A trilha da trilha: New Hampshire

Outra banda que ouvi muito, mas que nos últimos discos deixei de escutar. Essa New Hampshire, do Sonic Youth, é do Sonic Nurse, de 2004. Não ouvi esse disco tanto quanto o Sister ou o Evol ou o Dirty ou o Goo ou o Washing Machine ou o Experimental Jet Set, Trash and No Star… Caramba, como essa banda tem disco bom, né não??

Anúncios

Pequeno dicionário Apalache – Português

Vou fazer a AT em 2017. NOBO. Comer GORP por alguns meses, seguindo as White Blazes. Tirar poucos zeros mas alguns neros, de Amicalola a Kathadin, passando por ShenandoahMcAfee Knob.

Não entendeu nada, né? Pois é. Estou tendo que aprender uma nova língua pra fazer a Appalachian Trail. Uma variação do inglês, cheia de palavras, siglas e acrônimos  que nunca tinha ouvido antes, mas que nos últimos meses passaram a fazer parte da minha vida. Assim como em qualquer área, a caminhada pela trilha dos apalaches tem um dialeto próprio, uma língua que só é compreendida 100% por aqueles que vivem na trilha. Já ouviu dois designers conversando? Ou dois médicos? Pois é tipo isso.

E como vou passar cinco meses falando e ouvindo esse dialeto é bem provável que nos próximos textos eu incorpore uma palavra ou outra nos posts desse blog. Então achei melhor começar o ano fazendo esse glossário, um guia para ajudar vocês a não ficarem perdidos. Assim, quando eu começar a falar em “SOBO”, “white blaze” ou “Nero”, vocês vão saber do que se trata. Caso contrário é só voltar aqui e consultar o seu pequeno dicionário Apalache – Português.

Esse glossário vai ser atualizado constantemente, à medida que for me deparando com novos termos ou palavras.

100 Mile Wilderness – O trecho mais rústico e inabitado da trilha, já no estado de Maine. São cerca de 160 quilômetros no mato, sem cidades próximos. 

2.000 Miler – A Appalachian Trail em oficialmente 2189.9 milhas (3524,30 km). Um 2.000 Miler é qualquer pessoa que tenha andado mais de 2.000 milhas da trilha.

Approach Trail – A trilha de aproximação. O início oficial da AT é em uma montanha chamada Springer Mountain, um local difícil de chegar, mesmo de carro. Por causa disso muitos caminhantes preferem começar a trilha no parque de Amicalola Falls, que fica a 8.8 milhas antes do início oficial da trilha.

Aqua Blaze – Num determinado trecho da AT é possível alugar um caiaque e cortar caminho, economizando algumas milhas. Essa prática é chamada de Aqua Blaze (ver também: blaze, blue blaze, pink blaze, yellow blaze)

AT – A abreviatura de Appalachian Trail.

ATC – A abreviatura de Appalachian Trail Conservancy, a confederação das associações responsáveis pela conservação é manutenção da AT. É formada por centenas de voluntários nos 14 estados por onde a trilha passa e é a maior inciativa voluntária do mundo.

AYCE – All You Can Eat. Tudo o que conseguir comer. O tipo de restaurante predileto dos caminhantes.

Base Weight – Peso Base – O peso da mochila com tudo o que você estiver carregando, exceto água, comida e combustível, que são variáveis.

Bear Bag – a forma mais comum de deixar os ursos longe de sua comida é colocando tudo aquilo que tem cheiro em um saco e dependurar isso em uma árvore à uma distância segura do acampamento. O Bear Bag (sacola do urso) é o saco onde os caminhantes deixa a comida. (ver também Bear Canister, Ursack)

Bear Canister – Um bear canister é um recipiente de plástico extremamente duro à prova de ursos. Você coloca sua comida e tudo que tiver cheiro (pasta de dente, cremes etc) dentro, fecha e coloca a uma distância segura de seu acampamento. Só é obrigatório em um pequeno trecho da Appalachian Trail.

Big 3 – Mochila, barraca e saco de dormir. Os três itens mais pesados que você carrega são chamados assim.

6418323_orig

Olar. Eu sou uma White Blaze.

Blaze – As blazes (chama ou brilho) são as marcações que você segue na trilha. A marcação oficial da AT são as White Blazes, um retângulo branco de 5 x 15 cm pintado em árvores, pedras e placas pelo caminho. São aproximadamente 165 mil white blazes pela trilha, a uma distância média de 20 metros entre uma e outra. Veja também: Blue Blaze, Double Blaze, Yellow Blaze, Pink Blaze, Aqua Blaze)

Blue Blaze – Trilha não oficiais próximas à Appalachian Trail são pintadas de azul. São as Blue Blazes. Levam a cabanas, lagos, mirante ou são simplesmente atalhos. Quem se aproveita desses atalhos é chamado de Blue Blazer.

Bounce Box – Como o acesso a comida de qualidade pode ser difícil na trilha os caminhantes têm o habito de empacotar aquilo que sentem falta, colocar em uma caixa e enviar pelo correio para uma agência próxima à trilha. Chegando lá eles tiram o que querem, fecham a caixa e enviam novamente para a próxima cidade. E assim vai até o final da caminhada. Essa caixa é chamada de Bounce Box (ou caixa pula-pula) (veja também: Mail Drop)

Cat Hole – Buraco de gato. A sua privada, na maior das vezes. O Cat Hole é o buraco que você cava para encobrir suas vezes no meio do mato.

