Treinamento de corpo e alma

Existe um grande debate entre as pessoas que tentam fazer uma trilha tão extensa quanto a Appalachian Trail. Para alguns a trilha não exige nenhum treinamento em especial: a própria trilha irá cuidar de deixar seu corpo em forma, pronto para os milhares de quilômetros que estão por vir. Um segundo grupo, no qual me incluo, acha que não: se você quer realmente chegar até o final é bom ir se preparando. Bastante.

Dentre as três grandes trilhas americanas a Appalachian Trail é a menor, mas é também, indiscutivelmente, a que tem a maior variação de altitude. São mais de 500 mil pés de sobe e desce. 16 Everests, eles pregam! E pra enfrentar um monstro desses não dá pra ir despreparado.

Faltando menos de 90 dias para meu início entro na reta final de treinos e exercícios. Reta final porque desde o início de 2016 já venho treinando, de alguma forma, para isso. Primeiro foram os livros, onde tentei entender a trilha. Depois a Estrada Real, que fiz em junho de 2016. Andar aqueles 1200 km foi uma prova: se conseguisse completá-la bem provavelmente conseguiria fazer a AT.

A partir de agora eu divido meu treinamento em três atividades: caminhadas com a mochila, corridas e exercícios físicos.

As caminhadas eu faço quatro vezes por semana. Segundas, quartas e sextas caminho na cidade. Encho minha mochila de livros – Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos são os escolhidos, por motivos óbvios: os 8 livros das duas coleções pesam mais de 8 quilos! – e saio caminhando pela capital mineira. E quem conhece Belo Horizonte sabe que a cidade não é para fracos. Tenho preferência pelos morros do Santo Antônio, Gutierrez e Sion. Ando umas três horas por dia com a mochila nas contas.

Aos sábados as caminhadas são nas várias trilhas nas proximidades da cidade. A do Topo do Mundo até Moeda, por exemplo, é um trilha que muita gente diz ser difícil. Na minha última caminhada resolvi medir a variação de altitude. Pra ir e volta são cerca de 23 quilômetros de distância e um pouco mais de mil metros de subidas e descidas. É daquelas que você chega no final pedindo penico, com tanto morro que atravessa. Gravei o vídeo abaixo explicando um pouco. Veja só:

Olha que coincidência: estou planejando andar a Appalachian Trail por 150 dias, uma média de 23 quilômetros por dia. Exatamente a distância da trilha do Topo do Mundo. E quer saber mais? Se a gente dividir a variação total da AT pelo número de dias que estou planejando caminhar (515 mil pés por 150 dias) vamos ter um ganho ou perda de elevação de 3400 pés por dia. Que são, acredite, 1036 metros. Sacou? Fazer a Appalachian Trail é, na verdade, fazer a trilha do Topo do Mundo até Moeda ida e volta por 5 meses, caminhando todos os dias. Quer saber? Choquei.

Pra encarar isso eu intercalo as caminhadas com mochila com corridas, que faço às terças e quintas. Estou aumentando tanto a distância quanto o ritmo gradualmente. No momento estou fazendo 5 km em 30 minutos e até abril a ideia é correr 15 km duas vezes por semana.

E finalmente, pra conectar isso tudo, tenho feito Gyrotonic, um método de condicionamento físico que foi criado ainda nos anos 70 por um  ex-bailarino romeno. A ideia por trás do Gyrotonic são exercícios fluidos, circulares, de rotação e torção em aparelhos. A ideia aqui é reforçar a musculatura e evitar lesões, um dos motivos que mais tiram os caminhantes da trilha.  Faço também três vezes por semana: vou pras aulas andando, levando minha mochila. As aulas de Gyrotonic são mais ou menos assim:

Não mudei tanto a alimentação. Tenho diminuído o consumo de álcool nessa reta final, mas sem deixar de lado um taça de vinho de vez em quando. Também tenho comido menos carne vermelha e mais vegetais, mas porque sei que durante a caminhada minha alimentação vai se restringir, quase exclusivamente, à macarrão instantâneo, barras de cereais e outras porcarias. Vou tentar me alimentar bem sempre que possível, mas como vou ficar na dependência do que encontrar em cada parada, realmente não sei o que vou comer…

A preparação é pra chegar na trilha no melhor condicionamento físico possível. Sei da dificuldade da caminhada. E quero dar o melhor de mim para chegar ao final no prazo previsto.

