Estrada Real S01E11: Sabará a Rio Acima

Distância do dia: 39,06 km. Distância total: 437,94 km
Talvez hoje tenha sido o melhor dia de caminhada até agora. O que não quer dizer que tenha sido um dia fácil…

Ontem ponderei seriamente em tirar o dia de folga. Tenho planejado um dia de descanso a cada 10 dias. Mas como Alê está planejando de ir encontrar comigo em Santo Antônio do Leite no sábado, achei melhor ir caminhar, mesmo com minha perna esquerda inchada. Faz uns dias que tem incomodado pela manhã, com uma dor pequena na parte de trás do joelho.

Acordei às 5:30 depois de ter dormido pouco (já que estou em casa fui colocar uma das séries em dia…) e quando coloquei o pé no chão o incomodo já estava lá. Fui assim mesmo pegar o ônibus pra Sabará. Quando cheguei lá às sete já não sentia. Ótimo. A ideia era percorrer três trechos da Estrada Real: a primeira parada em Raposos, depois de 13 km; a segunda em Honório Bicalho, mais 15 e finalmente Rio Acima, mais 10. Sabia que o percurso tinha trechos de trilhas, algumas técnicas, mas nada havia me preparado pelo que estava por vir.

O ônibus me deixou exatamente onde a trilha começa. Cruzei o Centro Esportivo de Sabará e segui rumo ao bairro de Arraial Velho, um simpático aglomerado de poucas casas mordernas e uma igreja antiga. O local foi fundado por Borba Gato  mais de 300 anos atrás. Subi a rua de pedras e depois de algum tempo o silêncio só era quebrado pelo bondinho de  minério acima. No percurso é possível ver ruínas de casas de pedras. Em determinado momento a trilha termina em frente à porteira de uma fazenda: é preciso entrar, dar seu jeito pra se esquivar da meia dúzia de vira latas e sair pelo portão do fundo, onde começa a primeira descida em trilha que exige técnica. Pedras com lodo, lama, tudo muito escorregadio e os dois bastões de caminhada foram fundamentais (se estivesse só com um talvez teria problemas).

A trilha termina a confusa e pouco atrativa Raposos. Mas dali é só passar a igreja, depois a ponte e subir, subir, subir. Rumo às antenas de comunicação, quando a placa indicar “rua sem saída”, não dê bola: é aí que a diversão começa. A trilha segue um pequeno curso d’água por  alguns quilômetros. Do outro lado a vista das aberrações do Belvedere e Nova Lima (por mais que não goste daquela torre, nem de todos aqueles espigões verticais que puseram ali, confesso que bateu uma emoção em ver BH ali tão perto. Diria que daria pra ir andando…)

Cinco quilômetros nesse cenário e a coisa começa a ficar divertido de verdade. Descidas fabulosas, por meio das erosões, rios que precisam ser atravessados – acho que foram três, o último com água pouco abaixo do joelho – e subidas que exigem preparo e disposição. Diversão pura! E BH ali do lado… E quando você acha que acabou, a menos de um quilômetro da cidade, da-lhe outra descida absurda.

Da pracinha de Honório Bicalho é só seguir a linha do trem para os últimos 10 km até Rio Acima. Trilha fácil, tranquila, com surpresas como uma antiga ponte de pedra, é o desfecho perfeito para um dia difícil, mas extremamente agradável.

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Estrada Real S01E10: Caeté a Sabará

Distância do dia: 36,38 km. Distância total: 398,88 km. Passos dados nesses primeiros dez dias: 504.570. 

Na linguagem dos caminhantes de longa distância nos Estados Unidos, “slackpacking” é um termo que significa caminhar sem a sua mochila. Pro pessoal mais puritano é preciso completar a trilha toda carregando tudo o que você precisa, o tempo todo. Para outros você tem que ir a pé do início ao fim. E se você deixar sua mochila de lado por alguns dias não compromete o êxito da sua jornada. No Caminho de Santiago muita gente “slackpack” mandando a mochila de uma cidade a outra de taxi. Na Appalachian Trail, em alguns pontos é possível andar um dia ou dois sem carregar o mochilão. Como passei a noite em casa resolvi negligência os 8 quilos da mochila pelos próximos dias. Ou seja: eu fiz slackpacking.

Quando cheguei ontem de surpresa Alê não pode acreditar. Nem Tati, nem Jade, nem Lis, nem Rick. Matei a saudade que já era grande e aproveitar pra me cuidar: fiz um escalda-pés, tratei as bolhas (já tenho uma meia dúzia, mas estão controladas. A unha 5 ainda resiste e a 7 agora ameaça cair) e pedi minha pizza predileta. Coisas simples que me fizeram falta na última semana.

Levantei às 5:30, mas como sempre acordei várias vezes antes. Deitei às 11h, mas às 2h já achava que era hora. E de novo às 4h. Quando finalmente chegou a hora tomei um espresso duplo (nada de chafé por hoje) e pedi um Uber.

