Como eu consigo tempo – e dinheiro – para minhas caminhadas

“Cara, como você consegue isso? Você deve ser milionário pra parar 6 meses de sua vida e ficar caminhando…” Já ouvi essa frase dezenas de vezes. Ela e suas variações: que sou vagabundo. Que ganhei na loteria. Que não penso no futuro. Que vivo de renda. Muitas vezes a pergunta é movida por curiosidade mesmo. Outras, por inveja e vontade de estar no meu lugar.

Por causa disso gravei um vídeo para o meu canal no YouTube sobre os custos de uma trilha como a AT. E escrevo aqui um pouco mais sobre isso.

Consigo fazer minhas caminhadas – e viagens em geral – por causa de uma intrincada combinação de planejamento e economia pessoal. E um pouco de sorte. No fundo, consigo fazer minhas viagens por que escolhi viver dessa forma. E por mais que isso diga respeito só a mim e a minha família, acho que minha experiência pode ajudar a algumas pessoas a finalmente realizarem aquela aventura que tanto querem – e que parece impossível.

Antes, deixa eu te contar uma história. Quando eu tinha 15 anos fiz a primeira grande viagem da minha vida. Minha família sempre teve uma vida difícil. Fui o caçula de 9 irmãos, meus pais nunca se formaram – só estudaram “o grupo”, como a gente diz, ou apenas o ensino fundamental – e viajar sempre foi meu sonho de criança. Na infância o mais longe que tinha ido era na casa dos meus avós, a 120km de onde morava. Com 14 anos entrei para a escola de música municipal, aprendi a tocar saxofone e um ano depois fui recrutado por uma banda local – o RG7 – para tocar em um carnaval. Em Porto Seguro. Meus pais precisaram me dar uma autorização de viagem, registrada em cartório, e lá fui eu, em um ônibus de turnê, com uma dúzia de músicos, cantores, cantoras e técnicos, pegar a estrada. Sabe o filme “Quase Famosos”? Pois é… Aquela viagem, de quase 24 horas entre o interior de Minas ao Sul da Bahia, mudou a minha vida. Aquela foi a primeira vez que vi o mar. Ali, tive duas certezas: que eu queria conhecer o mundo e que não gosto de carnaval…

Dias depois, de volta da viagem, decidi que era hora de ganhar meu próprio dinheiro, arrumar um emprego e sair de casa. Fiz um concurso público, passei, e me mudei quando tinha dezesseis. Nessa época dizia pra minha mãe que queria juntar dinheiro pra conhecer o mundo. “Você só entra em um avião quando eu morrer!”, ela dizia. Ela faleceu em 1994. Naquele mesmo ano fiz minha primeira viagem internacional. E desde então viajar virou uma obsessão…

Mas e então? Como financiar uma caminhada de longa distância?

A primeira coisa que você precisa saber é que viajar a pé é a forma mais barata que existe. Meus gastos durante os meses de caminhada são, no geral,  bem próximos dos meus gastos do dia-a-dia no Brasil. Mas concordo que não dá simplesmente sair andando. É preciso planejar.

Faz alguns anos que decidi não ter emprego fixo. Troquei a carteira assinada por trabalhos freelance. Na verdade, isso é consequência de uma decisão que tomei há vários anos, quando abandonei o emprego que consegui com aquele concurso público que fiz na adolescência: que só iria trabalhar com coisas que me dão prazer.

Não ter a obrigação de assinar ponto ou me matar em um emprego diário me dá menos dinheiro, é verdade, mas também a liberdade e a flexibilidade de viajar quando puder. Garanto o suficiente para pagar as minhas despesas pessoais e economizar pra fazer o que gosto.

Com essa flexibilidade posso ficar atento a um ponto importante – e caro – de viagens: as passagens internacionais. Fico de olho em promoções, assino listas de sites como Melhores Destinos, pesquiso a tendência de preços no Google Flights e quando aparece algo que combina com a minha carteira, não reluto. Com isso já viajei para Moscou pagando R$750,00 na passagem ida e volta e já fui pra para o Canadá pagando um pouco mais que isso.

