Dicas pro seu final de semana – se você for ficar em casa

capa.jpgEspero que você saia e faça alguma atividade no meio do mato esse final de semana. Mas se for ficar em casa aqui estão algumas dicas para o seu final de semana:

Fiquei impressionado com a Barkley Marathons. Nunca tinha ouvido falar até comentarem comigo do documentário que está rolando no Netflix. The Barkley Marathons: The Race That Eat Its Young conta a história da prova que em 25 anos de história apenas dez corredores que conseguiram completar. Peculiar, diferente e cheia de surpresas (o horário do início da prova, por exemplo, só é avisado para os competidores uma hora antes) a corrida é inspirada na fuga de um presidiário e acontece nas montanhas nas proximidades de uma pequena cidade do Tennessee. É uma prova sofrida, cheia de particularidades e o documentário vale uma hora e meia do seu tempo. Vai por mim.

Também é bem bacana o filme This is Not a Beautiful Hiking Video, do austríaco Peter “Chopper” Hochhauser. Gravado na Pacific Crest Trail em 2016, ele é o inverso do que o título prega. O curta (são menos de 10 minutos) tem boa fotografia, história da caminhanda bem contada, edição de imagens e correção de cores bem feitos. Tudo isso já rendeu ao vídeo meio milhão de visualizações no YouTube. Nesse link ele responde a algumas perguntas sobre a caminhada e o processo de realização do filme.

Falando em PCT, tenho acompanhado a jornado do Edinho e da Bia do Sua Casa é o Mundo. Os  brasileiros estão lá esse ano e cem dias de caminhada acabaram de cruzar a fronteira da California com Oregon. Além do blog eles mantém também um canal no Youtube e já gravaram alguns podcasts com o Elias para o Extremos.

A Martins Fontes tem colocado alguns bons livros sobre caminhada no mercado. Além do essencial “A História do Caminhar” da Rebecca Solnit e do incrível “Caminhar, Uma Revolução” do Adriano Labbucci agora é a vez de “Nascemos para Caminhar”, do canadense Dan Rubinstein. O livro estava com 40% de desconto no site da editora na semana passada, quando comprei, mas agora o melhor preço é nas Americanas (de R$39,00 por R$27,30 mais correio). Ainda estou nas primeiras páginas, mas tenho gostado bastante do que li até aqui.

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Também incrível é o trabalho que a Duda Menegassi. A jornalista e fotógrafa escreve para site O Eco e tem acompanhado de perto o projeto de implantação de trilhas de longo percurso no país. Tão de perto que acabou de lançar o livro “Travessias: Uma Aventura Pelos Parques Nacionais do Brasil”. O projeto é fruto da parceria entre O ECO e o ICMBio – Instituto Chico Mendes da Biodiversidade e traz textos e fotos de onze trilhas, incluido a Serra Negra, no Parque Nacional do Itatiaia; a Trilha Chico Mendes, no Acre e a Capão x Lençois, na Chapada Diamantina. Fundamental, o PDF gratuito do livro pode ser baixado aqui.

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Dica pra quem se interessa pela criação do circuito de trilhas de longa distância no país: diversos workshops, seminários e multirões estão pipocando aqui e ali. Em Minas a Transespinhaço já teve parte de seu percurso demarcado e 3º Seminário acontece dia 1 de setembro em Ouro Preto. A Transmantiqueira também já tem parte de sua sinalização pronta e o 5º seminário acontece esse final de semana em Itamonte. A melhor forma de acompanhar os trabalhos e se informar sobre os seminários é pelas páginas nos links acima. Só seguir e se informar.

Pra terminar, um dos poucos equipamentos que não abro mão em caminhadas é o Spot Gen 3. Me sinto seguro e mais que isso: deixo seguro quem fica em casa me acompanhando, já que o bichinho envia minha localização a cada 5 minutos pra um site. E você só tem esse final de semana pra aproveitar a promoção da Spot Brasil, que está dando 50% de desconto nos produtos e 25% de desconto na anuidade. Sim, vale a pena. E só vai até segunda, dia 20. Como diriam os Mutantes: não vá se perder por aí… O link direto para a promoção é esse.

 

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Estrada Real – o vídeo

Em 2016 eu resolvi caminhar a Estrada Real. Durante o mês de junho andei de Diamantina ao Paraty. Foi a primeira parte do treinamento para a Appalachian Trail, que eu faria no ano seguinte.

