Pacific Crest Trail S01E35

A trilha da trilha: Tom Petty and the Heartbreakers – Into the Great Wide Open

A partir daqui tudo vai ser diferente. Essa é a única que tenho.

Pra mim chegar a Kennedy Meadows é terminar uma trilha e a partir daqui começar uma nova. Foram 1130 km pelo deserto, pouca água, calor escaldante, dias longas e cansativos. Cobras, lagartos e coelhos. Vegetação baixa e seca. Nada de sombra. Trinta quilômetros por dia fácil.

A partir daqui vai ser neve, montanhas, frio, muita água (mais do que eu gostaria), vinte quilômetros por dia se muito.

A emoção de chegar aqui é incrível. Vocês não tem ideia.

O plano é tirar dois dias sem caminhar. Formamos um grupo coeso, que tem o mesmo objetivo: terminar a trilha no meio de setembro. Durante a Sierra a ideia é ir como uma expedição: todos juntos o tempo todo. Iremos eu, Change (aka Tyler), Ed (aka Ruster), Break Away, Oliver e Dr. Jones. Não queremos fazer mais que 20 km por dia. Sabemos dos riscos, vamos com calma. Serão 400 milhas, 650 km pelas Sierras. Vai ser simples? Não. Vai ser divertido? Com certeza!

Kennedy Meadows tem 200 habitantes.

Se resume a uma venda (como seria a venda do Sô Inácio, meu pai, se ele vivesse perto da trilha). É chão batido, não tem asfalto, é bruto. É lands of no man. Mas é o ponto de encontro de quem está fazendo a PCT. E pra todo mundo que chega quem está na venda aplaude, saúda, grita e congratula. Afinal, chegar aqui é um marco.

A partir daqui tudo vai ser mais complicado. Nada de internet, Wi-Fi, posts diários. Espere por updates uma vez por semana, se muito. Você pode acompanhar meus passos pelo Spot, no bit.ly/jeffPCT . Mas garanto que ao final as fotos vão ser incriáveis, o visual maravilhoso e à espera vai valer a pena.

Vamos lá. Sierra Nevada. Parte dois da trilha. Começando depois de amanhã.

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Pacific Crest Trail S01E34

A trilha da trilha: Propellerheads – Take California

A Leninha, minha irmã logo acima de mim em termos de idade, é corredora. Desde que me entendo por gente ela corre. Na maioria das vezes corridas rústicas de 5, 10, 15, 21 km. Tem uma corrida ela vai – e quase sempre peg pódio, a danada. Ela não é muito de correr maratonas, prefere as corridas menores. Mas eu lembro de uma vez que ela correu uma. A primeira. Faz muitos anos, mas eu ainda lembro da conversa. Ela me contava que depois de um determinado momento “você sente como se o osso do seu pé batesse direto no chão”, ela me dizia.

Por causa da Leninha eu comecei a correr (e a fazer e gostar de um tanto de outras coisas). Na adolescência corri algumas menores, ganhei uma medalha que não sei onde foi parar, mas não continuei. Voltei a correr “depois de velho”, e algumas meia-maratonas. Quarenta e dois quilômetros cento de noventa e cinco metros eu nunca fiz correndo. Mas hoje eu fiz andando. E quando cheguei no camping lembrei da minha irmã. Porque eu sentia como se o osso do meu pé batesse direto no chão.

Parte da culpa dos meus pés estarem sentindo tanto é que já andei mais de mil quilômetros com os tênis que estou usando. Por melhor que sejam, chega uma hora que não aguentam mais. O solado tá gasto, quase furando. A palmilha está achatada. Meus pés estão inchados de tanto andar e parece que estão crescendo ainda mais – meu número de sapato americano era 8.5 mas na Appalachian Trail meus tênis eram 9, depois 9.5 e finalmente 10, que é o número desse.

Tenho um par novo me esperando em Kennedy Meadows, onde chego amanhã. Pedi o 10, mas tô achando que vai ficar pequeno.

A trilha de resumiu a uma grande subida logo cedo – onde a gente acampou na metade do morro – e uma descida até onde tinha água. Cheguei ali pouco depois das onze. Change já estava por lá, junto com outros caminhantes. Break Away já tinha seguido caminho.

