Estrada Real – o vídeo

Em 2016 eu resolvi caminhar a Estrada Real. Durante o mês de junho andei de Diamantina ao Paraty. Foi a primeira parte do treinamento para a Appalachian Trail, que eu faria no ano seguinte.

Durante a caminhada eu gravava e postava vídeos diários no Facebook, além de escrever relatos diários aqui no blog. Ano passado subi os vídeos para o YouTube e agora resolvi editá-los na sequência. Incluí algumas fotos que tirei durante a viagem e o resultado é o vídeo abaixo. Quase 50 minutos de uma história que durou 32 dias.

Foi bom voltar a essa história e rever alguns dos personagens que conheci naquele ano. O Dedé, o José Sebastião, o Alberico, o Anemércio, o Jorge…. Foi bom rever as cidades, as paisagens, os causos da caminhada. Ouvir de novo as siriemas, os tucanos, o barulho da mata. Tá tudo aí. Bom filme.

 

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Inspirações: John Francis

John Francis, Planetwalker, Wood RIver Valley, Idaho

John Francis, andarilho, Wood River Valley, Idaho

Na madrugada de 18 de janeiro de 1971, sob um intenso nevoeiro, dois navios entram na baía de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos.

O SS Arizona Standard era um navio tanque, pertencente à Standard Oil Company of California. A Standard Oil original havia sido fundada em 1870 pelo milionário John D. Rockfeller. Em 1904 controlava 91% da produção e 84% das vendas de petróleo nos Estados Unidos. Mas em 1911 a Suprema Corte decidiu que o monopólio de Rockfeller era inconstitucional e a empresa deveria ser dividida. Dentre as 34 empresas que surgiram da divisão estão a Esso, a Mobil e a Chevron, o nome-fantasia da Standard Oil Company of Califórnia. O Arizona Standard havia saído carregado da Estero Bay com destino às docas da empresa em Long Wharf, em Richmond, localizado já na baía de San Francisco. O segundo navio era do mesmo modelo: um navio tanque T-2 de 153 metros de comprimento e mais de 10 mil toneladas, também pertencente à Chevron. Chamado SS Oregon Standard, ia em sentido contrário: havia saído das docas da Standard Oil com destino ao porto de Bamberton, no estado de British Columbia, no Canadá. Estava carregado com 800 mil galões de óleo bruto.

Quando o Arizona Standard deixou o porto em Estero Bay, no condado de San Luis Obispo, também na Califórnia, o tempo era bom. Era início da  tarde do dia 17 de janeiro e a viagem até San Francisco era curta. Mas quando o navio se aproximava da baía, pouco depois das 10 da noite, um grande nevoeiro começou a se formar. A maré subiu, a corrente começou a puxar na direção nordeste e do navio não se podia mais ver a cidade, encoberta pela névoa. O capitão reduziu a velocidade e soou o alarme de nevoeiro. Ao mesmo tempo ele ouvia pelo rádio da embarcação que o Oregon Standard havia deixado o porto de Richmond.

Com a visibilidade comprometida, o Arizona entrou no canal exatamente à 1 da manhã. Meia hora depois os dois navios se chocavam, a poucos metros da famosa Golden Gate e da ilha de Alcatraz. Em consequência do choque o Oregon Standard derramou na baía sua carga, 800 mil galões de petróleo bruto.

A acidente gerou uma onda de voluntariado só vista no terremoto que devastou San Francisco em 1906. Apesar de ninguém na tribulação dos dois navios ter se machucado, os danos para o meio ambiente foram incalculáveis. Mais de 4000 aves foram resgatadas, mas como havia pouca informação sobre como limpar aves sujas de petróleo apenas 300 sobreviveram. O acidente motivou a criação da International Bird Rescue, uma organização não-governamental especializada no reabilitação de aves afetadas por derramamento de óleo. Desde 1971 a ONG trabalhou em mais de 200 derramamentos em todo o mundo.

Na manhã seguinte ao acidente o jovem John Francis cruzava a Golden Gate de carro com um amigo quando viu o estrago ambiental causado pelo acidente. Foi ali que ele decidiu que não iria mais andar em veículos motorizados. Nada de carro, moto, ônibus, caminhão. Nem dirigindo, nem de carona, em nenhum veículo fosse movido a petróleo. Ele tinha 24 anos.

Três anos depois, quando fez 27, John decidiu que iria passar um dia sem falar. Acordou e nesse dia ele apenas ouviu. Sem dizer uma palavra. Ele conta que foi uma experiência marcante, “porque, pela primeira vez, eu comecei a ouvir”. Então ele decidiu ficar mais um dia em silêncio. E mais um. E outro. E assim não disse nada nos 6200 dias seguintes (isso são 17 anos, se você fizer a conta).

