Pacific Crest Trail S01E39

22/06, sábado.

Dia 39 da trilha.

33,5 km (20.8 milhas) caminhados.

Dutch Meadow & Stream

KM 1196 da PCT.

Mais um dia de caminhada tranquila na Sierra. Neve quase inexistente. Oliver, BA e eu esperamos por Change e Rooster pela manhã. Seguimos juntos boa parte do dia montanha acima.

Decidimos que como temos comida suficiente vamos andar ainda menos amanhã e no dia seguinte, antes de tentar Monte Whitney. Assim vamos com calma e temos mais informações sobre as condições. Hoje comentaram que alguém morreu lá escalando o monte essa semana. Ainda não temos informações, mas parece que não ia equipado pra tarefa. Encontramos um alemão que vem caminhando perto da gente o tempo todo com uma mochila minúscula, sem bastões ou ice axe, que diz que vai tentar assim. Fico procurado por pessoas desse jeito. Já disse pro grupo que se não sentir confiança não vou. Seria ótimo subir, mas segurança em primeiro lugar. Meu objetivo é voltar pra casa vivo.

Amanhã andaremos menos de 18 milhas até às margens de um rio que a gente tem que cruzar. Vamos acampar ali e cruzar pela manhã, que tem menos água. No dia seguinte serão apenas 7 milhas até a base do monte.

Esperamos pegar gente descendo do morro pra ter mais informações.

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Pacific Crest Trail S01E38

21/06, sexta.

Dia 38 da trilha.

32 km (20 milhas) caminhados.

Tentsite @ Seasonal Stream.

KM 1162 da PCT.

Os dias 36 e 37 foram em Kennedy Meadows, sem fazer nada, a não ser beber e comer. No dia 38 saímos às 10 de Kennedy Meadows, depois do café da manhã. Pedi dois: o café dos hikers (panquecas, ovos mexidos, bacon, batata) e um sanduíche. Estava faminto.

Saímos em oito, mas nem todos chegaram ao acampamento combinado até agora: apenas eu, BA e Oliver estamos aqui, além de The Kid e Dr Jones, que haviam saído mais cedo.

A trilha foi só subida, mas tranquila. Não tem neve pelo caminho, exceto aqui onde acampamos. Estamos a mais de 3000 metros e amanhã subimos mais. A ideia é fazer mais 20 milhas amanhã, ou talvez 27 milhas, se o tempo deixar. Se o resto do grupo não chegar hoje vamos esperá-los pela manhã para decidirmos.

A mochila está pesada com comida, bear canister, ice axe. As pernas estão doídas, mas a canelite não dói tanto quanto ontem. Durante o dia foi quente, mas foi o sol se por pro frio bater feio. E como mandei meu colchonete pra garantia estou com o emprestado, que não é tão quente. Vejamos. Pra primeiro dia de Sierra Nevada foi tudo bem. Vamos ver como vai ser a semana…

Pacific Crest Trail S01E35

A trilha da trilha: Tom Petty and the Heartbreakers – Into the Great Wide Open

A partir daqui tudo vai ser diferente. Essa é a única que tenho.

Pra mim chegar a Kennedy Meadows é terminar uma trilha e a partir daqui começar uma nova. Foram 1130 km pelo deserto, pouca água, calor escaldante, dias longas e cansativos. Cobras, lagartos e coelhos. Vegetação baixa e seca. Nada de sombra. Trinta quilômetros por dia fácil.

A partir daqui vai ser neve, montanhas, frio, muita água (mais do que eu gostaria), vinte quilômetros por dia se muito.

A emoção de chegar aqui é incrível. Vocês não tem ideia.

O plano é tirar dois dias sem caminhar. Formamos um grupo coeso, que tem o mesmo objetivo: terminar a trilha no meio de setembro. Durante a Sierra a ideia é ir como uma expedição: todos juntos o tempo todo. Iremos eu, Change (aka Tyler), Ed (aka Ruster), Break Away, Oliver e Dr. Jones. Não queremos fazer mais que 20 km por dia. Sabemos dos riscos, vamos com calma. Serão 400 milhas, 650 km pelas Sierras. Vai ser simples? Não. Vai ser divertido? Com certeza!

Kennedy Meadows tem 200 habitantes.

Se resume a uma venda (como seria a venda do Sô Inácio, meu pai, se ele vivesse perto da trilha). É chão batido, não tem asfalto, é bruto. É lands of no man. Mas é o ponto de encontro de quem está fazendo a PCT. E pra todo mundo que chega quem está na venda aplaude, saúda, grita e congratula. Afinal, chegar aqui é um marco.

A partir daqui tudo vai ser mais complicado. Nada de internet, Wi-Fi, posts diários. Espere por updates uma vez por semana, se muito. Você pode acompanhar meus passos pelo Spot, no bit.ly/jeffPCT . Mas garanto que ao final as fotos vão ser incriáveis, o visual maravilhoso e à espera vai valer a pena.

