Patagônia e Terra do Fogo

Já escrevi aqui o relato da viagem à Patagônia (mais precisamente a El Calafate e El Chaltén) e à Ushuaia, na Terra do Fogo argentina. Pois bem. Finalmente consegui terminar o vídeo. Assista e comente.

El Chaltén, a capital argentina da caminhada

A 220 km de El Calafate, na Patagônia, fica um dos segredos mais bem guardados da Argentina. A cidade mais jovem do país, inaugurada em 1984, é hoje a capital nacional do Trekking. Perdida entre o lago Viedma e as montanhas, El Chatén é um charme. Não espere mais que uma centena de casas, a maioria também hospedaria ou restaurantes. Afinal, a cidade tem menos de mil habitantes. No verão (no inverno cai pela metade). A infra-estrutura, era de se esperar, não é das melhores, mas tem melhorado. Banco ainda não tem, mas em todos os lugares é possível pagar com moeda estrangeira e em alguns poucos até cartão de crédito. Internet já chegou, mas apenas por satélite e nos dias de pouco vento, o que é raro.

2012-04-03 13.37.50-1O acesso até o local, a partir de El Calafate, é fácil. Existem 6 ônibus diários, ao custo de 90 pesos (cerca de 40 reais) o trecho. A viagem dura 3 horas. De carro basta pegar a mítica rodovia 40 em El Calafate – a mesma que vai para o aeroporto e segue até Bariloche – e depois a 23, que termina em El Chaltén. Toda asfaltada, com retas de perder de vista, a viagem de carro é tranquila e agradável e pode ser feita em pouco mais de 2 horas – ou em muito mais tempo, caso deseje parar em todos os bons locais para fotos.

2012-04-03 16.53.30 HDR-1Mas afinal, o que tem pra fazer em El Chaltén? Caminhadas, e isso é motivo suficiente para levar centenas de turistas, de todas as idades, à cidade. A maioria delas parte de uma das duas avenidas do lugar (ambas apenas a continuação da rodovia e cortadas, no total , por dez ruas). É sair da pousada, entrar em um dos senderos, e caminhar floresta a dentro. As opções vão de pequenos trechos de 45 minutos em cada sentido – onde se alcança, por exemplo, o Mirador de Los Condores, de onde se tem uma boa vista panorâmica do lugarejo – a outras que pode durar várias horas e exigir que você acampe. Para que tiver ainda mais ânimo e experiência é possível também escalar o Fitz Roy, também chamado, na língua dos povos locais, de El Chaltén.

 

Optamos por uma caminhada considerada leve: durante 8 horas andamos por diferentes trilhas. Conhecemos lagos (como a Laguna Capri), vimos diferentes tipos de vegetação, animais e pássaros (incluindo o Pica-Pau Gigante de cabeça vermelha) e ainda a bela vista da montanha e geleiras. É preciso disposição, mas o passeio é recompensador. No total são 15 as opções de caminhadas, todas dentro do Parque Nacional Los Glaciares, bem sinalizadas e gratuitas. Para quem ainda quiser mais é possível ainda acessar, de carro, o Lago do Deserto (a 37 km da cidade) ou fazer trekking sobre o gelo.

2012-04-06 13.32.18-1onde se podem comprar suprimentos para os passeios) e apenas um supermercado, também na avenida principal, a San Martin. Para comer melhor o asador parrilla Mi Viejo serve o onipresente Cordero Patagônico, mas o destaque é o Ritual del Fuego, um bistrô com bons pratos, preço justo e atendimento atencioso. Os também ficam na San Martin.

Gelo, frio e caminhadas

Antes de chegar ao fim do mundo, passei alguns dias no estado de Santa Cruz, na patagônia argentina. Confesso: foi um erro de programação de viagem que me fez vir aqui antes, e não depois. Então fica a dica: se planeja combinar Ushuaia e El Calafate numa mesma viagem faça nessa ordem. Ushuaia antes, Calafate depois. Isso porque os voos seguem normalmente nessa e a viagem no sentido horário vai ser mais vantajosa. Veja: eu comprei um ticket Buenos Aires / Calafate via Ushuaia, operado pela Lan. Depois comprei um ticket da Lada de Calafate a Ushuaia e de novo um ticket Lan Ushuaia / Buenos Aires, desta vez via Calafate. Se tivesse feito o contrário teria voado apenas no confortável A320 da companhia chilena e economizado por baixo uns 300 reais por pessoa. (Tenho, porém, minha justificativa: quando comprei a passagem a Calafate, este era o único destino que tinha certeza que queria visitar. O segundo destino poderia ser Bariloche ou Ushuaia. Prevaleceu o segundo…).