Durante a caminhada eu gravava e postava vídeos diários no Facebook, além de escrever relatos diários aqui no blog. Ano passado subi os vídeos para o YouTube e agora resolvi editá-los na sequência. Incluí algumas fotos que tirei durante a viagem e o resultado é o vídeo abaixo. Quase 50 minutos de uma história que durou 32 dias.

Foi bom voltar a essa história e rever alguns dos personagens que conheci naquele ano. O Dedé, o José Sebastião, o Alberico, o Anemércio, o Jorge…. Foi bom rever as cidades, as paisagens, os causos da caminhada. Ouvir de novo as siriemas, os tucanos, o barulho da mata. Tá tudo aí. Bom filme.

 

Cinco mitos sobre a Appalachian Trail

Pamola é um ser que tem a cabeça de alce, o corpo de homem e os pés e asas de águia. Segundo os índios Penobscot ele vive no topo do Monte Katahdin, no Maine. É ele o responsável pelo tempo ruim na montanha e apesar dos índios poderem caçar e pescar na floresta, nunca podiam subir ao topo, sob o risco de não conseguirem voltar. Até que o homem branco conseguiu convencer os indíos a levá-lo até a base da montanha – e de lá subiu sozinho até o topo.

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Pamola, na ilustração de Maurice “Jake” Day.

A Appalachian Trail é cheia de mitos – e não estou falando da história de Pamola ou outras lendas que o povo da região conta. O que quero dizer é que existem diversas  histórias que muita gente repete sobre a trilha e que não são, nem de longe, verdadeiras. Mitos que foram criados com o passar do tempo que você precisa aprender que não são verdade.

Por isso resolvi contar aqui cinco mitos sobre a Appalachian Trail.

1) Você precisa entre cinco e seis meses pra completar a trilha

Não é bem assim. Como a gente bem fala na trilha, “hike your own hike”. Caminhe no seu tempo. O recorde da trilha, por enquanto, é do StringBean, que passou por mim quando fiz a trilha em 2017 e completou os 3190 quilômetros em 45 dias, 12 horas e 15 minutos (isso mesmo: ele andou, EM MÉDIA, 70 km por dia…). Mas tem gente que faz em muito mais tempo. A GI Jane, que também fez 2017, me disse que “ganha a trilha quem termina por último”, e ela levou 208 dias pra completar. Achou muito? Olha só o que disse o meu xará, o biólogo e professor Jeff Marion: “Eu levei 43 anos para completar a Appalachian Trail. Dividi a trilha em 24 seções e escolhia fazer quando tivesse tempo bom. A maioria da minha caminhada foi feita em clima frio, menos úmido, fora da temporada de mosquitos e carrapatos”. Outro xará, o Jeffrey Ryan, escreveu um livro que relata sua odisséia para completar a trilha ao curso de 28 anos.

Ou seja: o tempo é você quem faz. Seja em dois meses, seja em vários anos. Hike Your Own Hike. Faça seu tempo.

2) Ursos são os animais mais perigosos da Appalachian Trail

Eu encontrei pelo menos uma dúzia de ursos na minha caminhada de 131 dias. Vi filhotes, vi adultos. Todos, sem exceção, fugiram de medo quando notaram a minha presença. Ursos pretos são ratos gigantes. Não se preocupe com os ursos pretos ao fazer uma trilha como essa: ele são o menor dos seus problemas.

Você precisa se preocupar é com um bicho muito menor, e muito mais perigoso: o carrapato. Use repelente, em você e em suas roupas, e cheque seu corpo diariamente.

3) Só atletas e pessoas em forma conseguem terminar a trilha

Eu encontrei com gente de todas as idades, de 2 a 82 anos, que completaram a trilha. Encontrei com pessoas que perderam mais de 20 quilos caminhando da Georgia ao Maine. Encontrei com adolescentes e aposentados. Com pessoas com necessidades especiais e amputados. Todos caminhando a trilha e tentando completá-la no seu tempo.

Estar em bom condicionamento físico ajuda, é verdade, mas não é primordial: a própria trilha vai te moldando. Você pode começar andando 5 quilômetros por dia e terminar andando uma maratona.

