Estrada Real S01E08: Ipoema a Cocais

Distância do Dia: 42,08 km. Distância Total: 317,44 km. Carros que passaram por mim na estrada de terra: 0. 

Ronei havia dito na noite anterior que café da manhã só a partir das 8h. Mas como eu tinha que resolver o problema de dinheiro em Bom Jesus do Amparo, e banco lá só abre às 11 horas, não adiantava eu sair cedo. Então me dei quase duas horas a mais de sono, acordei às sete e foi comer meu desjejum. Ronei chegou logo depois, tomando achocolatado e comendo pão. Começamos a conversa e logo estávamos falando de música, leis de incentivo, projetos, financiamento coletivo e outros assuntos que me cativam. Ele é fotógrafo, tem dois livros lançados, e obras suas decoram as paredes da pousada. Temos vários conhecidos em comum, gente de banda e produção. O Ramos chegou logo depois e contou emocionado do show do Steve Vai que ele foi, fardado. “Olha aqui, até arrepio!”. Magro, alto, de fala mansa e cativante, Ronei contava também das caminhadas de três ou quatro dias que faz pela região. Contei do projeto AT e fiquei de entrar em contato pra gente fazer alguma caminhada na região.

Com o sol já quente peguei o asfalto pros 14 quilômetros até Bom Jesus do Amparo. Com exceção da bela fazenda Cabo de Agosto, citada por Saint-Hilaire no seu relato do século XIX, nada chama atenção.

Já pouco depois das onze, quando acaba de tirar a foto da igreja em Bom Jesus, Fernando chegou. “Até que você andou bem! Oi, eu sou o Fernando”. Ronei já tinha me falado dele. Disse que divulgava mais a Estrada Real que o próprio Instituto. Batemos papo, trocamos fotos e ele quis saber se eu tinha um tempinho pra escrever no livro de registros que mantém. Na pequena e organizado biblioteca municipal onde trabalha, ele me mostra orgulhoso os quatro livros já completos e o outro pela metade. “Só escreve na página de cá que nessa eu vou colar as fotos”. De sorriso largo e sincero, conta que recolhe doações de livros pra biblioteca. “O editor da Martins Fontes fez a Estrada e eu fiquei esperando ele ali na ponte, que eu sabia que ele tinha que passar. Perguntei pra ele qual livro de caminhada era fundamental. Ele disse que era o Senhor dos Anéis, que eles lançaram. Mas aqui não tem. Então ele mandou pra gente”, conta sorrindo. Fernando fala da cidade, das serras, da Estrada, e em cada frase dá pra sentir o entusiasmo e a paixão dele pelo assunto.  Dá vontade de ficar horas.

Mas eu tenho coisas mais chatas pra fazer: vou no banco, saco dinheiro suficiente para as despesas até a próxima agência e caminho com Fernando até a porta da sua casa. Já são 12:30. “Eu só não recomendo ninguém a sair daqui depois de 13:30, por causa da região dos eucaliptos. Nem de bicicleta”.

A região dos eucaliptos… O guia da instituto já alertava, que era preciso atenção  nesse próximo trecho até Cocais. O que nem o Guia nem o Fernando nem ninguém que eu li relato da Estrada Real fala é que esse é o trecho menos divertido da viagem. Nem o fato de um tatu ter cruzado a minha frente, nem a siriema na estrada, nem o fato de um bando de macacos ficarem fazendo algazarra, como que tirando sarro da minha cara, melhoraram meu humor. Primeiro porque a paisagem não tem nada demais, se comparado com os dias anteriores. Segundo, porque parte do trecho é feito em asfalto e é preciso cruzar uma rodovia movimentada e mesmo depois de pegar a estrada de chão você fica mais de uma hora ouvindo o zunido de carros e caminhões cruzando a rodovia ao longe. E quando vê esta cruzando a mesma rodovia, indo em direção a um posto de gasolina, sem marcos de sinalização.

Por fim, quando finalmente fica longe do barulho dos motores, você entra na plantação de eucaliptos. Pra mim, plantações de eucaliptos estão no mesmo nível de milharais para cenários perfeitos para filmes de suspense, terror e ficção científica. E você caminha pela porra da plantação de eucaliptos por pelo menos DUAS horas. E a marcação é falha, e o visual é o monótono é sombrio, mesmo durante o dia. E não passa uma alma viva (nem morta) e eu fiquei tenso. A ponto das juntas dos meus dedos da mão doerem. E quando você acha que está acabando, que você vê um riacho e um pouco de vegetação normal, você quebra pra direita e aí que a coisa complica, com eucaliptos de 20 metros te cercando em todas as direções. E sol quase se pondo, e eu sem saber se realmente estava no caminho certo, com a boca seca, mas não parava pra beber água de jeito nenhum. Ah, ali não.

Quando finalmente saí do labirinto, parei, tomei um gole d’Água e chorei. Agora até Cocais seria só mais uma hora.

Entrei na área urbana já escurecendo, com a lua no céu e a lanterna do celular iluminando o caminho.

Estrada Real S01E07: Itambé do Mato Dentro a Ipoema

Distância do Dia: 40,87 km. Distância Total: 275,36 km. Idade dos meus novos amigos: 84 e 89 anos. 

