A trilha da trilha: New York

Poderia escolher um milhão de músicas sobre New York. Claro, não poderia ser diferente. Toda uma vida ouvindo músicas sobre a cidade. Poderia ser New York, New York do Sinatra. Autumn in New York, da Billie Holiday. No Sleep Til Brooklyn, do Beastie Boys. New York I Love You do LCD Soundsystem. Qualquer coisa dos Ramones. Era só escolher.

Mas se a idea é uma música, e que tenha a ver com caminhadas a escolha só poderia ser Walk on the Wild Side, do Lou Reed. Tudo bem que aqui tanto o sentido de walk quanto de wild são beeeeem diferentes daqueles que vou estar inserido. Mas dizem que se o dia estiver claro dá pra ver os prédios da cidade enquanto você caminha pelo lado realmente selvagem de New York.

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Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

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Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

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Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

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Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

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Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

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Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.

A trilha da trilha: West Virginia

Quando você acha que a Virginia acabou, chega West Virginia. O caminho é curto: são só 4 milhas no estado. E John Denver resume bem o estado de espírito por aqui:

“Almost heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountains
Shenandoah River,
Life is old there
Older than the trees
Younger than the mountains
Blowin’ like the breeze
Country roads, take me home
To the place I belong
West Virginia, mountain momma
Take me home, country roads”

 

 
Já me imagino cantando isso durante TODO o tempo que vou ficar no estado…

 

 

Treinamento de corpo e alma

Existe um grande debate entre as pessoas que tentam fazer uma trilha tão extensa quanto a Appalachian Trail. Para alguns a trilha não exige nenhum treinamento em especial: a própria trilha irá cuidar de deixar seu corpo em forma, pronto para os milhares de quilômetros que estão por vir. Um segundo grupo, no qual me incluo, acha que não: se você quer realmente chegar até o final é bom ir se preparando. Bastante.

Dentre as três grandes trilhas americanas a Appalachian Trail é a menor, mas é também, indiscutivelmente, a que tem a maior variação de altitude. São mais de 500 mil pés de sobe e desce. 16 Everests, eles pregam! E pra enfrentar um monstro desses não dá pra ir despreparado.

Faltando menos de 90 dias para meu início entro na reta final de treinos e exercícios. Reta final porque desde o início de 2016 já venho treinando, de alguma forma, para isso. Primeiro foram os livros, onde tentei entender a trilha. Depois a Estrada Real, que fiz em junho de 2016. Andar aqueles 1200 km foi uma prova: se conseguisse completá-la bem provavelmente conseguiria fazer a AT.

A partir de agora eu divido meu treinamento em três atividades: caminhadas com a mochila, corridas e exercícios físicos.

As caminhadas eu faço quatro vezes por semana. Segundas, quartas e sextas caminho na cidade. Encho minha mochila de livros – Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos são os escolhidos, por motivos óbvios: os 8 livros das duas coleções pesam mais de 8 quilos! – e saio caminhando pela capital mineira. E quem conhece Belo Horizonte sabe que a cidade não é para fracos. Tenho preferência pelos morros do Santo Antônio, Gutierrez e Sion. Ando umas três horas por dia com a mochila nas contas.

Aos sábados as caminhadas são nas várias trilhas nas proximidades da cidade. A do Topo do Mundo até Moeda, por exemplo, é um trilha que muita gente diz ser difícil. Na minha última caminhada resolvi medir a variação de altitude. Pra ir e volta são cerca de 23 quilômetros de distância e um pouco mais de mil metros de subidas e descidas. É daquelas que você chega no final pedindo penico, com tanto morro que atravessa. Gravei o vídeo abaixo explicando um pouco. Veja só:

Olha que coincidência: estou planejando andar a Appalachian Trail por 150 dias, uma média de 23 quilômetros por dia. Exatamente a distância da trilha do Topo do Mundo. E quer saber mais? Se a gente dividir a variação total da AT pelo número de dias que estou planejando caminhar (515 mil pés por 150 dias) vamos ter um ganho ou perda de elevação de 3400 pés por dia. Que são, acredite, 1036 metros. Sacou? Fazer a Appalachian Trail é, na verdade, fazer a trilha do Topo do Mundo até Moeda ida e volta por 5 meses, caminhando todos os dias. Quer saber? Choquei.