Ele também resolveu fazer um curso de gradução em meio ambiente na universidade de Ashland, no Oregon, a 800 quilômetros de sua casa na Califórnia. John foi pra aula a pé. Depois dos dois anos de curso ele seguiu para Port Townsend, no estado de Washigton. De lá a Idaho, e de Idaho a Montana, onde onde, dois anos antes, havia se inscrito em outro curso. Sem dinheiro, ganhou bolsa para uma única matéria, com aulas práticas na América do Sul. John veio de barco à vela até a Venezuela. E de lá, a pé veio ao Brasil e continuou até a Argentina, Chile e Bolívia. Também a pé cruzou a ilha de Cuba, onde estou agricultura orgânica e desenvolvimento sustentável.

Ele voltou a falar em 1990, depois de 17 anos de silêncio. E se tornou embaixador das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Criou a fundação Planetwalker (Planetwalker: 17 Years of Silence, 22 Years of Walking é o nome de sua autobiografia) e ajudou o governo americano a escrever políticas e leis sobre o derramamento de petróleo. Tudo isso porque John resolveu deixar o carro de lado e andar.

Se você ficou curioso com a história dele, veja – e ouça – sua palestra no TED.

Longa Distância: O Livro

Desde que fiz a Estrada Real, em 2016, que alimento a ideia de fazer um livro com o relato da viagem. Primeiro veio o fanzine, sugerido, incentivado e diagramado pela entrecampo, de Belo Horizonte. Foram 100 cópias, já esgotadas.

Daí veio a vontade de botar no papel a viagem inteira. O projeto Longa Distância: Primeiros Passos vai englobar não só a Estrada Real como também as histórias do Caminho da Fé. Não é um guia de viagens: é um livro pra quem gosta de histórias.

O livro sai pelo selo Leme da editora Impressões de Minas. Serão 200 páginas, dezenas de fotos e várias histórias. A princípio a impressão é em preto. Superando a meta a ideia é fazer colorido.

O projeto está no Catarse. Só ir www.catarse.me/longadistancia e escolher sua recompensa. Se atingir a meta, lindo. Sai o livro. Caso contrário o dinheiro volta pra você. Simples.

 

Por que caminhar?

“Caminhar é levar uma existência descascada (o verniz social foi removido), descarregada de pesos, libertada das habilidades sociais, e purgada das futilidades e máscaras.” Frédéric Gros

“O caminhar e a igualdade andam juntos: no excesso e na soberba não há igualdade, com excesso e soberba não se caminha” Adriano Labbucci

IMG_5469Toda vez que converso com alguém sobre as minhas caminhadas, seja o Caminho da Fé, a Estrada Real ou a Appalachian Trail, a pergunta que todos fazem é essa: por que fazer uma viagem dessas? É uma dúvida inevitável. Ainda mais em uma época onde o meio de transporte mais comum é o motorizado – seja o carro, o ônibus, o avião – e em um mundo onde as pessoas andam cada vez menos e o ato mais comum de todo ser humano é visto como algo excepcional, curioso, estranho até.

Costumo dizer que para mim caminhar é uma forma de oração, um jeito prático de organizar os pensamentos. Minha forma de me afastar do mundo e de me aproximar de mim mesmo. Andar é minha Ave Maria e meu Padre Nosso. Mas não é só isso. Caminhar é minha válvula de escape. Meu palavrão gritado a plenos pulmões, seu #@!*@#!!! Meu Atlético x Cruzeiro num Mineirão lotado. Meu carnaval. Meu fora, Temer! Meu rock´n´roll.

Sabe aquela chacolhada necessária pra deixar as coisas no lugar? O porre do final de semana, o baseado, a academia, a terapia? Pra mim o caminhar é tudo isso. Claro que não importa o destino. Não precisa ser a Appalachain Trail. Mas estes destinos que escolho são muito mais agradáveis que enfrentar o trânsito e o barulho da cidade, esse organismo que a cada dia nos sufoca mais e mais.

“Caminhando desenvolvemos atitudes e qualidades que são o caminho da busca e da realização espiritual: a atenção com o que está fora e a concentração com o que está dentro“. A frase é de um escritor italiano, Adriano Labbucci, que tem um pequeno livro que saiu no Brasil em 2013 pela Editora Martins Fontes chamado Caminhar, Uma Revolução. Em uma outra passagem desse livro ele escreve algo que é bem próximo do meu objetivo com essas caminhadas: “Não se caminha para chegar depressa, caminha-se para que as coisas nos alcancem no tempo propício, caminha-se para ficar com os sentidos despertos e para fazer o ar circular pela mente e pela alma“. É esse o espírito. Veja: o que me atrai nessas viagens não é aventura, não é o desconhecido. É simplesmente o andar. Não é o ir mais rápido, nem o mais longe, nem chegar ao topo. É caminhar. Só isso. É simples.