4) Você certamente vai perder muito peso fazendo a trilha

Não é bem assim… Você consome tanto quando tem a oportunidade que algumas pessoas chegam a GANHAR peso… Eu perdi quase 14 quilos. Mas encontrei com gente que não perdeu quase nada.

5) Virgínia é plano

O maior mito de todos diz que o estado da Virginia, o maior da Appalachian Trail, é plano. Balela. Quando estava lá até fiz esse gráfico pra mostrar…

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Pode ser um dos mais bonitos, tem o Shenandoah Park, tem McAfee Knob, mas plano, isso num é não… Prepare-se para subir MUITAS montanhas.

6) A trilha vai mudar a sua vida

De novo, não é bem assim… Pessoas são diferentes. Para algumas a trilha marca profundamente e muda o jeito de pensar e agir. Para outros… Bem, para outros a trilha não passa de uma longa caminhada. Não vá achando que você vai voltar diferente, mudado, outra pessoa. Não conte com isso para começar a mudar. Não é A trilha que te muda. É o caminhar, seja na trilha, seja em qualquer outro lugar. Comece a caminhar agora, um pouco a cada dia, e você pode começar a sentir a diferença. Você não precisa andar 3200 quilômetros…

Dicas para comida em trilhas de longa distância

É sempre a mesma pergunta: mas o que você come? Como você faz pra cozinhar? O que você leva? Quantas calorias por dia você precisa ingerir?

Comida é o principal assunto nas conversas quando você está na trilha… ou fora dela. Todo mundo quer saber a sua dieta, o que está levando, como está se alimentando. É na comida também que você pensa quando decide ir a uma cidade, quando prepara as caixas que você vai enviar para trechos da trilha, quando decide tirar um dia a mais de descanso. Cansado? Algumas vezes. Faminto? Sempre.

É por isso que resolvi escrever esse post com dicas para comida em trilhas de longa distância. Serve para a Appalachian Trail, serve para a Pacific Crest Trail, mas também serve pras trilhas que existem aqui no Brasil. É só adaptar.

1. Cozinhe com eficiência

O modelo de fogareiro que você escolher vai inteferir imensamente na eficiência na hora de cozinhar. Durante a Appalachian Trail eu usei um Jetcook da Azteq. O bicho é a jato mesmo: gasta muito menos gás que os concorrentes e cozinha muito mais rápido. Não é o mais leve, mas a eficiência compensa o peso.

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Meu Jetcook em ação, no primeiro dia de trilha, cozinhando um chili liofilizado.

2. Pense no peso antes de qualquer coisa

Você deve levar comida comida nutritiva, mas pense também quanto ela pesa. Opte por comida desidratada ou liofilisada – existem várias no mercado. Macarrão e arroz pré-cozidos também são boas opções: cinco minutos era meu tempo limite para que o jantar ficasse pronto. Se tiver tempo, desidrate frutas e legumes para comer na trilha.

3. Reempacote

Uma das formas de ajudar a levar menos peso é deixar pra trás as embalagens originais dos alimentos. Tire tudo o que não for precisar. Coloque em sacos plásticos do tipo Ziplock. Barras de cereal, alimentos congelados, doces, pasta de amendoim, não importa: a dica é reembalar.

4. Calorias. Não se esqueça de calorias

Em uma trilha como as que faço você gasta fácil 3.000, 4.000 calorias por dia. Você vai precisar repor toda essa energia de alguma forma. Opte por alimentos ricos em caloria e gordura. Quanto mais, melhor. Sardinha na água ou no óleo? Óleo, claro! Chocalates, sempre, de preferência daqueles com amendoim…

5. Proteínas também são importantes

Na verdade sua dieta deve ser balanceada e conter calorias, gordura e proteínas. Nas longas trilhas isso é o mais difícil de conseguir: opte por carne seca, sardinha, atum, amêndoas, queijos duros.

6. Já pensou em deixar o fogareiro em casa?

Ir sem fogareiro pode ser uma opção para economizar peso e tempo. Leve alimentos já prontos, barras de cereal, alimentos desidratadas, coisas que não precisam ir ao fogo para cozinhar. Queijos duro, por exemplo, duram vários dias na sua mochila.

