Planejamento de trilhas de longa duração

Fiz minha primeira trilha de longa distância em 2015. Caminhei 420 quilômetros do Caminho da Fé e conto sobre essa caminhada aqui. Depois foram os 1200 quilômetros da Estrada Real, que também conto o dia a dia nesse link. Me preparava para fazer os  3.540 quilômetros da Appalachian Trail quando fui ao Rio para uma reunião com o pessoal da Spot. A gente fechou uma parceria e eles me cederam o Gen3 para a travessia. Seriam cinco meses de caminhada e a única condição que a Ale, me esposa, colocou foi que ela deveria saber em tempo real onde eu estava. E o Gen3 é perfeito pra isso, já que manda para um site e suas redes sociais a sua localização.

Na reunião o pessoal me perguntou se eu não estava preocupado com os imprevistos que eu poderia encontrar durante a travessia.

– Olha, eu não sou aventureiro. Eu sou planejador. O que eu faço é planejar eventos. Uma travessia de cinco meses não é nada mais que um evento de longa duração.

Foi essa a minha resposta. E é verdade. Sou formado em Comunicação, mas trabalho com eventos desde 1994. Fiz um Master in Event Management na University of Technology de Sydney, Australia. É minha profissão.

Assim como nos eventos que faço, ao planejar uma trilha qualquer eu preciso pensar em todos os aspectos: o que vai ser? Quanto vai custar? E se algo der errado? E se não chegar ao final? E como vai ficar a imagem do meu cliente depois desse evento, caso algo der errado? Quais os retornos que meu cliente vai ter caso tudo ocorra como planejado? Como medir o sucesso desse evento?

Encaro assim o planejamento de uma trilha de longa distância. E acredito que você deva encarar da mesma forma. Não é aventura: é um evento bem planejado, onde todos os aspectos precisam ser analisados e levados em consideração.

A primeira coisa no seu planejamento é decidir qual trilha fazer. No meu caso, decidi fazer aAppalachian Trail em 2017 por alguns motivos. Primeiro porque eu não queria uma caminhada com tanta gente como o Caminho de Santiago, por exemplo. Quer números? Então toma: em 2017, segundo a Appalachian Trail Conservancy, 4.127 pessoas se registraram para para a trilha de ponta a ponta, os chamados thru-hikers. Eles também estimam que outras 800 pessoas não se registraram, o que temos um número na casa de 5.000 pessoas. Já a Confraternity of Saint James, que administra o Caminho de Santiago, chegou a impressionantes 301.036 peregrinos em 2017. O Caminho de Santiago recebe por semana mais peregrinos que a AT recebe durante o ano todo…

Além disso eu queria uma caminhada que me permitisse acampar o máximo de noites possível e que não fosse muito técnica. Por isso eu escolhi a AT e não a PCT, por exemplo. Eu sabia que naquele ano a PCT não seria pra mim: eu não tinha experiência em neve, a trilha era mais isolada, eu queria caminhar muito mas não ficar pensando em outros problemas.

Para essa definição inicial eu te aconselho a fazer isso com pelo menos um ano de antecedência. Mesmo trilhas menores, como Torres del Paine, no Chile, exigem um planejamento longo, já que você precisa reservar os campings com pelo menos 6 meses de antecedência. Esses meses vão te dar a possibilidade de pesquisar e conhecer o máximo possível sobre a trilha que você vai fazer. Lembre-se: aquela vai ser a sua casa por um bom tempo.

Depois de escolher você vai precisar desse tempo para que você possa planejar a trilha com cuidado. Levante as informações básicas, leia bastante, converse com gente que já fez a trilha, procure livros e sites. Existem dezenas de blogs especializados, no Brasil e no exterior. Procure por vídeos no YouTube, use a hashtag com o nome da trilha no Instagram pra ver fotos e te preparar pro que você vai encontrar. Existem grupos no Facebook de discussão sobre as trilhas. Entre neles. Se existerem grupos separados por anos – de gente que vai fazer esse ano e de quem fez no ano passado, por exemplo – entre nos dois. Conversar com quem já fez a trilha vai te ajudar a entender melhor o que funciona, o que não funciona, quais equipamentos levar, como lhe dar com alimentação etc.