Vamos lá. Sierra Nevada. Parte dois da trilha. Começando depois de amanhã.

Pacific Crest Trail S01E34

A trilha da trilha: Propellerheads – Take California

A Leninha, minha irmã logo acima de mim em termos de idade, é corredora. Desde que me entendo por gente ela corre. Na maioria das vezes corridas rústicas de 5, 10, 15, 21 km. Tem uma corrida ela vai – e quase sempre peg pódio, a danada. Ela não é muito de correr maratonas, prefere as corridas menores. Mas eu lembro de uma vez que ela correu uma. A primeira. Faz muitos anos, mas eu ainda lembro da conversa. Ela me contava que depois de um determinado momento “você sente como se o osso do seu pé batesse direto no chão”, ela me dizia.

Por causa da Leninha eu comecei a correr (e a fazer e gostar de um tanto de outras coisas). Na adolescência corri algumas menores, ganhei uma medalha que não sei onde foi parar, mas não continuei. Voltei a correr “depois de velho”, e algumas meia-maratonas. Quarenta e dois quilômetros cento de noventa e cinco metros eu nunca fiz correndo. Mas hoje eu fiz andando. E quando cheguei no camping lembrei da minha irmã. Porque eu sentia como se o osso do meu pé batesse direto no chão.

Parte da culpa dos meus pés estarem sentindo tanto é que já andei mais de mil quilômetros com os tênis que estou usando. Por melhor que sejam, chega uma hora que não aguentam mais. O solado tá gasto, quase furando. A palmilha está achatada. Meus pés estão inchados de tanto andar e parece que estão crescendo ainda mais – meu número de sapato americano era 8.5 mas na Appalachian Trail meus tênis eram 9, depois 9.5 e finalmente 10, que é o número desse.

Tenho um par novo me esperando em Kennedy Meadows, onde chego amanhã. Pedi o 10, mas tô achando que vai ficar pequeno.

A trilha de resumiu a uma grande subida logo cedo – onde a gente acampou na metade do morro – e uma descida até onde tinha água. Cheguei ali pouco depois das onze. Change já estava por lá, junto com outros caminhantes. Break Away já tinha seguido caminho.

Tirei um longo descanso depois de comer só às quatro comecei a subir o segundo morro, para então descer pro camping.

Quando cruzava a estrada, logo depois da água, vejo o recado do BA na terra indicando pra deveria ir.

Amanhã o dia será mais curso: uma subida, uma descida e chego à Kennedy Meadows, o fim do deserto. Tudo bem que a subida tem dez quilômetros e oitocentos metros de elevação. É o último dia do deserto: amanhã à noite posso colocar meus pés pra descansar por uns dias.

Pacific Crest Trail S01E33

A trilha da trilha: Wes Montgomery – California Nights

Tem dia que é foda. Por mais que você pense vai sair bom ele se supera.

O por do sol de ontem e a lua cheia me deixaram todo cheio de esperança pro dia de hoje. Não só isso: o app dizia que Walker Pass, onde a gente tinha planejado acampar, era um lugar que frequentemente tinha Trail magic. Seriam so 30 quilômetros até lá e a promessa de comida e bebida me tirou da cama cedo.

Às seis eu já estava de pé. Break Away já desmontava sua barraca e seguia caminho, Tyler (tenho que começar a chamá-lo por seu trail name: Change…) também já acordava. Às 6:16 do dia 16/6 eu assinei o registro e peguei a trilha morro a cima.

A primeira parte era subida, mas o sol, que havia surgido às 5:30, ainda não tinha vencido as nuvens. Tempo agradável, nada de calor, e

depois do morro foi passeio. Cheguei às 12:45 no destino. Change já estava lá, BA havia parado na água e chegou logo depois. Ed (tenho que começar a chamá-lo por seu trail name: Rust) chegou mais tarde. Era cedo, o trail magic não passava de uma louca num carro decorado e restos de comida que detonamos em um segundo (mexericas murchas, M&M quase derretidos, um pão de ontem, sobras de geleia de amendoim e molho de tomate) quando BA sugeriu: porque não ir

à cidade? Ainda è cedo, a gente pode uma carona, comer alguma coisa e voltar. Vai fazer bem pro espírito, ele disse.

Change e eu topamos. Rust não. Lake Isabella fica a 60 quilômetros de onde estávamos. Mas, ei! Lá tem pizza! Vinte minutos na estrada foi suficiente pra alguém nos pegar. E comemos duas pizzas grandes (e bebemos uma quantidade absurda de refrigerante).

Na volta decidimos que valeria a pena andar mais alguns quilômetros para ter que andar menos no dia seguinte. Rust já havia seguido, os outros que tem andando perto da gente (Squirrel, Drumstick, Chopsticks, Dr. Jones) resolveram ficar e a nós, às sete e meia da noite, resolvemos pegar a trilha de novo morro a cima.