Cheguei na rodoviária com 15 minutos de sobra e Jurandir me abordou na entrada do ônibus: “você tem um telefone? Liga a cobrar pra minha mulher e diz pra ela que Tô indo pra casa? O número é 6… Não. 68… Peraí.  75…” Ainda estava bêbado na noite anterior. Tinha saído de Caeté com o amigo Tinho pra uma noite de bebedeira em BH. Na saída pra Santa Luzia pararam num boteco, beberam todas e brigaram entre si. “Mas foi uma briga boa! Uma rinha de galos!”. Chegou a polícia e os dois foram dar um passeio de caburão. “Tinho foi na frente, mas eu ia lá na grade, igual passarinho”. Liguei pra dona Sônia e dei o recado. “Fala pra ele que vou estar esperando na rodoviária”, ela disse. Jurandir e Tinho desceram um ponto antes.

Peguei o ônibus às 6:3o levando o básico: boné, protetor solar, capa de chuva, celular, lenços umedecidos, meus bastões de caminhada, umas frutas secas, um litro de água e uma mochilinha de 10 litros. Estava leve, iria fazer os 35 quilômetros até Sabará e voltar de novo pra casa.

Eu já disse que a sinalização do Instituto Estrada Real é ineficiente, né? Aqueles totens grandes e caros, onde é impossível ler as informações sem parar e limpar a poeira. Em mal estado de conservação, muitas vezes encobertos por mato ou no chão. As planilhas difíceis de serem entendidas, e quem quiser ver as informações totais tem que abrir três arquivos: a planilha, com as distâncias entre os totens; o guia, com informações sobre as cidades e pontos de alimentação, hospedagem e carimbo; e a planta de altimetria. Um suplício. Mas o que era ruim no Caminho dos Diamantes fica ainda pior no Sabarabuçu. Como se fosse o primo pobre dos quatro caminhos, tem ainda a desvantagem de passar por cidades relativamente grandes, como Caeté e Sabará. Nestas, os totens vão até o perímetro urbano. Dali até a região central, onde estão muitas das pousadas e atrações, é um salve-se quem puder. Você tem que pedir informação, usar seu aplicativo preferido ou simplesmente seguir o fluxo. E esse deslocamento pode durar uma hora ou mais.

Ontem em Caeté o último totem era tão distante do ponto final que achei melhor pegar o ônibus pra BH e carimbar o passaporte hoje pela manhã. E hoje, saindo da belíssima matriz, já tinha gastado uma hora e andado 5 quilômetros quando cheguei ao primeiro totem, às nove.

A partir daí o passeio foi tranquilo. Com os pés descansados, com o dia nublado e sem o peso da mochila, já tinha chegado ao distrito de Morro Vermelho às 10h. Parei pra conversar com dois ciclistas (obrigado pela banana) e segui rumo a Sabará. O passeio é agradável, com um rio correndo quase todo tempo à sua direita, paredes de samambaias à esquerda e barulhos de mata e trem (se você abstrair que são vagões e vagões de minério sendo tirados das nossas montanhas fica mais agradável).

Só que o trecho perdeu uma parte de trilha. E a partir de determinado ponto os marcos param de existir. Não que fizessem tanta falta (é só seguir a estrada principal) mas o descaso incomoda. O que ajuda são as marcações do CRER, o Caminho Religioso da Estrada Real, que usa totens muito mais simples e práticos. Na chegada à Sabará, outra caminhada sem orientação até o Teatro Municipal, ponto do carimbo.

E dali foi só descer e pegar um circular até BH, pra mais uma noite em casa, com família e escalda-pés.

Estrada Real S01E09: Cocais a Caeté

Distância do Dia: 45,06 km. Distância total: 362,5 km. Surpresas do dia: várias.

Já era noite quando liguei pra Pousada das Cores querendo saber se tinha um quarto disponível. O Éverton atendeu meio desconfiado mas mesmo assim me passou a direção. Mesmo antes de chegar ao quarto já havia gostado do lugar. Do lado de fora a casa no final da rua, com mesas na varanda, chamava atenção pelos detalhes. Dentro, a medida que Éverton ia me guiando, conseguia distinguir esculturas no jardim, um caramanchão e mais coisas que deixavam o lugar singular. Quando passamos por uma sala de estar, ele comentou: “TV se quiser é aqui. No quarto não tem”. Falei que não ligava TV a uma semana. Na portas dos quartos, de paredes brancas e portas e janelas pintadas de cores diferentes – o meu era o goiaba – Éverton continuava o papo que vínhamos tendo. Contava que fez o Caminho de Santiago, “e lá, em alguns lugares, você deita no colchão, daqueles de molas antigos, e sua bunda vai no chão”. Morou na Espanha quando estudava, fez jornalismo, trabalhou no Estado de Minas (“o Roberto Drummond era meu editor na cultura”), no Palácio das Artes, mas resolveu morar no meio do nada: “no meio do nada acham os meus amigos, né? Eu não acho”. E ficamos ali na conversa, eu ainda de pé, querendo tomar um banho, mas o papo rendia. Até que perguntei se tinha algo pra comer na cidade. “Você gosta de caldo? Se for um caldo dá pra fazer. E não sou modesto não: sou cozinheiro de mão cheia”, ele disse. Gosto de caldo, angu, quiabo, jiló, o que tiver eu como. “Ah, então você é a pessoa certa pra fazer a Estrada Real. Desce às 7 que faço pra você”. Mas 7 já são, Éverton (ficamos uma hora de conversa). “7:30 então”.

