Pacific Crest Trail S01E73

Dia 73 | Oregon Challenge Day 5

37 km hoje | 2339 km total

Grouse Hill Camp

Crater Lake, assim como o Monte Whitney, é das maiores atrações da PCT mas não é parte oficial dela. O lago na cratera de um vulcão extinto, com uma ilha no meio atrai milhares de turistas. Confesso que levei isso em consideração quando decidi mandar pro resort de lá os pacotes: os caras devem ser grandes, organizados, eu chego lá cedo, pego as minhas encomendas e vazo.

Ledo engano. Os comentários no app diziam o contrário: a parte de encomendas era um caos. Mas no local tinha banho e lavandeira baratos. E a melhor hiker box da PCT.

Cheguei lá às sete da manhã, peguei um café e um muffin e perguntei pelas encomendas. “Você vai ter que esperar. Agora é movimentado e só posso olhar isso depois das nove”, disse o atendente.

Beleza. Peguei uma calça moletom e uma camisa na hiker box, tomei um banho, botei toda a minha roupa pra lavar e esperei o horário. Bright Side chegou e comentamos a situação. “Eu tenho três caixas”, ele disse. “Uma de comida, uma coisa que comprei na Amazon e outra com brownies que minha namorada mandou. Espero que pelo menos essa última chegue”.

As nove voltamos. Eles tinham uma caixa minha (o carregador) e uma dele (as comidas). “Agora só 11:30, quando o correio trás as encomendas. Tem que esperar”. Paciência. Eu ligo pra Therm-o-rest, pra saber se tinham mesmo mando. “Sim, foi enviado dia 18. Já deve estar aí”. Ok. Desce um six-pack de cerveja, um sanduíche e vamos esperar.

E mais hikers chegando, e a gente comentando a situação. Nesse meio tempo eu indo e voltando da hiker box com comida: as pessoas mandam caixas pra lá, veem que não podem carregar ou não vão comer aquilo tudo e colocam na caixa. Resumo: não comprei nada na loja e saí dali com comida pra uma semana, incluindo doces turcos, chocolates belgas, café da manhã e jantar…

Uma da tarde aparece a segunda caixa do Bright Side. Às duas, finalmente os brownies. Só aí eu consigo falar de novo com a Therm-o-rest: “ah, me desculpe: está esgotado e não conseguimos mandar… tem algum outro endereço que você quer que entregue?” Sim, na casa do caralho, seu enrolado filho da puta! Me fazendo esperar aqui por sete horas enquanto eu podia estar caminhando, desgraça! Porque não falou isso antes, seu merda? Era isso que passava na minha cabeça. Mas respondi um educado “Claro, manda pra esse endereço…”

Fiquei puto, claro. Eu estava sonhando (mentira: não estava sonhando porque não estou conseguindo dormir tanto a ponto de sonhar…) esperando aquele colchonete inflável e macio, mas pelo visto vou ter que ficar mais umas semanas com esse que estou usando.

Me despedi da galera que estava na porta da loja e peguei não a PCT mas a trilha paralela que leva a Crater Lake. E só depois vi que a PCT estava fechada…

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Pacific Crest Trail S01E69

Dia 69 | Oregon Challenge Day 1

61 km hoje | 2164 km total

Spring

Dos 4250 quilômetros da PCT, 733 são em Oregon. O Oregon Challenge, ou Desafio do Oregon, consiste em cruzar todo o estado em duas semanas, quatorze dias no total. São mais de 50 quilômetros por dia, 52,35 em média pra ser mais preciso. 32.5 milhas. Parece bastante. E é.

Minha técnica é a seguinte: 10×10. 20×2. Até às dez da manhã eu preciso fazer dez milhas (16 quilômetros) e até as duas da tarde, vinte. Depois disso, mantendo a média, faço trinta até às seis da tarde e o que vier depois é lucro. Pra isso acontecer, no ritmo que ando, tenho que sair do acampamento às 6:30. Tiro 15 minutos de descanso às 10 da manhã depois mais meia hora às duas da tarde. Como está escurecendo tarde, às nove da noite, ando até 19:30, 20h.