Pra encarar isso eu intercalo as caminhadas com mochila com corridas, que faço às terças e quintas. Estou aumentando tanto a distância quanto o ritmo gradualmente. No momento estou fazendo 5 km em 30 minutos e até abril a ideia é correr 15 km duas vezes por semana.

E finalmente, pra conectar isso tudo, tenho feito Gyrotonic, um método de condicionamento físico que foi criado ainda nos anos 70 por um  ex-bailarino romeno. A ideia por trás do Gyrotonic são exercícios fluidos, circulares, de rotação e torção em aparelhos. A ideia aqui é reforçar a musculatura e evitar lesões, um dos motivos que mais tiram os caminhantes da trilha.  Faço também três vezes por semana: vou pras aulas andando, levando minha mochila. As aulas de Gyrotonic são mais ou menos assim:

Não mudei tanto a alimentação. Tenho diminuído o consumo de álcool nessa reta final, mas sem deixar de lado um taça de vinho de vez em quando. Também tenho comido menos carne vermelha e mais vegetais, mas porque sei que durante a caminhada minha alimentação vai se restringir, quase exclusivamente, à macarrão instantâneo, barras de cereais e outras porcarias. Vou tentar me alimentar bem sempre que possível, mas como vou ficar na dependência do que encontrar em cada parada, realmente não sei o que vou comer…

A preparação é pra chegar na trilha no melhor condicionamento físico possível. Sei da dificuldade da caminhada. E quero dar o melhor de mim para chegar ao final no prazo previsto.

Mas o treinamento físico é só uma parte. É preciso se preparar também psicologicamente e emocionalmente para a caminhada. E essa, eu acredito, é a parte mais difícil. Nenhum dos livros que eu li (nem o Appalachian Trials, um guia para se preparar psicologicamente e emocionalmente para a Appalachian Trail)  vai conseguir me deixar pronto pra esse desafio. Eu só vou saber o que é ficar 5 meses longe de casa, no mato, na chuva, no tempo, falando uma língua diferente, comendo comida desidratada, passando sede e perrengues mil, quando realmente passar por isso. Vinte dias do Caminho da Fé? Moleza! 1200 km e um mês na Estrada Real? Fichinha.

Tenho total consciência da encrenca em que estou me metendo. Sei que vai ser mais difícil que estou pensando. Mas tenho meu objetivos claros: sei porque quero fazer a trilha, sei o que vai acontecer se eu conseguir. E sei também o que vai rolar se não chegar no final. Corpo são, mente sã. É assim que quero dar o primeiro passo.

 

Longa Distância no Senac Minas

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No final de 2016, depois de ter completado a pé três dos caminhos da Estrada Real, recebi uma mensagem de Alexandre Biciati, do Senac Minas. Ele queria agendar uma entrevista para o Aprendi no Senac, o blog oficial da instituição.

O bate papo aconteceu ainda em dezembro e foi ao ar essa semana. A conversa com a repórter Roberta Almeida foi gostosa: conto um pouco do que foi fazer os 1.200 km da Estrada Real a pé, os desafios e planos para o futuro, incluindo a Appalachian Trail.

É muito gratificante ver que esses passeios servindo de inspiração para uma galera que está agora indo em busca de seus sonhos. Uma das razões das caminhadas é isso: mostrar pra Jade e Lis, minhas netas, que é preciso ir atrás de suas paixões, não importa quais sejam.

Pra assistir e ler a matéria é só ir no Aprendi no Senac. Ou você pode assistir a conversa aí embaixo.

Obrigado ao Alexandre, à Roberta, ao cinegrafista Evandro Gangana e a toda equipe do Senac pela oportunidade.

 

Faltam cem dias… Não! Menos!!

