Pacific Crest Trail S01E09

A trilha da trilha: Joni Mitchell – California

Eu não tinha um plano para o dia. Ou melhor: tinha, mas ele foi desfeito pela tempestade que caiu durante a noite. Inseguro em continua na trilha com o frio e neve, resolvi seguir os outros que passaram a noite comigo no café. Saímos do lugar às sete da manhã, num cenário de névoa, e fomos para a estrada tentar uma carona para a cidade de Idyllwild. Com oito pessoas na beira da estrada precisaríamos de sorte para que todos chegassem à cidade em duas ou três viagens.

Depois de uma dezena de negativas uma senhora para sua caminhonete cabine dupla com placa do Arizona do nosso lado. “Oh, me desculpem. Estou indo ao Salvation Army levar umas doações e não sei se consigo levar todos vocês. Acho que cabem quatro na frente”, ela disse. Sydney completou: “se a gente levar as mochilas no colo os outros quatro podem ir aqui atrás”. Feito. Nos metemos todos no carro e seguimos por meia hora até a cidadezinha.

O plano era comprar roupas de frio e equipamentos de neve, reabastecer de comida para os próximos seis dias e voltar para a trilha. Comprei microspikes – espécies de correntes para se colocar nos tênis e aumentar a aderência na neve; outros compraram luvas e segundas-peles, fomos para o supermercado para as comidas e enquanto o grupo foi almoçar em uma pizzaria eu passei duas horas conversando com o Elias e gravando o podcast Extremos, que já está no ar. O único se da visita a Idyllwild foi não ter encontrado Max, o prefeito. Eleito numa votação democrática com a maioria absoluta dos votos, Max acabou de completar seis anos e é um cachorro da raça golden retriever. E não pense que brincadeira: o prefeito tem seu próprio carro – dirigido, claro, por uma assessora – e atende quase todos os dias na prefeitura local.

Voltar para a trilha também foi fácil: eu, Tyler e Austin entramos em outra velha caminhonete dirigida por um senhor que explicava o quanto o terreno do sul da Califórnia é propício para o plantio da maconha e rapidamente deixamos a névoa e a chuva pra trás. Na trilha surpreendentemente o dia estava claro. Andamos apenas seis quilômetros para chegarmos a um bom acampamento. Em breve Ed e Polaroid se juntaram a nós. “Não acho que veremos Sydney de novo”, Ed comentou.

Alimentado e equipados, o plano é andar 35 quilômetros amanhã a base do Monte San Jacinto para chegarmos ao topo no sábado. Porque domingo, já avisaram, o tempo vai piorar novamente.

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Pacific Crest Trail S01E08

A trilha da trilha: A Tribe Called Quest – Can I Kick It?

No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Que nem no poema de Drummond. Era uma pedra ordinária, igual a milhares de outras pedras que passo todos os dias. Não era maior, nem mais rara, nem mais bonita, nem mais redonda. Era uma pedra tão comum que nem a tinha notado até aquele instante em que apoiei o peso do meu corpo no meu pé direito, levantei a perna esquerda como faço 25 mil vezes por dia e tentei passar o pé por sobre ela. Nesse instante, com meu pé na vertical, meu dedão esbarra no topo da danada. Uma onda de dor percorre da ponta do dedão ao meu cérebro em frações de segundo e uma sequência de palavrões sai pela minha boca. Minha unha está rachada ao meio, debaixo dela meu dedo está roxo. Acho que vou perde-la.

Os tênis que uso, da marca Altra, modelo Superior, vem de fábrica com uma segunda palmilha, mais rígida que as palmilhas tradicionais, juntamente para proteger seus pés dos impactos com as pedras. Mas como toda palmilha ela protege o solado, não o topo. Acho que ninguém esperava por isso…

Como ninguém esperava pela mudança do tempo. Saí do Mike’s Place às seis, esperando pelo pior. Da última vez que tinha olhado a previsão parecia que o dia seria de chuva e frio. Mas não foi o que aconteceu: começou com vento, mas ainda cedo tirei duas das três blusas. Fazia um friozinho gostoso, que o andar aquecia, mas quando parava sentia a baixa temperatura. Quando cheguei a um dos reservatórios de água, a uma da tarde, tirei os tênis, botei os pés pra cima, curti o sol por uns momentos e chequei de novo a previsão do tempo. Ainda faltavam 15 quilômetros para o destino, a lanchonete Paradise Valley Cafe, que vende, segundo muitos, o melhor hambúrguer da PCT. Pelas minhas contas chegaria lá por volta das quatro da tarde, antes da chuva que a metereologia previa para as cinco. Fui sem me preocupar.

