Inspirações: John Francis

John Francis, Planetwalker, Wood RIver Valley, Idaho

John Francis, andarilho, Wood River Valley, Idaho

Na madrugada de 18 de janeiro de 1971, sob um intenso nevoeiro, dois navios entram na baía de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos.

O SS Arizona Standard era um navio tanque, pertencente à Standard Oil Company of California. A Standard Oil original havia sido fundada em 1870 pelo milionário John D. Rockfeller. Em 1904 controlava 91% da produção e 84% das vendas de petróleo nos Estados Unidos. Mas em 1911 a Suprema Corte decidiu que o monopólio de Rockfeller era inconstitucional e a empresa deveria ser dividida. Dentre as 34 empresas que surgiram da divisão estão a Esso, a Mobil e a Chevron, o nome-fantasia da Standard Oil Company of Califórnia. O Arizona Standard havia saído carregado da Estero Bay com destino às docas da empresa em Long Wharf, em Richmond, localizado já na baía de San Francisco. O segundo navio era do mesmo modelo: um navio tanque T-2 de 153 metros de comprimento e mais de 10 mil toneladas, também pertencente à Chevron. Chamado SS Oregon Standard, ia em sentido contrário: havia saído das docas da Standard Oil com destino ao porto de Bamberton, no estado de British Columbia, no Canadá. Estava carregado com 800 mil galões de óleo bruto.

Quando o Arizona Standard deixou o porto em Estero Bay, no condado de San Luis Obispo, também na Califórnia, o tempo era bom. Era início da  tarde do dia 17 de janeiro e a viagem até San Francisco era curta. Mas quando o navio se aproximava da baía, pouco depois das 10 da noite, um grande nevoeiro começou a se formar. A maré subiu, a corrente começou a puxar na direção nordeste e do navio não se podia mais ver a cidade, encoberta pela névoa. O capitão reduziu a velocidade e soou o alarme de nevoeiro. Ao mesmo tempo ele ouvia pelo rádio da embarcação que o Oregon Standard havia deixado o porto de Richmond.

Com a visibilidade comprometida, o Arizona entrou no canal exatamente à 1 da manhã. Meia hora depois os dois navios se chocavam, a poucos metros da famosa Golden Gate e da ilha de Alcatraz. Em consequência do choque o Oregon Standard derramou na baía sua carga, 800 mil galões de petróleo bruto.

A acidente gerou uma onda de voluntariado só vista no terremoto que devastou San Francisco em 1906. Apesar de ninguém na tribulação dos dois navios ter se machucado, os danos para o meio ambiente foram incalculáveis. Mais de 4000 aves foram resgatadas, mas como havia pouca informação sobre como limpar aves sujas de petróleo apenas 300 sobreviveram. O acidente motivou a criação da International Bird Rescue, uma organização não-governamental especializada no reabilitação de aves afetadas por derramamento de óleo. Desde 1971 a ONG trabalhou em mais de 200 derramamentos em todo o mundo.

Na manhã seguinte ao acidente o jovem John Francis cruzava a Golden Gate de carro com um amigo quando viu o estrago ambiental causado pelo acidente. Foi ali que ele decidiu que não iria mais andar em veículos motorizados. Nada de carro, moto, ônibus, caminhão. Nem dirigindo, nem de carona, em nenhum veículo fosse movido a petróleo. Ele tinha 24 anos.

Três anos depois, quando fez 27, John decidiu que iria passar um dia sem falar. Acordou e nesse dia ele apenas ouviu. Sem dizer uma palavra. Ele conta que foi uma experiência marcante, “porque, pela primeira vez, eu comecei a ouvir”. Então ele decidiu ficar mais um dia em silêncio. E mais um. E outro. E assim não disse nada nos 6200 dias seguintes (isso são 17 anos, se você fizer a conta).

