Planejamento de trilhas de longa duração

Fiz minha primeira trilha de longa distância em 2015. Caminhei 420 quilômetros do Caminho da Fé e conto sobre essa caminhada aqui. Depois foram os 1200 quilômetros da Estrada Real, que também conto o dia a dia nesse link. Me preparava para fazer os  3.540 quilômetros da Appalachian Trail quando fui ao Rio para uma reunião com o pessoal da Spot. A gente fechou uma parceria e eles me cederam o Gen3 para a travessia. Seriam cinco meses de caminhada e a única condição que a Ale, me esposa, colocou foi que ela deveria saber em tempo real onde eu estava. E o Gen3 é perfeito pra isso, já que manda para um site e suas redes sociais a sua localização.

Na reunião o pessoal me perguntou se eu não estava preocupado com os imprevistos que eu poderia encontrar durante a travessia.

– Olha, eu não sou aventureiro. Eu sou planejador. O que eu faço é planejar eventos. Uma travessia de cinco meses não é nada mais que um evento de longa duração.

Foi essa a minha resposta. E é verdade. Sou formado em Comunicação, mas trabalho com eventos desde 1994. Fiz um Master in Event Management na University of Technology de Sydney, Australia. É minha profissão.

Assim como nos eventos que faço, ao planejar uma trilha qualquer eu preciso pensar em todos os aspectos: o que vai ser? Quanto vai custar? E se algo der errado? E se não chegar ao final? E como vai ficar a imagem do meu cliente depois desse evento, caso algo der errado? Quais os retornos que meu cliente vai ter caso tudo ocorra como planejado? Como medir o sucesso desse evento?

Encaro assim o planejamento de uma trilha de longa distância. E acredito que você deva encarar da mesma forma. Não é aventura: é um evento bem planejado, onde todos os aspectos precisam ser analisados e levados em consideração.

A primeira coisa no seu planejamento é decidir qual trilha fazer. No meu caso, decidi fazer aAppalachian Trail em 2017 por alguns motivos. Primeiro porque eu não queria uma caminhada com tanta gente como o Caminho de Santiago, por exemplo. Quer números? Então toma: em 2017, segundo a Appalachian Trail Conservancy, 4.127 pessoas se registraram para para a trilha de ponta a ponta, os chamados thru-hikers. Eles também estimam que outras 800 pessoas não se registraram, o que temos um número na casa de 5.000 pessoas. Já a Confraternity of Saint James, que administra o Caminho de Santiago, chegou a impressionantes 301.036 peregrinos em 2017. O Caminho de Santiago recebe por semana mais peregrinos que a AT recebe durante o ano todo…

Além disso eu queria uma caminhada que me permitisse acampar o máximo de noites possível e que não fosse muito técnica. Por isso eu escolhi a AT e não a PCT, por exemplo. Eu sabia que naquele ano a PCT não seria pra mim: eu não tinha experiência em neve, a trilha era mais isolada, eu queria caminhar muito mas não ficar pensando em outros problemas.

Para essa definição inicial eu te aconselho a fazer isso com pelo menos um ano de antecedência. Mesmo trilhas menores, como Torres del Paine, no Chile, exigem um planejamento longo, já que você precisa reservar os campings com pelo menos 6 meses de antecedência. Esses meses vão te dar a possibilidade de pesquisar e conhecer o máximo possível sobre a trilha que você vai fazer. Lembre-se: aquela vai ser a sua casa por um bom tempo.

Depois de escolher você vai precisar desse tempo para que você possa planejar a trilha com cuidado. Levante as informações básicas, leia bastante, converse com gente que já fez a trilha, procure livros e sites. Existem dezenas de blogs especializados, no Brasil e no exterior. Procure por vídeos no YouTube, use a hashtag com o nome da trilha no Instagram pra ver fotos e te preparar pro que você vai encontrar. Existem grupos no Facebook de discussão sobre as trilhas. Entre neles. Se existerem grupos separados por anos – de gente que vai fazer esse ano e de quem fez no ano passado, por exemplo – entre nos dois. Conversar com quem já fez a trilha vai te ajudar a entender melhor o que funciona, o que não funciona, quais equipamentos levar, como lhe dar com alimentação etc.

Descubra quanto tempo você vai ter disponível e seja se é adequado pra trilha que você quer fazer. Não tem 6 meses? Com três é possível fazer uma trilha como a Te Araroa, na Nova Zelandia. Tem um mês? Talvez o Caminho de Santiago seja uma opção pra você. Ou Tour du Mont Blanc, na Europa. Uma semana? Existem diversas trilhas aqui no Brasil e na América do Sul. Entre no Wikiloc, por exemplo, e pesquise as trilhas disponíveis.

