Planejamento de trilhas de longa duração

Fiz minha primeira trilha de longa distância em 2015. Caminhei 420 quilômetros do Caminho da Fé e conto sobre essa caminhada aqui. Depois foram os 1200 quilômetros da Estrada Real, que também conto o dia a dia nesse link. Me preparava para fazer os  3.540 quilômetros da Appalachian Trail quando fui ao Rio para uma reunião com o pessoal da Spot. A gente fechou uma parceria e eles me cederam o Gen3 para a travessia. Seriam cinco meses de caminhada e a única condição que a Ale, me esposa, colocou foi que ela deveria saber em tempo real onde eu estava. E o Gen3 é perfeito pra isso, já que manda para um site e suas redes sociais a sua localização.

Na reunião o pessoal me perguntou se eu não estava preocupado com os imprevistos que eu poderia encontrar durante a travessia.

– Olha, eu não sou aventureiro. Eu sou planejador. O que eu faço é planejar eventos. Uma travessia de cinco meses não é nada mais que um evento de longa duração.

Foi essa a minha resposta. E é verdade. Sou formado em Comunicação, mas trabalho com eventos desde 1994. Fiz um Master in Event Management na University of Technology de Sydney, Australia. É minha profissão.

Assim como nos eventos que faço, ao planejar uma trilha qualquer eu preciso pensar em todos os aspectos: o que vai ser? Quanto vai custar? E se algo der errado? E se não chegar ao final? E como vai ficar a imagem do meu cliente depois desse evento, caso algo der errado? Quais os retornos que meu cliente vai ter caso tudo ocorra como planejado? Como medir o sucesso desse evento?

Encaro assim o planejamento de uma trilha de longa distância. E acredito que você deva encarar da mesma forma. Não é aventura: é um evento bem planejado, onde todos os aspectos precisam ser analisados e levados em consideração.

A primeira coisa no seu planejamento é decidir qual trilha fazer. No meu caso, decidi fazer aAppalachian Trail em 2017 por alguns motivos. Primeiro porque eu não queria uma caminhada com tanta gente como o Caminho de Santiago, por exemplo. Quer números? Então toma: em 2017, segundo a Appalachian Trail Conservancy, 4.127 pessoas se registraram para para a trilha de ponta a ponta, os chamados thru-hikers. Eles também estimam que outras 800 pessoas não se registraram, o que temos um número na casa de 5.000 pessoas. Já a Confraternity of Saint James, que administra o Caminho de Santiago, chegou a impressionantes 301.036 peregrinos em 2017. O Caminho de Santiago recebe por semana mais peregrinos que a AT recebe durante o ano todo…

Além disso eu queria uma caminhada que me permitisse acampar o máximo de noites possível e que não fosse muito técnica. Por isso eu escolhi a AT e não a PCT, por exemplo. Eu sabia que naquele ano a PCT não seria pra mim: eu não tinha experiência em neve, a trilha era mais isolada, eu queria caminhar muito mas não ficar pensando em outros problemas.

Para essa definição inicial eu te aconselho a fazer isso com pelo menos um ano de antecedência. Mesmo trilhas menores, como Torres del Paine, no Chile, exigem um planejamento longo, já que você precisa reservar os campings com pelo menos 6 meses de antecedência. Esses meses vão te dar a possibilidade de pesquisar e conhecer o máximo possível sobre a trilha que você vai fazer. Lembre-se: aquela vai ser a sua casa por um bom tempo.

Depois de escolher você vai precisar desse tempo para que você possa planejar a trilha com cuidado. Levante as informações básicas, leia bastante, converse com gente que já fez a trilha, procure livros e sites. Existem dezenas de blogs especializados, no Brasil e no exterior. Procure por vídeos no YouTube, use a hashtag com o nome da trilha no Instagram pra ver fotos e te preparar pro que você vai encontrar. Existem grupos no Facebook de discussão sobre as trilhas. Entre neles. Se existerem grupos separados por anos – de gente que vai fazer esse ano e de quem fez no ano passado, por exemplo – entre nos dois. Conversar com quem já fez a trilha vai te ajudar a entender melhor o que funciona, o que não funciona, quais equipamentos levar, como lhe dar com alimentação etc.

