Mykonos no verão: a festa nunca termina (24 hours party people)

São quase três da manhã e música alta e dançante sai de dentro de todas as casas. Andar pelas pequenas vielas de pedra é difícil, devido ao grande número de pessoas. A maioria é jovem, com menos de 30 anos, exibindo corpos bronzeados pelo sol do mediterrâneo. Muitos são gays, homens e mulheres. Caminhando por entre eles também estão famílias, crianças e idosos. O clima é alegre e divertido e a animação, parece, não vai acabar antes do próximo nascer do sol.

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Estou em Mykonos, a mais conhecida e anima das dezenas de ilhas gregas. De novo, minha estada aqui não vai passar de 24 horas e tento conciliar um pouco de diversão a reuniões de negócios e visitas técnicas.
Muitos dos turistas que invadem a ilha no verão – a população local, de cerca de 5000 pessoas, cresce para 30 mil nos meses de julho e agosto – chegam a Mykonos nos transatlânticos que ancoram aqui por um dia apenas. Os turistas chegam pela manhã, passeiam pelas vielas, compram algum souvenir grego e no dia seguinte estão em outra ilha. A maioria, entretanto, vem mesmo pela festa. Mykonos é pura curtição. À noite, Little Venice, um dos cartões postais do lugar – um grupo de casas que tem balcões voltando para o por do sol – virá o lugar da balada, com os bares servindo drinks saborosos à base de mastiha, a bebida local, feita de um planta que só cresce em uma das ilhas da região. A programação é tão intensa que alguns dos top DJs do mundo – Nick Warren, Paul Van Dyk – se revezam dia após dia.
Conhecer a vila principal de Mykonos não tem mistério. Se você chegar de barco vai desembarcar no novo porto, a cinco minutos a oeste do centro. De avião (de Atenas até aqui é pouco mais de meia hora, com aterrisagens e decolagens quase sempre turbulentas, por causa dos ventos locais) você desce no aeroporto, também cinco minutos ao norte. Uma vez no centro é só seguir o fluxo, se perder em meio à multidão e descobrir o que a cidade tem para oferecer. A vista e o por do sol é a melhor coisa, te garanto. As casinhas brancas com janelas e portas azuis, típicas de lá, se iluminam no final do dia. O melhor lugar para apreciar isto é de perto dos moinhos de vento. Você irá reconhece-los. Outro ponto da cidade que você vai cruzar é a praça principal (ou praça dos taxis, já que abriga o único ponto e todos os 20 carros de aluguel, que brigam por espaço nas vielas com turistas e scooters). É nas proximidades da praça que estão a maioria das lojas. De novo, a dica: se perca pelas vielas.
Mas a cidade é a parte urbana de Mykonos. Fora dali, a uma curta distância de carro ou moto ue você pode alugar na cidade, se espalham 33 praias com aquela água de um azul tão intenso que só o Mediterrâneo pode te oferecer. Mesmo que você esteja em um cruzeiro e vá ficar ali só por um dia, vale o esforço da visita.

Vá preparado: Mykonos não é uma cidade barata. O hotel onde fiquei foi o mais barato que encontrei e custou 150 euros a diária. Era pequeno, afastado do centro, mas charmoso e bem cuidado (recomendo o hotel: o nome é Princess of Mykonos). Um almoço na praia para três pessoas saiu também este valor e o único consumo de álcool foi de uma única cerveja. Em termos de comparação, no Best Western de Atenas a diária foi de 60 euros e os almoços não saíram mais que 25 por pessoa. Mas não deixe isto te desanimar: a Mykonos é única e não há preço que pague estar ali. Mesmo que por apenas 24 horas.