7. Aprenda com o Zé Colméia

Lembra do desenho animado, que o Zé Colméia sempre dava um jeito de conseguir comida com os turistas? Pois é. Isso tem um nome: Yogiing. Yogi Bear é o nome do Zé Colméia em inglês. Yogiing é se virar como o Zé Colméia, dando um jeito de ganhar a comida de graça dos turistas ou outros caminhantes que passam por você.

8. Aprenda com a trilha

Conheça os alimentos que a trilha pode te oferecer. Mesmo sabendo quase nada de botânica e da vegetação da trilha pude me deliciar com diversos tipos de frutas: morangos silvestres, mirtilos, amoras, cerejas… Tudo a mão, tudo a pouco metros da trilha.

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aulinha básica de alimentos comestíveis na trilha

9. Café instantâneo sempre

Eu não fico sem café. E na trilha isso pode ser um problema. Até pensei em levar minha Aeropress, mas é pouco prática e muito pesada. O jeito é apelar para o café instantâneo. É a pior coisa que você pode tomar, é verdade, mas é melhor que ficar sem café.

10. Leve seu lixo de volta. Todo ele.

Mesmo que você reempacote, que leve alimentos leves, que use café instantâneo, você ainda vai produzir lixo. E a dica é simples: leve seu lixo de volta. Todo ele, mesmo o lixo orgânico, cascas de frutas, coisas que você sabe que irão se decompor (sim, seu papel higiênico também). Não vá contaminar o ambiente por causa de nojinho ou de alguns poucos gramas.

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Inspirações: John Francis

John Francis, Planetwalker, Wood RIver Valley, Idaho

John Francis, andarilho, Wood River Valley, Idaho

Na madrugada de 18 de janeiro de 1971, sob um intenso nevoeiro, dois navios entram na baía de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos.

O SS Arizona Standard era um navio tanque, pertencente à Standard Oil Company of California. A Standard Oil original havia sido fundada em 1870 pelo milionário John D. Rockfeller. Em 1904 controlava 91% da produção e 84% das vendas de petróleo nos Estados Unidos. Mas em 1911 a Suprema Corte decidiu que o monopólio de Rockfeller era inconstitucional e a empresa deveria ser dividida. Dentre as 34 empresas que surgiram da divisão estão a Esso, a Mobil e a Chevron, o nome-fantasia da Standard Oil Company of Califórnia. O Arizona Standard havia saído carregado da Estero Bay com destino às docas da empresa em Long Wharf, em Richmond, localizado já na baía de San Francisco. O segundo navio era do mesmo modelo: um navio tanque T-2 de 153 metros de comprimento e mais de 10 mil toneladas, também pertencente à Chevron. Chamado SS Oregon Standard, ia em sentido contrário: havia saído das docas da Standard Oil com destino ao porto de Bamberton, no estado de British Columbia, no Canadá. Estava carregado com 800 mil galões de óleo bruto.

Quando o Arizona Standard deixou o porto em Estero Bay, no condado de San Luis Obispo, também na Califórnia, o tempo era bom. Era início da  tarde do dia 17 de janeiro e a viagem até San Francisco era curta. Mas quando o navio se aproximava da baía, pouco depois das 10 da noite, um grande nevoeiro começou a se formar. A maré subiu, a corrente começou a puxar na direção nordeste e do navio não se podia mais ver a cidade, encoberta pela névoa. O capitão reduziu a velocidade e soou o alarme de nevoeiro. Ao mesmo tempo ele ouvia pelo rádio da embarcação que o Oregon Standard havia deixado o porto de Richmond.

Com a visibilidade comprometida, o Arizona entrou no canal exatamente à 1 da manhã. Meia hora depois os dois navios se chocavam, a poucos metros da famosa Golden Gate e da ilha de Alcatraz. Em consequência do choque o Oregon Standard derramou na baía sua carga, 800 mil galões de petróleo bruto.

A acidente gerou uma onda de voluntariado só vista no terremoto que devastou San Francisco em 1906. Apesar de ninguém na tribulação dos dois navios ter se machucado, os danos para o meio ambiente foram incalculáveis. Mais de 4000 aves foram resgatadas, mas como havia pouca informação sobre como limpar aves sujas de petróleo apenas 300 sobreviveram. O acidente motivou a criação da International Bird Rescue, uma organização não-governamental especializada no reabilitação de aves afetadas por derramamento de óleo. Desde 1971 a ONG trabalhou em mais de 200 derramamentos em todo o mundo.