Damascus – Uma cidade com menos de mil habitantes no estado da Virgínia por onde a trilha passada. É considerada a capital da Appalachian Trail.

Double Blaze – Duas marcações, uma acima da outra, mostrando uma mudança de direção na trilha.

Duct Tape – A nossa Silver Tape, uma fita adesiva grossa e resistente, a senhora das trilhas, salvadora em todas as situações, seja cobrir uma bolha no pé ou um tênis rasgado.

Flip-Flop – Um forma alternativa de fazer a trilha, começando em algum trecho na metade e seguindo até o final (ou o início) e depois fazendo a metade restante. A vantagem do flip-flop é evitar um grande número de caminhantes e temperaturas muito frias ou muito quentes. (ver também: SOBO, NOBO)

GORP – Good old Raisin and Peanuts – O bom e velho passas e amendoim. Ou qualquer variação de mix de frutas secas, o lanche mais consumido pelos caminhantes durante o dia.

Kathadin – a montanha onde a trilha termina no norte, no estado americano de Maine.

Hiker Box – caixas ou containers deixados na trilha onde os caminhantes podem descartar coisas que não querem mais (comida, equipamentos etc) mas podem ser utilizados por outras pessoas.

HYOH – Hike Your Own Hike – Trilhe Seu Próprio Caminho. A frase mais usada pelos caminhantes. Cada um na sua. Pra mim soa como uma forma bem educada de dizer “ei, foda-se”. Por exemplo, se alguém começa a dar palpites sobre seu ritmo de caminhada ou o equipamento que está levando é só soltar um “Hey, Hike your Own Hike my friend”. O que pra mim soa como “Qualé, meu irmão. Vai se foder e me deixa na minha”. 😀

Lyme Desease – A doença do carrapato. Esse é meu maior medo na trilha. É causada pela picada do carrapato, comum em alguns trechos mais ao norte.

Mail Drop – As encomendas que os caminhantes recebem durante a caminhada, seja em correios ou entregues em albergues. Podem conter comida, equipamento, cartas etc. Normalmente são enviadas por algum familiar do caminhante. (veja também: bounce box)

McAfee Knob – Certamente o lugar mais fotografado da trilha. Fica no estado de Virgínia. Saca só:

mcafeeknob1

Mountain Money – Dinheiro da Montanha – uma gíria para papel higiênico.

Nero – Near Zero – um dia onde o caminhante anda pouco, acrescentando quase nada na sua caminhada (veja também: zero)

NOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Sul-Norte (Georgia-Maine). Este é o sentido mais popular. Eu sou um NOBO. (veja também: SOBO, Flip Flop)

Pink Blaze – Quando uma pessoa passa a seguir outra na trilha com intenções, digamos, mais íntimas.

Privy – Privada. Pode ser encontrada em alguns abrigos pelo caminho.

Purist – Puritano – Um caminhante que passa por todas as marcações brancas (white blaze), sem desviar o caminho ou pegar atalhos.

Section Hiker – Todo caminhante que faz um trecho da trilha. Muitas pessoas fazem um trecho diferente por ano e completam a Appalachian Trail depois de diversos anos. (veja também: thru hiker)

Shelter – Abrigo. São cerca de 260 em toda a AT (uma média de um a cada 14 quilômetros). Os abrigos são, na maioria, construções simples de madeira, sem porta, nem energia elétrica e muitas vezes sem instalação sanitária. Por outro lado são infestados de ratos.

Shenandoah – Um parque nacional que a Appalachian Trail cruza, no estado da Virgínia.

Slack Packing – Alguns caminhantes deixam a mochila em algum hotel ou albergue e fazem trechos da trilha sem carregar o peso dos equipamentos. Essa prática é chamada de Slack Packing

SOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Norte-Sul (Maine-Georgia). (Veja também: NOBO, Flip Flop)

The Whites – A abreviatura das White Mountains, no estado de New Hempshire. O trecho, de pouco mais de 100 milhas, é considerado por muitos um dos mais difíceis da AT.

Thru Hiker – Todo caminhante que faz a trilha completa, do início ao fim, em uma temporada. (veja também: section hiker)

Trail Angel – Pessoas que de alguma forma ajudam os caminhantes. Seja com a distribuição gratuita de comida e bebida, seja com carona. Muitos Anjos são ex-thru hikers (veja também: Trail Magic)

Trail Magic – Os “presentes” que são deixados pelos Anjos para os caminhantes. Pode ser comida (muitos fazem churrasco ou cachorro quente) ou bebidas (o que melhor que uma cerveja gelada depois de alguns quilômetros caminhando?). 

Trail Name – Uma das tradições da AT é que você precisa ter um nome de guerra, um apelido. Isso é seu Trail Name. O caminhante pode escolher. Ou o nome pode ser imposto: nesse caso quase sempre acontece quando você faz uma besteira. Não quero passar por isso. Ainda não decidi o meu, mas tenho umas ideias.