Quando ele subiu as escadas do decadente Hotel Estrela (acho que o nome no singular é devido à classificação do estabelecimento) achei que estivesse bêbado. Subiu se agarrando no corrimão e no último degrau quase rolou escada abaixo. Chegou e já foi puxando uma cadeira pra minha mesa na varanda, deixando a capanga na porta da recepção. Chapéu, camisa azul com estampa de cavalo, jeans, botas, só podia estar vindo de cavalgada. “Os companheiros alugaram uma casa mas eu falei que ia ficar no hotel. Eles ficam até tarde bebendo, falando, e eu quero descansar. Fiz 84 anos essa semana, tamo vino de cavalo lá de Itabira”. Para quem não visualizou o mapa, são mais de 50 km.

A cavalgada do dia era tranquila. Desde 2006 seu Eugênio já fez a Estrada Real inteira, de Diamantina a Parati, três vezes, sempre no lombo do cavalo. “Ah, é bão demais né? Ultima vez que fui no médico, não tava ouvindo direito, achei que fosse o aparelho mas era só cera no ouvido, ele chamou a minha filha e falou pra ela não deixar eu ficar andando de cavalo assim não. Capaz!”. Seu Eugênio trabalhou 33 anos, sempre na área administrativa: “de início a empresa tinha uma armazém, eu que cuidava. Depois fui pro almoxarifado. E depois pro hospital. Ih, menino, eu poderia ter ficado rico demais se eu quisesse. A gente chateado vendo as notícias de corrupção, se eu te contasse o que eu já vi…” E conta caso, do trabalhos (foi vereador e candidato a prefeito), dos filhos, das cavalgadas. “O povo me chama de vovô das Cavalgadas”, comenta.

Aí se dá conta que ainda não tinha de fato chegado: “acho melhor eu ir tomar um banho né?”. Foi e voltou, camisa limpa com estampa de outra cavalgada. E da-lhe mais história. “Eu lembro de tudo, tudinho, desde que eu tinha 7 anos. Tô escrevendo um livro da minha vida. O moço que tá fazendo a revisão disse que nunca viu história tão bonita”. Antes de ir dormir, seu Eugênio me dá a receita da sua energia: “quando você começar a sentir que vai ficar doente, toma uma dose de conhaque Dreher. Mas não toma igual cachaça não. Toma devagarinho…”

Fui pro quarto querendo uma dose de Dreher: estava com meia dúzia de bolhas em cada pé e a unha 5 – conto as unhas da esquerda pra direita. Então a 5 é a unha do dedão esquerdo – estufada, com um inchaço no entorno que já estava começando a incomodar. Decidi que era hora de drenar. A primeira parte foi fácil: enfiei a agulha na parte de cima, perto da cutícula. Depois no canto esquerdo. Enfiava, passava a linha, e ia tirando o líquido. Aí veio a parte chata: peguei a agulha e enfiei por baixo, entre a carne e a unha, já que ela estava alta, quase saltando do dedo. Isso, vocês sabem, é uma forma de tortura. Eu respirava pelo nariz e soltava pela boca, rapidamente. Apertei a unha e vi o líquido branco escorrendo pela linha.

A drenagem deu resultado. O dedo já não incomodava pela manhã. Como o Hotel e Restaurante Estrela não servia café da manhã (nem jantar na noite anterior), tomei um suco de latinha que tinha, comi uma banana e saí pra rua. A planilha dizia 16 km pelo asfalto até Senhora do Carmo e depois outros 16 por terra até Ipoema. Mais uma vez ignorei o guia: ao invés de sair reto, pegando o asfalto, subi em direção à Cabeça de Boi e quebrei à esquerda. Foi andar uma hora até chegar na entrada da Cachoeira Vitória. Me embrenhei no mato por mais um tempo só pra ver de perto os quase 80 metros de queda.

De volta ao caminho, ia admirando a sequência de serras. Lobo, Linhares, Alves… Tava na região conhecida por Conquista. Numa das placas a indicação era Tiá, mas ninguém me confirmou o nome.

Numa das paradas pra fotos, seu Alberico veio subindo no seu burro. Cumprimentou e também desatou a falar. E quanto mais eu perguntava mais ele entrava nos assuntos. Deu nome pras serras todas, falou das várias cachoeiras no entorno e disse que o nome do lugar era mesmo Conquista, por causa do ribeirão. Fiquei curioso com sua idade. “Eu nasci em 1927. Tenho 89 anos. É. Nascido e criado aqui, mas morei muito tempo fora. É. Pra cá eu voltei quando casei, em 54. É. Morei em Belo Horizonte também. Ih, você nem sonhava em nascer. Adivinha quando eu mudei pra Belo Horizonte?” Deve ter sido antes de 54… 50?, chutei. “1942. É. Aquilo ali não tinha nem ônibus, era só bonde e transporte no lombo do burro. É”. E ia afirmando depois de cada frase, como que para garantir que a memória não iria falhar. Seu Alberico trabalhava em uma fábrica de trens, montando vagões. Eram preciso 6 homens pra carregar uma roda. “Eu trabalhava ali ainda quando o Getúlio Vargas morreu. Ele morreu em 54. É. 24 de agosto de 54. Quando ele morreu fechou tudo. A gente tava trabalhando ainda quando veio alguém perguntar se a gente não tava sabendo. ‘Getúlio Vargas morreu, mas já vão colocar outro no lugar'”. Nessa hora passa um caminhão carregado de gado. Seu Agripino cumprimenta o motorista e volta pro caso. “No mesmo dia chegou um caminhão com soldado, do tamanho desse aí, carregadinho, eles tudo com fuzil na mão. Mandaram a gente tudo largar as ferramentas. Achei foi bão: fiquei três dias em casa”.

