O que levar para a Appalachian Trail

Li não sei onde que a preparação para uma trilha como a Appalachian Trail (ou qualquer outra trilha de longa distância) é mais complicada que a trilha em si.

Vocês não fazem ideia o quanto estou lendo de livros, blogs, relatos e sites. Nem passa pela cabeça de vocês a quantidade de fóruns e grupos de discussão que participo ou o sem-número de pessoas que sigo no Instagram, Twitter, Facebook, Youtube. Até o Pinterest, acredite você, eu desenterrei…

Tudo pra tentar chegar no equipamento ideal para a trilha. Ainda assim não tenho a mínima certeza se as decisões que estou tomando são as melhores. As dúvidas, pelo visto, não são só minhas: as perguntas sobre tipos de equipamentos são frequentes nas redes sociais.

Para quem quiser ver minha lista completa do que vou levar é só clicar aqui.

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Tô pronto! Levando só o necessário…

Big 3

Pra começar, é preciso definir o seu Big 3. É assim que são chamados os três equipamentos mais importantes da caminhada: sua mochila, sua barraca e seu saco de dormir.

Essas três peças são as mais caras e pesadas da viagem. Dá pra gastar fácil mil dólares por aqui. E foi justamente nesse ponto que ter ficado em segundo na promoção do The Trek mais me ajudou (obrigado a cada um de vocês que votou ou tentou votar! Valeu mesmo! Ainda estou pensando numa forma de recompensar essa ajuda… 🙂

Tomamos a mochila como primeiro exemplo. A que tenho hoje é uma Quechua Forclaz 40 litros. É relativamente leve – pesa 1.020 gramas – e me sinto confortável com ela. Mas será suficiente para levar todas as outras coisas que preciso? 40 litros me parece pouco para levar tudo o que vou precisar por cinco meses…

A mochila que estava na lista de desejos era a Mariposa, da Gossamer Gear. Uma Ferrari: leva 60 litros e 15 quilos de carga e pesa só 800 gramas (927 com os adicionais). Mas a belezura custa mais de 250 dólares… E foi justamente essa a mochila que ganhei na promoção. Transbordei de felicidade!

A definição sobre qual vai ser a sua “casa” durante a caminhada começa a complicar as coisas. A primeira coisa é definir o que você busca: uma barraca, uma rede ou um tarp. O tarp é uma lona simples e leve, que proporciona algum abrigo em chuvas, mas para mim não é ideal. O mesmo vale para rede: é confortável, mas eu preciso de paredes e gostaria de alguma privacidade. Então optei por barraca. Decidido. Então está pronto? Claro que não. Ainda é preciso balancear preço, peso e qualidade. E parece que desses três atributos, apenas dois andam juntos. Se é barata e leve, certamente não é boa. Se é boa e barata, com certeza é pesada. E se é leve e boa, justamente o que estou procurando, pode saber: é cara. Os preços chegam fácil nos 500 dólares.

O que eu queria? Uma Big Agnes Fly Creek UL2, claro. Com espaço pra até duas pessoas, pesa menos de um quilo! Mas, de novo, o preço era o problema: quase 400 dólares… Já tinha me conformado em ir com a minha REI Quarter Dome 1, que não é ruim, pelo contrário. É fabricada e vendida exclusivamente pela rede de lojas de esportes americana, a Recreational Equipments Incorporated, ou simplesmente REI (ou paraíso para quem gosta de esportes outdoor). Mas pesa pouco mais de um quilo e tem um espaço interno de 2,15 x 1 metro e 80 centímetro de altura (contra 2,18 x 1,07 metro e 97 cm de altura da BA). Com um preço em torno de 230 dólares, A REI Quarter Dome 1 era o que cabia no meu bolso. Mas também ganhei a Fly Creek que queria…

Pra decidir minha cama nos próximos 5 meses o dilema foi o mesmo. Saco de dormir no formato múmia ou envelope? Com enchimento natural ou sintético? Com qual temperatura limite e conforto? Levo lençol? E travesseiro? E o isolante térmico, de ar ou espuma? De novo, para cada decisão dessas era acessos e mais acessos a sites, fóruns, leituras de listas de equipamentos de outras pessoas, conversas e tudo mais. O que é importante pra mim nesta situação é não passar frio e ter conforto. E como não saio antes de abril, quando ainda tem neve, nem devo chegar depois do final de setembro, acredito que um saco de dormir de 0 graus é suficiente. O REI Flash é no formato múmia, com enchimento natural de pena de ganso. Custa 170 dólares e pesa 750 gramas. Tá ótimo. E quer saber? foi justamente esse que ganhei…