Ursack – O Ursack tem o mesmo objetivo do Bear Canister: um recipiente à prova de ursos. A diferença é que ele é feito de um tecido ultra resistente, mais leve que o Bear Canister. É colocar a comida dentro e amarrar o saco em uma árvore.

Vitamin I – Vitamina I – A gíria para Ibuprofeno, um analgésico muito utilizado para dores musculares e nas articulações.

Yellow Blaze – é a gíria para carona, porque as marcações na estrada são pintadas em amarelo. Quem pega carona na trilha é chamado de Yellow Blazer.

Yo-Yo – Completar a trilha inteira e quando chegar ao final voltar até o início. Pois é. Tem gente que tenta fazer isso.

Zero – um dia de descanso, onde o caminhante acrescenta zero milhas na jornada.

Cinco livros sobre a Appalachian Trail

Quando decidi me mudar pra Austrália algum amigo (quem foi hein?) me indicou um livro chamado In a Sunburned Country. Já tinha ouvido falar do autor, um tal de Bill Bryson, por causa de um outro livro seu que tinha sido lançado no Brasil, o Uma Breve História de Quase Tudo (Companhia das Letras, 2005). Já havia gostado da forma crítica e do humor cítrico do autor, que intercalava fatos históricos e piadas no tom e no momento certo. O relato da sua viagem pela Austrália descrevia o país de uma forma peculiar. E descobri aí que aquele não era seu único relato de viagem: ele também já havia escrito sobre a África, a Europa e os Estados Unidos, onde havia nascido, apesar de ter passado boa parte da vida na Inglaterra. Pra minha surpresa um desses livros de relato de viagens também havia sido lançado por aqui. Chamava Uma Caminhada pela Floresta: Redescobrindo os Estados Unidos pela Appalachian Trail (Companhia das Letras, 1999) e foi a primeira vez que ouvi falar da trilha.

Boa sorte se for tentar achar a edição em português do livro. Sugiro começar pela Estante Virtual, onde vez e outra aparece um pra venda. Fora isso não existe mais nada sobre a trilha publicado em nosso idioma. Nem na Internet: tente procurar “Appalachian Trail” no Google em sites brasileiros e você vai se deparar com basicamente essa matéria sobre a morte da Geraldine Largay, que foi publicada em 2016 no Portal Extremos (eu falei sobre a Geraldine e outras pessoas que morreram na trilha no meu post passado, você viu?)

Mesmo quando se muda a pesquisa para “trilha apalache” os resultados são poucos: aumentam por causa do filme mais recente e pouco inspirado do Robert Redford, baseado no livro do Bill Bryson. E por causa de um episódio de Criminal Minds que se passa na trilha: uma obra de ficção alarmista, que os parentes e amigos de quem pensa em fazer a caminhada não devem assistir.

Quando comecei minha pesquisa não conseguia achar nem informações sobre alguma pessoa nascida no Brasil que já tenha feito a trilha. Só esse ano fiquei sabendo que Elaine “Brazil Nut” Bissonho completou a Appalachian Trail em 2011. Antes ela já tinha feito a Pacific Crest Trail e no ano seguinte a Continental Divide Trail, o que a coloca como uma das raras pessoas no mundo a ter feito a Tríplice Coroa das trilhas de longa distância. Mas só foi possível chegar a essa informação porque ela está no site da ALDHA – American Long Distance Hiking Association (Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância). E por causa disso tem uma breve nota sobre ela também no Extremos, publicada em março deste ano. E é isso. Nada mais sobre seu feito está disponível na web brasileira. E sobre a Appalachian Trail, como eu disse, tem bem pouco.

Mas a história poderia ser diferente. Charles Casey Reese, um ex-voluntário da Appalachian Trail Conservancy e hoje biólogo da National Park Service, o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, esteve por aqui ainda em 2007 dando um workshop em São Paulo sobre Trilhas de Longas Distâncias. O evento era parte do Seminário Internacional Trilhas de Longo Percurso, que contou ainda com representantes do Chile e de parques brasileiros como a Serra dos Órgãos. A fala de Reese foi focada na AT, na importância dos voluntários e no trabalho da Appalachian Trail Conservancy. Não estive no evento (consegui apenas ter acesso ao Powerpoint que Reese utilizou), mas gosto de imaginar que foi nessa palestra que Elaine ouvi sobre a trilha e decidiu fazê-la.

Bill Bryson: A Walk in the Woods

Com a pouca repercussão do workshop, hoje em dia para saber mais sobre a Appalachian Trail a saída é buscar informação em sites e livros em inglês. Aí sim o universo é vasto. São dezenas de sites, blogs e livros sobre o assunto. Eu divido os livros em três categorias: guias, relatos e romances. É nessa última que o livro de Bill Bryson (A Walk in the Woods no original) se encaixa. Ele é certamente o livro de maior sucesso, aquele que desperta na maioria das pessoas o desejo de fazer a trilha. A fama da Appalachian Trail em anos recentes é muito por conta da influência do livro, assim como Wild, da Cheryl Strayed fez com a Pacific Crest Trail ou o Diário de um Mago, do Paulo Coelho, com o Caminho de Santiago.  Nos romances também se encaixa o livro que estou tentando ler agora: Trail Danger: A Tale of Love and Suspense on the Appalachian Trail, de Anne Perkins. Mas esse é uma bobagem que o melhor a fazer é passar longe.