Foi assim que comecei o Oregon Challenge: 6:30 deixando o acampamento com a Blueberry pra fazer o 10×10, 20×2.

Às duas da tarde a gente chegou a um ponto da trilha onde ela passa literalmente no quintal de uma casa: você entra pela lateral da garagem e logo depois tem uma torneira e uma mesa de piquenique. Foi ali que me despedi de Blueberry: ela iria tirar um dia de folga em Ashland, eu não iria na cidade, ela vai saltar parte do Oregon que já tinha feito e quer terminar a trilha dia 19 de agosto, portanto, a não ser que algo aconteça, eu não devo vê-la novamente.

Dei tchau, desejei boa sorte e segui. Queira fazer as 32 milhas que precisava, mas já no primeiro dia vi que essa média é complicada. Não por causa do terreno ou da trilha, que é fácil e gradual. Mas os locais de acampar são espaçados. A água é escassa. E o que deveria ser 32 milhas teria que ser 25 ou 38. Optei pelo dia mais longo…

Quando passava das 30 milhas cruzei três garotas que se assustaram com a distância que iria fazer. Mas eu não tinha opção. Nada de água pelo caminho, os riachos todos secos, e eu precisava de parar onde teria certeza que iria conseguir.

Cheguei 20:30 no acampamento, que estava lotado. Consegui um lugarzinho pra minha barraca, peguei água e lavei os pés, imundos com a poeira, e tentei dormir. A mistura da dor na bacia com a unha do dedão direita inflamada mais o colchonete desconfortável que estou usando não me deixam dormir. Mas ainda assim amanhã tenho mais 50 quilômetros pra fazer…

Pacific Crest Trail S01E68

“Garota, eu estou impressionado!”, foi a primeira coisa que disse quando vi que eram Blueberry e Tarzan que estavam acampando do meu lado, nos piores lugares possíveis pra montar as barracas, apesar de terem outros lugares melhores por perto. Tarzan ainda dormia e ela acordou quando eu fazia o meu café; às 6:00 da manhã. “A gente estava se sentindo bem e resolvemos continuar. Chegamos aqui meia noite. Você ouviu alguma coisa?”. Eu não tinha escutado nada até 2:30 da manhã, quando acordei e ouvi o barulho de um colchonete inflável. E quase não dormi depois…

Tarzan continuou dormindo e Blueberry e eu saímos determinados a cruzar juntos a fronteira com o Oregon. E aquele final da Califórnia reservou pra gente alguns personagens surreais.

O Anderson estava numa das estradas que cortam a trilha. Quando cheguei Blueberry falava com ele ao lado do seu carro. Ele deu a ela algumas amêndoas, as melhores que já comi. “São da minha empresa de orgânicos que tenho com um sócio no Peru. São germinadas. Coloque na água da noite pro dia e elas vão ter dez vezes mais vitaminas”, ele dizia. Com uma camiseta velha do Greateful Dead e aquele típico visual hippie, ele já tinha ido a alguns lugares no Brasil. “Chapada Diamantina? Incrível. Alto Paraíso? Aquele lugar é mágico. E eu prefiro a cerimônia do Daime no Brasil que no Peru…”

Depois foi a vez do Ötzi. Era como ver um gnomo na floresta, com sua roupa verde e grande chapéu vermelho. “Eu dou trail name pra todo mundo que ainda não tem”, ele dizia. “Sou a pessoal que mais deu trail names. Vai estar no meu livro”. E continuava: “você conhece a história do Ötzi? Já foi a Veneza? Procure. É o assassinato não resolvido mais antigo da história…”

Numa cabana abandonada quase chegando na divisa enchi minha garrafa de água pra continuar. Às 18:30 Blueberry e eu cruzamos a fronteira. Abrimos as cervejas que estávamos levando desde Seiad Valley, tiramos fotos, fizemos selfies e andamos pouco mais de duzentos metros até chegar a um lugar onde acampamos.

