Planejando uma viagem pra Orlando

Tem viagem nova em breve. Desta vez ao invés de destinos pouco comuns – nada de Patagônia ou Rússia – vou para a manjada (e adorada por brasileiros) Orlando.  E comecei, desde a semana passada, a fazer a minha parte predileta da viagem: o planejamento.

Tem gente que acha um saco, outros odeiam, outros ainda acham desnecessário. É só ver a quantidade de agências de viagem pra comprovar. Muita gente quer simplesmente chegar, aproveitar as férias e não pensar em nada mais.

Eu não.

Eu começo a estudar meu destino alguns meses antes. Leio algumas dezenas de blogs, guias de viagem, estudo mapas, leio os jornais locais, compro revistas, discuto com amigos. Minha viagem começa bem antes.

Eu vejo muitas vantagens nesse estudo. Primeiro é que não chego na cidade completamente ignorante. Assim consigo me enturmar mais, gasto menos tempo em transporte, fico menos perdido. Eu chego no meu destino já familiar com o lugar. Sei onde fica tudo que me interessa, pelo menos na minha cabeça (sempre foi assim. Na minha primeira viagem ao exterior, para Londres em 1996, saí do metro em Camden Town direto para a Rough Trade, a loja de discos que eu mais queria conhecer…). Outras vantagens é que economizo bastante e tenho liberdade: não preciso ficar com um grupo de pessoas e posso fazer o que estiver a fim, e não o que  é colocado pela agência.

Pois bem, já que gosto tanto assim de planejar viagens, resolvi compartilhar isso aqui.

A primeira decisão a fazer, claro, é o destino. Quando a Jade tinha três anos prometi que quando completasse 10 iríamos, como se diz aqui no Brasil, pra Disney (engraçado isso, né? A Disney é um dos conglomerados que possuem parques na Flórida e pra nós, brasileiros, ir pra lá é ir pra Disney. Ninguém diz vou pra Universal… Pior: dizemos ir pra Disneylândia. Nenhum dos quatro parques da Disney nas proximidades de Orlando se chama Disneyland…). Enfim, o tempo passou rápido, ela fez dez em fevereiro e junto com os parabéns veio a cobrança. Orlando, portanto, estava decidido como destino.

Depois disso é a vez de decidir o período e comprar as passagens. Aqui as coisas andam juntas. Passagens baratas significa fugir dos períodos de alta estação – final e meio do ano, período de férias. Pra mim, ótimo: gosto de viajar em épocas mais tranquilas, e pra mim os melhores meses são maio e setembro, para qualquer lugar – passagens são baratas nessa época, o clima é sempre agradável, não tem tanta gente.

Aqui começa a procura de passagens por um preço atrativo. Minha tática é fazer pesquisas semanais, as vezes diárias, a sites e blogs no Brasil e exterior. Visito os sites das companhias aéreas, dou uma passada por lojas como Submarino Viagens e Decolar, vou ao Melhores Destinos pra saber se existe alguma barbada, passeio por sites gringos como o Kayak. Isso me toma uns 20 minutos e me salva algumas centenas de reais. As vezes a diferença é gritante entre um site e outro. As vezes comprar na Submarino, por exemplo, é mais barato. Mas pode valer a pena pesquisar lá e comprar direto no site da companhia aérea.

Foi o que aconteceu desta vez. Vi a promoção no Melhores Destinos, pesquisei na Submarino, comprei direto no da Delta. O preço? R$1114,00 cada passagem, saindo de BH. Precisei pagar as três passagens a vista, mas mesmo assim valeu a pena.

Lição número 1: pesquise bastante. Vai te salvar alguns trocados.

Além de encontrar a passagem por um bom preço, ela precisaria, neste caso, ser para uma semana de feriado, para a Jade não perder tantos dias de aula. Optei pela semana de 7 de setembro. Motivo? Esta é uma das semanas mais tranquilas nos parques de Orlando, pós-férias americanas. Tem a desvantagem de ser no período de furacões na Flórida, mas como Orlando não fica na costa e não tem nenhum histórico, não me preocupei.

Passagem comprada é hora de reservar o hotel.

De novo, pesquisa. Uma ida no Hotels.com, outra no Trip Advisor para lever o que o povo fala, leituras em blogs até decidir qual o melhor. A primeira decisão que precisei tomar foi se iria ficar dentro ou fora dos parques (todos eles têm seus resorts). Prós: ficando hospedado ali você tem direito a visitar o parque uma hora antes dos mortais, pode fazer compras e mandar entregar tudo direto no quarto e não ficar carregando sacolas, pode debitar tudo diretamente no quarto. Contra: tudo isso tem um preço.