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Uma ou duas coisas sobre Atenas


24 horas não é suficiente para conhecer nenhuma cidade do mundo. Mesmo se seu destino for Congonhas ou Jericoacara, 24 horas vão te deixar com aquela sensação de “devo estar deixando algo pra trás” ou “aposto que quando chegar em casa vou descobrir algo que deveria ter visto”. Pois bem. 24 horas era o tempo que eu tinha em Atenas, a capital grega. Com um agravante: havia passado outras 24 horas entre aeroportos e aviões, num voo que tinha saído de Belo Horizonte e feito escala em São Paulo e Munique, na Alemanha. E, dentro das 24 horas, eu ainda tinha uma reunião, o real motivo de estar aqui. Portanto, uma ou duas coisas sobre Atenas é tudo o que tenho a dizer.
Primeiro: a chegada ao país, depois que você já está na Europa, é tranquila. Nada de alfândega, passaporte, documentos. Você desce do avião, pega sua mala e já sai na área comum do aeroporto, sem nenhum stress. Melhor: o aeroporto oferece uma hora de conexão grátis à Internet. Nada daquela burrocracia da Infraero que te dá 15 minutos num conexão horrorosa, com um cadastro ainda pior (já viu isso, né? Para ganhar seus 15 minutos você precisa pegar seu cartão de embarque e apresentá-lo no guichê de informações. Depois de anotar seus dados o funcionário te entrega, junto ao carimbo na passagem, um cartão com seu código. Você então entra na rede, faz seu cadastro completo – nome, cpf, endereço, data de nascimento… – e volta à pàgina principal, onde tem que achar o link para os 15 minutos e, aí sim, finalmente entrar com seu login e senha e ganhar seu tempo. Tudo complicado e em português apenas. Dica: use seu tempo para criticar a própria Infraero… Voltando à conexão no Aeroporto de Atenas: você conecta à rede e clica em 60 minutes free. Pronto. Está online…
Taxis do aeroporto à cidade custam 35 euros e a viagem de 40km leva em torno de 30 minutos. Onibus também estão disponíveis.
O essencial de Atenas é, sem dúvidas, Acrópolis.

Em um dos pontos mais altos da cidade, é lá que se encontra o Paternon e outros templos. Os ingressos, vendidos na porta, custam 12 euros e é bo guardá-los, já que te dão direito a outras seis atrações turísticas na cidade: Ancient Agora, Teatro dionísios, Roman Agora, Kerameikos, Templo de Zeus e a Biblioteca de Hadrian. Apesar de fascinante – a reação é a mesma que tive quando visitei Macchu Pichu: por que diabos esse povo resolveu criar uma cidade aqui, no alto nessa montanha? E como os caras fizeram pra construir tudo isso naquele tempo? Quantas pessoas já passaram por esses mesmos caminhos que estou passando? – a visita a Acrópolis é um tanto quanto monótona. Caso não seja um aficcionado por história, vai achar o tempo gasto entendiante. A vista, entretanto, é ótima. Quase completamente plana, é possível ver a cidade em 360 graus do alto do morro. Reserve uma hora ou mais para o passeio.
Aos pés de Acrópolis está Plaka, a cidade antiga. Se perder pelas vielas e descobrir os restaurantes, igrejas e atrações também vai te tomar umas duas horas ou mais. Na minha caminhada me deparei com um restaurante chamado Exoaapxeio (ok, não era Exoaapxeio, mas não tenho o nome aqui agora. Fica na rua Tripodon, numa esquina) e a placa dizia que era o mais restaurante familiar de Atenas, na ativa desde 1935.