Mas o treinamento físico é só uma parte. É preciso se preparar também psicologicamente e emocionalmente para a caminhada. E essa, eu acredito, é a parte mais difícil. Nenhum dos livros que eu li (nem o Appalachian Trials, um guia para se preparar psicologicamente e emocionalmente para a Appalachian Trail)  vai conseguir me deixar pronto pra esse desafio. Eu só vou saber o que é ficar 5 meses longe de casa, no mato, na chuva, no tempo, falando uma língua diferente, comendo comida desidratada, passando sede e perrengues mil, quando realmente passar por isso. Vinte dias do Caminho da Fé? Moleza! 1200 km e um mês na Estrada Real? Fichinha.

Tenho total consciência da encrenca em que estou me metendo. Sei que vai ser mais difícil que estou pensando. Mas tenho meu objetivos claros: sei porque quero fazer a trilha, sei o que vai acontecer se eu conseguir. E sei também o que vai rolar se não chegar no final. Corpo são, mente sã. É assim que quero dar o primeiro passo.

 

Pequeno dicionário Apalache – Português

Vou fazer a AT em 2017. NOBO. Comer GORP por alguns meses, seguindo as White Blazes. Tirar poucos zeros mas alguns neros, de Amicalola a Kathadin, passando por ShenandoahMcAfee Knob.

Não entendeu nada, né? Pois é. Estou tendo que aprender uma nova língua pra fazer a Appalachian Trail. Uma variação do inglês, cheia de palavras, siglas e acrônimos  que nunca tinha ouvido antes, mas que nos últimos meses passaram a fazer parte da minha vida. Assim como em qualquer área, a caminhada pela trilha dos apalaches tem um dialeto próprio, uma língua que só é compreendida 100% por aqueles que vivem na trilha. Já ouviu dois designers conversando? Ou dois médicos? Pois é tipo isso.

E como vou passar cinco meses falando e ouvindo esse dialeto é bem provável que nos próximos textos eu incorpore uma palavra ou outra nos posts desse blog. Então achei melhor começar o ano fazendo esse glossário, um guia para ajudar vocês a não ficarem perdidos. Assim, quando eu começar a falar em “SOBO”, “white blaze” ou “Nero”, vocês vão saber do que se trata. Caso contrário é só voltar aqui e consultar o seu pequeno dicionário Apalache – Português.

Esse glossário vai ser atualizado constantemente, à medida que for me deparando com novos termos ou palavras.

100 Mile Wilderness – O trecho mais rústico e inabitado da trilha, já no estado de Maine. São cerca de 160 quilômetros no mato, sem cidades próximos. 

2.000 Miler – A Appalachian Trail em oficialmente 2189.9 milhas (3524,30 km). Um 2.000 Miler é qualquer pessoa que tenha andado mais de 2.000 milhas da trilha.

Approach Trail – A trilha de aproximação. O início oficial da AT é em uma montanha chamada Springer Mountain, um local difícil de chegar, mesmo de carro. Por causa disso muitos caminhantes preferem começar a trilha no parque de Amicalola Falls, que fica a 8.8 milhas antes do início oficial da trilha.

Aqua Blaze – Num determinado trecho da AT é possível alugar um caiaque e cortar caminho, economizando algumas milhas. Essa prática é chamada de Aqua Blaze (ver também: blaze, blue blaze, pink blaze, yellow blaze)

AT – A abreviatura de Appalachian Trail.

ATC – A abreviatura de Appalachian Trail Conservancy, a confederação das associações responsáveis pela conservação é manutenção da AT. É formada por centenas de voluntários nos 14 estados por onde a trilha passa e é a maior inciativa voluntária do mundo.

AYCE – All You Can Eat. Tudo o que conseguir comer. O tipo de restaurante predileto dos caminhantes.

Base Weight – Peso Base – O peso da mochila com tudo o que você estiver carregando, exceto água, comida e combustível, que são variáveis.

Bear Bag – a forma mais comum de deixar os ursos longe de sua comida é colocando tudo aquilo que tem cheiro em um saco e dependurar isso em uma árvore à uma distância segura do acampamento. O Bear Bag (sacola do urso) é o saco onde os caminhantes deixa a comida. (ver também Bear Canister, Ursack)

Bear Canister – Um bear canister é um recipiente de plástico extremamente duro à prova de ursos. Você coloca sua comida e tudo que tiver cheiro (pasta de dente, cremes etc) dentro, fecha e coloca a uma distância segura de seu acampamento. Só é obrigatório em um pequeno trecho da Appalachian Trail.

Big 3 – Mochila, barraca e saco de dormir. Os três itens mais pesados que você carrega são chamados assim.

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Olar. Eu sou uma White Blaze.

