Cinco documentários sobre a PCT

Há exatos 2 anos eu dava o primeiro passo na Appalachian Trail. Quando terminei, 131 dias depois, eu prometi pra mim mesmo que nunca mais iria fazer aquilo. Eu estava mentindo.

Daqui a 30 dias eu estarei em Campo, sul da Califórnia, divisa com o México, para um desafio diferente: caminhar até o Canadá, seguindo a Pacific Crest Trail. Se tudo correr como o planejado serão mais 4650 km de caminhada, três estados, quatro meses de caminhada. Em um ano que está particularmente complicado, com grande acúmulo de neve em boa parte da trilha.

Muita gente conhece a PCT por causa do Wild (Livre), que relata a viagem da autora Cheryl Strayed. O filme de mesmo nome, estrelado por Reese Whiterpoon, fez a trilha ficar tão conhecida que o número de caminhantes explodiu nos últimos anos.

Eu gosto bastante de Wild, livro e filme, mas não acho que ele reflita fielmente o que é uma trilha como a PCT. Por isso selecionei cinco (bons) documentários sobre a trilha que você pode assistir online:

Only the Essential -A Hike from Mexico do Canada on the Pacific Crest Trail (2015)

O documentário acompanha a caminhada de Casey Gannon e Colin Arisman em 2013. A narração me incomoda um pouco, mas é um bom exemplo do que a PCT.

 

As it Happens: Pacific Crest Trail (2014)

Andy Laub é um ótimo contador de histórias e hiker experiente. Criou o projeto Dusty Camels e dirigiu esse documentário sobre sua caminhanda pela PCT em 2011. Ótima edição e gráficos, um super trabalho de edição de fotos e boa trilha sonora original.

 
Do More With Less: A Conversation About the Pacific Crest Trail (2015)

Um dos meus prediletos. Travis Barron e Eric Timmerman fizeram a trilha em 2014 e durante o caminho entrevistaram mais de cem caminhantes. O resultado é esse filme que transmite bem o que é a PCT. Boa trilha original, além de Caribou e Sigur Rós.

 

4,270 KMs – A Pacific Crest Trail Documentary (2018)

O destaque do filme do francês Anthony Jouannic são as belas imagens, incluindo aéreas (drones são probidos na PCT). Vale o registro.

 

Out and Back on the Pacific Crest Trail (2019)

Em 2018 James “Jupiter” Hoher começou a PCT com o objetivo de fazer o que é conhecido como YoYo: ir do México ao Canadá, dar meia volta e fazer a trilha inteira novamente no sentido contrário. A história é contada nesse bom documentário dirigido pelo sempre competente John Zahorian.

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Açores

Sim, estou devendo contar sobre a viagem ao Açores. Ando tão consumido pelo planejamento da Pacific Crest Trail, que começo daqui a 30 dias, que ainda não escrevi sobre a viagem.

Mas fiz o vídeo, que filmei a maior parte com uma Canon M50 que comprei e editei no Lumifusion, um app ótimo pro Iphone.

Em linhas gerais foram 3 dias na Ilha do Corvo, 4 dias na Ilha das Flores. Chegar lá é complicado – mas é mais simples que eu imaginava. Após chegar a Lisboa – no nosso caso foi um voo BH-Rio-Paris-Lisboa, já que fomos de milhas – é preciso pegar um voo pros Açores. Quem faz a linha é a Azores Airlines, que pertence à TAP, e é possível incluir stopovers em mais de uma ilha. Não aproveitamos essa possibilidade: fizemos Lisboa-Flores, com conexão na ilha do Faial. No retorno iríamos ficar na Ilha de São Miguel por algumas horas, mas os ventos fizeram nosso voo atrasar e quase perder a conexão.

Pra chegar no Corvo também é possível ir por ar, mas optamos por barco, numa viagem de 45 minutos (que também demos sorte de chegar por causa do clima).

É tudo incrível, mágico, uma viagem no tempo. Como você pode conferir no vídeo abaixo.

