A trilha da trilha: West Virginia

Quando você acha que a Virginia acabou, chega West Virginia. O caminho é curto: são só 4 milhas no estado. E John Denver resume bem o estado de espírito por aqui:

“Almost heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountains
Shenandoah River,
Life is old there
Older than the trees
Younger than the mountains
Blowin’ like the breeze
Country roads, take me home
To the place I belong
West Virginia, mountain momma
Take me home, country roads”

 

 
Já me imagino cantando isso durante TODO o tempo que vou ficar no estado…

 

 
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Treinamento de corpo e alma

Existe um grande debate entre as pessoas que tentam fazer uma trilha tão extensa quanto a Appalachian Trail. Para alguns a trilha não exige nenhum treinamento em especial: a própria trilha irá cuidar de deixar seu corpo em forma, pronto para os milhares de quilômetros que estão por vir. Um segundo grupo, no qual me incluo, acha que não: se você quer realmente chegar até o final é bom ir se preparando. Bastante.

Dentre as três grandes trilhas americanas a Appalachian Trail é a menor, mas é também, indiscutivelmente, a que tem a maior variação de altitude. São mais de 500 mil pés de sobe e desce. 16 Everests, eles pregam! E pra enfrentar um monstro desses não dá pra ir despreparado.

Faltando menos de 90 dias para meu início entro na reta final de treinos e exercícios. Reta final porque desde o início de 2016 já venho treinando, de alguma forma, para isso. Primeiro foram os livros, onde tentei entender a trilha. Depois a Estrada Real, que fiz em junho de 2016. Andar aqueles 1200 km foi uma prova: se conseguisse completá-la bem provavelmente conseguiria fazer a AT.

A partir de agora eu divido meu treinamento em três atividades: caminhadas com a mochila, corridas e exercícios físicos.

As caminhadas eu faço quatro vezes por semana. Segundas, quartas e sextas caminho na cidade. Encho minha mochila de livros – Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos são os escolhidos, por motivos óbvios: os 8 livros das duas coleções pesam mais de 8 quilos! – e saio caminhando pela capital mineira. E quem conhece Belo Horizonte sabe que a cidade não é para fracos. Tenho preferência pelos morros do Santo Antônio, Gutierrez e Sion. Ando umas três horas por dia com a mochila nas contas.

Aos sábados as caminhadas são nas várias trilhas nas proximidades da cidade. A do Topo do Mundo até Moeda, por exemplo, é um trilha que muita gente diz ser difícil. Na minha última caminhada resolvi medir a variação de altitude. Pra ir e volta são cerca de 23 quilômetros de distância e um pouco mais de mil metros de subidas e descidas. É daquelas que você chega no final pedindo penico, com tanto morro que atravessa. Gravei o vídeo abaixo explicando um pouco. Veja só:

Olha que coincidência: estou planejando andar a Appalachian Trail por 150 dias, uma média de 23 quilômetros por dia. Exatamente a distância da trilha do Topo do Mundo. E quer saber mais? Se a gente dividir a variação total da AT pelo número de dias que estou planejando caminhar (515 mil pés por 150 dias) vamos ter um ganho ou perda de elevação de 3400 pés por dia. Que são, acredite, 1036 metros. Sacou? Fazer a Appalachian Trail é, na verdade, fazer a trilha do Topo do Mundo até Moeda ida e volta por 5 meses, caminhando todos os dias. Quer saber? Choquei.

Pra encarar isso eu intercalo as caminhadas com mochila com corridas, que faço às terças e quintas. Estou aumentando tanto a distância quanto o ritmo gradualmente. No momento estou fazendo 5 km em 30 minutos e até abril a ideia é correr 15 km duas vezes por semana.