Bill Walker: Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail 

Gary Sizer: Where´s the Next Shelter?

Alguns dos relatos mais interessantes são escritos por Bill Walker (Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail) e Gary Sizer (Where´s the Next Shelter?). Walker é um gigante com dois metros e dez de altura que conta sua caminhada de 2005. O livro é agradável e o autor consegue fazer graça com sua altura incomum. Gary “Green Giant” Sizer, outro grandalhão, fez a trilha em 2014. Seu livro conta sua aventura e dos amigos que fez na trilha. Como ele mesmo diz, parece piada: um engenheiro, uma colegial e um soldado israelense que sonha ser cartunista… O livro é inspirador e bem inscrito, mas a autor conseguir repercussão mesmo por causa de suas fotos de antes e depois da Appalachian Trail que ele publicou do Reddit. Saca só:

at-before-after-feat-jpg-653x0_q80_crop-smartat-trail-body-before-after

David “AWOL” Miller: AWOL on the Appalachian Trail

Outro relato essencial é o de David “AWOL” Miller. Seu livro AWOL on the Appalachian Trail conta sua caminhada pela trilha em 2003. Se não bastasse ter escrito um dos melhores relatos sobre a trilha, o ex-programador de computadores fez mais: é dele o guia usado por 9 entre 10 pessoas que pensam em fazer a trilha. Chamado simplesmente de The AT Guide, traz informações sobre pontos de água, cabanas, distâncias, elevações e quanto falta para a próxima cidade. É fundamental, mas não é um livro de leitura e só é útil quando você estiver na trilha. Aliás, você não precisa de mapa nem bússola para fazer a Appalachian Trail, mas vai ser difícil chegar ao final sem o AT Guide.

Zach Davis: Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail

Outro guia que tem me ajudado bastante é o escrito por Zach Davis. Como diz o título,  Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail é justamente isso, um guia para te preparar psicologicamente e emocionalmente para o desafio. Apesar de ser focado na AT, não serve só pra ela: as informações de Davis podem ser úteis para qualquer aventura. Outro nerd saído da frente de um computador para o meio do mato, Zach Davis transformou seu livro em outro produto: o excelente site The Trek , onde é possível  encontrar relatos de outros caminhantes, informações sobre equipamentos, blogs, mapas interativos e informações  que podem ser úteis para quem deseja fazer uma caminhada de 5 meses ou 5 dias.

Todos os livros estão disponíveis na Amazon, alguns gratuitos para quem faz parte do Kindle Unlimited. Se tem interesse pela caminhada, recomendo a leitura. O Powerpoint com a apresentação de Casey Reese em São Paulo em 2007 pode ser encontrado aqui. Boa leitura.

Estrada Real S01E12: Zero

Então vamos ver: minha unha 5 ainda está no lugar, apesar de bamba. Bolhas se formaram ao redor da unha, onde a pele varia do tom branco-pus ao vermelho-inflamado. Normalmente não dói, mas se esbarro em algum lugar – na calça quando vou vestir, por exemplo – a dor é tremenda. Falando em bolhas, a maior, com uns 2,5 centímetros de diâmetro no pé direito, já arrebentou naturalmente e a nova pele é tão sensível quanto bumbum de bebê. O dedo 9 está com uma bolha nova na ponta que tem incomodado. E duas bolhas estão presentes em cada calcanhar, além de outra na lateral do pé, perto do fíbula. O tornozelo esquerdo está inchado, com manchas vermelhas, e ainda não sei se é reação alérgica ou inflamação. As duas panturrilhas já não doem tanto. Joelhos tem dores leves, que poderiam ser muito mais severas se não estivesse usando os bastões. Doem também as coxas. Tenho assaduras, irritações na virilha, um machucado na cintura, talvez pela fricção do porta-objetos que levo dinheiro, documentos e celular, as únicas coisas que não vão na mochila. Depois de três dias de caminhadas com a mochila pequena as dores nos ombros estão melhores. E minhas mãos doem de ficar mais de oito horas por dia segurando os bastões, e no tempo que tenho de descanso uso os dedos para atualizar no celular esse blog. A cabeça está ótima e descansada.

Fazer uma trilha de longa distância é extremamente desgastante fisicamente. Nestes primeiros onze dias foram percorridos uma média de quase 40 quilômetros por dia. Uma maratona todo dia, por 11 dias seguidos. Meu corpo está um bagaço.

Por isso eu precisava de um zero. Um zero é um dia onde você não anda. Não se aproxima nem um quilômetro do seu destino. Tinha programado três zeros nos 1100 km até Parati, o primeiro neste domingo, quando Alê iria me visitar em Santo Antônio do Leite. Mas estava cansado, fatigado, e até lá teria pelo menos mais um dia longo, de Rio Acima a Glaura, com quase 45 km. Resolvi adiantar.