Planeja também quanto você vai gastar. Se você está curioso sobre quanto custa fazer a Appalachian Trail, por exemplo, eu fiz um texto e gravei um episódio no YouTube só sobre isso. Leve em consideração suas despesas na trilha mas também as despesas que você vai continuar tendo em casa e o dinheiro que vai deixar de ganhar sem trabalhar por aquele período.

Trilha decidida, orçamento feito, é hora de pensar nos equipamentos. Existe muita diferença no equipamento que você vai usar pra fazer uma trilha nos Estados Unidos ou no Brasil. De novo, converse com quem já vez a trilha pra saber qual o melhor equipamento naquela situação. E lembre-se que a escolha dos equipamentos é algo muito pessoal. Experimente, teste, use tudo antes de começar a fazer a trilha de verdade.

Se você já sabe qual trilha vai fazer, se comprometa a isso. Reserva as datas, compre as passagens necessárias. Estude como chegar e sair da trilha e faça as reservas de transporte e albergue necessárias.

Chegue pra fazer a trilha na melhor forma física que conseguir. Pratique em trilhas menores. Se não conseguir, faça como eu: coloque algo pesado em sua mochila e ande pelo seu bairro. Eu colocava todos os volumes de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (eram quase dez quilos de livros) e saia subindo os morros de Belo Horizonte. Também fiz algumas sessões de girotronic antes de ir pra AT que ajudaram bastante.

Não se esqueça de trabalhar também o lado psicológico e emocional. Fazer uma trilha que dura três, quatro, cinco meses é um grande desafio. Nesse sentido o livro Appalachian Trails – A psychological and emotional guide to successfully thru-hike the AppalachianTrail, do Zach Davis, foi fundamental. Ele sugere que você faça uma lista dos motivos que o levaram a fazer a trilha e como você vai se sentir se conseguir completar a trilha ou se desistir da caminhada. Faça essa lista e leva com você. Vai te ajudar quando pensar em cair fora da empreitada.41xofrlh4ql

Como tudo preparado é hora de contar pro mundo que você vai sair nessa aventura. Faça um blog, divulgue no seu Facebook, conte pra sua família. Pense em algum produto que a trilha possa gerar: um documentário, um livro, uma exposição.

Tudo pronto é hora de dar aquele primeiro passo. Aproveite cada minuto. Lembre-se que essa trilha é sua: não tente seguir o ritmo de outras pessoais. Ouça seu corpo, não force mais do que você da conta. E se pensar em desistir, nunca desista em um dia ruim. Espere, de um tempo e quando sua cabeça esfriar pense de novo no assunto. Lembre-se da lista que voce fez. Lembre-se também da máxima dos trilhas americanas: hike your own hike. Faça a SUA trilha. Vá no seu ritmo, do seu jeito, que você vai chegar e seu evento, sua caminhada, vai ser um sucesso.

Como eu consigo tempo – e dinheiro – para minhas caminhadas

“Cara, como você consegue isso? Você deve ser milionário pra parar 6 meses de sua vida e ficar caminhando…” Já ouvi essa frase dezenas de vezes. Ela e suas variações: que sou vagabundo. Que ganhei na loteria. Que não penso no futuro. Que vivo de renda. Muitas vezes a pergunta é movida por curiosidade mesmo. Outras, por inveja e vontade de estar no meu lugar.

Por causa disso gravei um vídeo para o meu canal no YouTube sobre os custos de uma trilha como a AT. E escrevo aqui um pouco mais sobre isso.

Consigo fazer minhas caminhadas – e viagens em geral – por causa de uma intrincada combinação de planejamento e economia pessoal. E um pouco de sorte. No fundo, consigo fazer minhas viagens por que escolhi viver dessa forma. E por mais que isso diga respeito só a mim e a minha família, acho que minha experiência pode ajudar a algumas pessoas a finalmente realizarem aquela aventura que tanto querem – e que parece impossível.