Parecia que queriam deixar o lado familiar bem claro: o garçon, depois de colocar uma garrafa de água na minha mesa, parou o serviço – o local estava lotado – para montar o brinquedo da filha. Outro, de fraldas, corria por ali. O dono discutia com a esposa e quando pedi o cardápio ele me trouxe uma bandeja com 15 opções e disse: “olha, o que tem é isso aí. Você escolhe 2 pratos, paga 14 euros e ganha a sobremesa. Vai querer o quê?” Direto e sem paciência. A comida, a mesma que estava na bandeja – no tempo que estive no restaurante vi o dono, sempre ele, fazer o mesmo com outros turistas que tiveram todos a mesma reação de surpresa que eu – é boa, e o que ele não diz e só descobri depois foi que, além da comida, os 14 euros incluem, também, a garrafa de água e uma jarra de vinho.
Também obrigatório e facilmente coberto no pouco tempo disponível é a visita ao monte Lycabettus, o ponto mais alto da cidade. O que vale aqui também é a vista, mas no topo tem uma igreja, um café, propriamente batizado de Horizontes, e uma arena em estilo grego (claro…) que abriga shows e espetáculos. O lugar é acessível a pé, em cerca de meia hora de caminhada morro acima, ou de bondinho.
E completa o roteiro das 24 horas o bairro de Kolonaki, nas proximidades do Monte Lycabettus. Centralizado na praça de mesmo nome, Kolonaki é o lugar para ver e ser visto. Entre Emporios Armani e Zegnas, executivos, socialities e turistas se misturam nos vários cafés da região. Meus contatos gregos me indicaram o Da Capo, na esquina da praça com a rua Tsakalof. No estilo pague-e-pegue, me servi de um sanduíche e um ótimo expresso duplo, suficientes para o resto do dia.
O que mais eu aprendi sobre Athenas e os gregos, nas poucas horas por aqui: o povo é direto, sem lengas-lengas. No hotel, cheguei, fiz meu check in e perguntei pro atendente o que eu poderia fazer no meu pouco tempo livre na cidade. “Faz o seguinte: sobe pro seu quarto e quando você for sair eu te falo”, foi a resposta. Em Kolonaki entrei em uma loja de facas e coisas pra casa. O diálogo foi mais ou menos assim: “Posso te ajudar?” Não, só tô olhando. É que eu gosto de cozinhar… ” Então olha, mas saiba que aqui só tem coisa cara, de primeira…” Aprendi que os motoristas turcos não são de respeitar as leis de trânsito, que motos se dividem basicamente entre scooters e grandes BMWs de mais de 1000 cilindradas e que, apesar de ser lei, ninguém usa capacete (e os policiais não estão nem aí). Aprendi, também, que gregos não se dão muito bem com turcos. Tudo por causa de Istanbul, a antiga Constantinopla – ou AINDA Constantinopla segundo eles – que foi fundada por um grego e, ainda segundo eles, pertence à Grécia (“um dia ainda vamos tomar de volta”, foi o que me disse um motorista de taxi…). e aprendi que a língua grega, guarda semelhanças com o italiano quando falada, por causa da origem latina. Mas que ler o que está escrito ali está além das minhas capacidades.

Istanbul: dois continentes, duas cidades

A primeira coisa que você precisa saber sobre Istanbul – e provavelmente já sabe – é que ela é a única cidade no mundo que fica em dois continentes. Uma parte dela (aquela onde estão as principais atrações e onde você provavelmente vai ficar hospedado) é na Europa. A maior parte da cidade, entretanto, fica em continente asiático. O que separa Asia e Europa é um trecho de mar chamado Bósforo. Antes dele, ainda em continente europeu, existe outro rio de água salgada que separa a Istanbul antiga da nova. E aí existe uma outra divisão na cidade. Sair de Sultanahmet, a cidade antiga e entrar em Beyoglu e Taksim, os bairros principais da nova Istanbul, é viajar no tempo dentro de uma mesma cidade.

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Na moderna Istanbul, o policiamento é feito em Mini Coopers…

Durante a semana que passei em Istanbul, vistando os principais hotéis, atrações e centro de convenções para servirem de cenário para um evento que irá acontecer na cidade em dois meses, pude constar rapidamente a diferença. Primeiro, as vielas milenares de Sultanahmet, onde taxistas exageram no uso de buzinas na tentativa de conseguir espaço onde, aparentemente, o carro não passaria, dão lugar a avenidas de mão dupla, asfaltadas e com canteiros centrais (as buzinas, no entanto, continuam a todo o vapor). Depois, os prédios pequenos e os hotéis com meia dúzia de quartos dão lugar a modernos edifícios de dezenas de lugares e hotéis cinco estrelas com quatro centenas de habitações.