Entrei na contagem regressiva para a trilha.

Mesmo sabendo que a Appalachian Trail é uma trilha extremamente sociável, queria fugir da “bolha”, o período onde a maioria das aspirantes a thru hikers começam. Ele vai do início de março ao meio de abril. Historicamente os primeiros dias de cada um desses dois meses são os que recebem a maioria dos caminhantes. No ano passado mais de 50 pessoas começaram nesses dias.

Mas mesmo começando em maio, no ritmo que eu normalmente ando, eu inevitavelmente iria encontrar com esse bando em algum lugar nas próximas semanas. Para fugir da multidão por completo eu deveria a) começar antes deles e seguir sempre a frente, ou b) fazer a trilha no sentido SOBO (não sabe o que é SOBO? Lê lá no Dicionário Apalache-Português) ou c) optar pelo Flip Flop. Nenhuma das três opções me agravada: para fazer a primeira deveria começar ainda em fevereiro, com neve e temperaturas muito baixas. E optando por qualquer das outras duas eu não terminaria em Mount Katahdin, o meu objetivo. Afinal, a maioria das pessoas faz do sul pro norte por algum motivo, não?

Ou seja: mais cedo ou mais tarde eu iria cruzar com a bolha.

Comecei ainda no final de dezembro a pesquisar várias opções de passagens para os Estados Unidos. Saindo de Belo Horizonte, ou Rio, ou São Paulo, ou Brasília, ou Recife. Chegando em Atlanta, ou Miami, ou New York, ou Charlotte, ou Orlando. Não me importava: poderia fazer os trechos internos com milhas que tenho acumuladas, mas o importante seria sair do Brasil e chegar aos Estados Unidos gastando pouco. Os preços variavam muito, mas sempre acima dos US$1,000.00 . Até que encontrei uma passagem saindo de BH e chegando a Orlando por cerca de 800 dólares. Comecei a monitorá-la, a pesquisar datas próximas, a chegar outras companhias. Curiosamente o preço vinha caindo: do final de dezembro até agora já está 140 reais mais barata. Continuo um monitoramento diário, mas a tendência é de queda: fica cerca de US$5 mais barata a cada dia. Ainda não emiti, mas vou fazer assim que sentir a tendência mudar de rumo. O problema: essa passagem sai do Brasil dia 10 de abril. Com isso adianto o início da caminhada em duas semanas. Vou encontrar com a bolha antes do que imaginava.

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Assim devo começar a caminhada por volta do dia 15. Também não defini o dia exato. Mas se for mesmo começar no dia 15 faltam 93 dias.

Não defini o dia porque outro gráfico que monitoro é o do registro de caminhantes que pretendem fazer a trilha inteira, os chamados thru hikers. Não é um registro obrigatório, mas dá uma boa noção da tendência de quais dias são mais concorridos. Até o momento os dias 1 e 15 de março são os hits desse nosso verão. O gráfico é atualizado semanalmente. Os números de abril como um todo ainda são baixos, mas por lá também a tendência é que as pessoas se registrem mais próximo da data de início. Ninguém ainda se registrou para o dia 15, e continuando assim é bem provável que peça ao pessoal da Appalachian Trail Conservancy, que teve a iniciativa do registro, que adiante minha data do dia 1 de maio para 15 de abril.

O planejamento final contempla, além da viagem BH-Orlando, também o aluguel de um carro, que dirijo até Atlanta, passando por Jacksonville, FL, onde encontro uma amiga e compro as coisas que estivem faltando; o trem do centro de Atlanta até a estação no norte da cidade, onde pego uma van até as proximidades da trilha. No primeiro passo uma noite no Hiker Hostel (que fica a 120 km da estação de trem) e no dia seguinte pela manhã eles me deixam no Amicalola Falls Park (outros 45 km). Mas ali ainda não é o início da trilha: são mais 13 km na Approach Trail (a trilha de aproximação) até chegar ao marco inicial da Appalachian Trail.

