Pacific Crest Trail S01E55

Dia 55

Baum Lake

60 km hoje

1643 km total

A trilha da trilha: Rilo Kiley – Spetacular Views

Três assuntos distintos.

Primeiro: ah, Speedy Gonzalez… quando o terreno ajuda e você resolve caminhar, não tem quem te segure. Foram 60 quilômetros de boa, num terreno cheio de pedra mas quase sem elevação. Não saí tão cedo (às 7:30, uma hora mais tarde que o usual) mas já tinha feito 15 km às dez da manhã. Às onde deu pra parar, ligar pra Ale, atualizar o feed. Terminei às 19h e estou a 7 quilômetros da estrada pra Burney, o que quer dizer que rola de chegar lá ainda de manhã, tomar um café decente, descansar e botar as coisas em dia. E se tudo correr como planejado, amanhã é dia de pagamento: deve chegar pra mim mais uma caixa da Joe Chocolates, que está me apoiando…

Segundo: a vista o dia inteiro era essa cadeia de montanhas ao fundo e o vale na frente. Um trem. A trilha está super tranquila: passei por dois caminhantes indo pro sul e os dois disseram que eu foi a única pessoa que eles viram durante todo o dia. O que parecia que seria um dia seco, sem opção de água, acabou tendo dois pontos com galões deixados por angels. Dia bonito, bom de caminhar, que passei ouvindo musicas s podcasts.

Terceiro: pés. Meus pés, vocês viram, estão detonados. Muito mais que na Appalachian Trail. Vou continuar defendendo a Altra: não acho que seja culpa dos tênis. Ou melhor: não seja culpa apenas dos tênis…

Primeiro porque meu número normal era o 9 americano. Já na AT pulei pro 9,5 e depois pro 10, que é o que estou usando. Acho que tenho que mudar pro 10,5. Sim, seu pé não apenas incha como cresce . Segundo é que na AT eu usei durante a primeira metade da trilha uma palmilha especial, a Superfeet, que não estou usando aqui. E tenho sentido a diferença. Ela custa caro, 60 dólares, mas pelo visto vale cada centavo. A combinação da falta da palmilha e do pé crescido é que, além das bolhas, devo perder mais algumas unhas (é, no plural…)

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Pacific Crest Trail S01E54

Dia 54

Hat Creek

47 km hoje

1583 km total

A trilha da trilha: Roy Orbison – California Blue

Eu reclamo dos dias difíceis mas quando tem um dia tranquilo eu fico querendo mais…

Acampei nas margens do rio e saí cedo com o objetivo de cruzar o Lassen National Park. Pra acampar dentro dele é preciso ter bear canister, e o meu eu já mandei pra Sierra Nevada, onde espero voltar em agosto. Então eu precisava sair da margem do rio, andar 10 quilômetros até a entrada do parque, depois mais quase 30 dentro dele e sair do outro lado, onde poderia acampar.

Parecia complicado. Mas não era…

A trilha era tranquila, quase plana o tempo todo. O parque tava cheio no domingo. Tomei café da manhã porque achava que o dia ia ser pesado e logo depois encontro um trail magic com banana, maçã, bolinhos, pirulito, Gatorade. Peguei um de cada, porque não são bobo.

No parque, várias pessoas que estavam ali só pro final de semana. Num dos encontros, uma família que está indo pro Brasil em outubro pra um casamento. No camping bem estruturado tinha banheiro e lata de lixo – aliás, é bom deixar claro: lata de lixo na trilha é uma benção. A pior coisa que tem é ficar carregando 100, 200 gramas de embalagens vazias de atum e macarrão. Eu levava mais que isso, já que também tinha no meu lixo um vidro (vidro!) da embalagem do caviar…

Quando cruzei o limite do parque e já poderia acampar, resolvi andar mais uns quilômetros até a margem de um rio. A próxima cidade está a 67 quilômetros daqui, uma distância que não da pra fazer num dia só. Queria andar de novo quase 50 e chegar lá cedo e descansar, mas não sei se vai dar: os pontos de água até lá são escassos, talvez tenha que parar antes ou, se o terreno e o dia ajudarem, andar um pouco mais. Vejamos.