O sentimento de cruzar a fronteira é incrível. Mesmo sabendo que é algo simbólico, que na prática nada mudaria dali pra frente e a trilha continuaria sendo a trilha, passar aquele marco te da mais energia. É uma etapa vencida. Novo estado, nova fase na caminhada. Que venha o Oregon. Que comece o desafio.

Pacific Crest Trail S01E67

Tenho previsto fazer a PCT em 131 dias. Ontem foi exatamente a metade desse tempo. Também estou quase no meio do caminho: já andei 2061 dos 4250 quilômetros. Daqui pra frente devo andar mais rápido no Oregon e Washington e diminuir o ritmo quando voltar pra Sierra. Alem disso vou precisar de alguns dias de descanso e logística: quando chegar na fronteira do Canadá tenho que voltar 50 quilômetros de trilha até a estrada que vai a Seattle, de lá voar pra Reno e pegar uma carona até onde recomecei. Depois, ao terminar, pegar outra carona até ainda não sei onde e voltar a Seattle… Uma confusão. Mas acho que vou conseguir terminar no tempo que tinha previsto. Isso se não continuarem a enfiar mais estados no meio da trilha…

Dizem que a PCT passa por 3 estados: Califórnia, Oregon e Washington. Mas hoje apareceu o estado de Jefferson… e juro que não tenho nada a ver com isso! Existe um grupo que quer a separação do Norte da Califórnia do estado do estado e propõe a criação do Estado de Jefferson. E Seiad Valley parece apoiar essa ideia. Por todo lado é possível ver o nome do estado e a bandeira – verde, com dois XX.

Pra chegar ali foram mais uns quilômetros de descida e uma caminhada longa pelo asfalto. O dia estava quente, o calor subia do pavimento e chegando na cidade (uma vila, na verdade) um morador veio oferecer amoras geladas, colhidas pela manhã.

O objetivo era chegar antes das duas, pra pegar o restaurante aberto. Uma da tarde eu estava com um hambúrguer na minha frente.

Pra sair do Vale era preciso subir – 15 quilômetros morro acima. Com o dia batendo nos quarenta graus, a turma que estava andando comigo resolveu esperar o sol abaixar – o que está acontecendo às oito da noite – e subir só até o primeiro camping, na metade do morro. E saí antes, com o objetivo de subir tudo: 16:30 peguei de novo o asfalto e subi a montanha, pra chegar no camping do outro lado já oito da noite. Ia contemplando as montanhas e sentindo, não sei porque, uma saudade danada de Minas.

O que eu não esperava era acordar de manhã com mais gente acampando perto de mim.

Pacific Crest Trail S01E66

A trilha da trilha: Broken Social Scene – Pacific Theme

A dor na bacia continua. Ainda não sei a origem, nem onde é a dor exatamente. As vezes parece que é junção do fêmur, as vezes está mais perto do cóccix. Nas retas e subidas não sofro, mas dói bastante nas descidas. O problema é que pra chegar em Sead Valley são 35 km de descida…

A única coisa positiva foram as frutas silvestres começaram aparecer já maduras. Amoras silvestres por todo lado. Eu ia andando lentamente, parava pra catar frutas, depois por conta da dor. Demorei mais no dia do que esperava. Blueberry estava há horas na minha frente.

Numa das encruzilhadas ela está sentada escrevendo no seu diário. Foi ali que tente sentar e senti uma fisgada mais forte. Por causa disso diminuí ainda mais o passo e só cheguei no acampamento quase oito da noite.

Logo depois chegaram Tarzan e TH, dois caras que a gente tinha encontrado mais cedo , quando paramos para um banho num das várias lagoas da região.

Mesmo que queira completar o estado do Oregon nos 14 dias que tenho previsto, amanhã o dia vai ser mais tranquilo. Serão 20 km até chegar à Sead Valley, onde pretendo comer um hambúrguer e tomar um milk shake. Mas serão 20 km de descida… Depois disso mais uns 15 ou 20 km máximo. De subida braba. E a previsão é que aqui façam 40 graus.