O que vou encontrar por lá é isso:

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O primeiro marco da Appalachian Trail (a foto é do blog Atlanta Trails)

Uma placa marcando o início da trilha e a primeira white blaze. A partir dali serão só mais 3540 km de caminhada até o Mount Katahdin, no Maine, onde planejo chegar no dia 7 de setembro.

O que falta pra fazer nesses próximos 93 dias parece uma enormidade. Ainda tenho equipamentos pra comprar, alguns dos quais só vou ter contato quando chegar nos Estados Unidos. Tem alguns apoios e parcerias que tenho conversado que preciso fechar nas próximas semanas. Tenho alguns livros que gostaria de ler antes de começar a trilha. Tenho que vender algumas coisas coisas para ajudar a pagar as despesas (alguém aí interessado numa Canon T1i? Uma Canon D70?)

Tenho que terminar o treinamento que me propus (falo dele depois). Preciso comprar um bom seguro de viagens. Preciso testar os novos equipamentos que devo receber essa semana (barraca, saco de dormir, isolante térmico) em condições mais adequadas (vou fazer um vídeo sobre esses equipamentos, não se preocupe).

Nesses 93 dias ainda tenho pelo menos dois trabalhos que vão me deixar fora de Belo Horizonte por alguns dias. Aniversário de 15 anos da neta. Viagens pra visitar os irmãos em Divinópolis e Juiz de Fora. Contas para deixar programadas para serem pagas. Preciso faz um check up, ir ao dentista, consultar minha oftalmologista…

Mas tenho a sensação que tudo está andando no tempo certo. A partir de agora é manter o ritmo, o foco e começar a contagem. 93, 92, 91…

 

 

Afogando em números

Adoro estatísticas. Quando viajo sempre levanto os números, informações, percentuais, dados que quase ninguém se interessa. Me ajudam a ter uma visão macro do ambiente. Então resolvi compilar alguns números curiosos sobre a Appalachian Trail.

5.000.000

o número de passos necessários para fazer a trilha.

3.524

o tamanho oficial da trilha em 2017, em quilômetros (2189.8 milhas).

165.000

o número aproximado de marcações (as white blades) em toda a trilha.

14

o número de estados americanos por onde a trilha passa.

262

o número de cabanas ao longo da trilha.

3.133

o número de pessoas que tentaram fazer a caminhada completa em 2016.

1921

é o ano em que a trilha foi proposta por Benton MacKaye.

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A culpa é dele: Benton MacKaye (foto da National Geographic)

1937

é o ano em que a trilha foi finalizada.

1948

é o ano onde a primeira pessoa completou a trilha do início ao fim em uma temporada. O autor da façanha foi Earl Shaffer, um ex-soldado americano veterano da II Guerra Mundial.

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O primeiro de muitos: Ed Shaffer

45 dias, 22 horas, 38 minutos

é o recorde estabelecido por Karl Meltzer em 2016 para percorrer toda a trilha (75 quilômetros por dia, em média).

165

é o número de dias, em média, que uma pessoa normal leva para percorrer a trilha (21 quilômetros por dia).

6,5

quilômetros é a distância, em média, que a trilha cruza uma estrada.

2.025

metros acima do nível do mar é o ponto mais alto da trilha.

37

metros acima do nível do mar é o ponto mais baixo.

141.500

metros é o total de subidas e descidas na trilha.

16

Everests. É o que equivale essa elevação.

3.000.000

de pessoas é o número estimado de visitantes por ano a algum ponto da trilha.

15.524

pessoas já completaram a trilha, segunda a ATC.

500

é o número aproximado de pessoas que já completaram a trilha com mais de 60 anos.

81

anos é a idade da pessoa mais velha a completar a trilha. Lee “Easy One” Barry andou 10 milhas (16 km) por dia por 220 dias em 2004.

5

anos é a idade da pessoa mais nova a completar a trilha. Christian “Buddy Backpacker” Thomas fez a trilha com seus pais de 2013.

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Caminhar não tem idade: Christian “Buddy Backpacker” Thomas, 5