Moscou na revista Hit

E não é que estamos este mês na revista Hit? A publicação, do jornal Estado de Minas, traz, a cada mês, uma seção chamada Cartão de Embarque. Para a edição que chega hoje as bancas fui convidado a escrever sobre Moscou. Você pode baixar o texto em PDF aqui.

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Moscou – dia 2

Quando eu escrevi, no post anterior, que Moscou era eu cidade que te cansava eu não tinha noção do que estava dizendo. Moscou não te cansa: te deixa em frangalhos. Desde que cheguei, a 4 dias, não consegui mais escrever. E não consegui ver metade do que havia me proposto. Ainda não entrei em nenhum museu, nem no Kremlin, e nem sei se vou conseguir. A sensação que se tem, viajando de uma estação a outra do metrô, é de uma viagem intermunicipal. O que, pelas minhas pesquisas, eu conseguiria fazer em uma tarde, eu gasto o dia inteiro. E mesmo assim deixo a metade sem ver (não confie no meu guia: ele se mostrou uma furada. Serve muito bem como referência dos lugares. Como guia de programação é inútil).

O que eu ainda não vi (e, acredito, não vou ver): o Winzavod, centro russo de arte contemporânea, a galeria Solyanka, cinco dos sete arranha-céus stalinistas, o Parque Victory, com seus tanques da segunda guerra mundial, Museu Pushkin… Em uma semana é impossível visitar todos estes lugares. Moscou precisa de tempo. E não é pouco…

No dia seguinte a nossa chegada visitamos, como escrevi, a Praça Vermelha, Lubyanka e o bairro de Kitay Gorod, ainda assim deixando algumas das atrações de fora. Outras, como o Bolshoi, estavam fechados para reforma e rendeu apenas algumas fotos na entrada.

No segundo dia fomos direto para o Jardim dos Monumentos Depostos, que fica no parque ao redor da Nova Galeria Tretyakov (são duas, igualmente grandes). O Jardim foi o lugar escolhido para se colocar as estátuas retiradas após a revolução russa. A elas foram se juntando trabalhos recentes de artistas russos. Dentre a centenas de obras, muitas são medíocres, mas o passeio vale a pena. A entrada para o parque é de graça, se você for russo. Na mínima desconfiança da sua nacionalidade você é cobrado em 100 rublos (cerca de 6 reais) por um ingresso (este é outro ponto interessante de Moscou: sendo nativo, muitas das atrações são gratuitas ou quase. Dos estrangeiros é normalmente cobrados mais caro em ingressos. Dica: faça uma carteira de estudante internacional, que te dá direito a significativos descontos em muitas atrações).

Jardim dos Monumentos Depostos

Lenin nos Jardim dos Monumentos Depostos

Passamos batidos pela galeria e seguimos para o vizinho Parque Gorky. O que costuma ser um dos lugares mais festivos de Moscou estava quase as moscas. As duas montanhas russas (sem trocadilhos, por favor) estavam fechadas e nem o foguete russo que nunca foi para o espaço e virou um cinema 4D, seja lá o que isso significa, funcionava.

Onibus Espacial

Sim, um ônibus espacial que virou cinema 4D (?)

O passeio, a pé, seguiu até a Stolle, lanchonete de tortas que, dizem, é imperdível. Discordo: qualquer viagem pode passar sem a visita a este lugar, seu serviço ruim e suas tortas secas e sem graça. Dos quase 10 sabores salgados no cardápio, apenas dois estavam disponíveis: coelho e repolho. Por motivos óbvios optei pelo primeiro, que se não é algo memorável, também não decepciona. Das doces escolhemos a de limão: amarga e intragável.

Já o convento de Novodevichy, que fica ali perto, vale a visita.

NovodevickyConstruído ainda no século XV, o lugar já foi um forte importante para a segurança da cidade, uma vez que fica numa das margens do rio Moscou. Patrimônio da Humanidade pela Unesco, ainda é possível assistir a belíssimas missas da Igreja Ortodoxa Russa no lugar. Vimos uma as 17h e é algo de uma força impressionante: todas as mulheres presentes com velas e a cabeça coberta, um coral com vozes femininas conduzindo a cerimônia todo o tempo, contrastando com a voz extremamente grave do celebrante. Mesmo sem entender uma palavra, exceto “amém” – que, creio, entendi por contexto, já que era repetida ao final de cada frase do celebrante – é de trazer lágrimas nos olhos. Ao lado do convento está o cemitério mais “pop” de Moscou, o similar russo ao Pere Lachese, provavelmente. Ali estão enterrados de Serguei Eiseinstein a Boris Yeltsin, num verdadeiro “quem é quem” das artes, política e ciência do país. Neste também não conseguimos entrar. E aqui fica o conselho: ao sair so convento, vire à direita para o cemitério. Caso contrário é uma caminhada quilométrica ao redor do prédio (agradável nos primeiros minutos, à margem do rio, terrível na segunda metade, perto de uma movimentada avenida).

