Estrada Real – o vídeo

Em 2016 eu resolvi caminhar a Estrada Real. Durante o mês de junho andei de Diamantina ao Paraty. Foi a primeira parte do treinamento para a Appalachian Trail, que eu faria no ano seguinte.

Durante a caminhada eu gravava e postava vídeos diários no Facebook, além de escrever relatos diários aqui no blog. Ano passado subi os vídeos para o YouTube e agora resolvi editá-los na sequência. Incluí algumas fotos que tirei durante a viagem e o resultado é o vídeo abaixo. Quase 50 minutos de uma história que durou 32 dias.

Foi bom voltar a essa história e rever alguns dos personagens que conheci naquele ano. O Dedé, o José Sebastião, o Alberico, o Anemércio, o Jorge…. Foi bom rever as cidades, as paisagens, os causos da caminhada. Ouvir de novo as siriemas, os tucanos, o barulho da mata. Tá tudo aí. Bom filme.

 

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Longa Distância no Senac Minas

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No final de 2016, depois de ter completado a pé três dos caminhos da Estrada Real, recebi uma mensagem de Alexandre Biciati, do Senac Minas. Ele queria agendar uma entrevista para o Aprendi no Senac, o blog oficial da instituição.

O bate papo aconteceu ainda em dezembro e foi ao ar essa semana. A conversa com a repórter Roberta Almeida foi gostosa: conto um pouco do que foi fazer os 1.200 km da Estrada Real a pé, os desafios e planos para o futuro, incluindo a Appalachian Trail.

É muito gratificante ver que esses passeios servindo de inspiração para uma galera que está agora indo em busca de seus sonhos. Uma das razões das caminhadas é isso: mostrar pra Jade e Lis, minhas netas, que é preciso ir atrás de suas paixões, não importa quais sejam.

Pra assistir e ler a matéria é só ir no Aprendi no Senac. Ou você pode assistir a conversa aí embaixo.

Obrigado ao Alexandre, à Roberta, ao cinegrafista Evandro Gangana e a toda equipe do Senac pela oportunidade.

 

Estrada Real S01E13: Rio Acima a Glaura

Distância do dia: 47,53 km. Distância total: 485,47 km. Da importância de dias como esses.

Dias como esse são de extrema importância em caminhadas de longa distância. Primeiro, era um trecho longo, de mais de 45 km. Dias assim exigem não só preparo físico como determinação. A vontade de parar na metade é grande: em algumas horas a vontade é aceitar aquela carona que vez ou outra alguém te oferece ou entrar no primeiro ônibus que passa. Além disso, este era meu primeiro dia de retorno, depois do conforto de casa. Recomeçar depois de um dia parado é sempre complicado. E a lembrança da cama quentinha, do travesseiro na consistência certa, dos banhos demorados, dos lava-pés com sal grosso e ervas, da comida predileta continua com você. Eu estava ainda sentindo a perna esquerda e o dedão inflado só doia quando eu pisava. É isso continuou assim durante todo o percurso. E durante toda a parte da manhã uma chuva fina e chata me acompanhou. Pra finalizar, a parte da lua de mel com a paisagem acabou. Não que o que eu via fosse feio, pelo contrário. Mas passou a novidade, e aquele mar de montanhas já não causava tanto impacto. Por mais bonito que fosse era só mais do mesmo.

Em dias assim, chuvosos e você saudoso e indo além do seu esforço normal é que você se pergunta “o que eu estou fazendo aqui?” (Na verdade a pergunta é mais “onde diabos eu estava com a cabeça quando decidi fazer a merda dessa caminhada de 1100 km? Você por um acaso ficou doido Jeff? Tá afastado de deus?”). Aliás, essa é uma dúvida frequente, tanto de amigos quanto das pessoas que você encontra na jornada.

Zach Davis é um caminhante de longa distância americano que escreveu um guia psicológico e emocional para se completar a Appalachian Trail. É: um guia psicológico e emocional para caminhar. Porque esse é dos pontos que mais fazem pessoas desistirem de uma caminhada longa. Zach sugere que se faça uma lista com os motivos que levaram você a fazer a trilha, o irá mudar de você completar e o que acontecerá se você desistir. 