Seu Agripino diz que também lembra de tudo, “deus de que eu tinha 10 anos”. Aos 89 ainda vai na feira em Itabira toda semana. De burro. Vende o que planta “de tudo um pouco: mandioca, inhame, banana” e compra o que precisa. Quando despedimos, eu já com lágrimas nos olhos de emoção, ele me convida a vir uma outra hora, pra gente conversar um pouco mais e ele contar outras histórias.

Quando cheguei em Senhora do Carmo já era meio dia, o sol queimando, eu cansado. A ideia seria ir até Ipoema também por um roteiro alternativo, passando pela Vila de Serra dos Alves , a cachoeira Boa Vista é o Parque Estadual Mata do Limeiro, o que acrescentaria umas 2 horas no percurso. Mas eu estava tão cansado que optei pelo caminho demarcado. Fui mecânico, robótico, movendo as pernas sem motivação só esperando chegar na cidade. A cada parada pra água – com o calor do início da tarde as paradas eram frequentes – eu voltava a caminhar como o Kevin Spacey no final de Os Suspeitos: primeiro meio torno, cambaleando, arrastando as pernas, e só depois me acertava e pegava o ritmo.

Quando cheguei a Ipoema liguei pra uma das pousadas, a Quadrado. Aceita cartão? Aceita. Tem vaga? Tem. Então tô indo.

Nem do portão passei, quando o dono jogou por água abaixo os 500 anos de hospitalidade mineira. “Teve um mal entendido. A gente não abre hoje”. E na minha tentativa de mostra que isso acontece mas ele tem que informar melhor os funcionários, me deu as costas e saiu. Males que vem pra bem: tô aqui na muito mais charmosa e barata Tropeiro Real. Só aceita dinheiro, mas o Ronei garantiu que em Bom Jesus do Amparo, meu próximo destino, tem agência do meu banco.

Estrada Real S01E06: Morro do Pilar a Itambé do Mato Dentro

Distância do Dia: 38,36 km. Distância Total: 234,49 km. Objetos que perdi: 1.


Quando falei ontem com o Paulo Henrique que iria sair antes das 6 ele insistiu para que eu ficasse pelo menos até 6:15, que ele fazia questão de preparar o café da manhã. O Paulo é o dono da Pousada Vovô Juca, em Morro do Pilar. Além de ter o chuveiro mais quente da viagem até agora (daqueles que você tem que deixar no modo verão, senão não aguenta), tem uma localização excelente: ao lado da igreja.

Quando cheguei ele não estava. Subi as escadas (sempre um suplício) e quando perguntei o preço da diária quase caí pra trás. A atendente me disse que não aceitava cartão, mas que assim que o dono chegasse ele daria um jeito, eu não precisaria preocupar. Wi-Fi tem, cama confortável também, além do chuveiro quente que ela já havia dito, então pra mim tá ok. Antes de entrar pro quarto perguntei de novo o preço, vai que eu tinha escutado errado. “35 reais”, ela respondeu.

Eu estava com um problemão. Em Conceição não tinha agência do meu banco. Em Morro também não. E nem nas próximas 3 ou 4 cidades. Eu tinha um dinheirinho comigo, mas precisava sacar mais ou pagar as próximas despesas com cartão. Só que em muitas dessas localidades, lugar que aceita cartão é raro. Meu plano a era convencer o Paulo a me fazer uma jogada: eu pagava a mais, ele descontava as taxas e me devolvia o dinheiro. O plano b era transferir da minha conta pra dele. Quando o encontrei pela primeira vez, Paulo Henrique já veio me contando a história do Morro, as cachoeiras, as festas populares – incluindo o Tutu da Madrugada, ideia que iria apropriar fácil se tivesse um bar. Quando comentei a história do dinheiro, me chamou pra ir até uma loja de material de construção e contou pro balconista a história. “O senhor precisa de quanto?”. Cem reais no meu bolso, a pousada paga e mais 5 reais de taxa.

Na volta, Paulo Henrique me contou sua história. Nasceu no Morro do Pilar, mas morou em BH por nove anos. Foi tentar medicina, “como se diz, por incentivo do meu pai”. Durante cinco anos passou na primeira etapa e bombou na segunda. Encheu o saco, voltou pra sua terra natal e montou um comércio. No início dos anos 2000, com a mineração em alta na região, montou um supermercado e alugou cinco casas, que usava como pousada. Até que teve um infarto. Num domingo, começou a sentir os sintomas. O médico da cidade mandou ele pra casa, era stress. Até que um amigo da época de estudante, agora médico residente, “resolveu, do nada, vir pra cá num domingo. Ele botou um short e uma camiseta e veio. Quando me viu mandou direto pro hospital”.