De novo, chegar à estação de metrô mais próxima requer uma boa sola de sapato: dali iríamos para um parque ao lado da Universidade de onde se tem uma boa vista da cidade. Para se chegar até a Vorob’evy Gory (ou Sparrow Hills, a Colina dos Pardais) são duas opções de metrô: a primeira, e mais usada, é até a estação do mesmo nome, que fica sobre o rio Moscou. Daí até o ponto é uma caminhada pela mata morro acima (de novo, duas opções: o caminho normal, mais longo, mas acessível ou a “eco trail”, eufemismo para “atralho”, pelo meio do mato). A segunda opção é descer do metrô na estação Universitet e daí passar pelo prédio sede da universidade, um dos sete arranha-céus stanilistas. O caminho também é longo (ok, vou parar de dizer que tudo é longe…). Da Colina dos Pardais se tem, de um lado, Moscou (com o estádio em primeiro plano) e do outro a universidade.

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A universidade de Moscou, um dos 7 arranha-céus de Stalin

Se não bastasse a maratona o primeiro dia ainda terminou com uma passada na Catedral de Cristo O Salvador e um jantar em restaurante de comida típica da Georgia. O lugar, por si só, é impressionante. Se chama Galereya Khudozhnikov (indispensável dizer que na fachada vai estar grifado de forma completamente diferente) e fica anexo a uma galeria de arte. O restaurante é formado por cinco salões decorados com motivos típicos e tanto o serviço quanto a apresentação são divinos. Posso estar puxando a sardinha pro nosso lado mas achei a comida do lugar com um quê de mineira. Primeiro, porque a coisa mais típica de lá é um pão de queijo. Não como o nosso: o khachapuri (que em kartuli, a língua deles, significa justamente pão de queijo) é uma espécie de pizza, recheada e coberta com um queijo branco e suave, quase uma mussarela. É delicioso.

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Khachapur: o pão de queijo da Georgia


E segundo, porque meu prato principal foi uma carne de porco com batata, coisa bem mineira, chamado objakhuri. Alê optou por um kharcho pomengrelski, uma mistura de porco e boi num rico molho de nozes e adjika. Bom, mas pesado. E concordo: nada de mineiro nisso, mas tanto o pão quanto o outro prato poderiam se passar por coisa nossa.

Moscou – hotel e primeiro dia

KGB

A antiga sede da KGB, em Lubyanka

Ul. Varvaya

Ulitsa Varvaya, próxima a Praça Vermelha

metro moscou

A sinalização no metrô de Moscou: impossível compreender

Praça Vermelha

A Catedral de São Basílio e o Kremlin na Praça Vermelha

Praça Vermelha

O Museu da História de Moscou e a Gum

Quem está acompanhado o blog já deve ter reparado que os relatos estã saindo sem muita preocupação com o texto ou revisões. Afinal, estou escrevendo durante os voos (como na primeira parte) ou em cafés e à noite, no quarto do hotel. Revisão e fotos vem depois (mas já tem algumas no Instagram, que talvez já traga pra cá pra ilustrar).

Ontem o relato foi até a chegada a Domededovo, com atraso. Sair dali é confuso, principalmente porque você ainda não está acostumado com a lógica russa. Confesso: 24 horas depois e tudo parece muito mais fácil.

O metrô, por exemplo. Ontem pegamos o AeroExpress e fomos até a estação de Paveletskaya (a única parada que o trem faz). Saímos do aeroporto tarde, à meia noite (cansados e confusos. Me fiz prometer que da próxima vez, por mais que eu ainda ache que é legal chegar numa cidade nova e conhecer os sistemas de transporte público, essa não é a melhor hora). De lá até o metrô são 45 minutos, o que nos dava 15 para pegar os dois trens que nos levavam ao hotel, já que o metrô fecha a uma. Rolou, mas por muito pouco. Já no trem caiu outro mito: que os russos são as pessoas mais mal humoradas do mundo. Bobagem. Vimos um brasileiro que encontramos no voo (o Ike – ou Ique, Ic… ainda não sabemos) ter a seu redor 5 deles tentando ajudá-lo a entender como chegar a sua estação. Ah sim: a história de que ninguém fala inglês também é falsa. Claro que o pessoal que viveu no comunismo – bem como o pessoal mais pobre, que trabalha nas ruas, em quiosques, bancas de revistas e taxis-, não fala nem entende o alfabeto ocidental. Mas turma mais nova, de até seus 20 e tantos, já se comunica bem. Conversamos com gente no metrô, em lojas e restaurante sem problemas (mas com paciência para entender o sotaque).