Tratamento de água na trilha

Pense comigo: você perde mais de dois litros de água por dia, seja pelo suor ou pela urina. É preciso repor essa água. Se vai ficar mais de um dia na trilha ou no mato é improvável que leve toda a água que for consumir. Mesmo em trilhas de apenas um dia, é quase certo que vai precisar pegar água direto da natureza para beber. Pode ser que você encontre uma nascente com água pura e fria, mas na maioria das vezes o cenário é bem diferente: rios, lagoas, cachoeira, reservatório de água para gado, água empoçada de chuva… Vai ser isso que você vai encontrar. Você tem três opções: morrer de sede ou tomar a água e torcer para que não tenha uma doença. A terceira é utilizar algum sisteam de tratamento da água, para que ele fique potável, livre de bactérias e protozoários. Infeção urinária e intestinal? Não, tô fora.

Para que isso não aconteça existem diversos métodos de purificação de água. Vai depender de você e da trilha que estiver fazer para decidir qual a melhor opção. O mais comum no Brasil ainda é a purificação química, feita a partir de gotas ou pastilhas de cloro. Nesta categoria estão o Clor-in e o Hidrosteril.

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O Clor-in é uma pastilha que tem como base um derivado do cloro orgânico, o Dicloro-S-Triazinetrinone. Sua principal vantagem é não deixar gosto na água e ser eficiente na prevenção de diversas doenças e infeções causadas por microorganismos. É leve e fácil de carregar, mas cada pastilha é suficiente para, no máximo, um litro de água. A cartela custa em torno de R$10,00. Além disso, é preciso esperar meia hora para a pastilha faça efeito – ou seja, o seu uso não é imeditado.

00090639O Hidrosteril, por sua vez, está disponível em formato líquido. Duas gotas são suficientes para a purificação de um litro de água. Sua composição também é a base de derivados de cloro – o hipoclorito de sódio, ou basicamente água sanitária. A água pode ser consumida em apenas quinze minutos, mas o produto deixa um gosto forte de cloro. Custa em torno de R$20,00 o frasco de 50 ml, suficiente para purificar dezenas de litros de água.

6596Pouco comum no Brasil, o Aquamira é outro purificador químico. É formado por dois compostos, vendidos em frascos separados, que precisam ser combinados no momento de purificar a água. O primeiro frasco é composto de dióxido de cloro e o segundo por ácido fosfórico. A combinação dos dois é eficiente na eliminação não só de bactérias, mas também de viroses e cistos de protozoários, como a giárdia. 60 ml (um frasco de 30 ml de cada produto) são suficientes para a purificação de 100 litros de água. Também não deixam cheiro ou gosto e nos Estados Unidos o kit é vendido por 15 dólares – não encontrei o produto a venda no Brasil. É bom deixar claro que nenhum dos métodos químicos filtra a água – caso ela esteja poluída com elementos físicos – terra, barra, folhas etc – é preciso primeiro filtrar a água (você pode usar uma bandana, por exemplo) e depois purificá-la.

Um método de purificação que vem se popularizando no Brasil e é o mais popular nos Estados Unidos é a filtragem. Neste caso a água passada por um mini filtro, eliminando não só bactérias, mas também elementos físicos. Os filtros mais comuns – e que eu particularmente prefiro – são da marca Sawyer. São três modelos: o normal, chamado simplesmente de Sawyer Filter System; o Sawyer Mini e o Sawyer Micro. O princípio dos três é o mesmo – uma “pele” de microfibras tubulares que filtram 99.99% de bactérias (samonela, E.coli) e protozoários (giárdia), mas não eliminam viroses. São leves, versáteis e muito práticos. O Mini, apesar de ser o mais leve dos três modelos, tem um fluxo de filtragem muito lento, o que me faz achá-lo o pior dos três. O Micro, lançado recentemente, tem o mesmo peso Micro e um fluxo de água bem próximo ao sistema original, pra mim ainda o melhor dos três. Em todos os casos é preciso coletar a água em um recipiente e filtrá-la para outro. Também é preciso ter cuidado em baixas temperaturas: em noites frias o filtro pode congelar e se quebrar. O Sawyer Filter tradicional custa em torno de 40 dólares, o Mini em torno de 20 dólares e o Micro cerca de 30 dólares nos EUA. No Brasil o Mini é vendido por cerca de 220 reais.

katadyn-be-free-water-filtration-bottle-rolled-up_e0fce646-5abc-4c30-95df-2ea29ac2870f_grandeOutro sistema por filtragem que vem se popularizando é o de filtros adaptados diretamente na boca de uma garrafa dobrável – algo que o Sawyer também permite fazer. São mais leves, mas você fica limitado a quantidade de água dentro da garrafa. Nenhum dos sistemas de filtragem (seja o Sawyer, seja o filtro da Katadyn) necessita de espera para que você beba a água – é passar pelo filtro e tomar.