Mas mesmo gastando pouco durante a caminhada e pagando pouco pela passagem é preciso ter dinheiro pra viajar. E pra isso é preciso economizar. Na ponta do lápis, minhas despesas em Belo Horizonte ou na trilha são bem parecidas. O que gasto por lá com alimentação e raras hospedagens é bastante similar com o que gastaria estando aqui, em supermercado, transporte e eventuais restaurantes. O que faz a diferença é o dinheiro que deixo de ganhar. É aí que o planejamento a longo prazo ajuda.

Eu sei exatamente quanto preciso por mês (spoiler alert: é pouco). Me programo e trabalho para economizar em seis meses minhas despesas fixas dos outros seis meses. Uso uma planilha em Excel, onde anoto diariamente minhas despesas e meus ganhos.

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

Minhas despesas são poucas porque prefiro gastar nas viagens ou eu viajo porque minhas despesas são pequenas? Um pouco dos dois, na verdade. Mas existem algumas coisas que faço e, acredito, me ajudam a ter algum dinheiro sobrando:

  • Eu saio muito pouco. Como pouco fora. Cozinho bastante em casa. E quando vou ao supermercado quase nunca compro alimentos industrializados: biscoito, refrigerantes, congelados, essas coisas eu deixo pra comer na trilha.
  • Eu (ainda) tenho carro, mas é um modelo com mais de 10 anos que raramente tiro da garagem. Ando muito a pé e gasto muito pouco com transporte público, taxi ou Uber/Cabify
  • Não me lembro a última vez que fui ao cinema, apesar de assistir a muitos filmes. Baixo quase tudo o que vejo. O mesmo vale pra música. Não compro um disco desde que o Napster me levou à falência (eu tinha uma loja de CDs)…
  • Eu tenho uma vida regrada – nenhum vício que faça meu dinheiro desaparecer sem que eu perceba. Não uso drogas, não fumo, não sou de beber muito…
  • Também não tenho dívidas – não pago aluguel, não tenho financiamentos, não devo cartão, não devo o banco. Sou milionário? Não. Tenho dinheiro guardado? Um pouco.
  • A última camisa nova que usei foi a que ganhei da Spot Brasil para fazer a Appalachian Trail. Não tenho muitas roupas e compro cada vez menos.

Não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho

Além disso tenho me desprendido de bens materiais e acumulado cada vez menos coisas. Antes de fazer a Appalachian Trail me desfiz de várias coisas que tinha e não usava mais – uma coleção de bonecos, câmera fotográfica e filmadora, um computador reserva, até uma bota. Já não tenho nenhum disco. Vou fazer uma nova limpa em breve e guardar ainda menos tralhas. O objetivo é guardar cada vez menos. Como disse uma caminhante que encontrei uma vez, “cada vez que me dá vontade de comprar um móvel novo eu saio pra caminhar e a vontade passa”.

Um dos principais pontos de despesas numa caminhada de longa distância são os equipamentos. Barraca, mochila, saco de dormir, isso é tudo caro. Mas tive a sorte de ganhar a promoção Badger Sponsorship do site The Trek antes da AT e receber como prêmio a maior parte do que precisei. Também consegui o apoio fundamental da Spot Brasil e da Proativa, que me cederam equipamentos essenciais para a jornada e que ainda hoje venho usando.

Também fundamental é a sorte que tenho em ser casado com uma pessoa incrível que é a Alê, que entende minhas caminhadas, me acompanha em algumas delas e divide comigo algumas destas convicções. E boa parte das despesas da casa.

Um ponto que se fala pouco quando se trata de dinheiro e financiamento de uma caminhada de longa distância é o dinheiro que você deixa de ganhar quando está caminhando. Porque suas despesas lá podem ser poucas, mas as despesas daqui continuam chegando. E pra piorar você não tem nenhum dinheiro entrando por seis meses… De novo, meu estilo de vida ajuda nesta parte: não pago aluguel, não tenho dívidas, não tenho plano de saúde. Algumas das despesas da casa Alê arca normalmente – e outras me planejo antes de viajar e deixo programadas para serem descontadas automaticamente da minha conta. E apesar de viver fazendo trabalhos freelance sei que sou bom o suficiente para garantir novos trabalhos quando voltar. E se não encontrar trabalhos na minha área, estou aberto a aprender e fazer outra coisa. Qualquer coisa que me dê prazer. Se me der o suficiente pra pagar minhas despesas e salvar algum pra próxima viagem, melhor.