Blaze – As blazes (chama ou brilho) são as marcações que você segue na trilha. A marcação oficial da AT são as White Blazes, um retângulo branco de 5 x 15 cm pintado em árvores, pedras e placas pelo caminho. São aproximadamente 165 mil white blazes pela trilha, a uma distância média de 20 metros entre uma e outra. Veja também: Blue Blaze, Double Blaze, Yellow Blaze, Pink Blaze, Aqua Blaze)

Blue Blaze – Trilha não oficiais próximas à Appalachian Trail são pintadas de azul. São as Blue Blazes. Levam a cabanas, lagos, mirante ou são simplesmente atalhos. Quem se aproveita desses atalhos é chamado de Blue Blazer.

Bounce Box – Como o acesso a comida de qualidade pode ser difícil na trilha os caminhantes têm o habito de empacotar aquilo que sentem falta, colocar em uma caixa e enviar pelo correio para uma agência próxima à trilha. Chegando lá eles tiram o que querem, fecham a caixa e enviam novamente para a próxima cidade. E assim vai até o final da caminhada. Essa caixa é chamada de Bounce Box (ou caixa pula-pula) (veja também: Mail Drop)

Cat Hole – Buraco de gato. A sua privada, na maior das vezes. O Cat Hole é o buraco que você cava para encobrir suas vezes no meio do mato.

Damascus – Uma cidade com menos de mil habitantes no estado da Virgínia por onde a trilha passada. É considerada a capital da Appalachian Trail.

Double Blaze – Duas marcações, uma acima da outra, mostrando uma mudança de direção na trilha.

Duct Tape – A nossa Silver Tape, uma fita adesiva grossa e resistente, a senhora das trilhas, salvadora em todas as situações, seja cobrir uma bolha no pé ou um tênis rasgado.

Flip-Flop – Um forma alternativa de fazer a trilha, começando em algum trecho na metade e seguindo até o final (ou o início) e depois fazendo a metade restante. A vantagem do flip-flop é evitar um grande número de caminhantes e temperaturas muito frias ou muito quentes. (ver também: SOBO, NOBO)

GORP – Good old Raisin and Peanuts – O bom e velho passas e amendoim. Ou qualquer variação de mix de frutas secas, o lanche mais consumido pelos caminhantes durante o dia.

Kathadin – a montanha onde a trilha termina no norte, no estado americano de Maine.

Hiker Box – caixas ou containers deixados na trilha onde os caminhantes podem descartar coisas que não querem mais (comida, equipamentos etc) mas podem ser utilizados por outras pessoas.

HYOH – Hike Your Own Hike – Trilhe Seu Próprio Caminho. A frase mais usada pelos caminhantes. Cada um na sua. Pra mim soa como uma forma bem educada de dizer “ei, foda-se”. Por exemplo, se alguém começa a dar palpites sobre seu ritmo de caminhada ou o equipamento que está levando é só soltar um “Hey, Hike your Own Hike my friend”. O que pra mim soa como “Qualé, meu irmão. Vai se foder e me deixa na minha”. 😀

Lyme Desease – A doença do carrapato. Esse é meu maior medo na trilha. É causada pela picada do carrapato, comum em alguns trechos mais ao norte.

Mail Drop – As encomendas que os caminhantes recebem durante a caminhada, seja em correios ou entregues em albergues. Podem conter comida, equipamento, cartas etc. Normalmente são enviadas por algum familiar do caminhante. (veja também: bounce box)

McAfee Knob – Certamente o lugar mais fotografado da trilha. Fica no estado de Virgínia. Saca só:

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Mountain Money – Dinheiro da Montanha – uma gíria para papel higiênico.

Nero – Near Zero – um dia onde o caminhante anda pouco, acrescentando quase nada na sua caminhada (veja também: zero)

NOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Sul-Norte (Georgia-Maine). Este é o sentido mais popular. Eu sou um NOBO. (veja também: SOBO, Flip Flop)

Pink Blaze – Quando uma pessoa passa a seguir outra na trilha com intenções, digamos, mais íntimas.

Privy – Privada. Pode ser encontrada em alguns abrigos pelo caminho.

Purist – Puritano – Um caminhante que passa por todas as marcações brancas (white blaze), sem desviar o caminho ou pegar atalhos.

Section Hiker – Todo caminhante que faz um trecho da trilha. Muitas pessoas fazem um trecho diferente por ano e completam a Appalachian Trail depois de diversos anos. (veja também: thru hiker)

Shelter – Abrigo. São cerca de 260 em toda a AT (uma média de um a cada 14 quilômetros). Os abrigos são, na maioria, construções simples de madeira, sem porta, nem energia elétrica e muitas vezes sem instalação sanitária. Por outro lado são infestados de ratos.

Shenandoah – Um parque nacional que a Appalachian Trail cruza, no estado da Virgínia.