1360339416-61097500Semelhante ao sistema de filtros, o sistema por gravidade é destinado a filtrar uma quantidade maior de água – 10 litros de uma vez, por exemplo. A vantagem é que você não precisa estar presente no momento da filtragem – é colocar o recipiente com a água suja em um ponto mais alto e deixa a água passando pelo filtro até o recipiente de água limpa. É similar aos antigos filtros de barro que a gente usa em casa – mas muito mais leve e portátil. Os principais fabricantes, como Sawyer, Katadyn e Platypus têm modelos disponíveis de sistemas de gravidade.

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Sistemas de filtragem por bombeamento também são uma opção, mas são grandes e pesados (cerca de 500 gramas, contra 70 gramas do filtro Sawyer Micro). Alguns modelos têm a vantagem de filtrar também viroses. Também custam caro – modelos mais simples da MSR, por exemplo, que não são eficientes contra viroses, custam a partir de 100 dólares, chegando a mais de 350 dólares os modelos que eliminam contaminações por virus. 61axt-brahl._sx425_Outro sistema de purificação é o feito por raios ultravioletas. A marca mais conhecida é a Steripen. Suas canetas emitem raios que eliminam bactérias, protozoários e viroses e precisam ser recarregadas (bateria ou USB, dependendo do modelo) a cada 50 litros, em média. Por isso não é um sistema que eu usaria – já tenho que cuidar da bateria do celular, da lanterna, do geolocalizador e isso é suficiente. As lâmpadas têm uma vida útil bem maior – podem ser utilizadas cerca de 8000 vezes. Agem rápido – em cerca de um minuto – mas não filtram as impurezas físicas. As Steripen custam em torno de 100 dólares nos EUA.

Por fim, existe o bom e velho método de fervura. Deixe a água fervendo por alguns minutos para eliminar todos os tipos de microorganismos. Mas é preciso esperar a água esfriar para bebê-la. Como levo panelas pequenas, não é um método que utilizo. Prefiro confiar nos outros métodos mais modernos.

Independente do método é importante sempre filtrar e purificar a água que for consumir, seja bebendo ou cozinhando, quando estiver em trilhas. Nas minhas trilhas de longa distância sempre levo o filtro Sawyer tradicional como primeira opção e uma cartela de Clor-in como backup, caso o filtro estrague. E você? Qual a sua escolha?

Planejamento de trilhas de longa duração

Fiz minha primeira trilha de longa distância em 2015. Caminhei 420 quilômetros do Caminho da Fé e conto sobre essa caminhada aqui. Depois foram os 1200 quilômetros da Estrada Real, que também conto o dia a dia nesse link. Me preparava para fazer os  3.540 quilômetros da Appalachian Trail quando fui ao Rio para uma reunião com o pessoal da Spot. A gente fechou uma parceria e eles me cederam o Gen3 para a travessia. Seriam cinco meses de caminhada e a única condição que a Ale, me esposa, colocou foi que ela deveria saber em tempo real onde eu estava. E o Gen3 é perfeito pra isso, já que manda para um site e suas redes sociais a sua localização.

Na reunião o pessoal me perguntou se eu não estava preocupado com os imprevistos que eu poderia encontrar durante a travessia.

– Olha, eu não sou aventureiro. Eu sou planejador. O que eu faço é planejar eventos. Uma travessia de cinco meses não é nada mais que um evento de longa duração.

Foi essa a minha resposta. E é verdade. Sou formado em Comunicação, mas trabalho com eventos desde 1994. Fiz um Master in Event Management na University of Technology de Sydney, Australia. É minha profissão.

Assim como nos eventos que faço, ao planejar uma trilha qualquer eu preciso pensar em todos os aspectos: o que vai ser? Quanto vai custar? E se algo der errado? E se não chegar ao final? E como vai ficar a imagem do meu cliente depois desse evento, caso algo der errado? Quais os retornos que meu cliente vai ter caso tudo ocorra como planejado? Como medir o sucesso desse evento?