Descubra quanto tempo você vai ter disponível e seja se é adequado pra trilha que você quer fazer. Não tem 6 meses? Com três é possível fazer uma trilha como a Te Araroa, na Nova Zelandia. Tem um mês? Talvez o Caminho de Santiago seja uma opção pra você. Ou Tour du Mont Blanc, na Europa. Uma semana? Existem diversas trilhas aqui no Brasil e na América do Sul. Entre no Wikiloc, por exemplo, e pesquise as trilhas disponíveis.

Planeja também quanto você vai gastar. Se você está curioso sobre quanto custa fazer a Appalachian Trail, por exemplo, eu fiz um texto e gravei um episódio no YouTube só sobre isso. Leve em consideração suas despesas na trilha mas também as despesas que você vai continuar tendo em casa e o dinheiro que vai deixar de ganhar sem trabalhar por aquele período.

Trilha decidida, orçamento feito, é hora de pensar nos equipamentos. Existe muita diferença no equipamento que você vai usar pra fazer uma trilha nos Estados Unidos ou no Brasil. De novo, converse com quem já vez a trilha pra saber qual o melhor equipamento naquela situação. E lembre-se que a escolha dos equipamentos é algo muito pessoal. Experimente, teste, use tudo antes de começar a fazer a trilha de verdade.

Se você já sabe qual trilha vai fazer, se comprometa a isso. Reserva as datas, compre as passagens necessárias. Estude como chegar e sair da trilha e faça as reservas de transporte e albergue necessárias.

Chegue pra fazer a trilha na melhor forma física que conseguir. Pratique em trilhas menores. Se não conseguir, faça como eu: coloque algo pesado em sua mochila e ande pelo seu bairro. Eu colocava todos os volumes de Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos (eram quase dez quilos de livros) e saia subindo os morros de Belo Horizonte. Também fiz algumas sessões de girotronic antes de ir pra AT que ajudaram bastante.

Não se esqueça de trabalhar também o lado psicológico e emocional. Fazer uma trilha que dura três, quatro, cinco meses é um grande desafio. Nesse sentido o livro Appalachian Trails – A psychological and emotional guide to successfully thru-hike the AppalachianTrail, do Zach Davis, foi fundamental. Ele sugere que você faça uma lista dos motivos que o levaram a fazer a trilha e como você vai se sentir se conseguir completar a trilha ou se desistir da caminhada. Faça essa lista e leva com você. Vai te ajudar quando pensar em cair fora da empreitada.41xofrlh4ql

Como tudo preparado é hora de contar pro mundo que você vai sair nessa aventura. Faça um blog, divulgue no seu Facebook, conte pra sua família. Pense em algum produto que a trilha possa gerar: um documentário, um livro, uma exposição.

Tudo pronto é hora de dar aquele primeiro passo. Aproveite cada minuto. Lembre-se que essa trilha é sua: não tente seguir o ritmo de outras pessoais. Ouça seu corpo, não force mais do que você da conta. E se pensar em desistir, nunca desista em um dia ruim. Espere, de um tempo e quando sua cabeça esfriar pense de novo no assunto. Lembre-se da lista que voce fez. Lembre-se também da máxima dos trilhas americanas: hike your own hike. Faça a SUA trilha. Vá no seu ritmo, do seu jeito, que você vai chegar e seu evento, sua caminhada, vai ser um sucesso.