Na manhã seguinte ao acidente o jovem John Francis cruzava a Golden Gate de carro com um amigo quando viu o estrago ambiental causado pelo acidente. Foi ali que ele decidiu que não iria mais andar em veículos motorizados. Nada de carro, moto, ônibus, caminhão. Nem dirigindo, nem de carona, em nenhum veículo fosse movido a petróleo. Ele tinha 24 anos.

Três anos depois, quando fez 27, John decidiu que iria passar um dia sem falar. Acordou e nesse dia ele apenas ouviu. Sem dizer uma palavra. Ele conta que foi uma experiência marcante, “porque, pela primeira vez, eu comecei a ouvir”. Então ele decidiu ficar mais um dia em silêncio. E mais um. E outro. E assim não disse nada nos 6200 dias seguintes (isso são 17 anos, se você fizer a conta).

Ele também resolveu fazer um curso de gradução em meio ambiente na universidade de Ashland, no Oregon, a 800 quilômetros de sua casa na Califórnia. John foi pra aula a pé. Depois dos dois anos de curso ele seguiu para Port Townsend, no estado de Washigton. De lá a Idaho, e de Idaho a Montana, onde onde, dois anos antes, havia se inscrito em outro curso. Sem dinheiro, ganhou bolsa para uma única matéria, com aulas práticas na América do Sul. John veio de barco à vela até a Venezuela. E de lá, a pé veio ao Brasil e continuou até a Argentina, Chile e Bolívia. Também a pé cruzou a ilha de Cuba, onde estou agricultura orgânica e desenvolvimento sustentável.

Ele voltou a falar em 1990, depois de 17 anos de silêncio. E se tornou embaixador das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Criou a fundação Planetwalker (Planetwalker: 17 Years of Silence, 22 Years of Walking é o nome de sua autobiografia) e ajudou o governo americano a escrever políticas e leis sobre o derramamento de petróleo. Tudo isso porque John resolveu deixar o carro de lado e andar.

Se você ficou curioso com a história dele, veja – e ouça – sua palestra no TED.

Back on trek

Faz algumas semanas que resolvi fazer um detox voluntário de Internet e redes sociais. Primeiro apaguei do celular todas as redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter. Depois saí do Facebook – naquela forma que a conta está lá, mas posso voltar quando quiser. As contas no Instagram e Twitter continuam ativas – mas não as tenho usado.

Não é a primeira vez. Já saí de todas elas antes, já perdi todos os amigos, seguidores, fãs, curtidas, inscritos, seja lá como é chamado esse séquito é em cada uma das redes. Aqui no blog mesmo não escrevo desde a caminhada com a Alê em Torres del Paine e fico vendo os números caindo.

Mas é hora de começar a voltar. A princípio, aqui. Daqui a pouco nos outros canais.

O que tenho feito nesse tempo, desde a última trilha?

Tenho visto muitos filmes. Em 2018 foram 95, e contando. Além de séries, que tenho visto muito menos esse ano. Handmaid’s Tale é a único, mas não consigo ver mais que um episódio por semana. Preacher ainda não retomei. Westworld não passei do segundo episódio. Da primeira temporada…

No Netflix estreou Made to be Broken (De Volta ao Recorde). O documentário conta os desafios de Karl Meltzer pra bater o recorde de tempo para completar a Appalachian Trail. O filme foi produzido pela Red Bull, mas não decola nos pouco mais de 40 minutos. Spoiler Alert: Karl bateu o recorde, que foi esmagado no ano seguinte por Joe McConaughy – ele passou por mim e Wash Bear quando fazíamos todo o esforço do mundo e gastávamos uma energia que não tinhamos para atravessar a milha mais difícil da AT. Joe “Stringbean” McConaughy passou pela gente correndo, pulando de pedra em pedra, tirou uma foto nossa e seguiu caminho.

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Made to be Broken não é nada de mais, mas quer ver um filme bonito e mais inspirador sobre a AT? Assista “The AT Experience“. Você pode comprá-lo ou alugá-lo online, e vai te dar uma ideia bem melhor do como realmente é a trilha. O filme foi inteiramente feito por Andrew “Reptar” Forestell, que completou a trilha em 2016 e gravou mais de 900 GB – ou 24 horas de imagens – sobre sua caminhada.