No meu caso, fazer a Estrada Real é mais que uma viagem geográfica. Mais que conhecer as cidades e montanhas e cultura é uma forma de me conhecer melhor, de saber dos meus limites e pensar meus atos e decisões. É uma viagem pessoal. Sou eu e meus pensamentos sozinhos, ali no meio do nada. É tentar vencer alguns medos e ideias que tenho. É uma forma de ganhar confiança e auto estima. É voltar às minhas raízes e origens, depois de ficar muito tempo com a cabeça fora. Ao completar espero estar mais focado, mais confiante, mais ciente de quem eu sou é de onde vim e claro, em melhor forma física.  E desistir é confirmar alguns de meus medos e incertezas: que não completo o que proponho, que não me dedico aos meus projetos como deveria, que não foco no que é realmente importante naquele momento.

Além disso, acredito que andar é parte da natureza humana. Somos seres nômades. Gostamos do conforto e das facilidades da vida moderna, mas nascemos para estar em movimento. Somos curiosos e a busca pelo desconhecido é parte da nossa razão de estar aqui. É graças a isso que nossos ancestrais saíram da África. É por causa disso que os europeus vieram pra América. É por isso que os bandeirantes entraram mato adentro e chegaram às Minas Gerais. Queremos ir além, e a forma mais natural que temos para isso é usando nossas pernas.

E quanto estar afastado de deus, se ele existir, andar longas distâncias, peregrinar, talvez seja a melhor forma de se aproximar dele, não se afastar. Tanto que a peregrinação é parte importante das maiores religiões do mundo. Muçulmanos peregrinam a Meca. Budistas japoneses fazem a peregrinação à Shikoku, um caminho de 1200 km. Budistas Indianos peregrinam a Lumbini, onde Buda nasceu. Cristãos tem em Santiago de Compostela o maior exemplo.  O ritmo de seus passos e dos bastões no chão é um mantra. Estar em silêncio ouvindo seus passos e a natureza por horas a fio é uma forma de oração.

Portanto, são dias assim que te fazem pensar na jornada e nos seus objetivos. Se não fossem dias assim não haveria a reflexão.

O percurso? Longo e cansativo. Com ele encerro o que me propus a fazer do caminho do Sabarabuçu. Ironicamente meu projeto não inclui Ouro Preto: daqui já saio pra fazer o mais longo dos três caminhos, o Velho. A partir de amanhã, começa tudo de novo.

Estrada Real S01E12: Zero

Então vamos ver: minha unha 5 ainda está no lugar, apesar de bamba. Bolhas se formaram ao redor da unha, onde a pele varia do tom branco-pus ao vermelho-inflamado. Normalmente não dói, mas se esbarro em algum lugar – na calça quando vou vestir, por exemplo – a dor é tremenda. Falando em bolhas, a maior, com uns 2,5 centímetros de diâmetro no pé direito, já arrebentou naturalmente e a nova pele é tão sensível quanto bumbum de bebê. O dedo 9 está com uma bolha nova na ponta que tem incomodado. E duas bolhas estão presentes em cada calcanhar, além de outra na lateral do pé, perto do fíbula. O tornozelo esquerdo está inchado, com manchas vermelhas, e ainda não sei se é reação alérgica ou inflamação. As duas panturrilhas já não doem tanto. Joelhos tem dores leves, que poderiam ser muito mais severas se não estivesse usando os bastões. Doem também as coxas. Tenho assaduras, irritações na virilha, um machucado na cintura, talvez pela fricção do porta-objetos que levo dinheiro, documentos e celular, as únicas coisas que não vão na mochila. Depois de três dias de caminhadas com a mochila pequena as dores nos ombros estão melhores. E minhas mãos doem de ficar mais de oito horas por dia segurando os bastões, e no tempo que tenho de descanso uso os dedos para atualizar no celular esse blog. A cabeça está ótima e descansada.

Fazer uma trilha de longa distância é extremamente desgastante fisicamente. Nestes primeiros onze dias foram percorridos uma média de quase 40 quilômetros por dia. Uma maratona todo dia, por 11 dias seguidos. Meu corpo está um bagaço.

Por isso eu precisava de um zero. Um zero é um dia onde você não anda. Não se aproxima nem um quilômetro do seu destino. Tinha programado três zeros nos 1100 km até Parati, o primeiro neste domingo, quando Alê iria me visitar em Santo Antônio do Leite. Mas estava cansado, fatigado, e até lá teria pelo menos mais um dia longo, de Rio Acima a Glaura, com quase 45 km. Resolvi adiantar.

