Torres del Paine S01E03

Dickson a Los Perros: 12 Km

A vida é feita de escolhas. E depois que elas feiras não adianta ficar se lamentando. Sua decisão já foi tomada, você escolheu aquilo que era o correto e o melhor pra você. Aproveite o momento.

Quando compramos as passagens e fizemos as reservas para o Torres del Paine, escolhi aquilo que achava que seria o melhor: um período não tão frio, não tão cheio, não tão chuvoso. Pra conciliar o tempo de chegada e retorno, a trilha ficou entre os dias 1 e 11 de março. Teoricamente um período ótimo.

Mas na semana passada, checando a previsão de tempo, ela só mostrava chuva para esse período. Sol até 28 de fevereiro e depois do dia 12. Entre 1 e 11 nem um dia limpo ou nublado. Chuva, todos os dias.

Paciência. Não havia nada que eu poderia fazer. Passagens estavam compradas, reservas feitas. Era encarar a chuva e ser feliz.

No primeiro dia, mesmo prevista, ela não apareceu. Ontem só veio na parte da tarde, mas veio pra ficar. Choveu à noite inteira e pela manhã também. Passamos a noite no refúgio – beliches, com colchão, confortáveis e quentes – mas saímos já molhados às 8h: nossos sapatos ficaram do lado de fora da casa e não secaram durante a noite.

Não fez diferença: com meia hora de caminhada não só os sapatos mas toda a roupa já estava encharcada. A chuva só foi dar uma trégua depois do almoço – pra voltar no final da tarde. Foi justamente no momento de estiagem que chegamos à melhor parte do trajeto: a vista para o Glaciar Los Perros.

Por causa da lama, o dia foi mais lento que o previsto. A distância também não parecia certa: na sinalização interna do Parque diz 10,5 km entre Dickson e Los Perros. No mapa impresso fala-se em 12km. A minha marcação deu 14km. O fato é que andando lento, desviando das poças e parando quando se tinha vontade saímos às 8h e chegamos às 14:30. Foi o tempo de montar a barraca, fazer o jantar e a chuva voltar a cair.

Alê parece que está bem. Curtindo, mas não amando. Cansada, mas não quebrada. Mas preocupada com amanhã, quando cortamos o Paso: a maior altitude da trilha. Mas preocupar pra quê? A decisão já foi tomada, já estamos aqui, agora é curtir o momento e encarar a subida logo cedo. Com ou sem chuva.

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A Trilha da Trilha

Sempre me impressiona como nós brasileiros somos ignorantes com relação à música dos outros países das Américas. Nada sabemos do que rola nos países vizinhos. Conhecemos uma coisa ou outra, e só.

Da música do Chile atual, por exemplo, não chega nada. Não consigo lembrar de cabeça nenhum artista dos últimos 10, 20, 30 anos. O nome de Violeta Parra, o principal nome da Nova Música Chilena (um movimento contemporânea ao Tropicalismo, ali do final dos anos 60) é o único que lembro quando penso em música chilena.

Ano passado um amigo chileno que conheci no Chile me mandou algumas indicações de artistas não só de lá mas de toda a América Latina. Ouvi as musicas incessantemente por uns meses. Quando decidi fazer a trilha com a Alê preparei um playlist com alguns artistas chilenos contemporâneos. Pesquisei alguns dos discos presentes nas listas dos melhores do ano passado. O link está aqui. É sua chance de conhecer um pouco mais da atual música chilena. Desfruta.

Appalachian Trail S01E105

Dia 105, 28/07: Happy Hill Shelter (1741.8) a Moose Mountain Shelter (1758.6)

Distância do dia: 16.8 milhas | 27,03 km

Distância total: 1758.6 + 8.8 milhas | 2844,35 km

Distância que falta: 431.2 milhas | 693,94 km

Dias que faltam: 26

A sensação de que a trilha está chegando ao final é incrível. Hoje, cruzando a fronteira de Vermont e New Hampshire, fiquei pensando nos doze estados que já ficaram pra trás. No início da trilha 430 milhas parecia a eternidade. Hoje parece que o final está logo ali. É só andar mais essas 430 milhas…

O dia ia ser tranquilo, a gente sabia, mas queríamos chegar logo em Hanover. A cidade parecia ser bacana e no centro comunitário tinha banho e lavanderia. O que a gente não esperava era o tanto que Hanover, já em New Hampshire, e a vizinhança Norwich, ainda em Vermont eram amigáveis.

