar outra câmera que não seja a do celular. Nada de DSLR. Nada de GoPro. Vou trocar meu Iphone 6 por um 7 Plus. Ele que vai registrar os momentos, seja em foto ou vídeo. Para ajudar na tarefa levo um tripé da Gorillapod. E como fico alguns dias sem acesso à energia elétrica, penso em levar dois carregadores extras: o meu Cygnett atual, que pode fazer às vezes de lanterna, e comprar um Anker de 10 mil.

Um Ipod Nano e fones de ouvido vão ser um artigo de luxo para as noites na barraca. Pesando 42 gramas, vale o esforço. E pra carregar as baterias de tudo isso quando chegar à uma cidade levo um Anker Powerport4, onde dá pra ligar até quatro equipamentos ao mesmo tempo.

Pra dar luz, minha lanterna também vai ser chinesa. Importante aqui é ter luz vermelha, pra não atrapalhar as outras pessoas. Funciona com pilhas aaa e deve dar pro gasto.

E como estou desenvolvendo outros projetos, estou pensando em levar um gimbal, um estabilizador para o Iphone, que deve pesar mais meio quilo, e um gravador portátil.

E é isso. Sem os apetrechos extras são 800 gramas de equipamentos. Que talvez aumente um pouco com um gimbal e o gravador. Mas isso só decido chegando lá.

Roupas

A máxima na trilha é: se você não vai usar uma coisa todos os dias não vale a pena carregar. E isso vale pra roupas. Você tem dois uniformes: o de trilha e o de acampamento. Nada de camiseta extra. A exceção são as roupas de frio.No meu caso, vou usar e levar o que tenho. Se sentir necessidade de algo vou comprar na próxima cidade.

Vou vestir diariamente (você vai cansar de ver essa roupa em fotos) um boné Quechua que tenho e que vem com protetor de pescoço. Ganhei também um boné massa do The Trek, e talvez leve esse pra cidade. A camiseta vai ser uma Kalenji. Um calça 2×1, dessas que viram bermuda, e uma cueca de compressão. Vou levar minha “pochete” da Spibelt, onde vou carregar passaportes, dinheiro e cartões num saco Ziplock.

Como os pés são as partes mais importes do corpo, a ideia aí era não economizar. Mas ganhei três pares de meias de merino da Wigwam, outro par da Injinji, e dois pares de tênis Altra, também a marca que queria.

No backup, dentro do saco estanque, vão mais uma camisa (a da meia maratona de BH, leve e confortável), um short de corridas da Nike (veeelho…), duas bandanas multi uso e os tenis da Tribold, basicamente o que tenho usado esses dias (leves, super confortáveis e antiderrapantes). Pro frio uma segunda pele, uma blusa e ceroulas, tudo da Decathon. Por fim, levo um quebra ventos/capa de chuva/blusa de frio da Quechua e nas mãos, os bastões de caminhada que tenho, também da Quechua. Ao todo visto 2 kg de tralhas.

A questão aqui é se preciso ou não de uma jaqueta mais poderosa, de pena de ganso ou coisa assim. Pesa quase nada, mas custa uns 200 dólares, por baixo. Como começo no verão estou pensando em ir sem ela e se esfriar demais compro uma jaqueta dessas por lá. Mas acho que se isso acontecer vai ser só pro final da trilha.

Higiene e Primeiros Socorros

E aí vem aquele mundo de tralha miúda, chato de conferir, mas que tem que ter. Tipo escova de dentes (daquelas de viagem, mais leves), pasta de dente e fio dental (mil e uma utilidades na trilha). Tampão de ouvido. Papel higiênico e lenços umedecidos. Sacolinhas plásticas de supermercado, pra servir de lixo. Um kit básico de primeiros socorros, com ibuprofeno, cataflan, tilenol, agulha e linha pras bolhas. Outro kit mais pessoal, com as pomadas que uso pra alergia, repelente. Uma trowel, pazinha pra cavar meu banheiro. Uma caneta e um bloco de anotações (vai que acaba a bateria do celular…). E corda, pra dependurar a comida longe dos ursos…

Comida e Água

Comida e água não entram nessa conta de peso base. Porque variam diariamente: você pode levar comida pra dez dias e 6 litros de água num dia e no dia seguinte isso já é menor.