Voltei ontem de Rio Acima, no ônibus das 4:30, e com o trânsito ali no entorno do BH Shopping do fim do dia não cheguei em casa antes das 7. E ao invés de retornar a Rio Acima hoje de manhã fiquei aqui. Dormi até às 9, tomei um farto café da manhã e logo depois um almoço. Cuidei dos ferimentos, fiquei de perna pra cima e descansei. Amanhã pego  o ônibus cedinho de volta a Rio Acima. Caminho os 45 km até Glaura, onde Alê me encontra. Domingo cedo faço os fáceis 14km até Santo Antônio do Leite, onde fico mais uma noite com ela. É a partir de segunda, tudo volta ao normal: longas caminhadas, pousadas baratas, mais dores, mais bolhas. Entro de sola no Caminho Velho, que me leva até Parati. Se tudo correr como programado faço mais dois zeros e chego lá no inicinho do mês que vem. Quem me acompanha?

status do dia: pernas pro alto

Estrada Real S01E10: Caeté a Sabará

Distância do dia: 36,38 km. Distância total: 398,88 km. Passos dados nesses primeiros dez dias: 504.570. 

Na linguagem dos caminhantes de longa distância nos Estados Unidos, “slackpacking” é um termo que significa caminhar sem a sua mochila. Pro pessoal mais puritano é preciso completar a trilha toda carregando tudo o que você precisa, o tempo todo. Para outros você tem que ir a pé do início ao fim. E se você deixar sua mochila de lado por alguns dias não compromete o êxito da sua jornada. No Caminho de Santiago muita gente “slackpack” mandando a mochila de uma cidade a outra de taxi. Na Appalachian Trail, em alguns pontos é possível andar um dia ou dois sem carregar o mochilão. Como passei a noite em casa resolvi negligência os 8 quilos da mochila pelos próximos dias. Ou seja: eu fiz slackpacking.

Quando cheguei ontem de surpresa Alê não pode acreditar. Nem Tati, nem Jade, nem Lis, nem Rick. Matei a saudade que já era grande e aproveitar pra me cuidar: fiz um escalda-pés, tratei as bolhas (já tenho uma meia dúzia, mas estão controladas. A unha 5 ainda resiste e a 7 agora ameaça cair) e pedi minha pizza predileta. Coisas simples que me fizeram falta na última semana.

Levantei às 5:30, mas como sempre acordei várias vezes antes. Deitei às 11h, mas às 2h já achava que era hora. E de novo às 4h. Quando finalmente chegou a hora tomei um espresso duplo (nada de chafé por hoje) e pedi um Uber.

Cheguei na rodoviária com 15 minutos de sobra e Jurandir me abordou na entrada do ônibus: “você tem um telefone? Liga a cobrar pra minha mulher e diz pra ela que Tô indo pra casa? O número é 6… Não. 68… Peraí.  75…” Ainda estava bêbado na noite anterior. Tinha saído de Caeté com o amigo Tinho pra uma noite de bebedeira em BH. Na saída pra Santa Luzia pararam num boteco, beberam todas e brigaram entre si. “Mas foi uma briga boa! Uma rinha de galos!”. Chegou a polícia e os dois foram dar um passeio de caburão. “Tinho foi na frente, mas eu ia lá na grade, igual passarinho”. Liguei pra dona Sônia e dei o recado. “Fala pra ele que vou estar esperando na rodoviária”, ela disse. Jurandir e Tinho desceram um ponto antes.

Peguei o ônibus às 6:3o levando o básico: boné, protetor solar, capa de chuva, celular, lenços umedecidos, meus bastões de caminhada, umas frutas secas, um litro de água e uma mochilinha de 10 litros. Estava leve, iria fazer os 35 quilômetros até Sabará e voltar de novo pra casa.

Eu já disse que a sinalização do Instituto Estrada Real é ineficiente, né? Aqueles totens grandes e caros, onde é impossível ler as informações sem parar e limpar a poeira. Em mal estado de conservação, muitas vezes encobertos por mato ou no chão. As planilhas difíceis de serem entendidas, e quem quiser ver as informações totais tem que abrir três arquivos: a planilha, com as distâncias entre os totens; o guia, com informações sobre as cidades e pontos de alimentação, hospedagem e carimbo; e a planta de altimetria. Um suplício. Mas o que era ruim no Caminho dos Diamantes fica ainda pior no Sabarabuçu. Como se fosse o primo pobre dos quatro caminhos, tem ainda a desvantagem de passar por cidades relativamente grandes, como Caeté e Sabará. Nestas, os totens vão até o perímetro urbano. Dali até a região central, onde estão muitas das pousadas e atrações, é um salve-se quem puder. Você tem que pedir informação, usar seu aplicativo preferido ou simplesmente seguir o fluxo. E esse deslocamento pode durar uma hora ou mais.

Ontem em Caeté o último totem era tão distante do ponto final que achei melhor pegar o ônibus pra BH e carimbar o passaporte hoje pela manhã. E hoje, saindo da belíssima matriz, já tinha gastado uma hora e andado 5 quilômetros quando cheguei ao primeiro totem, às nove.

A partir daí o passeio foi tranquilo. Com os pés descansados, com o dia nublado e sem o peso da mochila, já tinha chegado ao distrito de Morro Vermelho às 10h. Parei pra conversar com dois ciclistas (obrigado pela banana) e segui rumo a Sabará. O passeio é agradável, com um rio correndo quase todo tempo à sua direita, paredes de samambaias à esquerda e barulhos de mata e trem (se você abstrair que são vagões e vagões de minério sendo tirados das nossas montanhas fica mais agradável).