Encaro assim o planejamento de uma trilha de longa distância. E acredito que você deva encarar da mesma forma. Não é aventura: é um evento bem planejado, onde todos os aspectos precisam ser analisados e levados em consideração.

A primeira coisa no seu planejamento é decidir qual trilha fazer. No meu caso, decidi fazer aAppalachian Trail em 2017 por alguns motivos. Primeiro porque eu não queria uma caminhada com tanta gente como o Caminho de Santiago, por exemplo. Quer números? Então toma: em 2017, segundo a Appalachian Trail Conservancy, 4.127 pessoas se registraram para para a trilha de ponta a ponta, os chamados thru-hikers. Eles também estimam que outras 800 pessoas não se registraram, o que temos um número na casa de 5.000 pessoas. Já a Confraternity of Saint James, que administra o Caminho de Santiago, chegou a impressionantes 301.036 peregrinos em 2017. O Caminho de Santiago recebe por semana mais peregrinos que a AT recebe durante o ano todo…

Além disso eu queria uma caminhada que me permitisse acampar o máximo de noites possível e que não fosse muito técnica. Por isso eu escolhi a AT e não a PCT, por exemplo. Eu sabia que naquele ano a PCT não seria pra mim: eu não tinha experiência em neve, a trilha era mais isolada, eu queria caminhar muito mas não ficar pensando em outros problemas.

Para essa definição inicial eu te aconselho a fazer isso com pelo menos um ano de antecedência. Mesmo trilhas menores, como Torres del Paine, no Chile, exigem um planejamento longo, já que você precisa reservar os campings com pelo menos 6 meses de antecedência. Esses meses vão te dar a possibilidade de pesquisar e conhecer o máximo possível sobre a trilha que você vai fazer. Lembre-se: aquela vai ser a sua casa por um bom tempo.

Depois de escolher você vai precisar desse tempo para que você possa planejar a trilha com cuidado. Levante as informações básicas, leia bastante, converse com gente que já fez a trilha, procure livros e sites. Existem dezenas de blogs especializados, no Brasil e no exterior. Procure por vídeos no YouTube, use a hashtag com o nome da trilha no Instagram pra ver fotos e te preparar pro que você vai encontrar. Existem grupos no Facebook de discussão sobre as trilhas. Entre neles. Se existerem grupos separados por anos – de gente que vai fazer esse ano e de quem fez no ano passado, por exemplo – entre nos dois. Conversar com quem já fez a trilha vai te ajudar a entender melhor o que funciona, o que não funciona, quais equipamentos levar, como lhe dar com alimentação etc.

Descubra quanto tempo você vai ter disponível e seja se é adequado pra trilha que você quer fazer. Não tem 6 meses? Com três é possível fazer uma trilha como a Te Araroa, na Nova Zelandia. Tem um mês? Talvez o Caminho de Santiago seja uma opção pra você. Ou Tour du Mont Blanc, na Europa. Uma semana? Existem diversas trilhas aqui no Brasil e na América do Sul. Entre no Wikiloc, por exemplo, e pesquise as trilhas disponíveis.

Planeja também quanto você vai gastar. Se você está curioso sobre quanto custa fazer a Appalachian Trail, por exemplo, eu fiz um texto e gravei um episódio no YouTube só sobre isso. Leve em consideração suas despesas na trilha mas também as despesas que você vai continuar tendo em casa e o dinheiro que vai deixar de ganhar sem trabalhar por aquele período.

Trilha decidida, orçamento feito, é hora de pensar nos equipamentos. Existe muita diferença no equipamento que você vai usar pra fazer uma trilha nos Estados Unidos ou no Brasil. De novo, converse com quem já vez a trilha pra saber qual o melhor equipamento naquela situação. E lembre-se que a escolha dos equipamentos é algo muito pessoal. Experimente, teste, use tudo antes de começar a fazer a trilha de verdade.

Se você já sabe qual trilha vai fazer, se comprometa a isso. Reserva as datas, compre as passagens necessárias. Estude como chegar e sair da trilha e faça as reservas de transporte e albergue necessárias.