A diária em um dos hotéis da Universal, o mais barato, estava em torno de 170 dólares. Na Disney, o mais barato custava mais de 100 dólares por dia. Como já sabia que o período era tranquilo a decisão foi por um hotel a meio caminho entre os dois, onde poderia chegar aos parques com não mais que 15 minutos. Unindo isso a um parque aquático e a diárias de 115 reais para o quarto com duas camas queen size optei pelo CoCo Key  Resort. Os comentários eram favoráveis, o hotel tinha sido renovado recentemente e o valor era ótimo.

Passagem, ok. Hotel, ok. Mas como vou me locomover na cidade?

Sempre prefiro transporte coletivo. Dificilmente alugo carro, mas em Orlando essa parece ser a solução. Taxi é caro, as distâncias são longas e mesmo tendo que pagar estacionamento nos parques – em torno de 15 dólares a diária – vale a pena. Na Avis, uma semana de carro compacto custa menos de 100 dólares (a dica aqui é o seguinte: ao fazer a reserva, marque que você não é residente nos Estados Unidos. O preço cai pela metade.). Como comparação, o taxi aeroporto-hotel ficaria em torno disso. Era isso o que indicava várias dos blogs que li e é esse o caminho que tomei.

Com passagem, hotel e transporte decidido, começa a parte realmente divertida: o que fazer em cada dia, onde ir, o que comer. Isso vai ficar para um segundo texto.

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Bagagens extraviadas

As horas que passei detido na imigração em Chicago foi apenas o primeiro ponto de uma viagem cheia de contratempos.

Saimos da imigração as 8h30, bem depois do horário marcado para nossa conexão para Toronto, que seria as 7h. O voo da Air Canada foi sem a gente. Expliquei o problema para o pessoal da United no aeroporto e sem chororô fomos colocados num voo da própria United (na verdade de sua subsidiária United Express) as 9h30. O processo das bagagens no entanto se tornou outro fardo.

Com os voos de conexão nos Estados Unidos funciona assim: você faz alfândega na cidade onde chega e depois apenas coloca a bagagem em uma esteira. A partir daí ela será enviada ao seu destino final. No nosso caso, como perdemos a conexão, passamos de novo em um balcão de check in, onde nossas bagagens foram etiquetadas – mas continuamos (aí esteve o erro) com os tickets do voo anterior. Aquele que não embarcamos…)

Quando chegamos em Toronto, nossas bagagens não chegaram. Pior: tinhamos um outro voo, este sem ser conexão, comprado separadamente, para Quebec na sequência. Depois de conversar tanto com o pessoal da United quanto da Air Canada e alfândega, a recomendação foi: não se preocupe. Vá para Quebec que sua bagagem vai ser entregue lá.

É de dentro do Bombardier Q400 da Air Canada que vai aterrizar em Quebec que escrevo. Tenho na minha bagagem de mão os ítens mais importantes: passaportes, câmera fotográfica, uma blusa de para o Frio, o Ipad onde escrevo, dinheiro, cartões de crédito e um saco plástico transparente com uma escova de dentes e dois recipientes com menos de 100ml de líquidos. Minhas roupas, meias, cuecas, camisas, calças, luvas, gorro e necessaire estão em algum lugar entre Chicago e Quebec, em uma mala etiquetada com destino a Toronto.

UPDATE: chegamos em Quebec e a informação que temos é que as malas estão no México…
UPDATE2: a Air Canada, companhia que faz parte (assim como Tam e United) da Star Alliance, tem um excelente sistema de rastreamento de bagagem. Em Quebec nos informaram o código da nossa reclamação e através do site acompanhamos a poaição das malas. Hoje a informação é “enviadas para o aeroporto de destino”. Espero que cheguem no hotel.

Most Wanted People

São seis horas da manhã. Estou no aeroporto de O’Hare, em Chicago, nos Estados Unidos. Não é a minha primeira vez no país, nem na cidade. Desta vez, entretanto, estou apenas de passagem, a caminho de Toronto, no Canadá. O voo da United que saiu de São Paulo na noite anterior foi tranquilo, apesar dos minutos de atraso. O que apenas fez crescer a minha apreensão. Meu próximo voo sairia em menos de uma hora e ainda estamos, eu e minha companheira, na fila da imigração. O processo de entrada no país, mesmo que sua permanência nele se resuma a poucos minutos, é o padrão: imigração primeiro, malas depois, passa pela alfândega, vai para a área de passageiros em trânsito, despacha as malas novamente, passa mais uma vez pela imigração (agora para sair do país) e embarca no seu voo para a cidade de destino.

