Planejamento de trilhas de longa duração

Fiz minha primeira trilha de longa distância em 2015. Caminhei 420 quilômetros do Caminho da Fé e conto sobre essa caminhada aqui. Depois foram os 1200 quilômetros da Estrada Real, que também conto o dia a dia nesse link. Me preparava para fazer os  3.540 quilômetros da Appalachian Trail quando fui ao Rio para uma reunião com o pessoal da Spot. A gente fechou uma parceria e eles me cederam o Gen3 para a travessia. Seriam cinco meses de caminhada e a única condição que a Ale, me esposa, colocou foi que ela deveria saber em tempo real onde eu estava. E o Gen3 é perfeito pra isso, já que manda para um site e suas redes sociais a sua localização.

Na reunião o pessoal me perguntou se eu não estava preocupado com os imprevistos que eu poderia encontrar durante a travessia.

– Olha, eu não sou aventureiro. Eu sou planejador. O que eu faço é planejar eventos. Uma travessia de cinco meses não é nada mais que um evento de longa duração.

Foi essa a minha resposta. E é verdade. Sou formado em Comunicação, mas trabalho com eventos desde 1994. Fiz um Master in Event Management na University of Technology de Sydney, Australia. É minha profissão.

Assim como nos eventos que faço, ao planejar uma trilha qualquer eu preciso pensar em todos os aspectos: o que vai ser? Quanto vai custar? E se algo der errado? E se não chegar ao final? E como vai ficar a imagem do meu cliente depois desse evento, caso algo der errado? Quais os retornos que meu cliente vai ter caso tudo ocorra como planejado? Como medir o sucesso desse evento?

Encaro assim o planejamento de uma trilha de longa distância. E acredito que você deva encarar da mesma forma. Não é aventura: é um evento bem planejado, onde todos os aspectos precisam ser analisados e levados em consideração.

A primeira coisa no seu planejamento é decidir qual trilha fazer. No meu caso, decidi fazer aAppalachian Trail em 2017 por alguns motivos. Primeiro porque eu não queria uma caminhada com tanta gente como o Caminho de Santiago, por exemplo. Quer números? Então toma: em 2017, segundo a Appalachian Trail Conservancy, 4.127 pessoas se registraram para para a trilha de ponta a ponta, os chamados thru-hikers. Eles também estimam que outras 800 pessoas não se registraram, o que temos um número na casa de 5.000 pessoas. Já a Confraternity of Saint James, que administra o Caminho de Santiago, chegou a impressionantes 301.036 peregrinos em 2017. O Caminho de Santiago recebe por semana mais peregrinos que a AT recebe durante o ano todo…

Além disso eu queria uma caminhada que me permitisse acampar o máximo de noites possível e que não fosse muito técnica. Por isso eu escolhi a AT e não a PCT, por exemplo. Eu sabia que naquele ano a PCT não seria pra mim: eu não tinha experiência em neve, a trilha era mais isolada, eu queria caminhar muito mas não ficar pensando em outros problemas.

Para essa definição inicial eu te aconselho a fazer isso com pelo menos um ano de antecedência. Mesmo trilhas menores, como Torres del Paine, no Chile, exigem um planejamento longo, já que você precisa reservar os campings com pelo menos 6 meses de antecedência. Esses meses vão te dar a possibilidade de pesquisar e conhecer o máximo possível sobre a trilha que você vai fazer. Lembre-se: aquela vai ser a sua casa por um bom tempo.

Depois de escolher você vai precisar desse tempo para que você possa planejar a trilha com cuidado. Levante as informações básicas, leia bastante, converse com gente que já fez a trilha, procure livros e sites. Existem dezenas de blogs especializados, no Brasil e no exterior. Procure por vídeos no YouTube, use a hashtag com o nome da trilha no Instagram pra ver fotos e te preparar pro que você vai encontrar. Existem grupos no Facebook de discussão sobre as trilhas. Entre neles. Se existerem grupos separados por anos – de gente que vai fazer esse ano e de quem fez no ano passado, por exemplo – entre nos dois. Conversar com quem já fez a trilha vai te ajudar a entender melhor o que funciona, o que não funciona, quais equipamentos levar, como lhe dar com alimentação etc.

Descubra quanto tempo você vai ter disponível e seja se é adequado pra trilha que você quer fazer. Não tem 6 meses? Com três é possível fazer uma trilha como a Te Araroa, na Nova Zelandia. Tem um mês? Talvez o Caminho de Santiago seja uma opção pra você. Ou Tour du Mont Blanc, na Europa. Uma semana? Existem diversas trilhas aqui no Brasil e na América do Sul. Entre no Wikiloc, por exemplo, e pesquise as trilhas disponíveis.