E finalmente, pra conectar isso tudo, tenho feito Gyrotonic, um método de condicionamento físico que foi criado ainda nos anos 70 por um  ex-bailarino romeno. A ideia por trás do Gyrotonic são exercícios fluidos, circulares, de rotação e torção em aparelhos. A ideia aqui é reforçar a musculatura e evitar lesões, um dos motivos que mais tiram os caminhantes da trilha.  Faço também três vezes por semana: vou pras aulas andando, levando minha mochila. As aulas de Gyrotonic são mais ou menos assim:

Não mudei tanto a alimentação. Tenho diminuído o consumo de álcool nessa reta final, mas sem deixar de lado um taça de vinho de vez em quando. Também tenho comido menos carne vermelha e mais vegetais, mas porque sei que durante a caminhada minha alimentação vai se restringir, quase exclusivamente, à macarrão instantâneo, barras de cereais e outras porcarias. Vou tentar me alimentar bem sempre que possível, mas como vou ficar na dependência do que encontrar em cada parada, realmente não sei o que vou comer…

A preparação é pra chegar na trilha no melhor condicionamento físico possível. Sei da dificuldade da caminhada. E quero dar o melhor de mim para chegar ao final no prazo previsto.

Mas o treinamento físico é só uma parte. É preciso se preparar também psicologicamente e emocionalmente para a caminhada. E essa, eu acredito, é a parte mais difícil. Nenhum dos livros que eu li (nem o Appalachian Trials, um guia para se preparar psicologicamente e emocionalmente para a Appalachian Trail)  vai conseguir me deixar pronto pra esse desafio. Eu só vou saber o que é ficar 5 meses longe de casa, no mato, na chuva, no tempo, falando uma língua diferente, comendo comida desidratada, passando sede e perrengues mil, quando realmente passar por isso. Vinte dias do Caminho da Fé? Moleza! 1200 km e um mês na Estrada Real? Fichinha.

Tenho total consciência da encrenca em que estou me metendo. Sei que vai ser mais difícil que estou pensando. Mas tenho meu objetivos claros: sei porque quero fazer a trilha, sei o que vai acontecer se eu conseguir. E sei também o que vai rolar se não chegar no final. Corpo são, mente sã. É assim que quero dar o primeiro passo.

 

Longa Distância no Senac Minas

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No final de 2016, depois de ter completado a pé três dos caminhos da Estrada Real, recebi uma mensagem de Alexandre Biciati, do Senac Minas. Ele queria agendar uma entrevista para o Aprendi no Senac, o blog oficial da instituição.

O bate papo aconteceu ainda em dezembro e foi ao ar essa semana. A conversa com a repórter Roberta Almeida foi gostosa: conto um pouco do que foi fazer os 1.200 km da Estrada Real a pé, os desafios e planos para o futuro, incluindo a Appalachian Trail.

É muito gratificante ver que esses passeios servindo de inspiração para uma galera que está agora indo em busca de seus sonhos. Uma das razões das caminhadas é isso: mostrar pra Jade e Lis, minhas netas, que é preciso ir atrás de suas paixões, não importa quais sejam.

Pra assistir e ler a matéria é só ir no Aprendi no Senac. Ou você pode assistir a conversa aí embaixo.

Obrigado ao Alexandre, à Roberta, ao cinegrafista Evandro Gangana e a toda equipe do Senac pela oportunidade.

 

Faltam cem dias… Não! Menos!!

Entrei na contagem regressiva para a trilha.

Mesmo sabendo que a Appalachian Trail é uma trilha extremamente sociável, queria fugir da “bolha”, o período onde a maioria das aspirantes a thru hikers começam. Ele vai do início de março ao meio de abril. Historicamente os primeiros dias de cada um desses dois meses são os que recebem a maioria dos caminhantes. No ano passado mais de 50 pessoas começaram nesses dias.

Mas mesmo começando em maio, no ritmo que eu normalmente ando, eu inevitavelmente iria encontrar com esse bando em algum lugar nas próximas semanas. Para fugir da multidão por completo eu deveria a) começar antes deles e seguir sempre a frente, ou b) fazer a trilha no sentido SOBO (não sabe o que é SOBO? Lê lá no Dicionário Apalache-Português) ou c) optar pelo Flip Flop. Nenhuma das três opções me agravada: para fazer a primeira deveria começar ainda em fevereiro, com neve e temperaturas muito baixas. E optando por qualquer das outras duas eu não terminaria em Mount Katahdin, o meu objetivo. Afinal, a maioria das pessoas faz do sul pro norte por algum motivo, não?