Descubra quanto tempo você vai ter disponível e seja se é adequado pra trilha que você quer fazer. Não tem 6 meses? Com três é possível fazer uma trilha como a Te Araroa, na Nova Zelandia. Tem um mês? Talvez o Caminho de Santiago seja uma opção pra você. Ou Tour du Mont Blanc, na Europa. Uma semana? Existem diversas trilhas aqui no Brasil e na América do Sul. Entre no Wikiloc, por exemplo, e pesquise as trilhas disponíveis.

Planeja também quanto você vai gastar. Se você está curioso sobre quanto custa fazer a Appalachian Trail, por exemplo, eu fiz um texto e gravei um episódio no YouTube só sobre isso. Leve em consideração suas despesas na trilha mas também as despesas que você vai continuar tendo em casa e o dinheiro que vai deixar de ganhar sem trabalhar por aquele período.

Trilha decidida, orçamento feito, é hora de pensar nos equipamentos. Existe muita diferença no equipamento que você vai usar pra fazer uma trilha nos Estados Unidos ou no Brasil. De novo, converse com quem já vez a trilha pra saber qual o melhor equipamento naquela situação. E lembre-se que a escolha dos equipamentos é algo muito pessoal. Experimente, teste, use tudo antes de começar a fazer a trilha de verdade.

Se você já sabe qual trilha vai fazer, se comprometa a isso. Reserva as datas, compre as passagens necessárias. Estude como chegar e sair da trilha e faça as reservas de transporte e albergue necessárias.

Chegue pra fazer a trilha na melhor forma física que conseguir. Pratique em trilhas menores. Se não conseguir, faça como eu: coloque algo pesado em sua mochila e ande pelo seu bairro. Eu colocava todos os volumes de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (eram quase dez quilos de livros) e saia subindo os morros de Belo Horizonte. Também fiz algumas sessões de girotronic antes de ir pra AT que ajudaram bastante.

Não se esqueça de trabalhar também o lado psicológico e emocional. Fazer uma trilha que dura três, quatro, cinco meses é um grande desafio. Nesse sentido o livro Appalachian Trails – A psychological and emotional guide to successfully thru-hike the AppalachianTrail, do Zach Davis, foi fundamental. Ele sugere que você faça uma lista dos motivos que o levaram a fazer a trilha e como você vai se sentir se conseguir completar a trilha ou se desistir da caminhada. Faça essa lista e leva com você. Vai te ajudar quando pensar em cair fora da empreitada.41xofrlh4ql

Como tudo preparado é hora de contar pro mundo que você vai sair nessa aventura. Faça um blog, divulgue no seu Facebook, conte pra sua família. Pense em algum produto que a trilha possa gerar: um documentário, um livro, uma exposição.

Tudo pronto é hora de dar aquele primeiro passo. Aproveite cada minuto. Lembre-se que essa trilha é sua: não tente seguir o ritmo de outras pessoais. Ouça seu corpo, não force mais do que você da conta. E se pensar em desistir, nunca desista em um dia ruim. Espere, de um tempo e quando sua cabeça esfriar pense de novo no assunto. Lembre-se da lista que voce fez. Lembre-se também da máxima dos trilhas americanas: hike your own hike. Faça a SUA trilha. Vá no seu ritmo, do seu jeito, que você vai chegar e seu evento, sua caminhada, vai ser um sucesso.

Bate-papo com Edinho Ramon (Sua Casa é o Mundo)

No dia 19 de janeiro de 2019 eu encontrei com o Edinho Ramon do Site Sua Casa é o Mundo e do projeto Caminho a Dois – que ele faz com sua esposa Bia Carvalho – para um papo sobre caminhadas de longa distância.

A conversa aconteceu na minha casa e foi transmitida ao vivo pelo nosso Instagram e Facebook – por isso a baixa qualidade do vídeo. Fica aqui o registro para que estiver pensando em fazer uma caminhada de longa distância no Brasil ou no exterior. Falamos de preparação, perrengues, equipamentos, sobre caminha sozinho e acompanhado e principalmente sobre a Appalachian Trail (que eu fiz em 2017) e a Pacific Crest Trail (que eles fizeram em 2018 e eu faço em 2019) e demos muitas gargalhadas.

Acompanhe a conversa aí embaixo.

 

Cinco mitos sobre a Appalachian Trail

Pamola é um ser que tem a cabeça de alce, o corpo de homem e os pés e asas de águia. Segundo os índios Penobscot ele vive no topo do Monte Katahdin, no Maine. É ele o responsável pelo tempo ruim na montanha e apesar dos índios poderem caçar e pescar na floresta, nunca podiam subir ao topo, sob o risco de não conseguirem voltar. Até que o homem branco conseguiu convencer os indíos a levá-lo até a base da montanha – e de lá subiu sozinho até o topo.