Paulo fechou as casas, os supermercados e deixou só a pousada do Vovô Juca. Mas tá construindo outra, grande, na entrada da cidade. O pagamento em cartão na loja de materiais é pra cobrir o pendura dele.

No café da manhã, com aquela mesa com uma incrível variedade de biscoitos e pães, ele me conta que ele e a esposa que fazem tudo. Não vendem pra fora: é só pra pousada. “E como você aprendeu?” Na época do supermercado Paulo Henrique tinha um padeiro que faltava todo dia posterior a alguma festa. Era ter festa e a cidade ficar sem pão. Inconformado, mandou o sujeito embora, fez um curso básico e começou a pegar dicas com as quitandeiras antigas da cidade. Então biscoito tal só pode mexer pra um lado, o outro não pode pegar vento, o terceiro tem que mudar um ingrediente, e cada um é melhor que o outro.

A estrada até Itambé do Mato Dentro é longa (35 km) e tem três subidas extensas, daquelas de 2 ou 3 quilômetros cada. Mas esse não é o principal problema. Durante todo o percurso a terreno é ou pedra (soltas, de todos os tamanhos) ou poeira, que chegava a encobrir o meu tênis por completo quando pisava. Foi numa dessas que perdi o disco de um dos bastões. Os dois terrenos deixam a caminhada muito mais complicada. É preciso mais concentração, atenção onde pisar e esforço físico.

No início o caminho sai margeando o rio Peixe, de água escura. Pouco depois dessa parte, olho pro lados vejo um troço jogado na beira da estrada. Pedaços de pano branco e azul se espalhando por alguns metros. Chego mais perto e dou uma fuçada com o bastão: são roupas de recém-nascidos. Um enxoval completo, já sujo da terra. Vou pegando um por um, dando uma sacodida e colocando em uma das minhas sacolas reservas. Pode ter caído do caminhão de mudança, pode ter caído da moto ou alguém pode ter perdido o bebê e jogado o enxoval da criança fora, desgosto. Boto mochila, com a intenção de doar na igreja em Itambé. Depois da segunda subida, faltando uns 10 km pra chegar, o que domina a visão é a Serra do Cipó e a Serra do Intendente, majestosas, se esticando até aonde a vista alcança. E eu já estou um bagaço. O terreno, o calor e o peso extra foram me cansando mais que o normal.

Foram precisos mais de 8 horas pra chegar a Itambé. A igreja estava fechada, e levo o enxoval pro hotel. Aqui tive que colocar meu plano B em ação: explico a situação pra Tatiana, que me passa a conta pra transferência. E conto do enxoval: ela diz que conhece uma moça que mora na roça e está grávida. Fica com as peças pra lavar e levar pra ela.

Estrada Real S01E05: Conceição do Mato Dentro a Morro do Pilar

Distância do Dia: 29,69 km. Distância Total: 197,13 km. Unhas nos pés: 9,5. 

Exceto pelo trecho inicial, uns 3 quilômetros de subida, no asfalto, sem acostamento, o dia seria tranquilo. Nada muito insano em distância – menos de 30 km – e nem altimetria. Era sair de Conceição, penar um pouco no asfalto e pegar uma estrada de terra quase sem movimento (quem vai de uma cidade a outra de carro prefere pegar as MGs 010 e 232) e que corta trechos de mata fechada.

Sair de Conceição do Mato Dentro foi um alívio. Mais do que os prédios e igrejas centenários, mais que o pastel de angu, mais do que as reformas que transformaram a cidade num canteiro de obras, o que chama realmente a atenção na cidade são os inúmeros carros, ônibus, caminhões e caminhonetes identificado com letras e números das mineradoras. É triste saber que aqui do lado – pior, que aqui em volta – estão explodindo, escavando, revirando, destruindo tudo. Se bobear já já transformam a cachoeira do Tabuleiro em minério.

Comi um pão de queijo na padaria em frente à pousada e pouco depois das 6h já estava na estrada. Assim como nós anteriores, o clima era quente, mas nuvens cobriam o céu. Logo depois de entrar na terra cruzo o caminho com um senhor carregando um guarda-chuva. “Bom dia! Acha que hoje chove?” “Uai, tô ino lá pra roça e já tá chuveno in Beloriozonte, São Paulo, Ridijanero, essa chuva deve de chegar aqui hoje ainda. E ficá lá na roça na chuva num é bão não…”

E fomos, cada um pro seu lado, pensando se chove ou não, tiro a capa de chuva ou deixa, esse tipo de dúvida que acompanha quem está na estrada.