Batizado em homenagem a um poema de Walt Whitman, o Brooklyn Ferry é um espaço com chuveiro de balde, mesa de piquenique, sombras, uma pequena biblioteca – com poemas de Whitman impressos que os caminhantes podem levar – e impressões em tamanho natural de três gênios da literatura americana: além de WW, John Muir e Henry David Thoreau. Mais que grandes escritores os três tem em comum a paixão pela natureza e isso fica claro em seus textos. E tê-los ali, no meio da trilha, fazia pra mim total sentido. E se não chorei no bicudo que dei na pedra, soltei umas lágrimas de emoção ali.

Apertava o passo pra chegar antes da possível chuva quando o tempo mudou. Primeiro encoberto, depois pequenas pedras de gelo, depois a neve. No sul da Califórnia. No final de maio. Nem eu, nem ninguém que estava caminhando hoje, esperava por isso. De calção, camiseta de manga longa e capa de chuva corria tentando evitar o frio. Cheguei ao Cafe e aos poucos os outros foram chegando, todos sem saber o que fazer: comer e continuar na trilha? Pegar uma carona até a cidade e dividir um hotel? Ir até um camping e ter pelo menos um banho quente?

A solução veio de onde ninguém esperava: a garçonete do lugar convidou a todos para passarem a noite ali, no chão da lanchonete. “A gente fecha as oito. Me deem dez minutos pra limpar e passar pano e vocês dormem aqui. Eu deixo o alarme desligado e vocês saem amanhã antes das oito”, a disse. Perfeito. O lugar é claro, os refrigeradores fazem barulho, um relógio desperta a cada hora exata, mas espalhados pelo chão do Paradise Valley Cafe estão 15 caminhantes cansados, mas felizes por uma noite quente e de barriga cheia com o melhor hambúrguer da lanchonete mais amigável da PCT.

Pacific Crest Trail S01E07

A trilha da trilha: Luna – California (All the Way)

Eu não assisto muito pouco TV, mas um tipo de programa que adoro, e se deixar assisto por horas, é daqueles onde caçadores de tesouros modernos saem à procura de objetos para serem vendidos em antiquários. Um carro de 1940 que só foram fabricados mil unidades parado em uma garagem de um fazenda, a placa de um posto de gasolina que pode ser vendida por 2000 dólares, um bule feito na China na dinastia Ming jogado em uma caixa debaixo de um piano, o single raro do Elvis que todo mundo quer e ninguém tem. Aqueles arqueólogos conseguem isso tudo barganhando com velhinhos rabugentos em algum lugar perdido no tempo nos Estados Unidos. Acho fascinante: como aquilo pode ter ficado ali tanto tempo e ninguém ter notado? Como a história da primeira gravação do Velvet Underground, a caixa de revistinhas com a número 1 do Homem-Aranha, o autógrafo perdido do ídolo do esporte. Pedaços da cultura pop jogados em um porão.

O Mike’s Place, onde fiquei ontem à noite, poderia estar muito bem nesses programas. Tinha mil discos de vinil na prateleira que ninguém tocava a anos, uma dúzia de toca discos, outro tanto de tapes, amplificadores e caixas de som. Brinquedos antigos nas caixas, um piano, um equipamento chamado Baldwin Tempo-matic que não sei para o que serve e um Cadillac dos anos 70. Sem contar as dezenas de panelas de ferro enferrujando, os equipamentos agrícolas antigos, tranqueiras de tudo quanto é jeito, tudo jogado em uma propriedade longe de tudo: Warner’s Spring, de onde vim, está a 28 km ao sul e a próxima estrada – e próximo ponto de água – 40 km ao norte. Energia elétrica é por gerador, mas tem um forno a lenha onde fazem pizza regularmente para os caminhantes. Não tem sinal de celular e o vento sopra sempre forte e frio – o que faz com que os caminhantes, cerca de 25 essa noite, se amontoem por entre as tralhas.

