Pacific Crest Trail S01E95/96

Dia 95/96

Snoqualmie Pass

42 km hoje

3218 km total

O dia 95 foi, como diz o ditado do futebol, “pra cumprir tabela”. Monótono naturalmente, ficou ainda pior com a neblina e a chuvinha que ia e vinha todo o dia. Mas eu não importava: estava animado demais pra chegar no Pass.

Isso porque a Adriane e o Thales iriam me encontrar lá. Eu não os conhecia pessoalmente, mas desde que anunciei que iria fazer a PCT que a gente vem se falando. Não só isso: eles se tornaram os melhores anjos que você possa imaginar. Deixa eu me corrigir: que você nem poderia imaginar…

Vê-los ali, e carne e osso, foi emocionante. E depois de uma recepção com cerveja e pão de queijo fomos para Issaquah, a cidade onde eles moram, próxima à Seattle e a cerca de 40 minutos da trilha.

O final de semana pode ser resumido em uma palavra: incrível. Eu tinha dito que cruzar Goat Rocks foi dos melhores dias na trilha, né? Pois esse também entra na lista. Por motivos completamente diferentes, é claro. O carinho, os detalhes, a hospitalidade, o cuidado, pequenas ações que deixavam tudo muito especial. Do café da manhã ao deitar, as horas que passei com eles foram inexplicáveis.

Duas noites dormindo em cama (coisa que eu não fazia desde a Califórnia), mimos dignos de hotel 5 estrelas, almoço em rodízio brasileiro, nada de caminhada por mais de 36 horas… Conclusão: volto pra trilha não só descansado, mas pelo menos 2 quilos mais gordo (ou menos magro…). Mais que isso, volto agradecido por tudo que a trilha tem me proporcionado, principalmente o encontro com pessoas como Adriane e Thales. Se é que eles existem mesmo. Porque ainda parece sonho…

Pacific Crest Trail S01E90

Dia 90

FS Road 5703

22 km hoje

2989 km total

O café de Trout Lake abre às 7:30 e nesse horário eu, Soul Crepe e Pied Piper já estávamos lá. Pedi o usual nesses lugares: torradas, ovos “sunny side up”, bacon, batatas e café. Baldes de café. Quase nunca são bons, mas o refil é grátis (você paga um café e toma o quanto quiser) e é bem melhor que o instantâneo que bebo na trilha…

O transfer iria sair só ao meio dia. Poderia ter ido no anterior, mas queria ficar ali descansando um pouco mais. Voltei pra porta da mercearia, comprei um pêssego e fiquei conversando com o Jim. Ele já tem quase 70 e iria fazer um trecho da trilha com um amigo. Por causa das queimadas dos anos anteriores só faltava a ele aquele trecho da trilha e Jim veio acompanhá-lo. Além disso ele morou no Brasil quando era adolescente e é membro da PCTA, a associação que gerencia a trilha, e ficamos ali batendo papo sobre a criação e manutenção de uma trilha como a PCT. Ele esperava uma carona que o iria levar de volta. “Se você estiver pronto pode vir com a gente. Eu vou ficar um pouco depois, mas vamos passar por onde você parou”, ele disse.

Eu quis. Soul Crepe também. A ideia era andar menos de 20 quilômetros e acampar no Lava Spring. Soul Crepe resolveu parar antes. “Eu só tenho que chegar a White Pass na quinta. Vou ficar por aqui mesmo”, ele disse quando tínhamos andado menos de 15 quilômetros.

Cheguei ao riacho que iria acampar e Jim estava por lá, acampando um pouco antes. No riacho, um recado pendurado na árvore: “se você estiver lendo isso saiba que tem trail magic hoje na 5703. Só mais 3 quilômetros! Cerveja, comida e filme!”.

Claro que andei até lá. A cerveja já tinha acabado quando cheguei, quase toda a comida também. “Mas amanhã vai ter ovos de café da manhã”, me disse Stark Naked, a trail angel. “E você pode escolher o filme”, ela completou, me mostrando os dvds de Jumanji, da trilogia De Volta pro Futuro e outro que nem me lembro.

Peguei um refrigerante e quando a noite chegou não consegui ver mais que 15 minutos de De Volta pro Futuro 2, já que o primeiro eu tinha revisto em Hiker Heaven, ainda na Califórnia…

Pacific Crest Trail S01E89

Dia 89

Trout Lake

33 km hoje

2967 km total

Como o dia seria tranquilo, a gente não teve muita pressa em sair. Soul Crepe saiu antes, eu e Pied Piper por volta das sete. O plano era andar 20 milhas, 32 quilômetros até Trout Lake. Que apesar do nome não é um lago,

Mas uma cidade.