Slack Packing – Alguns caminhantes deixam a mochila em algum hotel ou albergue e fazem trechos da trilha sem carregar o peso dos equipamentos. Essa prática é chamada de Slack Packing

SOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Norte-Sul (Maine-Georgia). (Veja também: NOBO, Flip Flop)

The Whites – A abreviatura das White Mountains, no estado de New Hempshire. O trecho, de pouco mais de 100 milhas, é considerado por muitos um dos mais difíceis da AT.

Thru Hiker – Todo caminhante que faz a trilha completa, do início ao fim, em uma temporada. (veja também: section hiker)

Trail Angel – Pessoas que de alguma forma ajudam os caminhantes. Seja com a distribuição gratuita de comida e bebida, seja com carona. Muitos Anjos são ex-thru hikers (veja também: Trail Magic)

Trail Magic – Os “presentes” que são deixados pelos Anjos para os caminhantes. Pode ser comida (muitos fazem churrasco ou cachorro quente) ou bebidas (o que melhor que uma cerveja gelada depois de alguns quilômetros caminhando?). 

Trail Name – Uma das tradições da AT é que você precisa ter um nome de guerra, um apelido. Isso é seu Trail Name. O caminhante pode escolher. Ou o nome pode ser imposto: nesse caso quase sempre acontece quando você faz uma besteira. Não quero passar por isso. Ainda não decidi o meu, mas tenho umas ideias.

Ursack – O Ursack tem o mesmo objetivo do Bear Canister: um recipiente à prova de ursos. A diferença é que ele é feito de um tecido ultra resistente, mais leve que o Bear Canister. É colocar a comida dentro e amarrar o saco em uma árvore.

Vitamin I – Vitamina I – A gíria para Ibuprofeno, um analgésico muito utilizado para dores musculares e nas articulações.

Yellow Blaze – é a gíria para carona, porque as marcações na estrada são pintadas em amarelo. Quem pega carona na trilha é chamado de Yellow Blazer.

Yo-Yo – Completar a trilha inteira e quando chegar ao final voltar até o início. Pois é. Tem gente que tenta fazer isso.

Zero – um dia de descanso, onde o caminhante acrescenta zero milhas na jornada.

Cinco livros sobre a Appalachian Trail

Quando decidi me mudar pra Austrália algum amigo (quem foi hein?) me indicou um livro chamado In a Sunburned Country. Já tinha ouvido falar do autor, um tal de Bill Bryson, por causa de um outro livro seu que tinha sido lançado no Brasil, o Uma Breve História de Quase Tudo (Companhia das Letras, 2005). Já havia gostado da forma crítica e do humor cítrico do autor, que intercalava fatos históricos e piadas no tom e no momento certo. O relato da sua viagem pela Austrália descrevia o país de uma forma peculiar. E descobri aí que aquele não era seu único relato de viagem: ele também já havia escrito sobre a África, a Europa e os Estados Unidos, onde havia nascido, apesar de ter passado boa parte da vida na Inglaterra. Pra minha surpresa um desses livros de relato de viagens também havia sido lançado por aqui. Chamava Uma Caminhada pela Floresta: Redescobrindo os Estados Unidos pela Appalachian Trail (Companhia das Letras, 1999) e foi a primeira vez que ouvi falar da trilha.

Boa sorte se for tentar achar a edição em português do livro. Sugiro começar pela Estante Virtual, onde vez e outra aparece um pra venda. Fora isso não existe mais nada sobre a trilha publicado em nosso idioma. Nem na Internet: tente procurar “Appalachian Trail” no Google em sites brasileiros e você vai se deparar com basicamente essa matéria sobre a morte da Geraldine Largay, que foi publicada em 2016 no Portal Extremos (eu falei sobre a Geraldine e outras pessoas que morreram na trilha no meu post passado, você viu?)

Mesmo quando se muda a pesquisa para “trilha apalache” os resultados são poucos: aumentam por causa do filme mais recente e pouco inspirado do Robert Redford, baseado no livro do Bill Bryson. E por causa de um episódio de Criminal Minds que se passa na trilha: uma obra de ficção alarmista, que os parentes e amigos de quem pensa em fazer a caminhada não devem assistir.

Quando comecei minha pesquisa não conseguia achar nem informações sobre alguma pessoa nascida no Brasil que já tenha feito a trilha. Só esse ano fiquei sabendo que Elaine “Brazil Nut” Bissonho completou a Appalachian Trail em 2011. Antes ela já tinha feito a Pacific Crest Trail e no ano seguinte a Continental Divide Trail, o que a coloca como uma das raras pessoas no mundo a ter feito a Tríplice Coroa das trilhas de longa distância. Mas só foi possível chegar a essa informação porque ela está no site da ALDHA – American Long Distance Hiking Association (Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância). E por causa disso tem uma breve nota sobre ela também no Extremos, publicada em março deste ano. E é isso. Nada mais sobre seu feito está disponível na web brasileira. E sobre a Appalachian Trail, como eu disse, tem bem pouco.