O Hotel
O Katerina Hotel se vendia no Hotels.com, onde fiz a reserva, como um 4 estrelas executivo a 15 minutos do centro de Moscou. Está mais para um albergue de luxo. Não é ruim, pelo contrário: é que como tem um bom preço, o índice de jovens europeus e russos e alto e durante a noite o pequeno bar fica bastante animado. Os quartos não são grandes, mas também não é preciso fechar o armário para abrir a porta do banheiro. A ducha é boa e relaxante e a cama confortável. A TV de plasma de 28″ passa programas em russo e notícias em inglês da BBC e Bloomberg. O frigobar, reposto diariamente, é grátis: Coca-Cola, água, chips, amendoim e chocolate. O café é farto e diverso: dos nossos paezinhos, croissants, café e leite a salmão, salada de pepino e sopa, passando pelos tradicionais ovos, bacon, iogurtes e outros ítens de um café continental. Tem wi-fi grátis (o que permite atualizar diariamente este relato) e uma pequena academia (o que permite a Alê a ir querer pedalar agora, quase meia noite…) Fica a 22 minutos da estação mais próxima da Praça Vermelha, mas a pouco mais de 200 reais a noite, isso é ótimo.

O metrô e a cidade
Você certamente já ouviu: o metrô de Moscou é lindo! É um dos mais antigos e profundos do mundo! Vale a pena visitar as estações! Sim, isso tudo é verdade. O que você também precisa saber e ainda não te falaram: o seu mapa com os nomes das estações escrito de forma que você consegue ler (Polyanka, Pushkinskaya, Chekhovskaya) não adianta nada. Nas estações o que vale é o cirílico, alfabeto oficial russo. E nisso Polyanka vira Полянка. Pushkinskaya é Пушкинская e Chekhovskaya é a tradução para Чеховская. É assim, com esses enes esquisitos, quatros invertidos, erres espelhados e outros símbolos (para nós) bizarros que as indicações nas estações – e tudo mais na cidade – está escrito. Então consiga um mapa em cirílico, de preferência com os nomes também em romano (eu uso um app para Iphone, o Moscow Metro Map).

Outra coisa que não te falaram: além de existirem mais de 150 estações de metrô elas são complicadas. Não é incomum três ou quatro estações se comunicarem, fazendo que você se sinta um rato em experiência de laboratório, indo e vindo, subindo e descendo escadas rolantes gigantescas, entrando em corredores que parecem levar a lugar nenhum… Se não tiver ânimo ou espírito a melhor dica é: desista. Contrate um guia. Para aqueles que, como eu, adoram se perder na cidade, Moscou e seu metrô é um prato cheio. Toma tempo e grandes caminhadas, mas é bem divertido tentar associar os nomes e símbolos das estações. Hoje, ao final do primeiro dia, mas me sinto quase um expert. O que posso te dizer (talvez aprenda mais um pouco no final de semana. Se for o caso, atualizado isso aqui): quando você chega a plataforma o nome da próxima estação onde o trem vai parar vem escrito s e p a r a d o. Parece bobagem, mas tem me ajudado. Outra: se você desceu da escada rolante e tem uma placa com os números 1 a esquerda e 2 a direita escritos dentro de uma seta, quase sempre em azul, que indica as direções. O número da sua linha (decore a cor e o número, já que muitas vezes o vermelho é quase um laranja e os azuis se confundem) está escrito aí também, pequeno, em um dos cantos. Se, ao invés das setas para as laterais, for uma seta pra baixo, sua plataforma é ainda mais embaixo. Parece óbvio escrevendo agora, mas quando você já ficou 2 minutos descendo numa escada rolante imagina que não tem como outro trem passar ainda mais profundo… E outra dica que serve não só para o metrô: estude o cirílico.

Mesmo que sua viagem seja daqui a uma semana (ou um mês, não faz diferença: você não vai entender russo nesse tempo) pegue o alfabeto (tem um no meu guia), leia e faça a associação das letras. Tudo vai ficar mais fácil. Aprenda que P é na verdade R. O C deles é nosso S. Aquela coisa esquisita que parede um D (д) é um D… Lembre-se também de palavras brasileiras como vasculante/basculante: aqui B é V. E б, que parece B, é B mesmo. Parece difícil. E é, mas dá pra associar facilmente (e se serve de consolo, a compreensão da pronúncia é mais fácil que a escrita).