Voltei ontem de Rio Acima, no ônibus das 4:30, e com o trânsito ali no entorno do BH Shopping do fim do dia não cheguei em casa antes das 7. E ao invés de retornar a Rio Acima hoje de manhã fiquei aqui. Dormi até às 9, tomei um farto café da manhã e logo depois um almoço. Cuidei dos ferimentos, fiquei de perna pra cima e descansei. Amanhã pego  o ônibus cedinho de volta a Rio Acima. Caminho os 45 km até Glaura, onde Alê me encontra. Domingo cedo faço os fáceis 14km até Santo Antônio do Leite, onde fico mais uma noite com ela. É a partir de segunda, tudo volta ao normal: longas caminhadas, pousadas baratas, mais dores, mais bolhas. Entro de sola no Caminho Velho, que me leva até Parati. Se tudo correr como programado faço mais dois zeros e chego lá no inicinho do mês que vem. Quem me acompanha?

status do dia: pernas pro alto

Estrada Real S01E11: Sabará a Rio Acima

Distância do dia: 39,06 km. Distância total: 437,94 km
Talvez hoje tenha sido o melhor dia de caminhada até agora. O que não quer dizer que tenha sido um dia fácil…

Ontem ponderei seriamente em tirar o dia de folga. Tenho planejado um dia de descanso a cada 10 dias. Mas como Alê está planejando de ir encontrar comigo em Santo Antônio do Leite no sábado, achei melhor ir caminhar, mesmo com minha perna esquerda inchada. Faz uns dias que tem incomodado pela manhã, com uma dor pequena na parte de trás do joelho.

Acordei às 5:30 depois de ter dormido pouco (já que estou em casa fui colocar uma das séries em dia…) e quando coloquei o pé no chão o incomodo já estava lá. Fui assim mesmo pegar o ônibus pra Sabará. Quando cheguei lá às sete já não sentia. Ótimo. A ideia era percorrer três trechos da Estrada Real: a primeira parada em Raposos, depois de 13 km; a segunda em Honório Bicalho, mais 15 e finalmente Rio Acima, mais 10. Sabia que o percurso tinha trechos de trilhas, algumas técnicas, mas nada havia me preparado pelo que estava por vir.

O ônibus me deixou exatamente onde a trilha começa. Cruzei o Centro Esportivo de Sabará e segui rumo ao bairro de Arraial Velho, um simpático aglomerado de poucas casas mordernas e uma igreja antiga. O local foi fundado por Borba Gato  mais de 300 anos atrás. Subi a rua de pedras e depois de algum tempo o silêncio só era quebrado pelo bondinho de  minério acima. No percurso é possível ver ruínas de casas de pedras. Em determinado momento a trilha termina em frente à porteira de uma fazenda: é preciso entrar, dar seu jeito pra se esquivar da meia dúzia de vira latas e sair pelo portão do fundo, onde começa a primeira descida em trilha que exige técnica. Pedras com lodo, lama, tudo muito escorregadio e os dois bastões de caminhada foram fundamentais (se estivesse só com um talvez teria problemas).

A trilha termina a confusa e pouco atrativa Raposos. Mas dali é só passar a igreja, depois a ponte e subir, subir, subir. Rumo às antenas de comunicação, quando a placa indicar “rua sem saída”, não dê bola: é aí que a diversão começa. A trilha segue um pequeno curso d’água por  alguns quilômetros. Do outro lado a vista das aberrações do Belvedere e Nova Lima (por mais que não goste daquela torre, nem de todos aqueles espigões verticais que puseram ali, confesso que bateu uma emoção em ver BH ali tão perto. Diria que daria pra ir andando…)

Cinco quilômetros nesse cenário e a coisa começa a ficar divertido de verdade. Descidas fabulosas, por meio das erosões, rios que precisam ser atravessados – acho que foram três, o último com água pouco abaixo do joelho – e subidas que exigem preparo e disposição. Diversão pura! E BH ali do lado… E quando você acha que acabou, a menos de um quilômetro da cidade, da-lhe outra descida absurda.