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Fachada de prédio comercial na região de Beyoglu

Mas a mudança mais significativa acontece a noite. Enquanto Sultanahmet é um mar de tranquilidade, com quase nenhuma movimentação nas ruas, em Beyoglu a coisa está fervendo. Foi assim que vi que Istanbul não só está em dois continentes: ela é duas cidades. Esqueça os muçulmanos ortodoxos que você viu na Mesquita Azul. Esqueça os véus, as burcas, as barbas. Esqueça os cantos chamando para os cultos de tempos em tempos e as lojas de pashminas e tapetes nas ruas e nos mercados. Em Beyoglu o que existe é uma cidade moderna, pulsante, cosmopolita, que não dorme.

Para conhece este outro lado pegue um taxi até Taksim Square. Ali começa Istiklal Cad (a avenida Istiklal), uma rua de pedestres que mesmo (ou principalmente) durante a noite fica super movimentada. Mesmo as 10 da noite as lojas – filiais de Gap, Mango, Lacoste, Diesel, além de lojas de eletrônicos, livrarias, lojas de discos e diversos cafés – estão abertas. Nas ruas, a caminhada de uma multidão é atrapalhada apenas pelo simpático bondinho que cruza o calçadão em sentido à estação de Tunel (onde você pode pegar outro para chegar à cidade antiga). Na caminha pela Istiklal Cad é possível ouvir não os cantos convocando para as orações, mas música eletrônica saindo de várias das vielas que a cortam. Cruzo a rua procurando pela 360, um bar/restaurante que me foi indicado por todos os amigos que já estiveram na cidade.

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O simpático Tram que parte da praça Taksim

Quando chego na frente do número indicado – o 311 – o que vejo é um prédio comum na região: histórico, mas sem grandes atrativos. A certeza que é ali só vem quando vejo uma placs discreta, com o número que da nome ao lugar pintado em verde sobre um pedaço de vidro transparente. Tento subir atéo oitavo andar, onde ficar o bar, sem sucesso: o elevador só vai até sexto. Depois de passar pelo sempre presente detector se metais – desde a invasão do Swissotel, 5 anos antes, eles são presença certa em qualquer lugar que reúna mais que um grupo de amigos tomando chá-e subir mais dois lances de escada, encontro um local que, após a meia noite, deixa de lado a cara comportada de restaurante de comida internacional com influências asiática e vira uma danceteria onde tudo pode acontecer. Uma saxofonista entrar pelo salão tocando “Lady”? Rolou. Uma mulher gato literalmenre subindo pelas paredes? Também. Outra garota despencando de panos no teto? Teve… 360, o nome do lugar, vem da vista privilegiada, de onde é possível ver quase toda a cidade. Mas se você bobear pode ser o valor pago por cada pessoa ao final da noite, que você não vê passar. Além da excelente comida, a carta de vinhos é bem cuidada e os drinques (R$25,00 cada) são excelentes.

Surpreso com a movimentação da região, na manhã seguinte – estava de folga, já que os trabalhos tinham terminado e precisaria estar no aeroporto antes das 4 da tarde – resolvi voltar, para ver como era aquilo durante o dia. Com um calor que beirava os 40, Istklal fervia. A multidão nas ruas era similar a da noite anterior. Para o almoço a pedida foi o simpático Instituto de Culinária de Istanbul, ali perto. Como um Senai, a cozinha é comandada por estudantes de gastronomia e o resultado, barato e gratificante.

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O charmoso restaurante do Instituto de Culinária de Istanbul

Taksim, o bairro vizinho, é o centro econômico de Istanbul. É ali que estão bancos e empresas. É. O local, também, das companhias aéreas, o que quer dizer que pode ser que você encontre uma boa promoção.

Ao final, a sensação é que Istanbul não fica apenas em dois continentes. É, também, duas cidades: uma tranquila e antiga, outra moderna e vibrante. Vale a pena conhecer as duas, sem restrições.