Nessa altura você já deve ter percebido: Moscou é uma cidade que te cansa. É muita informação, muita coisa nova ou completamente diferente do que estamos acostumados e principalmente, tudo é longe. O metrô é, sem dúvidas, a melhor opção de transporte. As caminhadas, por menores que sejam (da estação ao seu destino ou mesmo DENTRO da sua própria estação) são quase uma maratona. Oscar Niemayer, ainda o comunista vivo mais famoso do Brasil, usou isso na concepção de Brasília com certeza. Aprenda: são poucas as ruas em Moscow que você cruza por cima. Na maioria é preciso usar um túnel.

Praça Vermelha
A medida que você sai da estação de metrô e começa a ver a fortaleza (kremlin, em russo) a certeza é que sim, o capitalismo venceu. Entrar na Praça Vermelha é das sensações mais incríveis que qualquer viagem pode experimentar. É de uma beleza de tirar o fôlego. As cores são viva e quando cai a noite a Praça se transforma.

Para você se orientar: a igreja com tetos de cores vivas é a Igreja de São Basílio. Está no lado sul da Praça. No lado oposto, o imponente prédio vermelho, é o Museu Estadual de História. O grande prédio claro é a Gum, um shopping center caro mas um excelente lugar para você se refugiar do frio – visite o supermercado que existe no primeiro piso, no lado oposto a entrada principal. É um primor.(confesso: ADORO visitar mercados e supermercados em outras cidades. Dizem muito sobre os hábitos e costumes do lugar. E esse aqui tem tudo que o comunismo privou os russos por décadas. De café do Brasil a molhos franceses e ingredientes japoneses, ten tudo o que o sistema dizia ser superfluo a preços superfaturados). E em frente a entrada principal da Gum está o Mausoléu de Lenin. O Kremlim é tudo o que está atrás do imenso muro vermelho, que chega a ter 750 metros em um dos lados. A entrada é saindo a esquerda do Museu e contornando também pela esquerda (com um bom mapa você visualiza isso tudo facilmente). Ainda nāo visitei o interior: como o dia foi curto (com a viagem cansativa dormimos até mais tarde) isso vai ficar pra outro dia.

Saindo a esquerda da Catedral está a Ulitsa Varvarka (ulitsa é rua você vai ver algumas vezes a palavra simplificada: ul.), uma rua pequena mas que comporta albuns belos exemplos da arquitetura russa.

Do outro lado, saindo a direita do Museu o destino é Lubyanka, praça e prédio que era sede da KGB. Dica? Suba até o 6 andar do Nautilus, um shopping decadente que tem tem bem a frente da antiga sede. Escondido nos fundos de um salão de belezas está o Loft, um pequeno (10 mesas) café, com uma varanda com vista pro prédio. O público é sobretudo local e o local tem um almoço executivo (salada, sopa, prato principal e acompanhamento) das 12h as 16h por 450 rublos (ou cerca de 25 reais). Só como comparação, este é o preço, no mesmo restaurante, de 4 Coca-Cola. Ou um suco de tangerina.

Moscou – o relato

As oportunidades da vida são para serem aproveitadas. Esta apareceu na forma de uma mensagem em menos de 140 caracteres, no timeline do meu Twitter. Era algo como @passagensaereas Imperdível: passagens para vários destinos na Rússia a 700 reais e um link encurtado. Promoção de passagens de São Paulo para a Rússia por R$780 ida+volta:

Ao clicar você era direcionado ao site Melhores Destinos, que se presta a vasculhar a web em busca de promoções de passagens e compartilhar estas informações com seus leitores, no qual me incluo. No site a explicação: a dica da passagem com preço inacreditável havia sido dado por uma leitora. A compra deveria ser feito no site da companhia russa, que felizmente dispunha de uma área em inglês. Os voos, saindo de Sāo Paulo, eram em parceria com a espanhola Iberia, que operaria o primeiro trecho, até Madrid. De lá seriam mais algumas horas de voo, agora sim com a empresa russa, até Moscou ou Sāo Petersburgo, a sua escolha. Isso tudo, ida e volta, por menos de 500 dólares, o preço médio de uma passagem de Belo Horizonte a Buenos Aires. Eu PRECISAVA tentar…

Liguei para a minha esposa:

– Alê, vamos viajar na semana santa?
– Uai ,vamos. Pra onde?
– Pra Moscou.