Só que o trecho perdeu uma parte de trilha. E a partir de determinado ponto os marcos param de existir. Não que fizessem tanta falta (é só seguir a estrada principal) mas o descaso incomoda. O que ajuda são as marcações do CRER, o Caminho Religioso da Estrada Real, que usa totens muito mais simples e práticos. Na chegada à Sabará, outra caminhada sem orientação até o Teatro Municipal, ponto do carimbo.

E dali foi só descer e pegar um circular até BH, pra mais uma noite em casa, com família e escalda-pés.

Estrada Real S01E09: Cocais a Caeté

Distância do Dia: 45,06 km. Distância total: 362,5 km. Surpresas do dia: várias.

Já era noite quando liguei pra Pousada das Cores querendo saber se tinha um quarto disponível. O Éverton atendeu meio desconfiado mas mesmo assim me passou a direção. Mesmo antes de chegar ao quarto já havia gostado do lugar. Do lado de fora a casa no final da rua, com mesas na varanda, chamava atenção pelos detalhes. Dentro, a medida que Éverton ia me guiando, conseguia distinguir esculturas no jardim, um caramanchão e mais coisas que deixavam o lugar singular. Quando passamos por uma sala de estar, ele comentou: “TV se quiser é aqui. No quarto não tem”. Falei que não ligava TV a uma semana. Na portas dos quartos, de paredes brancas e portas e janelas pintadas de cores diferentes – o meu era o goiaba – Éverton continuava o papo que vínhamos tendo. Contava que fez o Caminho de Santiago, “e lá, em alguns lugares, você deita no colchão, daqueles de molas antigos, e sua bunda vai no chão”. Morou na Espanha quando estudava, fez jornalismo, trabalhou no Estado de Minas (“o Roberto Drummond era meu editor na cultura”), no Palácio das Artes, mas resolveu morar no meio do nada: “no meio do nada acham os meus amigos, né? Eu não acho”. E ficamos ali na conversa, eu ainda de pé, querendo tomar um banho, mas o papo rendia. Até que perguntei se tinha algo pra comer na cidade. “Você gosta de caldo? Se for um caldo dá pra fazer. E não sou modesto não: sou cozinheiro de mão cheia”, ele disse. Gosto de caldo, angu, quiabo, jiló, o que tiver eu como. “Ah, então você é a pessoa certa pra fazer a Estrada Real. Desce às 7 que faço pra você”. Mas 7 já são, Éverton (ficamos uma hora de conversa). “7:30 então”.

Desci e consegui me perder entre meu quarto e a cozinha (como mesmo que estou fazendo a Estrada Real sozinho?). Cheguei uns minutos depois do combinado e Éverton estava acabando de rapar a panela. “Você já quer comer? Pega esse prato aí então. E essa outra vasilha”. Fomos pra um salão enorme, pra pelo menos umas 120 pessoas. E ficamos só nós dois ali, sentados quase frente à frente, cada um com seu caldo de mandioca (ele estava certo: é mesmo cozinheiro de mão cheia) e eu ainda com três pães de inhame, que Éverton também quem fez. “Comi desse pão o dia inteiro. Tô aqui só pra te fazer companhia”. No tempo que devorei três pratos enormes do caldo, falamos sobre mais uma pancada de assuntos. Éverton disse que foi seminarista (“mas hoje não tenho religião, nem time de futebol, nem partido político e sou assexuado”) e que montou a pousada com a ideia de fazer um mosteiro. No terreno tem também uma igreja pra 100 pessoas e dos tempos de seminário guarda amizades com padres e freiras. “As freiras veem aqui e eu pergunto: irmã, quer uma cervejinha? Elas acham que não vai pegar bem então eu falo: preocupa não! Eu boto num bule esmaltado e a gente bebe na xícara. Se chegar alguém a gente fala que é chá. E fico aqui tomando o chá das cinco com as freiras”. Eu caio na gargalhada e ele conta vários outros causos, impublicáveis (porque vou deixar a surpresa pro livro que ele mesmo está escrevendo).

Se não bastasse, ele ainda fábrica licores e vinagres de vários sabores. “Aliás, também estudo a peidologia”, completa. E já emenda: “e doce, você gosta? Hoje tem de mamão, de banana com chocolate e goiaba com banana. E sorvete? Os sorvetes a gente faz aqui são excelentes. Tem dê araticum e abacate. Experimenta”. Me ganhou na simpatia, na conversa e no estômago. Volto a Cocais só pra passar mais um dia com ele.

E na hora de ir ver o jornal, assiste na companhia de Joãozinho e Mariazinha, os dois novos habitantes sortudos do lugar: “devia existir um chef pra comida de cachorro né? Ração é ruim demais. Os meus amiga passam bem. Compro fígado de galinha e misturo na ração deles. Eles ficam olhando pra mim pensando assim: ‘nossa, esse meu humano de estimação cozinha tão bem'”. Subi pro quarto ainda cheio de admiração.