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Quem vai a El Calafate vai por um único motivo: o Glacial Perito Moreno. É isto que movimenta a pequena cidade, de menos de 20 mil habitantes. Tudo gira em torno do gelo. Por aqui, a única produção são geléias e licores de calafate, o fruto silvestre que dá nome a cidade. Nada em escala industrial, nenhuma produção agrícola. Isto se reflete nos preços: espere pagar 20% ou 30% mais em alimentos, hotéis e compras locais. O custo, acredite, vale a pena.

2012-04-03 09.59.09 HDRSe localizar pela cidade é simples. O aeroporto é a 23km do centro e um taxi até seu hotel vai custar 120 pesos (algo como 50 reais). Se tiver sorte de pegar o motorista Santiago, ainda ganha uma aula sobre a região. Ex-guia, ele desfila como uma metralhadora verbal informações e dados durante todo o caminho. A avenida principal da cidade é a Libertador San Martin. Ali estão os principais pontos de interesse: bancos, alguns restaurantes, supermercados, lojas. De um lado você tem os montes e do outro o belo Lago Argentino (o maior lago inteiramente nacional, com uma superfície de quase 1500 metros quadrados, diria o Santiago).

2012-04-01 08.36.49São várias as opções de hospedagem na cidade. De simples albergues e hostals a bons e luxuosos hotéis. Eu optei pelo confortável e incrivelmente bem localizado Design Suite. Afastado do centro, com uma vista deslumbrante do lago, o hotel oferece transfers e muito conforto, com piscina aquecida, sauna e academia. O preço foi convidativo: cerca de 180 a diária para duas pessoas.

 

2012-04-01 16.07.21-1Mas quem vem a Calafate, como disse, vem por causa do Glacial. E são várias as formas de conhecê-lo. A mais simples é de taxi. Localizado a cerca de 80km da cidade, o Parque Nacional, onde o Glacial está localizado, é facilmente acessado. Um taxista vai te cobrar algo como 400 pesos pela viagem. O acesso ao parque te custa outros 70 pesos, cerca de 30 reais. Com isso você poderá passear pelas passarelas e ver e ouvir, de longe, o incrível bloco de gelo. Sim, ver e ouvir. Mais que a visão daquele gigante glacial a sua frente, o mais surpreendente em Perito Moreno é o som que o glacial faz. De tempos em tempos, estrondos, como tiros de canhão, cortam o ambiente. Em algum lugar, no interior talvez, blocos de gelo se desprendem com frequência, e tudo o que você pode sentir é o som.

Se quiser um encontro mais íntimo com o gelo a operadora Hielo y Aventura oferece passeios sobre o glacial. No MiniTrekking são 45 minutos de caminhada sobre o gelo. Já o BigIce te leva mais longe e por mais de 3 horas sobre o glacial, em mais de 5 horas de caminhada. No total, são quase 12 horas de passeio, contando o transfer até o parque, passeio de barco e a caminhada. Ao custo de 770 pesos (cerca de 300 reais) o BigIce é para que tem ânimo e disposição.

2012-04-01 16.55.17 HDR-1Para El Calafate, 3 noites de hotel bem programado são suficientes. É o bastante para passear pela cidade e fazer seu passeio pelo Glacial, seja a versão mais simples ou a mais radical. Se tiver mais um ou dois dias livres, a sugestão é alugar um carro, pegar a estrada e dirigir os 220 km até a pequena El Chaltén. É o que estou fazendo amanhã. Até lá.

 

 


Informações Básicas:
Como chegar: Lan e Aerolineas Argentinas operam voos a partir de Buenos Aires. É possível combinar com voos de Ushuaia.
Na chegada: O aeroporto fica a 23 km do centro da cidade. Taxis do aeroporto ao centro custam 120 pesos (cerca de 60 reais). É caro: no caminho inverso é possível pagar em torno de 90 pesos (R$40,00).
O que fazer: O Glacial Perito Moreno é a maior atração da cidade. A visita pode ser feita de carro ou em excursões. Fica a 80km da cidade. O Lago Argentino também vale a visita.
Onde comer: La Lechuzza é uma rede de pizzaria e restaurantes presentes em toda a cidade, assim como os restaurantes Casimiro Abreu. Para uma tradicional comida caseira procure o El Cucharón.
Onde hospedar: Vários hotéis e albergues mais em conta estão próximos ao centro. Aqueles em torno do lago são mais caros – e nem todos oferecem tansporte regulares.
Quando ir: A alta temporada vai de junho a abril. Para caminhadas, prefira os meses do verão (novembro a março). Depois da semana santa a cidade fica às moscas.