Meu plano inicial era reabastecer e comprar comida exclusivamente nas cidades e vilas por onde vou passar, mas como ganhei algumas caixas de barras de cereal e comida desidratada, vou despachar algumas para mim pelo correio.

E isso é tudo. Minha casa e meus pertences para os próximos 5 meses. Tudo o que vou ter , no corpo e na mochila, vai pesar menos de 10 quilos. Será isso a minha casa, minha cama, minha cozinha, meu guarda roupas. Menos do que é permito levar na bagagem de mão do avião. É como isso que vou viver por 150 dias.

 

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Treinamento de corpo e alma

Existe um grande debate entre as pessoas que tentam fazer uma trilha tão extensa quanto a Appalachian Trail. Para alguns a trilha não exige nenhum treinamento em especial: a própria trilha irá cuidar de deixar seu corpo em forma, pronto para os milhares de quilômetros que estão por vir. Um segundo grupo, no qual me incluo, acha que não: se você quer realmente chegar até o final é bom ir se preparando. Bastante.

Dentre as três grandes trilhas americanas a Appalachian Trail é a menor, mas é também, indiscutivelmente, a que tem a maior variação de altitude. São mais de 500 mil pés de sobe e desce. 16 Everests, eles pregam! E pra enfrentar um monstro desses não dá pra ir despreparado.

Faltando menos de 90 dias para meu início entro na reta final de treinos e exercícios. Reta final porque desde o início de 2016 já venho treinando, de alguma forma, para isso. Primeiro foram os livros, onde tentei entender a trilha. Depois a Estrada Real, que fiz em junho de 2016. Andar aqueles 1200 km foi uma prova: se conseguisse completá-la bem provavelmente conseguiria fazer a AT.

A partir de agora eu divido meu treinamento em três atividades: caminhadas com a mochila, corridas e exercícios físicos.

As caminhadas eu faço quatro vezes por semana. Segundas, quartas e sextas caminho na cidade. Encho minha mochila de livros – Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos são os escolhidos, por motivos óbvios: os 8 livros das duas coleções pesam mais de 8 quilos! – e saio caminhando pela capital mineira. E quem conhece Belo Horizonte sabe que a cidade não é para fracos. Tenho preferência pelos morros do Santo Antônio, Gutierrez e Sion. Ando umas três horas por dia com a mochila nas contas.

Aos sábados as caminhadas são nas várias trilhas nas proximidades da cidade. A do Topo do Mundo até Moeda, por exemplo, é um trilha que muita gente diz ser difícil. Na minha última caminhada resolvi medir a variação de altitude. Pra ir e volta são cerca de 23 quilômetros de distância e um pouco mais de mil metros de subidas e descidas. É daquelas que você chega no final pedindo penico, com tanto morro que atravessa. Gravei o vídeo abaixo explicando um pouco. Veja só:

Olha que coincidência: estou planejando andar a Appalachian Trail por 150 dias, uma média de 23 quilômetros por dia. Exatamente a distância da trilha do Topo do Mundo. E quer saber mais? Se a gente dividir a variação total da AT pelo número de dias que estou planejando caminhar (515 mil pés por 150 dias) vamos ter um ganho ou perda de elevação de 3400 pés por dia. Que são, acredite, 1036 metros. Sacou? Fazer a Appalachian Trail é, na verdade, fazer a trilha do Topo do Mundo até Moeda ida e volta por 5 meses, caminhando todos os dias. Quer saber? Choquei.

Pra encarar isso eu intercalo as caminhadas com mochila com corridas, que faço às terças e quintas. Estou aumentando tanto a distância quanto o ritmo gradualmente. No momento estou fazendo 5 km em 30 minutos e até abril a ideia é correr 15 km duas vezes por semana.