Ainda não tinha dado 7:30 quando vi o Dedé subindo a estrada, tocando seus gados: uma vaca, três bezerros. Saí de lado pra deixar, mas ele já foi abrindo a cerca e tocando os bichos pra dentro. “Hora de botar a criação pra pastar?”. É… “E que horas você busca de volta?” E sem responder, parecendo que precisava conversar e se abrir com alguém, ele começou a contar o caso da vaca que perdeu. Na segunda, quase no mesmo horário que sai de Diamantina pra minha caminhada, Dedé veio de Conceição, onde mora, pra tirar leite, buscar as vacas pra pastar e dar comida pros três cachorros e dois gatos que moram na casinha que tá construindo. De noite as vacas ficam ali, de dia pastam no terreno do primo. Quando chegou viu uma das vacas no chão. “Até pensei que fosse onça, que aqui tem demais”. Não era. A vaca tinha sido morta com um corte no pescoço. Na anca da vaca faltam dois pedaços. Alguém tinha entrado no terreno à noite só pra roubar os contra-filés. A vaca estava prenha, com “um bezerrinho desse tamaninho dentro da barriga”. Dedé procurou a polícia, mas ninguém teve interesse. “A secretária que veio me fazer pergunta. Num foi o delegado não. Falou que era que eu investigar. Eu não, uai! Eu acho que eu sei quem foi. Agora Deus me perdoe, eu tenho mulher, tenho filho pequeno, mas se eu pego o cara que faz uma coisa dessa eu mato”. A única vaca adulta que ele tem agora é que dá o leite pro seu filho é seu sobrinho. “E eu, se tivesse mais vaca, não ia vender o leite não. Ia doar tudo pro hospital”.

Descemos juntos os poucos metros entre o pasto e a casa. Quando vi o carro dele, comentei que tinha visto ele passar mais cedo. “Te vi também. Nó, falei pra minha mulher. Se eu não tivesse que levar o leite eu queria era vir todo dia correndo de Conceição até aqui. Isso é bão demais!”.

Não deu uma hora desse encontro e eu parei pra tomar água quando chega o seu Zé montado num burro. “Bom dia!” “Bom dia. Uai, eu acho que eu já te vi ocê por aqui”. Seu Zé não foi o primeiro. Antes deles umas três pessoas juraram que está não é a primeira vez que faço a Estrada. Em Tapera um sujeito veio conversar comigo como se fossemos conhecidos. Jurava que eu já passado ali antes. 

José Sebastião do Nascimento, o seu Zé, tem 75 anos. Mora logo ali, na dívida de Conceição com Pilar, e tava indo no comércio comprar uns mantimentos, como disse. “Mas o senhor tá forte pra 75 anos!” “Ih, meu filho, tô nada. Minha língua ainda não tá boa. Tive um negócio aí chamado PCC. Me levaram pra Conceição e depois pra Diamantina. Fiquei um mês sem falar nada, nadinha. O cérebro comanda mas a língua não responde, sabe?” Perguntei se ele já tinha encontrado com muita gente fazendo a Estrada. “Ih, é gente demais. O povo vem de jipe, vem de bicicleta, vem a pé… Dia desses tinha uma mulher fazer a pé, vê se pode. Eu não tenho coragem de fazer um trem desses não”. Tem medo de que, seu Zé?, perguntei. “Tá doido, menino? Nesse comunismo todo que anda o Brasil?” Gargalhei. Não era minha função explicar que era bem isso. Quando despedi, ele perguntou meu nome. Jefferson, eu disse. “Jefson. Esse nome aí eu tenho escutado muito na televisão…”

Na divisa de Conceição e Morro do Pilar, onde seu Zé mora, passa o rio Santo Antônio. Perto da ponte tem uma formação rochosa linda, com uma prainha em baixo, emoldurando o rio. E logo ali perto, do lado da estrada, uma construção antiga, encoberta pela mata, me chamou atenção. De pedra encaixada, deve ter fácil uns 200 anos, se não mais. E tá ali perdido, pura ruína.

Cheguei em Morro do Pilar logo depois de uma da tarde, depois de quase 30 km e 6,5 horas de caminhada. E agora, até amanhã, só descanso. O trecho daqui até Itambé, dizem, é o mais difícil da viagem.

(Sem Wi-Fi. Público mais fotos quanto tiver uma conexão melhor)

 

Estrada Real S01E04: Tapera à Conceição do Mato Dentro

Distância do Dia: 36,99 km. Distância Total: 167,44km. Cobras que cruzaram o meu caminho: 2.

A Pousada Samião, em Tapera, é um empreendimento familiar. Dona Maria toca o negocio com os filhos e os netos. A pousada fica ao lado da casa dela, e quando você pede a janta Dona Maria te leva pra cozinha, onde esquenta o almoço no fogão a lenha. A pousada não tem meia dúzia de quartos, escondido atrás do armazém da família. Que tem sinuca, gente jogando truco, vende arame farpado, crédito de celular, cachaça, detergente e a melhor coxinha que comi, que a própria Dona Maria faz. O lugar é singular.

Mas Dona Maria só acorda às sete, então pedi pra deixar um café coado pra eu tomar no dia seguinte. Saí às 6h, fotografei Tapera às escuras e não andei 100 metros rumo à Conceição do Mato Dentro quando passa por mim um sujeito empurrando a cegêzinha. “Acabou a gasolina?” “Nada rapaz! Parei a moto ontem ali um minutinho e num é que roubaram a minha chave?” E lá foi o sujeito subindo a ladeira empurrando a danada.