Desci e consegui me perder entre meu quarto e a cozinha (como mesmo que estou fazendo a Estrada Real sozinho?). Cheguei uns minutos depois do combinado e Éverton estava acabando de rapar a panela. “Você já quer comer? Pega esse prato aí então. E essa outra vasilha”. Fomos pra um salão enorme, pra pelo menos umas 120 pessoas. E ficamos só nós dois ali, sentados quase frente à frente, cada um com seu caldo de mandioca (ele estava certo: é mesmo cozinheiro de mão cheia) e eu ainda com três pães de inhame, que Éverton também quem fez. “Comi desse pão o dia inteiro. Tô aqui só pra te fazer companhia”. No tempo que devorei três pratos enormes do caldo, falamos sobre mais uma pancada de assuntos. Éverton disse que foi seminarista (“mas hoje não tenho religião, nem time de futebol, nem partido político e sou assexuado”) e que montou a pousada com a ideia de fazer um mosteiro. No terreno tem também uma igreja pra 100 pessoas e dos tempos de seminário guarda amizades com padres e freiras. “As freiras veem aqui e eu pergunto: irmã, quer uma cervejinha? Elas acham que não vai pegar bem então eu falo: preocupa não! Eu boto num bule esmaltado e a gente bebe na xícara. Se chegar alguém a gente fala que é chá. E fico aqui tomando o chá das cinco com as freiras”. Eu caio na gargalhada e ele conta vários outros causos, impublicáveis (porque vou deixar a surpresa pro livro que ele mesmo está escrevendo).

Se não bastasse, ele ainda fábrica licores e vinagres de vários sabores. “Aliás, também estudo a peidologia”, completa. E já emenda: “e doce, você gosta? Hoje tem de mamão, de banana com chocolate e goiaba com banana. E sorvete? Os sorvetes a gente faz aqui são excelentes. Tem dê araticum e abacate. Experimenta”. Me ganhou na simpatia, na conversa e no estômago. Volto a Cocais só pra passar mais um dia com ele.

E na hora de ir ver o jornal, assiste na companhia de Joãozinho e Mariazinha, os dois novos habitantes sortudos do lugar: “devia existir um chef pra comida de cachorro né? Ração é ruim demais. Os meus amiga passam bem. Compro fígado de galinha e misturo na ração deles. Eles ficam olhando pra mim pensando assim: ‘nossa, esse meu humano de estimação cozinha tão bem'”. Subi pro quarto ainda cheio de admiração.

Ele havia deixado a chave do portão pra eu sair. Ainda não eram seis quando deixei a pousada, mas só cheguei ao primeiro marco do Caminho de Sabarabuçu uma hora depois. Na noite anterior, quando cheguei, confesso que não havia seguido os últimos marcos: me guiei pela sugestão do Google Maps. Agora pela manhã, querendo fazer a coisa certa, fui acompanhar a (eu já disse isso?) confusa planilha do Instituto. E dei uma volta danada por ruas sem marcos até chegar onde queria.

Deixar os Diamantes e começar o Sabarabuçu era dúvida até ontem. Tudo por causa do crime ambiental em Bento Rodrigues. Não fosse isso, continuar por Barão de Cocais, Santa Bárbara, Catas Altas, Santa Rita Durão, Camargos, Mariana e Ouro Preto era o caminho mais sensato (e rápido). Com a interdirão do trecho entre Santa Rita e Camargos, onde estava Bento Rodrigues, a opção seria ou ir pelo asfalto ou pegar o Sabarabuçu em Cocais, que foi o que fiz. Ainda sobre o crime, meus planos originais eram fazer o Caminho dos Diamantes, só ele, no final de outubro e início de novembro do ano passado. Como apareceu uma viagem pra China a trabalho (como recusar?) na mesma época, adiei a caminhada. Pela minha programação original, faria o trecho de Santa Rita a Camargos no dia 5 de novembro. O dia que a represa se rompeu.

Menos de uma hora depois de cruzar o primeiro março, estão lá, de novo, os eucaliptos. Menor que o do dia anterior, cruzei a plantação com o mesmo nervosismo.

O sol demorava a surgir e era fácil andar num bom ritmo pela manhã. Passei pelo distrito de Antonio Carlos e segui contornando o Morro da Piedade. Faltando uns 10 quilômetros pro final, o tempo está escuro e sinto as primeiras horas. Paro, tiro a mochila, pego a capa e quando boto a mochila de novo ouço um zumbido. Mais rápido que eu, o marimbondo/vespa/abelha/sei-lá-o-que de Itú (o bicho era quase do tamanho de um beija-flor, juro!) fica o ferrão na minha nuca. Ainda agora, seis horas depois do ocorrido, sinto meu pescoço dolorido). A chuva, coitada, nunca veio.