Cidade… imagino que quando eu falo cidade vocês imaginam ruas, semáforos, praças… Trout Lake é um vilarejo em uma encruzilhada de estrada. Tem um posto de gasolina com uma lanchonete, um armazém e um camping. Tem também uma igreja e um templo budista nos entornos da cidade e uma escola que vai até o ensino médio e segundo um morador orgulhoso “oferece aulas até de robótica”.

Às nove da manhã passo por uma estrada e um cartaz colado no painel mostra que os moradores de Trout Lake organizaram transportes da trilha até a cidade. Havia um 12:30, outro 14:30, outro às 18h. Faltavam 20 quilômetros. “Vou pegar o transfer de 12:30”, eu disse pro Pied Piper. E saí em disparada. Coloquei Daft Punk no fone de ouvido e andava no ritmo das músicas. Cheguei no local faltando 3 minutos. O motorista ainda esperou mais uns 15 minutos mas Pied Piper não apareceu.

Acampei nos fundos do armazém e aproveitei o tempo pra dar uma geral na mochila. Fui até o camping da cidade tomar banho, até a lanchonete comer pizza e fiquei secando minhas coisas e me preparando pra próxima etapa. Ele foi chegar já quase quatro da tarde, reclamando de dores nos pés. “Acho que vou ficar aqui amanhã”, ele disse.

Eu não. Coloquei meu nome na lista de interessados em transporte no dia seguinte. Só não iria sair cedo: queria dormir um pouco mais e pegar o transfer das onze. Tentei um dos três quartos que tem em cima do armazém mas estavam lotados. Ele conseguiu um pra noite seguinte.

Passei o resto da tarde tomando cervejas (temáticas!), papeando com os outros hikers e comendo pão que achei na hiker box (sabe-se lá já quantos dias aquilo estava ali) com queijo que achei na minha mochila.

Pacific Crest Trail S01E85

Dia 85 | Oregon Challenge Day 17

45 km hoje | 2836 km total

Cascade Locks

Extrapolei o Oregon Challenge em três dias mas eu tinha um objetivo no dia: chegar a Cascade Locks antes das cinco, quando a agência do correio local fecha, e terminar a novela do isolante térmico. Depois de dizer que não tinha em estoque e que não daria tempo pra chegar no Big Lake Youth Camp enquanto eu estava lá eles acabaram mandando pra casa da Adriane, em Seattle. Teria dado tempo de chegar no Big Lake… Ela recebeu e encaminhou pra Cascade Locks. A ideia era chegar, pegar o isolante, desfazer do que eu estava usando e seguir viagem no dia seguinte.

Eu descia a montanha literalmente correndo. Não só por causa do horário: minha mochila estava leve, meu quadril doía menos correndo que andando e a inclinação da montanha era perfeita pra isso. Se não tinha pedra solta, eu corria. Estava me divertindo. Até eu receber uma mensagem da Dri: “Jeff, o pacote com o colchonete era pra ter chego ontem (terça-feira) “Due to operating conditions, your delivery may be delayed.” E foi delayed. Eh pra chegar hoje (quarta) ate o final do dia 18h.” Fazer o que? Era esperar e pegar no dia seguinte.

No final da trilha, quando ela chegava na estrada, esperei pelo Pied Piper (ok. Esse é o nome dele, depois de eu ter errado duas vezes…). Cascade Locks é uma rua às margens do rio Columbia, na dívida do Oregon e Washington. Chegamos e fomos direto pra ponte fazer umas fotos. Depois cruzamos a cidade inteira até chegar no camping: um mercado, um posto de gasolina, uma cafeteria, uma lanchonete de cachorro quente, um restaurante, dois hotéis. Pronto.

O camping é agradável, o chuveiro é ótimo, mas ele fica ao lado da linha do trem. Pra solucionar esse problema, depois que levamos as roupas pra lavar e comemos alguma coisa eu passei no mercado e comprei uma garrafa de vinho. Voltei pra barraca, fiquei escrevendo e bebendo e não ouvi trem algum durante a noite. Pied Piper reclamou bastante durante todo o dia.

Gastei na cafeteira uma pequena fortuna com dois expressos duplos, um smoothie, um sanduíche e uma fatia de bolo. Depois voltei pra mais um expresso duplo enquanto gravava o podcast Extremos, que já tá no ar.

Assim que o Correio abriu eu e Pied Piper estávamos lá: eu na espera do colchonete, ele dos tênis novos. “Se chegou ontem à noite ainda está na central. Passe depois do almoço. Se precisar ir antes só dizer que a gente encaminha pra você. E seu tênis está aqui, mas não posso te entregar. Estamos sem energia, a scanner não está funcionando e não posso te entregar sem escanear”. Frustração.