Da pracinha de Honório Bicalho é só seguir a linha do trem para os últimos 10 km até Rio Acima. Trilha fácil, tranquila, com surpresas como uma antiga ponte de pedra, é o desfecho perfeito para um dia difícil, mas extremamente agradável.

Estrada Real S01E10: Caeté a Sabará

Distância do dia: 36,38 km. Distância total: 398,88 km. Passos dados nesses primeiros dez dias: 504.570. 

Na linguagem dos caminhantes de longa distância nos Estados Unidos, “slackpacking” é um termo que significa caminhar sem a sua mochila. Pro pessoal mais puritano é preciso completar a trilha toda carregando tudo o que você precisa, o tempo todo. Para outros você tem que ir a pé do início ao fim. E se você deixar sua mochila de lado por alguns dias não compromete o êxito da sua jornada. No Caminho de Santiago muita gente “slackpack” mandando a mochila de uma cidade a outra de taxi. Na Appalachian Trail, em alguns pontos é possível andar um dia ou dois sem carregar o mochilão. Como passei a noite em casa resolvi negligência os 8 quilos da mochila pelos próximos dias. Ou seja: eu fiz slackpacking.

Quando cheguei ontem de surpresa Alê não pode acreditar. Nem Tati, nem Jade, nem Lis, nem Rick. Matei a saudade que já era grande e aproveitar pra me cuidar: fiz um escalda-pés, tratei as bolhas (já tenho uma meia dúzia, mas estão controladas. A unha 5 ainda resiste e a 7 agora ameaça cair) e pedi minha pizza predileta. Coisas simples que me fizeram falta na última semana.

Levantei às 5:30, mas como sempre acordei várias vezes antes. Deitei às 11h, mas às 2h já achava que era hora. E de novo às 4h. Quando finalmente chegou a hora tomei um espresso duplo (nada de chafé por hoje) e pedi um Uber.

Cheguei na rodoviária com 15 minutos de sobra e Jurandir me abordou na entrada do ônibus: “você tem um telefone? Liga a cobrar pra minha mulher e diz pra ela que Tô indo pra casa? O número é 6… Não. 68… Peraí.  75…” Ainda estava bêbado na noite anterior. Tinha saído de Caeté com o amigo Tinho pra uma noite de bebedeira em BH. Na saída pra Santa Luzia pararam num boteco, beberam todas e brigaram entre si. “Mas foi uma briga boa! Uma rinha de galos!”. Chegou a polícia e os dois foram dar um passeio de caburão. “Tinho foi na frente, mas eu ia lá na grade, igual passarinho”. Liguei pra dona Sônia e dei o recado. “Fala pra ele que vou estar esperando na rodoviária”, ela disse. Jurandir e Tinho desceram um ponto antes.

Peguei o ônibus às 6:3o levando o básico: boné, protetor solar, capa de chuva, celular, lenços umedecidos, meus bastões de caminhada, umas frutas secas, um litro de água e uma mochilinha de 10 litros. Estava leve, iria fazer os 35 quilômetros até Sabará e voltar de novo pra casa.

Eu já disse que a sinalização do Instituto Estrada Real é ineficiente, né? Aqueles totens grandes e caros, onde é impossível ler as informações sem parar e limpar a poeira. Em mal estado de conservação, muitas vezes encobertos por mato ou no chão. As planilhas difíceis de serem entendidas, e quem quiser ver as informações totais tem que abrir três arquivos: a planilha, com as distâncias entre os totens; o guia, com informações sobre as cidades e pontos de alimentação, hospedagem e carimbo; e a planta de altimetria. Um suplício. Mas o que era ruim no Caminho dos Diamantes fica ainda pior no Sabarabuçu. Como se fosse o primo pobre dos quatro caminhos, tem ainda a desvantagem de passar por cidades relativamente grandes, como Caeté e Sabará. Nestas, os totens vão até o perímetro urbano. Dali até a região central, onde estão muitas das pousadas e atrações, é um salve-se quem puder. Você tem que pedir informação, usar seu aplicativo preferido ou simplesmente seguir o fluxo. E esse deslocamento pode durar uma hora ou mais.

Ontem em Caeté o último totem era tão distante do ponto final que achei melhor pegar o ônibus pra BH e carimbar o passaporte hoje pela manhã. E hoje, saindo da belíssima matriz, já tinha gastado uma hora e andado 5 quilômetros quando cheguei ao primeiro totem, às nove.

