Pacific Crest Trail S01E30

A trilha da trilha: Offspring – Cruising California

Sempre me perguntam se a trilha que estou fazendo é a do filme Livre, baseado no livro de Cheryl Strayed de mesmo nome (Wild, no original). É, mas tudo o que tinha feito até hoje ela não fez. O livro começa justamente no trecho da trilha que comecei hoje, na Highway 58, na cidade de Tehachapi.

Pra chegar até ali a gente se programou de pegar o ônibus que passa na porta do hotel. Mas Tyler olhou o horário errado e quando chegamos no ponto pro ônibus de 12:15 descobrimos que esse é o horário da estrada pra cidade. No sentido que a gente queria ele já tinha passado há meia hora e o próximo só às duas.

Ed e eu botamos o dedão pra fora pedindo carona e em quinze minutos alguém parou pra nos levar. Com três espaços livres no carro, Lost Boy e Tyler ficaram pra trás, mas não demorou pra também conseguirem transporte.

A uma da tarde estávamos os cinco no local onde Cheryl começou a trilha.

Pode parecer descaso, mas o fato é que não senti nem um pouco o sofrimento que ela descreve. Minha mochila estava pesada, não tanto quanto a Besta, mas levava seis dias de comida. Havia pensado em mandar de volta umas coisas que não to usando (uma câmera, microfone, uma camiseta) e tinha desistido. De nós cinco, eu e Tyler somos os que estamos andando mais pesado. Talvez por isso os outros três tenham disparado na frente.

Mesmo com a subida considerável do início o dia foi tranquilo. Até demais. Não curto dias que não tenho muita coisa pra contar aqui. É bom quando é cheio de emoções, causos, situações inesperadas. Dias como hoje são monótonos.

Durante as quase seis horas de caminhada e 28 quilômetros quase nada aconteceu. O objetivo era chegar ao único lugar de água do dia, que a gente contava que ainda não havia secado (os comentários do app diziam que não) mas que a gente não sabia se tinha lugar pra acampar (os comentários do app não diziam).

Cheguei às 6:50 e Break Away já estava com sua barraca montada. Lost Boy estava ali, mas não iria ficar: queria chegar ao camping 6 quilômetros adiante. Tyler chegou logo depois de mim. Ed mais tarde.

Ainda em região de ventos fortes, montei minha barraca ao lado de um grande carvalho, um dos que dá nome ao riacho. Não sei se Cheryl ficou aqui. Se tivesse ficado tenho certeza que teria curtido.

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Pacific Crest Trail S01E29

A trilha da trilha: Eagles – Hotel Califórnia

Como havia chegado na cidade no dia anterior, Abel deixou a gente logo cedo em um restaurante e fui ao Best Western, onde tinha feito uma reserva, pra tentar um early check-in. Eram dez da manhã. “O check-in é às 15h. O mais cedo que consigo pra você é às 13h”, disse a atendente. Tá ótimo. Sentei no lobby pra terminar o segundo podcast (tá no ar, já ouviu?) e fiquei observando a movimentação. Um bando (acho que o melhor aqui é corja…), uma corja de hikers ia chegando tentando a mesma coisa. Deixavam a mochila no lobby, atacavam as sobras do café da manhã, saiam pra comer alguma coisa. Eram uns 30, talvez mais.

Tyler, Ed e Lost Boy chegaram logo depois e fizeram a mesma coisa: largaram a deixaram as mochilas no chão e foram ao supermercado fazer compras pra próxima semana. “Não, vou ficar por aqui. Preciso terminar essas coisas”, eu disse.

Eles voltaram quando eu pegava a chave do quarto. Nos amontoamos os cinco (Break Away também estava com a gente) no quarto com duas camas de casal embaixo da escada.

Escolhemos ficar no hotel e não em algum trail angel pela possibilidade de usarmos a piscina. Mas o dia estava tão quente que passamos a tarde toda no quarto com o ar condicionado no talo.

Com o podcast no ar foi hora de ligar pro meu convidado do terceiro episódio e conversar sobre Sierra Nevada. Neve, travessia de rios, mortes, beleza natural, superação e desafios. Vai estar tudo no próximo programa.

A noite foi a vez de irmos ao buffet de comida chinesa da cidade. Por $12.95 você come o quanto quiser – agora imagina o poder de destruição de cinco caminhantes famintos.

Quando voltei pro hotel (como não tinha feito às compras mais cedo fiquei no supermercado enquanto os meninos voltaram) a corja havia tomado conta da piscina. Os meninos estavam no quarto: “tem gente demais por lá. A gente achou melhor ficar por aqui mesmo…”

Sentei num canto e escrevi o texto para O Eco, que deve entrar no ar nos próximos dias. Aviso quando for publicado. E carreguei no app o novo trecho da trilha, daqui de Tehachapi até South Lake Tahoe. Mais 800 quilômetros de caminhada pela frente.

Um dia de folga e consegui fazer quase tudo que precisava. Agora preciso editar os vídeos, escrever o texto em inglês pro The Trek, dar uma ajeitada na minha mochila, que está mais pesada que eu gostaria. Mas essas coisas vão ficar pro próximo dia de folga, daqui a uma semana.