Aproveitamos a manhã pra comprar os suprimentos da semana, tirar um cochilo e quando voltamos, por volta do meio dia, tudo estava resolvido.

Na minha caixa, além do isolante que eu esperava, Adriane colocou comida suficiente para uma semana. Nada brasileiro dessa vez, mas produtos finos e cheios de caloria como preciso: queijos, embutidos, vinho, óleo de coco, guloseimas. Uma surpresa agradabilíssima e muito bem-vinda.

Saí pesado e feliz pra cruzar a Ponte dos Deuses, a Bridge of the Gods, e deixar pra trás o estado de Oregon. Começava ali uma nova etapa.

Pacific Crest Trail S01E84

Dia 84 | Oregon Challenge Day 16

35 km hoje | 2791 km total

Salvation Spring

Eu estava acordado às 4:30 da manhã. O vento e as luzes vindo do hotel incomodavam. A pizza de aliche (que só como quando não estou com a Alê, que odeia) e as duas cervejas não bateram como deveriam. Mas mais que isso eu pensava no café da manhã e no encontro que teria.

Mais que ter sido cenário de O Iluminado, o Timberline Lodge é conhecido na PCT pelo seu buffet. All you can eat, ou em bom ‘português’, self service sem balança. No café da manhã e no almoço. Além disso eu teria visitas: Fernanda @fernandamussap e Daniel @dmussap viriam de Portland pra me encontrar. “Só não assustem com o tanto que eu vou comer”, alertei.

Apesar do restaurante só abrir às 7:30 eu estava no hotel às seis. Entrei pela porta principal, quando um funcionário ainda lavava as escadarias. Fui no banheiro, escovei os dentes, lavei o rosto, conversei com outro funcionário e fui pro lobby carregar meu celular.

Quando o restaurante abriu, peguei uma mesa pra quatro: eu, Pan Piper, Fernanda e Daniel. Eles chegaram quando eu acabava meu segundo prato de ovos, bacon, presunto e French toast. Traziam consigo algo que me encheu os olhos de emoção: um pacote com seis pães de queijo assados pela manhã, ainda quentes, envoltos em papel alumínio. E frutas, a coisa que eu mais sentia falta na trilha.

Ficamos ali umas três horas comendo (#engordaJeff) e papeando, em português mesmo, já que eu tinha alertado o Pan Piper. Quando me dei por satisfeito fui com eles até a trilha, nos despedimos e segui caminho: queria fazer pelo menos mais 20 milhas, 32 quilômetros, pra chegar a Cascade Locks no dia seguinte.

Mentalmente, consigo lembrar que comi no café da manhã três pratos de ovos, bacon, batatas, presunto e torradas. Três croissants de amêndoas. Iogurte de frutas, duas fatias de quiche, melão e abacaxi. Cinco (ou seis) xícaras de café, um suco de laranja grande (“que não está incluso no buffet, senhor”). E um pão de queijo. Como veem, eu faço a minha parte.

Provando mais uma vez que a PCT no Oregon pode ser fácil, mas nada plana, a trilha seguia subindo e descendo por cânions e cruzando por cachoeiras com a boa Ramona Falls (onde paramos umas quatro horas depois do café da manhã e comi TODAS as frutas que a Fernanda me levou). E numa incrível sequência de três dias seguidos encontramos no final do dia de novo um trail Magic: some à conta do dia um hamburger, um taco, um Gatorade.

Numa das subidas um dos caminhantes auê vinham pro sul me para. “Você é Thru Hiker? Posso fazer uma foto sua pro meu projeto?”. Era o Blue, que tem o ótimo @milesformoments. “Agora eu tenho que fazer uma foto sua”, eu disse. A minha ainda não está no site dele, mas a dele está aqui.

Acampamos à 28 milhas, 45 quilômetros de Cascade Locks. Mais um dia e Oregon já era. Não consegui cumprir o desafio. Mas isso é detalhe. Oregon, até breve.

Pacific Crest Trail S01E83

Dia 83 | Oregon Challenge Day 15

43 km hoje | 2756 km total

Timberline Lodge

Amigos cinéfilos: conseguem identificar o prédio da foto principal? Conto qual é no final…

Eu estava pegando água no rio quando o Pan Piper chegou. Eu o havia chamado antes de Bag Piper, gaita de foles, e tinha achado estranho o nome com referências escocesas já que ele é espanhol. Mas na conversa ele explicou: Pan Piper é o Flautista de Hamelin, e ele traz uma flauta doce contigo. Ainda não o (ou)vi tocar, mas pelas nossas conversas ele curte jazz, be bop, então até que pode ser bom…

Ele cruzou a pontezinha, eu estava do outro lado. Não o via desde Crater Late. A gente acabou andando junto dia todo batendo papo, subindo as dunas que circundam o Mount Hood, ou Wy’east, como é chamado pelos nativos. A montanha é linda e impressiona. Ainda com neve, é o último ponto realmente alto que a PCT cruza no Oregon. A trilha passa ao lado dele, separada da montanha por cânions e um rio de desgelo.