Cheguei ali por volta de uma da tarde, sem saber se ainda estaria aberto – algumas pessoas diziam que a última semana que aceitariam os caminhantes era a última. Mas uma placa na estrada dizia o contrário. Cheguei no lugar e só encontrei dois caminhantes que tinha resolvido não sair pra caminhar por causa do mau tempo. Me mostraram o lugar – a garagem, a tenda que serve de cozinha e ainda tinha frango assado e torta da noite anterior, o banheiro no meio do mato. O responsável pelo lugar não estava, mas deve voltar mais tarde pra fazer o jantar.

Me adaptei, peguei um refrigerante na caixa de isopor, explorei um pouco mais o lugar e depois de algum tempo o resto do pessoal foi chegando: Tyler e Sydney, Ed e Austin, gente que tinha começado antes de nós, e cada vez mais, todos sem querer encarar a ventania e o frio.

Quinze pessoas dividiam o pequeno quarto no fundo da garagem quando Austin chega com seu Tyvex, um tipo de papel impermeável e durável usado para proteger a barraca do solo, e abre no chão do lugar. No verso ele havia desenhado o mapa de uma continente imaginário. “Ok pessoal, essa é a ocasião ideal pra gente jogar Dungeons and Dragons”. E as próximas horas foram em meio a ogros, fadas, sapos cantores e duendes com mandíbulas de aço.

O jogo só foi interrompido quando Steve, o cuidador do lugar, chegou convocando voluntários para ajudar na cozinha. Entretido com o jogo não fui, mas passados alguns minutos que era lá que deveria estar. Quando cheguei quatro pessoas tentavam sem sucesso fritar salchichas e tortillas em uma churrasqueira a gás. Vendo o fracasso eminente e frustração de 25 caminhantes famintos, pulei na linha de frente, pedi pra três deles saírem e fiquei ali fazendo uma centena de cachorros-quentes mexicanos: tortilla, salsicha, queijo e jalapeños.

Amanhã enfrento o tempo e o frio para chegar ao, dizem, melhor hamburger da trilha. Por hoje tenho por companhia umas latas de óleo dos anos 60, um Cadillac, ferramentas enferrujadas e 24 outros caminhantes que também estão dormindo de barriga cheia. Me sinto feliz como em um programa de tv. A primeira semana de PCT não poderia terminar melhor.

Pacific Crest Trail S01E06

A trilha da trilha: Peter Tosh – Legalize It

A cannabis é cultivada na Califórnia para a produção de tecido e fibras desde o século 18. Proibida no início do século 20, foi liberada apenas em 1996 para uso medicinal – e a Califórnia foi o primeiro país dos Estados Unidos a fazer isso. Vinte anos depois foi aprovado o “Adult Use of Marijuana Act”, a lei que permitiu seu também de forma recreativa. Um ano depois de entrar em vigor a indústria da maconha tinha quase 5000 agricultores cadastrados, mil distribuidores, 50 laboratórios de teste e uma venda nos pontos autorizados que somava 2.5 bilhões de dólares. Nunca gostei de colocar voluntariamente fumaça pra dentro dos pulmões (minha mãe morreu de enfisema pulmonar) mas acredito que sua descriminação é o melhor pros usuários e pra economia local.

Por isso estava curioso como seria fazer uma trilha de longa distância em um estado onde seu consumo é legalizado. A resposta veio hoje. Encontrei com o David, um americano que tinha conhecido em um grupo da PCT no Facebook e ficamos papeando um tempo, hora em inglês, hora em português, mas a maior parte em portinglês. Ele morou no Brasil em diversas cidades, foi missionário mórmon, fez parte da trilha em 2017 e voltou pra tentar fazê-la inteira esse ano. Ele também está na casa dos quarenta, começou alguns dias antes de mim e está tendo problemas com os pés e com seu celular, por isso vai sair da trilha por uns dias e voltar pra San Diego pra tentar consertar as coisas.