Pacific Crest Trail S01E53

Dia 53

Feather River

40 km hoje

1536 km total

A trilha da trilha: Milton Nascimento e Lô Borges – Tudo O Que Você Podia Ser

Hoje, quando o Bituca começou a cantar no meu ouvido “com sol e chuva, você sonhava, que ia ser melhor depois, você queria ser o grande herói das estradas, tudo o que você queria ser… sei um segredo, você tem medo, só pensa agora em voltar…” eu tinha certeza que ele estava falando só pra mim…

Eu tenho andado basicamente sozinho esses dias, e tenho escutado muita música. Algumas batem forte de uma maneira que não sei explicar. Cantava Zumbi, do Jorge Ben, alto na trilha. Quase berrando. Dançava enquanto caminhava com a nova do Bonobo. O It Takes a Nation of Millions to Take Us Back do Public Enemy me deu a energia que precisava pra subiu alguns bons morros. Mas talvez pela letra, talvez por ser o Clube da Esquina, quando “Tudo o que você podia ser” começou eu achei que era pra pessoal. Mas caí no choro mesmo só quando começou a tocar Cais…

Não é tristeza. Eu tô feliz pra caramba de estar aqui. Adorando a trilha. É esse sentimento estranho, misto de saudade e vontade de dividir esses momentos com mais gente. Eu queria estar em casa com minha família, mas também queria que ela e vocês estivem aqui vendo essas montanhas, essas flores, ouvindo esses pássaros, curtindo comigo cada um desses passos…

Mas não dá pra ter tudo, né?

Andei com a Blueberry até chegar à cidade de Chester. Dividimos a carona com outros cinco hikers na caçamba de uma caminhonete. Eles ficaram na cidade. Eu comi no Subway, comprei o que precisava pros próximos dias e voltei pra trilha.

Hoje foi dia de cruzar o marco da metade da PCT. Bem, pra mim não é a metade ainda, mas não deixa de ser motivo de celebração. Comemorei o midpoint da trilha com um Cabernet Sauvignon aqui da Califórnia e caviar da Islândia.

A história do vinho eu conto: comprei uma garrafa tetrapak de meio litro por 2.50 dólares. E até que o vinho é bem bom. A história do caviar eu conto no podcast do @extremos. Manda uma mensagem aí pro Elias pra ele me perguntar sobre isso. Só digo que me senti très chic tomando vinho e detonando sozinho um pote de caviar no meio da PCT… Hiker trash é o caralho.

Pacific Crest Trail S01E52

Dia 52

Little Cub Spring

46 km hoje

1496 km total

A trilha da trilha: The Mighty Mighty Bosstones – To California

O Caribou tem se tornado famoso na PCT por causa do milkshake. Por isso não poderia deixar de experimentá-lo. Quando cheguei, já escurecendo ontem à noite, encontrei o Chris, dono do lugar. “Bem-vindo. Pode acampar ali atrás. Já tem um bando de vocês lá”.

Eram os dois alemães, Highlander e Loki, e as duas americanas, Creole e Blueberry. Montei minha barraca e jantei já no escuro. O lugar, além da lanchonete de beira de estrada, é um estacionamento de trailers e espécie de central de pescadores que vão em busca das trutas do Feather River, que passa ao lado.

Às sete, quando a lanchonete abre, eu já estava na porta pro café da manhã. “Me dá só uns minutos pra eu aquecer a chapa”, me disse o Chris. Antes do milkshake eu comi dois ovos, cinco fatias de bacon, duas torradas, batatas e tomei quatro xícaras de café..:

Até Chester, a próxima cidade, são 44 milhas. Pensei em andar o máximo possível pra ficar o mais perto dela e chegar lá ainda na parte da manhã. Não ia ser fácil: saindo dali seriam 15 milhas de subida, promessa de mais neve e dia quente.