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Como eu consigo tempo – e dinheiro – para minhas caminhadas

“Cara, como você consegue isso? Você deve ser milionário pra parar 6 meses de sua vida e ficar caminhando…” Já ouvi essa frase dezenas de vezes. Ela e suas variações: que sou vagabundo. Que ganhei na loteria. Que não penso no futuro. Que vivo de renda. Muitas vezes a pergunta é movida por curiosidade mesmo. Outras, por inveja e vontade de estar no meu lugar.

Por causa disso gravei um vídeo para o meu canal no YouTube sobre os custos de uma trilha como a AT. E escrevo aqui um pouco mais sobre isso.

Consigo fazer minhas caminhadas – e viagens em geral – por causa de uma intrincada combinação de planejamento e economia pessoal. E um pouco de sorte. No fundo, consigo fazer minhas viagens por que escolhi viver dessa forma. E por mais que isso diga respeito só a mim e a minha família, acho que minha experiência pode ajudar a algumas pessoas a finalmente realizarem aquela aventura que tanto querem – e que parece impossível.

Antes, deixa eu te contar uma história. Quando eu tinha 15 anos fiz a primeira grande viagem da minha vida. Minha família sempre teve uma vida difícil. Fui o caçula de 9 irmãos, meus pais nunca se formaram – só estudaram “o grupo”, como a gente diz, ou apenas o ensino fundamental – e viajar sempre foi meu sonho de criança. Na infância o mais longe que tinha ido era na casa dos meus avós, a 120km de onde morava. Com 14 anos entrei para a escola de música municipal, aprendi a tocar saxofone e um ano depois fui recrutado por uma banda local – o RG7 – para tocar em um carnaval. Em Porto Seguro. Meus pais precisaram me dar uma autorização de viagem, registrada em cartório, e lá fui eu, em um ônibus de turnê, com uma dúzia de músicos, cantores, cantoras e técnicos, pegar a estrada. Sabe o filme “Quase Famosos”? Pois é… Aquela viagem, de quase 24 horas entre o interior de Minas ao Sul da Bahia, mudou a minha vida. Aquela foi a primeira vez que vi o mar. Ali, tive duas certezas: que eu queria conhecer o mundo e que não gosto de carnaval…

Dias depois, de volta da viagem, decidi que era hora de ganhar meu próprio dinheiro, arrumar um emprego e sair de casa. Fiz um concurso público, passei, e me mudei quando tinha dezesseis. Nessa época dizia pra minha mãe que queria juntar dinheiro pra conhecer o mundo. “Você só entra em um avião quando eu morrer!”, ela dizia. Ela faleceu em 1994. Naquele mesmo ano fiz minha primeira viagem internacional. E desde então viajar virou uma obsessão…

Mas e então? Como financiar uma caminhada de longa distância?

A primeira coisa que você precisa saber é que viajar a pé é a forma mais barata que existe. Meus gastos durante os meses de caminhada são, no geral,  bem próximos dos meus gastos do dia-a-dia no Brasil. Mas concordo que não dá simplesmente sair andando. É preciso planejar.

Faz alguns anos que decidi não ter emprego fixo. Troquei a carteira assinada por trabalhos freelance. Na verdade, isso é consequência de uma decisão que tomei há vários anos, quando abandonei o emprego que consegui com aquele concurso público que fiz na adolescência: que só iria trabalhar com coisas que me dão prazer.

Não ter a obrigação de assinar ponto ou me matar em um emprego diário me dá menos dinheiro, é verdade, mas também a liberdade e a flexibilidade de viajar quando puder. Garanto o suficiente para pagar as minhas despesas pessoais e economizar pra fazer o que gosto.

Com essa flexibilidade posso ficar atento a um ponto importante – e caro – de viagens: as passagens internacionais. Fico de olho em promoções, assino listas de sites como Melhores Destinos, pesquiso a tendência de preços no Google Flights e quando aparece algo que combina com a minha carteira, não reluto. Com isso já viajei para Moscou pagando R$750,00 na passagem ida e volta e já fui pra para o Canadá pagando um pouco mais que isso.

