A trilha da trilha

A mais óbvia de todas as músicas de qualquer pessoa que gosta de caminhada, hiking, trekking ou qualquer coisa parecida. Tudo por causa do refrão: “e eu vou andar 500 milhas, e então vou andar mais 500 milhas…”.

Pois é. No meu caso vou andar 500, mais 500, mais 500, mais 500 e mais 190…

 

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48 horas…

Hoje conversei com meu amigo Bruno Orsini, do selo Fleeting, que mora aqui nos Estados Unidos. Ele me lembrou que há quase um ano a gente falou dessa ideia minha de caminhar a Appalachian Trail e agora finalmente o dia chegou. Na verdade ainda faltavam 48 horas pra eu começar a andar. Ainda tenho que dirigir até a Atlanta, pegar o metrô, depois um shuttle até o hostel e só no sábado que começa a trilha realmente.

Esses últimos dias tenho passado por uma verdadeira montanha russa de sentimentos. Sair de Belo Horizonte, onde deixei as pessoas que são mais importantes pra mim, foi difícil. No dia da viagem ainda tive que passar na Nerea pra pegar alguns equipamentos e fui no Hemominas doar sangue. Já não estava dormindo há alguns dias e nesse dia também não comi. Talvez por causa disso tenha quase desmaiado depois que o avião levantou voo. No jantar tomei uma taça de vinho e caí no sono. Por volta das duas da madrugada acordei suando e com a pressão baixa. Foi dificil até chamar a comissária. Tomei um pouco de água, fui no banheiro e coloquei pra fora o pouco de comida que tinha no estômago.

Na chegada em Miami, como de costume, foi aquela novela na alfândega. A oficial me fez as perguntas sempre: que você está fazendo aqui, quanto tempo, conhece alguém… eu disse a verdade: que iria ficar cinco meses no país e queria caminhar à Appalachian Trial. Foi só eu dizer isso e ela colocou meu passaporte do lado. Me pediu licença e entregou meu passaporte pra outro guarda. Quinze minutos e ele volta. “Sir, you are welcome”.

Os dois dias aqui em Jacksonville foram pra preparar algumas coisas que ainda estavam faltando. Peguei o equipamento que estava na casa de uma amiga, comprei algumas coisas que eu ainda não tinha, preparei algumas caixas vão ser enviadas pra mim a trilha. Tem sido corrido mas agora acho que está tudo OK. Eram 48 horas. Agora já faltam menos…

A trilha da trilha

Eu fico pensando como vai ser depois que chegar, que tiver completado a trilha, que estiver no alto do Katahdin (se é que vou chegar ao topo do Katahdin). Fico pensando nos amigos, na família, no que aconteceria se eu desistisse e na primeira vez que encontrar essas pessoas depois do final da trilha.

“O amor verdadeiro vai me encontrar no final”, é isso que eu penso…

A trilha da trilha: Maine

Quando você estiver lendo este post eu devo estar chegando aos Estados Unidos. Saí ontem, segunda, dia 10 de abril, de Belo Horizonte rumo a Orlando. De lá sigo de ônibus até Jacksonville, também na Flórida, e depois para Atlanta, onde uma van vai me levar até o parque de Amicalola Falls. É ali onde realmente começo a jornada.

Cruzar os Estados Unidos por 14 estados, andar 3.500 quilômetros e chegar ao topo de uma montanha quase só de pedras. Andar por 150 dias na floresta, fazer novos amigos, ver animais como ursos e alces em seus habitats naturais, explorar uma das maiores e mais antigas trilhas do mundo. Esse é o plano para os próximos cinco meses.

Venho postando aqui músicas que representam um pouco essa jornada. Ou melhor: que representam os estados por onde essa jornada passa. Alguns vão dizer que A Horse With No Name, do America, não seja uma boa faixa para encerrar o playlist. Mas pra mim tanto a letra (“Na primeira parte da jornada eu estava olhando para toda vida. Havia plantas, pássaros, pedras e coisas…“) ao nome da banda e ao estilo musical, tudo nela representa bem o que espero encontrar pelas próximas semanas. Mesmo que a música não seja sobre a Appalachian Trail. E mesmo que eu não esteja no deserto. Ou a cavalo… Mas vocês entederam o recado.

Vocês vão poder acompanhar a jornada por aqui, no Instagram, nos podcasts com o Portal Extremos, no Twitter. Vou tentar deixar vocês atualizados o máximo possível.

 

A trilha da trilha: New Hampshire

Outra banda que ouvi muito, mas que nos últimos discos deixei de escutar. Essa New Hampshire, do Sonic Youth, é do Sonic Nurse, de 2004. Não ouvi esse disco tanto quanto o Sister ou o Evol ou o Dirty ou o Goo ou o Washing Machine ou o Experimental Jet Set, Trash and No Star… Caramba, como essa banda tem disco bom, né não??

A trilha da trilha: Vermont

Rapaz, como eu ouvi esse disco na minha adolescência! E depois passei anos sem escutar… Mas quando comecei a fazer a seleção das músicas da trilha me lembrei de Moonlight on Vermont, do Captain Beefheart.

Eu disse que à medida que a trilha ia subindo rumo ao norte tudo ia ficando diferente, né? Pois é…

“Moonlight on Vermont affected everybody!”

 

Por que caminhar?