Mas afinal, quanto custa?

Minha caminhada pela Appalachian Trail, que durou de Abril a Agosto de 2017, custou em torno de 4500 dólares. São cerca de 900 dólares por mês, algo em torno de 130 reais por dia. Nisso aí tá incluso tudo, de passagem aérea a alimentação, de hotel a seguro de viagem.

É um bom dinheiro, mas pense: quanto eu gastaria nesses cinco meses em BH, entre gasolina, alimentação, supermercado, farmácia e outras despesas? E quanto eu gastaria em uma viagem de férias dentro do Brasil mesmo? No final, acho um investimento barato por uma experiência única como essa. Não é pra todo mundo, nem financeiramente, nem psicologicamente, é verdade. É preciso querer e estar disposto. É preciso ter os recursos – falta de grana é dos principais motivos que levam as pessoas a desistirem de completar a trilha. Mas vale cada centavo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Longa Distância no YouTube!

O ano começou cheio de novidades por aqui. Fiz uma nova marca nova, mudei um pouco o visual do blog e dei o primeiro passo (tudo começa com um primeiro passo) em uma série de vídeos no YouTube sobre a Pacific Crest Trail.

A partir de hoje serão 100 dias até o meu início na PCT. A ideia é subir um vídeo por semana contando a preparação para a trilha, o planejamento, os equipamentos que vou usar, meu treinamento. Uma espécie de aquecimento para os vídeos que pretendo mandar da trilha. E depois, já fazendo a trilha, preciso ver como será meu acesso à internet para ver se consigo manter essa regularidade. Se não conseguir postar um vídeo por semana quero subir pelo menos um a cada 15 dias. Assista ao vídeo, se inscreva no canal e ative as notificações para ficar sabendo quando subir os outos vídeos.

Os textos no blog vão continuar, claro. E estou armando outras parcerias que conto pra vocês em breve.

Travessia Alto Palácio – Serra dos Vales (o vídeo)

Escrevi aqui sobre a travessia que fiz na Serra do Cipó no início do ano (se você não leu o link está aqui) e essa semana resolvi editar o vídeo com algumas imagens que gravei durante a trilha.

É uma tentativa de chegar num formato de vídeo que pretendo gravar durante a Pacific Crest Trail. Ainda não sei como vou fazer por lá – e se você tiver alguma sugestão eu gostaria de ouvir…

Subi o vídeo sobre essa travessia no meu canal do YouTube. Caso você ainda não conheça é só clicar no vídeo e se inscrever.

Bate-papo com Edinho Ramon (Sua Casa é o Mundo)

No dia 19 de janeiro de 2019 eu encontrei com o Edinho Ramon do Site Sua Casa é o Mundo e do projeto Caminho a Dois – que ele faz com sua esposa Bia Carvalho – para um papo sobre caminhadas de longa distância.

A conversa aconteceu na minha casa e foi transmitida ao vivo pelo nosso Instagram e Facebook – por isso a baixa qualidade do vídeo. Fica aqui o registro para que estiver pensando em fazer uma caminhada de longa distância no Brasil ou no exterior. Falamos de preparação, perrengues, equipamentos, sobre caminha sozinho e acompanhado e principalmente sobre a Appalachian Trail (que eu fiz em 2017) e a Pacific Crest Trail (que eles fizeram em 2018 e eu faço em 2019) e demos muitas gargalhadas.

Acompanhe a conversa aí embaixo.

 

Travessia Alto Palácio – Serra dos Alves (ou: mea culpa, mea maxima culpa)

Deixa eu começar o ano fazendo um mea culpa: eu faço muito pouco trilha no Brasil. Não conheço quase nada dos caminhos clássicos daqui. Serra Fina? Nunca fiz. Chapada Diamantina? Não conheço. Lapinha-Tabuleiro? Pode me xingar, mas nem essa… No meu currículo tem a Appalachain Trail cruzando 14 estados americanos. Tem Milford Sound na Nova Zelândia. Tem Torres del Paine, El Chaltén, Ushuaia, Austrália, Japão, Tailândia, Laos… Brasil mesmo que é bom necas.