Antes, deixa eu te contar uma história. Quando eu tinha 15 anos fiz a primeira grande viagem da minha vida. Minha família sempre teve uma vida difícil. Fui o caçula de 9 irmãos, meus pais nunca se formaram – só estudaram “o grupo”, como a gente diz, ou apenas o ensino fundamental – e viajar sempre foi meu sonho de criança. Na infância o mais longe que tinha ido era na casa dos meus avós, a 120km de onde morava. Com 14 anos entrei para a escola de música municipal, aprendi a tocar saxofone e um ano depois fui recrutado por uma banda local – o RG7 – para tocar em um carnaval. Em Porto Seguro. Meus pais precisaram me dar uma autorização de viagem, registrada em cartório, e lá fui eu, em um ônibus de turnê, com uma dúzia de músicos, cantores, cantoras e técnicos, pegar a estrada. Sabe o filme “Quase Famosos”? Pois é… Aquela viagem, de quase 24 horas entre o interior de Minas ao Sul da Bahia, mudou a minha vida. Aquela foi a primeira vez que vi o mar. Ali, tive duas certezas: que eu queria conhecer o mundo e que não gosto de carnaval…

Dias depois, de volta da viagem, decidi que era hora de ganhar meu próprio dinheiro, arrumar um emprego e sair de casa. Fiz um concurso público, passei, e me mudei quando tinha dezesseis. Nessa época dizia pra minha mãe que queria juntar dinheiro pra conhecer o mundo. “Você só entra em um avião quando eu morrer!”, ela dizia. Ela faleceu em 1994. Naquele mesmo ano fiz minha primeira viagem internacional. E desde então viajar virou uma obsessão…

Mas e então? Como financiar uma caminhada de longa distância?

A primeira coisa que você precisa saber é que viajar a pé é a forma mais barata que existe. Meus gastos durante os meses de caminhada são, no geral,  bem próximos dos meus gastos do dia-a-dia no Brasil. Mas concordo que não dá simplesmente sair andando. É preciso planejar.

Faz alguns anos que decidi não ter emprego fixo. Troquei a carteira assinada por trabalhos freelance. Na verdade, isso é consequência de uma decisão que tomei há vários anos, quando abandonei o emprego que consegui com aquele concurso público que fiz na adolescência: que só iria trabalhar com coisas que me dão prazer.

Não ter a obrigação de assinar ponto ou me matar em um emprego diário me dá menos dinheiro, é verdade, mas também a liberdade e a flexibilidade de viajar quando puder. Garanto o suficiente para pagar as minhas despesas pessoais e economizar pra fazer o que gosto.

Com essa flexibilidade posso ficar atento a um ponto importante – e caro – de viagens: as passagens internacionais. Fico de olho em promoções, assino listas de sites como Melhores Destinos, pesquiso a tendência de preços no Google Flights e quando aparece algo que combina com a minha carteira, não reluto. Com isso já viajei para Moscou pagando R$750,00 na passagem ida e volta e já fui pra para o Canadá pagando um pouco mais que isso.

Mas mesmo gastando pouco durante a caminhada e pagando pouco pela passagem é preciso ter dinheiro pra viajar. E pra isso é preciso economizar. Na ponta do lápis, minhas despesas em Belo Horizonte ou na trilha são bem parecidas. O que gasto por lá com alimentação e raras hospedagens é bastante similar com o que gastaria estando aqui, em supermercado, transporte e eventuais restaurantes. O que faz a diferença é o dinheiro que deixo de ganhar. É aí que o planejamento a longo prazo ajuda.

Eu sei exatamente quanto preciso por mês (spoiler alert: é pouco). Me programo e trabalho para economizar em seis meses minhas despesas fixas dos outros seis meses. Uso uma planilha em Excel, onde anoto diariamente minhas despesas e meus ganhos.

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

Minhas despesas são poucas porque prefiro gastar nas viagens ou eu viajo porque minhas despesas são pequenas? Um pouco dos dois, na verdade. Mas existem algumas coisas que faço e, acredito, me ajudam a ter algum dinheiro sobrando:

  • Eu saio muito pouco. Como pouco fora. Cozinho bastante em casa. E quando vou ao supermercado quase nunca compro alimentos industrializados: biscoito, refrigerantes, congelados, essas coisas eu deixo pra comer na trilha.
  • Eu (ainda) tenho carro, mas é um modelo com mais de 10 anos que raramente tiro da garagem. Ando muito a pé e gasto muito pouco com transporte público, taxi ou Uber/Cabify
  • Não me lembro a última vez que fui ao cinema, apesar de assistir a muitos filmes. Baixo quase tudo o que vejo. O mesmo vale pra música. Não compro um disco desde que o Napster me levou à falência (eu tinha uma loja de CDs)…
  • Eu tenho uma vida regrada – nenhum vício que faça meu dinheiro desaparecer sem que eu perceba. Não uso drogas, não fumo, não sou de beber muito…
  • Também não tenho dívidas – não pago aluguel, não tenho financiamentos, não devo cartão, não devo o banco. Sou milionário? Não. Tenho dinheiro guardado? Um pouco.
  • A última camisa nova que usei foi a que ganhei da Spot Brasil para fazer a Appalachian Trail. Não tenho muitas roupas e compro cada vez menos.