Ou seja: mais cedo ou mais tarde eu iria cruzar com a bolha.

Comecei ainda no final de dezembro a pesquisar várias opções de passagens para os Estados Unidos. Saindo de Belo Horizonte, ou Rio, ou São Paulo, ou Brasília, ou Recife. Chegando em Atlanta, ou Miami, ou New York, ou Charlotte, ou Orlando. Não me importava: poderia fazer os trechos internos com milhas que tenho acumuladas, mas o importante seria sair do Brasil e chegar aos Estados Unidos gastando pouco. Os preços variavam muito, mas sempre acima dos US$1,000.00 . Até que encontrei uma passagem saindo de BH e chegando a Orlando por cerca de 800 dólares. Comecei a monitorá-la, a pesquisar datas próximas, a chegar outras companhias. Curiosamente o preço vinha caindo: do final de dezembro até agora já está 140 reais mais barata. Continuo um monitoramento diário, mas a tendência é de queda: fica cerca de US$5 mais barata a cada dia. Ainda não emiti, mas vou fazer assim que sentir a tendência mudar de rumo. O problema: essa passagem sai do Brasil dia 10 de abril. Com isso adianto o início da caminhada em duas semanas. Vou encontrar com a bolha antes do que imaginava.

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Assim devo começar a caminhada por volta do dia 15. Também não defini o dia exato. Mas se for mesmo começar no dia 15 faltam 93 dias.

Não defini o dia porque outro gráfico que monitoro é o do registro de caminhantes que pretendem fazer a trilha inteira, os chamados thru hikers. Não é um registro obrigatório, mas dá uma boa noção da tendência de quais dias são mais concorridos. Até o momento os dias 1 e 15 de março são os hits desse nosso verão. O gráfico é atualizado semanalmente. Os números de abril como um todo ainda são baixos, mas por lá também a tendência é que as pessoas se registrem mais próximo da data de início. Ninguém ainda se registrou para o dia 15, e continuando assim é bem provável que peça ao pessoal da Appalachian Trail Conservancy, que teve a iniciativa do registro, que adiante minha data do dia 1 de maio para 15 de abril.

O planejamento final contempla, além da viagem BH-Orlando, também o aluguel de um carro, que dirijo até Atlanta, passando por Jacksonville, FL, onde encontro uma amiga e compro as coisas que estivem faltando; o trem do centro de Atlanta até a estação no norte da cidade, onde pego uma van até as proximidades da trilha. No primeiro passo uma noite no Hiker Hostel (que fica a 120 km da estação de trem) e no dia seguinte pela manhã eles me deixam no Amicalola Falls Park (outros 45 km). Mas ali ainda não é o início da trilha: são mais 13 km na Approach Trail (a trilha de aproximação) até chegar ao marco inicial da Appalachian Trail.

O que vou encontrar por lá é isso:

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O primeiro marco da Appalachian Trail (a foto é do blog Atlanta Trails)

Uma placa marcando o início da trilha e a primeira white blaze. A partir dali serão só mais 3540 km de caminhada até o Mount Katahdin, no Maine, onde planejo chegar no dia 7 de setembro.

O que falta pra fazer nesses próximos 93 dias parece uma enormidade. Ainda tenho equipamentos pra comprar, alguns dos quais só vou ter contato quando chegar nos Estados Unidos. Tem alguns apoios e parcerias que tenho conversado que preciso fechar nas próximas semanas. Tenho alguns livros que gostaria de ler antes de começar a trilha. Tenho que vender algumas coisas coisas para ajudar a pagar as despesas (alguém aí interessado numa Canon T1i? Uma Canon D70?)

Tenho que terminar o treinamento que me propus (falo dele depois). Preciso comprar um bom seguro de viagens. Preciso testar os novos equipamentos que devo receber essa semana (barraca, saco de dormir, isolante térmico) em condições mais adequadas (vou fazer um vídeo sobre esses equipamentos, não se preocupe).