Mas mesmo gastando pouco durante a caminhada e pagando pouco pela passagem é preciso ter dinheiro pra viajar. E pra isso é preciso economizar. Na ponta do lápis, minhas despesas em Belo Horizonte ou na trilha são bem parecidas. O que gasto por lá com alimentação e raras hospedagens é bastante similar com o que gastaria estando aqui, em supermercado, transporte e eventuais restaurantes. O que faz a diferença é o dinheiro que deixo de ganhar. É aí que o planejamento a longo prazo ajuda.

Eu sei exatamente quanto preciso por mês (spoiler alert: é pouco). Me programo e trabalho para economizar em seis meses minhas despesas fixas dos outros seis meses. Uso uma planilha em Excel, onde anoto diariamente minhas despesas e meus ganhos.

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

Minhas despesas são poucas porque prefiro gastar nas viagens ou eu viajo porque minhas despesas são pequenas? Um pouco dos dois, na verdade. Mas existem algumas coisas que faço e, acredito, me ajudam a ter algum dinheiro sobrando:

  • Eu saio muito pouco. Como pouco fora. Cozinho bastante em casa. E quando vou ao supermercado quase nunca compro alimentos industrializados: biscoito, refrigerantes, congelados, essas coisas eu deixo pra comer na trilha.
  • Eu (ainda) tenho carro, mas é um modelo com mais de 10 anos que raramente tiro da garagem. Ando muito a pé e gasto muito pouco com transporte público, taxi ou Uber/Cabify
  • Não me lembro a última vez que fui ao cinema, apesar de assistir a muitos filmes. Baixo quase tudo o que vejo. O mesmo vale pra música. Não compro um disco desde que o Napster me levou à falência (eu tinha uma loja de CDs)…
  • Eu tenho uma vida regrada – nenhum vício que faça meu dinheiro desaparecer sem que eu perceba. Não uso drogas, não fumo, não sou de beber muito…
  • Também não tenho dívidas – não pago aluguel, não tenho financiamentos, não devo cartão, não devo o banco. Sou milionário? Não. Tenho dinheiro guardado? Um pouco.
  • A última camisa nova que usei foi a que ganhei da Spot Brasil para fazer a Appalachian Trail. Não tenho muitas roupas e compro cada vez menos.

Não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho

Além disso tenho me desprendido de bens materiais e acumulado cada vez menos coisas. Antes de fazer a Appalachian Trail me desfiz de várias coisas que tinha e não usava mais – uma coleção de bonecos, câmera fotográfica e filmadora, um computador reserva, até uma bota. Já não tenho nenhum disco. Vou fazer uma nova limpa em breve e guardar ainda menos tralhas. O objetivo é guardar cada vez menos. Como disse uma caminhante que encontrei uma vez, “cada vez que me dá vontade de comprar um móvel novo eu saio pra caminhar e a vontade passa”.

Um dos principais pontos de despesas numa caminhada de longa distância são os equipamentos. Barraca, mochila, saco de dormir, isso é tudo caro. Mas tive a sorte de ganhar a promoção Badger Sponsorship do site The Trek antes da AT e receber como prêmio a maior parte do que precisei. Também consegui o apoio fundamental da Spot Brasil e da Proativa, que me cederam equipamentos essenciais para a jornada e que ainda hoje venho usando.

Também fundamental é a sorte que tenho em ser casado com uma pessoa incrível que é a Alê, que entende minhas caminhadas, me acompanha em algumas delas e divide comigo algumas destas convicções. E boa parte das despesas da casa.