Tirei um longo descanso depois de comer só às quatro comecei a subir o segundo morro, para então descer pro camping.

Quando cruzava a estrada, logo depois da água, vejo o recado do BA na terra indicando pra deveria ir.

Amanhã o dia será mais curso: uma subida, uma descida e chego à Kennedy Meadows, o fim do deserto. Tudo bem que a subida tem dez quilômetros e oitocentos metros de elevação. É o último dia do deserto: amanhã à noite posso colocar meus pés pra descansar por uns dias.

Pacific Crest Trail S01E33

A trilha da trilha: Wes Montgomery – California Nights

Tem dia que é foda. Por mais que você pense vai sair bom ele se supera.

O por do sol de ontem e a lua cheia me deixaram todo cheio de esperança pro dia de hoje. Não só isso: o app dizia que Walker Pass, onde a gente tinha planejado acampar, era um lugar que frequentemente tinha Trail magic. Seriam so 30 quilômetros até lá e a promessa de comida e bebida me tirou da cama cedo.

Às seis eu já estava de pé. Break Away já desmontava sua barraca e seguia caminho, Tyler (tenho que começar a chamá-lo por seu trail name: Change…) também já acordava. Às 6:16 do dia 16/6 eu assinei o registro e peguei a trilha morro a cima.

A primeira parte era subida, mas o sol, que havia surgido às 5:30, ainda não tinha vencido as nuvens. Tempo agradável, nada de calor, e

depois do morro foi passeio. Cheguei às 12:45 no destino. Change já estava lá, BA havia parado na água e chegou logo depois. Ed (tenho que começar a chamá-lo por seu trail name: Rust) chegou mais tarde. Era cedo, o trail magic não passava de uma louca num carro decorado e restos de comida que detonamos em um segundo (mexericas murchas, M&M quase derretidos, um pão de ontem, sobras de geleia de amendoim e molho de tomate) quando BA sugeriu: porque não ir

à cidade? Ainda è cedo, a gente pode uma carona, comer alguma coisa e voltar. Vai fazer bem pro espírito, ele disse.

Change e eu topamos. Rust não. Lake Isabella fica a 60 quilômetros de onde estávamos. Mas, ei! Lá tem pizza! Vinte minutos na estrada foi suficiente pra alguém nos pegar. E comemos duas pizzas grandes (e bebemos uma quantidade absurda de refrigerante).

Na volta decidimos que valeria a pena andar mais alguns quilômetros para ter que andar menos no dia seguinte. Rust já havia seguido, os outros que tem andando perto da gente (Squirrel, Drumstick, Chopsticks, Dr. Jones) resolveram ficar e a nós, às sete e meia da noite, resolvemos pegar a trilha de novo morro a cima.

Com a lua cheia e o sol se pondo e pintando o céu de laranja, subimos até o primeiro camping que achamos, à cinco quilômetros de onde estávamos. Abrimos as cervejas que trouxemos da cidade e ficamos ali observado a lua.

Tem dia que se supera, e ainda tem a lua pra te lembrar que tudo termina bem.

Pacific Crest Trail S01E32

A trilha da trilha: Chicago – South California Purple

Tem dia que é foda. Duro de caminhar, difícil de sair do lugar. Foi difícil sair da barraca: normalmente já estou na trilha às sete, mas hoje não comecei antes de 7:30. Estava cansado, com preguiça, mas como a previsão eram de apenas 22 milhas, 35 quilômetros, pensei que faria rápido.

Sabia que onde eu estava era o último riacho pelos próximos 60 quilômetros. Ainda assim saí só com dois litros d’água, confiante na informação que o Break Away tinha recebido: que teria água no km 15 e no local onde a gente tinha planejado acampar deixada por trail angels.

Quando cruzei a primeira estrada e vi os galões fiquei mais tranquilo. Ainda era nove da manhã, tomei um litro, enchi a garrafa e segui.

A partir dali o dia foi só esquentando, batendo na casa dos quarenta graus. Na estrada dos 15 quilômetros, como prometido, mais água. Bebe, enche, segue.

Eu ia tranquilo, ouvindo o playlist da Tesoura da Ale, cantando as músicas, dançando outras na trilha. Já quase meio dia ao cruzar mais uma estrada, um bando de hikers aos pés de uma Joshua tree.