A diferença entre o isolante de ar e o de espuma é o conforto e o peso. Eu prefiro o primeiro, mais leve e confortável, apesar de barulhento. O modelo é o Therm-a-Rest NeoAir XLite. Pesa só 225 gramas.  Iria de versão mini, que tem pouco mais de 1,20 metros de comprimento – nesse caso a manha é usar a mochila sob os pés. Mas acabei ganhando isso também e optei pela versão maior, com 1,95 metros. É 200 gramas mais pesado, mas acho que vai valer a pena. Não vou levar travesseiro e lençol vou comprar só se esfriar um pouco, já que alguns modelos aumentam a temperatura do saco de dormir. E pra deixar isso tudo seco iria levar tudo dentro de um saco de lixo (25g), dentro da mochila. Mas o pessoal da Gossamer Gear mandou o saco a prova d´água deles de brinde também…

Nesse kit que vou usar meu big 3, os três grandes, a parte mais importante e pesada que vou carregar por esses 5 meses, está pesando no total 2,99 kg. Queria muito abaixo dos 3kg e fiquei ali na tábua da beirada. Veja: menos de três quilos pesam minha mochila, minha barraca, meu saco de dormir e meu isolante térmico SOMADOS…

Cozinha

Cafeteira elétrica, grill, forno de microondas, taças Riedel de cristal, talheres pesados de prata, panelas de pedra e guardanapos de seda. Nada disso infelizmente vai rolar. Minha cozinha vai ser minimalista ao extremo.

A decisão aqui passava pelo tipo de combustível (álcool ou gás), o peso final do fogareiro, o custo, a praticidade, a velocidade para se ferver água e a eficiência para trabalhar sob stress – vento ou neve. Cheguei a fazer um fogareiro a álcool com latinha de cerveja – a forma mais barata, leve e divertida – mas não gostei do resultado. Além disso, álcool é proibido em alguns trechos. Mudei o foco então para o gás.

A escolha foi entre o Jetboil Minimo,  um sistema completo, com o fogareiro já acoplado na panela para quase um litro d´água. Além disso, durante o transporte o combustível vai dentro da panela, economizando espaço. Custa salgados 135 dólares. A outra opção era um MSR Pocket Rocket, que pesa míseros 90 gramas e custa 40 dólares, mas iria me exigir a panela. Optei por começar com algo daqui mesmo (daqui = da China). Comprei no Mercado Livre, por R$50,00, uma cópia do Pocket Rocket. Um pouco mais pesado, pode ser que segure o tranco (se não segurar, compro por lá o original). E a panela vai ser também chinesa, simples, mas com pegador, e que vai me servir de copo, se necessário. O kit que comprei vem duas, mas só levo a maior, de 1100 ml. Além disso incluí uma colher de cabo longo de bambu (também presente do pessoal da Gossamer Gear).

Pra acender o fogareiro um isqueiro Bic mini e como plano b um kit de faíscas de magnésio que já inclui também apito e bússola, o Survival Spark Magnesium Survival Fire Starter, que achei na Amazon por dez dólares. Na minha cozinha entra também um saco estanque, onde vou levar minha comida. Assim, quando chegar no acampamento é dependurar em alguma árvore para que os ursos não comam. Pois é…

Para tratamento de água, as opções passavam por filtros, pastilhas e gotas de dióxido de cloro. Água é abundante na Appalachian Trail, e acredito que a maioria de boa qualidade. Mas ainda assim ganhei um filtro portátil da Sawyer que pesa menos de 100 gramas. Ainda penso em levar Aquamira como plano b. São dois compostos, que você combina algumas gotas de cada na água, aguarda 15 minutos e está pronto pra beber. Custa 15 dólares e pesa 90 gramas. Vamos ver, pode ser que deixe de lado. Para transportar a água, duas garrafas de água mineral de um litro cada.

Fechando a cozinha, um canivete suíço do mais básico. Além da faca eu precisava de um que tivesse tesoura (para cortar unha) e pinça (para tirar carrapato). O que meu genro me emprestou (valeu Rick!), além do lado sentimental, pesa só 75 gramas, e faz trabalho.