Chegue pra fazer a trilha na melhor forma física que conseguir. Pratique em trilhas menores. Se não conseguir, faça como eu: coloque algo pesado em sua mochila e ande pelo seu bairro. Eu colocava todos os volumes de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (eram quase dez quilos de livros) e saia subindo os morros de Belo Horizonte. Também fiz algumas sessões de girotronic antes de ir pra AT que ajudaram bastante.

Não se esqueça de trabalhar também o lado psicológico e emocional. Fazer uma trilha que dura três, quatro, cinco meses é um grande desafio. Nesse sentido o livro Appalachian Trails – A psychological and emotional guide to successfully thru-hike the AppalachianTrail, do Zach Davis, foi fundamental. Ele sugere que você faça uma lista dos motivos que o levaram a fazer a trilha e como você vai se sentir se conseguir completar a trilha ou se desistir da caminhada. Faça essa lista e leva com você. Vai te ajudar quando pensar em cair fora da empreitada.41xofrlh4ql

Como tudo preparado é hora de contar pro mundo que você vai sair nessa aventura. Faça um blog, divulgue no seu Facebook, conte pra sua família. Pense em algum produto que a trilha possa gerar: um documentário, um livro, uma exposição.

Tudo pronto é hora de dar aquele primeiro passo. Aproveite cada minuto. Lembre-se que essa trilha é sua: não tente seguir o ritmo de outras pessoais. Ouça seu corpo, não force mais do que você da conta. E se pensar em desistir, nunca desista em um dia ruim. Espere, de um tempo e quando sua cabeça esfriar pense de novo no assunto. Lembre-se da lista que voce fez. Lembre-se também da máxima dos trilhas americanas: hike your own hike. Faça a SUA trilha. Vá no seu ritmo, do seu jeito, que você vai chegar e seu evento, sua caminhada, vai ser um sucesso.

Como eu consigo tempo – e dinheiro – para minhas caminhadas

“Cara, como você consegue isso? Você deve ser milionário pra parar 6 meses de sua vida e ficar caminhando…” Já ouvi essa frase dezenas de vezes. Ela e suas variações: que sou vagabundo. Que ganhei na loteria. Que não penso no futuro. Que vivo de renda. Muitas vezes a pergunta é movida por curiosidade mesmo. Outras, por inveja e vontade de estar no meu lugar.

Por causa disso gravei um vídeo para o meu canal no YouTube sobre os custos de uma trilha como a AT. E escrevo aqui um pouco mais sobre isso.

Consigo fazer minhas caminhadas – e viagens em geral – por causa de uma intrincada combinação de planejamento e economia pessoal. E um pouco de sorte. No fundo, consigo fazer minhas viagens por que escolhi viver dessa forma. E por mais que isso diga respeito só a mim e a minha família, acho que minha experiência pode ajudar a algumas pessoas a finalmente realizarem aquela aventura que tanto querem – e que parece impossível.

Antes, deixa eu te contar uma história. Quando eu tinha 15 anos fiz a primeira grande viagem da minha vida. Minha família sempre teve uma vida difícil. Fui o caçula de 9 irmãos, meus pais nunca se formaram – só estudaram “o grupo”, como a gente diz, ou apenas o ensino fundamental – e viajar sempre foi meu sonho de criança. Na infância o mais longe que tinha ido era na casa dos meus avós, a 120km de onde morava. Com 14 anos entrei para a escola de música municipal, aprendi a tocar saxofone e um ano depois fui recrutado por uma banda local – o RG7 – para tocar em um carnaval. Em Porto Seguro. Meus pais precisaram me dar uma autorização de viagem, registrada em cartório, e lá fui eu, em um ônibus de turnê, com uma dúzia de músicos, cantores, cantoras e técnicos, pegar a estrada. Sabe o filme “Quase Famosos”? Pois é… Aquela viagem, de quase 24 horas entre o interior de Minas ao Sul da Bahia, mudou a minha vida. Aquela foi a primeira vez que vi o mar. Ali, tive duas certezas: que eu queria conhecer o mundo e que não gosto de carnaval…

Dias depois, de volta da viagem, decidi que era hora de ganhar meu próprio dinheiro, arrumar um emprego e sair de casa. Fiz um concurso público, passei, e me mudei quando tinha dezesseis. Nessa época dizia pra minha mãe que queria juntar dinheiro pra conhecer o mundo. “Você só entra em um avião quando eu morrer!”, ela dizia. Ela faleceu em 1994. Naquele mesmo ano fiz minha primeira viagem internacional. E desde então viajar virou uma obsessão…

Mas e então? Como financiar uma caminhada de longa distância?