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Pamola, na ilustração de Maurice “Jake” Day.

A Appalachian Trail é cheia de mitos – e não estou falando da história de Pamola ou outras lendas que o povo da região conta. O que quero dizer é que existem diversas  histórias que muita gente repete sobre a trilha e que não são, nem de longe, verdadeiras. Mitos que foram criados com o passar do tempo que você precisa aprender que não são verdade.

Por isso resolvi contar aqui cinco mitos sobre a Appalachian Trail.

1) Você precisa entre cinco e seis meses pra completar a trilha

Não é bem assim. Como a gente bem fala na trilha, “hike your own hike”. Caminhe no seu tempo. O recorde da trilha, por enquanto, é do StringBean, que passou por mim quando fiz a trilha em 2017 e completou os 3190 quilômetros em 45 dias, 12 horas e 15 minutos (isso mesmo: ele andou, EM MÉDIA, 70 km por dia…). Mas tem gente que faz em muito mais tempo. A GI Jane, que também fez 2017, me disse que “ganha a trilha quem termina por último”, e ela levou 208 dias pra completar. Achou muito? Olha só o que disse o meu xará, o biólogo e professor Jeff Marion: “Eu levei 43 anos para completar a Appalachian Trail. Dividi a trilha em 24 seções e escolhia fazer quando tivesse tempo bom. A maioria da minha caminhada foi feita em clima frio, menos úmido, fora da temporada de mosquitos e carrapatos”. Outro xará, o Jeffrey Ryan, escreveu um livro que relata sua odisséia para completar a trilha ao curso de 28 anos.

Ou seja: o tempo é você quem faz. Seja em dois meses, seja em vários anos. Hike Your Own Hike. Faça seu tempo.

2) Ursos são os animais mais perigosos da Appalachian Trail

Eu encontrei pelo menos uma dúzia de ursos na minha caminhada de 131 dias. Vi filhotes, vi adultos. Todos, sem exceção, fugiram de medo quando notaram a minha presença. Ursos pretos são ratos gigantes. Não se preocupe com os ursos pretos ao fazer uma trilha como essa: ele são o menor dos seus problemas.

Você precisa se preocupar é com um bicho muito menor, e muito mais perigoso: o carrapato. Use repelente, em você e em suas roupas, e cheque seu corpo diariamente.

3) Só atletas e pessoas em forma conseguem terminar a trilha

Eu encontrei com gente de todas as idades, de 2 a 82 anos, que completaram a trilha. Encontrei com pessoas que perderam mais de 20 quilos caminhando da Georgia ao Maine. Encontrei com adolescentes e aposentados. Com pessoas com necessidades especiais e amputados. Todos caminhando a trilha e tentando completá-la no seu tempo.

Estar em bom condicionamento físico ajuda, é verdade, mas não é primordial: a própria trilha vai te moldando. Você pode começar andando 5 quilômetros por dia e terminar andando uma maratona.

4) Você certamente vai perder muito peso fazendo a trilha

Não é bem assim… Você consome tanto quando tem a oportunidade que algumas pessoas chegam a GANHAR peso… Eu perdi quase 14 quilos. Mas encontrei com gente que não perdeu quase nada.

5) Virgínia é plano

O maior mito de todos diz que o estado da Virginia, o maior da Appalachian Trail, é plano. Balela. Quando estava lá até fiz esse gráfico pra mostrar…

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Pode ser um dos mais bonitos, tem o Shenandoah Park, tem McAfee Knob, mas plano, isso num é não… Prepare-se para subir MUITAS montanhas.

6) A trilha vai mudar a sua vida

De novo, não é bem assim… Pessoas são diferentes. Para algumas a trilha marca profundamente e muda o jeito de pensar e agir. Para outros… Bem, para outros a trilha não passa de uma longa caminhada. Não vá achando que você vai voltar diferente, mudado, outra pessoa. Não conte com isso para começar a mudar. Não é A trilha que te muda. É o caminhar, seja na trilha, seja em qualquer outro lugar. Comece a caminhar agora, um pouco a cada dia, e você pode começar a sentir a diferença. Você não precisa andar 3200 quilômetros…

Dicas para comida em trilhas de longa distância

É sempre a mesma pergunta: mas o que você come? Como você faz pra cozinhar? O que você leva? Quantas calorias por dia você precisa ingerir?