Seis ítens. Menos de meio quilo. Essa vai ser minha cozinha.

Eletrônicos

Em casa, no dia a dia, sou cercado de tecnologia. Meu Macbook pro, minha tv Samsung, minhas caixas de som Sonos, meu Ipad, meu Kindle. Uso nas viagens minha câmera Canon. E tenho, claro, meu celular, onde controlo quase tudo. Vejo Netflix, ouço Spotify, navego pelo Facebook, busco no Google, curto fotos no Instagram. Tenho luz elétrica, banho quente, ar condicionado, geladeira. Durante a trilha quase tudo isso vai ser uma memória distante.

Optei, mais uma vez, por não levar outra câmera que não seja a do celular. Nada de DSLR. Nada de GoPro. Vou trocar meu Iphone 6 por um 7 Plus. Ele que vai registrar os momentos, seja em foto ou vídeo. Para ajudar na tarefa levo um tripé da Gorillapod. E como fico alguns dias sem acesso à energia elétrica, penso em levar dois carregadores extras: o meu Cygnett atual, que pode fazer às vezes de lanterna, e comprar um Anker de 10 mil.

Um Ipod Nano e fones de ouvido vão ser um artigo de luxo para as noites na barraca. Pesando 42 gramas, vale o esforço. E pra carregar as baterias de tudo isso quando chegar à uma cidade levo um Anker Powerport4, onde dá pra ligar até quatro equipamentos ao mesmo tempo.

Pra dar luz, minha lanterna também vai ser chinesa. Importante aqui é ter luz vermelha, pra não atrapalhar as outras pessoas. Funciona com pilhas aaa e deve dar pro gasto.

E como estou desenvolvendo outros projetos, estou pensando em levar um gimbal, um estabilizador para o Iphone, que deve pesar mais meio quilo, e um gravador portátil.

E é isso. Sem os apetrechos extras são 800 gramas de equipamentos. Que talvez aumente um pouco com um gimbal e o gravador. Mas isso só decido chegando lá.

Roupas

A máxima na trilha é: se você não vai usar uma coisa todos os dias não vale a pena carregar. E isso vale pra roupas. Você tem dois uniformes: o de trilha e o de acampamento. Nada de camiseta extra. A exceção são as roupas de frio.No meu caso, vou usar e levar o que tenho. Se sentir necessidade de algo vou comprar na próxima cidade.

Vou vestir diariamente (você vai cansar de ver essa roupa em fotos) um boné Quechua que tenho e que vem com protetor de pescoço. Ganhei também um boné massa do The Trek, e talvez leve esse pra cidade. A camiseta vai ser uma Kalenji. Um calça 2×1, dessas que viram bermuda, e uma cueca de compressão. Vou levar minha “pochete” da Spibelt, onde vou carregar passaportes, dinheiro e cartões num saco Ziplock.

Como os pés são as partes mais importes do corpo, a ideia aí era não economizar. Mas ganhei três pares de meias de merino da Wigwam, outro par da Injinji, e dois pares de tênis Altra, também a marca que queria.

No backup, dentro do saco estanque, vão mais uma camisa (a da meia maratona de BH, leve e confortável), um short de corridas da Nike (veeelho…), duas bandanas multi uso e os tenis da Tribold, basicamente o que tenho usado esses dias (leves, super confortáveis e antiderrapantes). Pro frio uma segunda pele, uma blusa e ceroulas, tudo da Decathon. Por fim, levo um quebra ventos/capa de chuva/blusa de frio da Quechua e nas mãos, os bastões de caminhada que tenho, também da Quechua. Ao todo visto 2 kg de tralhas.

A questão aqui é se preciso ou não de uma jaqueta mais poderosa, de pena de ganso ou coisa assim. Pesa quase nada, mas custa uns 200 dólares, por baixo. Como começo no verão estou pensando em ir sem ela e se esfriar demais compro uma jaqueta dessas por lá. Mas acho que se isso acontecer vai ser só pro final da trilha.