Com a lua cheia e o sol se pondo e pintando o céu de laranja, subimos até o primeiro camping que achamos, à cinco quilômetros de onde estávamos. Abrimos as cervejas que trouxemos da cidade e ficamos ali observado a lua.

Tem dia que se supera, e ainda tem a lua pra te lembrar que tudo termina bem.

Pacific Crest Trail S01E32

A trilha da trilha: Chicago – South California Purple

Tem dia que é foda. Duro de caminhar, difícil de sair do lugar. Foi difícil sair da barraca: normalmente já estou na trilha às sete, mas hoje não comecei antes de 7:30. Estava cansado, com preguiça, mas como a previsão eram de apenas 22 milhas, 35 quilômetros, pensei que faria rápido.

Sabia que onde eu estava era o último riacho pelos próximos 60 quilômetros. Ainda assim saí só com dois litros d’água, confiante na informação que o Break Away tinha recebido: que teria água no km 15 e no local onde a gente tinha planejado acampar deixada por trail angels.

Quando cruzei a primeira estrada e vi os galões fiquei mais tranquilo. Ainda era nove da manhã, tomei um litro, enchi a garrafa e segui.

A partir dali o dia foi só esquentando, batendo na casa dos quarenta graus. Na estrada dos 15 quilômetros, como prometido, mais água. Bebe, enche, segue.

Eu ia tranquilo, ouvindo o playlist da Tesoura da Ale, cantando as músicas, dançando outras na trilha. Já quase meio dia ao cruzar mais uma estrada, um bando de hikers aos pés de uma Joshua tree.

A partir dali parece que abriram as portas do inferno. O calor aumentou, minha energia acabou e eu seguia me arrastando. Oliver passou por mim, e a impressão que eu tive era que nos dois éramos os únicos caminhando naquele horário.

Quase passei batido pela marca dos 1000 quilômetros, tamanho o desânimo.

Cheguei cansado e sem água no lugar combinado. BA, Tyler e Oliver estavam por ali e melhor: tinha água. Mais gente foi chegando, se reunindo, uns parando pra água e seguindo, muita gente ficando.

Eu cansado e querendo dormir, não pude: o por do sol deslumbrante de um ano e uma lua cheia absurda do outro não me deixaram ir pra cama cedo. Fiquei fazendo fotos até o sol se pôr. E se tiver energia acordo pra vê-lo nascer.

Tem dia que é difícil, mas que no final tem um por do sol para admirar.

Pacific Crest Trail S01E31

A trilha da trilha: Mazzy Star – California

Hoje é 14 de junho. Há um mês eu estava na fronteira com o México, na cidade de Campo, pra começar minha caminhada pela Pacific Crest Trail. Hoje estou na milha 609, mas andei “apenas” 601, já que saltei as 8 milhas em Tehachapi. 601 milhas são 967 quilômetros. Em 31 de caminhada são 31 quilômetros por dia, em média.

Mas nesse primeiro mês eu não andei dois dias – assim, minha média em dias caminhados é de 33,3 quilômetros por dia. Ou 20.7 milhas.

No meu planejamento o objetivo era fazer 20 milhas por dia, em média. Nada mal.

Nesse primeiro mês de trilha eu gastei 52 dólares em lojas de conveniência e 95 dólares em supermercados. 147 dólares, onde pelo menos 47 deve ter sido de cerveja. Assim gastei em média 3,25 dólares de alimentação na trilha por dia (4,75 se contar as cervejas). É preciso considerar que recebi 2 caixas com chocolates e comidas do meu apoiador, a Joe’s Chocolates, que ajudou a deixar esse valor baixo.

Em cidades, gastei mais 141 dólares em restaurantes (hamburgers, pizzas, comida chinesa, e cerveja, claro, numa média de 28 dólares por restaurante, incluindo 20% de gorjetas) e outros 123 dólares em hotéis, albergues e locais que recebem doação voluntária (que sempre procuro deixar entre 10 e 20 dólares). Também gastei 3 dólares de ônibus.

Por fim, gastei 163 dólares de equipamentos – microspikes pra neve, que comprei em Idyllwild e um novo par de tênis que mandei pra Kennedy Meadows, onde vou gastar mais, com o Bear Canister e o Ice Axe.

Nesse mês não vi urso, mas vi um veado, uma dúzia de cobras (metade delas cascavéis), incontáveis coelhos e lagartos, pássaros diversos, flores de todas as cores. Dormi a maioria das noites na minha barraca, mas também em hotéis, albergue, casa de estranhos, numa garagem, debaixo da mesa em uma lanchonete. Tomei mais banho que esperava (sete, sendo um de balde e um num lago) mas apesar disso tudo está como planejado. Tudo correndo bem. Continuando assim serão mais cem dias até o Canadá. Espero estar certo.