Planeja também quanto você vai gastar. Se você está curioso sobre quanto custa fazer a Appalachian Trail, por exemplo, eu fiz um texto e gravei um episódio no YouTube só sobre isso. Leve em consideração suas despesas na trilha mas também as despesas que você vai continuar tendo em casa e o dinheiro que vai deixar de ganhar sem trabalhar por aquele período.

Trilha decidida, orçamento feito, é hora de pensar nos equipamentos. Existe muita diferença no equipamento que você vai usar pra fazer uma trilha nos Estados Unidos ou no Brasil. De novo, converse com quem já vez a trilha pra saber qual o melhor equipamento naquela situação. E lembre-se que a escolha dos equipamentos é algo muito pessoal. Experimente, teste, use tudo antes de começar a fazer a trilha de verdade.

Se você já sabe qual trilha vai fazer, se comprometa a isso. Reserva as datas, compre as passagens necessárias. Estude como chegar e sair da trilha e faça as reservas de transporte e albergue necessárias.

Chegue pra fazer a trilha na melhor forma física que conseguir. Pratique em trilhas menores. Se não conseguir, faça como eu: coloque algo pesado em sua mochila e ande pelo seu bairro. Eu colocava todos os volumes de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (eram quase dez quilos de livros) e saia subindo os morros de Belo Horizonte. Também fiz algumas sessões de girotronic antes de ir pra AT que ajudaram bastante.

Não se esqueça de trabalhar também o lado psicológico e emocional. Fazer uma trilha que dura três, quatro, cinco meses é um grande desafio. Nesse sentido o livro Appalachian Trails – A psychological and emotional guide to successfully thru-hike the AppalachianTrail, do Zach Davis, foi fundamental. Ele sugere que você faça uma lista dos motivos que o levaram a fazer a trilha e como você vai se sentir se conseguir completar a trilha ou se desistir da caminhada. Faça essa lista e leva com você. Vai te ajudar quando pensar em cair fora da empreitada.41xofrlh4ql

Como tudo preparado é hora de contar pro mundo que você vai sair nessa aventura. Faça um blog, divulgue no seu Facebook, conte pra sua família. Pense em algum produto que a trilha possa gerar: um documentário, um livro, uma exposição.

Tudo pronto é hora de dar aquele primeiro passo. Aproveite cada minuto. Lembre-se que essa trilha é sua: não tente seguir o ritmo de outras pessoais. Ouça seu corpo, não force mais do que você da conta. E se pensar em desistir, nunca desista em um dia ruim. Espere, de um tempo e quando sua cabeça esfriar pense de novo no assunto. Lembre-se da lista que voce fez. Lembre-se também da máxima dos trilhas americanas: hike your own hike. Faça a SUA trilha. Vá no seu ritmo, do seu jeito, que você vai chegar e seu evento, sua caminhada, vai ser um sucesso.

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Planejando uma viagem pra Orlando

Tem viagem nova em breve. Desta vez ao invés de destinos pouco comuns – nada de Patagônia ou Rússia – vou para a manjada (e adorada por brasileiros) Orlando.  E comecei, desde a semana passada, a fazer a minha parte predileta da viagem: o planejamento.

Tem gente que acha um saco, outros odeiam, outros ainda acham desnecessário. É só ver a quantidade de agências de viagem pra comprovar. Muita gente quer simplesmente chegar, aproveitar as férias e não pensar em nada mais.

Eu não.

Eu começo a estudar meu destino alguns meses antes. Leio algumas dezenas de blogs, guias de viagem, estudo mapas, leio os jornais locais, compro revistas, discuto com amigos. Minha viagem começa bem antes.

Eu vejo muitas vantagens nesse estudo. Primeiro é que não chego na cidade completamente ignorante. Assim consigo me enturmar mais, gasto menos tempo em transporte, fico menos perdido. Eu chego no meu destino já familiar com o lugar. Sei onde fica tudo que me interessa, pelo menos na minha cabeça (sempre foi assim. Na minha primeira viagem ao exterior, para Londres em 1996, saí do metro em Camden Town direto para a Rough Trade, a loja de discos que eu mais queria conhecer…). Outras vantagens é que economizo bastante e tenho liberdade: não preciso ficar com um grupo de pessoas e posso fazer o que estiver a fim, e não o que  é colocado pela agência.

Pois bem, já que gosto tanto assim de planejar viagens, resolvi compartilhar isso aqui.