Sim, a culpa é minha. Por alguns motivos explicáveis – mas não desculpáveis. Comecei a fazer trilha tarde – o que prova que não, você não está velho pra isso como pode estar imaginando. E quando estou no Brasil muitas vezes estou mergulhado em trabalho. Daí quando aparece uma oportunidade opto por correr meio mundo ao invés de ficar por aqui.

Mas, ó, fica aqui o meu compromisso de mudar isso. Esse ano ainda. O primeiro passo eu já dei: aproveitei um final de semana com a família na Serra do Cipó e fui fazer a travessia Alto Palácio – Serra dos Alves. É uma daquelas travessias clássicas, pelo menos aqui em BH. Todo mundo já fez – ou conhece alguém que fez. Menos eu. Assim, passamos o final de semana curtindo cachoeira e passeios em Santana do Riacho e na segunda cedo Alê me deixou na portaria do ParnaCipó pra cruzar aqueles quase 40 km.

Alto Palácio – Serra dos Alves é um dos primeiros trechos sinalizados da TransEspinhaço. A ideia é sinalizar toda a serra e esse trecho, pela popularidade, foi por onde o pessoal começou. As pegadas amarelas e pretas estão espalhadas por (quase) toda a trilha. Onde ainda não tem pegada tem uma marcação com varetas pintadas de amarelo.

O grande atrativo da caminhada é o Travessão, marco da Serra do Cipó. Ali marca a divisa das bacias dos rios Doce e São Francisco: de um lado o Ribeirão do Peixe, do outro o Ribeirão Capão da Mata. Quando fiz a Estrada Real ficava olhando de longe aquela belezura.

Comecei a trilha na portaria do PanaCipó de Alto Palácio, na MG10. Só a estrada já vale o passeio. A Serra do Cipó é linda e dá pra gastar uma manhã parando em todos os mirantes e descobrindo quedas d’água. Da portaria, onde um portal marca o início da travessia, você sobe até uma torre de transmissão e começa a ter a partir dali uma visão ainda mais privilegiada da serra. A flora é incrível. É bom ficar atento a todos os detalhes. A trilha é bem batida nesse início e é fácil, mas é sempre bom ter um GPS ou a trilha salva em seu celular. Ainda não dá pra confiar apenas nas pegadas amarelas (senti falta, por exemplo, de uma marcação de confirmação na torre…).

O destino do dia, pós-Travessão, é o abrigo da Casa de Tábuas, distante uns 16 km do marco inicial. Espere encontrar pelo caminho lindas cachoeiras e pinturas rupestres nas pedras do lugar. Exige um bom preparado, mas nada demais. Indo com calma e curtido o caminho dá pra sair cedo e chegar ali no meio pro final da tarde.

A Casa de Tábuas é um dos dois abrigos da Travessia. O parque só permite que se acampe nas proximidades desse abrigos, que tem boa estrutura para o caminhante. Até exagerada, eu diria: um fogão de lenha descessário – é probido fazer fogo no parque – e consequentemente um acúmulo de panelas e utensílios, além de restos de ingredientes que só fazem atrair roedores e insetos.

Cabe um comentário aqui: confesso que pensei que iria encontrar lixo pelo caminho, o que felizmente não aconteceu. A manutenção do parque é exemplar. Exceto por pequenos pedaços de plástico caídos aqui e acolá, a trilha é bem conservada. Nos abrigos a coisa se inverte: latas, vidros, embalagens, papel higiênico, sacos de lixo deixados pra trás, tudo se amontoa. Merecia um multirão pra tirar todas essas coisas desnecessárias ali, incluindo as panelas e o próprio fogão à lenha. Bom seria também deixar exposto ali informações sobre práticas e princípios de baixo impacto ambiental, como os do Leave No Trace.