Comida é o principal assunto nas conversas quando você está na trilha… ou fora dela. Todo mundo quer saber a sua dieta, o que está levando, como está se alimentando. É na comida também que você pensa quando decide ir a uma cidade, quando prepara as caixas que você vai enviar para trechos da trilha, quando decide tirar um dia a mais de descanso. Cansado? Algumas vezes. Faminto? Sempre.

É por isso que resolvi escrever esse post com dicas para comida em trilhas de longa distância. Serve para a Appalachian Trail, serve para a Pacific Crest Trail, mas também serve pras trilhas que existem aqui no Brasil. É só adaptar.

1. Cozinhe com eficiência

O modelo de fogareiro que você escolher vai inteferir imensamente na eficiência na hora de cozinhar. Durante a Appalachian Trail eu usei um Jetcook da Azteq. O bicho é a jato mesmo: gasta muito menos gás que os concorrentes e cozinha muito mais rápido. Não é o mais leve, mas a eficiência compensa o peso.

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Meu Jetcook em ação, no primeiro dia de trilha, cozinhando um chili liofilizado.

2. Pense no peso antes de qualquer coisa

Você deve levar comida comida nutritiva, mas pense também quanto ela pesa. Opte por comida desidratada ou liofilisada – existem várias no mercado. Macarrão e arroz pré-cozidos também são boas opções: cinco minutos era meu tempo limite para que o jantar ficasse pronto. Se tiver tempo, desidrate frutas e legumes para comer na trilha.

3. Reempacote

Uma das formas de ajudar a levar menos peso é deixar pra trás as embalagens originais dos alimentos. Tire tudo o que não for precisar. Coloque em sacos plásticos do tipo Ziplock. Barras de cereal, alimentos congelados, doces, pasta de amendoim, não importa: a dica é reembalar.

4. Calorias. Não se esqueça de calorias

Em uma trilha como as que faço você gasta fácil 3.000, 4.000 calorias por dia. Você vai precisar repor toda essa energia de alguma forma. Opte por alimentos ricos em caloria e gordura. Quanto mais, melhor. Sardinha na água ou no óleo? Óleo, claro! Chocalates, sempre, de preferência daqueles com amendoim…

5. Proteínas também são importantes

Na verdade sua dieta deve ser balanceada e conter calorias, gordura e proteínas. Nas longas trilhas isso é o mais difícil de conseguir: opte por carne seca, sardinha, atum, amêndoas, queijos duros.

6. Já pensou em deixar o fogareiro em casa?

Ir sem fogareiro pode ser uma opção para economizar peso e tempo. Leve alimentos já prontos, barras de cereal, alimentos desidratadas, coisas que não precisam ir ao fogo para cozinhar. Queijos duro, por exemplo, duram vários dias na sua mochila.

7. Aprenda com o Zé Colméia

Lembra do desenho animado, que o Zé Colméia sempre dava um jeito de conseguir comida com os turistas? Pois é. Isso tem um nome: Yogiing. Yogi Bear é o nome do Zé Colméia em inglês. Yogiing é se virar como o Zé Colméia, dando um jeito de ganhar a comida de graça dos turistas ou outros caminhantes que passam por você.

8. Aprenda com a trilha

Conheça os alimentos que a trilha pode te oferecer. Mesmo sabendo quase nada de botânica e da vegetação da trilha pude me deliciar com diversos tipos de frutas: morangos silvestres, mirtilos, amoras, cerejas… Tudo a mão, tudo a pouco metros da trilha.

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aulinha básica de alimentos comestíveis na trilha

9. Café instantâneo sempre

Eu não fico sem café. E na trilha isso pode ser um problema. Até pensei em levar minha Aeropress, mas é pouco prática e muito pesada. O jeito é apelar para o café instantâneo. É a pior coisa que você pode tomar, é verdade, mas é melhor que ficar sem café.

10. Leve seu lixo de volta. Todo ele.

Mesmo que você reempacote, que leve alimentos leves, que use café instantâneo, você ainda vai produzir lixo. E a dica é simples: leve seu lixo de volta. Todo ele, mesmo o lixo orgânico, cascas de frutas, coisas que você sabe que irão se decompor (sim, seu papel higiênico também). Não vá contaminar o ambiente por causa de nojinho ou de alguns poucos gramas.