A gente subia focado em uma coisa: Timberline Lodge, o hotel e estação de esqui aos pés da montanha onde a gente iria tomar café da manhã no dia seguinte.

Paramos para almoçar por volta do meio dia e

Ali fiquei um tempo papeando com a Caroline, uma section Hiker (está fazendo apenas o estado do Oregon) sobre como é fazer a trilha depois dos cinquenta, um tema que queria ter me aprofundado.

Foi acabar o almoço, andar dez minutos e dar de cara com outro trail Magic. “Querem uma cerveja, um cachorro quente?”. Claro que sim. Não é porque eu almocei que não posso comer mais… Posso pegar esse muffin também? E outra cerveja? Vou pegar um root beer. E um pedaço de melancia… “O que você quiser! Qual o seu nome?” Speedy Gonzalez. “Olha, alguém falou de você aqui hoje…”

Eram o Double Double e o Sweet Potato, que haviam passado lá mais cedo. Disseram que eu iria chegar lá a qualquer momento. Não estavam errados.

O camping da PCT fica estrategicamente localizado atrás do lodge. São duzentos metros, talvez menos, do hotel. Chegamos, montamos a barraca, e fomos lá comer uma

Pizza. Depois da noite em Etna, onde fui pro bar todo imundo e carregando a toalha, já não ligo pra nada. Então entrar naquele hotel chique fedendo a suor e com os pés sujos de terra não me incomodou em nada. Porque deveria?

Passamos pelo restaurante, entramos pela área de serviço e chegamos ao Blue Ox, o bar do lugar, que estava lotado. Sentamos no bar e do nosso lado estavam Double Double e Sweet Potato. Ficamos ali tomando cerveja, comendo pizza e tentando armar de ir ao PCT Trail Days com eles, já que o pai do Sweet Potato vai pega-lós na trilha, levá-lo ao festival e depois de volta à Sierra Nevada. Era tentador…

Voltei pro camping e fiquei de novo olhando pro Timberline Lodge. Era incrível estar ali. Depois de passar por Vasquez Rocks, onde Planeta dos Macacos e Star Trek, dentre outros, haviam sido feitos, eu estava não no Oregon, mas no Colorado, no Overlook Hotel, onde Kubrick fez o Iluminado. Durante a noite luzes vinham do lodge direto na minha cara, o vento sacudia minha barraca e confesso dormi com uma ponta de ansiedade. Não pelo hotel em si: mas pelo que me esperava pela manhã.

Pacific Crest Trail S01E82

Dia 82 | Oregon Challenge Day 14

48 km hoje | 2713 km total

Wilson Road

Lembra quando eu comentei sobre o Oregon Challenge? O desafio é cruzar o estado em 14 dias. Eu deveria estar terminando hoje, mas ainda faltam 160 quilômetros. Só devo terminar no dia 17, três dias depois. Sem querer justificar, mas já justificando, é tudo culpa desses resorts. Eles têm comida, e é difícil dizer não pra comida…

Tenho andado me programando para chegar eles no final do dia. Assim consigo pegar o café da manhã no dia seguinte. E se der sorte ainda comer um hamburger na noite anterior…

Foi assim a programação para chegar ao Olallie Resort. Acampei 10 quilômetros antes, pensando em chegar lá e comer ovos e bacon. Mas dei com os burros nágua. O Olallie é o mais simples dos resorts até agora: uma venda, que nem a que meu pai tinha já 50 anos em Boa Vista. Umas coisinhas pros caminhantes e só. De quente só um café na garrafa térmica. Tomei um e peguei duas tortas industrializadas e tomei meu café na porta do lugar.

Uma coisa que não pode ser negado é que apesar (ou por ser) o mais simples, achei o Olallie dos lugares mais legais. Não tinha quase ninguém, a vista era incrível e o lugar mega tranquilo.

Saí dali já pensando nos dias seguintes: chegar ao Timberline Lodge, tomar café da manhã de verdade, chegar a Cascade Locks, descansar e comer um hamburger… a gente na trilha só pensa em comida…

Durante o dia cruzei a área de uma reserva indígena e acampei ao lado de uma estrada: área demarcada de camping só em 20 quilômetros e eu não estava disposto a andar aquilo tudo. Mas ali me parecia plano e sem vegetação suficiente. Montei ali minha barraca e não segui o conselho da ranger que havia encontrado no dia anterior…