Ele também resolveu fazer um curso de gradução em meio ambiente na universidade de Ashland, no Oregon, a 800 quilômetros de sua casa na Califórnia. John foi pra aula a pé. Depois dos dois anos de curso ele seguiu para Port Townsend, no estado de Washigton. De lá a Idaho, e de Idaho a Montana, onde onde, dois anos antes, havia se inscrito em outro curso. Sem dinheiro, ganhou bolsa para uma única matéria, com aulas práticas na América do Sul. John veio de barco à vela até a Venezuela. E de lá, a pé veio ao Brasil e continuou até a Argentina, Chile e Bolívia. Também a pé cruzou a ilha de Cuba, onde estou agricultura orgânica e desenvolvimento sustentável.

Ele voltou a falar em 1990, depois de 17 anos de silêncio. E se tornou embaixador das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Criou a fundação Planetwalker (Planetwalker: 17 Years of Silence, 22 Years of Walking é o nome de sua autobiografia) e ajudou o governo americano a escrever políticas e leis sobre o derramamento de petróleo. Tudo isso porque John resolveu deixar o carro de lado e andar.

Se você ficou curioso com a história dele, veja – e ouça – sua palestra no TED.

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A trilha da trilha

A mais óbvia de todas as músicas de qualquer pessoa que gosta de caminhada, hiking, trekking ou qualquer coisa parecida. Tudo por causa do refrão: “e eu vou andar 500 milhas, e então vou andar mais 500 milhas…”.

Pois é. No meu caso vou andar 500, mais 500, mais 500, mais 500 e mais 190…

 

A trilha da trilha

Eu fico pensando como vai ser depois que chegar, que tiver completado a trilha, que estiver no alto do Katahdin (se é que vou chegar ao topo do Katahdin). Fico pensando nos amigos, na família, no que aconteceria se eu desistisse e na primeira vez que encontrar essas pessoas depois do final da trilha.

“O amor verdadeiro vai me encontrar no final”, é isso que eu penso…

A trilha da trilha: Maine

Quando você estiver lendo este post eu devo estar chegando aos Estados Unidos. Saí ontem, segunda, dia 10 de abril, de Belo Horizonte rumo a Orlando. De lá sigo de ônibus até Jacksonville, também na Flórida, e depois para Atlanta, onde uma van vai me levar até o parque de Amicalola Falls. É ali onde realmente começo a jornada.

Cruzar os Estados Unidos por 14 estados, andar 3.500 quilômetros e chegar ao topo de uma montanha quase só de pedras. Andar por 150 dias na floresta, fazer novos amigos, ver animais como ursos e alces em seus habitats naturais, explorar uma das maiores e mais antigas trilhas do mundo. Esse é o plano para os próximos cinco meses.

Venho postando aqui músicas que representam um pouco essa jornada. Ou melhor: que representam os estados por onde essa jornada passa. Alguns vão dizer que A Horse With No Name, do America, não seja uma boa faixa para encerrar o playlist. Mas pra mim tanto a letra (“Na primeira parte da jornada eu estava olhando para toda vida. Havia plantas, pássaros, pedras e coisas…“) ao nome da banda e ao estilo musical, tudo nela representa bem o que espero encontrar pelas próximas semanas. Mesmo que a música não seja sobre a Appalachian Trail. E mesmo que eu não esteja no deserto. Ou a cavalo… Mas vocês entederam o recado.

Vocês vão poder acompanhar a jornada por aqui, no Instagram, nos podcasts com o Portal Extremos, no Twitter. Vou tentar deixar vocês atualizados o máximo possível.

 

A trilha da trilha: New Hampshire

Outra banda que ouvi muito, mas que nos últimos discos deixei de escutar. Essa New Hampshire, do Sonic Youth, é do Sonic Nurse, de 2004. Não ouvi esse disco tanto quanto o Sister ou o Evol ou o Dirty ou o Goo ou o Washing Machine ou o Experimental Jet Set, Trash and No Star… Caramba, como essa banda tem disco bom, né não??

Inspirações: Gustavo Ziller

A história do Ziller é impressionante. Não só a história do montanhista, mas sobretudo sua história de vida e de como se apaixonou pelas montanhas.

gustavo-ziller.jpgBem resumido: o cara cresceu agitando o meio musical de Belo Horizonte, com banda, festas, bares e emissora de rádio. Criou uma empresa pra desenvolver aplicativos, quando isso ainda estava engatinhando. A empresa cresceu e o cara se mudou pra São Paulo com a família – parte importante em toda trajetória – até o dia em que teve um piripaque. Deu biziu, o sistema bugou e parou de funcionar e as opções eram tomar remédio pelo resto da vida ou mudar de vida.