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The trail provides

 

Pós-trilha

Tô sumido daqui, né? Não escrevi desde que voltei ao Brasil. Um misto de cansaço e desânimo tomou conta de mim nos primeiros dias, mas agora a coisa começa a voltar ao normal. Foi a depressão pós-trilha. Sim, ela existe. Não, não é lenda.

Quando estava nos últimos dias da Appalachian Trail pensava que quando chegasse ao Brasil iria fazer um churrasco para a família, um encontro em um bar de com os amigos, iria sair todos os dias para encontrar todo mundo… Mas não foi nada disso que aconteceu.

Passei os primeiros trinta dias em casa, sem colocar o pé pra fora. Só encontrei com minha família próxima – esposa, filha, netas, genro. Desmarquei o churrasco, não marquei o encontro no bar. Depois de um tempo comecei a melhorar um pouco: saí, encontrei umas pessoas, bati um bom papo com o pessoal do Esquema Novo (falo sobre isso abaixo), estava começando a me sentir melhor… e voltei de novo pro fundo do poço.

Os últimos dias foram difíceis e complicados. Estava bastante deprimido, irritado com tudo, cansado da minha vida. Não foi a primeira vez: já havia ficado assim antes. Algumas vezes. Sei o quanto essa instabilidade me atrapalha, pessoal e profissionalmente. Mas não é algo que consiga controlar. Caminhar foi uma das formas que encontrei pra enfrentar isso. Conversar também. O apoio de pessoas próximas é outra ajuda fundamental. Dessa última vez foi uma conversa com a Alê me puxou pra cima. Mais uma vez tenho que agradecer a ela.

E agora, dois meses após terminar a Appalachian Trail, começo, de novo, a colocar minha vida nos trilhas. É uma constante: construo, saboto, destruo, recomeço do zero. Desde que me conheço foi assim. Quando criança fazia karatê. Quando fiz a prova pra mudar de faixa pela primeira vez sabotei, chutei o balde, saí. Na adolescência, fazendo fanzine, a mesma coisa: quando estourou, começou a ficar reconhecido, deixei de lado e parei de fazer. Quando tive banda a mesma coisa: briguei com o povo e alguns deles não falam comigo até hoje. Depois teve faculdade, Motor Music, Austrália. Discotecagem, empregos, casamento. É a coisa começar a acertar, eu começar a ficar feliz e me saboto. Não deixo. Tristeza não tem fim, felicidade sim: fico deprimido, nervoso, perco o controle, brigo com todo mundo, penso em suicídio, abandono não só aquilo que começava a dar certo como todo o resto. Aí passo um período péssimo, na lama. Mas até agora conseguir sair e recomeçar.

Não, não gosto disso. Mas também não tenho controle. Infelizmente. Gostaria controlar mais, agora que sei que é assim. Tenho tentado. Caminhar me ajuda mentalmente com isso. Fisicamente também. Sei que só depende de mim, sei que não posso e não devo desistir. Solvitur ambulando, não é isso que eu mesmo digo?

“Nossa, te admiro demais. Que força de vontade você tem…”, já me falaram. Ah, se vocês soubessem…

O fato é que a trilha acabou, fiquei deprê por uns dias e agora estou voltando. Aos poucos.

Além dessa fase negra, algumas coisas (boas) aconteceram desde que pisei de novo no Brasil. A primeira foi a entrevista com o pessoal do Esquema Novo que falei aí acima. James, Terence e Fernanda são amigos das antigas, que me acompanham desde que vim pra BH. Encontramos pouco (menos do que eu gostaria) e sou fã de carteirinha do programa deles. O bate papo foi gostoso, informal, divertido. Dá pra assistir aí embaixo.

Outra coisa que rolou foi um podcast extra com o Elias para o Portal Extremos sobre (adivinha?) depressão pós-trilha. Fiquei mais na minha, não falei como gostaria, não expus tanto o problema. O Elias foi um amigo que fiz por causa da Appalachian Trail, deu um super apoio no projeto. Junto com a gente estava a Rose Eidman, que acabou esse ano a PCT. O podcast pode ser ouvido no Soundclound do Extremos ou na página do Portal. O link tá aí, só clicar.

Teve um bate-papo na Nerea, uma loja de aventura em BH que também me apoiou no projeto. Tinha prometido pra eles que voltaria lá pra uma conversa e fui cumprir a promessa. Foi vazio, mas com um público interessado. Tentei transmitir a conversa na minha página do Facebook e a maior parte da conversa tá aqui.