Nesses 93 dias ainda tenho pelo menos dois trabalhos que vão me deixar fora de Belo Horizonte por alguns dias. Aniversário de 15 anos da neta. Viagens pra visitar os irmãos em Divinópolis e Juiz de Fora. Contas para deixar programadas para serem pagas. Preciso faz um check up, ir ao dentista, consultar minha oftalmologista…

Mas tenho a sensação que tudo está andando no tempo certo. A partir de agora é manter o ritmo, o foco e começar a contagem. 93, 92, 91…

 

 

Afogando em números

Adoro estatísticas. Quando viajo sempre levanto os números, informações, percentuais, dados que quase ninguém se interessa. Me ajudam a ter uma visão macro do ambiente. Então resolvi compilar alguns números curiosos sobre a Appalachian Trail.

5.000.000

o número de passos necessários para fazer a trilha.

3.524

o tamanho oficial da trilha em 2017, em quilômetros (2189.8 milhas).

165.000

o número aproximado de marcações (as white blades) em toda a trilha.

14

o número de estados americanos por onde a trilha passa.

262

o número de cabanas ao longo da trilha.

3.133

o número de pessoas que tentaram fazer a caminhada completa em 2016.

1921

é o ano em que a trilha foi proposta por Benton MacKaye.

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A culpa é dele: Benton MacKaye (foto da National Geographic)

1937

é o ano em que a trilha foi finalizada.

1948

é o ano onde a primeira pessoa completou a trilha do início ao fim em uma temporada. O autor da façanha foi Earl Shaffer, um ex-soldado americano veterano da II Guerra Mundial.

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O primeiro de muitos: Ed Shaffer

45 dias, 22 horas, 38 minutos

é o recorde estabelecido por Karl Meltzer em 2016 para percorrer toda a trilha (75 quilômetros por dia, em média).

165

é o número de dias, em média, que uma pessoa normal leva para percorrer a trilha (21 quilômetros por dia).

6,5

quilômetros é a distância, em média, que a trilha cruza uma estrada.

2.025

metros acima do nível do mar é o ponto mais alto da trilha.

37

metros acima do nível do mar é o ponto mais baixo.

141.500

metros é o total de subidas e descidas na trilha.

16

Everests. É o que equivale essa elevação.

3.000.000

de pessoas é o número estimado de visitantes por ano a algum ponto da trilha.

15.524

pessoas já completaram a trilha, segunda a ATC.

500

é o número aproximado de pessoas que já completaram a trilha com mais de 60 anos.

81

anos é a idade da pessoa mais velha a completar a trilha. Lee “Easy One” Barry andou 10 milhas (16 km) por dia por 220 dias em 2004.

5

anos é a idade da pessoa mais nova a completar a trilha. Christian “Buddy Backpacker” Thomas fez a trilha com seus pais de 2013.

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Caminhar não tem idade: Christian “Buddy Backpacker” Thomas, 5

Pequeno dicionário Apalache – Português

Vou fazer a AT em 2017. NOBO. Comer GORP por alguns meses, seguindo as White Blazes. Tirar poucos zeros mas alguns neros, de Amicalola a Kathadin, passando por ShenandoahMcAfee Knob.

Não entendeu nada, né? Pois é. Estou tendo que aprender uma nova língua pra fazer a Appalachian Trail. Uma variação do inglês, cheia de palavras, siglas e acrônimos  que nunca tinha ouvido antes, mas que nos últimos meses passaram a fazer parte da minha vida. Assim como em qualquer área, a caminhada pela trilha dos apalaches tem um dialeto próprio, uma língua que só é compreendida 100% por aqueles que vivem na trilha. Já ouviu dois designers conversando? Ou dois médicos? Pois é tipo isso.

E como vou passar cinco meses falando e ouvindo esse dialeto é bem provável que nos próximos textos eu incorpore uma palavra ou outra nos posts desse blog. Então achei melhor começar o ano fazendo esse glossário, um guia para ajudar vocês a não ficarem perdidos. Assim, quando eu começar a falar em “SOBO”, “white blaze” ou “Nero”, vocês vão saber do que se trata. Caso contrário é só voltar aqui e consultar o seu pequeno dicionário Apalache – Português.

Esse glossário vai ser atualizado constantemente, à medida que for me deparando com novos termos ou palavras.

100 Mile Wilderness – O trecho mais rústico e inabitado da trilha, já no estado de Maine. São cerca de 160 quilômetros no mato, sem cidades próximos. 