Quando chega a nossa vez, entrego os passaportes e explico: veja, estes são os passaportes válidos, mas os nossos vistos estão nestes outros dois, antigos (é comum isto acontecer: você tem um passaporte e tira o visto para os Estados Unidos. Seu passaporte vence, mas o visto continua válido. O jeito é viajar com os dois documentos). O policial, acostumado, pega os livretos e faz as perguntas usuais: estão vindo de onde? Indo para onde? Qual a finalidade da viagem? Processa, primeiro, os documentos dela: coloque os quatro dedos da mão direita aqui para escanear, isso, agora o polegar, certo, a outra mão, agora olhe para câmera, pronto, aqui estão seus documentos.

Na minha vez a coisa encrencou: coloquei os dedos, tirei a foto, fiquei esperando meu passaporte e o oficial digita, procura alguma coisa, digita de novo, olha o documento e me diz: estranho, seus dados não conferem. Você vai ter que acompanhar.

E assim entrei na temida salinha da imigração americana…

O local é sim como você vê nos filmes ou seriados do tipo “Aiport Control”: três fileiras de bancos de madeira sem encosto, uma sala reservada com persiana, onde se podia ver uma mesa com amontoados de papéis, quadros com anotações de nomes (muitos chineses), sexo (mais homens que mulheres) e número do voo (a maioria United) e monitores que mostravam as imagens de câmeras colocadas em celas de prisão, onde apenas uma pessoa dormia. No outro extremo uma sala maior, com quatro ou cinco oficiais. A princípio apenas nós dois estavamos no lugar. Com o tempo passando, outros iam e vinham: dois brasileiros, um grupo de indianos, um senhor na cadeira de rodas…

Uns quarenta minutos se passaram até que um dos oficiais veio ter comigo. Queria saber se meu nome de família era, afinal, Santos (como está no meu passaporte) ou dos Santos (como consta no visto). Expliquei a confusão. Um segundo, gordo e com cara de latino, interveio: Santos é um nome comum no Brasil, não? Confirmei. Mas Jefferson não é um nome tão comum, perguntou. Não, eu disse. E voltei para minha espera.

Eu já havia perdido minha conexão das 7 horas quando o oficial que me atendia, um senhor já na casa dos 60, também com descendência latina e olhar amigável, veio a minha direção: olha, parece que tem uma ocorrência no seu nome. Pode ser alguma coisa que aconteceu há muito tempo, mas tenho que checar com Washington. O que? Washington? Comecei a ficar preocupado. Sim, completou ele. Temos que ligar para a Interpol. Interpol? Você está brincando, retruquei. É sério, disse o oficial. Seu nome aparece na lista de procurados. E saiu tranquilamente.

Foram mais alguns minutos até ele voltar e pedir minha carteira de identidade brasileira (alguém disse que ela não vale nada no exterior? Esqueça!) e para eu anotar, em um pedaço de papel, o nome de minha mãe, minha altura e cor dos olhos. Enquanto escrevia aproveitei para perguntar se ele sabia o que estava acontecendo.

_ Não sei, ele disse. A Interpol pediu apenas que a gente se certificasse que você é você. Parece que estão procurando alguém com o mesmo sobrenome…

Já passava das 8 quando ouvi o Mr. Santos sendo chamado novamente. Ele me entregou os documentos e desejou um bom voo. Só isso. E não me disse mais nada.

Minhas malas estavam sozinhas na esteira. Quando passei pela alfândega, o oficial de plantão ainda me questionou o motivo de só estar passando ali naquele momento, mais de duas horas depois do meu voo ter aterrizado. Expliquei rapidamente a história e ele emendou:

_ Certamente uma confusão por causa do seu sobrenome. Muito comum nos países latinos.

Como se eu não soubesse. Ainda mais agora, que tenho um xará na lista dos mais procurados da Interpol.

(ok, na foto no meu passaporte antigo, a que tem o visto, não estou com uma cara de muitos amigos… Mas isso não é motivo para a minha detenção…)