Appalachian Trail S01E12

Dia 12: Cody Gap (155.7) a Birch Spring Gap (171.8). Distância oficial: 16.1 milhas. Minha marcação: 24,7 km, 42.264 passos, 220 andares. Distância Total Oficial: 290,65 km

Quando você se propõe a fazer uma coisa dessas, andar 3.500 km, você sabe que está abrindo mão de um mundo de coisas. Do conforto da sua casa, da comodidade que a tecnologia lhe proporciona, de trabalhos que poderia fazer. Mas mais que isso um projeto pessoal como a Appalachian Trail te separa das pessoas que você gosta. E quando algo que é marcante na vida dessas pessoas acontece e você não pode estar perto, essa é a pior parte da caminhada.Venho me preparando emocionalmente há tempos pra isso. Quando planejei a viagem eu sabia não iria ao cinema com a Jade nas férias, que não veria a festa junina da Lis, que não comemoraria com a Tati e a Ale os aniversários delas. Vinha me exercitando, tentando prever minha reação pra quando esses dias chegassem. E o primeiro chegou. E não foi nada como eu tinha planejado.

Passei as quase dez horas de caminhada hoje pensando na Ale. A cada um dos 42.264 passos que dava minha mente ia a um ponto desses 23 anos de relação. Fiquei pensando na menina mais bonita faculdade, no início de namoro meio inesperado, nos perrengues que passamos juntos. Nas vezes que por bobeira minha eu quase a perdi. Nas risadas, nas bobagens, nas viagens, nas poucas discussões. Em quando eu ia de ônibus pega-la no shopping que ela trabalhava, nas noites que ela passava comigo quando discotecava. Na chegada das netas, nos amigos que fizemos juntos nesse tempo. Andava e minha cabeça ia me trazendo esses momentos.

Tenho a sorte de estar junto da Ale há quase meio século. Mais da metade da minha vida foi ao lado dela. E por todo esse tempo ela continua sendo a pessoa mais amável, bondosa, talentosa e especial que conheço. É uma pessoa iluminada. E a cada dia que passo quero estar mais junto, envelhecendo junto, como a gente falava há 23 anos. 

Ale apoiou 100% a minha ideia de passar cinco meses caminhando. Ela sabe o que isso me propicia. Por isso ela deva estar encarando essa data bem melhor que eu, que já derramei algumas lágrimas de saudade. Não se chora na trilha, é o que dizem. Mas não resisti. Não saiu como eu tinha planejado…

Além de choro e saudades o dia hoje foi de, adivinha? Subidas e descidas. Sempre. Se você é de Belo Horizonte é fácil imaginar: pense que você more na Cristina com Leopoldina. A rua não é ainda asfaltada, mas de terra, cheia de pedras e raízes. Choveu ontem, então tem lama também. Agora pense que você precisa ir até a Contorno e voltar. Agora repita essa percurso por 10 horas. É mais ou menos isso.

O que deixou o caminho especial foi a entrada no Great Smoky Mountains National Park. O Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes. O bicho papão da primeira metade da trilha. O ponto onde metade dos caminhantes desistem. O ponto mais alto da Appalachian Trail. A única parte onde é preciso pagar. O lugar onde você é proibido acampar: precisa ficar obrigatoriamente em um dos abrigos. 

Desde o início da AT as Smoky Mountains rondam o imaginário dos caminhantes. Pra chegar nela é preciso antes passar em Fontana Damn, uma vila/hotel às margens de uma represa. Lugarzinho pra milionários, que ficam passeando entre a marina e o hotel em carros conversíveis a 20 por hora. Como este é o único local “civilizado” antes das Smokies todos os caminhantes dão um passada ali pra comprar algum item ou pegar sua caixa com mantimentos. A minha meus anjos Ingrid e Yoav haviam mandado na semana passada. Comida para 5 dias, suficiente para atravessar o parque.

Pra chegar ao hotel, onde minha caixa me esperava, é preciso pegar um van do próprio hotel (3 dólares cada trecho) ou andar mais 6 milhas no total. E pra pegar a caixa o hotel te cobra mais 5 dólares. Cheguei cedo e meio dia já seguia em direção ao parque. Antes é preciso cruzar a represa e passar pelo luxuoso – para os padrões da trilha – abrigo de Fontana Damn. Tão luxuoso que é carinhosamente chamado de Fontana Hilton. Lembra que falei dos abrigos como sendo pontos de ônibus? O Hilton não. Tem banheiro (banheiro mesmo, não uma fossa como nos outros) e luxo dos luxos, chuveiro. 