A voz no outro lado da linha foi de surpresa. E nem poderia ser diferente:

– Moscou… Moscou?, como que indagando se, por um acaso, nāo existiria uma outra Moscou ali perto de Diamantina. Afinal, existe uma Nova Iorque no Maranhão 

– É, pra Rússia. Vamos?

Vamos. Ela concordou e eu fui entender o funcionamento do site russo e tentar agendar nossa passagem. A primeira questão era: será que o valor estava correto? Nāo seriam 700 dólares? Simulo uma compra e vejo o valor: 12000 rublos. Vou no Xe.com, meu site de conversões de moedas predileto, e escolho a conversāo da moeda russa para a brasileira. Fico naquela ansiedade de “e se nāo for isso? Vou assim mesmo?” nos segundos que antecedem o resultado e tenho a resposta que queria (queria, mas juro não esperava): sim, o valor estava correto. Só me restava finalizar a compra.

Mais um clique e o site me pede números de passaportes e datas de validade. Eu, no trabalho, nāo tinha essa informaçāo. Alê também não. “Tranquilo”, pensei, “chegando em casa eu compro”. E, na minha cabeça, eu já vagava pela Praça Vermelha.

A noite, a surpresa: o site russo estava fora do ar. “Maldiçāo! Porque não dei o jeito e comprei naquela hora? A partir de hoje nunca fico sem meu número de passaporte. Nunca mais vai ter uma promoção como essa…” e fui dormir descontente, tentado pensar em um outro destino. Torcendo para aparecer uma promoção pra Beijing, Croácia, Mongólia.

Na manhã seguinte, já no escritório, me veio aquele impulso de dar mais uma olhadinha no site. Afinal, se realmente não existisse mais a promoção, paciência. Mas por outro lado se a empresa tivesse resolvido estendê-la por mais umas horas eu ainda teria a chance… E tive. Nem todos os destinos estavam disponíveis, as datas eram mais restritas, mas sim, naquela manhã de uma quinta qualquer de fevereiro, ainda era possível conseguir as passagens.

Moscou não estava, confesso, na minha lista de próximos destinos. Queria antes ir ao Japão, Istambul, rodar o interior da Itália, ir a Dheli… Tinha uma curiosidade pela Rússia, claro, mas nada urgente, pra esse ano. A escolha foi mesmo pela oportunidade. Não tinha informações sobre Moscou. Sabia do Kremlin, da Praça Vermelha e só. O final de semana foi, portanto, de pesquisa: guias, sites, conversas com amigos, mapas, tudo que pudesse me esclarecer um pouco mais sobre o que me esperava.

Essa, confesso, é das minhas partes prediletas em viagens: pesquisar, tentar entender o país antes de ir, tentar compreender os costumes, a língua, as pessoas, a cultura, a comida. Criar um mapa virtual do destino dentro da minha cabeça… Sempre foi assim, desde a primeira viagem internacional, em 1996. Com essas pesquisas, crio uma relação com a cidade que vou visitar que não tenho com BH, onde moro a 15 anos e ainda confundo as ruas Sergipe e Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo e todas os inconfidentes de Lourdes ou tribos indígenas do centro. Nas viagens não: o mapa fica ali, presente, e sou capaz de dar coordenadas e dicas como um local, sem ainda ter pisado na cidade que vou visitar.

Então, na segunda cedo, eu e Moscou já eramos íntimos. Eu já conhecia cada rua de Kitai Gorod e Arbat, sabia onde ficava o Museu Mayakovsky e o Bolshoi, podia dizer o preço das atrações e em qual estação de metrô descer. Foi quando recebi outra mensagem no Twitter: várias pessoas que haviam comprado passagens na promoção tiveram seus bilhetes cancelados. A Iberia, parceira da empresa russa, não queria arcar com sua parte no negócio, era o que diziam. Se sua reserva tivesse a confirmação da companhia espanhola, sem problemas: seu voo estava garantido. Caso contrário você poderia começar a se preocupar: o cancelamento seria uma questão de tempo. Olhei a minha reserva: nada do código. Não hesitei: entrei no site russo e mandei uma mensagem pedindo minha confirmação. Afinal, eu até já havia feito reserva de hotel, que não era reembolsável (era verdade: no final de semana, em minha fase de reconhecimento com a cidade, uma das providências foi encontrar um hotel bom e barato. O escolhido foi o Katerina, hotel de negócios, quatro estrelas, ao sul da cidade, que me cobrou, por uma semana, o mesmo que paguei por duas passagens: pouco menos de 1500 reais. A compra, entretanto, foi no site hotels.com, que garante vender pelo menor preço mas não devolve o dinheiro, em caso de desistência).