Não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho

Além disso tenho me desprendido de bens materiais e acumulado cada vez menos coisas. Antes de fazer a Appalachian Trail me desfiz de várias coisas que tinha e não usava mais – uma coleção de bonecos, câmera fotográfica e filmadora, um computador reserva, até uma bota. Já não tenho nenhum disco. Vou fazer uma nova limpa em breve e guardar ainda menos tralhas. O objetivo é guardar cada vez menos. Como disse uma caminhante que encontrei uma vez, “cada vez que me dá vontade de comprar um móvel novo eu saio pra caminhar e a vontade passa”.

Um dos principais pontos de despesas numa caminhada de longa distância são os equipamentos. Barraca, mochila, saco de dormir, isso é tudo caro. Mas tive a sorte de ganhar a promoção Badger Sponsorship do site The Trek antes da AT e receber como prêmio a maior parte do que precisei. Também consegui o apoio fundamental da Spot Brasil e da Proativa, que me cederam equipamentos essenciais para a jornada e que ainda hoje venho usando.

Também fundamental é a sorte que tenho em ser casado com uma pessoa incrível que é a Alê, que entende minhas caminhadas, me acompanha em algumas delas e divide comigo algumas destas convicções. E boa parte das despesas da casa.

Um ponto que se fala pouco quando se trata de dinheiro e financiamento de uma caminhada de longa distância é o dinheiro que você deixa de ganhar quando está caminhando. Porque suas despesas lá podem ser poucas, mas as despesas daqui continuam chegando. E pra piorar você não tem nenhum dinheiro entrando por seis meses… De novo, meu estilo de vida ajuda nesta parte: não pago aluguel, não tenho dívidas, não tenho plano de saúde. Algumas das despesas da casa Alê arca normalmente – e outras me planejo antes de viajar e deixo programadas para serem descontadas automaticamente da minha conta. E apesar de viver fazendo trabalhos freelance sei que sou bom o suficiente para garantir novos trabalhos quando voltar. E se não encontrar trabalhos na minha área, estou aberto a aprender e fazer outra coisa. Qualquer coisa que me dê prazer. Se me der o suficiente pra pagar minhas despesas e salvar algum pra próxima viagem, melhor.

Mas afinal, quanto custa?

Minha caminhada pela Appalachian Trail, que durou de Abril a Agosto de 2017, custou em torno de 4500 dólares. São cerca de 900 dólares por mês, algo em torno de 130 reais por dia. Nisso aí tá incluso tudo, de passagem aérea a alimentação, de hotel a seguro de viagem.

É um bom dinheiro, mas pense: quanto eu gastaria nesses cinco meses em BH, entre gasolina, alimentação, supermercado, farmácia e outras despesas? E quanto eu gastaria em uma viagem de férias dentro do Brasil mesmo? No final, acho um investimento barato por uma experiência única como essa. Não é pra todo mundo, nem financeiramente, nem psicologicamente, é verdade. É preciso querer e estar disposto. É preciso ter os recursos – falta de grana é dos principais motivos que levam as pessoas a desistirem de completar a trilha. Mas vale cada centavo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Appalachian Trail – Equipamentos

Já tinha escrito sobre os equipamentos antes da viagem, mas como tem gente perguntando resolvi fazer uma recapitulação do que me acompanhou na viagem.

Durante tempo de caminhada eu usei basicamente o mesmo equipamento. Foram poucas as coisas que mandei de volta ou inclui ao que estava na minha mochila desde o início.

Tudo tinha seu lugar, dentro da mochila ou quando montava equipamento. Por causa disso sei de cabeça exatamente o que carregava. Não fui ultra light: os equipamentos eram leves, de boa qualidade, mas se procurar e possível achar outros ainda mais leves.

Minha mochila era um Gossamer Gear Mariposa de 40 litros. Único comentário sobre ela: perfeita. Tem algumas coisas que gosto muito, como os bolsos externos, a capacidade de acessar água sem ter que tirar a mochila e a possibilidade de trocar só o cinturão se ele estragar. Não é gigante, mas cabia tudo com folga. Ela tem grande bolso externo na parte de trás. Nas laterais um bolso maior no meu lado esquerdo e dois pequenos no direito. Todos esses abertos. Tem também um na parte de cima e um em cada lado do cinturão, esses três com zíper.