A partir daí o passeio foi tranquilo. Com os pés descansados, com o dia nublado e sem o peso da mochila, já tinha chegado ao distrito de Morro Vermelho às 10h. Parei pra conversar com dois ciclistas (obrigado pela banana) e segui rumo a Sabará. O passeio é agradável, com um rio correndo quase todo tempo à sua direita, paredes de samambaias à esquerda e barulhos de mata e trem (se você abstrair que são vagões e vagões de minério sendo tirados das nossas montanhas fica mais agradável).

Só que o trecho perdeu uma parte de trilha. E a partir de determinado ponto os marcos param de existir. Não que fizessem tanta falta (é só seguir a estrada principal) mas o descaso incomoda. O que ajuda são as marcações do CRER, o Caminho Religioso da Estrada Real, que usa totens muito mais simples e práticos. Na chegada à Sabará, outra caminhada sem orientação até o Teatro Municipal, ponto do carimbo.

E dali foi só descer e pegar um circular até BH, pra mais uma noite em casa, com família e escalda-pés.

Estrada Real S01E09: Cocais a Caeté

Distância do Dia: 45,06 km. Distância total: 362,5 km. Surpresas do dia: várias.

Já era noite quando liguei pra Pousada das Cores querendo saber se tinha um quarto disponível. O Éverton atendeu meio desconfiado mas mesmo assim me passou a direção. Mesmo antes de chegar ao quarto já havia gostado do lugar. Do lado de fora a casa no final da rua, com mesas na varanda, chamava atenção pelos detalhes. Dentro, a medida que Éverton ia me guiando, conseguia distinguir esculturas no jardim, um caramanchão e mais coisas que deixavam o lugar singular. Quando passamos por uma sala de estar, ele comentou: “TV se quiser é aqui. No quarto não tem”. Falei que não ligava TV a uma semana. Na portas dos quartos, de paredes brancas e portas e janelas pintadas de cores diferentes – o meu era o goiaba – Éverton continuava o papo que vínhamos tendo. Contava que fez o Caminho de Santiago, “e lá, em alguns lugares, você deita no colchão, daqueles de molas antigos, e sua bunda vai no chão”. Morou na Espanha quando estudava, fez jornalismo, trabalhou no Estado de Minas (“o Roberto Drummond era meu editor na cultura”), no Palácio das Artes, mas resolveu morar no meio do nada: “no meio do nada acham os meus amigos, né? Eu não acho”. E ficamos ali na conversa, eu ainda de pé, querendo tomar um banho, mas o papo rendia. Até que perguntei se tinha algo pra comer na cidade. “Você gosta de caldo? Se for um caldo dá pra fazer. E não sou modesto não: sou cozinheiro de mão cheia”, ele disse. Gosto de caldo, angu, quiabo, jiló, o que tiver eu como. “Ah, então você é a pessoa certa pra fazer a Estrada Real. Desce às 7 que faço pra você”. Mas 7 já são, Éverton (ficamos uma hora de conversa). “7:30 então”.

Desci e consegui me perder entre meu quarto e a cozinha (como mesmo que estou fazendo a Estrada Real sozinho?). Cheguei uns minutos depois do combinado e Éverton estava acabando de rapar a panela. “Você já quer comer? Pega esse prato aí então. E essa outra vasilha”. Fomos pra um salão enorme, pra pelo menos umas 120 pessoas. E ficamos só nós dois ali, sentados quase frente à frente, cada um com seu caldo de mandioca (ele estava certo: é mesmo cozinheiro de mão cheia) e eu ainda com três pães de inhame, que Éverton também quem fez. “Comi desse pão o dia inteiro. Tô aqui só pra te fazer companhia”. No tempo que devorei três pratos enormes do caldo, falamos sobre mais uma pancada de assuntos. Éverton disse que foi seminarista (“mas hoje não tenho religião, nem time de futebol, nem partido político e sou assexuado”) e que montou a pousada com a ideia de fazer um mosteiro. No terreno tem também uma igreja pra 100 pessoas e dos tempos de seminário guarda amizades com padres e freiras. “As freiras veem aqui e eu pergunto: irmã, quer uma cervejinha? Elas acham que não vai pegar bem então eu falo: preocupa não! Eu boto num bule esmaltado e a gente bebe na xícara. Se chegar alguém a gente fala que é chá. E fico aqui tomando o chá das cinco com as freiras”. Eu caio na gargalhada e ele conta vários outros causos, impublicáveis (porque vou deixar a surpresa pro livro que ele mesmo está escrevendo).