Mas a história poderia ser diferente. Charles Casey Reese, um ex-voluntário da Appalachian Trail Conservancy e hoje biólogo da National Park Service, o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, esteve por aqui ainda em 2007 dando um workshop em São Paulo sobre Trilhas de Longas Distâncias. O evento era parte do Seminário Internacional Trilhas de Longo Percurso, que contou ainda com representantes do Chile e de parques brasileiros como a Serra dos Órgãos. A fala de Reese foi focada na AT, na importância dos voluntários e no trabalho da Appalachian Trail Conservancy. Não estive no evento (consegui apenas ter acesso ao Powerpoint que Reese utilizou), mas gosto de imaginar que foi nessa palestra que Elaine ouvi sobre a trilha e decidiu fazê-la.

Bill Bryson: A Walk in the Woods

Com a pouca repercussão do workshop, hoje em dia para saber mais sobre a Appalachian Trail a saída é buscar informação em sites e livros em inglês. Aí sim o universo é vasto. São dezenas de sites, blogs e livros sobre o assunto. Eu divido os livros em três categorias: guias, relatos e romances. É nessa última que o livro de Bill Bryson (A Walk in the Woods no original) se encaixa. Ele é certamente o livro de maior sucesso, aquele que desperta na maioria das pessoas o desejo de fazer a trilha. A fama da Appalachian Trail em anos recentes é muito por conta da influência do livro, assim como Wild, da Cheryl Strayed fez com a Pacific Crest Trail ou o Diário de um Mago, do Paulo Coelho, com o Caminho de Santiago.  Nos romances também se encaixa o livro que estou tentando ler agora: Trail Danger: A Tale of Love and Suspense on the Appalachian Trail, de Anne Perkins. Mas esse é uma bobagem que o melhor a fazer é passar longe.

Bill Walker: Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail 

Gary Sizer: Where´s the Next Shelter?

Alguns dos relatos mais interessantes são escritos por Bill Walker (Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail) e Gary Sizer (Where´s the Next Shelter?). Walker é um gigante com dois metros e dez de altura que conta sua caminhada de 2005. O livro é agradável e o autor consegue fazer graça com sua altura incomum. Gary “Green Giant” Sizer, outro grandalhão, fez a trilha em 2014. Seu livro conta sua aventura e dos amigos que fez na trilha. Como ele mesmo diz, parece piada: um engenheiro, uma colegial e um soldado israelense que sonha ser cartunista… O livro é inspirador e bem inscrito, mas a autor conseguir repercussão mesmo por causa de suas fotos de antes e depois da Appalachian Trail que ele publicou do Reddit. Saca só:

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David “AWOL” Miller: AWOL on the Appalachian Trail

Outro relato essencial é o de David “AWOL” Miller. Seu livro AWOL on the Appalachian Trail conta sua caminhada pela trilha em 2003. Se não bastasse ter escrito um dos melhores relatos sobre a trilha, o ex-programador de computadores fez mais: é dele o guia usado por 9 entre 10 pessoas que pensam em fazer a trilha. Chamado simplesmente de The AT Guide, traz informações sobre pontos de água, cabanas, distâncias, elevações e quanto falta para a próxima cidade. É fundamental, mas não é um livro de leitura e só é útil quando você estiver na trilha. Aliás, você não precisa de mapa nem bússola para fazer a Appalachian Trail, mas vai ser difícil chegar ao final sem o AT Guide.

Zach Davis: Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail

Outro guia que tem me ajudado bastante é o escrito por Zach Davis. Como diz o título,  Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail é justamente isso, um guia para te preparar psicologicamente e emocionalmente para o desafio. Apesar de ser focado na AT, não serve só pra ela: as informações de Davis podem ser úteis para qualquer aventura. Outro nerd saído da frente de um computador para o meio do mato, Zach Davis transformou seu livro em outro produto: o excelente site The Trek , onde é possível  encontrar relatos de outros caminhantes, informações sobre equipamentos, blogs, mapas interativos e informações  que podem ser úteis para quem deseja fazer uma caminhada de 5 meses ou 5 dias.

Todos os livros estão disponíveis na Amazon, alguns gratuitos para quem faz parte do Kindle Unlimited. Se tem interesse pela caminhada, recomendo a leitura. O Powerpoint com a apresentação de Casey Reese em São Paulo em 2007 pode ser encontrado aqui. Boa leitura.