No bolso de trás, o maior, eu levava a barraca, a pá e o saco de lixo. No bolso esquerdo meu tênis de acampamento e 15 metros de corda. No bolso de cima do lado direito o filtro, um Platypus de dois litros e um copo feito a partir de uma garrafa de água mineral cortada ao meio. No bolso de baixo a garrafa de água. No lado esquerdo do cinturão os lanches que comia durante o dia. Do lado direito o telefone, fone de ouvido e as páginas do guia daquele dia, dentro de saco plástico. No topo um saco plástico com minha nécessaire, outro com papel higiênico e mais uma meia dúzia de sacos extras. Explico cada coisa a seguir.

A barraca era uma Big Agnes Fly Creek pra duas pessoas. O espaço extra eu usava pra guardar a mochila dentro da barraca nos dias de chuva. Essa é sem dúvidas a barraca mais popular na trilha, mas tive problemas com ela, com água entrando pela parte de baixo. Não fui o único: Senator e outras pessoas que conversei reclamaram da mesma coisa.

A pá é usada pra cavar seu cathole, o buraco que você faz pra enterrar as fezes. Comecei com uma de plástico duro, mas achei uma outra de alumínio, mais leve, e troquei. O saco de lixo era uma sacolinha de supermercado mesmo.

O tênis de acampamento era uma espécie de Croc, mas mais leve que a original. Comecei com um tênis da Tribord, mas demorava a secar. Achei esse num hiker box e fiz a troca. Deixei-o na hiker box no final da trilha. A corda é da espessura de uma corda de varal. Usava pra pendurar a comida no acampamento. Já comentei sobre isso aqui.

O filtro é um Sawyer, que eu atachava no Platypus e filtrava a água pra dentro da garrafa, uma de plástico, da água mineral Smart Water. Super resistente, durou toda a viagem. O copo era da garrafa da mesma marca. Usava pra pegar água em locais difíceis, mas também me servia de taça quando levava vinho pro acampamento.

Comecei com o iPhone que perdi. No dia coloquei ele no bolso e não fechei o zíper. Terminei com um Motorola pré pago, que usava com fones baratos que comprava em postos de gasolina. Os snacks do dia eram quase sempre barras de cereal, chocolates, queijos e carne seca.

A nécessaire era um ziplock com escova de dentes (dessa de viagens), creme dental, fio dental, uma pomada de assadura, outra pra picada de insetos e repelente. O papel higiênico era, bem, um rolo de papel higiênico. E levava um pacote com dez lenços umedecidos também.

Além disso, na parte de fora eu tinha um canivete suíço em um mosquetão no lado esquerdo da alça da mochila, junto com o tag de identificação da Appalachian Trail e meu Spot Gen 3 na alça do lado direito.

Dentro da mochila eu tinha um grande saco de lixo, que protegia minhas coisas em caso de chuva. Além disso cada coisa ia dentro de um saco estanque. Na ordem, de baixo pra cima, um Sea to Summit com meu saco de dormir. Depois um Tribord com minha comida e primeiros socorros. Em três sacos menores eu trazia meu fogareiro, gás e colher; meu isolante e um lençol. Um saco da Granite Gear com minha roupa limpa vinha depois. Em cima dele a sacola com minha suja e outros dois sacos menores, um com minha câmera e outro com os eletrônicos. Por fim a capa de chuva.

Detalhando cada coisa: o saco de dormir era um REI Igneo para temperaturas de até -5ºC. Nos dias mais quentes ficava insuportável dormir nele, por isso comprei um lençol. Ele ajuda também a deixar o saco de dormir menos sujo. O isolante térmico é inflável, um Therm-o-rest Neo Air. Confortável, leve, mas barulhento. Ainda assim não trocaria pelo tradicional. O fogareiro era o incrível Jetcook da Azteq. Rápido e eficiente. A colher era uma de bambu que o pessoal da Gossamer Gear mandou com a mochila. Dentro Jetcook eu levava também o combustível é uma bandana que usava pra limpar os utensílios.

O saco estanque com as roupas limpas tinha uma jaqueta de frio da Marmot, um par de meias extras, um calção, uma camiseta e a bandeira do Brasil. O saco de roupas era também meu travesseiro.