Pacific Crest Trail S01E28

A trilha da trilha: Johnny Mercer & The Pied Pipers – The Hills of California

(Tem episódio novo do podcast no ar. O link tá no perfil)

Tehachapi na língua da tribo Kawaiisu, que habitava o vale da região, significa “montanha difícil”. É isso que começo a fazer amanhã, quando deixar a cidade. Mas antes disso tenho uma coisa pra contar: eu pulei 8 milhas da PCT. Não fiz. Não vou fazer. Sem dor na consciência.

É que a trilha corta duas estradas que levam à cidade de Tehachapi. Primeiro na Willow Spring Road, onde parei ontem. Depois a trilha corta a Highway 58. O plano era voltar pra trilha hoje e andar esse trecho de 12 quilômetros. Mas achei melhor ficar na cidade. Ninguém vai me condenar por isso, eu acho.

Ou vai?

Os dois últimos dias foram intensos. Caminhar a noite, 60 quilômetros num dia, sol de 40 graus no outro, subidas, muita gente na trilha,

pouca água… quando acordei o sol já tava quente. Nascendo às 5 e se pondo às 8 da noite, são 15 horas de sol todo dia. E a temperatura fica em torno dos 35, 36 logo cedo.

O trecho cruzava mais um campo de energia eólica: dezenas, centenas de turbinas. Sobe morro, mais morro, mais morro… E depois desce até a única água do trecho. E sobe, sobe, sobe…

Eu segui tentando acompanhar Break Away, o coreano que se juntou ao grupo recentemente. Não vi mais nenhum dos outros todo o dia. E quando paramos na água comentei que não teria sentido acampar perto da estrada, já que estávamos tão perto da cidade.

Break Away concordou e ligamos para alguns Trail angels quando chegamos na estrada. Abel concordou em ir nos buscará nos levou pra sua casa – onde já tinha um casal de caminhantes – e passamos a noite ali. Foi ali, no deck da casa de Abel, comendo uma pizza, que decidimos não andar o próximo trecho.

Pela manhã Abel nos deixou no centro. O plano é ir para um hotel na cidade, onde reencontramos o grupo e dividimos um quarto. Hotel com piscina, claro. Pra aliviar do calor.

Pacific Crest Trail S01E27

A trilha da trilha: Squarepusher – Aqueduct

Acordei com o nascer do sol mais bonito da minha vida. Talvez por esse motivo eu estava tão emotivo pela manhã. Tentei ouvir o Podcast “Desert Island”, da BBC, onde a/o entrevista/o seleciona oito discos que levaria para uma ilha deserta, alguém escolhe Nina Simone, ela começa a cantar e eu caio no choro enquanto caminho. Resolvi mudar para Radio Ambulante, um podcast em espanhol sobre a América Latina, o tema é a Venezuela e as pessoas que, ao contrário de mim, precisam sair dali caminhando não por diversão ou opção mas porque não existe outra forma senão andar por dias até outro país, e caio no choro de novo. Resolvo não ouvir nada, apesar da trilha estar monótona e o dia quente.

Eu não iria parar pra ver o urso morto (pr quê?) e só me restava andar, tomar uma gole de água, limpar o suor, tomar mais um gole água, limpar as lágrimas e andar de novo.

A programação era ir até Hiker Town (um hostel montando como uma cidade do velho oeste). Mas quase chegando lá encontro com Tyler e Ed e decidimos pegar uma carona e ir até WeeVill, uma lanchonete algumas milhas mais longe mas com uma reputação melhor no aplicativo.

É um lugar simples, uma loja de conveniências com um puxadinho do lado onde os caminhantes podem ficar. Como vendem um double bacon burger barato ($8.99) e cerveja, atrai muita gente: era pelo menos meia centena de gente por ali. Todos comendo, bebendo e esperando o sol se por para encarar o aqueduto: um trecho de 27 quilômetros plano e fácil, mas sem sobras ou água.

Saímos todos as sete da noite, mas as coisas não saíram como planejado: Lost Boy resolveu fazer ali o desafio 24x24x24 (24 milhas em 24 horas tomando 24 cervejas) e tombou faltando 7 cervejas e pelo menos 10 milhas. Tyler ficou com ele pra ajudar. Mantis parou para um descanso faltando algumas milhas e não o vimos mais. Ed chegou na milha final esbugalhado, assim como eu e Brake Away, o coreano que está caminhando esses dias com a gente. Como nosso grupo ia no pelotão de frente não vi, até pela manhã, os outros mais de quarenta caminhantes da madrugada.

O trecho é longo e monótono. E depois de quase 60 quilômetros no dia você está um bagaço. À meia noite foi chegar, montar a barraca e apagar, pra acordar com o sol já quente às seis. Objetivo do dia é chegar à estrada para Tehachapi.

Pacific Crest Trail S01E26

A trilha da trilha: Eartha Kitt – Monotonous

Viver na trilha é como viver em qualquer outro lugar. Alguns dias são mais excitantes que outros. A vida é assim. Tem dia que acontece um monte de coisa, outros que não acontecem nada.