Higiene e Primeiros Socorros

E aí vem aquele mundo de tralha miúda, chato de conferir, mas que tem que ter. Tipo escova de dentes (daquelas de viagem, mais leves), pasta de dente e fio dental (mil e uma utilidades na trilha). Tampão de ouvido. Papel higiênico e lenços umedecidos. Sacolinhas plásticas de supermercado, pra servir de lixo. Um kit básico de primeiros socorros, com ibuprofeno, cataflan, tilenol, agulha e linha pras bolhas. Outro kit mais pessoal, com as pomadas que uso pra alergia, repelente. Uma trowel, pazinha pra cavar meu banheiro. Uma caneta e um bloco de anotações (vai que acaba a bateria do celular…). E corda, pra dependurar a comida longe dos ursos…

Comida e Água

Comida e água não entram nessa conta de peso base. Porque variam diariamente: você pode levar comida pra dez dias e 6 litros de água num dia e no dia seguinte isso já é menor.

Meu plano inicial era reabastecer e comprar comida exclusivamente nas cidades e vilas por onde vou passar, mas como ganhei algumas caixas de barras de cereal e comida desidratada, vou despachar algumas para mim pelo correio.

E isso é tudo. Minha casa e meus pertences para os próximos 5 meses. Tudo o que vou ter , no corpo e na mochila, vai pesar menos de 10 quilos. Será isso a minha casa, minha cama, minha cozinha, meu guarda roupas. Menos do que é permito levar na bagagem de mão do avião. É como isso que vou viver por 150 dias.

 

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Inspirações: Sarah Marquis

sunset-plateau.jpgVervey é uma pequena cidade suíça com 15 mil habitantes. É um local agradável, cercado de um lado por vinhedos reconhecidos como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco (os vinhedos de Lavaux crescem em terrenos íngremes, quase escadarias, em uma técnica única, que rende alguns dos melhores vinhos brancos do mundo) e por outro pelas águas do Lago Genebra. Em suas ruas estreitas estão prédios antigos e atrações como o Museu do Alimento: é por causa dele que existe um garfo gigante cravado nas águas do lago. Foi ali também que surgiu a Nestlé e onde o diretor Charles Chaplin escolheu passar os últimos anos de sua vida. Dali a Montreaux, terra do famoso festival de jazz, são apenas 10 minutos de trem. Vervey é o tipo de lugar onde você chega e não quer mais sair. Exceto Sarah.

Sarah Marquis cresceu em Montsevelier, uma vila com pouco menos de 500 moradores no norte da Suíca e morou em Vervey por boa parte de sua vida. Conhecia suas ruas e seus habitantes, incluindo o dono do mercado de frutas e verduras orgânicos onde costumava fazer compras. Certo dia, no caminho pro mercado, se deparou com cartaz que mostrava imagens das planícies da Mongólia. “É pra lá que eu vou”, ela pensou. E foi.

Em 20 de junho de 2010 ela completaria 38 anos. Neste mesmo dia ela chegou na cidade de Irkutsk, na Sibéria. O clima nesta época do ano é agradável naquela parte da Rússia: por volta dos 10 graus. Da Rússia ela seguiu a pé, rumo ao sul. Ela carregava sua mochila com 35 quilos de equipamentos e mantimentos.

Poucos dias depois de começar sua jornada o termômetro marcava 20 graus. Negativos. Na Mongólia, o país que motivou sua viagem, durante várias noites sua tenta foi cercada por bêbados montados em cavalos. Sabe Marco Polo, a série de TV? Era mais ou menos aquilo. Cavaleiros mongóis chapados de Chinggis, a vodka local, cercando o acampamento de uma mulher solitária. Imagina a cena… Ela cruzou o país e continuou caminhando até chegar ao deserto de Gobi, na divisa com a China. E não parou: atravessou os países do sudeste asiático e em maio de 2013 chegou à Nullarbor Plain, sul da Austrália Ocidental.

Este não foi o primeiro passeio de Sarah. Nos anos anteriores ela já havia percorrido a Patagônia argentina e os quase 4.200 km da Pacific Crest Trail nos Estados Unidos. Ela também tinha dado uma volta na Austrália. Literalmente: foram 14.000 quilômetros de caminhada. Desta vez, entretanto, ela havia se superado. Depois de dois anos de preparação e mais de 1.000 dias de caminhada, Sarah havia percorrido 25 mil quilômetros. A pé. Além da realização pessoal, Sarah Marquis foi eleita em 2014 ‘Aventureira do Ano’ pela revista National Geographic*.

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Marquis, Sarah: Wild by Nature: From Siberia to Australia, Three Years Alone in the Wilderness on Foot, Thomas Dunne Books, London, 2016