Como eu consigo tempo – e dinheiro – para minhas caminhadas

“Cara, como você consegue isso? Você deve ser milionário pra parar 6 meses de sua vida e ficar caminhando…” Já ouvi essa frase dezenas de vezes. Ela e suas variações: que sou vagabundo. Que ganhei na loteria. Que não penso no futuro. Que vivo de renda. Muitas vezes a pergunta é movida por curiosidade mesmo. Outras, por inveja e vontade de estar no meu lugar.

Por causa disso gravei um vídeo para o meu canal no YouTube sobre os custos de uma trilha como a AT. E escrevo aqui um pouco mais sobre isso.

Consigo fazer minhas caminhadas – e viagens em geral – por causa de uma intrincada combinação de planejamento e economia pessoal. E um pouco de sorte. No fundo, consigo fazer minhas viagens por que escolhi viver dessa forma. E por mais que isso diga respeito só a mim e a minha família, acho que minha experiência pode ajudar a algumas pessoas a finalmente realizarem aquela aventura que tanto querem – e que parece impossível.

Antes, deixa eu te contar uma história. Quando eu tinha 15 anos fiz a primeira grande viagem da minha vida. Minha família sempre teve uma vida difícil. Fui o caçula de 9 irmãos, meus pais nunca se formaram – só estudaram “o grupo”, como a gente diz, ou apenas o ensino fundamental – e viajar sempre foi meu sonho de criança. Na infância o mais longe que tinha ido era na casa dos meus avós, a 120km de onde morava. Com 14 anos entrei para a escola de música municipal, aprendi a tocar saxofone e um ano depois fui recrutado por uma banda local – o RG7 – para tocar em um carnaval. Em Porto Seguro. Meus pais precisaram me dar uma autorização de viagem, registrada em cartório, e lá fui eu, em um ônibus de turnê, com uma dúzia de músicos, cantores, cantoras e técnicos, pegar a estrada. Sabe o filme “Quase Famosos”? Pois é… Aquela viagem, de quase 24 horas entre o interior de Minas ao Sul da Bahia, mudou a minha vida. Aquela foi a primeira vez que vi o mar. Ali, tive duas certezas: que eu queria conhecer o mundo e que não gosto de carnaval…

Dias depois, de volta da viagem, decidi que era hora de ganhar meu próprio dinheiro, arrumar um emprego e sair de casa. Fiz um concurso público, passei, e me mudei quando tinha dezesseis. Nessa época dizia pra minha mãe que queria juntar dinheiro pra conhecer o mundo. “Você só entra em um avião quando eu morrer!”, ela dizia. Ela faleceu em 1994. Naquele mesmo ano fiz minha primeira viagem internacional. E desde então viajar virou uma obsessão…

Mas e então? Como financiar uma caminhada de longa distância?

A primeira coisa que você precisa saber é que viajar a pé é a forma mais barata que existe. Meus gastos durante os meses de caminhada são, no geral,  bem próximos dos meus gastos do dia-a-dia no Brasil. Mas concordo que não dá simplesmente sair andando. É preciso planejar.

Faz alguns anos que decidi não ter emprego fixo. Troquei a carteira assinada por trabalhos freelance. Na verdade, isso é consequência de uma decisão que tomei há vários anos, quando abandonei o emprego que consegui com aquele concurso público que fiz na adolescência: que só iria trabalhar com coisas que me dão prazer.

Não ter a obrigação de assinar ponto ou me matar em um emprego diário me dá menos dinheiro, é verdade, mas também a liberdade e a flexibilidade de viajar quando puder. Garanto o suficiente para pagar as minhas despesas pessoais e economizar pra fazer o que gosto.

Com essa flexibilidade posso ficar atento a um ponto importante – e caro – de viagens: as passagens internacionais. Fico de olho em promoções, assino listas de sites como Melhores Destinos, pesquiso a tendência de preços no Google Flights e quando aparece algo que combina com a minha carteira, não reluto. Com isso já viajei para Moscou pagando R$750,00 na passagem ida e volta e já fui pra para o Canadá pagando um pouco mais que isso.

Mas mesmo gastando pouco durante a caminhada e pagando pouco pela passagem é preciso ter dinheiro pra viajar. E pra isso é preciso economizar. Na ponta do lápis, minhas despesas em Belo Horizonte ou na trilha são bem parecidas. O que gasto por lá com alimentação e raras hospedagens é bastante similar com o que gastaria estando aqui, em supermercado, transporte e eventuais restaurantes. O que faz a diferença é o dinheiro que deixo de ganhar. É aí que o planejamento a longo prazo ajuda.

Eu sei exatamente quanto preciso por mês (spoiler alert: é pouco). Me programo e trabalho para economizar em seis meses minhas despesas fixas dos outros seis meses. Uso uma planilha em Excel, onde anoto diariamente minhas despesas e meus ganhos.