Hoje foi desses dias parados. Bem, depois de vivenciar Hiker Heaven e Casa de Luna tudo o que poderia vir a acontecer na trilha não seria tão bacana quanto esses últimos dias.

Vejamos: saímos de Casa de Luna às oito, depois do café, das panquecas e da foto. Ficamos meia hora na beira da estrada tentando uma carona que não rolava, até um Trail angel que levava outros hikers pra trilha – que fica a 4 km da cidade – voltar e pegar a gente (eu, Ed Rusty e Tyler Change).

Como saímos tarde (a gente começa a andar normalmente às seis, sete no máximo) e ainda demoramos na carona, a trilha estava cheia: toda a turma que havia passado a noite na Casa de Luna.

O percurso começava com três quilômetros de uma forte subida, seguindo de uma grande descida de quase dez quilômetros, outra subida gradual de quase 17 quilômetros para então descer até chegar ao camping. Água era um problema – nos 30 quilômetros do dia, só um ponto confiável.

Seguia na frente e íamos passando a maioria dos outros caminhantes. Quando chegamos na base pra grande subida, avisei ao Ed: “se prepara que são quase 11 milhas de subida”, eu disse. “Eu estou pronto”, ele respondeu. E disparou morro acima.

Não lembro quando Tyler se separou, mas jurava que ele tinha ficado pra trás, até chegar no camping e encontrar ele e Ed perto da água.

O dia não teve surpresas: sol, sobe e desce tranquilo, gente, mosquitos, duas cobras que espantei com o bastão de caminhada… Surpresa talvez tenha à noite. Tem um urso rodando a região e hoje, pela primeira vez na PCT, dependurei minha comida. Estou dormindo na barraca sem a cobertura pra chuva, então se ele aparecer pra pegar a comida vou poder vê-lo.

Essa noite eu não sei, mas amanhã eu tenho certeza que vou ver um: segundo os relatos, um urso preto morreu no poço de água que tem a poucos quilômetros daqui e já está se decompondo. Por isso estou carregando um pouco mais de água daqui. A vida é assim…

Pacific Crest Trail S01E25

A trilha da trilha: Smash Mouth – Pacific Coast Party

Ontem contei sobre o Hiker Heaven, de como a coisa lá é organizado e bem administrada, de como tudo roda bem e tranquilo e hoje estou no Casa de Luna, que está no lado oposto em termos de organização. Pra chegar aqui são 40 quilômetros desde Agua Dulce. A trilha é tranquila, apesar do sol e de alguns morros. A caminhada ainda foi aliviada por dois Trail Magics que encontrei pelo caminho. Gatorade, chocolate, frutas. Nada mal.

Quando chegamos – eu e Tyler, agora Change, já que vive achando moedas na trilha – na estrada de San Francisquito Canyon, que leva até a cidade de Green Valley, conseguimos carona com o primeiro carro que passou, que nos deixou no posto de gasolina, a poucos quarteirões da Casa de Luna.

A Casa de Luna é a casa dos Andersons. O

lugar é, segundo eles próprios, um Hippie Daycare. Na entrada, ao lado dos banheiros químicos colocados na rua e de sacos e sacos de lixo, estão meia dúzia de sofás velhos e uma cozinha improvisada. Na outra ponta tem uma mesa com tinta e pincéis para que os hikers possam pintar pedras e colocá-las onde quiser na casa. O povo fica ali, relaxando, descansando, comendo e bebendo. As regras da casa estão na parede atrás dos dois grandes lençóis assinados por todos que passaram aqui esse ano (umas 2000 pessoas). As regras são simples: 1) dar um abraço na Terri. 2) vestir uma camisa havaiana. 3) passar pelos portões e achar um lugar pra montar sua barraca na florestinha nos fundos da casa…

Eles servem jantar – sempre a mesma coisa: taco salad – e cafe da manhã – panquecas.

A florestinha onde você acampa é incrível. Uma longa trilha por entre galhos e árvores, com pedra pintadas por todos os lados e barracas e gente cowboy camping. Tirando os insetos e abelhas, é uma delicia de lugar.

A Casa de Luna é um dos vórtex da trilha: os caminhantes chegam ali e ficam uma, duas, cinco noites, fazendo festa e sem querer continuar a caminhada. É uma zona, mas é bacana. Se tem um lugar que exemplifica o termo hiker trash é Casa de Luna.

Depois do jantar todo mundo tem que dançar para ganhar a bandana “oficial” da PCT. E depois café da manhã, antes de voltar pra trilha, todos têm que tirar uma em grupo. E se você ver as fotos no página deles no Facebook todo mundo está gargalhando. Não dá pra falar porquê. Tem que estar lá pra saber.

“Tomou seu café? Comeu panquecas? Tirou sua foto? Então dá o fora daqui. Se vocês não forem embora como vou sentir saudade de vocês?”, me disse Terri depois que dei nela o abraço de despedida.

Casa de Luna. Que lugar…