A partir dali é subir, subir e subir. A natureza colabora: flores brancas e rodas, diversos tons de verde, nascentes. Andei 5 milhas (8 km) parque a dentro (ou melhor: parque a cima) e parei no único local onde é possível acampar pela próxima semana. Precisava hoje de um dia sozinho, quieto, sem gente falando. Um dia pra ficar pensando na Ale. Parabéns meu bem.

Appalachian Trail S01E11

Dia 11: Nantahala Outdoor Center (137.3) a Cody Gap (155.7). Distância oficial: 18.4 milhas. Minha marcação: 31,8 km, 53.663 passos, 385 andares. Distância Total Oficial: 264,74 km

A grande preocupação de todo mundo que encontrei no NOC ontem era a subida de hoje. O mapa assustava: mais de 2000 pés de elevação. Acordei e saí preparado pra ficar já no primeiro shelter…

A subida foi braba, mas não tanto quanto eu tava imaginando. Cheguei ao Sassafras shelter inteiro e continuei andando. O que matou não foi essa subida, mas a soma dela e das outras que vierem na sequência. Essa é a história da AT: o que pega é o todo, não um trecho em particular.

Esse lado da Carolina do Norte não sofreu com as queimadas do ano passado, então a natureza tá deslumbrante. Árvores enormes, flores de vários tipos, quedas d’água, bicas. Trechos de pedras com lodo, outros de terra. Foi gostoso andar.

A primeira parte da manhã, como sempre, tudo fechado. Neblina, a sensação era que caminhava dentro da nuvem. O tempo só foi abrir no final do dia, o que ainda garantiu um vista do vale.

Em um dos cruzamentos com a estrada – a trilha fica o tempo todo próxima a estradas, sejam elas de terra ou asfaltada. A gente nunca tá longe da civilização – alguém deixou meu primeiro Trail Magic. Em cima de um mesa de piquenique alguém deixou várias maçãs. E uma banana. Fui nela de cara. Antes de acabar de descascar a banana quebra e cai no chão. Sem cerimônia pego, tiro a areia que cobria a banana que nem empanado e como a fruta. Mas eu não iria deixar passar aquela banana era de jeito nenhum! Depois ainda comi mais duas maçãs – pode ser a fome, mas achei as melhores que já comi na vida.

Vinha caminhando meio que perto do Greg, que tinha conhecido no jantar ontem. Além dele estavam na mesa o Jacob e o Matt e a Gretchen, um casal de Maine que parecia que já conhecia todo mundo. Foram eles que chegaram quando eu terminava a segunda maçã. Saímos juntos, mas essa moçada – todos ali na faixa dos 20 e poucos – caminha bem mais rápido que eu. Principalmente nas subidas. 

Passei batido também pelo próximo shelter, onde eles provavelmente estariam. E acabei andando 18 milhas. Como o próximo shelter ainda está a 2 milhas daqui, parei na primeira lareira que não tinha ninguém e montei minha barraca. Minutos depois chega o Frank, professor de inglês na Coreia do Sul. E já tem umas duas horas que não passa ninguém na trilha, em nenhum dos lados. Então essa noite vai ser isso. Pelo menos o tempo abriu e apesar de frio ainda tem sol lá fora, às 7:30 da noite.

Appalachian Trail S01E10

Dia 10: Wayah Bald Shelter (120.8) a Nantahala Outdoor Center (137.3). Distância oficial: 16.5 milhas. Minha marcação: 27,1 km, 45.203 passos, 200 andares. Distância Total Oficial: 235.12 km

Minha mochila estava pesando pelo menos uns dois quilos a mais por causa da roupa molhada. As meias também estavam. O sapato, encharcado. Saí do Shelter com a roupa que dormi, coloquei por cima uma blusa de manga comprida e a jaqueta. A meia molhada ia fazendo fricção no tênis, completamente sujo de barro. A trilha tinha hora que parecia uma raia de piscina, de tanta água. Se não era assim, era o barro. Tinha que sair pisando no mato e procurando os pontos mais altos – uma pedra, por exemplo- pra evitar não enfiar ainda mais o pé na lama (e olha que de enviar o pé na lama eu entendo…).