A primeira coisa que você precisa saber é que viajar a pé é a forma mais barata que existe. Meus gastos durante os meses de caminhada são, no geral,  bem próximos dos meus gastos do dia-a-dia no Brasil. Mas concordo que não dá simplesmente sair andando. É preciso planejar.

Faz alguns anos que decidi não ter emprego fixo. Troquei a carteira assinada por trabalhos freelance. Na verdade, isso é consequência de uma decisão que tomei há vários anos, quando abandonei o emprego que consegui com aquele concurso público que fiz na adolescência: que só iria trabalhar com coisas que me dão prazer.

Não ter a obrigação de assinar ponto ou me matar em um emprego diário me dá menos dinheiro, é verdade, mas também a liberdade e a flexibilidade de viajar quando puder. Garanto o suficiente para pagar as minhas despesas pessoais e economizar pra fazer o que gosto.

Com essa flexibilidade posso ficar atento a um ponto importante – e caro – de viagens: as passagens internacionais. Fico de olho em promoções, assino listas de sites como Melhores Destinos, pesquiso a tendência de preços no Google Flights e quando aparece algo que combina com a minha carteira, não reluto. Com isso já viajei para Moscou pagando R$750,00 na passagem ida e volta e já fui pra para o Canadá pagando um pouco mais que isso.

Mas mesmo gastando pouco durante a caminhada e pagando pouco pela passagem é preciso ter dinheiro pra viajar. E pra isso é preciso economizar. Na ponta do lápis, minhas despesas em Belo Horizonte ou na trilha são bem parecidas. O que gasto por lá com alimentação e raras hospedagens é bastante similar com o que gastaria estando aqui, em supermercado, transporte e eventuais restaurantes. O que faz a diferença é o dinheiro que deixo de ganhar. É aí que o planejamento a longo prazo ajuda.

Eu sei exatamente quanto preciso por mês (spoiler alert: é pouco). Me programo e trabalho para economizar em seis meses minhas despesas fixas dos outros seis meses. Uso uma planilha em Excel, onde anoto diariamente minhas despesas e meus ganhos.

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

Minhas despesas são poucas porque prefiro gastar nas viagens ou eu viajo porque minhas despesas são pequenas? Um pouco dos dois, na verdade. Mas existem algumas coisas que faço e, acredito, me ajudam a ter algum dinheiro sobrando:

  • Eu saio muito pouco. Como pouco fora. Cozinho bastante em casa. E quando vou ao supermercado quase nunca compro alimentos industrializados: biscoito, refrigerantes, congelados, essas coisas eu deixo pra comer na trilha.
  • Eu (ainda) tenho carro, mas é um modelo com mais de 10 anos que raramente tiro da garagem. Ando muito a pé e gasto muito pouco com transporte público, taxi ou Uber/Cabify
  • Não me lembro a última vez que fui ao cinema, apesar de assistir a muitos filmes. Baixo quase tudo o que vejo. O mesmo vale pra música. Não compro um disco desde que o Napster me levou à falência (eu tinha uma loja de CDs)…
  • Eu tenho uma vida regrada – nenhum vício que faça meu dinheiro desaparecer sem que eu perceba. Não uso drogas, não fumo, não sou de beber muito…
  • Também não tenho dívidas – não pago aluguel, não tenho financiamentos, não devo cartão, não devo o banco. Sou milionário? Não. Tenho dinheiro guardado? Um pouco.
  • A última camisa nova que usei foi a que ganhei da Spot Brasil para fazer a Appalachian Trail. Não tenho muitas roupas e compro cada vez menos.

Não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho

Além disso tenho me desprendido de bens materiais e acumulado cada vez menos coisas. Antes de fazer a Appalachian Trail me desfiz de várias coisas que tinha e não usava mais – uma coleção de bonecos, câmera fotográfica e filmadora, um computador reserva, até uma bota. Já não tenho nenhum disco. Vou fazer uma nova limpa em breve e guardar ainda menos tralhas. O objetivo é guardar cada vez menos. Como disse uma caminhante que encontrei uma vez, “cada vez que me dá vontade de comprar um móvel novo eu saio pra caminhar e a vontade passa”.