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

Minhas despesas são poucas porque prefiro gastar nas viagens ou eu viajo porque minhas despesas são pequenas? Um pouco dos dois, na verdade. Mas existem algumas coisas que faço e, acredito, me ajudam a ter algum dinheiro sobrando:

  • Eu saio muito pouco. Como pouco fora. Cozinho bastante em casa. E quando vou ao supermercado quase nunca compro alimentos industrializados: biscoito, refrigerantes, congelados, essas coisas eu deixo pra comer na trilha.
  • Eu (ainda) tenho carro, mas é um modelo com mais de 10 anos que raramente tiro da garagem. Ando muito a pé e gasto muito pouco com transporte público, taxi ou Uber/Cabify
  • Não me lembro a última vez que fui ao cinema, apesar de assistir a muitos filmes. Baixo quase tudo o que vejo. O mesmo vale pra música. Não compro um disco desde que o Napster me levou à falência (eu tinha uma loja de CDs)…
  • Eu tenho uma vida regrada – nenhum vício que faça meu dinheiro desaparecer sem que eu perceba. Não uso drogas, não fumo, não sou de beber muito…
  • Também não tenho dívidas – não pago aluguel, não tenho financiamentos, não devo cartão, não devo o banco. Sou milionário? Não. Tenho dinheiro guardado? Um pouco.
  • A última camisa nova que usei foi a que ganhei da Spot Brasil para fazer a Appalachian Trail. Não tenho muitas roupas e compro cada vez menos.

Não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho

Além disso tenho me desprendido de bens materiais e acumulado cada vez menos coisas. Antes de fazer a Appalachian Trail me desfiz de várias coisas que tinha e não usava mais – uma coleção de bonecos, câmera fotográfica e filmadora, um computador reserva, até uma bota. Já não tenho nenhum disco. Vou fazer uma nova limpa em breve e guardar ainda menos tralhas. O objetivo é guardar cada vez menos. Como disse uma caminhante que encontrei uma vez, “cada vez que me dá vontade de comprar um móvel novo eu saio pra caminhar e a vontade passa”.

Um dos principais pontos de despesas numa caminhada de longa distância são os equipamentos. Barraca, mochila, saco de dormir, isso é tudo caro. Mas tive a sorte de ganhar a promoção Badger Sponsorship do site The Trek antes da AT e receber como prêmio a maior parte do que precisei. Também consegui o apoio fundamental da Spot Brasil e da Proativa, que me cederam equipamentos essenciais para a jornada e que ainda hoje venho usando.

Também fundamental é a sorte que tenho em ser casado com uma pessoa incrível que é a Alê, que entende minhas caminhadas, me acompanha em algumas delas e divide comigo algumas destas convicções. E boa parte das despesas da casa.

Um ponto que se fala pouco quando se trata de dinheiro e financiamento de uma caminhada de longa distância é o dinheiro que você deixa de ganhar quando está caminhando. Porque suas despesas lá podem ser poucas, mas as despesas daqui continuam chegando. E pra piorar você não tem nenhum dinheiro entrando por seis meses… De novo, meu estilo de vida ajuda nesta parte: não pago aluguel, não tenho dívidas, não tenho plano de saúde. Algumas das despesas da casa Alê arca normalmente – e outras me planejo antes de viajar e deixo programadas para serem descontadas automaticamente da minha conta. E apesar de viver fazendo trabalhos freelance sei que sou bom o suficiente para garantir novos trabalhos quando voltar. E se não encontrar trabalhos na minha área, estou aberto a aprender e fazer outra coisa. Qualquer coisa que me dê prazer. Se me der o suficiente pra pagar minhas despesas e salvar algum pra próxima viagem, melhor.

Mas afinal, quanto custa?

Minha caminhada pela Appalachian Trail, que durou de Abril a Agosto de 2017, custou em torno de 4500 dólares. São cerca de 900 dólares por mês, algo em torno de 130 reais por dia. Nisso aí tá incluso tudo, de passagem aérea a alimentação, de hotel a seguro de viagem.

É um bom dinheiro, mas pense: quanto eu gastaria nesses cinco meses em BH, entre gasolina, alimentação, supermercado, farmácia e outras despesas? E quanto eu gastaria em uma viagem de férias dentro do Brasil mesmo? No final, acho um investimento barato por uma experiência única como essa. Não é pra todo mundo, nem financeiramente, nem psicologicamente, é verdade. É preciso querer e estar disposto. É preciso ter os recursos – falta de grana é dos principais motivos que levam as pessoas a desistirem de completar a trilha. Mas vale cada centavo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Longa Distância no YouTube!

O ano começou cheio de novidades por aqui. Fiz uma nova marca nova, mudei um pouco o visual do blog e dei o primeiro passo (tudo começa com um primeiro passo) em uma série de vídeos no YouTube sobre a Pacific Crest Trail.

A partir de hoje serão 100 dias até o meu início na PCT. A ideia é subir um vídeo por semana contando a preparação para a trilha, o planejamento, os equipamentos que vou usar, meu treinamento. Uma espécie de aquecimento para os vídeos que pretendo mandar da trilha. E depois, já fazendo a trilha, preciso ver como será meu acesso à internet para ver se consigo manter essa regularidade. Se não conseguir postar um vídeo por semana quero subir pelo menos um a cada 15 dias. Assista ao vídeo, se inscreva no canal e ative as notificações para ficar sabendo quando subir os outos vídeos.

Os textos no blog vão continuar, claro. E estou armando outras parcerias que conto pra vocês em breve.