O último final de semana foi incrível, com família, peça infantil com a neta, ópera e show de novos grupos de BH com a esposa, onde reencontrei amigos que não via desde o início da AT. Talvez um dos melhores finais de semana (que se entendeu até segunda!) da minha vida. De verdade.

Também comecei a fazer alguns trabalhos, dos quais um em particular tem me deixado muito animado. Ainda não posso dizer o que é, mas é desafiador. Vou precisar estar focado, com a cabeça no lugar. Estou me dedicando a isso e espero que dê os resultados esperados.

Por fim, começo a fazer uns pequenos passeios. Estou no Rio, onde encontrei alguns amigos que me proporcionaram uma noite inesquecível. E amanhã participo de um Seminário em Itatiaia sobre a implementação de uma trilha de longo percurso por aqui. No final de semana cruzo com o grupo que estará no Seminário a Serra Negra, entre Itatiaia e Maromba, aqui no estado do Rio. Mas meu corpo dói como não doeu em nenhum momento durante a caminhada de 3500 km. Coxa, canela, pé, tudo incomoda logo nos primeiros passos. Pode ser a falta de costume, pode ser que tenha realmente extrapolado em algum ponto. Não fui ao médico, não procurei um profissional. Meu pulso direito também tem me incomodado alguns momentos. Estou esperando essa primeira caminhada pra ver como me saio. Se continuar doendo, procuro alguém. Se melhorar, deixo como está. Depois conto pra vocês como foi.

Recomeçar. É isso. Mais uma vez. Continuar caminhando em frente, pra que tudo volte ao lugar. Solvitur ambulando. Conto com vocês também nessa jornada.

Appalachian Trail – Equipamentos

Já tinha escrito sobre os equipamentos antes da viagem, mas como tem gente perguntando resolvi fazer uma recapitulação do que me acompanhou na viagem.

Durante tempo de caminhada eu usei basicamente o mesmo equipamento. Foram poucas as coisas que mandei de volta ou inclui ao que estava na minha mochila desde o início.

Tudo tinha seu lugar, dentro da mochila ou quando montava equipamento. Por causa disso sei de cabeça exatamente o que carregava. Não fui ultra light: os equipamentos eram leves, de boa qualidade, mas se procurar e possível achar outros ainda mais leves.

Minha mochila era um Gossamer Gear Mariposa de 40 litros. Único comentário sobre ela: perfeita. Tem algumas coisas que gosto muito, como os bolsos externos, a capacidade de acessar água sem ter que tirar a mochila e a possibilidade de trocar só o cinturão se ele estragar. Não é gigante, mas cabia tudo com folga. Ela tem grande bolso externo na parte de trás. Nas laterais um bolso maior no meu lado esquerdo e dois pequenos no direito. Todos esses abertos. Tem também um na parte de cima e um em cada lado do cinturão, esses três com zíper.

No bolso de trás, o maior, eu levava a barraca, a pá e o saco de lixo. No bolso esquerdo meu tênis de acampamento e 15 metros de corda. No bolso de cima do lado direito o filtro, um Platypus de dois litros e um copo feito a partir de uma garrafa de água mineral cortada ao meio. No bolso de baixo a garrafa de água. No lado esquerdo do cinturão os lanches que comia durante o dia. Do lado direito o telefone, fone de ouvido e as páginas do guia daquele dia, dentro de saco plástico. No topo um saco plástico com minha nécessaire, outro com papel higiênico e mais uma meia dúzia de sacos extras. Explico cada coisa a seguir.

A barraca era uma Big Agnes Fly Creek pra duas pessoas. O espaço extra eu usava pra guardar a mochila dentro da barraca nos dias de chuva. Essa é sem dúvidas a barraca mais popular na trilha, mas tive problemas com ela, com água entrando pela parte de baixo. Não fui o único: Senator e outras pessoas que conversei reclamaram da mesma coisa.

A pá é usada pra cavar seu cathole, o buraco que você faz pra enterrar as fezes. Comecei com uma de plástico duro, mas achei uma outra de alumínio, mais leve, e troquei. O saco de lixo era uma sacolinha de supermercado mesmo.

O tênis de acampamento era uma espécie de Croc, mas mais leve que a original. Comecei com um tênis da Tribord, mas demorava a secar. Achei esse num hiker box e fiz a troca. Deixei-o na hiker box no final da trilha. A corda é da espessura de uma corda de varal. Usava pra pendurar a comida no acampamento. Já comentei sobre isso aqui.