Se não bastasse, ele ainda fábrica licores e vinagres de vários sabores. “Aliás, também estudo a peidologia”, completa. E já emenda: “e doce, você gosta? Hoje tem de mamão, de banana com chocolate e goiaba com banana. E sorvete? Os sorvetes a gente faz aqui são excelentes. Tem dê araticum e abacate. Experimenta”. Me ganhou na simpatia, na conversa e no estômago. Volto a Cocais só pra passar mais um dia com ele.

E na hora de ir ver o jornal, assiste na companhia de Joãozinho e Mariazinha, os dois novos habitantes sortudos do lugar: “devia existir um chef pra comida de cachorro né? Ração é ruim demais. Os meus amiga passam bem. Compro fígado de galinha e misturo na ração deles. Eles ficam olhando pra mim pensando assim: ‘nossa, esse meu humano de estimação cozinha tão bem'”. Subi pro quarto ainda cheio de admiração.

Ele havia deixado a chave do portão pra eu sair. Ainda não eram seis quando deixei a pousada, mas só cheguei ao primeiro marco do Caminho de Sabarabuçu uma hora depois. Na noite anterior, quando cheguei, confesso que não havia seguido os últimos marcos: me guiei pela sugestão do Google Maps. Agora pela manhã, querendo fazer a coisa certa, fui acompanhar a (eu já disse isso?) confusa planilha do Instituto. E dei uma volta danada por ruas sem marcos até chegar onde queria.

Deixar os Diamantes e começar o Sabarabuçu era dúvida até ontem. Tudo por causa do crime ambiental em Bento Rodrigues. Não fosse isso, continuar por Barão de Cocais, Santa Bárbara, Catas Altas, Santa Rita Durão, Camargos, Mariana e Ouro Preto era o caminho mais sensato (e rápido). Com a interdirão do trecho entre Santa Rita e Camargos, onde estava Bento Rodrigues, a opção seria ou ir pelo asfalto ou pegar o Sabarabuçu em Cocais, que foi o que fiz. Ainda sobre o crime, meus planos originais eram fazer o Caminho dos Diamantes, só ele, no final de outubro e início de novembro do ano passado. Como apareceu uma viagem pra China a trabalho (como recusar?) na mesma época, adiei a caminhada. Pela minha programação original, faria o trecho de Santa Rita a Camargos no dia 5 de novembro. O dia que a represa se rompeu.

Menos de uma hora depois de cruzar o primeiro março, estão lá, de novo, os eucaliptos. Menor que o do dia anterior, cruzei a plantação com o mesmo nervosismo.

O sol demorava a surgir e era fácil andar num bom ritmo pela manhã. Passei pelo distrito de Antonio Carlos e segui contornando o Morro da Piedade. Faltando uns 10 quilômetros pro final, o tempo está escuro e sinto as primeiras horas. Paro, tiro a mochila, pego a capa e quando boto a mochila de novo ouço um zumbido. Mais rápido que eu, o marimbondo/vespa/abelha/sei-lá-o-que de Itú (o bicho era quase do tamanho de um beija-flor, juro!) fica o ferrão na minha nuca. Ainda agora, seis horas depois do ocorrido, sinto meu pescoço dolorido). A chuva, coitada, nunca veio.

“Caeté é do lado de Belo Horizonte”. Ficava pensando isso a medida que me aproximava. Mas só quando passei na porta da rodoviária e vi um ônibus lotação (executivo, mas lotação) me dei conta do quão perto as duas cidades estão (são 45 km, a mesma distância que tinha andado). Me aproximei e perguntei pro motorista: “esse ônibus sai que horas?” 4:10 . “E demora quanto tempo a viagem?” 90 minutos. “É o primeiro ônibus de lá pra cá que horas sai?” 6:30. Não tive dúvidas: entrei no busão e vim passar a noite na melhor pousada de todas: a minha casa.