Certa hora ele me pergunta se eu fumo. “É que meu irmão é produtor e eu tenho uns cigarros dele ela vender. Cinco dólares a grama”. Quis saber mais: “olha, em 17 eu levei 200 para Kennedy Meadows e acabou rapidinho. Outro dia um suíço disse que estava cansado de ir na loja comprar e perguntou se podia comprar um pouco mais. Eu disse que sim. Pode ser uma onça? (28 gramas) Pode. Uma e meia? Sim. E ele comprou 44 cigarros. Fico imaginando quanto disse ele já consumiu. E eu vou assim, vendo dez um dia, cinco no outro…”

A gente estava no pátio do Centro Comunitário de Warner Springs, uma pequena cidade na beira da trilha que não tem muito mais que um posto de gasolina, uma agência dos correios, o centro comunitário e a escola do outro lado da rodovia, onde fui jantar macarrão e almôndegas feitos e servidos pelos alunos – custou 8 dólares, a verba vai para a própria escola e estava uma delícia.

Pra chegar a Warner Springs foram apenas 13 quilômetros de onde eu e Tyler acampamos. Esperamos a chuva parar por volta das 8 da manhã e quando colocávamos roupas e barracas molhadas na mochila também ensopada chegaram Sydney, Austin e Ed. Austin trazia os bastões que Tyler havia deixado pra trás e eu entreguei a ele os óculos de sol que ele havia perdido. Seguimos os cinco pensando no hamburger que diziam servir em Warner Springs, no tanque para lavar as roupas que nos esperava e no primeiro banho desde o início da trilha.

Pelo caminho passamos pela incrível Eagle Rock, uma formação rochosa em forma de águia com as asas abertas. Não sei se feito pelo homem ou pela natureza, a esculturas impressiona, isolada no topo de um monte.

Na chegada ao centro comunitário a surpresa: não havia hambúrguer. Mas o banho quente estava lá – de balde, mas um banho muito bem-vindo. As roupas lavadas e secas também. Com a tarde toda de folga pude recarregas as baterias e me preparar para os próximos dias. A chuva, dizem, vai continuar.

Pacific Crest Trail S01E05

A trilha da trilha: Madeleine Peyroux – California Rain

Um dia que começa com um beija-flor vindo na sua barraca não pode ser um dia ruim. Nem mesmo se a previsão do tempo diz que tem 90% de chance de chuva e a temperatura vai ficar em torno dos dez graus…

Poucos metros depois de começar a caminhada do dia, às 6:30 da manhã, outro sinal que o dia seria bom: um lindo arco-íris tomou conta do céu e me acompanhou por boa parte do dia. A chuva ia e vinha, forte o suficiente para eu colocar a capa, leve o bastante para refrescar o suor. Estava frio: boa parte do dia caminhava com uma camisa manhã longa, mais a blusa de frio e a capa de chuva. Mas andando rápido e morro acima era inevitável não suar.

A noite tinha sido difícil. Dormi mal, incomodado com o vento, a dor nas pernas e as queimaduras de sol nas coxas: com a chuva do primeiro dia troquei as calças compridas que estavam ensopadas pelo calção e acabei esquecendo de passar o protetor. Vermelho e ardido, acordava a cada virada no saco de dormir. Ainda assim acordei disposto, o beija-flor veio me dar bom dia, o arco-íris o seu alô e segui feliz da vida morro acima.

Logo depois de onde acampei vi um par de bastões de caminhada na beira da trilha. “Alguém precisou ir ao banheiro”, pensei e segui. Dez quilômetros depois vejo uma mensagem que Tyler tinha mandado: “se você ver dois bastões de caminhada pretos no caminho traz que são meus. Parei pra colocar a roupa de chuva e não sei onde eles ficaram”. Caramba… eu não iria voltar tudo aquilo. Apenas respondi que sim, eu havia visto na milha 80, e ele deveria mandar uma mensagem pras outras pessoas que sabíamos estavam vindo mais tarde: JP, Sydney, Austin, Ed. E com a bateria do meu celular nos finalmente, coloquei no modo avião e segui, pensando que talvez encontraria com Tyler em breve. “melhor apertar o passo”, pensava.