O caminho do dia era tranquilo e não reservaria muitas surpresas. Dez quilômetros de terra até Córregos e depois mais de 20 de asfalto pela MG10 até Conceição. Dia nascendo, sol fazendo um esforço danado pra sair por entre as nuvens, névoa cobrindo o vale abaixo (no dia anterior tinha visto as luzes de Conceição do alto do morro, antes de chegar a Tapera. Agora era tudo nuvem), eu indo na minha toada, tranquilo, foto aqui, vídeo ali até que paro pra beber uma água, boto a mochila no chão e vejo um abridor de garrafa, desses de chaveiro, verde. Pego o troço e na outra ponta, uma chave Honda.

Fico pensando nessas coisas que acontecem nessas caminhadas. Essas coincidências, esses encontros. Qual a probabilidade de eu ter encontrado com o cara empurrando a moto? Tivesse eu saído 5 minutos antes ou depois isso não teria acontecido. E qual a probabilidade de, em um trecho de 35 km, eu parar logo ali, onde estava aquela chave meio enterrada na poeira da estrada de terra? Quais os fatores que levam a esses acontecimentos? São puras coincidências? Ou são coincidências significativas, sicronicidade? O que me levou a achar a chave do rapaz e o que isso quer dizer, ora?

Cheguei em Córregos e liguei pra pousada. Adilson, um dos filhos da Dona Maria, atendeu. Contei o caso é disse que deixaria a chave no armazém do Antonio. Se ele ficasse sabendo quem é o dono, era só pedir pra ir pegar. E na frente da charmosa e mínima igreja do vilarejo, fiquei papeando com dois moradores locais. Claro que todo mundo quer saber da história, se onde estou vindo, até onde vou, quantos dias isso vai levar. E contei que da conversa do dia anterior com o Wesley, falado que o trajeto demarcado não é o original. E eles concordaram. Ao invés da MG10 o trecho, segundo eles, ia serpenteando a serra, passando por fazendas, em uma estrada “que até passa carro, mas você vai dar muito sorte se encontrar um”. “Azar”, corrigi. Tô fugindo de carros.

A preocupação era se eu saberia o caminho certo, em meio à tantas bifurcações. “Mas não tem erro: chega na escola, vira à direita, depois é só pra esquerda, contornando a serra. Tem que passar pelo córrego: se você andar meia hora e não cruzar a ponte tá no lugar errado”.

Como a gente dizia lá em Divinópolis nos meus tempos de moleque, mole pro Vasco. Despedi, agradeci, passei pelos moleques na hora do recreio e meia hora depois, córrego. Aí foi só seguir, conferindo vez ou outra no Google Maps. Não vi ninguém – a não ser as duas cobras – até encontrar o Mauro Renato na porta de uma das casas. Conferi com ele se o caminho estava mesmo certo e a resposta foi um “certo cê tá, mas se tivesse chegado 15 minutos antes teria pegado o ônibus. Alá ele indo!”.

E além do Mauro e das cobras meu único encontro nos 15 km do percurso foi com um rebanho de vacas que viu em mim seu pastor e me seguiu por uns 10 minutos.

Ao final a estrada chegou ao asfalto, na estrada que dá entrada à cachoeira do Tabuleiro, que vai ficar pra outra vez.

Quando cheguei, Conceição do Mato Dentro era um canteiro de obras. A pé já era difícil andar, imagina quem estava de carro. Ruas fechadas, prédios em obra, da Prefeitura à Igreja Matriz. Achei com esforço a Secretaria de Turismo e a Maria Anete, a atendente, foi de uma simpatia sem fim. Me levou pra tomar café nos fundos da casa, perguntou sobre o trajeto e me disse pra ficar no Hotel Umbelina, na região central. Uma pensão simples até o ultimo grau, com cenário é personagens de filme.

Agora tô aqui, na Fattoria, de fronte ao “hotel”, esperando minha porção de pastel de angu. Afinal, tenho que tirar a dúvida sobre quem faz o melhor pastel de angu de Minas: Itabirito ou Conceição?

Estrada Real S01E03 – Serro à Tapera

Distância do Dia: 52,88 km. Distância Total: 130,45 km. Vezes que eu parei pra fotografar essa serra: 16.

Tenho dormido mal. Apesar do cansaço da caminhada – ou por causa dele – o sono custa a vir e quando chega vem partido, intercalado com pensamentos e dores nas pernas. Coxa, joelho, panturrilha, canela, calcanhar, dedos e outras partes que meu limitado conhecimento de anatomia não sabe descrever doem constantemente em intensidade diferentes. Não me lembro de ter sido assim quando fiz o Caminho da Fé. Tenho evitado tomar Vitamina I (Ibuprofeno, pra aliviar as dores) mas acho que hoje não vai ter jeito. Pelo menos os joelhos, que são minha maior preocupação, não estão ruins. Culpa dos bastões, que tem ajudado bem na subida e descidas, com a longa até chegar no Serro.

Outra coisa é que minha sede noturna aumentou bastante. Já faz um tempo que tenho que dormir com uma garrafa ao lado da cama, pra dar um ou dois goles no meio da noite. Mas agora, apesar de me hidratar bem durante o dia, estou tomando fácil um litro de água entre o deitar e o acordar. E logo antes de sair estou fazendo o que os americanos chamam de ‘camel up’: tomando mais um litro, que nem camelo, pra já ir pra trilha estocado.