Se acreditasse em deus poderia dizer que foi o Caminho da Fé, em 2015, que mudou a minha vida. Estava em um momento de indecisão e cheio de dúvidas. Fiz o Caminho e voltei mais calmo, menos apegado às coisas materiais, menos preocupado e ansioso. Mais ciente de quem eu sou, de meu lugar no mundo. E determinado a caminhar mais. Mas sei que se tivesse dado duas voltas na lagoa da Pampulha todos os dias por duas semanas o resultado teria sido o mesmo. Foi o caminhar que me mudou, não o destino. O mesmo aconteceu na Estrada Real. O percurso desafiou minhas condições física e mental. E aquele esforço me deixou ainda mais determinado, centrado, ciente dos meus limites, de minhas qualidades e meus defeitos. Poderia ter corrido uma maratona por dia durante um mês. Ou feito terapia por dez anos. Acho que daria na mesma.

Sei também que o desafio da Appalachian Trail vai ser extremo. Por mais que tente não me preocupar, por mais que pense que é só andar, é impossível não pensar na dificuldade, no tempo, na saudade, nos perigos, nos animais selvagens, na distância, nas consequências. É claro que não é só andar: é o antes, o durante, o depois, e tudo que isso carrega. São cinco meses na trilha, uma eternidade depois. A trilha exige planejamento, concetração, estudo. Para mim, já é quase um ano de leituras, pesquisas, livros e conversas. Sabe-se lá o que isso vai mexer comigo quando voltar. E como me comprometi a tudo isso, nada melhor que dividir com vocês essa jornada. Se eu estou fazendo, qualquer um pode fazer. Por isso o blog, a página, as fotos, os vídeos, os áudios. Tudo isso com foco em algo que busco nesta e em todas as outras jornadas: simplificar o meu andar e aperfeiçoar o meu olhar. Abrir a mente, aguçar os sentidos e tentar me (re)conectar com o meio ambiente.

O jornalista Pablo Pires Fernandes, amigo de longa data, escreveu recentemente um texto para o Dom Total sobre cozinhar, uma paixão que nós dois temos em comum. “Cozinhar é um ato revolucionário”, diz ele. “Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito. (…) Esse espírito inconformista que busca o novo e o desconhecido estava presente nos navegantes que, famintos, cruzaram mares sem saber onde iam chegar.”  Assim é também o caminhar. Para Labbucci “não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir, hoje dominante, que o caminhar. Ponto.” Ponto, repito.

Talvez a minha (re)descoberta do caminhar seja a minha forma de me reencontrar. Uma forma de retomar não só a légua a pé que minha família tinha que fazer pra visitar minha avó, mas as corridas na adolescência com minha irmã, minhas banda de rock, meus fanzines, minhas calças rasgadas, meus cabelos coloridos, minha inconformação da adolescência. É reviver meu lado inquieto, desobediente, revolucionário. Caminhar, pra mim, é ir na contramão, mas ao meu encontro.

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A trilha da trilha: Connecticut

Tenho que esclarecer três coisas:

Primeiro, a caminhada que vou fazer não tem nada a ver com a de Cristopher McCandless, o personagem de Na Natureza Selvagem. Os lugares para onde vou são bem próximos de cidades e a probabilidade de acontecer algo como o filme é rara.

Segundo, eu nunca gostei de Pearl Jam, mas essa trilha do Eddie Vedder encaixa como uma luva no filme do Sean Penn. E consequentemente também na caminhada.

Por fim, a música não tem nada a ver com Connecticut, o próximo estado que vou cruzar. Mas achei que iria se encaixar bem aqui, porque daqui pra frente a coisa fica mais complicada. Garantido.

A trilha da trilha: New York

Poderia escolher um milhão de músicas sobre New York. Claro, não poderia ser diferente. Toda uma vida ouvindo músicas sobre a cidade. Poderia ser New York, New York do Sinatra. Autumn in New York, da Billie Holiday. No Sleep Til Brooklyn, do Beastie Boys. New York I Love You do LCD Soundsystem. Qualquer coisa dos Ramones. Era só escolher.

Mas se a idea é uma música, e que tenha a ver com caminhadas a escolha só poderia ser Walk on the Wild Side, do Lou Reed. Tudo bem que aqui tanto o sentido de walk quanto de wild são beeeeem diferentes daqueles que vou estar inserido. Mas dizem que se o dia estiver claro dá pra ver os prédios da cidade enquanto você caminha pelo lado realmente selvagem de New York.

Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

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Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

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Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

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Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

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Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

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Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.