Pacific Crest Trail S01E65

A trilha da trilha: REM – I Remember California

Pela manhã, depois de constatar que os carregadores foram mesmo roubados, eu não tinha mais nada que fazer a não ser empacotar as minhas coisas. Estou ali desmontando minha barraca quando vejo um veado bem próximo, olhando pro nada. Eu guardando as coisas e o bicho lá parado. Cinco, dez minutos; imóvel. Dei dois passos pra chegar mais perto e ver o que estava acontece e o bicho me dá uma cabeçada e me joga no chão… era só o que faltava.

Guardei tudo e fui pro café da cidade. No caminho tentei de novo um lugar na pensão. “Está lotado, mas se você quiser pode vir comer hambúrguer com a gente às duas”, disse dona. Preferi não ir.

Quando cheguei no café encontro a Blueberry. Tinha chegado na cidade no dia anterior. Fiquei por lá um bom tempo, carregando a bateria do celular (vai ter que ser assim daqui pra frente) e fui ao Dolar General fazer a compra pros próximos dias. O Plano Oregon implica em não ter que ir a nenhuma cidade do estado pra comprar alimento. Por causa disso preciso sair de Etna com dez dias se comida. Os outros hikers que estavam lá loja ficavam olhando pra mim com cara de assustados, sem entender o que estava acontecendo, já que a maioria saí daqui com comida pra três dias, no máximo.

Voltei pro café, carreguei um pouco mais celular, e lá pelas 3h00 da tarde vou pra estrada tentar uma carona pra voltar pra trilha. E lá está a Blueberry. “Será que a gente vai fazer juntos a foto da divisa?”, ela me perguntou. Talvez. Ela vai até Ashland. Conseguimos uma carona depois de quase uma hora de espera.

Começando a trilha já quase cinco da tarde, nos restou fazer pouco mais de dez milhas. Quando chegávamos ao local que iríamos acampar começamos a alguns barulhos estranhos. “Parece uma espécie de ritual”, disse ela. Sinos e sons pareciam trombetas e que iam e viam. Quando chegamos mais perto vimos que era um rebanho de vacas.

Caímos na gargalhada. Um casal já de mau-humor estava acampado ali. A sinfonia continuou a noite inteira.

Pacific Crest Trail S01E64

A trilha da trilha: Sloan – Losing California

Objetivo: chegar em Etna, Califórnia, 3 da tarde. Realidade: cinco e eu ainda na trilha…

Era um sobe e desce sem fim. Eu estava leve, sem nada de comida na mochila, mas o dia não rendia.

Queria chegar na cidade, tomar um banho, comer bem, dormir numa cama de verdade, descansar e botar em prática o que venho chamando de Plano Oregon. Mas não só não cheguei no horário que queria como as coisas não saíram como eu imaginava.

Primeiro, nada de cama. Não consegui lugar pra ficar e me restou ir pro parque da cidade. Montei minha barraca, deixei os dois power banks carregando nas tomadas atrás do chuveiro e foi comprar a ficha que me dava direito a 10 minutos de banho quente no armazém. Imundo e com a toalha debaixo do braço fui pro restaurante mais chique da cidade comer um hambúrguer.

O banho foi ótimo: água quente, sabonete, shampoo, coisas que não estou mais acostumado.

Pela manhã vou pegar os carregadores e tinham sido roubados. Já era. Paciência. Compra outro e segue seu caminho.

O Plano Oregon é diminuir ainda mais o peso da mochila e comprar comida pra 10 dias. Queria meio quilo e 2000 calorias por dia. Cheguei a 700 gramas e 2300 calorias. Tá ótimo.

Estou mandando pra casa da trail angel que está me ajudando por aqui coisinhas que não estou usando: uma das câmeras, um par de meia, meu canivete. Assim reduzo pelo menos mais meio quilo da mochila. Não contava que não teria os carregadores…

Queria ficar na cidade hoje mas não vai rolar. Tomo um café da manhã reforçado, mando as coisas pelo correio e boto o pé na trilha de novo. Com o celular desligado, pra salvar bateria.