A resposta da S7 veio surpreendentemente rápida: por causa das 6 horas de fuso horário entre Brasil e Rússia deve ter sido escrita pela funcionária às 2 da manhā. E era direta: eu nāo precisava me preocupar, meus bilhetes estavam confirmados e o número era tal.

Agora sim: depois de todo o diz-que-me-diz, incertezas e dúvidas, Moscou estava logo ali, a alguns dias de espera. E 36 horas de viagem.

A viagem

Viajar é ótimo. O problema é o tempo que se gasta. Você precisa chegar uma hora antes do horário marcado para o seu voo que parte do Aeroporto de Confins (o que significa que, se seu voo é as 11h40, você precisa sair de casa as 9h, para assim conseguir pegar o Conexão Aeroporto as 9h30 e vencer os 40km entre ele e o Aeroporto em uma hora de viagem).

Como você ficou mal acostumado comprando uma passagem que vai até o outro lado do mundo por R$700, acha que precisa manter os custos proporcionalmente baixos e assim opta por um voo de R$49,00 da Webjet que te leva diretamente ao Aeroporto de Guarulhos, sem necessidade, portanto, de gastar com transfers. Detalhe: seu voo doméstico chega ao aeroporto 7 horas antes do internacional. São 7 horas no aeroporto, andando pra cá e pra lá, divididos da seguinte forma: 1 hora de atraso do seu voo, que você, pela primeira vez na vida, agradeceu. 30 minutos procurando lugar decente pra comer, onde você não tenha que deixar o rim como pagamento do almoço (as opções, neste caso, são o McDonalds no Terminal C ou o Viena, restaurante de comida a quilo no início do Terminal A, que cobra R$49,90 por quilo). 30 minutos no restaurante, servindo, comendo e enfrentando a fila pra pagar. Meia hora esperando seus celulares, que você espertamente esqueceu de carregar a noite, tomar alguma carga, numa das poucas tomadas disponíveis no aeroporto. Mais uma hora entre de fila do check-in e trâmites de saída do país. 5 minutos olhando tudo que tem disponível no maravilhoso (NOT) duty free de saída e outros 45 esperando que a Alê veja, em detalhe, cada um dos produtos. Uma hora entre embarque e esperas dentro do avião e o restante simplesmente vendo o tempo passar, lendo ou conversando.

Depois deste martírio são mais 11 horas de voo até Madrid, mais quatro de conexão e troca de aeronave, outras 5 até chegar em Moscou e, aí sim, mais alguns muitos minutos até passar a burocracia russa, vencer as placas, entender as filas, trocar seus dólares por rubros, encontrar o AeroExpress, trem expresso que te leva a uma estação de metro, encontrar sua linha e, morto, chegar ao seu hotel. Somou? Foram 35 horas, do conforto do meu lar ao quarto do Katerina Hotel, no sul de Moscou. A viagem foi barata, mas ninguém garantiu que a viagem seria fácil…

As Cias Aéreas

Nesta viagem debutei em três companhias que ainda não havia experimentado: a brasileira Webjet, a espanhola Iberia e a russa Siberian Airlines. Da última não tinha nenhuma informação. Consequentemente a expectativa era zero. Das duas primeiras, pelo contrário, já havia escutado muita coisa: que eram ruins, que nāo valia a pena, que as aeronaves eram decadentes, que o serviço de bordo era péssimo. Ou seja: fui preparado para o pior.

Não há muito o que dizer da Webjet. Ela é sim o que se espera: viagens a preços baixos, em aeronaves que já deram a volta ao mundo algumas vezes e um serviço de bordo inexistente. A diversão fica por conta de uma revista de venda de produtos da Webjet Shopping (sim, é isso mesmo) e o lanche é pago. Se quiser você pode fazer um picnic nas alturas, como disse a comissária. É só comprar seu lanche (o aeroshopping, pelo que parece, tem uma praça de alimentação). No meu caso nem isso foi possível. No voo, que estava previsto para as 11h40 e só saiu depois de meio dia, não tinha sanduíches disponíveis…

Também a Iberia causou uma má primeira impressão. O avião parecia já ter rodado tanto quanto as comissárias, toda na casa dos 50. Sem ofensas às moças: traz confiança e segurança ter gente experiente em sua equipe, mas também dá um ar de empresa que não se renova. Antes da decolagem, nos 40 minutos que ficamos na pista, fomos todos torturados por um trilha a cargo de Richard Clayderman tocando Feelings e outros hinos da música de churrascaria. E, na decolagem, a sensação que se tinha era que todo o avião, e não só a bolsa na poltrona a minha frente, iria se desfazer em milhares de pedaços. Mas em cruzeiro a impressão mudou. A refeição, por outro lado, era surpreendentemente boa (uma lasanha decente, que você podia comer com talhares de metal e não aqueles vergonhosos talheres de festa infantil de outras empresas). Talvez por manter aeronaves e funcionários da época áurea da aviação a Iberia queira manter também nos talheres um pouco deste clima… Também a diversão a bordo foi uma boa surpresa. Mesmo que a TV 14 polegadas esteja a 10 metros de distância, o filme em cartaz era “O discurso do rei”. Ok, era uma cópia lavada, não havia legendas, mas era o grande vencedor do Oscar deste ano.