Istanbul – as principais atrações

São cinco da manhã em Istanbul, onze da noite no Brasil. Cansei de travar uma briga injusta com meu jet leg e subi para o restaurante do hotel. Ainda é noite, as luzes das mesquitas ainda estão acessas, mas daqui a pouco menos de uma hora o sol vai nascer. Quando vi ele se pondo ontem, já quase nove da noite, calculei que iria nascer em algum lugar entre a Mesquita Azul e Aya Sofia, minhas duas vizinhas famosas aqui no hotel. Quando, às 5h57 ele aparece, fico inquieto: não sei se olho diretamente ou pelo visor da câmera. Ao mesmo tempo um misto de emoção e cansaço surgem no meu peito e lágrimas começam a cair. Estou sozinho no terraço e deixo o sentimento tomar conta.

Aya Sofia

O nascer do Sol em Istanbul: é ou não é de chorar?

O sol aparece bem atrás de Aya Sofia, o maior e mais bonito dos dois prédios. Ontem, depois das 24 horas de viagem, cheguei no hotel, tomei um banho e fui direto visita-la. O prédio, que já foi igreja católica e mesquita, é hoje um museu. A História está presente em cada uma das imensas pedras de granito do lugar. O prédio atual é o terceiro erguido no mesmo lugar e data de século VI. Mais impressionante que sua imensa, gigantesca, inacreditável cúpula sem uma única pilastra sequer – a Mesquita Azul, também aqui perto, é pelo menos 1000 anos mais nova, menor e mesmo assim é sustentada por quatro – é imaginar a construção dessa gigante em apenas 5 anos em uma época em que Brasil nem do mapa constava.

Aya Sofia

Aya Sofia por dentro: mais de mil anos de história.

A Mesquita Azul, minha outra vizinha, fica a menos de 50 metros do hotel. Ao contrário de Aya Sofia, que cobra 20 liras de ingresso, a entrada aqui é livre, desde que respeitadas as normas religiosas – pés descalços e mulheres com os ombros cobertos, basicamente. Dentro as pessoas aguardavam o início do culto sentadas no chão, indifentes às dezenas de turistas que entravam e saíam. O primeiro contato digamos, íntimos com minhas vizinhas foi rápido e prazeroso: o cansaço da viagem começa a tomar conta – não durmi um minuto sequer voo – e naquele momento tudo o que queria era algumas horas de sono.

IMG_3798Combinei com minha companheira de viagem de tomar café logo cedo. Assim teríamos tempo pra visitar o Gran Bazar, que fica a 15 minutos de caminhada do Hotel, antes dos trabalhos começarem. Sabri, nosso parceiro para a realização do evento iria nos encontrar apenas as 10h, assim poderíamos passar pouco mais de uma hora perdidos em meio as mais de 5 mil lojas do bazar. Encontramos as portas principais ainda fechadas, mas com uma volta no quarteirão achamos uma secundária, usada sobretudo pelos funcionários do lugar e pelos moradores locais. Apesar de curioso, o bazar é um pouco frustante. As centenas de lojas se dividem entre as de pashminas, de bugingangas, de bijouterias, de tapetes, de couro e objetos de decoração, todas muito parecidas entre si.

Até a forma de abordagem dos vendedores é parecida: primeiro chutam a sua nacionalidade com uma margem de acerto impressionante (nem eu nem minha companheira de viagem somos os típicos brasileiros. Mesmo no Brasil, na praia, eu me passo facilmente por gringo. Minha companheira, loira e de pele muito clara, poderia ser facilmente trocada por holandesa ou americana): diria que das 100 abordagem que sofremos pelos menos umas 70 foram com “brasilero? Botarde! Eo sô brasilero tambiém!”. Depois disso querem te mostrar toda a loja. Os preços começam duas vezes ou mais o valor pelo qual pode ser vendido mas pode terminar sendo seu pelo preço que você achar que vale. Exemplo? Duas pashminas que eram oferecidas a 50 e 90 liras (o mesmo em reais, aproximadamente) no final custaram 50. As duas.

Mercado das Especiarias

Mercado das Especiarias: se você gosta de cozinhar, aqui é o paraíso

Mas se você mostrar real interesse em alguma coisa, quando se dá conta já está tomando um chá com o vendedor. Quando a venda chega neste ponto, meu amigo, você é capaz de comprar a tenda inteira. Aconteceu comigo, no Mercado das Especiarias, onde conseguimos passar no final do dia.