A história toda é contada em detalhes no primeiro livro dele, Escalando Sonhos, que tá disponível baratinho na loja da Amazon. Sugiro que vá lá agora e compre. Agora. Vou esperar aqui…

Comprou?

Então vamos continuar.

Eu tive o privilégio de acompanhar de perto parte da história dela: sua banda, Zippados, tocou em algum dos shows que a Motor Music, minha produtora/loja/selo produziu (se não me falha a memória, com o Mudhoney, em 2001). Eu discotequei em algumas de suas festas do Movimento Balanço e tive um programa na sua rádio (o Baticum, na Savassi FM). Vi o cara migrar do outdoor (os cartazes mesmo) ao digital. Sempre acompanhei a movimentação que ele aprontava com admiração e curiosidade: o cara sempre conseguiu transformar tudo o que botava a mão. Saca o milagre da multiplicação dos pães? Sabe Midas? Era tipo isso. Sua festa não era uma festa qualquer: virou a festa mais badalada da cidade. O mesmo aconteceu com seus bares. E sua rádio? Como era boa a Savassi FM… O cara sempre foi um fenômeno: focado e determinado, nunca deixou por pouco. Se era pra fazer algo, que essa algo fosse o melhor no que se propunha.

E quando decidiu começar a escalar seus sonhos a coisa não poderia ser diferente. A sua mudança de vida começou com o trekking pela base de Annapurna, no Nepal. Poderia ter parado ali, mas vocês já viram que o cara não é fácil… O que era só a caminhada virou um projeto chamado 7 Cumes. O objetivo de Ziller passou a ser escalar o ponto mais alto de cada continente. Justamente ele, que não era profissional… E se não bastasse, o projeto passou a ser não só as escaladas, mas uma série de livros, uma série de TV, um ciclo de palestra, cursos, aulas, o escambau. Até o momento Ziller já subiu o Aconcágua, na Argentina; o Kilimanjaro, na Tanzânia; e o Elbrus, na Rússia. Os próximos virão em breve. Dá pra acompanhar o projeto 7 Cumes e as outras investidas do cara pelo site.

É inegável a influência do Ziller montanhista-empreendedor sobre mim. Primeiro porque de todos os perfis de inspiradores que venho traçando aqui ele é o único realmente próximo. Além disso, tivemos nossa mudança de vida quase na mesma época: ele quando decidiu ir para o Nepal, eu quando decidi voltar da Austrália e ir a Tambaú. E se eu tinha dúvidas se deveria ou não caminhar aqueles 450 quilômetros, acompanhar a caminhada dele foi a certeza que deveria seguir em frente. Por fim, em tempos mais recentes o apoio que ele vem dando pro meu projeto de caminhadas de longa distância é de extrema importância. Ajuda na divulgação, na busca por apoios, ensina técnica para subir e descer montanhas…

Nossos destinos podem parecer diferentes, nossas metas a serem alcançadas também. Mas nossos objetivos de vida são mais próximos do que parece. No fundo no fundo o que esses dois quarentões buscam é a mesma coisa que buscavam quando tinham vinte: dar uma sacudida e mostrar que é possível. A forma dele fazer isso é vertical: para o alto e avante. A minha é horizontal: ir mais longe, sempre. Mas o que realmente importa não é se fomos os primeiros ou se fomos os mais rápidos: o que importa é mostrar que gente comum – eu, o Ziller, você, seu colega aí do lado – é capaz de fazer coisas extraordinárias. Quer levar uma vida dipopodamirigoda?  Sonhe, planeje e execute que dá.

A trilha da trilha: Vermont

Rapaz, como eu ouvi esse disco na minha adolescência! E depois passei anos sem escutar… Mas quando comecei a fazer a seleção das músicas da trilha me lembrei de Moonlight on Vermont, do Captain Beefheart.

Eu disse que à medida que a trilha ia subindo rumo ao norte tudo ia ficando diferente, né? Pois é…

“Moonlight on Vermont affected everybody!”