Imagina um abrigo de ponto de ônibus. Duas paredes laterais, uma parede no fundo, um teto inclinado. Agora imagina isso feito de madeira, com uns 2 metros de altura, uns 2 de profundidade e uns 4 de largura. É assim um abrigo típico na Appalachian Trail. São chamados de Shelter e estão dispostos a mais ou menos uns 10 quilômetros um do outro. São vários, mas eu tenho evitado usar, porque na maioria das vezes são enfestados de ratos. Mas ontem não teve jeito. Com a chuva caindo o dia inteiro, eu ensopado, no primeiro shelter que passei eu fiquei. Tava andando com o Jacob, que ainda ficou em dúvida. Eu não: primeira vaga que abriu (a regra nos shelters da AT é clara: quem chegar primeiro tem direito) tratei de colocar meu saco de dormir no lugar. Quando a gente chegou tava cheio, mas felizmente pra gente as pessoas foram encarando a chuva. Exceto um cara que já tava ali a dois dias…

Esse Shelter especificamente era pra 6 pessoas. Quando chegamos tinham 6. E um cachorro gigante (sério, nunca vi um bicho tão grande). As outras duas pessoas que desistiram o Nick e o Jacob pegaram. Ficamos eu, os dois, o cara que tava morando ali a dois dias, a dona do cachorro e o cachorro. A tarde foi chegando e ela não aguentou: ligou pro marido e pediu pra ele ir buscá-la. Antes distribuiu a comida que tinha desidratado em casa pra gente. A trilha pra ela terminava ali.

Caímos os quatro no sono e quando acordei deviam ter umas 20 pessoas se amontoando no abrigo. Gente dependurando rede, fazendo varal pra secar roupa, tentando se encaixar em cada pedaço de madeira ou terra seca que ainda existia. A chuva continuava e a temperatura tinha caído muito – beirava zero grau. Só cheguei meu saco de dormir um pouquinho pro lado, botei o fone e voltei a dormir. 

Pela manhã a multidão tinha se dissipado. Um tanto tinha ido embora, outro tanto montado barraca ali perto. Éramos 6 onde deveria ser isso mesmo, mas ainda tinha um sujeito numa rede enfrente à gente. O dia estava fechado, mas dava pra ver que não iria chover mais. Botei toda a roupa molhada numa sacola, um calção seco por cima da ceroula que tava usando, as meias molhadas e os tênis encharcados e saí por volta das sete.

Uma das vantagens de tênis sobre botas é que o troço seca rapidinho. Evitando as poças e a lama, ainda na parte da manhã meus pés já estavam secos. O dia ficou encoberto, sem dar pra ver nada da paisagem. Só chegando no destino do dia a coisa mudou. O dia clareou e a vegetação mudou pra quase uma Mata Atlântica, com muito verde e cachoeiras. 

O NOC – Nantahala Outdoor Center é um espaço gigante dedicado à esportes de aventura. Caiaque, bote, bike, trekking, tem de tudo aqui. Além de um albergue, dois restaurantes e uma loja de equipamentos. Com essa infra deu pra lavar e secar as roupas, comer uma pizza, comprar gás que tá acabando e recuperar as energias pra amanhã: 16 quilômetros de subida, mais de mil metros de elevação.

Appalachian Trail S01E09

Dia 09: Winding Star Gap (109.8) to Wayah Bald Shelter (120.8). Distância oficial: 11 milhas. Minha marcação: 16.2 km, 28.785 passos, 204 andares. Distância Total Oficial: 208.57 km

Uma noite num Hostel, com banho quente e cama – mesmo que o colchão seja inflável como no de ontem – faz toda a diferença. Capotei, como costumo dizer. Fui dormir não mais que 8 da noite, mesmo com o barulho das outras pessoas jogando baralho e tomando cerveja, e acordei por volta das seis. A primeira carona sairia 7:30, pelo que tinha dito o Beast, o responsável pelo lugar. Acordei cedo e fiz a pior coisa que se pode fazer em um albergue: acordei as outras pessoas. Duas vezes. Primeiro, quando fui pegar o celular, sem querer dei o play no podcast que tava ouvindo na noite anterior. “The following program contain explicit material…” saiu nos alto falante do celular… Era um podcast anti-Trump, o Trumpcast. Droga. Desliguei o mais rápido que pude. Escovei meus dentes e no retorno meu despertador toca. Droga dupla. “Sorry guys…” Estava acabando de empacotar minhas coisas quando uma das pessoas veio me perguntar que horas era o primeiro transfer. Era o White Walker.