O filtro é um Sawyer, que eu atachava no Platypus e filtrava a água pra dentro da garrafa, uma de plástico, da água mineral Smart Water. Super resistente, durou toda a viagem. O copo era da garrafa da mesma marca. Usava pra pegar água em locais difíceis, mas também me servia de taça quando levava vinho pro acampamento.

Comecei com o iPhone que perdi. No dia coloquei ele no bolso e não fechei o zíper. Terminei com um Motorola pré pago, que usava com fones baratos que comprava em postos de gasolina. Os snacks do dia eram quase sempre barras de cereal, chocolates, queijos e carne seca.

A nécessaire era um ziplock com escova de dentes (dessa de viagens), creme dental, fio dental, uma pomada de assadura, outra pra picada de insetos e repelente. O papel higiênico era, bem, um rolo de papel higiênico. E levava um pacote com dez lenços umedecidos também.

Além disso, na parte de fora eu tinha um canivete suíço em um mosquetão no lado esquerdo da alça da mochila, junto com o tag de identificação da Appalachian Trail e meu Spot Gen 3 na alça do lado direito.

Dentro da mochila eu tinha um grande saco de lixo, que protegia minhas coisas em caso de chuva. Além disso cada coisa ia dentro de um saco estanque. Na ordem, de baixo pra cima, um Sea to Summit com meu saco de dormir. Depois um Tribord com minha comida e primeiros socorros. Em três sacos menores eu trazia meu fogareiro, gás e colher; meu isolante e um lençol. Um saco da Granite Gear com minha roupa limpa vinha depois. Em cima dele a sacola com minha suja e outros dois sacos menores, um com minha câmera e outro com os eletrônicos. Por fim a capa de chuva.

Detalhando cada coisa: o saco de dormir era um REI Igneo para temperaturas de até -5ºC. Nos dias mais quentes ficava insuportável dormir nele, por isso comprei um lençol. Ele ajuda também a deixar o saco de dormir menos sujo. O isolante térmico é inflável, um Therm-o-rest Neo Air. Confortável, leve, mas barulhento. Ainda assim não trocaria pelo tradicional. O fogareiro era o incrível Jetcook da Azteq. Rápido e eficiente. A colher era uma de bambu que o pessoal da Gossamer Gear mandou com a mochila. Dentro Jetcook eu levava também o combustível é uma bandana que usava pra limpar os utensílios.

O saco estanque com as roupas limpas tinha uma jaqueta de frio da Marmot, um par de meias extras, um calção, uma camiseta e a bandeira do Brasil. O saco de roupas era também meu travesseiro.

O kit de primeiros socorros não passava de alguns band-aids, uns comprimidos pra dor, alergia e dor de cabeça, multi vitaminas, umas fita atléticas que achei numa hiker box, protetor solar e um detergente biodegradável pra lavar a panela. Os eletrônicos eram uma carregador portátil da Anker, dois cabos mini USB, adaptador pra tomada com duas entradas, também da Anker e minha lanterna de cabeça, uma Pretzl. Nesse saco estanque também levava meu passaporte e pilhas extras para o Spot e/ou a lanterna. A câmera, que comprei depois de perder o iPhone, era uma chinesa, a Yi Mirrorless. A capa de chuva era uma jaqueta da Quechua.

Eu caminhava com tênis Altra e palmilhas Superfeet, meias da Wigwag, calças conversíveis de pescaria da Decathlon, uma camiseta, boné e uma bandana. Os bastões de caminhada era da Quechua. Quebrei um, achei um outro da Hiker Trash, que também quebrou e achei outro da Black Diamond.

E era isso. Pouco mais de dez quilos. Tudo que precisei pra viver quase 5 meses no mato.

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Dia 131, 23/08: Katahdin Stream Campground, The Birches Lean-tos (2184.6) a Katahdin, Baxter Park, Northern Terminus of the AT (2189.8)

Distância do dia: 5.2 + 5.2 milhas | 16,73 km

Distância total: 2189.8 + 8.8 + 5.2 milhas | 3546,67 km

Distância que falta: 0 milhas | 0 km

Dias que faltam: 0

Sabe criança na véspera de natal? Goleiro antes do pênalti? Aquela ansiedade, aquele desejo de ao mesmo tempo e prolongar aquele momento mas querendo que ele aconteça rápido? Eu estava assim ontem a noite. Já não venho dormindo bem há alguns dias – o corpo doi, o osso da bacia dói quando viro, as pernas doem todo o tempo, os pés latejam, a cabeça não para – mas essa noite foi pior.