2.000 Miler – A Appalachian Trail em oficialmente 2189.9 milhas (3524,30 km). Um 2.000 Miler é qualquer pessoa que tenha andado mais de 2.000 milhas da trilha.

Approach Trail – A trilha de aproximação. O início oficial da AT é em uma montanha chamada Springer Mountain, um local difícil de chegar, mesmo de carro. Por causa disso muitos caminhantes preferem começar a trilha no parque de Amicalola Falls, que fica a 8.8 milhas antes do início oficial da trilha.

Aqua Blaze – Num determinado trecho da AT é possível alugar um caiaque e cortar caminho, economizando algumas milhas. Essa prática é chamada de Aqua Blaze (ver também: blaze, blue blaze, pink blaze, yellow blaze)

AT – A abreviatura de Appalachian Trail.

ATC – A abreviatura de Appalachian Trail Conservancy, a confederação das associações responsáveis pela conservação é manutenção da AT. É formada por centenas de voluntários nos 14 estados por onde a trilha passa e é a maior inciativa voluntária do mundo.

AYCE – All You Can Eat. Tudo o que conseguir comer. O tipo de restaurante predileto dos caminhantes.

Base Weight – Peso Base – O peso da mochila com tudo o que você estiver carregando, exceto água, comida e combustível, que são variáveis.

Bear Bag – a forma mais comum de deixar os ursos longe de sua comida é colocando tudo aquilo que tem cheiro em um saco e dependurar isso em uma árvore à uma distância segura do acampamento. O Bear Bag (sacola do urso) é o saco onde os caminhantes deixa a comida. (ver também Bear Canister, Ursack)

Bear Canister – Um bear canister é um recipiente de plástico extremamente duro à prova de ursos. Você coloca sua comida e tudo que tiver cheiro (pasta de dente, cremes etc) dentro, fecha e coloca a uma distância segura de seu acampamento. Só é obrigatório em um pequeno trecho da Appalachian Trail.

Big 3 – Mochila, barraca e saco de dormir. Os três itens mais pesados que você carrega são chamados assim.

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Olar. Eu sou uma White Blaze.

Blaze – As blazes (chama ou brilho) são as marcações que você segue na trilha. A marcação oficial da AT são as White Blazes, um retângulo branco de 5 x 15 cm pintado em árvores, pedras e placas pelo caminho. São aproximadamente 165 mil white blazes pela trilha, a uma distância média de 20 metros entre uma e outra. Veja também: Blue Blaze, Double Blaze, Yellow Blaze, Pink Blaze, Aqua Blaze)

Blue Blaze – Trilha não oficiais próximas à Appalachian Trail são pintadas de azul. São as Blue Blazes. Levam a cabanas, lagos, mirante ou são simplesmente atalhos. Quem se aproveita desses atalhos é chamado de Blue Blazer.

Bounce Box – Como o acesso a comida de qualidade pode ser difícil na trilha os caminhantes têm o habito de empacotar aquilo que sentem falta, colocar em uma caixa e enviar pelo correio para uma agência próxima à trilha. Chegando lá eles tiram o que querem, fecham a caixa e enviam novamente para a próxima cidade. E assim vai até o final da caminhada. Essa caixa é chamada de Bounce Box (ou caixa pula-pula) (veja também: Mail Drop)

Cat Hole – Buraco de gato. A sua privada, na maior das vezes. O Cat Hole é o buraco que você cava para encobrir suas vezes no meio do mato.

Damascus – Uma cidade com menos de mil habitantes no estado da Virgínia por onde a trilha passada. É considerada a capital da Appalachian Trail.

Double Blaze – Duas marcações, uma acima da outra, mostrando uma mudança de direção na trilha.

Duct Tape – A nossa Silver Tape, uma fita adesiva grossa e resistente, a senhora das trilhas, salvadora em todas as situações, seja cobrir uma bolha no pé ou um tênis rasgado.