Crimes e mortes na Appalachian Trail

Se a Appalachian Trail é perigosa? Estatisticamente não. Por causa disso não é recomendado levar uma arma, nem uma faca, nem usar repelente de urso. Particularmente não me preocupo com os rednecks do sul dos Estados Unidos, nem com os malucos na estrada, nem com os mountain men e suas plantações de ginseng, como um amigo me alertou no Facebook. Mas natal taí, vou encontrar minha família inteira, sei que eles vão perguntar sobre isso (“Jeffinho! Você vai sozinho? Não é perigoso?”) e pra não ter que contar as mesmas coisas para cada um dos meus 8 irmãos resolvi levantar aqui algumas mortes que aconteceram na trilha escrever sobre os assassinatos é uma forma de exorcizar o medo de passar cinco meses longe de tudo e de todos.

O número de crimes ou mortes me surpreendeu. Veja bem: nos últimos 70 anos mais de 15 mil pessoas já completaram a trilha. Se, de modo geral, menos de 20% dos que começam terminam, é provável que quase 100 mil pessoas já tenham tentado fazer a AT inteira, cruzando os 3500 km e os 14 estados. Além disso um número muito, mas muito maior de pessoas faz trechos menores da trilha. Algo em torno de 3 milhões de pessoas anualmente, segundo algumas estatísticas. É gente que faz caminhadas de final de semana ou de alguns dias por algum dos parques federais por onde a trilha passa. E ainda assim o número relatado de crimes e mortes na AT é incrivelmente baixo. Desde 1975 foram apenas onze assassinatos. A grande maioria, infelizmente, de mulheres.

Geraldine “Inchworm” Largay, 2015

532710_479841_largay_01__4_-e1464216502779As estatísticas mostram que anualmente cerca de 25 pessoas se perdem na trilha. Quase todos são encontrados depois de alguns dias. Mas esse não foi o caso de Geraldine Largay. Em 2013 ela se perdeu depois de sair da trilha pra ir ao “banheiro”. A ex-enfermeira tinha 66 anos e já tinha andando mais de 1500 quilômetros. Tentou entrar em contato com o marido pelo celular e não conseguiu sinal. Quando teve certeza que estava perdida, começou a tomar nota e deixar recados no seu caderno. A última anotação dizia: “Quando encontrar meu corpo, por favor ligue para meu marido George e milha filha Kerry. Vai ser importante pra eles saberem que estou morte e onde fui encontrada – não importa quando anos tenham se passado”. Seu corpo foi encontrado em 2015, a menos de meia hora de caminhada da trilha. Ela havia sobrevivido por 26 dias antes de morrer.

James “Bismark” Hammes, 2014

James Hammes não morreu na Appalachian Trail. Mas passou seis anos na trilha. Mas também não estava perdido. Sua história é daquelas de filme.

Ele trabalhou mais de uma década como gerente de uma subsidiária da Pepsi. Em fevereiro de 2009 foi interrogado pelo FBI pelo desvio de mais de 9 milhões de dólares. Negou todas as acusações. Mas no dia seguinte desapareceu. E entrou para a lista dos mais procurados do FBI.

James abandonou a família, adotou o nome Bismark e passou a morar na Appalachian Trail. Foi descoberto em 2014 quando outro caminhante reconheceu o companheiro em um programa de tv. Foi preso na Virginia em 2015 e condenado a 9 anos de prisão, além da devolução de mais de 8 milhões de dólares.

Scott “Stonewall” Lilly, 2011

O corpo de Scott Lilly foi encontrado por outros caminhantes em agosto de 2011 também na Virgínia. A causa da morte foi determinada como asfixia. O assassino nunca foi encontrado. Scott tinha 30 anos.

Randall Lee Smith, 2008

Quando Randall Lee Smith foi preso por disparar sua espingarda em dois pescadores próximo à Appalachian Trail em 2008 ninguém imaginava o que mais havia por trás daquela história. Os pescadores eram amigos de Randall, que depois do jantar disparou dois tiros em cada. Os pescadores sobreviveram. Randall fugiu da cena do crime na caminhonete de uma das vítimas, capotou o carro e morreu. Mas aquele não havia sido o primeiro crime dele. Ela havia sido sentenciado a 30 anos de prisão em 1981 pelo assassinato de dois caminhantes da Appalachian Trail, Robert Mountford Jr. e Laura Susan Ramsay. O crime foi similar: convidou os dois a sua cabana, atirou em ambos e enterrou os corpos no quintal. Foi descoberto e preso. Estava livre desde 1996, quando completou metade de sua sentença.

Louise Chaput, 2001

A canadense Louise Chaput, então com 51 anos, foi esfaqueada até a morte na região das White Mountains. O assassino nunca foi encontrado.