Um parêntesis pra contar sobre o trabalho por aqui. Ele consiste, basicamente, em visitar locais possíveis para a realização do evento, em outubro. Isso quer dizer que passo o dia visitando hotéis, centro de convenções e espaços onde caibam os 600 convidados que estarão na cidade. Podem não ser muitos, mas aqui em Istanbul tive que fazer uma pré-seleção e limitar estes locais a uma dúzia. Os dispensados logo de cara, sem a visita, foram aqueles que não tinham a data disponível ou que ficavam longe de onde os convidados estarão hospedados. E mesmo durante a visita alguns lugares são eliminados rapidamente, seja por não permitir o consumo de bebidas alcóolicas, seja por não serem convenientes para o evento. Binbirdirek Cistern, por exemplo, é maravilhoso: tem 168o anos de idade. Mas quase o mesmo tanto de colunasll… As visitas técnicas são ótimas para conhecer a cidade por um outro ponto de vista. Mesmo Fernando, nosso guia, não conhecia algum dos lugares que visitamos.

Cisterns

240 colunas nas antigas cisternas de Istanbul

De volta ao Mercado das Especiarias. Passamos por lá no final do dia e conseguimos pegar as lojas ainda abertas. Em forma de L, menor e mais simpático que o Gran Bazar, aqui também é possível encontrar as mesmas pashminas e bugingangas do outro, mas o destaque são os temperos. E foi por isso que vim. Mas quando me vi tomando um chá de romã que simplesmente não tem explicação, o suor começou a escorrer pelo meu rosto e eu pedi ao vendedor para ver os chás, além de todos os temperos que eu já havia selecionado, senti que estava indo por um caminho sem volta. E quando, para fechar o pacote, levei um graminha do açafrão mais caro do lugar, vi que tinha passado do limite. Mas como resistir àquela infinidade de aromas, cores, sabores, misturas? Como não comprar anis estrelado, cardamomo, chá de jasmin ou aquele chá de romã que até agora tenho na lembrança? Não tem jeito. Mas talvez comprar como um pouco menos, e não os dois quilos (e 350 liras) de condimentos…

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Istanbul – chegada e primeiras impressões

Chegar na Turquia, como em qualquer destino mais próximo da Asia ou Africa, sempre causa algum estranhamento a nós, brasileiros. As vestimentas, os turbantes, as cores, as línguas, tudo isso já começa a despertar nossa curiosidade e sentidos ainda no aeroporto. No Atatürk International Airport, em Istanbul, não é diferente. Na fila se misturam uma comissão esportiva grega, com uniformes pretos mas brilhantes (furta-cor, diriam alguns), atletas do Turquimenistão, muçulmanos de diversas nacionalidades, um grupo de garotas neo-hippies irlandensas, em busca de aventura e uma senhora francesa que parecia não enxergar bem os números em seu celular, além de dezenas de outras pessoas. Organizado e limpo, o aeroporto fica a cerca de 20 km da cidade antiga. Como em todos os países, o processo de imigração não é rápido: cerca de uma hora entre filas e esperas.
Se ainda na chegada internacional você tem contato com o que é a cultura para estes lados, é na saída do aeroporto que você encontra o que te espera em seus dias na Turquia: dezenas de guias turísticos se acotovelam, com placas com nomes em todas as línguas. Kiliç, nosso guia, se sobressai dos demais. Exprimido em uma das extremidades, grita meu nome para todos ouvirem. “Mister Jefferson dos Santos! Mister Jefferson dos Santos!” Quando nos encontramos me comprimenta em m espanhol arrastado: “Oi, meu nome é Fernando!”, mas quando me entrega seu cartão, está lá: Gökhan Kiliç, Ministry of Tourism and Culture. É essa peça que vai me acompanhar pelos próximos dias.