A primeira decisão a fazer, claro, é o destino. Quando a Jade tinha três anos prometi que quando completasse 10 iríamos, como se diz aqui no Brasil, pra Disney (engraçado isso, né? A Disney é um dos conglomerados que possuem parques na Flórida e pra nós, brasileiros, ir pra lá é ir pra Disney. Ninguém diz vou pra Universal… Pior: dizemos ir pra Disneylândia. Nenhum dos quatro parques da Disney nas proximidades de Orlando se chama Disneyland…). Enfim, o tempo passou rápido, ela fez dez em fevereiro e junto com os parabéns veio a cobrança. Orlando, portanto, estava decidido como destino.

Depois disso é a vez de decidir o período e comprar as passagens. Aqui as coisas andam juntas. Passagens baratas significa fugir dos períodos de alta estação – final e meio do ano, período de férias. Pra mim, ótimo: gosto de viajar em épocas mais tranquilas, e pra mim os melhores meses são maio e setembro, para qualquer lugar – passagens são baratas nessa época, o clima é sempre agradável, não tem tanta gente.

Aqui começa a procura de passagens por um preço atrativo. Minha tática é fazer pesquisas semanais, as vezes diárias, a sites e blogs no Brasil e exterior. Visito os sites das companhias aéreas, dou uma passada por lojas como Submarino Viagens e Decolar, vou ao Melhores Destinos pra saber se existe alguma barbada, passeio por sites gringos como o Kayak. Isso me toma uns 20 minutos e me salva algumas centenas de reais. As vezes a diferença é gritante entre um site e outro. As vezes comprar na Submarino, por exemplo, é mais barato. Mas pode valer a pena pesquisar lá e comprar direto no site da companhia aérea.

Foi o que aconteceu desta vez. Vi a promoção no Melhores Destinos, pesquisei na Submarino, comprei direto no da Delta. O preço? R$1114,00 cada passagem, saindo de BH. Precisei pagar as três passagens a vista, mas mesmo assim valeu a pena.

Lição número 1: pesquise bastante. Vai te salvar alguns trocados.

Além de encontrar a passagem por um bom preço, ela precisaria, neste caso, ser para uma semana de feriado, para a Jade não perder tantos dias de aula. Optei pela semana de 7 de setembro. Motivo? Esta é uma das semanas mais tranquilas nos parques de Orlando, pós-férias americanas. Tem a desvantagem de ser no período de furacões na Flórida, mas como Orlando não fica na costa e não tem nenhum histórico, não me preocupei.

Passagem comprada é hora de reservar o hotel.

De novo, pesquisa. Uma ida no Hotels.com, outra no Trip Advisor para lever o que o povo fala, leituras em blogs até decidir qual o melhor. A primeira decisão que precisei tomar foi se iria ficar dentro ou fora dos parques (todos eles têm seus resorts). Prós: ficando hospedado ali você tem direito a visitar o parque uma hora antes dos mortais, pode fazer compras e mandar entregar tudo direto no quarto e não ficar carregando sacolas, pode debitar tudo diretamente no quarto. Contra: tudo isso tem um preço.

A diária em um dos hotéis da Universal, o mais barato, estava em torno de 170 dólares. Na Disney, o mais barato custava mais de 100 dólares por dia. Como já sabia que o período era tranquilo a decisão foi por um hotel a meio caminho entre os dois, onde poderia chegar aos parques com não mais que 15 minutos. Unindo isso a um parque aquático e a diárias de 115 reais para o quarto com duas camas queen size optei pelo CoCo Key  Resort. Os comentários eram favoráveis, o hotel tinha sido renovado recentemente e o valor era ótimo.

Passagem, ok. Hotel, ok. Mas como vou me locomover na cidade?

Sempre prefiro transporte coletivo. Dificilmente alugo carro, mas em Orlando essa parece ser a solução. Taxi é caro, as distâncias são longas e mesmo tendo que pagar estacionamento nos parques – em torno de 15 dólares a diária – vale a pena. Na Avis, uma semana de carro compacto custa menos de 100 dólares (a dica aqui é o seguinte: ao fazer a reserva, marque que você não é residente nos Estados Unidos. O preço cai pela metade.). Como comparação, o taxi aeroporto-hotel ficaria em torno disso. Era isso o que indicava várias dos blogs que li e é esse o caminho que tomei.

Com passagem, hotel e transporte decidido, começa a parte realmente divertida: o que fazer em cada dia, onde ir, o que comer. Isso vai ficar para um segundo texto.