Minha única parada foi pra devorar um pacote de chocolate enquanto esperava mais chuva. Passei batido pelo reservatório de água e logo depois encontro dois fiscais da trilha, voluntários da PCTA. Não me pediram nenhuma das autorizações que carrego, mas me fizeram várias perguntas, que respondi afirmativamente: você é thru-hiker, tem a autorização, começou no dia certo, está carregando fogareiro, tem a autorização… não sei o que teria acontecido se tivesse dito não a alguma delas. Talvez uma multa, mas não creio que me tirariam da pista por conta disso.

Cheguei ao local que havia escolhido para acampar, logo depois da milha 100, às 2:30 da tarde. Tyler não estava ali e era pouco provável que tivesse andando até a vila de Warner Springs, 13 km a frente. Montei a barraca e comecei a preparar meu jantar quando ele chegou. “Você deve ter passado por mim quando parei na água”. Só pode ter sido…

O dia foi longo – 35 km em 8 horas – mas tarde foi tranquila. E amanhã será ainda mais: chegar cedo em Warner Springs, comer hambúrguer, lavar as roupas e tomar o primeiro banho em uma semana. Eu estou fedido.

Pacific Crest Trail S01E04

A trilha da trilha: Don McLean – American Pie

Em 2018, eu e a Ale, minha parceira e esposa, fizemos o Circuito O de Torres del Paine. Que o lugar é incrível todo mundo te conta. Mas ninguém fala do vento. Certo dia chegamos para acampar no Refúgio Paine Grande, bem às margens do lago, e o atendente nos disse: “se vocês ficarem mais perto da montanha é melhor e venta menos”. Procuramos um lugar por lá e eram todos inclinados demais ou reservados para a própria empresa que cuida do lugar. Escolhi um lugar mais abaixo, entre o refeitório e os banheiros, onde mais gente já tinha montado e barraca e parecia seguro. Pois à noite o vento começou a soprar e certa hora Ale me disse:”parece que soltou alguma coisa ali”. Não tinha soltado: os ventos de 100 km por hora, como ficamos sabendo na manhã seguinte, haviam quebrado as estacas da minha barraca.

Pois montando a barraca hoje tudo o que eu não queria era passar por uma experiência similar. Por isso fui de um lado pro outro, tenta daqui, experimenta dali e só depois de uma hora e meia cheguei a uma conclusão de que aqui onde estou é o lugar mais seguro. Aqui é o leito de um rio seco (se chover também posso ter água descendo), a mil metros de altitude, cercado de rochas, cobras cascavel e ratos, segundo o app que estou usando. E a barraca continua balançando mais que gelatina.

O dia foi longo e proveitoso. Ontem quando chegamos no camping havia apenas uma barraca montada e hoje pela manhã vi que era o Tyler, que havia acampado comigo na primeira noite. Ele saiu primeiro mas não demorou para que encontrássemos: eu estava sentando junto à marca de 100 km quando ele veio descendo a trilha. “Ei, você quer alguma água? Eu acho que estou levando demais: estou carregando seis litros”, ele disse. Aceitei um, apesar de achar que o que tinha era o suficiente e a partir dali passamos o resto do dia andando juntos. Primeiro uma descida de 2200 metros até 670, na ponto chamado Scissor Crossing. Depois a subida até aqui onde estou.

Nesse trecho da trilha água é realmente um problema. Mesmo com a chuva e a neve, durante todo o trecho que fizemos hoje, de mais de 35 km, não havia uma única nascente ou curso d’água. Amanhã serão mais 20 km até o primeiro riacho. Apesar de todos dizerem para não contar com os chamados “water cachet”, reservatórios onde voluntários deixam garrafões de água para os caminhantes, essa é a única alternativa. Ou carregar seis litros como o Tyler.

O primeiro reservatório estava no cruzamento da trilha com uma estrada de terra chamada Rodriguez Road. Eram dezenas de garrafões dentro de caixas plásticas e como havia uma sombra perto – outra coisa que vai ficando mais difícil de encontrar daqui pra frente – Tyler e eu resolvemos tirar uma siesta. Logo depois chegam Snickers, Sydney, Ed e Austin. Todos ali batendo papo e se hidratando quando passam dois helicópteros da guarda fronteira em voo rasante. Não é algo incomum nessa região: todos os dias vimos um ou dois, mas nunca tão baixo. Não sei se por causa do barulho ou do deslocamento do vento, assim que eles passam um enxame de abelhas saiu da árvore de onde estamos relaxando. Apesar das pernas doídas, cada um acho energia pra correr. As abelhas, felizmente, deixaram a gente em paz.