Flip-Flop – Um forma alternativa de fazer a trilha, começando em algum trecho na metade e seguindo até o final (ou o início) e depois fazendo a metade restante. A vantagem do flip-flop é evitar um grande número de caminhantes e temperaturas muito frias ou muito quentes. (ver também: SOBO, NOBO)

GORP – Good old Raisin and Peanuts – O bom e velho passas e amendoim. Ou qualquer variação de mix de frutas secas, o lanche mais consumido pelos caminhantes durante o dia.

Kathadin – a montanha onde a trilha termina no norte, no estado americano de Maine.

Hiker Box – caixas ou containers deixados na trilha onde os caminhantes podem descartar coisas que não querem mais (comida, equipamentos etc) mas podem ser utilizados por outras pessoas.

HYOH – Hike Your Own Hike – Trilhe Seu Próprio Caminho. A frase mais usada pelos caminhantes. Cada um na sua. Pra mim soa como uma forma bem educada de dizer “ei, foda-se”. Por exemplo, se alguém começa a dar palpites sobre seu ritmo de caminhada ou o equipamento que está levando é só soltar um “Hey, Hike your Own Hike my friend”. O que pra mim soa como “Qualé, meu irmão. Vai se foder e me deixa na minha”. 😀

Lyme Desease – A doença do carrapato. Esse é meu maior medo na trilha. É causada pela picada do carrapato, comum em alguns trechos mais ao norte.

Mail Drop – As encomendas que os caminhantes recebem durante a caminhada, seja em correios ou entregues em albergues. Podem conter comida, equipamento, cartas etc. Normalmente são enviadas por algum familiar do caminhante. (veja também: bounce box)

McAfee Knob – Certamente o lugar mais fotografado da trilha. Fica no estado de Virgínia. Saca só:

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Mountain Money – Dinheiro da Montanha – uma gíria para papel higiênico.

Nero – Near Zero – um dia onde o caminhante anda pouco, acrescentando quase nada na sua caminhada (veja também: zero)

NOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Sul-Norte (Georgia-Maine). Este é o sentido mais popular. Eu sou um NOBO. (veja também: SOBO, Flip Flop)

Pink Blaze – Quando uma pessoa passa a seguir outra na trilha com intenções, digamos, mais íntimas.

Privy – Privada. Pode ser encontrada em alguns abrigos pelo caminho.

Purist – Puritano – Um caminhante que passa por todas as marcações brancas (white blaze), sem desviar o caminho ou pegar atalhos.

Section Hiker – Todo caminhante que faz um trecho da trilha. Muitas pessoas fazem um trecho diferente por ano e completam a Appalachian Trail depois de diversos anos. (veja também: thru hiker)

Shelter – Abrigo. São cerca de 260 em toda a AT (uma média de um a cada 14 quilômetros). Os abrigos são, na maioria, construções simples de madeira, sem porta, nem energia elétrica e muitas vezes sem instalação sanitária. Por outro lado são infestados de ratos.

Shenandoah – Um parque nacional que a Appalachian Trail cruza, no estado da Virgínia.

Slack Packing – Alguns caminhantes deixam a mochila em algum hotel ou albergue e fazem trechos da trilha sem carregar o peso dos equipamentos. Essa prática é chamada de Slack Packing

SOBO – Todo caminhante que faz a trilha no sentido Norte-Sul (Maine-Georgia). (Veja também: NOBO, Flip Flop)

The Whites – A abreviatura das White Mountains, no estado de New Hempshire. O trecho, de pouco mais de 100 milhas, é considerado por muitos um dos mais difíceis da AT.

Thru Hiker – Todo caminhante que faz a trilha completa, do início ao fim, em uma temporada. (veja também: section hiker)

Trail Angel – Pessoas que de alguma forma ajudam os caminhantes. Seja com a distribuição gratuita de comida e bebida, seja com carona. Muitos Anjos são ex-thru hikers (veja também: Trail Magic)

Trail Magic – Os “presentes” que são deixados pelos Anjos para os caminhantes. Pode ser comida (muitos fazem churrasco ou cachorro quente) ou bebidas (o que melhor que uma cerveja gelada depois de alguns quilômetros caminhando?). 