“Caeté é do lado de Belo Horizonte”. Ficava pensando isso a medida que me aproximava. Mas só quando passei na porta da rodoviária e vi um ônibus lotação (executivo, mas lotação) me dei conta do quão perto as duas cidades estão (são 45 km, a mesma distância que tinha andado). Me aproximei e perguntei pro motorista: “esse ônibus sai que horas?” 4:10 . “E demora quanto tempo a viagem?” 90 minutos. “É o primeiro ônibus de lá pra cá que horas sai?” 6:30. Não tive dúvidas: entrei no busão e vim passar a noite na melhor pousada de todas: a minha casa.

Estrada Real S01E08: Ipoema a Cocais

Distância do Dia: 42,08 km. Distância Total: 317,44 km. Carros que passaram por mim na estrada de terra: 0. 

Ronei havia dito na noite anterior que café da manhã só a partir das 8h. Mas como eu tinha que resolver o problema de dinheiro em Bom Jesus do Amparo, e banco lá só abre às 11 horas, não adiantava eu sair cedo. Então me dei quase duas horas a mais de sono, acordei às sete e foi comer meu desjejum. Ronei chegou logo depois, tomando achocolatado e comendo pão. Começamos a conversa e logo estávamos falando de música, leis de incentivo, projetos, financiamento coletivo e outros assuntos que me cativam. Ele é fotógrafo, tem dois livros lançados, e obras suas decoram as paredes da pousada. Temos vários conhecidos em comum, gente de banda e produção. O Ramos chegou logo depois e contou emocionado do show do Steve Vai que ele foi, fardado. “Olha aqui, até arrepio!”. Magro, alto, de fala mansa e cativante, Ronei contava também das caminhadas de três ou quatro dias que faz pela região. Contei do projeto AT e fiquei de entrar em contato pra gente fazer alguma caminhada na região.

Com o sol já quente peguei o asfalto pros 14 quilômetros até Bom Jesus do Amparo. Com exceção da bela fazenda Cabo de Agosto, citada por Saint-Hilaire no seu relato do século XIX, nada chama atenção.

Já pouco depois das onze, quando acaba de tirar a foto da igreja em Bom Jesus, Fernando chegou. “Até que você andou bem! Oi, eu sou o Fernando”. Ronei já tinha me falado dele. Disse que divulgava mais a Estrada Real que o próprio Instituto. Batemos papo, trocamos fotos e ele quis saber se eu tinha um tempinho pra escrever no livro de registros que mantém. Na pequena e organizado biblioteca municipal onde trabalha, ele me mostra orgulhoso os quatro livros já completos e o outro pela metade. “Só escreve na página de cá que nessa eu vou colar as fotos”. De sorriso largo e sincero, conta que recolhe doações de livros pra biblioteca. “O editor da Martins Fontes fez a Estrada e eu fiquei esperando ele ali na ponte, que eu sabia que ele tinha que passar. Perguntei pra ele qual livro de caminhada era fundamental. Ele disse que era o Senhor dos Anéis, que eles lançaram. Mas aqui não tem. Então ele mandou pra gente”, conta sorrindo. Fernando fala da cidade, das serras, da Estrada, e em cada frase dá pra sentir o entusiasmo e a paixão dele pelo assunto.  Dá vontade de ficar horas.

Mas eu tenho coisas mais chatas pra fazer: vou no banco, saco dinheiro suficiente para as despesas até a próxima agência e caminho com Fernando até a porta da sua casa. Já são 12:30. “Eu só não recomendo ninguém a sair daqui depois de 13:30, por causa da região dos eucaliptos. Nem de bicicleta”.

A região dos eucaliptos… O guia da instituto já alertava, que era preciso atenção  nesse próximo trecho até Cocais. O que nem o Guia nem o Fernando nem ninguém que eu li relato da Estrada Real fala é que esse é o trecho menos divertido da viagem. Nem o fato de um tatu ter cruzado a minha frente, nem a siriema na estrada, nem o fato de um bando de macacos ficarem fazendo algazarra, como que tirando sarro da minha cara, melhoraram meu humor. Primeiro porque a paisagem não tem nada demais, se comparado com os dias anteriores. Segundo, porque parte do trecho é feito em asfalto e é preciso cruzar uma rodovia movimentada e mesmo depois de pegar a estrada de chão você fica mais de uma hora ouvindo o zunido de carros e caminhões cruzando a rodovia ao longe. E quando vê esta cruzando a mesma rodovia, indo em direção a um posto de gasolina, sem marcos de sinalização.