Uma volta no Fim do Mundo (continua…)

Não é fácil chegar ao fim do mundo. Partindo da capital argentina, são três horas e meias de voo até Ushuaia, na Terra do Fogo, a auto-proclamada cidade mais ao sul do mundo (há dúvidas quanto ao título, dividido com uma colega chilena). Soma-se a isso as outras três do voo que partiu de São Paulo e o tempo no ar é o mesmo que uma viagem aos Estados Unidos. No meu caso específico, a viagem demorou mais de um dia.

Partiria de Belo Horizonte (acrescente aí mais uma hora no avião) as 10h30 com destino a Buenos Aires, com uma rápida conexão em São Paulo. Mas a Tam me informou dias antes do embarque que o voo havia sido cancelado e eu seria relocado em um voo mais cedo, às 6h02. O que implica, na melhor das hipóteses – check in feito pela Internet, para adiantar – chegar no Aeroporto de Confins as 5h. Isto é: acordar as 3h45, pegar um taxi as 4h15… Assim o fiz. Ainda dormindo no momento do despacho das malas, não vi que haviam sido etiquetas até o destino final e que o meu segundo bilhete, de São Paulo à capital argentina, continuava inalterado, com o voo programado para as 14h20. Não adiantou pedir, insistir, argumentar. De “se o senhor não tivesse despachado bagagem poderíamos adiantar seu voo com certeza” a “infelizmente os dois próximos voos estão com capacidade máxima de passageiro” passando por um “se mudássemos o senhor teríamos que recalcular todo o peso de carga da aeronave”, não houve desculpa que os funcionários da companhia me deram que me convencesse. A verdade era “não estou com saco para pedir pra buscar sua mala. Se quiser aguarde as próximas 7 horas aqui. E não ouse sair: terá que pagar uma nova taxa de embarque se fizer”. Sem uma lanchonete minimamente digna e sem alternativa, simplesmente esperei o tempo passar andando pelos corredores de Cumbica.

Em Buenos Aires a conexão, eu já esperava, seria mais complicada. Com o voo da Tam chegando em Ezeiza, o aeroporto internacional nos arredores da cidade, meu voo para Ushuaia sairia do Aeroparque, na região central. O que eu não esperava, entretanto, era uma paralização dos caminhoneiros argentinos, fazendo o trajeto, que normalmente é feito em 45 minutos, durar mais de três horas.

20120331-092822.jpgO voo da Lan com destino ao fim do mundo sairia no aprazível horário de 4h45 da manhã e chegaria a Ushuaia pouco depois das 8h. Meus planos , que era chegar em Buenos Aires ainda dia e descansar em um hotel até a hora do voo para chegar inteiro no meu destino final, foi substituído por horas no trânsito, entediado, cansado, com sede e com fome. No final, foram pouco mais de 2 horas de sono mal dormido.

Antes, contudo, um jantar merecido no El Federal, me fez relaxar e esquecer os problemas. O local, na Av. San Martin, próximo à praça do mesmo nome, sempre me passava despercebido. Preferia os vizinhos Dada e Filo. Eleito por algumas publicações como um dos 10 melhores restaurantes de Buenos Aires, resolvi experimentar o menu degustação do El Federal.

Com pratos que buscam expressar a culinária de várias regiões do país, o cardápio do lugar é no tamanho certo, com pouco mais de uma dúzia de opções entre entradas e principais. Na degustação são 6, começando por uma ótima empanada de queijo saltenha. Na sequência um bolinho de peixe do Rio Paraná e uma excelente sopa de milho preparam o paladar para dois pratos principais: a merluza negra, pouco temperada e, no outro extremo, um cordeiro patagônico cozido no Malbec, com sabores agudos e marcantes. Todos os pratos, incluindo o mix de sobremesas que fecha o menu, grandes o suficiente para serem divididos por duas pessoas.

 

2012-04-07 11.40.53-1O menu, com preço fixo de 250 pesos (aproximadamente 110 reais) serve ainda duas taças de vinho, branco ou tinto, o que faz dele uma boa opção para compartilhar. Se é realmente um dos melhores restaurantes da capital? Não na minha opinião.