E finalmente, pra conectar isso tudo, tenho feito Gyrotonic, um método de condicionamento físico que foi criado ainda nos anos 70 por um  ex-bailarino romeno. A ideia por trás do Gyrotonic são exercícios fluidos, circulares, de rotação e torção em aparelhos. A ideia aqui é reforçar a musculatura e evitar lesões, um dos motivos que mais tiram os caminhantes da trilha.  Faço também três vezes por semana: vou pras aulas andando, levando minha mochila. As aulas de Gyrotonic são mais ou menos assim:

Não mudei tanto a alimentação. Tenho diminuído o consumo de álcool nessa reta final, mas sem deixar de lado um taça de vinho de vez em quando. Também tenho comido menos carne vermelha e mais vegetais, mas porque sei que durante a caminhada minha alimentação vai se restringir, quase exclusivamente, à macarrão instantâneo, barras de cereais e outras porcarias. Vou tentar me alimentar bem sempre que possível, mas como vou ficar na dependência do que encontrar em cada parada, realmente não sei o que vou comer…

A preparação é pra chegar na trilha no melhor condicionamento físico possível. Sei da dificuldade da caminhada. E quero dar o melhor de mim para chegar ao final no prazo previsto.

Mas o treinamento físico é só uma parte. É preciso se preparar também psicologicamente e emocionalmente para a caminhada. E essa, eu acredito, é a parte mais difícil. Nenhum dos livros que eu li (nem o Appalachian Trials, um guia para se preparar psicologicamente e emocionalmente para a Appalachian Trail)  vai conseguir me deixar pronto pra esse desafio. Eu só vou saber o que é ficar 5 meses longe de casa, no mato, na chuva, no tempo, falando uma língua diferente, comendo comida desidratada, passando sede e perrengues mil, quando realmente passar por isso. Vinte dias do Caminho da Fé? Moleza! 1200 km e um mês na Estrada Real? Fichinha.

Tenho total consciência da encrenca em que estou me metendo. Sei que vai ser mais difícil que estou pensando. Mas tenho meu objetivos claros: sei porque quero fazer a trilha, sei o que vai acontecer se eu conseguir. E sei também o que vai rolar se não chegar no final. Corpo são, mente sã. É assim que quero dar o primeiro passo.

 

Crimes e mortes na Appalachian Trail

Se a Appalachian Trail é perigosa? Estatisticamente não. Por causa disso não é recomendado levar uma arma, nem uma faca, nem usar repelente de urso. Particularmente não me preocupo com os rednecks do sul dos Estados Unidos, nem com os malucos na estrada, nem com os mountain men e suas plantações de ginseng, como um amigo me alertou no Facebook. Mas natal taí, vou encontrar minha família inteira, sei que eles vão perguntar sobre isso (“Jeffinho! Você vai sozinho? Não é perigoso?”) e pra não ter que contar as mesmas coisas para cada um dos meus 8 irmãos resolvi levantar aqui algumas mortes que aconteceram na trilha escrever sobre os assassinatos é uma forma de exorcizar o medo de passar cinco meses longe de tudo e de todos.

O número de crimes ou mortes me surpreendeu. Veja bem: nos últimos 70 anos mais de 15 mil pessoas já completaram a trilha. Se, de modo geral, menos de 20% dos que começam terminam, é provável que quase 100 mil pessoas já tenham tentado fazer a AT inteira, cruzando os 3500 km e os 14 estados. Além disso um número muito, mas muito maior de pessoas faz trechos menores da trilha. Algo em torno de 3 milhões de pessoas anualmente, segundo algumas estatísticas. É gente que faz caminhadas de final de semana ou de alguns dias por algum dos parques federais por onde a trilha passa. E ainda assim o número relatado de crimes e mortes na AT é incrivelmente baixo. Desde 1975 foram apenas onze assassinatos. A grande maioria, infelizmente, de mulheres.

Geraldine “Inchworm” Largay, 2015

532710_479841_largay_01__4_-e1464216502779As estatísticas mostram que anualmente cerca de 25 pessoas se perdem na trilha. Quase todos são encontrados depois de alguns dias. Mas esse não foi o caso de Geraldine Largay. Em 2013 ela se perdeu depois de sair da trilha pra ir ao “banheiro”. A ex-enfermeira tinha 66 anos e já tinha andando mais de 1500 quilômetros. Tentou entrar em contato com o marido pelo celular e não conseguiu sinal. Quando teve certeza que estava perdida, começou a tomar nota e deixar recados no seu caderno. A última anotação dizia: “Quando encontrar meu corpo, por favor ligue para meu marido George e milha filha Kerry. Vai ser importante pra eles saberem que estou morte e onde fui encontrada – não importa quando anos tenham se passado”. Seu corpo foi encontrado em 2015, a menos de meia hora de caminhada da trilha. Ela havia sobrevivido por 26 dias antes de morrer.