Por fim, quando finalmente fica longe do barulho dos motores, você entra na plantação de eucaliptos. Pra mim, plantações de eucaliptos estão no mesmo nível de milharais para cenários perfeitos para filmes de suspense, terror e ficção científica. E você caminha pela porra da plantação de eucaliptos por pelo menos DUAS horas. E a marcação é falha, e o visual é o monótono é sombrio, mesmo durante o dia. E não passa uma alma viva (nem morta) e eu fiquei tenso. A ponto das juntas dos meus dedos da mão doerem. E quando você acha que está acabando, que você vê um riacho e um pouco de vegetação normal, você quebra pra direita e aí que a coisa complica, com eucaliptos de 20 metros te cercando em todas as direções. E sol quase se pondo, e eu sem saber se realmente estava no caminho certo, com a boca seca, mas não parava pra beber água de jeito nenhum. Ah, ali não.

Quando finalmente saí do labirinto, parei, tomei um gole d’Água e chorei. Agora até Cocais seria só mais uma hora.

Entrei na área urbana já escurecendo, com a lua no céu e a lanterna do celular iluminando o caminho.

Estrada Real S01E07: Itambé do Mato Dentro a Ipoema

Distância do Dia: 40,87 km. Distância Total: 275,36 km. Idade dos meus novos amigos: 84 e 89 anos. 

Quando ele subiu as escadas do decadente Hotel Estrela (acho que o nome no singular é devido à classificação do estabelecimento) achei que estivesse bêbado. Subiu se agarrando no corrimão e no último degrau quase rolou escada abaixo. Chegou e já foi puxando uma cadeira pra minha mesa na varanda, deixando a capanga na porta da recepção. Chapéu, camisa azul com estampa de cavalo, jeans, botas, só podia estar vindo de cavalgada. “Os companheiros alugaram uma casa mas eu falei que ia ficar no hotel. Eles ficam até tarde bebendo, falando, e eu quero descansar. Fiz 84 anos essa semana, tamo vino de cavalo lá de Itabira”. Para quem não visualizou o mapa, são mais de 50 km.

A cavalgada do dia era tranquila. Desde 2006 seu Eugênio já fez a Estrada Real inteira, de Diamantina a Parati, três vezes, sempre no lombo do cavalo. “Ah, é bão demais né? Ultima vez que fui no médico, não tava ouvindo direito, achei que fosse o aparelho mas era só cera no ouvido, ele chamou a minha filha e falou pra ela não deixar eu ficar andando de cavalo assim não. Capaz!”. Seu Eugênio trabalhou 33 anos, sempre na área administrativa: “de início a empresa tinha uma armazém, eu que cuidava. Depois fui pro almoxarifado. E depois pro hospital. Ih, menino, eu poderia ter ficado rico demais se eu quisesse. A gente chateado vendo as notícias de corrupção, se eu te contasse o que eu já vi…” E conta caso, do trabalhos (foi vereador e candidato a prefeito), dos filhos, das cavalgadas. “O povo me chama de vovô das Cavalgadas”, comenta.

Aí se dá conta que ainda não tinha de fato chegado: “acho melhor eu ir tomar um banho né?”. Foi e voltou, camisa limpa com estampa de outra cavalgada. E da-lhe mais história. “Eu lembro de tudo, tudinho, desde que eu tinha 7 anos. Tô escrevendo um livro da minha vida. O moço que tá fazendo a revisão disse que nunca viu história tão bonita”. Antes de ir dormir, seu Eugênio me dá a receita da sua energia: “quando você começar a sentir que vai ficar doente, toma uma dose de conhaque Dreher. Mas não toma igual cachaça não. Toma devagarinho…”

Fui pro quarto querendo uma dose de Dreher: estava com meia dúzia de bolhas em cada pé e a unha 5 – conto as unhas da esquerda pra direita. Então a 5 é a unha do dedão esquerdo – estufada, com um inchaço no entorno que já estava começando a incomodar. Decidi que era hora de drenar. A primeira parte foi fácil: enfiei a agulha na parte de cima, perto da cutícula. Depois no canto esquerdo. Enfiava, passava a linha, e ia tirando o líquido. Aí veio a parte chata: peguei a agulha e enfiei por baixo, entre a carne e a unha, já que ela estava alta, quase saltando do dedo. Isso, vocês sabem, é uma forma de tortura. Eu respirava pelo nariz e soltava pela boca, rapidamente. Apertei a unha e vi o líquido branco escorrendo pela linha.

A drenagem deu resultado. O dedo já não incomodava pela manhã. Como o Hotel e Restaurante Estrela não servia café da manhã (nem jantar na noite anterior), tomei um suco de latinha que tinha, comi uma banana e saí pra rua. A planilha dizia 16 km pelo asfalto até Senhora do Carmo e depois outros 16 por terra até Ipoema. Mais uma vez ignorei o guia: ao invés de sair reto, pegando o asfalto, subi em direção à Cabeça de Boi e quebrei à esquerda. Foi andar uma hora até chegar na entrada da Cachoeira Vitória. Me embrenhei no mato por mais um tempo só pra ver de perto os quase 80 metros de queda.

De volta ao caminho, ia admirando a sequência de serras. Lobo, Linhares, Alves… Tava na região conhecida por Conquista. Numa das placas a indicação era Tiá, mas ninguém me confirmou o nome.