O cara acabou esquecendo os bastões de caminhada e teve que voltar. Acabou passando a noite também no albergue. Fomos juntos na van do Seven até onde tínhamos parado ontem. O Seven é aquele tipo de cara que minha mãe diria pra nunca entrar no carro. Mau encarado, cabeça raspada, tattoos nas mãos e pescoço e sempre um cigarro na boca, ele dirige uma van com os vidros traseiros pintados. Mas o cara é gente boa. Uma celebridade no mundo AT do YouTube, sempre com dicas boas. “A única coisa que o YouTube me ajudou até agora foi conseguir mais namoradas. Antes eu tinha dois dates por agora. Agora… man…” me diz ele, ascendendo mais um cigarro.

O final do dia foi tenso. No final da tarde, arrumando minhas coisas, sei falta do meu cartão de crédito. Tinha usado pouco antes do almoço pra pagar o AppleCare, que tinha comprado online. Fui almoçar, paguei em dinheiro. E cartão não estava onde deveria. Nem no sofá que eu estava sentado mais cedo. Voltei no Lazy Hiker e também não acharam. Droga tripla. Liga pra Embratel, liga pra Amex a cobrar, cancela o cartão. O jeito vai ser usar o de débito até o final. E dar o jeito de não perder esse também.

Tinha chovido a noite inteira. E o dia continuava úmido. A chuva caindo, vento frio e eu e o White Walker caminhando. Seguimos perto por umas horas, até ele ficar pra trás. E mais chuva, e mais frio, e mais umidade. Pelo visto não iria parar. Por volta das 9h passei pelo Nick, que tinha ficado comigo no Top of Georgia. E pouco depois encontrei o Jacob, que também tinha ficado lá. Com a chuva aumentando, eu já estava completamente ensopado. Pés, mãos, pernas, ossos. Tudo molhado, sujo de barro e gelado. Parei no primeiro Shelter que apareceu e resolvi dar o dia por encerrado por depois de uma da tarde. Melhor me trocar, colocar uma roupa seca e entrar no saco de dormir. Ficar aquecido e descansar. Por hoje deu.

Appalachian Trail S01E08

Dia 08: Long Branch Shelter (102.3) a Winding Star Gap (109.8). Distância oficial: 7.5 milhas. Minha marcação: 11.6 km, 19.026 passos, 78 andares. Distância Total Oficial: 190.8 km

A trilha é muito bem demarcada. Uma faixa de terra batida, com 50 centímetros de largura, que sobe cortando as montanhas de um lado e desce do outro. Além de terra, o piso é quase sempre cheio de raizes e pedras, o que requer atenção permanente. Nas laterais, uma linha de terra mais solta segue a trilha principal, quase que demarcando onde você deve ficar. Foi feita pela ponta dos bastões dos caminhantes que passaram por ali antes. Em subidas e descidas mais pesadas é normal ter escadas feitas de troncos pra ajudar quem ali passar. E como a trilha vai sempre montanha acima ou abaixo, de um lado você tem um ribanceira, do outro uma pirambeira. Árvores dos dois lados, que só deixam de existir ou raleiam quando você está perto do topo.

Foi numa dessas, já com poucas árvores entre eu e o horizonte, que resolvi botar o pé pra fora da trilha. Queria fotografar a paisagem, que naquela hora da manhã tava encoberta de névoa. Foi só eu botar o pé pra fora que ouvi o aviso: “aí tá de boa. Se der mais um passo vai se ver comigo”. Não era guarda florestal: era o chocalho de uma cascavel. De um pulo de dois metros, apesar do peso da mochila, e voltei pra trilha. A foto ia sair mesmo com os galhos em primeiro plano.

Tinha planejado andar o que vinha fazendo normalmente para chegar em Fontana Damn na segunda, mas no caminho vi que não fazia sentido. Desde o início tinha previsto em chegar lá dia 25 e chegar um dia antes não iria ajudar em nada. Já estava andando há uma semana e um dia mais tranquilo iria ajudar. Era pouco mais de 9 da manhã quando saí da trilha é peguei um transfer para um Hostel em Franklin, Tennessee. A primeira surpresa foi ver que o motorista da van era o Seven, um cara que tem um canal no YouTube com vídeos sobre a AT. E a segunda foi que quando eu abro a porta da van, tipo uma dessas kombis sem banco, tá lá o White Walker sentado no assoalho do carro…