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Eu não preciso te pedir pra assistir Nanette, da comediante australiana Hannah Gadsby porque você, pessoa antenada que é, certamente já viu (se não viu parede de ler agora e vá assistir no Netflix. Aqui está o link. Se não está convencido(a) leia esse artigo.

Tenho ouvido muito, mas muito podcast. Comecei a ouvi-los com mais frequência durante minhas longas trilhas: já ouvia na Estrada Real e descobri algumas pérolas como Serial e S*Town (simplesmente ouça) quando fazia a AT. De volta a BH escuto no meu trajeto diário de casa pro trabalho. Continuo ouvindo os meus programas semanais prediletos – 99% Invisible (melhor episódio recente: Right to Roam), Revisionist History (gosto muito dos livros do Malcolm Gladwell, ele é um comunicador incrível e estou super curioso com seu novo programa, com o Rick Rubin), TED Radio Hour (não saiu nenhum episódio recente, mas nunca me canso de ouvir os antigos), This American Life, Pop Culture Happy Hour (minha fonte de informação sobre TV, cinema e música). E inclui no meu playlist novos prediletos, como Heavyweight (ouça o episódio com 2 da primeira tempporada, Gregor), Sound Matters (incrível trabalho de edição) e um ou outro ShowCase. Em português só mesmo o do Portal Extremos.

Aliás, S*Town vai virar filme

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Tenho lido O Gigante Enterrado, do Kazuo Ishiguro, que o Kiko me emprestou. E intercalo ele com Vagabonding: An Uncommon Guide to the Art of Long-Term World Travel, do Rolf Potts. Dois livros sobre viagens, mas com pegadas completamente diferentes. Recentemente li e recomendo Dinheiro, Eleições e Poder: As Engrenagens do Sistema Político Brasileiro, do Bruno Carazza. Na verdade servi de cobaia, lendo o original e dando uns pitacos pra deixar esse tema árido atraente pra um leitor leigo. No caso, eu.

Falando em livro, sei que alguém vai perguntar sobre o meu. Tenho algumas páginas escritas, mas não estou satisfeito com o formato. Não tenho pressa, e quero que seja atrativo. Ainda não achei o tom. Mas continuo pensando no assunto.

Torres del Paine – O Básico

Existem algumas informações básicas que você precisa saber antes de fazer qualquer dos Circuitos de Torres del Paine:

  • Você pode chegar ao parque vindo desde El Calafate, na Argentina. Mas o melhor é agendar o seu voo para Punta Arenas, no Sul do Chile, e de lá seguir de ônibus até Puerto Natales, três horas ao norte. De Puerto Natales saem diversos ônibus pela manhã ou início da tarde até o parque, numa viagem que dura mais duas horas.
  • Você pode trocar real por pesos chilenos em Punta Arenas. Existem lojas no centro, próximo ao Parque Municipal e também na Zona Franca.
  • Zona Franca: sim, existe um mall duty free na cidade. Os preços são, em geral, melhores que no centro, mas as opções são poucas. Para equipamentos e roupas de hiking procure a Balfer. São duas lojas na Zona Franca: uma pequena dentro do mall e outra maior um quarteirão abaixo.
  • Durante nossa viagem a conversão do peso chileno para o real foi de 1BRL=190CLP.

Espere pagar alto por alimentação, estadia e transporte em Punta Arenas ou Puerto Natales. Alguns dos preços:

  • Táxi Aeroporto-Cidade em Punta Arenas: 10.000 CLP (R$52,00)
  • Ônibus Punta Arenas-Puerto Natales: 8.000 CLP (R$42,00)
  • Ônibus Puerto Natales-Parque Torres del Paine: 8.000 VLP (R$42,00)
  • Ônibus Entrada Parque Torres del Paine-Centro de Convivência: 3.000 (R$16,00)
  • Entrada do Parque Torres del Paine: 21.000 (R$110,00)
  • Hostel em Punta Arenas (2 pessoas): USD60.00 (R$210,00)
  • Hostel em Puerto Natales (2 pessoas): USD70.00 (R$240,00)

Ou seja: só pra chegar do aeroporto ao Centro de Convivência, de onde você parque para qualquer um dos circuitos, cada pessoa gasta pelo menos R$200,00.