Numa das paradas pra fotos, seu Alberico veio subindo no seu burro. Cumprimentou e também desatou a falar. E quanto mais eu perguntava mais ele entrava nos assuntos. Deu nome pras serras todas, falou das várias cachoeiras no entorno e disse que o nome do lugar era mesmo Conquista, por causa do ribeirão. Fiquei curioso com sua idade. “Eu nasci em 1927. Tenho 89 anos. É. Nascido e criado aqui, mas morei muito tempo fora. É. Pra cá eu voltei quando casei, em 54. É. Morei em Belo Horizonte também. Ih, você nem sonhava em nascer. Adivinha quando eu mudei pra Belo Horizonte?” Deve ter sido antes de 54… 50?, chutei. “1942. É. Aquilo ali não tinha nem ônibus, era só bonde e transporte no lombo do burro. É”. E ia afirmando depois de cada frase, como que para garantir que a memória não iria falhar. Seu Alberico trabalhava em uma fábrica de trens, montando vagões. Eram preciso 6 homens pra carregar uma roda. “Eu trabalhava ali ainda quando o Getúlio Vargas morreu. Ele morreu em 54. É. 24 de agosto de 54. Quando ele morreu fechou tudo. A gente tava trabalhando ainda quando veio alguém perguntar se a gente não tava sabendo. ‘Getúlio Vargas morreu, mas já vão colocar outro no lugar'”. Nessa hora passa um caminhão carregado de gado. Seu Agripino cumprimenta o motorista e volta pro caso. “No mesmo dia chegou um caminhão com soldado, do tamanho desse aí, carregadinho, eles tudo com fuzil na mão. Mandaram a gente tudo largar as ferramentas. Achei foi bão: fiquei três dias em casa”.

Seu Agripino diz que também lembra de tudo, “deus de que eu tinha 10 anos”. Aos 89 ainda vai na feira em Itabira toda semana. De burro. Vende o que planta “de tudo um pouco: mandioca, inhame, banana” e compra o que precisa. Quando despedimos, eu já com lágrimas nos olhos de emoção, ele me convida a vir uma outra hora, pra gente conversar um pouco mais e ele contar outras histórias.

Quando cheguei em Senhora do Carmo já era meio dia, o sol queimando, eu cansado. A ideia seria ir até Ipoema também por um roteiro alternativo, passando pela Vila de Serra dos Alves , a cachoeira Boa Vista é o Parque Estadual Mata do Limeiro, o que acrescentaria umas 2 horas no percurso. Mas eu estava tão cansado que optei pelo caminho demarcado. Fui mecânico, robótico, movendo as pernas sem motivação só esperando chegar na cidade. A cada parada pra água – com o calor do início da tarde as paradas eram frequentes – eu voltava a caminhar como o Kevin Spacey no final de Os Suspeitos: primeiro meio torno, cambaleando, arrastando as pernas, e só depois me acertava e pegava o ritmo.

Quando cheguei a Ipoema liguei pra uma das pousadas, a Quadrado. Aceita cartão? Aceita. Tem vaga? Tem. Então tô indo.

Nem do portão passei, quando o dono jogou por água abaixo os 500 anos de hospitalidade mineira. “Teve um mal entendido. A gente não abre hoje”. E na minha tentativa de mostra que isso acontece mas ele tem que informar melhor os funcionários, me deu as costas e saiu. Males que vem pra bem: tô aqui na muito mais charmosa e barata Tropeiro Real. Só aceita dinheiro, mas o Ronei garantiu que em Bom Jesus do Amparo, meu próximo destino, tem agência do meu banco.

Estrada Real S01E06: Morro do Pilar a Itambé do Mato Dentro

Distância do Dia: 38,36 km. Distância Total: 234,49 km. Objetos que perdi: 1.


Quando falei ontem com o Paulo Henrique que iria sair antes das 6 ele insistiu para que eu ficasse pelo menos até 6:15, que ele fazia questão de preparar o café da manhã. O Paulo é o dono da Pousada Vovô Juca, em Morro do Pilar. Além de ter o chuveiro mais quente da viagem até agora (daqueles que você tem que deixar no modo verão, senão não aguenta), tem uma localização excelente: ao lado da igreja.

Quando cheguei ele não estava. Subi as escadas (sempre um suplício) e quando perguntei o preço da diária quase caí pra trás. A atendente me disse que não aceitava cartão, mas que assim que o dono chegasse ele daria um jeito, eu não precisaria preocupar. Wi-Fi tem, cama confortável também, além do chuveiro quente que ela já havia dito, então pra mim tá ok. Antes de entrar pro quarto perguntei de novo o preço, vai que eu tinha escutado errado. “35 reais”, ela respondeu.

Eu estava com um problemão. Em Conceição não tinha agência do meu banco. Em Morro também não. E nem nas próximas 3 ou 4 cidades. Eu tinha um dinheirinho comigo, mas precisava sacar mais ou pagar as próximas despesas com cartão. Só que em muitas dessas localidades, lugar que aceita cartão é raro. Meu plano a era convencer o Paulo a me fazer uma jogada: eu pagava a mais, ele descontava as taxas e me devolvia o dinheiro. O plano b era transferir da minha conta pra dele. Quando o encontrei pela primeira vez, Paulo Henrique já veio me contando a história do Morro, as cachoeiras, as festas populares – incluindo o Tutu da Madrugada, ideia que iria apropriar fácil se tivesse um bar. Quando comentei a história do dinheiro, me chamou pra ir até uma loja de material de construção e contou pro balconista a história. “O senhor precisa de quanto?”. Cem reais no meu bolso, a pousada paga e mais 5 reais de taxa.