Se até ali o caminho é fisicamente  mais desgastante que o resto da trilha e a sinalização em geral bem feita, a partir dali a coisa se inverte. Com exceção de uma subida partindo do abrigo a trilha fica mais fácil, mas a sinalização praticamente some. Junte a isso a vegetação alta e tem aí um bom lugar para caminhantes menos experientes se perderem. Eu mesmo saí da trilha duas ou três vezes e precisei consultar o GPS. O caminho é também menos cinematográfico que o do primeiro dia. Até o próximo abrigo, Currais, são mais 11 quilômetros que podem ser vencidos em 4 ou 5 horas facilmente. Saindo cedo dá pra chegar lá na hora do almoço.

De novo a situação do abrigo não é das mais exemplares. Ao contrário da Casa de Tábuas, esse é de alvenaria e tem fossa sim, mas próxima demais do curso d’água. Uma grande quantidade de papel higiênico se acumulava ali e dentro da casa velhos colchões juntavam poeira e mofo. Na entrada, latas de cerveja vazias. Decidi nem ficar: segui caminho pra completar os 12 km restantes até a Serra dos Alves.

De novo fácil e tranquilo, e também bonito e agradável, até lá é possível passar pelo cânion Boca da Serra e pelas cachoeiras da Lucy e dos Cristais. Vale a parada para uma refrescada.

Serra dos Alves é um paraisinho parado no tempo. Não pega celular, tem umas poucas dezenas de casas e é super agradável. Mas se você depender de transporte pra sair dali pode ser complicado – e caro.  Ônibus só às sextas-feiras, partindo de e para Itabira. Locais fazem o transporte até as cidades mais próximas, como Ipoema ou Senhora do Carmo, onde você pode pegar um ônibus para Itabira e de lá pra Belo Horizonte. Quando pedi informações no único bar aberto naquele dia me informaram que o dono de uma pousada fazia o serviço. Mas o carro dele não estava ali. A outra indicação foi o seu Geraldo, que me cobrou 200 reais para me levar até a cidade. Por sorte consegui uma carona. Portanto, planeje e programe-se.

A melhor fonte de informação sobre a travessia é o guia que o ICMBio colocou no ar em 2015 e está disponível aqui. Também existem boas trilhas marcadas no Wikiloc. Sugiro que salve pelo menos a Oficial ou a feita pelo pessoal do Trilhando!. Ah sim: a trilha é gratuita, mas é preciso se cadastrar nesse site pelo menos três dias antes do seu início. Vá que vale a pena. Não fique atrasando essa caminhada assim como eu.

AT, Ano 1. PCT, Ano 0.

Ano passado, nesse mesmo dia 23 de agosto, às 11h23 hora local, eu chegava ao topo da última montanha da Appalachian Trail, o Monte Katahdin. Terminava ali uma jornada de mais de quatro meses de caminhada por uma das cadeias montanhosas mais antigas do mundo. Terminava ali minha trilha que passou por 14 estados americanos, percorreu mais de 3.500 km, subiu ao topo de mais de trezentas montanhas. Uma trilha onde gastei três pares de sapatos, emagreci uns 12 quilos, me fez conhecer um outro lado de mim.

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Desde então muita coisa aconteceu. Minha mente já foi do “isso nunca mais” ao “quando é que vou fazer isso de novo”. Mostrei que nem tudo é tão bonito quanto parece e contei um pouco sobre depressão pós-trilha isso num texto para o Anuário 2017 do Extremos – que você pode comprar aqui. Pensei em nunca mais fazer trilhas. Dei algumas palestras sobre minha experiência e estou escrevendo um livro sobre isso. Caminhei o Circuito O de Torres del Paine no Chile com a Alê e foi uma experiência incrível (você pode ouvir o podcast sobre essa caminhada aqui). Pensei em nunca mais fazer trilhas (é, eu pensei muito sobre isso).

Mas recentemente isso tem mudado. A depressão pós-trilha passou e já faz alguns meses que venho pensando “poxa, eu realmente deveria fazer uma outra trilha longa, como eu tinha imaginado antes de fazer a Appalachian Trail…”.