Achei merecido um nero. Tinha umas coisas pra resolver que do meio da trilha, onde a internet não pega direito, não estava conseguindo. Tinha que combinar com o pessoal da Moment Lens pra mandar entregar em Fontana Damn um novo suporte. As lentes são ótimas, mas o suporte é um adesivo que vai colado no corpo do seu telefone. Talvez por causa da umidade o meu descolou. E sem ele não consigo usar a lente. A Moment diz que não sabe se consegue entregar a tempo. Mas se for pra ficar carregando a lente sem ter como usar prefiro devolver. Como hoje é sábado, só na segunda pela manhã vou saber se terei o suporte na terça. Outra coisa é que precisava comprar um AppleCare pro telefone. Tô com medo de com essa umidade e condições aconteça alguma coisa e a garantia não cobre. Então comprei um plano extra, que cobre inclusive vidro trincado, o que pode facilmente acontecer.

Passei a tarde na agradável Franklin. Nada muito o que fazer, mas tem uma cama pra passar a noite e uma cervejaria artesanal, onde pude tomar uma Ale, comer um bom sanduíche e ver a vida passar, atualizado o blog. Brook, o White Walker, não iria dormir por aqui. Veio só tomar um banho e lavar as roupas e já seguiu. Mas tenho certeza que vou encontrar com ele novamente.

A trilha tem quase um dialeto, usado pela comunidade. Palavras que são usadas num contexto próprio da trilha. Zero, por exemplo, é quando o caminhante não acrescenta nem uma milha ao seu histórico. Ficou na cidade, de bobeira, perna pro ar e tomando cerveja? O caminhante tirou um zero, um dia off. Mas, se por outro lado, ele andou um pouco mas tirou o resto do dia pra descansar, ele tirou um Nero, ou “near zero” (quase zero). Apesar de hoje eu ter andado o mesmo que muita gente vem andando até aqui (foram 7.5 milhas), pra mim foi um Nero. 

Appalachian Trail S01E07

Dia 07: Deep Gap (85.4) a Long Branch Shelter (102.3). Distância oficial: 16.9 milhas. Minha marcação: 24,2 km, 42.039 passos, 172 andares. Distância Total Oficial: 178.8 km

Vovô, vira o lobo?

O lobo é o personagem predileto da Lis. Não tem pra Chapeuzinho, nem pros Porquinhos, muito menos pra outros personagens que crianças da idade dela (ela está com três anos) gostam, como as princesas. O lance dela é o lobo. Vovô babão aqui hora vira o lobo mau, que faz voz empostada e corre atrás dela, hora é o lobo bom, que a ajuda, leva pra passear e tudo mais.

O lobo que estava rondando o acampamento ontem à noite era o mau, dava pra sentir. Uivava muito perto da barraca e quando acordei com aquele barulho fiquei pensando na Lis. Acho que ele foi caçar onda por ali por causa dos Punks (não falei deles ainda né? São outros que já cruzei umas vezes. São três, dois caras e uma moça, e são aquele tipo de pessoa que certamente seriam meus amigos em BH. Poderiam ser facilmente uma banda. Um dos caras parece filho do vocalista do Butthole Surfers, com aquele chapéu de caubói texano. A menina, a irmã mais nova da Beth Ditto).

Os Punks chegaram já tava escuro. E chovendo. Pela movimentação deles deu pra sentir que não dependuraram a comida. Acho que foi isso que atraiu os coiotes. Mas a chuva aumentou e os uivos pararam, e eu voltei a tentar dormir, ainda pensando na Lis.

Tenho dito problemas com minha barraca, e tenho visto que não sou o único. Esse modelo deixa entrar umidade e alguma água se for montada de forma precisa. O problema é que quando já está chovendo ou escurecendo você não consegue a precisão que ela exige. Além dos uivos, acordei várias vezes a noite com a sensação que tinha entrado água. 

Acordei cedo e o vocalista me confirmou. “Que noite, hein? Você ouviu os coiotes? A gente chegou ontem tarde e eu não dependurei a comida…” Hã. Sei… Troquei umas palavras com o senhor que também tinha passado a noite ali, despedi e saí. 

O dia parecia tranquilo, e foi. Plano, sem muitas dúvidas, gostoso de caminhar. O problema é que este ano teve uma grande queimada por aqui e a região é puro carvão. Dizem que é o ano mais seco na AT, mas não tem sido problema achar água. 