Na volta, Paulo Henrique me contou sua história. Nasceu no Morro do Pilar, mas morou em BH por nove anos. Foi tentar medicina, “como se diz, por incentivo do meu pai”. Durante cinco anos passou na primeira etapa e bombou na segunda. Encheu o saco, voltou pra sua terra natal e montou um comércio. No início dos anos 2000, com a mineração em alta na região, montou um supermercado e alugou cinco casas, que usava como pousada. Até que teve um infarto. Num domingo, começou a sentir os sintomas. O médico da cidade mandou ele pra casa, era stress. Até que um amigo da época de estudante, agora médico residente, “resolveu, do nada, vir pra cá num domingo. Ele botou um short e uma camiseta e veio. Quando me viu mandou direto pro hospital”.

Paulo fechou as casas, os supermercados e deixou só a pousada do Vovô Juca. Mas tá construindo outra, grande, na entrada da cidade. O pagamento em cartão na loja de materiais é pra cobrir o pendura dele.

No café da manhã, com aquela mesa com uma incrível variedade de biscoitos e pães, ele me conta que ele e a esposa que fazem tudo. Não vendem pra fora: é só pra pousada. “E como você aprendeu?” Na época do supermercado Paulo Henrique tinha um padeiro que faltava todo dia posterior a alguma festa. Era ter festa e a cidade ficar sem pão. Inconformado, mandou o sujeito embora, fez um curso básico e começou a pegar dicas com as quitandeiras antigas da cidade. Então biscoito tal só pode mexer pra um lado, o outro não pode pegar vento, o terceiro tem que mudar um ingrediente, e cada um é melhor que o outro.

A estrada até Itambé do Mato Dentro é longa (35 km) e tem três subidas extensas, daquelas de 2 ou 3 quilômetros cada. Mas esse não é o principal problema. Durante todo o percurso a terreno é ou pedra (soltas, de todos os tamanhos) ou poeira, que chegava a encobrir o meu tênis por completo quando pisava. Foi numa dessas que perdi o disco de um dos bastões. Os dois terrenos deixam a caminhada muito mais complicada. É preciso mais concentração, atenção onde pisar e esforço físico.

No início o caminho sai margeando o rio Peixe, de água escura. Pouco depois dessa parte, olho pro lados vejo um troço jogado na beira da estrada. Pedaços de pano branco e azul se espalhando por alguns metros. Chego mais perto e dou uma fuçada com o bastão: são roupas de recém-nascidos. Um enxoval completo, já sujo da terra. Vou pegando um por um, dando uma sacodida e colocando em uma das minhas sacolas reservas. Pode ter caído do caminhão de mudança, pode ter caído da moto ou alguém pode ter perdido o bebê e jogado o enxoval da criança fora, desgosto. Boto mochila, com a intenção de doar na igreja em Itambé. Depois da segunda subida, faltando uns 10 km pra chegar, o que domina a visão é a Serra do Cipó e a Serra do Intendente, majestosas, se esticando até aonde a vista alcança. E eu já estou um bagaço. O terreno, o calor e o peso extra foram me cansando mais que o normal.

Foram precisos mais de 8 horas pra chegar a Itambé. A igreja estava fechada, e levo o enxoval pro hotel. Aqui tive que colocar meu plano B em ação: explico a situação pra Tatiana, que me passa a conta pra transferência. E conto do enxoval: ela diz que conhece uma moça que mora na roça e está grávida. Fica com as peças pra lavar e levar pra ela.

Estrada Real S01E05: Conceição do Mato Dentro a Morro do Pilar

Distância do Dia: 29,69 km. Distância Total: 197,13 km. Unhas nos pés: 9,5. 

Exceto pelo trecho inicial, uns 3 quilômetros de subida, no asfalto, sem acostamento, o dia seria tranquilo. Nada muito insano em distância – menos de 30 km – e nem altimetria. Era sair de Conceição, penar um pouco no asfalto e pegar uma estrada de terra quase sem movimento (quem vai de uma cidade a outra de carro prefere pegar as MGs 010 e 232) e que corta trechos de mata fechada.

Sair de Conceição do Mato Dentro foi um alívio. Mais do que os prédios e igrejas centenários, mais que o pastel de angu, mais do que as reformas que transformaram a cidade num canteiro de obras, o que chama realmente a atenção na cidade são os inúmeros carros, ônibus, caminhões e caminhonetes identificado com letras e números das mineradoras. É triste saber que aqui do lado – pior, que aqui em volta – estão explodindo, escavando, revirando, destruindo tudo. Se bobear já já transformam a cachoeira do Tabuleiro em minério.