Um ponto que se fala pouco quando se trata de dinheiro e financiamento de uma caminhada de longa distância é o dinheiro que você deixa de ganhar quando está caminhando. Porque suas despesas lá podem ser poucas, mas as despesas daqui continuam chegando. E pra piorar você não tem nenhum dinheiro entrando por seis meses… De novo, meu estilo de vida ajuda nesta parte: não pago aluguel, não tenho dívidas, não tenho plano de saúde. Algumas das despesas da casa Alê arca normalmente – e outras me planejo antes de viajar e deixo programadas para serem descontadas automaticamente da minha conta. E apesar de viver fazendo trabalhos freelance sei que sou bom o suficiente para garantir novos trabalhos quando voltar. E se não encontrar trabalhos na minha área, estou aberto a aprender e fazer outra coisa. Qualquer coisa que me dê prazer. Se me der o suficiente pra pagar minhas despesas e salvar algum pra próxima viagem, melhor.

Mas afinal, quanto custa?

Minha caminhada pela Appalachian Trail, que durou de Abril a Agosto de 2017, custou em torno de 4500 dólares. São cerca de 900 dólares por mês, algo em torno de 130 reais por dia. Nisso aí tá incluso tudo, de passagem aérea a alimentação, de hotel a seguro de viagem.

É um bom dinheiro, mas pense: quanto eu gastaria nesses cinco meses em BH, entre gasolina, alimentação, supermercado, farmácia e outras despesas? E quanto eu gastaria em uma viagem de férias dentro do Brasil mesmo? No final, acho um investimento barato por uma experiência única como essa. Não é pra todo mundo, nem financeiramente, nem psicologicamente, é verdade. É preciso querer e estar disposto. É preciso ter os recursos – falta de grana é dos principais motivos que levam as pessoas a desistirem de completar a trilha. Mas vale cada centavo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dicas para comida em trilhas de longa distância

É sempre a mesma pergunta: mas o que você come? Como você faz pra cozinhar? O que você leva? Quantas calorias por dia você precisa ingerir?

Comida é o principal assunto nas conversas quando você está na trilha… ou fora dela. Todo mundo quer saber a sua dieta, o que está levando, como está se alimentando. É na comida também que você pensa quando decide ir a uma cidade, quando prepara as caixas que você vai enviar para trechos da trilha, quando decide tirar um dia a mais de descanso. Cansado? Algumas vezes. Faminto? Sempre.

É por isso que resolvi escrever esse post com dicas para comida em trilhas de longa distância. Serve para a Appalachian Trail, serve para a Pacific Crest Trail, mas também serve pras trilhas que existem aqui no Brasil. É só adaptar.

1. Cozinhe com eficiência

O modelo de fogareiro que você escolher vai inteferir imensamente na eficiência na hora de cozinhar. Durante a Appalachian Trail eu usei um Jetcook da Azteq. O bicho é a jato mesmo: gasta muito menos gás que os concorrentes e cozinha muito mais rápido. Não é o mais leve, mas a eficiência compensa o peso.

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Meu Jetcook em ação, no primeiro dia de trilha, cozinhando um chili liofilizado.

2. Pense no peso antes de qualquer coisa

Você deve levar comida comida nutritiva, mas pense também quanto ela pesa. Opte por comida desidratada ou liofilisada – existem várias no mercado. Macarrão e arroz pré-cozidos também são boas opções: cinco minutos era meu tempo limite para que o jantar ficasse pronto. Se tiver tempo, desidrate frutas e legumes para comer na trilha.

3. Reempacote

Uma das formas de ajudar a levar menos peso é deixar pra trás as embalagens originais dos alimentos. Tire tudo o que não for precisar. Coloque em sacos plásticos do tipo Ziplock. Barras de cereal, alimentos congelados, doces, pasta de amendoim, não importa: a dica é reembalar.

4. Calorias. Não se esqueça de calorias

Em uma trilha como as que faço você gasta fácil 3.000, 4.000 calorias por dia. Você vai precisar repor toda essa energia de alguma forma. Opte por alimentos ricos em caloria e gordura. Quanto mais, melhor. Sardinha na água ou no óleo? Óleo, claro! Chocalates, sempre, de preferência daqueles com amendoim…

5. Proteínas também são importantes

Na verdade sua dieta deve ser balanceada e conter calorias, gordura e proteínas. Nas longas trilhas isso é o mais difícil de conseguir: opte por carne seca, sardinha, atum, amêndoas, queijos duros.