“Caminhar é levar uma existência descascada (o verniz social foi removido), descarregada de pesos, libertada das habilidades sociais, e purgada das futilidades e máscaras.” Frédéric Gros

“O caminhar e a igualdade andam juntos: no excesso e na soberba não há igualdade, com excesso e soberba não se caminha” Adriano Labbucci

IMG_5469Toda vez que converso com alguém sobre as minhas caminhadas, seja o Caminho da Fé, a Estrada Real ou a Appalachian Trail, a pergunta que todos fazem é essa: por que fazer uma viagem dessas? É uma dúvida inevitável. Ainda mais em uma época onde o meio de transporte mais comum é o motorizado – seja o carro, o ônibus, o avião – e em um mundo onde as pessoas andam cada vez menos e o ato mais comum de todo ser humano é visto como algo excepcional, curioso, estranho até.

Costumo dizer que para mim caminhar é uma forma de oração, um jeito prático de organizar os pensamentos. Minha forma de me afastar do mundo e de me aproximar de mim mesmo. Andar é minha Ave Maria e meu Padre Nosso. Mas não é só isso. Caminhar é minha válvula de escape. Meu palavrão gritado a plenos pulmões, seu #@!*@#!!! Meu Atlético x Cruzeiro num Mineirão lotado. Meu carnaval. Meu fora, Temer! Meu rock´n´roll.

Sabe aquela chacolhada necessária pra deixar as coisas no lugar? O porre do final de semana, o baseado, a academia, a terapia? Pra mim o caminhar é tudo isso. Claro que não importa o destino. Não precisa ser a Appalachain Trail. Mas estes destinos que escolho são muito mais agradáveis que enfrentar o trânsito e o barulho da cidade, esse organismo que a cada dia nos sufoca mais e mais.

“Caminhando desenvolvemos atitudes e qualidades que são o caminho da busca e da realização espiritual: a atenção com o que está fora e a concentração com o que está dentro“. A frase é de um escritor italiano, Adriano Labbucci, que tem um pequeno livro que saiu no Brasil em 2013 pela Editora Martins Fontes chamado Caminhar, Uma Revolução. Em uma outra passagem desse livro ele escreve algo que é bem próximo do meu objetivo com essas caminhadas: “Não se caminha para chegar depressa, caminha-se para que as coisas nos alcancem no tempo propício, caminha-se para ficar com os sentidos despertos e para fazer o ar circular pela mente e pela alma“. É esse o espírito. Veja: o que me atrai nessas viagens não é aventura, não é o desconhecido. É simplesmente o andar. Não é o ir mais rápido, nem o mais longe, nem chegar ao topo. É caminhar. Só isso. É simples.

Se acreditasse em deus poderia dizer que foi o Caminho da Fé, em 2015, que mudou a minha vida. Estava em um momento de indecisão e cheio de dúvidas. Fiz o Caminho e voltei mais calmo, menos apegado às coisas materiais, menos preocupado e ansioso. Mais ciente de quem eu sou, de meu lugar no mundo. E determinado a caminhar mais. Mas sei que se tivesse dado duas voltas na lagoa da Pampulha todos os dias por duas semanas o resultado teria sido o mesmo. Foi o caminhar que me mudou, não o destino. O mesmo aconteceu na Estrada Real. O percurso desafiou minhas condições física e mental. E aquele esforço me deixou ainda mais determinado, centrado, ciente dos meus limites, de minhas qualidades e meus defeitos. Poderia ter corrido uma maratona por dia durante um mês. Ou feito terapia por dez anos. Acho que daria na mesma.

Sei também que o desafio da Appalachian Trail vai ser extremo. Por mais que tente não me preocupar, por mais que pense que é só andar, é impossível não pensar na dificuldade, no tempo, na saudade, nos perigos, nos animais selvagens, na distância, nas consequências. É claro que não é só andar: é o antes, o durante, o depois, e tudo que isso carrega. São cinco meses na trilha, uma eternidade depois. A trilha exige planejamento, concetração, estudo. Para mim, já é quase um ano de leituras, pesquisas, livros e conversas. Sabe-se lá o que isso vai mexer comigo quando voltar. E como me comprometi a tudo isso, nada melhor que dividir com vocês essa jornada. Se eu estou fazendo, qualquer um pode fazer. Por isso o blog, a página, as fotos, os vídeos, os áudios. Tudo isso com foco em algo que busco nesta e em todas as outras jornadas: simplificar o meu andar e aperfeiçoar o meu olhar. Abrir a mente, aguçar os sentidos e tentar me (re)conectar com o meio ambiente.

O jornalista Pablo Pires Fernandes, amigo de longa data, escreveu recentemente um texto para o Dom Total sobre cozinhar, uma paixão que nós dois temos em comum. “Cozinhar é um ato revolucionário”, diz ele. “Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito. (…) Esse espírito inconformista que busca o novo e o desconhecido estava presente nos navegantes que, famintos, cruzaram mares sem saber onde iam chegar.”  Assim é também o caminhar. Para Labbucci “não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir, hoje dominante, que o caminhar. Ponto.” Ponto, repito.

Talvez a minha (re)descoberta do caminhar seja a minha forma de me reencontrar. Uma forma de retomar não só a légua a pé que minha família tinha que fazer pra visitar minha avó, mas as corridas na adolescência com minha irmã, minhas banda de rock, meus fanzines, minhas calças rasgadas, meus cabelos coloridos, minha inconformação da adolescência. É reviver meu lado inquieto, desobediente, revolucionário. Caminhar, pra mim, é ir na contramão, mas ao meu encontro.

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