Comi um pão de queijo na padaria em frente à pousada e pouco depois das 6h já estava na estrada. Assim como nós anteriores, o clima era quente, mas nuvens cobriam o céu. Logo depois de entrar na terra cruzo o caminho com um senhor carregando um guarda-chuva. “Bom dia! Acha que hoje chove?” “Uai, tô ino lá pra roça e já tá chuveno in Beloriozonte, São Paulo, Ridijanero, essa chuva deve de chegar aqui hoje ainda. E ficá lá na roça na chuva num é bão não…”

E fomos, cada um pro seu lado, pensando se chove ou não, tiro a capa de chuva ou deixa, esse tipo de dúvida que acompanha quem está na estrada.

Ainda não tinha dado 7:30 quando vi o Dedé subindo a estrada, tocando seus gados: uma vaca, três bezerros. Saí de lado pra deixar, mas ele já foi abrindo a cerca e tocando os bichos pra dentro. “Hora de botar a criação pra pastar?”. É… “E que horas você busca de volta?” E sem responder, parecendo que precisava conversar e se abrir com alguém, ele começou a contar o caso da vaca que perdeu. Na segunda, quase no mesmo horário que sai de Diamantina pra minha caminhada, Dedé veio de Conceição, onde mora, pra tirar leite, buscar as vacas pra pastar e dar comida pros três cachorros e dois gatos que moram na casinha que tá construindo. De noite as vacas ficam ali, de dia pastam no terreno do primo. Quando chegou viu uma das vacas no chão. “Até pensei que fosse onça, que aqui tem demais”. Não era. A vaca tinha sido morta com um corte no pescoço. Na anca da vaca faltam dois pedaços. Alguém tinha entrado no terreno à noite só pra roubar os contra-filés. A vaca estava prenha, com “um bezerrinho desse tamaninho dentro da barriga”. Dedé procurou a polícia, mas ninguém teve interesse. “A secretária que veio me fazer pergunta. Num foi o delegado não. Falou que era que eu investigar. Eu não, uai! Eu acho que eu sei quem foi. Agora Deus me perdoe, eu tenho mulher, tenho filho pequeno, mas se eu pego o cara que faz uma coisa dessa eu mato”. A única vaca adulta que ele tem agora é que dá o leite pro seu filho é seu sobrinho. “E eu, se tivesse mais vaca, não ia vender o leite não. Ia doar tudo pro hospital”.

Descemos juntos os poucos metros entre o pasto e a casa. Quando vi o carro dele, comentei que tinha visto ele passar mais cedo. “Te vi também. Nó, falei pra minha mulher. Se eu não tivesse que levar o leite eu queria era vir todo dia correndo de Conceição até aqui. Isso é bão demais!”.

Não deu uma hora desse encontro e eu parei pra tomar água quando chega o seu Zé montado num burro. “Bom dia!” “Bom dia. Uai, eu acho que eu já te vi ocê por aqui”. Seu Zé não foi o primeiro. Antes deles umas três pessoas juraram que está não é a primeira vez que faço a Estrada. Em Tapera um sujeito veio conversar comigo como se fossemos conhecidos. Jurava que eu já passado ali antes. 

José Sebastião do Nascimento, o seu Zé, tem 75 anos. Mora logo ali, na dívida de Conceição com Pilar, e tava indo no comércio comprar uns mantimentos, como disse. “Mas o senhor tá forte pra 75 anos!” “Ih, meu filho, tô nada. Minha língua ainda não tá boa. Tive um negócio aí chamado PCC. Me levaram pra Conceição e depois pra Diamantina. Fiquei um mês sem falar nada, nadinha. O cérebro comanda mas a língua não responde, sabe?” Perguntei se ele já tinha encontrado com muita gente fazendo a Estrada. “Ih, é gente demais. O povo vem de jipe, vem de bicicleta, vem a pé… Dia desses tinha uma mulher fazer a pé, vê se pode. Eu não tenho coragem de fazer um trem desses não”. Tem medo de que, seu Zé?, perguntei. “Tá doido, menino? Nesse comunismo todo que anda o Brasil?” Gargalhei. Não era minha função explicar que era bem isso. Quando despedi, ele perguntou meu nome. Jefferson, eu disse. “Jefson. Esse nome aí eu tenho escutado muito na televisão…”

Na divisa de Conceição e Morro do Pilar, onde seu Zé mora, passa o rio Santo Antônio. Perto da ponte tem uma formação rochosa linda, com uma prainha em baixo, emoldurando o rio. E logo ali perto, do lado da estrada, uma construção antiga, encoberta pela mata, me chamou atenção. De pedra encaixada, deve ter fácil uns 200 anos, se não mais. E tá ali perdido, pura ruína.

Cheguei em Morro do Pilar logo depois de uma da tarde, depois de quase 30 km e 6,5 horas de caminhada. E agora, até amanhã, só descanso. O trecho daqui até Itambé, dizem, é o mais difícil da viagem.

(Sem Wi-Fi. Público mais fotos quanto tiver uma conexão melhor)