6. Já pensou em deixar o fogareiro em casa?

Ir sem fogareiro pode ser uma opção para economizar peso e tempo. Leve alimentos já prontos, barras de cereal, alimentos desidratadas, coisas que não precisam ir ao fogo para cozinhar. Queijos duro, por exemplo, duram vários dias na sua mochila.

7. Aprenda com o Zé Colméia

Lembra do desenho animado, que o Zé Colméia sempre dava um jeito de conseguir comida com os turistas? Pois é. Isso tem um nome: Yogiing. Yogi Bear é o nome do Zé Colméia em inglês. Yogiing é se virar como o Zé Colméia, dando um jeito de ganhar a comida de graça dos turistas ou outros caminhantes que passam por você.

8. Aprenda com a trilha

Conheça os alimentos que a trilha pode te oferecer. Mesmo sabendo quase nada de botânica e da vegetação da trilha pude me deliciar com diversos tipos de frutas: morangos silvestres, mirtilos, amoras, cerejas… Tudo a mão, tudo a pouco metros da trilha.

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aulinha básica de alimentos comestíveis na trilha

9. Café instantâneo sempre

Eu não fico sem café. E na trilha isso pode ser um problema. Até pensei em levar minha Aeropress, mas é pouco prática e muito pesada. O jeito é apelar para o café instantâneo. É a pior coisa que você pode tomar, é verdade, mas é melhor que ficar sem café.

10. Leve seu lixo de volta. Todo ele.

Mesmo que você reempacote, que leve alimentos leves, que use café instantâneo, você ainda vai produzir lixo. E a dica é simples: leve seu lixo de volta. Todo ele, mesmo o lixo orgânico, cascas de frutas, coisas que você sabe que irão se decompor (sim, seu papel higiênico também). Não vá contaminar o ambiente por causa de nojinho ou de alguns poucos gramas.

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The trail provides

 

Back on trek

Faz algumas semanas que resolvi fazer um detox voluntário de Internet e redes sociais. Primeiro apaguei do celular todas as redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter. Depois saí do Facebook – naquela forma que a conta está lá, mas posso voltar quando quiser. As contas no Instagram e Twitter continuam ativas – mas não as tenho usado.

Não é a primeira vez. Já saí de todas elas antes, já perdi todos os amigos, seguidores, fãs, curtidas, inscritos, seja lá como é chamado esse séquito é em cada uma das redes. Aqui no blog mesmo não escrevo desde a caminhada com a Alê em Torres del Paine e fico vendo os números caindo.

Mas é hora de começar a voltar. A princípio, aqui. Daqui a pouco nos outros canais.

O que tenho feito nesse tempo, desde a última trilha?

Tenho visto muitos filmes. Em 2018 foram 95, e contando. Além de séries, que tenho visto muito menos esse ano. Handmaid’s Tale é a único, mas não consigo ver mais que um episódio por semana. Preacher ainda não retomei. Westworld não passei do segundo episódio. Da primeira temporada…

No Netflix estreou Made to be Broken (De Volta ao Recorde). O documentário conta os desafios de Karl Meltzer pra bater o recorde de tempo para completar a Appalachian Trail. O filme foi produzido pela Red Bull, mas não decola nos pouco mais de 40 minutos. Spoiler Alert: Karl bateu o recorde, que foi esmagado no ano seguinte por Joe McConaughy – ele passou por mim e Wash Bear quando fazíamos todo o esforço do mundo e gastávamos uma energia que não tinhamos para atravessar a milha mais difícil da AT. Joe “Stringbean” McConaughy passou pela gente correndo, pulando de pedra em pedra, tirou uma foto nossa e seguiu caminho.