A partir dali parece que abriram as portas do inferno. O calor aumentou, minha energia acabou e eu seguia me arrastando. Oliver passou por mim, e a impressão que eu tive era que nos dois éramos os únicos caminhando naquele horário.

Quase passei batido pela marca dos 1000 quilômetros, tamanho o desânimo.

Cheguei cansado e sem água no lugar combinado. BA, Tyler e Oliver estavam por ali e melhor: tinha água. Mais gente foi chegando, se reunindo, uns parando pra água e seguindo, muita gente ficando.

Eu cansado e querendo dormir, não pude: o por do sol deslumbrante de um ano e uma lua cheia absurda do outro não me deixaram ir pra cama cedo. Fiquei fazendo fotos até o sol se pôr. E se tiver energia acordo pra vê-lo nascer.

Tem dia que é difícil, mas que no final tem um por do sol para admirar.

Pacific Crest Trail S01E31

A trilha da trilha: Mazzy Star – California

Hoje é 14 de junho. Há um mês eu estava na fronteira com o México, na cidade de Campo, pra começar minha caminhada pela Pacific Crest Trail. Hoje estou na milha 609, mas andei “apenas” 601, já que saltei as 8 milhas em Tehachapi. 601 milhas são 967 quilômetros. Em 31 de caminhada são 31 quilômetros por dia, em média.

Mas nesse primeiro mês eu não andei dois dias – assim, minha média em dias caminhados é de 33,3 quilômetros por dia. Ou 20.7 milhas.

No meu planejamento o objetivo era fazer 20 milhas por dia, em média. Nada mal.

Nesse primeiro mês de trilha eu gastei 52 dólares em lojas de conveniência e 95 dólares em supermercados. 147 dólares, onde pelo menos 47 deve ter sido de cerveja. Assim gastei em média 3,25 dólares de alimentação na trilha por dia (4,75 se contar as cervejas). É preciso considerar que recebi 2 caixas com chocolates e comidas do meu apoiador, a Joe’s Chocolates, que ajudou a deixar esse valor baixo.

Em cidades, gastei mais 141 dólares em restaurantes (hamburgers, pizzas, comida chinesa, e cerveja, claro, numa média de 28 dólares por restaurante, incluindo 20% de gorjetas) e outros 123 dólares em hotéis, albergues e locais que recebem doação voluntária (que sempre procuro deixar entre 10 e 20 dólares). Também gastei 3 dólares de ônibus.

Por fim, gastei 163 dólares de equipamentos – microspikes pra neve, que comprei em Idyllwild e um novo par de tênis que mandei pra Kennedy Meadows, onde vou gastar mais, com o Bear Canister e o Ice Axe.

Nesse mês não vi urso, mas vi um veado, uma dúzia de cobras (metade delas cascavéis), incontáveis coelhos e lagartos, pássaros diversos, flores de todas as cores. Dormi a maioria das noites na minha barraca, mas também em hotéis, albergue, casa de estranhos, numa garagem, debaixo da mesa em uma lanchonete. Tomei mais banho que esperava (sete, sendo um de balde e um num lago) mas apesar disso tudo está como planejado. Tudo correndo bem. Continuando assim serão mais cem dias até o Canadá. Espero estar certo.

Pacific Crest Trail S01E30

A trilha da trilha: Offspring – Cruising California

Sempre me perguntam se a trilha que estou fazendo é a do filme Livre, baseado no livro de Cheryl Strayed de mesmo nome (Wild, no original). É, mas tudo o que tinha feito até hoje ela não fez. O livro começa justamente no trecho da trilha que comecei hoje, na Highway 58, na cidade de Tehachapi.

Pra chegar até ali a gente se programou de pegar o ônibus que passa na porta do hotel. Mas Tyler olhou o horário errado e quando chegamos no ponto pro ônibus de 12:15 descobrimos que esse é o horário da estrada pra cidade. No sentido que a gente queria ele já tinha passado há meia hora e o próximo só às duas.

Ed e eu botamos o dedão pra fora pedindo carona e em quinze minutos alguém parou pra nos levar. Com três espaços livres no carro, Lost Boy e Tyler ficaram pra trás, mas não demorou pra também conseguirem transporte.