Às cinco em ponto ouço Wash Bear dizendo “bom dia”, em português mesmo. Éramos só os dois no abrigo. Senator havia ficado sozinho no outro – cada um cabia 6 pessoas – e mais um hiker que a gente não conhecia estava acampado. “E aí? Como está se sentindo?”. Ele também não sabia explicar muito bem. “É hoje, cara. Acabou. O dia vai ser lindo”, ele disse.

A gente tinha planejado esse dia há mais de um mês, quando compramos as passagens aéreas e decidimos que iríamos caminhar juntos até o final. Fizemos nosso planejamento de milhas por dia de caminhada e seguimos firme. Perdemos um dia quando decidimos não subir Wildcat com chuva e tiramos o atraso nas 100 Miles Wilderness. Funcionou super bem. Mas pra funcionar totalmente precisávamos do dia lindo hoje.

Ontem, como prevíamos, choveu toda a noite. Muito. Mas naquela hora, às cinco da manhã, ainda clareando, a chuva já estava minguando. Decidimos sair os três juntos quando o dia clareasse. Deixamos o acampamento às oito. Eu e Senator deixamos a maior parte das nossas coisas no posto dos guarda florestais. Fomos com o básico: mochila, água, blusa de frio, uns lanches. Wash Bear, cabeça dura, levou tudo.

O início da subida a Katahdin é tranquila. As primeiras duas milhas das 5.2 milhas até o topo são em a ascensão gradual, tranquila, sem pedras. Mas quando chega a hora de subir de verdade a história muda. Katahdin tem mais de 5 mil pés de altitude e as próximas 3 milhas são de escalada. O tempo abria e fechava, com neblina cobrindo tudo, a cada cinco minutos. Fazer isso com chuva é impensável. Bastões de caminhada são quase desnecessários. Quando se chega acima do nível das árvores a coisa fica mais simples. Uma subida pesada, nas pedras, mas bem mais fácil que os paredões que você acaba de passar. E quando você vai subindo já dá pra ver lá no alto a placa que marca o final da Appalachian Trail.

Se tem um momento que eu queria que alguém tivesse fotografado foi o exato segundo quando chegamos ali. Eu vinha na frente, Wash Bear depois, Senator por último. Paramos na placa, os três colocaram a mão na madeira, olhamos um pro outro e não falamos nada. Não precisava. Cada um vivia ali, naquele instante, a realização de um sonho.

“Tem uma coisa sobre o final da trilha que eu preciso te falar”, eu disse sério pro Wash Bear no dia anterior. “Eu vou chorar. Eu vou tirar muitas fotos. E eu preciso gravar um vídeo pra Lis, onde eu finco a bandeira e falo o nome de todo mundo na nossa família”. Ele respondeu: “ok. Talvez eu chore também. E me lembre que eu preciso pegar uma pedra de Katahdin pra coleção da minha esposa”.

“Você precisa pegar uma pedra”. Foi a primeira coisa que eu falei. Tirei a mão da placa, sentei e chorei. Muito. Soluçava e as lágrimas caiam em abundância. Wash Bear colocou a mão no meu ombro. Ele também chorava. Enxuguei as lágrimas, levantei e ele me deu um abraço. “Acabou. Conseguimos, cara. A gente andou 2200 milhas!”, ele disse.

Uma coisa que preciso falar sobre Katahdin: a trilha da Appalachian Trail não é a única forma de chegar ali. Existem pelo menos outras três trilhas que levam até lá. A AT, dizem, é a mais difícil. Mas por causa das outras o lugar tá sempre cheio. Quando a gente tava lá tinham mais umas 20, entre day e thru hikers. E como a gente tinha acabado de acabar e sabia que a AT era difícil escolhemos descer pelaaod fácil das trilhas.

Mas a mais fácil não é tão mais fácil assim. “Tenho certeza que isso aqui foi um desmoronamento e os caras falaram: olha! Temos uma trilha nova!”, disse o Wash Bear. A sensação era mesmo essa.as pelo menos dava pra ver onde a gente estava colocando os pés.

Na chegada ao estacionamento o pai do Senator esperava pela gente, com sanduíches e cervejas. Nossa comemoração foi ali. Um brinde, um sanduíche e estrada pra Millenocket.

Acabou. 2200 milhas. 3500 quilômetros. 131 dias. 5.000.000 de passos. A coisa mais difícil que já fiz na minha vida. Uma aventura incrível.
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