O kit de primeiros socorros não passava de alguns band-aids, uns comprimidos pra dor, alergia e dor de cabeça, multi vitaminas, umas fita atléticas que achei numa hiker box, protetor solar e um detergente biodegradável pra lavar a panela. Os eletrônicos eram uma carregador portátil da Anker, dois cabos mini USB, adaptador pra tomada com duas entradas, também da Anker e minha lanterna de cabeça, uma Pretzl. Nesse saco estanque também levava meu passaporte e pilhas extras para o Spot e/ou a lanterna. A câmera, que comprei depois de perder o iPhone, era uma chinesa, a Yi Mirrorless. A capa de chuva era uma jaqueta da Quechua.

Eu caminhava com tênis Altra e palmilhas Superfeet, meias da Wigwag, calças conversíveis de pescaria da Decathlon, uma camiseta, boné e uma bandana. Os bastões de caminhada era da Quechua. Quebrei um, achei um outro da Hiker Trash, que também quebrou e achei outro da Black Diamond.

E era isso. Pouco mais de dez quilos. Tudo que precisei pra viver quase 5 meses no mato.

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Appalachian Trail S01E131

Dia 131, 23/08: Katahdin Stream Campground, The Birches Lean-tos (2184.6) a Katahdin, Baxter Park, Northern Terminus of the AT (2189.8)

Distância do dia: 5.2 + 5.2 milhas | 16,73 km

Distância total: 2189.8 + 8.8 + 5.2 milhas | 3546,67 km

Distância que falta: 0 milhas | 0 km

Dias que faltam: 0

Sabe criança na véspera de natal? Goleiro antes do pênalti? Aquela ansiedade, aquele desejo de ao mesmo tempo e prolongar aquele momento mas querendo que ele aconteça rápido? Eu estava assim ontem a noite. Já não venho dormindo bem há alguns dias – o corpo doi, o osso da bacia dói quando viro, as pernas doem todo o tempo, os pés latejam, a cabeça não para – mas essa noite foi pior.

Às cinco em ponto ouço Wash Bear dizendo “bom dia”, em português mesmo. Éramos só os dois no abrigo. Senator havia ficado sozinho no outro – cada um cabia 6 pessoas – e mais um hiker que a gente não conhecia estava acampado. “E aí? Como está se sentindo?”. Ele também não sabia explicar muito bem. “É hoje, cara. Acabou. O dia vai ser lindo”, ele disse.

A gente tinha planejado esse dia há mais de um mês, quando compramos as passagens aéreas e decidimos que iríamos caminhar juntos até o final. Fizemos nosso planejamento de milhas por dia de caminhada e seguimos firme. Perdemos um dia quando decidimos não subir Wildcat com chuva e tiramos o atraso nas 100 Miles Wilderness. Funcionou super bem. Mas pra funcionar totalmente precisávamos do dia lindo hoje.

Ontem, como prevíamos, choveu toda a noite. Muito. Mas naquela hora, às cinco da manhã, ainda clareando, a chuva já estava minguando. Decidimos sair os três juntos quando o dia clareasse. Deixamos o acampamento às oito. Eu e Senator deixamos a maior parte das nossas coisas no posto dos guarda florestais. Fomos com o básico: mochila, água, blusa de frio, uns lanches. Wash Bear, cabeça dura, levou tudo.

O início da subida a Katahdin é tranquila. As primeiras duas milhas das 5.2 milhas até o topo são em a ascensão gradual, tranquila, sem pedras. Mas quando chega a hora de subir de verdade a história muda. Katahdin tem mais de 5 mil pés de altitude e as próximas 3 milhas são de escalada. O tempo abria e fechava, com neblina cobrindo tudo, a cada cinco minutos. Fazer isso com chuva é impensável. Bastões de caminhada são quase desnecessários. Quando se chega acima do nível das árvores a coisa fica mais simples. Uma subida pesada, nas pedras, mas bem mais fácil que os paredões que você acaba de passar. E quando você vai subindo já dá pra ver lá no alto a placa que marca o final da Appalachian Trail.

Se tem um momento que eu queria que alguém tivesse fotografado foi o exato segundo quando chegamos ali. Eu vinha na frente, Wash Bear depois, Senator por último. Paramos na placa, os três colocaram a mão na madeira, olhamos um pro outro e não falamos nada. Não precisava. Cada um vivia ali, naquele instante, a realização de um sonho.

“Tem uma coisa sobre o final da trilha que eu preciso te falar”, eu disse sério pro Wash Bear no dia anterior. “Eu vou chorar. Eu vou tirar muitas fotos. E eu preciso gravar um vídeo pra Lis, onde eu finco a bandeira e falo o nome de todo mundo na nossa família”. Ele respondeu: “ok. Talvez eu chore também. E me lembre que eu preciso pegar uma pedra de Katahdin pra coleção da minha esposa”.