Julie Williams e Lollie Winans, 1996

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Julie Williams e Lollie Winans tiveram suas gargantas cortadas quando faziam a trilha na região do Parque Nacional de Shenandoah. O caso continua aberto, mas o crime tem um suspeito: Darrell David Rice. Ele foi condenado por outro assassinato, mas não pode ser condenado pela morte de Julie e Lollie por falta de provas científicas.

Molly LaRue e Geoff Hood, 1990

http-cdn-coresites-factorymedia-com-mpora_new-wp-content-uploads-2015-10-molly-larue-geoff-hood-mount-katahdin-680x383Molly e Geoff faziam a Appalachian Trail quando foram assassinados por Paul David Crews na Pennsylvania em 1990. Geoff foi morto com um tiro. Molly estuprada e torturada antes de morrer. O assassino continuou a caminhada pela trilha, até ser preso uma semana depois.

Rebecca Wight e Claudia Brenner, 1988

As namoradas Rebecca Wight e Claudia Brenner faziam sexo na floresta quando foram atingidas pelas balas do rifle de Stephen Roy Carr. Rebecca levou um tiro fatal. Claudia levou cinco e conseguiu sobreviver. Andou três milhas até encontrar um policial. Carr se escondeu por dez dias em uma comunidade cristã. Foi preso e alegou distúrbios sexuais por ter cometido o crime. Ele continua na prisão.

Janice Balza, 1975

A caminhante Janice Balza foi assassinada por Paul Bigley em 1975. Ele tentava roubar sua mochila.

Joel Polsom, 1974

Foi assassinado em uma das cabanas da Appalachian Trail por Ralph Fox.

 

AT: Preparações

Ao mesmo tempo que me recupero fisicamente dos 1200 km da Estrada Real estou na preparação psicológica e na contagem regressiva para a Appalachian Trail 2017 (faltam 270 dias).

As unhas ainda estão no cai-não-cai: por enquanto só a 5 se desprendeu, mas a 4 e a 7 estão roxas. Os pés já não doem e as bolhas se curaram, o que me deixou com um casco no solado. Os joelhos também estão bem, mas vez ou outra um deles dói um pouco, o que me deixa preocupado. Mas a dor logo passa, eu esqueço e não me incomada mais.

Foram duas palestras até agora, a terceira por vir. A primeira, no Guaja, foi excelente. Público interessado, boas perguntas, bom bate papo. A segunda, na Sincero, nem tanto. Muita conversa paralela e eu não estava nos meus melhores dias. Acho que poderia ter sido melhor. A próxima é em Divinópolis, no dia 6 de agosto. E promete: a tarde, em uma livraria, um clima mais adequado.

As vendas do zine estão indo muito bem (na verdade a primeira edição está praticamente esgotada) e as cobranças para um livro continuam. Acho que dá pra intercalar causos e um guia melhor que os atuais. Ainda preciso pensar e formatar melhor a ideia, mas é algo que acredito que possa acontecer.

E enquanto isso passo as tardes tentando decidir qual o melhor tênis, a melhor barraca, o melhor fogareiro, se preciso de outra mochila, se uso isolante inflável ou de enrolar, se levo só o guia em pdf ou também impresso, se compro mais um carregador portátil, se levo só celular para as fotos ou também um câmera e se levar câmera compro uma point-and-shot ou mirrorless… Até setembro compro o que falta e até lá quero ter tudo muito bem definido. Claro que vou querer trocar alguma coisa no meio da viagem, mas o ideal é ir com tudo o mais acertado possível.

O que mais dá dor de cabeça é a logística de alimentação. Mas já decidi que não vou usar o sistema de enviar caixas pra mim mesmo pelo correio. Vou comprar o que preciso a medida que estiver viajando, tentando manter os pesos – meu e da mochila – sempre o mais baixo possível. Acho que esse é o melhor sistema pra quem não pode perder tempo como eu. Talvez seja um pouco mais caro, mas não vou correr o risco de ficar esperando uma caixa chegar em uma cidade nada a ver. Também não quero correr o risco de comer sempre a mesma coisa durante toda a viagem…

E decidi também que como preparação vou fazer mais uma viagem relativamente longa aqui no Brasil. Tanto no Caminho da Fé quanto na Estrada Real o trecho mais desafiador foi o da Serra da Mantiqueira. Assim, estou elaborando um roteiro Transmantiqueira, primeiro cruzando a serra sul-norte de São Francisco Xavier a Monte Verde e depois seguindo sentido oeste-leste, até Aiuruoca. Em parte esse é o roteiro que o Pablo Bucciarelli fez em 2015, com algumas variações de percurso e decisões: ele começou em Monte Verde e não passou por algumas trilhas que vou passar. Eu vou andar um pouco mais que ele, vou carregar mais peso e certamente vou gastar três vezes o tempo que ele gastou. Ao contrário do aparato que ele montou, não tenho equipe de apoio, vou acampar e carregar meus alimentos, assim como vou fazer na Appalachian Trail. Também não vou ter fotógrafo, nem assessor de imprensa, nem piloto de drone para registrar a jornada. O que é uma pena. Os registros que a equipe do Pablo fizeram são ótimos.