O fato é que como o trecho seria pequeno – 18km até Alvorada de Minas – me permiti ficar na cama um pouco mais que o normal e coloquei o despertador para as 6h. Programava tomar o café (e comer uma fatia do queijo do serro) e sair lá pelas 7, pra chegar na hora do almoço. Mas acordei às 4h com uma sinfonia de galos e o sonho que eu tinha reaberto o buteco do meu pai, transformando o lugar num armazém à moda antiga, só com produtos regionais de qualidade. No sonho eu conversava na porta do bar com minha esposa e uma irmã: o lugar não tinha dado certo, Divinópolis não entendia um conceito daqueles e o que o bairro precisava era mesmo de algo que atendesse à população local.

Enrolei (na verdade finalizei esse blog, que vinha enrolando faz tempo) até as 6h e desci pro café. Fiquei conversando com a Dona Tuca, a dona da pousada (comprovadamente a mais barata do Serro #ficaadica). Ela me contava de quando mudou pra fazenda (a fazenda é a pousada…), há 53 anos. Que o pai do falecido marido tinha ali o primeiro açougue da cidade. Falamos dos filhos, da neta Duda, da minha caminhada. Fiquei ali até as 7h, intercalando café e queijo, e beliscando outras coisas. 
Sabia o que esperar do caminho: um roteiro chato, burocrático, de asfalto, até a cidade de Alvorada de Minas. 18km, asfalto, sem muita subida? Moleza. As 10h já tinha chegado. Achei Alvorada de Minas uma cidade sem personalidade, com construções recentes para os padrões da Estrada Real. Só não passei batido pelo centro porque precisei comprar uma pomada para uma assadura que já começava a me incomodar. Subi até a igreja matriz e ali mesmo, em frente ao altar, enfiei a mão por dentro da calça e apliquei o remédio.

Como era cedo, eu estava disposto (e agora devidamente prevenido de assaduras) resolvi chegar até Itapanhoacanga. O guia dizia que o caminho seria agradável, com sombras, por estrada de terra, com uma chegada triunfal, por fazendas centenárias…. Por que não, né não? Saí antes das onze e fui.

Sol castigando, uma poeira danada, cenário sem graça (fazendas, gado, gramados, eucaliptos… Você já imaginou como era) e eu indo, querendo chegar pro dia acabar logo. Afinal, mesmo em aventuras existem dias melhores que outros. Já havia entendido que se estivesse no escritório seria daqueles dias que estaria olhando o relógio a cada cinco minutos, querendo apenas ir pra casa. Quando parei pro almoço – duas maçãs que a Dona Tuca tinha me dado – o Wesley chegou de cavalo, puxando conversa, perguntando sobre a caminhada e contando que Alvorada nunca foi parte da Estrada Real. Segundo ele, o roteiro original era onde onde está a MG10, que peguei apenas um trecho. Não sei os fatos históricos, mas na prática faz sentido: além de ser mais nova, ao ir dela pra Itaponhacanga e preciso fazer suas curvas em 90 graus sem lógica.
Cheguei em Ita (pode ser Ita né? Não sei falar o nome dessa cidade. E nem sei se o que escrevi aí acima está certo…) já me arrastando. No primeiro mercadinho comprei duas latas de refrigerante e fui entender se ficaria aí ou seguia viagem. Quando li o descritivo do trecho até Tapera no guia “Durante a travessia, o viajante encontrará inúmeras subidas em terreno de cascalho, porém, combinadas com pequenas curtos trechos retos ou de declive, permanecendo desta forma por 10 km. A partir deste ponto, o trajeto passa a apresentar descidas íngremes com características bastantes técnicas, principalmente durante os primeiros quilômetros” a primeira vontade foi entrar na primeira pousada e ficar ali. Mas o relógio já marcava 15h, o trecho era curto (só mais 14km) e a vista lá de cima com o sol se pondo parecia promissora. Comprei mais 3 litros d’água, descansei mais uns minutinhos e subi. E subi. E subi.

E uma hora e meia depois ainda não tinha andado 4km (normalmente dá pra fazer o dobro disso). A cada nova subida o  visual ficava mais bonito. E a terra fofa, com muitas pedras, e eu escolhendo onde pisar e aquela serra ali do lado, que pedia mais uma foto. E o sol foi se pondo e a beleza não tinha fim. Foto, filme, selfie, e o tempo correndo. 

Tinha previsto chegar em Tapera as 6h, dando um folga de meia hora a mais pros tais 14h. Escureceu, botei a lanterna de cabeça e andei um bom tempo ainda. Cheguei depois das 19h, casado dos 50 e poucos quilômetros e 12 horas de estrada.

Tapera (parênteses: o nome de Tapera não é Tapera. É Santo Antônio do Norte) , pelo pouco que vi é um charme. Uma cidade onde a pousada fica dentro de um hotel e a janta é servida na cozinha da dona não pode ser ruim. Talvez ela seja a pérola perdida da região. Quero voltar.
  