Trail Name – Uma das tradições da AT é que você precisa ter um nome de guerra, um apelido. Isso é seu Trail Name. O caminhante pode escolher. Ou o nome pode ser imposto: nesse caso quase sempre acontece quando você faz uma besteira. Não quero passar por isso. Ainda não decidi o meu, mas tenho umas ideias.

Ursack – O Ursack tem o mesmo objetivo do Bear Canister: um recipiente à prova de ursos. A diferença é que ele é feito de um tecido ultra resistente, mais leve que o Bear Canister. É colocar a comida dentro e amarrar o saco em uma árvore.

Vitamin I – Vitamina I – A gíria para Ibuprofeno, um analgésico muito utilizado para dores musculares e nas articulações.

Yellow Blaze – é a gíria para carona, porque as marcações na estrada são pintadas em amarelo. Quem pega carona na trilha é chamado de Yellow Blazer.

Yo-Yo – Completar a trilha inteira e quando chegar ao final voltar até o início. Pois é. Tem gente que tenta fazer isso.

Zero – um dia de descanso, onde o caminhante acrescenta zero milhas na jornada.

Cinco livros sobre a Appalachian Trail

Quando decidi me mudar pra Austrália algum amigo (quem foi hein?) me indicou um livro chamado In a Sunburned Country. Já tinha ouvido falar do autor, um tal de Bill Bryson, por causa de um outro livro seu que tinha sido lançado no Brasil, o Uma Breve História de Quase Tudo (Companhia das Letras, 2005). Já havia gostado da forma crítica e do humor cítrico do autor, que intercalava fatos históricos e piadas no tom e no momento certo. O relato da sua viagem pela Austrália descrevia o país de uma forma peculiar. E descobri aí que aquele não era seu único relato de viagem: ele também já havia escrito sobre a África, a Europa e os Estados Unidos, onde havia nascido, apesar de ter passado boa parte da vida na Inglaterra. Pra minha surpresa um desses livros de relato de viagens também havia sido lançado por aqui. Chamava Uma Caminhada pela Floresta: Redescobrindo os Estados Unidos pela Appalachian Trail (Companhia das Letras, 1999) e foi a primeira vez que ouvi falar da trilha.

Boa sorte se for tentar achar a edição em português do livro. Sugiro começar pela Estante Virtual, onde vez e outra aparece um pra venda. Fora isso não existe mais nada sobre a trilha publicado em nosso idioma. Nem na Internet: tente procurar “Appalachian Trail” no Google em sites brasileiros e você vai se deparar com basicamente essa matéria sobre a morte da Geraldine Largay, que foi publicada em 2016 no Portal Extremos (eu falei sobre a Geraldine e outras pessoas que morreram na trilha no meu post passado, você viu?)

Mesmo quando se muda a pesquisa para “trilha apalache” os resultados são poucos: aumentam por causa do filme mais recente e pouco inspirado do Robert Redford, baseado no livro do Bill Bryson. E por causa de um episódio de Criminal Minds que se passa na trilha: uma obra de ficção alarmista, que os parentes e amigos de quem pensa em fazer a caminhada não devem assistir.

Quando comecei minha pesquisa não conseguia achar nem informações sobre alguma pessoa nascida no Brasil que já tenha feito a trilha. Só esse ano fiquei sabendo que Elaine “Brazil Nut” Bissonho completou a Appalachian Trail em 2011. Antes ela já tinha feito a Pacific Crest Trail e no ano seguinte a Continental Divide Trail, o que a coloca como uma das raras pessoas no mundo a ter feito a Tríplice Coroa das trilhas de longa distância. Mas só foi possível chegar a essa informação porque ela está no site da ALDHA – American Long Distance Hiking Association (Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância). E por causa disso tem uma breve nota sobre ela também no Extremos, publicada em março deste ano. E é isso. Nada mais sobre seu feito está disponível na web brasileira. E sobre a Appalachian Trail, como eu disse, tem bem pouco.