Há algumas semanas comecei a pesquisar as possibilidades, sobretudo na Europa e Oceania. As trilhas dos Alpes devem ser lindas, mas nada muito longo como gosto. Além disso não é permitido acampar em boa parte da trilha. Santiago de Compostela é algo que só toparia fazer se Alê fosse comigo (o que pode acontecer em alguns anos. Ainda preciso de melhores argumentos para convencê-la). O Sentiero Italia, a maior trilha do mundo segundo algumas pessoas, ainda não está completamente estruturada. A Te Araroa, na Nova Zelândia, é uma que está no meu radar faz algum tempo, mas quanto mais pesquisava menos animado ficava. As trilhas da Austrália são incríveis, mas já conheço bem aquela lado.

E daí me lembrei de algo que havia pensado antes de me decidir pela AT, ainda em 2016. A AT não era minha primeira opção. Pelo visual, pela beleza das paisagens, eu havia pensado em fazer a Pacific Crest Trail, no oeste americano. Havia lido pouco sobre a trilha, confesso, mas pelas características do terreno optei pela AT,  por ter uma altimetria mais similar que o que encontramos aqui em Minas: montanhas, montanhas, montanhas…

“E se agora for a hora de fazer a PCT?”, pensei. E comecei a pesquisar um pouco mais…

É uma trilha mais longa que a AT mas por ser menos acidentada é possível caminhar em média 40% a mais (na AT minha média foi de 27 km, ou 17 milhas, por dia). É uma trilha que exige uma logística mais apurada para compra de alimentos. É uma trilha que se estende por regiões muito específicas – deserto, altas montanhas, planícies, florestas. Que passa do nível do mar a mais de 14000 pés, quase 4500 metros de altitude, no Monte Whitney, a montanha mais alta dos Estados Unidos Continental (ficando abaixo apenas do Denali, no Alaska). Que alguns brasileiros já completaram – além da Brazil Nut, a Rose Eidman a completou em duas jornadas – metade em 2016 e o restante em 2017. 2017 foi também o ano que o Guilherme Bromberg completou a trilha e em 2018 está sendo a vez do Edinho e da Bia percorrem o caminho.

A PCT cruza os Estados Unidos de cabo a rabo, literalmente – da fronteira do México ao Canadá. É um trilha mais técnica, que exige um período mais definido de início e término – comece muito depois no final de abril e saiba que você vai sofrer com a seca no deserto de Mojave e a neve no estado de Washington. Comece muito no início do mês e o perigo é não conseguir cruzar a Sierra Nevada, no centro do estado da Califórnia. É uma trilha que exige o uso de machado pra neve, de garras nos sapatos, que as pessoas sofrem com a seca e com o excesso de água e que é infestada de mosquitos.

A PCT é também a trilha que a Cheryl Strayed caminhou uma parte e serviu de inspiração para o livro e filme Wild (Livre no Brasil). O sucesso do livro e do filme, aliás, são motivo de preocupação para a Associação que cuida da trilha. Chamado de “Wild Effect” ele fez que o número de pessoas que tentassem a trilha crescesse exponencialmente nos últimos anos. Pra se ter uma ideia, em 2011, antes do livro ser lançado, 156 pessoas completaram a trilha. Em 2016 foram mais de 700 (2017 teve um número menor, 491, mas foi um ano extremamente difícil por causa da neve e queimadas). Isso fez com que a Pacific Crest Trail Association estabelecesse um número limite de pessoas que podem começar a trilha a cada dia – são 50, definidos em uma inscrição online que acontece em novembro.

Decidi que vou fazê-la no ano que vem. Com meu passo rápido e determinado de Speedy Gonzalez planejo começar na primeira quinzena de maio, enfrentar o calor do deserto e chegar antes do degelo em Sierra Nevada e completar a trilha ainda em setembro, antes da neve começar a cair na divisa com Canadá. Pra isso vou ter que fazer de novo em menos de 5 meses.

PCT 2019. 4.290 km. 150 dias caminhando. Ou menos.

PCT 2019. Faltam 8 meses. A contagem regressiva já começou.