Um dos principais pontos de despesas numa caminhada de longa distância são os equipamentos. Barraca, mochila, saco de dormir, isso é tudo caro. Mas tive a sorte de ganhar a promoção Badger Sponsorship do site The Trek antes da AT e receber como prêmio a maior parte do que precisei. Também consegui o apoio fundamental da Spot Brasil e da Proativa, que me cederam equipamentos essenciais para a jornada e que ainda hoje venho usando.

Também fundamental é a sorte que tenho em ser casado com uma pessoa incrível que é a Alê, que entende minhas caminhadas, me acompanha em algumas delas e divide comigo algumas destas convicções. E boa parte das despesas da casa.

Um ponto que se fala pouco quando se trata de dinheiro e financiamento de uma caminhada de longa distância é o dinheiro que você deixa de ganhar quando está caminhando. Porque suas despesas lá podem ser poucas, mas as despesas daqui continuam chegando. E pra piorar você não tem nenhum dinheiro entrando por seis meses… De novo, meu estilo de vida ajuda nesta parte: não pago aluguel, não tenho dívidas, não tenho plano de saúde. Algumas das despesas da casa Alê arca normalmente – e outras me planejo antes de viajar e deixo programadas para serem descontadas automaticamente da minha conta. E apesar de viver fazendo trabalhos freelance sei que sou bom o suficiente para garantir novos trabalhos quando voltar. E se não encontrar trabalhos na minha área, estou aberto a aprender e fazer outra coisa. Qualquer coisa que me dê prazer. Se me der o suficiente pra pagar minhas despesas e salvar algum pra próxima viagem, melhor.

Mas afinal, quanto custa?

Minha caminhada pela Appalachian Trail, que durou de Abril a Agosto de 2017, custou em torno de 4500 dólares. São cerca de 900 dólares por mês, algo em torno de 130 reais por dia. Nisso aí tá incluso tudo, de passagem aérea a alimentação, de hotel a seguro de viagem.

É um bom dinheiro, mas pense: quanto eu gastaria nesses cinco meses em BH, entre gasolina, alimentação, supermercado, farmácia e outras despesas? E quanto eu gastaria em uma viagem de férias dentro do Brasil mesmo? No final, acho um investimento barato por uma experiência única como essa. Não é pra todo mundo, nem financeiramente, nem psicologicamente, é verdade. É preciso querer e estar disposto. É preciso ter os recursos – falta de grana é dos principais motivos que levam as pessoas a desistirem de completar a trilha. Mas vale cada centavo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Longa Distância no YouTube!

O ano começou cheio de novidades por aqui. Fiz uma nova marca nova, mudei um pouco o visual do blog e dei o primeiro passo (tudo começa com um primeiro passo) em uma série de vídeos no YouTube sobre a Pacific Crest Trail.

A partir de hoje serão 100 dias até o meu início na PCT. A ideia é subir um vídeo por semana contando a preparação para a trilha, o planejamento, os equipamentos que vou usar, meu treinamento. Uma espécie de aquecimento para os vídeos que pretendo mandar da trilha. E depois, já fazendo a trilha, preciso ver como será meu acesso à internet para ver se consigo manter essa regularidade. Se não conseguir postar um vídeo por semana quero subir pelo menos um a cada 15 dias. Assista ao vídeo, se inscreva no canal e ative as notificações para ficar sabendo quando subir os outos vídeos.

Os textos no blog vão continuar, claro. E estou armando outras parcerias que conto pra vocês em breve.

Travessia Alto Palácio – Serra dos Vales (o vídeo)

Escrevi aqui sobre a travessia que fiz na Serra do Cipó no início do ano (se você não leu o link está aqui) e essa semana resolvi editar o vídeo com algumas imagens que gravei durante a trilha.

É uma tentativa de chegar num formato de vídeo que pretendo gravar durante a Pacific Crest Trail. Ainda não sei como vou fazer por lá – e se você tiver alguma sugestão eu gostaria de ouvir…

Subi o vídeo sobre essa travessia no meu canal do YouTube. Caso você ainda não conheça é só clicar no vídeo e se inscrever.