Ele havia deixado a chave do portão pra eu sair. Ainda não eram seis quando deixei a pousada, mas só cheguei ao primeiro marco do Caminho de Sabarabuçu uma hora depois. Na noite anterior, quando cheguei, confesso que não havia seguido os últimos marcos: me guiei pela sugestão do Google Maps. Agora pela manhã, querendo fazer a coisa certa, fui acompanhar a (eu já disse isso?) confusa planilha do Instituto. E dei uma volta danada por ruas sem marcos até chegar onde queria.

Deixar os Diamantes e começar o Sabarabuçu era dúvida até ontem. Tudo por causa do crime ambiental em Bento Rodrigues. Não fosse isso, continuar por Barão de Cocais, Santa Bárbara, Catas Altas, Santa Rita Durão, Camargos, Mariana e Ouro Preto era o caminho mais sensato (e rápido). Com a interdirão do trecho entre Santa Rita e Camargos, onde estava Bento Rodrigues, a opção seria ou ir pelo asfalto ou pegar o Sabarabuçu em Cocais, que foi o que fiz. Ainda sobre o crime, meus planos originais eram fazer o Caminho dos Diamantes, só ele, no final de outubro e início de novembro do ano passado. Como apareceu uma viagem pra China a trabalho (como recusar?) na mesma época, adiei a caminhada. Pela minha programação original, faria o trecho de Santa Rita a Camargos no dia 5 de novembro. O dia que a represa se rompeu.

Menos de uma hora depois de cruzar o primeiro março, estão lá, de novo, os eucaliptos. Menor que o do dia anterior, cruzei a plantação com o mesmo nervosismo.

O sol demorava a surgir e era fácil andar num bom ritmo pela manhã. Passei pelo distrito de Antonio Carlos e segui contornando o Morro da Piedade. Faltando uns 10 quilômetros pro final, o tempo está escuro e sinto as primeiras horas. Paro, tiro a mochila, pego a capa e quando boto a mochila de novo ouço um zumbido. Mais rápido que eu, o marimbondo/vespa/abelha/sei-lá-o-que de Itú (o bicho era quase do tamanho de um beija-flor, juro!) fica o ferrão na minha nuca. Ainda agora, seis horas depois do ocorrido, sinto meu pescoço dolorido). A chuva, coitada, nunca veio.

“Caeté é do lado de Belo Horizonte”. Ficava pensando isso a medida que me aproximava. Mas só quando passei na porta da rodoviária e vi um ônibus lotação (executivo, mas lotação) me dei conta do quão perto as duas cidades estão (são 45 km, a mesma distância que tinha andado). Me aproximei e perguntei pro motorista: “esse ônibus sai que horas?” 4:10 . “E demora quanto tempo a viagem?” 90 minutos. “É o primeiro ônibus de lá pra cá que horas sai?” 6:30. Não tive dúvidas: entrei no busão e vim passar a noite na melhor pousada de todas: a minha casa.

Estrada Real S01E07: Itambé do Mato Dentro a Ipoema

Distância do Dia: 40,87 km. Distância Total: 275,36 km. Idade dos meus novos amigos: 84 e 89 anos. 

Quando ele subiu as escadas do decadente Hotel Estrela (acho que o nome no singular é devido à classificação do estabelecimento) achei que estivesse bêbado. Subiu se agarrando no corrimão e no último degrau quase rolou escada abaixo. Chegou e já foi puxando uma cadeira pra minha mesa na varanda, deixando a capanga na porta da recepção. Chapéu, camisa azul com estampa de cavalo, jeans, botas, só podia estar vindo de cavalgada. “Os companheiros alugaram uma casa mas eu falei que ia ficar no hotel. Eles ficam até tarde bebendo, falando, e eu quero descansar. Fiz 84 anos essa semana, tamo vino de cavalo lá de Itabira”. Para quem não visualizou o mapa, são mais de 50 km.

A cavalgada do dia era tranquila. Desde 2006 seu Eugênio já fez a Estrada Real inteira, de Diamantina a Parati, três vezes, sempre no lombo do cavalo. “Ah, é bão demais né? Ultima vez que fui no médico, não tava ouvindo direito, achei que fosse o aparelho mas era só cera no ouvido, ele chamou a minha filha e falou pra ela não deixar eu ficar andando de cavalo assim não. Capaz!”. Seu Eugênio trabalhou 33 anos, sempre na área administrativa: “de início a empresa tinha uma armazém, eu que cuidava. Depois fui pro almoxarifado. E depois pro hospital. Ih, menino, eu poderia ter ficado rico demais se eu quisesse. A gente chateado vendo as notícias de corrupção, se eu te contasse o que eu já vi…” E conta caso, do trabalhos (foi vereador e candidato a prefeito), dos filhos, das cavalgadas. “O povo me chama de vovô das Cavalgadas”, comenta.