Blueberry e os alemães me acompanharam no café. Eles ficaram pra um dia de descanso, ela saiu comigo pra tentar uma carona. “Ish, tá rápido demais. Não vai parar”, falei. E me enganei. A motorista pisou no freio, parou na entrada da ponte, sem se importar com o caminhão que vinha atrás. Corremos pra entrar no carro, um Ford com mais de 20 anos (aliás, sobre caronas, a possiblidade de alguém parar pra você cresce com a idade e o modelo do carro. Quanto mais antigo e simples maior a possibilidade. Fato, inclusive, que corrobora com uma pesquisa feita por aqui que diz que motoristas de carros mais antigos e simples também tem mais tendência em reduzir a velocidade em sinais de trânsito…)

Apesar de longa a subida não foi complicada. Cheguei ao topo cinco horas depois, e a partir daqui foi quase sempre descida. Blueberry me encontrou logo depois e seguimos juntos até o final do dia. Ela tem apenas 21 anos, faz psicologia e retomou a trilha há uma semana, depois de fazer a primeira parte ano passado.

Acampamos a 15 quilômetros de Chester. Devemos chegar lá por volta do meio dia. Ainda não sei se fico na cidade ou simplesmente reabasteço e sigo viagem. Quero terminar a trilha até o final de agosto. Blueberry que terminar antes, no seu aniversário, no dia 19, e está tranquila que vai dar tempo. “A partir daqui a trilha fica bem mais plana. A gente vai estar fazendo 30 milhas por dia todo dia em breve”, ela disse. Assim espero.

Pacific Crest Trail S01E51

Dia 51

Caribou Crossroads Store

54 km hoje

1450 km total

A trilha da trilha: Caribou – Odessa

Me assustei quando vi a distância do dia. Conferi pra ver se não estava errado. Afinal, tinha começado tarde de novo – às oito da manhã, quando tomava meu café da manhã, vi os finlandeses passarem pelo camping sem me notarem. Eu sempre tento fazer 10 milhas antes das 10 da manhã, mas hoje só consegui isso depois de meio dia.

A manhã foi toda dedicada a um subidão sem fim: as tais dez milhas. No final dela encontrei de novo os finlandeses, além de Tea Time (francês) e Danger Pole (canadense), todos combinando de ir à Quincy.

Eu não iria: preciso manter uma média de quarenta quilômetros por dia se quiser terminar a trilha no meu prazo. Assim a ideia era caminhar até um local onde eu pudesse passar a noite e carregar meu power bank. Achava que o lugar seria Belden, mas não fiz as contas de quantos quilômetros iria andar. Só pensava em quantos faltavam.

Eu tenho feito assim: na parte da manhã marco quanto andei a partir de onde saí, com a meta de fazer 10 milhas antes das 10 da manhã. Depois isso eu inverto: determino onde quero chegar, vejo quantas milhas faltam e vou tentando manter a média de 3 milhas por hora até lá. Às vezes rola. Outras vezes não.

Hoje pensei que não daria. Além da distância, era hiking com obstáculos: contei mais de 80 árvores caídas na trilha que tive que pular ou desviar, um assunto que vou abortar melhor num texto pro O Eco.

Quando desci a montanha do outro lado – tudo o que sobe, desce, né isso? – cheguei na vila de Belden. E lá acontecia um festival (nem me lembrava que hoje era 4 de julho).

Resolvi vir até o camping onde estou, outras quase duas milhas não computadas. Me sinto surpreendentemente bem. E é melhor estar: amanhã tomo café da manhã aqui e tenho outro subidão pra encarar.