O objetivo do dia era cruzar a marca de 100 milhas, que fica no topo do Monte Albert, onde tem uma torre de observação. A subida final é osso: uma escalaminhada braba, nas pedras, segurando em galhos. Quando cheguei lá, a chuva chegou comigo. E quando vi aquele tanto de degrau pra subir a torre desisti. Observei dali de baixo mesmo, fiz meu registro e tchau. Tô acampando perto de um Shelter, e amanhã promete ser tranquilo de novo. A chuva, que tinha dado trégua no final da tarde, voltou a cair. Espero que a barraca tenha sido bem montada hoje.

Appalachian Trail S01E06

Dia 06: Dicks Creek Gap (69.6) a Deep Gap (85.4). Distância oficial: 15.8 milhas. Minha marcação: 23,1 km, 39608 passos, 293 andares. Distância Total: 142,5 km
Eu menti.

Era uma da tarde quando cruzei a fronteira da Geórgia com a Carolina do Norte. Estava animado de deixar pra trás um dos quatorze estados que espero cruzar. O marco é só uma placa de madeira em uma árvore e um cano de metal que não sei pra que serve. Sabia que iria cruzar hoje, mas não esperava que fosse tão cedo. Um caminhante falava ao telefone, outro encostado na árvore e se não tivesse visto a foto antes teria passado batido. Me preparei pra fazer um vídeo bacana chegando e cruzando a linha imaginária. Tirei o steadicam e preparava o celular quando desaba um toró. Chuva tropical total, tipo aquelas de Manaus e Belém.

O cara que tava encostado na árvore já tinha saído caminhando e o outro teve a mesma ideia que eu: me esconder em uma pedra no alto do morro, bem em frente à divisa. Coberto da chuva, com o marco na minha frente, poderia pelo menos fazer um time-lapse e gravar os outros caminhantes que eu sabia que vinham atrás: os três caras que estavam no hostel comigo e vieram na mesma carona e mais um que eu havia cruzado (falo mais dele daqui a pouco)

Esperei, esperei e nada. Devem ter se escondido da chuva também. Foi nessa hora que resolvi publicar o post da Trilha da Trilha com a música do REM. Tinha pensando no post ontem, mas ainda não tinha devido a música. Aí, chateado com aquela chuvarada que tinha avacalhado com meus planos, optei por aquela. Pura mentira. O dia foi ótimo.

Começou com uma noite super bem dormida no Top of Georgia Hostel. No café da manhã (sucrilhos e café) Bob, também conhecido com Sir Packs-a-Lot (olha que Trail Name massa) deu uma mini-palestra do que está por vir. Dan me deu uma maçã e uma laranja, que comi esperando a chuva passar. E tirando uma subida cabulosa, o passeio foi bem agradável.

O cara que eu tinha cruzado mais cedo eu venho encontrando desde o segundo dia. Magro, alto, branquelo, fica de fone todo o tempo e é menos de conversa do que eu. Usa sempre calças verdes, uma camisa de manga comprida branca, uma mochila branca e no dia que o vi pela primeira vez, meio perdido sem saber se estava na trilha certa ou não, tinha uma bandana branca cobrindo o rosto e luvas. Meio assustador. Desde então eu o chamo de White Walker, como os vivos-mortos de Game of Thrones. Quando ele passa por mim penso “ó, o White Walker passou. Achei que tivesse bem na frente”. E quando vejo de longe a mochila branca na minha frente penso “a lá o White Walker. Tá mais lento hoje…” Nesses três dias a gente tinha trocado uma palavra ou outra, mas quando passei por ele hoje depois da chuva perguntei seu nome. Brooks. E contei que o venho chamando de White Walker. Talvez tenha dado o Trail Name do cara. Mas parece que ele não gostou muito não…

Trail Names são nomes que os caminhantes adotam na trilha. Não é obrigatório, mas é uma tradição. O caminhante pode se auto-batizar ou pode ser batizado por outro. Na maioria das vezes o apelido vem da primeira besteira que a pessoa faz na trilha. Ou de uma característica: se é muito lento acaba virando Turtle (Tartaruga). Se carrega uma mochila pesada vira Sherpa. Sir Packs-a-Lot fez um excelente trocadilho com o rapper Sir Mix-a-Lot. E se o sujeito se propõe a caminhar como uma camisa de manga longa branca no calor que faz durante o dia, desculpa, mas só pode ser O White Walker….