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Made to be Broken não é nada de mais, mas quer ver um filme bonito e mais inspirador sobre a AT? Assista “The AT Experience“. Você pode comprá-lo ou alugá-lo online, e vai te dar uma ideia bem melhor do como realmente é a trilha. O filme foi inteiramente feito por Andrew “Reptar” Forestell, que completou a trilha em 2016 e gravou mais de 900 GB – ou 24 horas de imagens – sobre sua caminhada.

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Eu não preciso te pedir pra assistir Nanette, da comediante australiana Hannah Gadsby porque você, pessoa antenada que é, certamente já viu (se não viu parede de ler agora e vá assistir no Netflix. Aqui está o link. Se não está convencido(a) leia esse artigo.

Tenho ouvido muito, mas muito podcast. Comecei a ouvi-los com mais frequência durante minhas longas trilhas: já ouvia na Estrada Real e descobri algumas pérolas como Serial e S*Town (simplesmente ouça) quando fazia a AT. De volta a BH escuto no meu trajeto diário de casa pro trabalho. Continuo ouvindo os meus programas semanais prediletos – 99% Invisible (melhor episódio recente: Right to Roam), Revisionist History (gosto muito dos livros do Malcolm Gladwell, ele é um comunicador incrível e estou super curioso com seu novo programa, com o Rick Rubin), TED Radio Hour (não saiu nenhum episódio recente, mas nunca me canso de ouvir os antigos), This American Life, Pop Culture Happy Hour (minha fonte de informação sobre TV, cinema e música). E inclui no meu playlist novos prediletos, como Heavyweight (ouça o episódio com 2 da primeira tempporada, Gregor), Sound Matters (incrível trabalho de edição) e um ou outro ShowCase. Em português só mesmo o do Portal Extremos.

Aliás, S*Town vai virar filme

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Tenho lido O Gigante Enterrado, do Kazuo Ishiguro, que o Kiko me emprestou. E intercalo ele com Vagabonding: An Uncommon Guide to the Art of Long-Term World Travel, do Rolf Potts. Dois livros sobre viagens, mas com pegadas completamente diferentes. Recentemente li e recomendo Dinheiro, Eleições e Poder: As Engrenagens do Sistema Político Brasileiro, do Bruno Carazza. Na verdade servi de cobaia, lendo o original e dando uns pitacos pra deixar esse tema árido atraente pra um leitor leigo. No caso, eu.

Falando em livro, sei que alguém vai perguntar sobre o meu. Tenho algumas páginas escritas, mas não estou satisfeito com o formato. Não tenho pressa, e quero que seja atrativo. Ainda não achei o tom. Mas continuo pensando no assunto.

Torres del Paine S01E03

Dickson a Los Perros: 12 Km

A vida é feita de escolhas. E depois que elas feiras não adianta ficar se lamentando. Sua decisão já foi tomada, você escolheu aquilo que era o correto e o melhor pra você. Aproveite o momento.

Quando compramos as passagens e fizemos as reservas para o Torres del Paine, escolhi aquilo que achava que seria o melhor: um período não tão frio, não tão cheio, não tão chuvoso. Pra conciliar o tempo de chegada e retorno, a trilha ficou entre os dias 1 e 11 de março. Teoricamente um período ótimo.

Mas na semana passada, checando a previsão de tempo, ela só mostrava chuva para esse período. Sol até 28 de fevereiro e depois do dia 12. Entre 1 e 11 nem um dia limpo ou nublado. Chuva, todos os dias.

Paciência. Não havia nada que eu poderia fazer. Passagens estavam compradas, reservas feitas. Era encarar a chuva e ser feliz.

No primeiro dia, mesmo prevista, ela não apareceu. Ontem só veio na parte da tarde, mas veio pra ficar. Choveu à noite inteira e pela manhã também. Passamos a noite no refúgio – beliches, com colchão, confortáveis e quentes – mas saímos já molhados às 8h: nossos sapatos ficaram do lado de fora da casa e não secaram durante a noite.