“Você precisa pegar uma pedra”. Foi a primeira coisa que eu falei. Tirei a mão da placa, sentei e chorei. Muito. Soluçava e as lágrimas caiam em abundância. Wash Bear colocou a mão no meu ombro. Ele também chorava. Enxuguei as lágrimas, levantei e ele me deu um abraço. “Acabou. Conseguimos, cara. A gente andou 2200 milhas!”, ele disse.

Uma coisa que preciso falar sobre Katahdin: a trilha da Appalachian Trail não é a única forma de chegar ali. Existem pelo menos outras três trilhas que levam até lá. A AT, dizem, é a mais difícil. Mas por causa das outras o lugar tá sempre cheio. Quando a gente tava lá tinham mais umas 20, entre day e thru hikers. E como a gente tinha acabado de acabar e sabia que a AT era difícil escolhemos descer pelaaod fácil das trilhas.

Mas a mais fácil não é tão mais fácil assim. “Tenho certeza que isso aqui foi um desmoronamento e os caras falaram: olha! Temos uma trilha nova!”, disse o Wash Bear. A sensação era mesmo essa.as pelo menos dava pra ver onde a gente estava colocando os pés.

Na chegada ao estacionamento o pai do Senator esperava pela gente, com sanduíches e cervejas. Nossa comemoração foi ali. Um brinde, um sanduíche e estrada pra Millenocket.

Acabou. 2200 milhas. 3500 quilômetros. 131 dias. 5.000.000 de passos. A coisa mais difícil que já fiz na minha vida. Uma aventura incrível.
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Appalachian Trail S01E130

Dia 130, 22/08: Hurd Brook Lean-to (2171.2) a Katahdin Stream Campground, The Birches Lean-tos (2184.6)

Distância do dia: 13.4 milhas | 21,56 km

Distância total: 2184.6 + 8.8 milhas | 3529,93 km

Distância que falta: 5.2 milhas | 8,36 km

Dias que faltam: 1

Na reta final, a trilha vira um jogo. Um jogo contra o tempo, o clima. Vai chover? É melhor terminar amanhã ou hoje? E se o clima virar? Internet foi complicada durante todo o tempo das 100 mile wilderness, mas sempre que dava eu checava o clima tentando decidir. A última previsão havia sido ontem: 60% de chances de chuva hoje no final do dia, 90% amanhã de manhã. Os pontos que estava levando em consideração eram: a chance de chuva hoje era menor, mas era no final do dia. Se a gente subisse e começasse a chover na descida no final do dia não ia ser legal. Amanhã a probabilidade era maior, mas a chuva era cedo: antes das nove da terá terminado. Então daria pra esperar e subir depois da chuva. Optamos por subir amanhã. Não vamos ter outra oportunidade: é subir amanhã ou subir amanhã.

Era o plano inicial, que funcionou super bem. Hoje a ideia era ter um dia leve, tranquilo, e amanhã subir pela trilha oficial da AT e descer do jeito mais fácil possível (Spot: posso clicar no SOS e pedir pra vir me pegar?).

Senator estava na mesma página que a gente. Tooth estava a frente e resolveu subir hoje mesmo. Encontramos com ele no café da manhã, no armazém de um camping onde paramos logo pela manhã. Não eram oito, e a gente ficou no shelter de ontem só pra comer aqui. Era um buffet, dez dólares por pessoa. Comi meia dúzia de torradas, a mesma quantidade de ovos, salada de frutas, dois iogurtes, meia dúzia de mini muffins, quatro copos de café. Nunca comeria tanto assim normalmente…

Com a decisão de terminar amanhã, o dia seria super fácil (engraçado dizer que andar a distância de meia maratona é fácil, mas comparado com o que a gente vem fazendo não é nada). Andamos três milhas pro café, outras dez, completamente planas, pra chegar no Baxter Park. A base de Katahdin. 5 milhas, 8 quilômetros até o topo e pronto.

É difícil descrever o sentimento. Um misto de ansiedade e dor, apreensão e desejo. Quero que termine logo, mas sei que vou sentir falta da trilha. Quero chegar ao topo, mas quero aproveitar mais. Incrível o que essa trilha faz com você. Os encontros, as pessoas, as paisagens, os momentos de reflexão. Cada dia, cada passo, cada minuto é algo novo. Amanhã vai ser “subir, fincar a bandeira é falar o nome de todo mundo”, como diz a Lis. E descer. E pronto. Acabou. Já era. Missão cumprida.