Nos primeiros 500 metros na estrada foram três Trail magics. Nas cidades uma lanchonete oferece sanduíche de graça. Na padaria, muffin. Na pizzaria, fatia de pizza. Wash Bear acabou dando entrevista pra duas estudantes. No centro comunitário, além do banho, tomadas pra carregar os eletrônicos e Wi-Fi. Acabei gravando mais um podcast e por isso saí tarde, já quase quatro. Faltam pouco mais de nove milhas e antes das sete cheguei no abrigo da noite. De novo, nada de acampar. Amanhã, pelo contrário, o dia vai ser longo e cansativo…

Appalachian Trail S01E102

Dia 102, 25/07: Governor Clement Shelter (1690.2) a VT100, Killington, VT (1704.1)

Distância do dia: 13,9 milhas | 22,36 km

Distância total: 1704.1 + 8.8 milhas | 2756,64 km

Distância que falta: 485.7 milhas | 781,65 km

Já tem algumas semanas, vocês tem notado, que tenho andado com o Wash Bear. A gente vem se esbarrando desde a Virginia, mas nos últimos dias resolvemos que vamos caminhar juntos até o final. Temos o mesmo ritmo e ele precisa terminar antes do dia 25 de agosto. O objetivo é 23. E como temos feito o mesmo número de milhas por dia é a data que pretendo terminar também.

O que a gente tem combinado é encontrar no final do dia no shelter que a gente decidiu na manhã ou no dia interior. Normalmente eu acordo mais tarde, mas saio antes dele. A gente se encontra quase sempre no meio do caminho e a partir daí caminhamos conversando. Política, religião, cultura, turismo, química, biologia, qualquer assunto.

Eu acampei perto do shelter. Ele ficou lá. Pela manhã esperei por ele e fomos do conversando o dia todo. O percurso era curto, menos de14 milhas. Ele precisava passar em Killington pra pegar um pacote no correio. Eu tinha enviado meus novos tênis pra Rutland, 10 km depois.

Apesar de curto o percurso foi cansativo. Chegamos antes das duas em Killington. Dali pegamos o ônibus até Rutland. Estavamos os dois precisando de um banho – não lembro a última vez que tinham tomado um. Precisavamos também lavar as roupas. A opção mais lógica seria dividir um quarto de hotel por ali. Mas antes da gente tomar a decisão eu fiz uma proposta diferente: por que não ficar em um lugar barato e gastar o dinheiro do hotel num jantar que valesse a pena? O que a gente estava a fim de comer?

Foi assim que a gente chegou na Yellow Deli. Ela é a sede de um grupo chamado Twelve Tribes, uma seita cristã fundamentalista, que busca viver como os cristãos do século I. Acreditam na segunda vinda de Jesus – ou Yahshua, como eles se referem. O grupo surgiu nos anos 70 e mantém o restaurante – a tal Yellow Deli – em Rutland e outras cidades. Aqui também abrigam os caminhantes. O lugar é gratuito e aceita doação, em dinheiro ou trabalho.

O lugar é bacana. E a localização é incrível. Deixamos nossas mochilas em uma das beliches disponíveis e saímos pra comer algo que os dois estavam saudosos: comida japonesa. Dali pra supermercado, pra garantir a comida dos próximos dias e depois de um descanso, mais comida. Cervejas locais e pizza bem ao lado de onde estávamos hospedado. Ao final, o que gastamos de comida foi próximo do que cada um iria gastar de hospedagem. A estratégia, acho, valeu a pena.