Aeroporto Istanbul

Placas com nomes de todas as nacionalidades na chegada em Istanbul

No caminho entre o aeroporto e o hotel Fernando vai dando uma geral rápida nos milhares de anos de história turca: as invasões, a construção da fortaleza, o Bósforo, Constantino, Aya Sofia, Mesquita Azul…
Em meia hora estamos na região de Sultanahmet, a parte histórica e turística de Istanbul. É perdido em uma das vielas, a cerca de 50 metros da Mesquita Azul (e o dobro disso de Aya Sofia, as duas principais atrações turísticas) que está o Lady Diana. Quando, no Brasil, a agência de viagens me disse que esse seria o local de nossa hospedadem, tirei sarro: com esse nome o local não poderia ser bom. A agente, entretanto, me contradisse: que eu estava errado, que era um quatro estrelas, que era bom. Apesar da vista estonteante do restaurante no 6° andar, os quartos são simples, sem espaço para mais que você e sua mala. O serviço é justo e o café da manhã, agradável.

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Istanbul. (not Constantinopla)

Estou sentado na poltrona 21J da classe econômica de um voo da Alitalia com destino a Roma. Estamos prestes a decolar: já foram dadas as instruções de segurança e, ao contrário das versões em piano do Richard Clayderman dos voos da Iberia, os alto falantes estão mudos. Mas nāo há silêncio: uma criança insiste em gastar suas forças em um choro alto e estritente. Busco meus fones de ouvido – comprar fones de ouvido que cancelam o ruído exterior foi das melhores aquisições que fiz – e plugo. O que ouço é uma música dramática, com solos de trompas enfurecidas, fortes, pugentes. Lembra Richard Wagner, mas não acho que os italianos teriam um alemão como trilha sonora. Olho pro lado e o Senhor Rubin, que deveria estar no meu lugar e não na janela, está lendo um livro com partituras nele. As letras miúdas no topo dizem “The Small Trinary Form”. Olho para aquilo e como numa Fantasia de Walt Disney, notas, sustenidos e bemois começam a dançar na minha frente: se colorem, saltam do papel e desaparecem, num balé que só é visível a meus olhos.

Estou indo para Istanbul, minha primeira vez na cidade que era, até então, um dos meus destinos desejados, mas ainda não visitados. O convite veio de supetão: a empresa onde trabalho cuidando do planejamento de eventos corporativos irá realizar ali o lançamento de um novo produto, daqui a três meses. Há quatro dias recebi a informação que deveria buscar um parceiro local, levantar possíveis locais para o evento e visitar a cidade, a fim de certificar se as escolhas do parceiro e as pesquisas que eu havia feito pela Internet eram realmente as melhores. Não viajo sozinho: uma colega de trabalho me acompanha. Ela está sentada entra eu eu senhor Rubin – sei seu nome porque o comissário veio me perguntar se eu tinha feito opção por refeição vegetariana. Ela intercala a leitura da biografia de Lobão com o relato de 127 Horas, este em inglês, para praticar o idioma para quando chegarmos à capital turca.

No total serão 24 de viagem, desde a saída de Belo Horizonte. Voamos até São Paulo, onde enfrentamos bem mais de uma hora de filas que pareciam não terminar: primeiro para o checkin, onde Mario, o atendente inexperiemente da Alitalia que nos atendeu deu informações erradas e não soube finalizar o processo, transferido para outra pessoa. Depois a fila para o raio x, onde as atendentes pareciam achar que se falando em português alto e pausadamente seriam entendidas por qualquer pessoa (E S T A   A G U A   É   S U A?   N Ã O   P O D E!). Para a Polícia Federal, muitos outros minutos, enquanto o local onde deveria existir a fila para estrageiros, ali do lado, seguia vazio. E por fim a fila para o avião, com adolescentes em excursão e guias desesperadas, contando o número de crianças a cada momento, tentando se certificar que todos os 24 meninos e meninas haviam embarcado e nenhum havia sido deixado pra trás. Por causa da urgência da viagem e preço da passagem pensei que conseguiria um upgrade para a business class. Ilusão. As próximas 10 horas serão na classe ecônomica.