James “Bismark” Hammes, 2014

James Hammes não morreu na Appalachian Trail. Mas passou seis anos na trilha. Mas também não estava perdido. Sua história é daquelas de filme.

Ele trabalhou mais de uma década como gerente de uma subsidiária da Pepsi. Em fevereiro de 2009 foi interrogado pelo FBI pelo desvio de mais de 9 milhões de dólares. Negou todas as acusações. Mas no dia seguinte desapareceu. E entrou para a lista dos mais procurados do FBI.

James abandonou a família, adotou o nome Bismark e passou a morar na Appalachian Trail. Foi descoberto em 2014 quando outro caminhante reconheceu o companheiro em um programa de tv. Foi preso na Virginia em 2015 e condenado a 9 anos de prisão, além da devolução de mais de 8 milhões de dólares.

Scott “Stonewall” Lilly, 2011

O corpo de Scott Lilly foi encontrado por outros caminhantes em agosto de 2011 também na Virgínia. A causa da morte foi determinada como asfixia. O assassino nunca foi encontrado. Scott tinha 30 anos.

Randall Lee Smith, 2008

Quando Randall Lee Smith foi preso por disparar sua espingarda em dois pescadores próximo à Appalachian Trail em 2008 ninguém imaginava o que mais havia por trás daquela história. Os pescadores eram amigos de Randall, que depois do jantar disparou dois tiros em cada. Os pescadores sobreviveram. Randall fugiu da cena do crime na caminhonete de uma das vítimas, capotou o carro e morreu. Mas aquele não havia sido o primeiro crime dele. Ela havia sido sentenciado a 30 anos de prisão em 1981 pelo assassinato de dois caminhantes da Appalachian Trail, Robert Mountford Jr. e Laura Susan Ramsay. O crime foi similar: convidou os dois a sua cabana, atirou em ambos e enterrou os corpos no quintal. Foi descoberto e preso. Estava livre desde 1996, quando completou metade de sua sentença.

Louise Chaput, 2001

A canadense Louise Chaput, então com 51 anos, foi esfaqueada até a morte na região das White Mountains. O assassino nunca foi encontrado.

Julie Williams e Lollie Winans, 1996

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Julie Williams e Lollie Winans tiveram suas gargantas cortadas quando faziam a trilha na região do Parque Nacional de Shenandoah. O caso continua aberto, mas o crime tem um suspeito: Darrell David Rice. Ele foi condenado por outro assassinato, mas não pode ser condenado pela morte de Julie e Lollie por falta de provas científicas.

Molly LaRue e Geoff Hood, 1990

http-cdn-coresites-factorymedia-com-mpora_new-wp-content-uploads-2015-10-molly-larue-geoff-hood-mount-katahdin-680x383Molly e Geoff faziam a Appalachian Trail quando foram assassinados por Paul David Crews na Pennsylvania em 1990. Geoff foi morto com um tiro. Molly estuprada e torturada antes de morrer. O assassino continuou a caminhada pela trilha, até ser preso uma semana depois.

Rebecca Wight e Claudia Brenner, 1988

As namoradas Rebecca Wight e Claudia Brenner faziam sexo na floresta quando foram atingidas pelas balas do rifle de Stephen Roy Carr. Rebecca levou um tiro fatal. Claudia levou cinco e conseguiu sobreviver. Andou três milhas até encontrar um policial. Carr se escondeu por dez dias em uma comunidade cristã. Foi preso e alegou distúrbios sexuais por ter cometido o crime. Ele continua na prisão.

Janice Balza, 1975

A caminhante Janice Balza foi assassinada por Paul Bigley em 1975. Ele tentava roubar sua mochila.

Joel Polsom, 1974

Foi assassinado em uma das cabanas da Appalachian Trail por Ralph Fox.