Aliás, essa coisa de filme a bordo já não fazer o menor sentido. Cada pessoa tem providenciado a sua própria diversão. Eu escrevo este texto em meu Ipad (que eu poderia estar usando para jogar ou ver filme), enquanto escuto músicas que nunca estariam disponíveis na seleção da Iberia (ei, a capa da revista de bordo deles é Rick Martin…) Aqui do meu lado esquerdo uma garota confere as fotos do que parece ser seu casamento em seu netbook. Ali a frente outra assiste um episódio da segunda temporada de Mad Men. Não vejo mais que meia dúzia pessoas usando o horroroso fone de ouvidos distribuídos a bordo. As diversões a bordo, providenciadas pelas companhias aéreas, estāo fadadas a desaparecer.

Sem saber o que iria encontrar pela frente, não me surpreenderia se me deparasse com um Tupolev fazendo o trecho Madrid-Moscou pela Siberia Airlines. Puro preconceito. As cinco horas de viagem foram vencidas num A319, que mesmo não sendo das aeronaves mais modernas, não deixa a desejar aos aviões que fazem, por exemplo, a longa viagem de São Paulo a Manaus. O pequeno avião era, inclusive, mais confortável que o A310-300, no qual viemos de Madrid.

De novo, diversão a bordo é pequena: uma revista de bordo gasta e rasgada de tanto uso e jornais distribuídos pelas comissárias. Tudo em russo, exclusivamente. Neste caso minha diversão era tentar entender os anúncios da comissária. Em russo ou inglês eram ambos inteligíveis. De refeiçāo, primeiro vem sua bebida (sucos de maça, laranja ou tomate) e depois de uma espera de meia hora (e seus copos devidamente recolhidos) vem a comida. Opções de carne com batatas ou frango com ravioli, ambos insossos e sem gosto, que devem ser mandados pra dentro a seco (se bem que esperando mais uns minutinhos já dá pra comê-los com café, que vem antes de você pensar em abrir a sobremesa).

Os Aeroportos

Barajas
Mesmo que Marc Augé afirme que aeroportos são não-lugares, que todos são idênticos, é inegável que alguns tem um charme, despertam um algo mais em você. Seja pela arquitetura, seja pelas lojas do freeshop , pela organização ou pela surpresa que o local te traz. É assim o aeroporto de Barajas, em Madrid, na Espanha, onde fizemos conexāo. Com seu teto que lembra as embarcações espanholas (ondas, velas, cascos) e sua organização impecável, ele é um dos meus prediletos, ao lado, talvez, do aeroporto de Bangkok, na Tailândia (que chama atenção por suas esculturas e cores). Barajas deixa no chinelo os aeroportos brasileiros: todos eles, conbinados. São dezenas de fingers, acessíveis por um eficiente serviço de metrô interno.

Chegando do Brasil para o embarque para Moscou é possível ficar na área interna e gastar ali as quatro horas de conexão. Optamos por sair, tomar um café (Illy, a €1,60 cada) e fazer novamente o check-in (e assim saber nosso trajeto no retorno, quando teremos 10 horas pra conhecer a cidade). Para sair da área de desembarque o caminho é um só: ele te leva a estação do metro. Não assuste em embarcar sem as suas malas: é preciso tomar o pequeno e moderno trem, de três vagões, que te leva ao terminal de embarque. Para quem fica na cidade as bagagens são entregues ali e é daí também que saem os ônibus e metrôs para a cidade.
No nosso caso, subimos ao terminal 4, onde são feitos os check-ins internacionais (no caso da S7,no guichê 912). Feito isso é preciso passar pela imigração e pegar o trem para o terminal de embarque. Todas as placas informam o tempo que você irá gastar até sua plataforma. No nosso caso, eram 18 minutos até a S51 (que, como tinhamos tempo, se multiplicaram por cinco, com paradas para lanche e compras: além do Free Shop, em Barajas é possível encontrar lojas como Zara). Confortável, o aeroporto dispõe, além das lanchonetes e restaurantes, de diversas vending machines de água (€1,50), sucos e refrigerantes (€2,60 a garrafa de 500ml), além de terminais para acesso à Internet (€2,00 por 20 minutos).