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Appalachian Trail S01E129

Dia 129, 21/08: Nahmakanta Stream Campsite (2145.8) a Hurd Brook Lean-to (2171.2)

Distância do dia: 25.4 milhas | 40,87 km

Distância total: 2172.2 + 8.8 milhas | 3508,36 km

Distância que falta: 18.6 milhas | 29,93 km

Dias que faltam: 2

Logo nas primeiras horas de caminhada passei por uns caminhantes no sentido contrário. Eram Flip Floppers: haviam indo pro norte até metade da trilha, seguido até Katahdin de carro e agora estavam indo pro sul. Quando cheguei na estrada encontrei o carro deles. Uma van, na verdade. Um deles ainda estava por lá, junto com a esposa, que dirigia a van. “Quer uma bebida? Uma fruta?” Claro. Meu planejamento de comida estava no limite e qualquer caloria extra é bem-vinda. Fiquei ali papeando com eles e comentei do trecho que ele iria fazer, fácil e monótono. “Que bom. Vou poder colocar meus podcasts em dia”, ele disse. “Eu nem isso pude fazer. Meu fone quebrou antes de ontem”, respondi. A esposa dele, sentada dentro da van com o cachorro no colo, me olha é comenta: “sabe de uma coisa? Comprei um fone reserva, desses baratos, que não preciso. Você pode ficar com ele”, ela disse. The trail provides.

Outro dia longo, que fiz tranquilo. Parei pra nadar num dos lagos, conversei com Ale via Whatsapp quando consegui sinal no alto de uma das serras, parei pra almoçar, apreciei as vistas que tive de Katahdin nas oportunidades que tive. Cheguei no shelter ainda claro, por volta das sete. Esperava o Wash Bear quando o Senator chegou. “Talvez o Wash Bear consiga chegar aqui. Ele está super lento hoje”. Senator havia acampado pouco antes da gente. E o plano ainda era terminar com a gente. Gosto da ideia. Ele também é divertido. Além disso seu pai está vindo buscá-lo, o que garante uma carona pra gente até Portland…

Wash Bear chegou já noite. Vem reclamando do pé faz uns dias, e resolveu andar mais devagar. Mas estava animado. “Dois dias, cara. Dois dias… amanhã a gente vai ter um dia tranquilo, vamos tomar café da manhã de verdade, andar mais dez milhas e depois de amanhã vamos subir e pronto. Acabou”. É isso. Dois dias. Contando as horas pro final.

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Appalachian Trail S101E128

Dia 128, 20/08: Logan Brook Lean-to (2118.4) a Nahmakanta Stream Campsite (2145.8)

Distância do dia: 27.4 milhas | 44,09 km

Distância total: 2145.8+ 8.8 milhas | 3467,49 km

Distância que falta: 44 milhas | 70,81 km

Dias que faltam: 3

Ter a companhia do Wash Bear nesses últimos dias de caminhada tem sido ótimo. Lembro que quando escrevi sobre ele a primeira vez disse que gostava do cara. Ele é divertido e inteligente e as conversas são sempre boas. A gente faz a mesma distância por dia, mas nosso jeito de caminhar é diferente. Ele anda rápido, mais rápido que eu, mas para regularmente. É lento pela manhã e voa no final do dia. Eu tenho um ritmo mais estável, e paro pouco. Não sou lento: ando mais rápido que a maioria dos hikers. Mas como paro pouco e meus dias são longos, acabo andando muito. Mas no final do dia me arrasto. Ontem cheguei uma hora e meia antes do Wash Bear. Esses é um dos motivos que achei melhor combinar os lugares onde vamos encontrar e cada um segue no seu ritmo. Hike your own hike. Eu saio um pouco antes dele e não o encontro durante todo o dia. Às vezes paro no shelter anterior e espero por ele pra gente ir conversando as milhas finais. E como sempre chegando no destino ele desaparece na minha frente…

Hoje foi assim. Parei no Potayawadjo Spring, a 4 milhas do final, e esperei por ele. Ele chegou meia hora depois. E fomos caminhando até o camping. Nos metros finais ele sumiu. Quase chegando escuto ele gritar: “pega água antes de chegar aqui!”.

O dia foi de novo longo – acho que a segunda maior distância até agora – mas incrivelmente chato. Plano, sem desafios, monótono. Pra piorar, meu fone quebrou e não tenho mais a companhia dos podcasts que vinha escutado. Três dias. Três. Menos de cem quilômetros. Difícil de acreditar, mas é isso. Não vejo a hora de acabar.P8140181-2