  • Se decidir ir de ônibus de Punta Arenas a Puerto Natales imediatamente após sua chegada você não precisa ir à cidade: todos os ônibus passam pelo aeroporto. Cheque os horários.
  • Puerto Natales é bem pequena e dependendo de onde for se hospedar é fácil ir andando.
  • Normalmente o tempo na Patagônia muda muito durante todo o dia. Espere sol, chuva, neve, frio, vento, tudo no mesmo dia – e algumas vezes na mesma hora. Mas em geral o tempo é melhor logo pela manhã.
  • É possível visitar a base das Torres del Paine em um dia vindo de Punta Natales. É cansativo, mas é possível. O ideal é passar pelo menos uma noite no Parque.
  • Se estiver programando fazer qualquer dos dois circuitos agende TODOS os seus campings ou refúgios com antecedência. BASTANTE antecedência… As reservas podem ser feitas online, no site das empresas que administram o Parque. Tenha paciência: os sistemas são confusos e pouco funcionais.
  • Você pode gastar R$50 ou R$500 reais por dia dentro do parque: tudo depende do grau de conforto que você exige. Caso queria acampar os preços variam entre USD8 e USD10 (R$28 e R$35) por pessoa e quase todos oferecem banheiros e chuveiro com água quente. Dois campings (Paso e Italiano) são gratuitos, mas não espere mais que um pedaço de chão pra barraca e uma foça pra suas necessidades. Isso se você conseguir um lugar em algum deles…
  • É possível alugar equipamento de camping na maioria deles. No Grey uma barraca custava 18.000 CLP (R$95,00), o saco de dormir 12.000 CLP (R$65,00) e o isolante 4.000 CLP (R$21,00). Mais R$35,00 do local pra dormir e você já gastou R$216,00 por pessoa pra passar a noite…
  • Quer mais conforto? Fique no refúgio. São duas opções: cama simples (um colchão, sem roupa de cama – você precisa levar seu saco de dormir ou alugar um) ou cama armada (cama completa, com cobertor e travesseiro). Os preços são a partir de 32USD para a cama simples e 80USD para a armada (R$110 e R$280 respectivamente).
  • Você vai precisar se alimentar: nós levamos comida para 10 dias e a compra no supermercado saiu a cerca de 50.000 CLP (R$260,00 ou R$13,00 por dia por pessoa). Se não quiser carregar peso os refúgios oferecem a opção de ter sua alimentação inclusa no pacote, o chamado Full Board. No Grey o valor era de 33.000 CLP (R$175,00) para jantar, café da manhã e um kit lanche.
  • Se quiser ver o sol nascer na base das Torres del Paine o ideal é passar a noite no Refúgio Chileno. Mas atenção: lá é proibido cozinhar (mesmo com fogareiro) e as opções de camping são poucas. A opção é contratar o Full Board, que lá custou 60.000 CLP (R$315,00) por pessoa. Se quiser ficar em cama o preço é mais alto…

O que gastamos em camping em cada um dos campings foi o seguinte (preços sempre pra duas pessoas):

  • Camping Serón – Camping – 20.000 CLP
  • Refúgio Dickson – Cama Simples – 64 USD
  • Camping Los Perros – Camping – 16 USD
  • Camping Paso – Camping – gratuito
  • Refúgio Serón – Cama Armada – 160 USD
  • Refúgio Paine Grande – Camping – 20 USD
  • Camping Italiano – Camping – gratuito
  • Camping Francês – Camping – 20.000 CLP
  • Camping Central – Camping – 20.000 CLP
  • Refúgio Chileno – Camping Full Board – 120.000 CLP

Total em reais: R$2.150,00 (R$1.075,00 por pessoa, ou R$107,50 por pessoa por dia)

  • Ficamos em refúgios simplesmente porque não conseguimos reservar camping em todos os lugares. Fizemos nossas reservas em Outubro. Viajamos em Março…
  • Enquanto estiver dentro do Parque, esteja sempre com seu Passaporte e cartão de imigração em mãos. Eles são exigidos em todos os campings.
  • Não subestime o clima. A temperatura média em março é entre 5 e 15 graus. Pegamos temperaturas negativas e neve: o mês de março mais frio de todos os tempos. Também não se esqueça dos famosos ventos patagônicas: eles podem te jogar no chão e destruir sua barraca.

Agora é só preparar a mochila e botar o pé na estrada. Boa viagem!