Não fez diferença: com meia hora de caminhada não só os sapatos mas toda a roupa já estava encharcada. A chuva só foi dar uma trégua depois do almoço – pra voltar no final da tarde. Foi justamente no momento de estiagem que chegamos à melhor parte do trajeto: a vista para o Glaciar Los Perros.

Por causa da lama, o dia foi mais lento que o previsto. A distância também não parecia certa: na sinalização interna do Parque diz 10,5 km entre Dickson e Los Perros. No mapa impresso fala-se em 12km. A minha marcação deu 14km. O fato é que andando lento, desviando das poças e parando quando se tinha vontade saímos às 8h e chegamos às 14:30. Foi o tempo de montar a barraca, fazer o jantar e a chuva voltar a cair.

Alê parece que está bem. Curtindo, mas não amando. Cansada, mas não quebrada. Mas preocupada com amanhã, quando cortamos o Paso: a maior altitude da trilha. Mas preocupar pra quê? A decisão já foi tomada, já estamos aqui, agora é curtir o momento e encarar a subida logo cedo. Com ou sem chuva.

A Trilha da Trilha

Sempre me impressiona como nós brasileiros somos ignorantes com relação à música dos outros países das Américas. Nada sabemos do que rola nos países vizinhos. Conhecemos uma coisa ou outra, e só.

Da música do Chile atual, por exemplo, não chega nada. Não consigo lembrar de cabeça nenhum artista dos últimos 10, 20, 30 anos. O nome de Violeta Parra, o principal nome da Nova Música Chilena (um movimento contemporânea ao Tropicalismo, ali do final dos anos 60) é o único que lembro quando penso em música chilena.

Ano passado um amigo chileno que conheci no Chile me mandou algumas indicações de artistas não só de lá mas de toda a América Latina. Ouvi as musicas incessantemente por uns meses. Quando decidi fazer a trilha com a Alê preparei um playlist com alguns artistas chilenos contemporâneos. Pesquisei alguns dos discos presentes nas listas dos melhores do ano passado. O link está aqui. É sua chance de conhecer um pouco mais da atual música chilena. Desfruta.

Appalachian Trail S01E105

Dia 105, 28/07: Happy Hill Shelter (1741.8) a Moose Mountain Shelter (1758.6)

Distância do dia: 16.8 milhas | 27,03 km

Distância total: 1758.6 + 8.8 milhas | 2844,35 km

Distância que falta: 431.2 milhas | 693,94 km

Dias que faltam: 26

A sensação de que a trilha está chegando ao final é incrível. Hoje, cruzando a fronteira de Vermont e New Hampshire, fiquei pensando nos doze estados que já ficaram pra trás. No início da trilha 430 milhas parecia a eternidade. Hoje parece que o final está logo ali. É só andar mais essas 430 milhas…

O dia ia ser tranquilo, a gente sabia, mas queríamos chegar logo em Hanover. A cidade parecia ser bacana e no centro comunitário tinha banho e lavanderia. O que a gente não esperava era o tanto que Hanover, já em New Hampshire, e a vizinhança Norwich, ainda em Vermont eram amigáveis.

Nos primeiros 500 metros na estrada foram três Trail magics. Nas cidades uma lanchonete oferece sanduíche de graça. Na padaria, muffin. Na pizzaria, fatia de pizza. Wash Bear acabou dando entrevista pra duas estudantes. No centro comunitário, além do banho, tomadas pra carregar os eletrônicos e Wi-Fi. Acabei gravando mais um podcast e por isso saí tarde, já quase quatro. Faltam pouco mais de nove milhas e antes das sete cheguei no abrigo da noite. De novo, nada de acampar. Amanhã, pelo contrário, o dia vai ser longo e cansativo…