Appalachian Trail S01E77

Dia 77, 30/06: Eckville Shelter (1232.6) a Palmerton, PA (1257.9)

Distância do dia:  25.3 milhas | 40,71 km

Distância total: 1257.9 + 8.8 milhas | 2038,55 km

Distância que falta: 931.9 milhas | 1499,74 km

As pedras são pontiagudas e andar sobre eles requer atenção. Seus olhos ficam fixos no local onde você vai pisar. Não é possível pensar em mais nada, a não ser “onde vou colocar o meu pé agora”. Durante todo o tempo você tenta de desviar daqueles que podem te machucar (o que nem sempre é possível). Com isso você anda de forma pouco natural, fazendo um esforço tremendo nos tornozelos. Mas não é só isso: um enxame de pequenas muriçocas voam o tempo todo na frente do seu rosto, como que tentando entrar nos seus olhos e nariz. Moscas maiores voam ao lado, zumbindo em seus ouvidos. Para afugentá-las ando com a bandana na mão, batendo sobre os ombros, intercaladamente. A imagem que tenho de mim mesmo é a de um fiel andando sobre brasas e se chicoteando. Eu sei que pequei, Senhor, mas o castigo poderia ser mais ameno…

Tá foda. Se o início da Pensilvânia me surpreendeu porque estava mais fácil que pensava, as pedras são muito piores do que aquilo que tinha em mente. Você passa um tempo andando por grandes blocos de pedras jogadas no meio do nada, se equilibrando naquelas que parecem mais firmes, subindo e descendo aquele amontoado de rochas, e quando finalmente consegue sair vem as pedras pequenas, que você precisa tentar se desviar. Conversando ontem com outros hikers a SeaHorse comentou que parece que todas as pedras foram afiadas, uma a uma. O Candle respondeu: “todas não: quatro de cada cinco. A que não parece afiada é a você você vai colocar o pé. E ela é a única pedra solta, que vira logo que você pisa…” É isso mesmo.

Eu saí cedo de Eckville, o Quiet Man logo antes de mim, o Chop Sticks logo depois. Eu já não tinha mais comida, então o objetivo era chegar em um restaurante que o guia apontava lá pela metade do caminho na hora do almoço e na próxima cidade ao final do dia. Passei o Quiet Man (um senhor de uns 60 anos, realmente quieto, tranquilo e educado) e logo depois cruzei com o Bullet, um alemão que começou em maio e faz jus ao nome. Cheguei no restaurante exatamente ao meio dia. Tall Boy e Sea Horse estavam na porta. Tinha ficado no shelter antes dali e esperavam o lugar abrir desde as dez e meia.

Dividimos uma mesa, cada um pediu um hambúrguer, eu e Tall Boy também uma cerveja. A gente vem se encontrando já faz algum tempo. Ele acha que já há mais de um mês. Apesar dele ter começado antes, temos mantido o mesmo ritmo. Bullet chegou logo depois. E Quiet Man. Quando estávamos saindo aparece o Chop Sticks. Apesar de cada um ter seu ritmo, essas paradas sempre reúnem o grupo.

Quiet Man e Chop Sticks iriam ficar no próximo shelter. Os outros combinaram de encontrar na cidade. Segui na frente e descendo a montanha desaba a chuvarada.  

São três cidades próximas, cada uma a duas milhas da trilha. Iríamos ficar na cidade mais ao norte, a única com uma opção barata de hospedagem. Ensopado, não ousei pedir carona. A chuva já tinha passado e eu resolvi andar pela trilha paralela que leva a ela. Me senti como na Estrada Real, onde me perdia na entrada ou saída de cada cidade.

Ao contrário da AT, a trilha não tinha sinalização. Já começava a ficar tarde (era 7:30 da noite, mas ainda com sol) e o hostel era operado por um restaurante que fechava as oito. Abri o Google Maps e vi que estava a 800 metros do lugar, mas não conseguia ver nada, apesar de estar no alto de um morro. De um lado um rio, do outro a rodovia, a trilha que levaria à cidade indo na direção contrária do que o mapa mostrava…

Desci da trilha me equilibrando pelas pedras pra chegar numa estrada paralela. Uma ponte cruzava o rio. Do outro lado grades e um portão. Trancado. Volto, pulo o gradio e cruzo o rio pelo encostamento da rodovia. Volto pra estrada paralela. Sigo acompanhando a rodovia, o Google Maps sugere outro caminho. Mais estrada fechada, placas de “Keep Out” e “Postes: Private Property”. Sigo assim mesmo, até chegar em um campo de basebol, cruzar a linha de trem e finalmente chegar na cidade.