Estrada Real S01E02 – São Gonçalo do Rio das Pedras ao Serro

Distância do Dia: 41,87 km. Distância Total: 77,57 km. Tombos que levei até chegar na cachoeira: 2.

Existem dois tipos de pessoas (na verdade existem mais, mas não vamos complicar): as que gostam de tomar banho antes de dormir e as que preferem banho ao acordar. Eu sou do segundo time. Só que banho pela manhã e caminhadas não combinam: a água deixa a pele do pé mais fina e a possibilidade de bolhas aumenta. Então fui dormir ontem lá pelas 8 da noite depois de dois banhos quentes (meu requisito número um pra escolha da pousada) e acordei às cinco. Sabia que o dia ia ser pauleira: na planilha do trecho de São Gonçalo ao Serro, o guia do Instituto Estrada Real mostrava que eram 31 km pelo asfalto. Mas contava também da existência de uma trilha entre Milho Verde e Três Barras, “contudo, o local ainda não apresenta infraestrutura turística”. Era o que eu precisava. E conversando com o João, caseiro da pausada, ele me disse de uma trilha de São Gonçalo a Milho Verde, mais longa que o trecho oficial, que passava por cima da Serra. Pronto. Pelo menos metade do percurso seria do jeito que eu queria. Iria ficar mais cansado pelos quilômetros extras mas o fator “diversão” também seria maior. 

Tinha combinado com o João que poderia dispensar a moça do café, que chega normalmente às 7h. Se ele deixasse uma garrafa térmica na noite anterior com um café coado era tudo o que eu precisava. Como certeza ainda estaria quente pela manhã. Na mesa, além do café, ele deixou pão, bolo, bananas, maçãs e um bilhete: “se quiser pode levar os pães e as frutas pra comer na estrada. Boa caminhada”. Como não amar essa hospitalidade mineira?

Passei na entrada da igreja do Rosário e ao invés de seguir direto, como a planilha indicava, quebrei à direita e subi. A estrada parecia recém-aberta e durante todo o percurso não passou nem uma pessoa por mim. Só quando cheguei ao Beco dos Prazeres – aquele que vai de Milho Verde à Cachoeira do Piolho e ao Bordados da Barra (de novo, como não amar?) – encontrei alguém.

Milho Verde é aquele charme delirante. As casas, o entorno, tudo continua encantador. Mas não demorei: carimbei o passaporte na Pousada Morais, fiz a foto clássica na Igreja Do Rosário e peguei a estrada. Quer dizer, trilha.

Na pousada Morais o Rodrigo havia me dito que não era aconselhável pegar sozinho a trilha até Três Barras. Mas com o celular carregado, um carregador extra   os mapas salvos em off-line no Google Maps entrei mato a dentro. As formações rochosas, a vegetação de serrado, as fontes de água, a areia incrivelmente branca em alguns momentos, tudo deixa o cenário em uma beleza única. Mas apesar das placas proibindo motos e bicicletas, várias marcas de pneus estão estampadas na terra. Trilhas são abertas sem nenhum critério, destruindo a flora e favorecendo a erosão. Aliás, a marca da presença humana – e da destruição que ela provoca – é uma constante em todos os trechos. Na estrada, de guimbas de cigarro à privadas, já deu pra ver de tudo. Nas trilhas, plástico, latas e garrafas também não são raros de achar.

Com o Maps, saí seguindo a trilha mais nítida que ia até a estrada pra Capivari. No caminho, umas placas indicavam Canelal. Só quando cheguei à cachoeira me dei conta do que era. Ainda antes do almoço – bem antes: pensava que era por volta de 11h mas ainda era por volta de 10h – e eu com tempo, caí na água gelada e fiquei ali curtindo. De tão relaxado que fiquei, quando voltei pra trilha não só me perdi – obrigado Google! – como levei dois tombos: ao invés de usar os bastões, ficava com o telefone na mão tentando achar de novo a trilha.

Ainda tentei pegar uma outra trilha até Três Pontas, mas como não via caminho depois de um determinado ponto segui pela estrada de terra até a rodovia. A partir daí foi só sofrimento: uma hora até Três Barras, pausa para foto e gatorade e depois mais 4h30 de asfalto, sol quente, falta de sombra e descidas intermináveis, que judiavam dos joelhos e dedos do pé. Só não foi pior por causa de uma subida ao Serro do Cruzeiro e pela visita à igreja de NS do Carmo, guiada pela simpática Artemira. (Aliás, no Serro tem rodízio de igreja: não poderia visitar as outras nem se quisesse. Abre uma por dia de semana e pronto.)
Com os preços das pousadas do centro mais no alto que a Igreja de Santa Rita, dei uma passada no escritório de turismo pra tentar achar algo mais barato. A solução não poderia ter sido mais indicada: a Pousada Dona Tuca fica na saída pra Alvorada, meu destino de amanhã. É uma fazenda centenária, linda e o silêncio só é quebrado pela voz da Duda, a neta da dona. Aos 8 anos ficou de papo comigo, sem acreditar que eu estava viajando a pé (você não tem carro?), enquanto eu devorava o maior x-tudo que entrei nos últimos anos. Afinal, o dia terminou com quase 42km de caminhada e mais de 10 horas andando…