Mas a história poderia ser diferente. Charles Casey Reese, um ex-voluntário da Appalachian Trail Conservancy e hoje biólogo da National Park Service, o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, esteve por aqui ainda em 2007 dando um workshop em São Paulo sobre Trilhas de Longas Distâncias. O evento era parte do Seminário Internacional Trilhas de Longo Percurso, que contou ainda com representantes do Chile e de parques brasileiros como a Serra dos Órgãos. A fala de Reese foi focada na AT, na importância dos voluntários e no trabalho da Appalachian Trail Conservancy. Não estive no evento (consegui apenas ter acesso ao Powerpoint que Reese utilizou), mas gosto de imaginar que foi nessa palestra que Elaine ouvi sobre a trilha e decidiu fazê-la.

Bill Bryson: A Walk in the Woods

Com a pouca repercussão do workshop, hoje em dia para saber mais sobre a Appalachian Trail a saída é buscar informação em sites e livros em inglês. Aí sim o universo é vasto. São dezenas de sites, blogs e livros sobre o assunto. Eu divido os livros em três categorias: guias, relatos e romances. É nessa última que o livro de Bill Bryson (A Walk in the Woods no original) se encaixa. Ele é certamente o livro de maior sucesso, aquele que desperta na maioria das pessoas o desejo de fazer a trilha. A fama da Appalachian Trail em anos recentes é muito por conta da influência do livro, assim como Wild, da Cheryl Strayed fez com a Pacific Crest Trail ou o Diário de um Mago, do Paulo Coelho, com o Caminho de Santiago.  Nos romances também se encaixa o livro que estou tentando ler agora: Trail Danger: A Tale of Love and Suspense on the Appalachian Trail, de Anne Perkins. Mas esse é uma bobagem que o melhor a fazer é passar longe.

Bill Walker: Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail 

Gary Sizer: Where´s the Next Shelter?

Alguns dos relatos mais interessantes são escritos por Bill Walker (Skywalker: Close Encounters on the Appalachian Trail) e Gary Sizer (Where´s the Next Shelter?). Walker é um gigante com dois metros e dez de altura que conta sua caminhada de 2005. O livro é agradável e o autor consegue fazer graça com sua altura incomum. Gary “Green Giant” Sizer, outro grandalhão, fez a trilha em 2014. Seu livro conta sua aventura e dos amigos que fez na trilha. Como ele mesmo diz, parece piada: um engenheiro, uma colegial e um soldado israelense que sonha ser cartunista… O livro é inspirador e bem inscrito, mas a autor conseguir repercussão mesmo por causa de suas fotos de antes e depois da Appalachian Trail que ele publicou do Reddit. Saca só:

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David “AWOL” Miller: AWOL on the Appalachian Trail

Outro relato essencial é o de David “AWOL” Miller. Seu livro AWOL on the Appalachian Trail conta sua caminhada pela trilha em 2003. Se não bastasse ter escrito um dos melhores relatos sobre a trilha, o ex-programador de computadores fez mais: é dele o guia usado por 9 entre 10 pessoas que pensam em fazer a trilha. Chamado simplesmente de The AT Guide, traz informações sobre pontos de água, cabanas, distâncias, elevações e quanto falta para a próxima cidade. É fundamental, mas não é um livro de leitura e só é útil quando você estiver na trilha. Aliás, você não precisa de mapa nem bússola para fazer a Appalachian Trail, mas vai ser difícil chegar ao final sem o AT Guide.

Zach Davis: Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail

Outro guia que tem me ajudado bastante é o escrito por Zach Davis. Como diz o título,  Appalachian Trials: A Psychological and Emotional Guide to Thru-Hike the Appalachian Trail é justamente isso, um guia para te preparar psicologicamente e emocionalmente para o desafio. Apesar de ser focado na AT, não serve só pra ela: as informações de Davis podem ser úteis para qualquer aventura. Outro nerd saído da frente de um computador para o meio do mato, Zach Davis transformou seu livro em outro produto: o excelente site The Trek , onde é possível  encontrar relatos de outros caminhantes, informações sobre equipamentos, blogs, mapas interativos e informações  que podem ser úteis para quem deseja fazer uma caminhada de 5 meses ou 5 dias.

Todos os livros estão disponíveis na Amazon, alguns gratuitos para quem faz parte do Kindle Unlimited. Se tem interesse pela caminhada, recomendo a leitura. O Powerpoint com a apresentação de Casey Reese em São Paulo em 2007 pode ser encontrado aqui. Boa leitura.