Cheguei ao restaurante 8:15. Cansado, molhado, doido pra tomar um banho. Por ser sexta ele fechava meia hora mais tarde que o normal, às 8:30. Quando abro a porta tá lá o Bullet. “Eu fiquei um tempo tentando pegar uma carona e não conseguia. Daí a Sea Horse chegou e o segundo carro que passou parou pra ela”, ele disse.

O lugar é uma garagem nos fundos do restaurante. Mas tem um colchão e podemos usar o banheiro e chuveiro dos funcionários. Tudo o que eu precisava: um banho, colocar roupas secas e deixar, sem ter que pensar onde colocar o meu pé agora.



Appalachian Trail S01E75

Dia 75, 28/06:  501 Shelter (1193.7) a PA 183 (1203.0)

Distância do dia:  9.3 milhas | 14,96 km

Distância total: 1203.0 + 8.8 milhas | 1950,20 km

Distância que falta: 986.8 milhas | 1588,10 km

O fato de ser estrangeiro sempre levanta surpresa e algumas questões nos gringos. A primeira pergunta é quase sempre “como você ficou sabendo da trilha”. Minha resposta é que quando mudei pra Austrália comprei o livro do Bill Bryson sobre o país, gostei, procurei outros livros dele e achei o Walk in the Woods. Quando comecei a fazer longas caminhadas achei que é a AT seria uma boa e aqui estou. A segunda pergunta é “o que mais te surpreendeu até agora”. E a resposta é a generosidade do povo. Essa coisa de Trail Magic é fascinante e não me canso de surpreender. Sejam os anônimos que deixam uma garrafa de água, um fardo de papel higiênico ou um cooler com refrigerantes na beira da estrada, sejam os anjos que fazem por você algo muito maior. Mais que te alimentar e de dar carona, ele te dão esperança e confiança. Esperança no ser humano. Você volta a acreditar nas pessoas. E confiança pra seguir e terminar essa jornada.

Eu tive a sorte de encontrar alguns anjos que se tornaram amigos. O Dan indo me encontrar na trilha pra ter certeza que chegaria ao hostel (o primeiro que iria ficar) a tempo de pegar a carona até o supermercado é um momento super marcante. O Fábio fazendo o mesmo, me encontrando na trilha, me dando carona, passando o dia comigo foi incrível. A Ingrid, o Yoav e a Laura, meus primeiros anjos, me dando casa na minha chegada e suporte durante toda a trilha é algo que não sei como agradecer. A Trudy e o Eric me levando pra casa, fazendo churrasco, experimentando cervejas locais, me dando uma goiabada, aquilo me emocionou imensamente. E hoje o Mark…

Conheci o Marcão online. Ele me viu em algum site ou grupo e me adicionou no Facebook. É casado com uma brasileira, a Cristina. Mais que isso: ela é de BH, e o Mark já foi pra lá uma dúzia de vezes. Por coincidência ele tem um casa perto de onde a AT corta uma estrada e ontem a gente se encontrou. O dia foi leve e antes de meio dia mandei uma mensagem pra ele, que foi me pegar. Fez linguiça (não era sausage: era linguiça mesmo…) e pasta no almoço – com guaraná! – e preparou uma picanha e mandioca – mandioca! – no jantar. Super conversa boa, cheio de histórias, uma atenção que eu até ficava meio sem jeito.

Entre os melhores dias de trilha estão os dias que encontrei esses novos amigos. Gente que deu um colorido e um sabor todo especial à caminhada.

A trilha, eu disse, foi tranquila. Quase chegando na estrada onde iria encontrar o Mark passei pelo Voyager. Bermuda cáqui, camisa também, aberta no peito, cabelão branco encaracolado, sorriso divertido. Ia passando por ele, cumprimentei, e notei os patchs da AT, PCT e CDT, as três grandes trilhas americanas, na mochila dele. “Estou vendo os patchs na mochila. Você já fez as outras?”, perguntei. “Já. Duas vezes. Na verdade estou completando a minha segunda Tríplice Coroa com essa. Tenho mais de 15 mil milhas de caminhada”, ele respondeu, sempre com um riso depois de cada frase. Fomos juntos até a estrada, tiramos fotos um do outro, ele seguiu e eu fiquei. Pra encontrar um novo amigo. Valeu Marcão. Nós encontramos em breve pra uma cerveja em Beagá (ninguém chama de Belo…)