Domodedovo
Ah, o terceiro mundo… O povo russo deve dizer, entre eles: só quero ver na Copa! A vantagem é que os caras tem quatro anos a mais que a gente. Domodedovo, o aeroporto onde chegamos, é a cara do Brasil. Depois de sair da tranquilidade de Barajas, chegar aqui foi um choque. Um não: vários.
Choque #1: constatar que o russo adora fila (como nós). A saída do avião já é confusa, com gente levantando antes da hora, empurra-empurra e celulares sendo ligados ainda na pista.
Choque #2: Ao se chegar ao guichê da polícia federal russa, se entende o porquê: a fila é uma amontoado de gente, se empurrado, cada um querendo chegar primeiro. Não existe distinção entre russos e estrangeiros, velhos ou crianças, grávidas ou mulheres com bebê no colo: perante a lei russa, somos realmente todos iguais e precisamos levar aí esse tapão, como a dizer “esqueça a Europa, rapaz: a coisa aqui é diferente”.
Choque #3: Já chegou no Santos Dumont, no Rio, com os taxistas se oferecendo? Multiplique por 10. A briga aqui é ferrenha, todos querendo te levar a qualquer parte da cidade em troca do seu dinheiro.
Mas nem tudo foi ruim. Descobri que não é mais preciso preencher documento algum na chegada ao país: seus dados são colhidos pelo oficial da Polícia e você precisa só assinar. E Domodedovo não mostra, pelo menos de forma aparente, sinais do atentado que matou 35 pessoas em janeiro. A única diferença são as inspeções antes de se entrar no saguão.
Sim, é possível sacar dinheiro nos caixas eletrônicos com seu cartão brasileiro, mas o valor é limitado. Consegui 1000 rublos, outro brasileiro conseguiu 3000.
Para se pegar o Aero Express, trem que te leva até a estação de Paveletskaya, na região central, saia do desembarque e siga a direita, até a área de desembarque doméstico. O guichê está próximo à saída, à sua esquerda. A estação é logo depois de se passar pela porta do aeroporto (mesmo não tendo erro, fiquei perdido: esperava um trem moderno, talvez um monorail como os de Sydney ou Bangkok, mas não: o Aero Express é um trem comum, da época do comunismo).

DIRETO AO ASSUNTO

Em SP, aeroporto de Guarulhos
* O melhor lugar pra comer sem gastar muito (e sem ser McDonalds) é o Viena, no Terminal A
* Espere gastar R$5,50 por uma Coca-Cola em lata, R$4,00 por uma água, R$16,00 por um hamburguer
* Vá com seus equipamentos com a bateria carregada: tomadas livres ainda são raras e disputadas. Procure pelos toténs de recarga, nas salas de espera
* O check-in da Iberia é no terminal A. Sua bagagem é enviada diretamente a Moscou.

Em Madrid, aeroporto de Barajas
* As chegadas internacionais são no terminal 4.
* Vo ê pode ficar o tempo da conexão dentro do aeroporto. Neste caso, não é preciso preencher nada: apenas vá até o guichê da Iberia.
* Caso queria sair (para um cigarro ou passar umas horas na cidade), pegue o transfer interno até o setor de bagagens? Dali saem os ônibus e é onde estão os check-in.
* O check-in da S7 é no guichê 912. O embarque no S51 (ambos sujeito a alteração. Peça informações)
* Espere pagar €1,50 por uma garrafa de água, €2.60 por uma Coca-Cola 500ml e €7,00 por um sanduíche de presunto cru.
* Acesso à Internet é possível em terminais ao custo de €1,00 cada 10 minutos.

Em Domodedovo, aeroporto de Moscou
* Saia o mais rápido possível do avião e corra para passar pelo controle de passaporte. Não a distinção entre russos, estrangeiros ou pilotos.
* Ignore os motoristas de taxi na saída. Vá direto ao terminal doméstico e procure pelo guichê do AeroExpress. A passagem, com passagem de metrô inclusa, custa 350 rublos .
* Se optar por taxis, procure pelos guichês oficiais. Custam a partir de 1500 rublos, dependendo de onde quiser ir.
* Existem caixas eletrônicos logo na saída do desembarque. Aproveite para tirar direito com seu cartão de banco brasileiro. Funciona sem problema, mas é limitado a 3000 rublos por saque.

* Existe Internet de graça no aeroporto, já no desembarque. Acesse de seu celular e dê ok na página que vai abrir.