Dicas pro seu final de semana – se você for ficar em casa

capa.jpgEspero que você saia e faça alguma atividade no meio do mato esse final de semana. Mas se for ficar em casa aqui estão algumas dicas para o seu final de semana:

Fiquei impressionado com a Barkley Marathons. Nunca tinha ouvido falar até comentarem comigo do documentário que está rolando no Netflix. The Barkley Marathons: The Race That Eat Its Young conta a história da prova que em 25 anos de história apenas dez corredores que conseguiram completar. Peculiar, diferente e cheia de surpresas (o horário do início da prova, por exemplo, só é avisado para os competidores uma hora antes) a corrida é inspirada na fuga de um presidiário e acontece nas montanhas nas proximidades de uma pequena cidade do Tennessee. É uma prova sofrida, cheia de particularidades e o documentário vale uma hora e meia do seu tempo. Vai por mim.

Também é bem bacana o filme This is Not a Beautiful Hiking Video, do austríaco Peter “Chopper” Hochhauser. Gravado na Pacific Crest Trail em 2016, ele é o inverso do que o título prega. O curta (são menos de 10 minutos) tem boa fotografia, história da caminhanda bem contada, edição de imagens e correção de cores bem feitos. Tudo isso já rendeu ao vídeo meio milhão de visualizações no YouTube. Nesse link ele responde a algumas perguntas sobre a caminhada e o processo de realização do filme.

Falando em PCT, tenho acompanhado a jornado do Edinho e da Bia do Sua Casa é o Mundo. Os  brasileiros estão lá esse ano e cem dias de caminhada acabaram de cruzar a fronteira da California com Oregon. Além do blog eles mantém também um canal no Youtube e já gravaram alguns podcasts com o Elias para o Extremos.

A Martins Fontes tem colocado alguns bons livros sobre caminhada no mercado. Além do essencial “A História do Caminhar” da Rebecca Solnit e do incrível “Caminhar, Uma Revolução” do Adriano Labbucci agora é a vez de “Nascemos para Caminhar”, do canadense Dan Rubinstein. O livro estava com 40% de desconto no site da editora na semana passada, quando comprei, mas agora o melhor preço é nas Americanas (de R$39,00 por R$27,30 mais correio). Ainda estou nas primeiras páginas, mas tenho gostado bastante do que li até aqui.

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Também incrível é o trabalho que a Duda Menegassi. A jornalista e fotógrafa escreve para site O Eco e tem acompanhado de perto o projeto de implantação de trilhas de longo percurso no país. Tão de perto que acabou de lançar o livro “Travessias: Uma Aventura Pelos Parques Nacionais do Brasil”. O projeto é fruto da parceria entre O ECO e o ICMBio – Instituto Chico Mendes da Biodiversidade e traz textos e fotos de onze trilhas, incluido a Serra Negra, no Parque Nacional do Itatiaia; a Trilha Chico Mendes, no Acre e a Capão x Lençois, na Chapada Diamantina. Fundamental, o PDF gratuito do livro pode ser baixado aqui.

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Dica pra quem se interessa pela criação do circuito de trilhas de longa distância no país: diversos workshops, seminários e multirões estão pipocando aqui e ali. Em Minas a Transespinhaço já teve parte de seu percurso demarcado e 3º Seminário acontece dia 1 de setembro em Ouro Preto. A Transmantiqueira também já tem parte de sua sinalização pronta e o 5º seminário acontece esse final de semana em Itamonte. A melhor forma de acompanhar os trabalhos e se informar sobre os seminários é pelas páginas nos links acima. Só seguir e se informar.

Pra terminar, um dos poucos equipamentos que não abro mão em caminhadas é o Spot Gen 3. Me sinto seguro e mais que isso: deixo seguro quem fica em casa me acompanhando, já que o bichinho envia minha localização a cada 5 minutos pra um site. E você só tem esse final de semana pra aproveitar a promoção da Spot Brasil, que está dando 50% de desconto nos produtos e 25% de desconto na anuidade. Sim, vale a pena. E só vai até segunda, dia 20. Como diriam os Mutantes: não vá se perder por aí… O link direto para a promoção é esse.