A uma da tarde estávamos os cinco no local onde Cheryl começou a trilha.

Pode parecer descaso, mas o fato é que não senti nem um pouco o sofrimento que ela descreve. Minha mochila estava pesada, não tanto quanto a Besta, mas levava seis dias de comida. Havia pensado em mandar de volta umas coisas que não to usando (uma câmera, microfone, uma camiseta) e tinha desistido. De nós cinco, eu e Tyler somos os que estamos andando mais pesado. Talvez por isso os outros três tenham disparado na frente.

Mesmo com a subida considerável do início o dia foi tranquilo. Até demais. Não curto dias que não tenho muita coisa pra contar aqui. É bom quando é cheio de emoções, causos, situações inesperadas. Dias como hoje são monótonos.

Durante as quase seis horas de caminhada e 28 quilômetros quase nada aconteceu. O objetivo era chegar ao único lugar de água do dia, que a gente contava que ainda não havia secado (os comentários do app diziam que não) mas que a gente não sabia se tinha lugar pra acampar (os comentários do app não diziam).

Cheguei às 6:50 e Break Away já estava com sua barraca montada. Lost Boy estava ali, mas não iria ficar: queria chegar ao camping 6 quilômetros adiante. Tyler chegou logo depois de mim. Ed mais tarde.

Ainda em região de ventos fortes, montei minha barraca ao lado de um grande carvalho, um dos que dá nome ao riacho. Não sei se Cheryl ficou aqui. Se tivesse ficado tenho certeza que teria curtido.

Pacific Crest Trail S01E29

A trilha da trilha: Eagles – Hotel Califórnia

Como havia chegado na cidade no dia anterior, Abel deixou a gente logo cedo em um restaurante e fui ao Best Western, onde tinha feito uma reserva, pra tentar um early check-in. Eram dez da manhã. “O check-in é às 15h. O mais cedo que consigo pra você é às 13h”, disse a atendente. Tá ótimo. Sentei no lobby pra terminar o segundo podcast (tá no ar, já ouviu?) e fiquei observando a movimentação. Um bando (acho que o melhor aqui é corja…), uma corja de hikers ia chegando tentando a mesma coisa. Deixavam a mochila no lobby, atacavam as sobras do café da manhã, saiam pra comer alguma coisa. Eram uns 30, talvez mais.

Tyler, Ed e Lost Boy chegaram logo depois e fizeram a mesma coisa: largaram a deixaram as mochilas no chão e foram ao supermercado fazer compras pra próxima semana. “Não, vou ficar por aqui. Preciso terminar essas coisas”, eu disse.

Eles voltaram quando eu pegava a chave do quarto. Nos amontoamos os cinco (Break Away também estava com a gente) no quarto com duas camas de casal embaixo da escada.

Escolhemos ficar no hotel e não em algum trail angel pela possibilidade de usarmos a piscina. Mas o dia estava tão quente que passamos a tarde toda no quarto com o ar condicionado no talo.

Com o podcast no ar foi hora de ligar pro meu convidado do terceiro episódio e conversar sobre Sierra Nevada. Neve, travessia de rios, mortes, beleza natural, superação e desafios. Vai estar tudo no próximo programa.

A noite foi a vez de irmos ao buffet de comida chinesa da cidade. Por $12.95 você come o quanto quiser – agora imagina o poder de destruição de cinco caminhantes famintos.

Quando voltei pro hotel (como não tinha feito às compras mais cedo fiquei no supermercado enquanto os meninos voltaram) a corja havia tomado conta da piscina. Os meninos estavam no quarto: “tem gente demais por lá. A gente achou melhor ficar por aqui mesmo…”

Sentei num canto e escrevi o texto para O Eco, que deve entrar no ar nos próximos dias. Aviso quando for publicado. E carreguei no app o novo trecho da trilha, daqui de Tehachapi até South Lake Tahoe. Mais 800 quilômetros de caminhada pela frente.

Um dia de folga e consegui fazer quase tudo que precisava. Agora preciso editar os vídeos, escrever o texto em inglês pro The Trek, dar uma ajeitada na minha mochila, que está mais pesada que eu gostaria. Mas essas coisas vão ficar pro próximo dia de folga, daqui a uma semana.