Pacific Crest Trail S01E50

Dia 50

Bear Creek

43 km hoje

1396 km total

A trilha da trilha: Aubrey Huntsman – Northern California

Ok. Vou mudar de assunto. Não vou começar dizendo que cheguei cansado…

Normalmente meu despertador toca às 5:30. Já está claro nesse horário. Às 6:30, no máximo 6:45, já estou caminhando. Mas eu estava tão cansado quando acordei que não saí da cama antes das 8. Dormi mal: se viro de lado dói o osso da bacia. De barriga pra cima os calcanhares. De bruços o joelho esquerdo e a coluna. Minhas costas e meus ombros doem também e pra completar também vou perder a unha do dedão direito (outra topada, numa pedra que parecia um meio fio). Eu tô um bagaço.

Só de não ter neve o dia já foi o melhor da semana. E além disso teve trail magic: panquecas, suco, uma cadeira pra sentar na sombra. A mãe de um caminhante que fez a AT e a PCT que resolveu dedicar seu tempo pra ajudar a gente. Eu me emociono sempre. Cheguei e fui logo dando um abraço nela…

Tenho encontrado gente na trilha que não conhecia. Alguns poucos que começaram antes de mim – bem antes. Gente que saiu da fronteira com o México em março e passou por Sierra Nevada no auge da neve. Sério: nem consigo imaginar. Todos que encontrei ate agora não americanos e de países frios: Canadá, Finlândia, Alemanha, França.

Os dias tem sido puxados mas agradáveis. O destino do dia hoje era um riacho chamado Bear Creek. Logo agora que acabei de ouvir um podcast (bem bom por sinal) chamado Bear Brook…

Eu tinha duas opções: ou acampava ao lado do rio ou 200 metros depois, mais acima. Por causa do barulho da água optei por ficar acima. E acabei servindo de jantar pro maior número de pernilongos que já vi. Sério: entre abrir a barraca, entrar e fechar novamente entraram doze. Onze eu matei. Um danado ficou me atazanando a noite inteira. O danado morreu de manhã. De barriga cheia.

Pacific Crest Trail S01E49

Dia 49

W. Branch beartrap creek

45 km hoje

1353 km total

A trilha da trilha: Ariana Grande – Snow in California

Cheguei tão cansado (sim, o post de ontem também começou assim…) ao lugar que acampei – e que nem era o que eu tinha planejado – que nem escrevi. Gosto de escrever a noite, depois de jantar, antes de dormir, quando os fatos ainda estão frescos na memória.

O dia foi longo – saí às 6:30, parei às 20:30. Sim, andei uma distância boa, mas o que pegou mesmo foi a neve.

Deixa eu contar uma coisa: pode até ser divertido pra você. Se você curti esqui, ir pra Bariloche, essas paradas. Pra mim é um saco.

Eu gosto de caminhar pensando assuntos do meu interesse e não preocupado o tempo inteiro onde eu vou colocar o pé (porque se colocar no lugar errado posso despender ladeira abaixo ou, na melhor das hipóteses, escorregar e quebrar o quadril). Eu gosto de caminhar em trilha, e não no que sobrou dos destroços de uma avalanche. Eu trago o meu celular pra escrever, ouvir música, trocar mensagem com minha família e não pra ficar com um olho nele o tempo inteiro tentando achar onde a trilha pode estar – porque o outro olho tenho que ficar focado onde estou indo.

Neve é um saco. Vista de longe, lá no topo da montanha, até tem seu charme. Mas esse é o problema: fazendo trilha VOCÊ está também no topo da montanha. Aí você entende que tudo é uma questão de ponto de vista…

Quem disse que a melhor forma de curar um trauma é enfrentando ele de frente? Pois é. Lá estava eu, sozinho, cruzando a neve… Nada tão alto quanto Whitney, é verdade. Mas que dava um suador nas mãos, isso dava…

Quando não tinha a neve perto a trilha compensava: flores amarelas, roxas e vermelhas, paisagens deslumbrantes, trilha boa de caminhar.

O melhor do dia foi descer da última montanha com mais de 2500 metros da Califórnia. Daqui pra frente, espero, a neve dá uma trégua.