O segundo estava debaixo da ponte que cruza a estrada que vai pra cidadezinha de Julian. Por ser uma sobra consistente e próximo do local onde se pega carona pra cidade, é ponto de encontro de quem faz a PCT: alguns dando um tempo pra ir pra cidade, outros pra subir a montanha. Não achei que seria necessário ir à cidade: cidade é sinônimo de gastar dinheiro e não é o momento. Nem a torta que os caminhantes ganham de graça em uma cafeteira local me convenceu. Achei melhor subir a montanha e gastar algum tempo achando o melhor lugar pra montar minha barraca.

Pacific Crest Trail S01E03

A trilha da trilha: The Ventures – Walk, don’t run

Lis, minha neta mais nova, é o que a gente chama aqui em Minas de menina custosa. Cheia de energia, ela não para um segundo sequer. Já foi pro hospital porque um cachorro mordeu seu rosto (e ela continua louca por cachorros); porque comeu veneno de rato, porque derrubou um portão em cima dela mesma. Já deu pra sentir o nível da pessoa. Sendo assim, tombos e tropeções são parte de sua vida, e ela aprendeu bem a lidar com isso. Sempre que cai levanta imediatamente e diz: “tô bem!”

Hoje foi meu dia de dizer “tô bem!”. Sai da vila de Mount Laguna pouco depois de meio dia. A trilha é tranquila, corta o asfalto que leva a cidade e continua. Vinha no meu passo rápido usual, tropecei e me esborrachei no asfalto. Nada demais, um tombo besta, mas ralei novamente o joelho, já cheio de cicatrizes, depois de muitos anos (acho que Lis tem a que puxar).

Mount Laguna está a 12 quilômetros de onde passei a noite. Cheguei ali por volta das dez da manhã e um monte de hikers estavam sentados à porta do prédio que é a única loja e correio do vilarejo. Roupas, barracas e equipamentos de espalhavam pelo lugar, todos tentando secar da chuva da última noite. Dei um bom dia – todos haviam começado junto comigo, mas não os havia visto nos dias anteriores – e fiz o mesmo. Entrei na loja pra comprar comida e carregar as baterias dos eletrônicos.

Fiquei duas horas por ali, conversando com locais e outros hikers que ia e vinha e foi alguns minutos depois que levei meu tropicão. Mas apesar do tombo o dia foi super bom. Fazia frio – o termômetro não passou dos 9 graus – mas o sol ajudava. A paisagem começou a mudar: a vegetação está ficando mais baixa e o terreno mais seco.

Cruzei a marca de 50 milhas e logo depois encontro Shuffles e Ellie, que também começaram comigo, e Miki, uma bipo-australiana simpática de menos de um metro e meio e uma mochila quase do seu tamanho. Ela vinha andando a passos lentos, usando botas pesadas, uma meia calça e por sobre elas, um short. Vinha conversando com ela quando pediu pra parar. “Minhas bolhas estão me matando”, ela disse. “O que você está fazendo usando essas botas? Compra um par de tênis!”, comentei. “Meus pés são muito pequenos. Tenho que comprar na sessão infantil e não achei nenhum que me servisse”. Quando tirou as botas vi o quanto a situação era complicada. Band-aids e esparadrapos cobriam quase todo o pé. Eram dezenas de bolhas. Quando Miki descobriu o dedão e apertou a bolha um jato de líquido jorrou pro alto. “Acho que você deveria caminhar o resto do dia de sandálias”, disse Shuffles. “É menos de um quilômetro até o ponto de água”.

E assim fomos. O ponto, uma torneira em uma área de camping, é o único disponível pelos próximos 20 quilômetros. Por isso quase todos os hikers que começaram dia 15 estavam por ali, aproveitando a sobra, a água e tentando decidir onde iriam passar a noite. As opções eram escassas: saí antes deles para garantir pra mim um lugar longe do vento, outro problema nessa região.