Meu objetivo inicial é fazer os mais de 400 km do percurso em 20 dias. A altimetria é um fator importante: o percurso tem um variação de 14000 metros pra cima e pra baixo. Quase um Everest e meio. Passo por três dos pontos mais altos do Brasil, todos ali na divisa de Minas, São Paulo e Rio. Nesses 20 dias planejados não cruzo mais que 5 cidades, e talvez passe pelo mesmo número de vilas ou distritos. No geral, estou buscando algo similar ao que vou encontrar nos Estados Unidos. Vou precisar andar com comida para 3 ou 4 dias, além de 3 ou 4 litros de água diariamente. Nas três semanas de viagem devo dormir em pousada duas ou três vezes – ou uma vez por semana, como espero fazer lá. Em média serão 20 quilômetros por dia, também o que espero fazer por lá. E pode parecer estranho, mas queria pegar algum dia de chuva, o que com certeza vai acontecer na Appalachian.

Se tudo correr como o planejado, saio no início de outubro. Vou informando o andar da carruagem por aqui.

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Inspirações: Sarah Marquis

sunset-plateau.jpgVervey é uma pequena cidade suíça com 15 mil habitantes. É um local agradável, cercado de um lado por vinhedos reconhecidos como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco (os vinhedos de Lavaux crescem em terrenos íngremes, quase escadarias, em uma técnica única, que rende alguns dos melhores vinhos brancos do mundo) e por outro pelas águas do Lago Genebra. Em suas ruas estreitas estão prédios antigos e atrações como o Museu do Alimento: é por causa dele que existe um garfo gigante cravado nas águas do lago. Foi ali também que surgiu a Nestlé e onde o diretor Charles Chaplin escolheu passar os últimos anos de sua vida. Dali a Montreaux, terra do famoso festival de jazz, são apenas 10 minutos de trem. Vervey é o tipo de lugar onde você chega e não quer mais sair. Exceto Sarah.

Sarah Marquis cresceu em Montsevelier, uma vila com pouco menos de 500 moradores no norte da Suíca e morou em Vervey por boa parte de sua vida. Conhecia suas ruas e seus habitantes, incluindo o dono do mercado de frutas e verduras orgânicos onde costumava fazer compras. Certo dia, no caminho pro mercado, se deparou com cartaz que mostrava imagens das planícies da Mongólia. “É pra lá que eu vou”, ela pensou. E foi.

Em 20 de junho de 2010 ela completaria 38 anos. Neste mesmo dia ela chegou na cidade de Irkutsk, na Sibéria. O clima nesta época do ano é agradável naquela parte da Rússia: por volta dos 10 graus. Da Rússia ela seguiu a pé, rumo ao sul. Ela carregava sua mochila com 35 quilos de equipamentos e mantimentos.

Poucos dias depois de começar sua jornada o termômetro marcava 20 graus. Negativos. Na Mongólia, o país que motivou sua viagem, durante várias noites sua tenta foi cercada por bêbados montados em cavalos. Sabe Marco Polo, a série de TV? Era mais ou menos aquilo. Cavaleiros mongóis chapados de Chinggis, a vodka local, cercando o acampamento de uma mulher solitária. Imagina a cena… Ela cruzou o país e continuou caminhando até chegar ao deserto de Gobi, na divisa com a China. E não parou: atravessou os países do sudeste asiático e em maio de 2013 chegou à Nullarbor Plain, sul da Austrália Ocidental.

Este não foi o primeiro passeio de Sarah. Nos anos anteriores ela já havia percorrido a Patagônia argentina e os quase 4.200 km da Pacific Crest Trail nos Estados Unidos. Ela também tinha dado uma volta na Austrália. Literalmente: foram 14.000 quilômetros de caminhada. Desta vez, entretanto, ela havia se superado. Depois de dois anos de preparação e mais de 1.000 dias de caminhada, Sarah havia percorrido 25 mil quilômetros. A pé. Além da realização pessoal, Sarah Marquis foi eleita em 2014 ‘Aventureira do Ano’ pela revista National Geographic*.

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Marquis, Sarah: Wild by Nature: From Siberia to Australia, Three Years Alone in the Wilderness on Foot, Thomas Dunne Books, London, 2016