Aí se dá conta que ainda não tinha de fato chegado: “acho melhor eu ir tomar um banho né?”. Foi e voltou, camisa limpa com estampa de outra cavalgada. E da-lhe mais história. “Eu lembro de tudo, tudinho, desde que eu tinha 7 anos. Tô escrevendo um livro da minha vida. O moço que tá fazendo a revisão disse que nunca viu história tão bonita”. Antes de ir dormir, seu Eugênio me dá a receita da sua energia: “quando você começar a sentir que vai ficar doente, toma uma dose de conhaque Dreher. Mas não toma igual cachaça não. Toma devagarinho…”

Fui pro quarto querendo uma dose de Dreher: estava com meia dúzia de bolhas em cada pé e a unha 5 – conto as unhas da esquerda pra direita. Então a 5 é a unha do dedão esquerdo – estufada, com um inchaço no entorno que já estava começando a incomodar. Decidi que era hora de drenar. A primeira parte foi fácil: enfiei a agulha na parte de cima, perto da cutícula. Depois no canto esquerdo. Enfiava, passava a linha, e ia tirando o líquido. Aí veio a parte chata: peguei a agulha e enfiei por baixo, entre a carne e a unha, já que ela estava alta, quase saltando do dedo. Isso, vocês sabem, é uma forma de tortura. Eu respirava pelo nariz e soltava pela boca, rapidamente. Apertei a unha e vi o líquido branco escorrendo pela linha.

A drenagem deu resultado. O dedo já não incomodava pela manhã. Como o Hotel e Restaurante Estrela não servia café da manhã (nem jantar na noite anterior), tomei um suco de latinha que tinha, comi uma banana e saí pra rua. A planilha dizia 16 km pelo asfalto até Senhora do Carmo e depois outros 16 por terra até Ipoema. Mais uma vez ignorei o guia: ao invés de sair reto, pegando o asfalto, subi em direção à Cabeça de Boi e quebrei à esquerda. Foi andar uma hora até chegar na entrada da Cachoeira Vitória. Me embrenhei no mato por mais um tempo só pra ver de perto os quase 80 metros de queda.

De volta ao caminho, ia admirando a sequência de serras. Lobo, Linhares, Alves… Tava na região conhecida por Conquista. Numa das placas a indicação era Tiá, mas ninguém me confirmou o nome.

Numa das paradas pra fotos, seu Alberico veio subindo no seu burro. Cumprimentou e também desatou a falar. E quanto mais eu perguntava mais ele entrava nos assuntos. Deu nome pras serras todas, falou das várias cachoeiras no entorno e disse que o nome do lugar era mesmo Conquista, por causa do ribeirão. Fiquei curioso com sua idade. “Eu nasci em 1927. Tenho 89 anos. É. Nascido e criado aqui, mas morei muito tempo fora. É. Pra cá eu voltei quando casei, em 54. É. Morei em Belo Horizonte também. Ih, você nem sonhava em nascer. Adivinha quando eu mudei pra Belo Horizonte?” Deve ter sido antes de 54… 50?, chutei. “1942. É. Aquilo ali não tinha nem ônibus, era só bonde e transporte no lombo do burro. É”. E ia afirmando depois de cada frase, como que para garantir que a memória não iria falhar. Seu Alberico trabalhava em uma fábrica de trens, montando vagões. Eram preciso 6 homens pra carregar uma roda. “Eu trabalhava ali ainda quando o Getúlio Vargas morreu. Ele morreu em 54. É. 24 de agosto de 54. Quando ele morreu fechou tudo. A gente tava trabalhando ainda quando veio alguém perguntar se a gente não tava sabendo. ‘Getúlio Vargas morreu, mas já vão colocar outro no lugar'”. Nessa hora passa um caminhão carregado de gado. Seu Agripino cumprimenta o motorista e volta pro caso. “No mesmo dia chegou um caminhão com soldado, do tamanho desse aí, carregadinho, eles tudo com fuzil na mão. Mandaram a gente tudo largar as ferramentas. Achei foi bão: fiquei três dias em casa”.

Seu Agripino diz que também lembra de tudo, “deus de que eu tinha 10 anos”. Aos 89 ainda vai na feira em Itabira toda semana. De burro. Vende o que planta “de tudo um pouco: mandioca, inhame, banana” e compra o que precisa. Quando despedimos, eu já com lágrimas nos olhos de emoção, ele me convida a vir uma outra hora, pra gente conversar um pouco mais e ele contar outras histórias.

Quando cheguei em Senhora do Carmo já era meio dia, o sol queimando, eu cansado. A ideia seria ir até Ipoema também por um roteiro alternativo, passando pela Vila de Serra dos Alves , a cachoeira Boa Vista é o Parque Estadual Mata do Limeiro, o que acrescentaria umas 2 horas no percurso. Mas eu estava tão cansado que optei pelo caminho demarcado. Fui mecânico, robótico, movendo as pernas sem motivação só esperando chegar na cidade. A cada parada pra água – com o calor do início da tarde as paradas eram frequentes – eu voltava a caminhar como o Kevin Spacey no final de Os Suspeitos: primeiro meio torno, cambaleando, arrastando as pernas, e só depois me acertava e pegava o ritmo.

Quando cheguei a Ipoema liguei pra uma das pousadas, a Quadrado. Aceita cartão? Aceita. Tem vaga? Tem. Então tô indo.

Nem do portão passei, quando o dono jogou por água abaixo os 500 anos de hospitalidade mineira. “Teve um mal entendido. A gente não abre hoje”. E na minha tentativa de mostra que isso acontece mas ele tem que informar melhor os funcionários, me deu as costas e saiu. Males que vem pra bem: tô aqui na muito mais charmosa e barata Tropeiro Real. Só aceita dinheiro, mas o Ronei garantiu que em Bom Jesus do Amparo, meu próximo destino, tem agência do meu banco.