Appalachian Trail S01E125

Dia 125, 17/08: Moxie Bald Mountain Lean-to (2057.4) a ME 15, Monson, ME (2075.3)

Distância do dia: 17,9 milhas | 28,80 km

Distância total: 2075.3 + 8.8 milhas | 3354,03 km

Distância que falta: 114.5 milhas | 184,26 km

Dias que faltam: 6

A trilha passa próximo de várias cidadezinhas americanas super agradáveis. Hot Springs, Damascus, Waynesborro… Monson, a última cidade antes do final, é mais uma. É pequena – não tem banco, nem hotel, nem supermercado… As opções de hospedagem são duas pousadas. As compras são feitas na padaria ou no posto de gasolina, o único do lugar. Na semana que cheguei tinham inaugurado uma general store: um armazém. E é isso.

Optamos por ficar no Lakeshore, um misto de bar e hospedaria. E não poderia ter tido melhor surpresa. Rebekah, a dona do lugar, foi pegar a gente na estrada e no caminho mostrou a cidade – toda ela. O lugar é arrumado, organizado, bem equipado. Tomadas e extensões para todo lado, lavadoras e secadoras de roupas novas e modernas, sala com TV e vídeos, roupas pra você usar enquanto lava as suas, um chuveiro super gostoso e limpo, caiaques e pedalinhos no lago que fica nos fundos do lugar. O bar tem um cardápio interessante e a comida é ótima. Não poderia ter ficado mais feliz com a escolha.

No banheiro tem uma carta aos hikers. Conta a história de Patrick, o Parkside. Ele estava quase terminando a trilha – faltavam 11 dias – quando resolveu nadar em um dos muitos lagos que existem nesse trecho. Teve uma caimbra, se afogou e morreu. Ele tinha 21 anos. Não sei se a carta é da Rebekah, a dona, ou de outra pessoa. Mas está ali para que todos possam ler. A carta termina com uma série de dicas para os caminhantes e cuidados que devemos tomar ao nadar por aqui.

Monson está às margens das chamadas 100-mile wilderness, as cem milhas mais isoladas da AT. É pra lá que vou amanhã. 100 milhas, 160 quilômetros, daí é só subir Katahdin e pronto. Acabou.

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Appalachian Trail S01E124

Dia 124, 16/08: Pierce Pond Lean-to (2034.6) a Moxie Bald Mountain Lean-to (2057.4)

Distância do dia: 22.8 milhas | 36,69 km

Distância total: 2057.4 + 8.8 milhas | 3325,22 km

Distância que falta: 132.4 milhas | 213,07 km

Dias que faltam: 7

Qualquer coisa diferente do andar/comer/dormir já serve pra dar uma animada. A trilha hoje cruzava um rio. Não é fundo: dá pra atravessar caminhando, se necessário. Mas rio acima tem uma represa, e nunca se sabe quando ela é aberta, fazendo o nível da água subir. Por causa disso a ATC disponibiliza um canoeiro pra atravessar com os caminhantes. Funciona diariamente, das 9 às 2, e a parte oficial da trilha – a canoa tem a White blaze pintada dentro dela.

O fato de ter andando pouco ontem foi por causa disso. Não daria pra chegar aqui antes das duas – ou até daria, se tivesse saído ainda escuro. Fomos os primeiros a chegar: primeiro o Tooth, depois eu, o Senador e o Wash Bear. A travessia é simples e rápida, mas como tudo por aqui é cheio de precauções: colete salva-vidas, assinatura de termo de responsabilidade…

Logo depois do rio fica Caratunk, mais uma daquelas cidadezinhas sem nada, no meio do nada. Wash Bear queria tentar pegar café da manhã, eu um Wi-Fi pra enviar os textos pro blog. Ficamos ali uma meia hora e depois foi a vez de encarar o último trecho difícil da trilha, segundo quem vinha do norte.

Pleasant Pond e Moxie Bald, as duas montanhas, não são nada de diferente do que a gente já tinha passado. Nem diria que são difíceis: são subidas consideráveis, mas que deu pra vencer tranquilo.

A partir dali era só mais um dia até Monson. A última cidade, o último resupply, a certeza que o final está próximo, muito próximo… Daqui a uma semana tudo terá acabado.IMG_20170816_084644

Appalachian Trail S01E123

Dia 123, 15/08: Little Bigelow Lean-to (2016.9) a Pierce Pond Lean-to (2034.6)

Distância do dia: 17.7 milhas | 28.48 km

Distância total: 2034.6 + 8.8 milhas | 3288,53 km

Distância que falta: 155.2 milhas | 249,77 km

Dias que faltam: 8

A previsão era de chuva no meio da tarde. Por causa disso acordei cedo e 6:30 já estava caminhando. Queria chega no abrigo antes da chuva – ou pelo menos não ficar completamente molhado.

O dia foi super tranquilo – o mais tranquilo em semanas, meses talvez. Quando cruzei uma prainha, com areia e tudo, à beira de um lago, não tive dúvidas: tirei a mochila, o tênis, a camisa e caí na água. No outro lago parei e fiz ali um sanduíche.

Quando cheguei no shelter ainda não era duas da tarde. 28 km em pouco mais e 7 horas. Tinha tempo que não fazia um tempo assim. E na frente do shelter, outro lago. Mais água, mais relax impossível. No liguei pras centenas de pernilongos ou pra cobra que pegava um sol ali perto da água…

A gente está tão acostumado em andar, comer e dormir – é só isso todo dia – que ficamos ali sem saber o que fazer até a noite. Eu não tive dúvidas: comi, tomei uma melatonina, botei meus pés pra cima, na parede do shelter e fui dormir por volta das três da tarde. A chuva só caiu no início da noite. Nem era preciso ter corrido tanto. Mas foi ótimo poder relaxar e ficar deitado por quase 15 horas…
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Appalachian Trail S01E122

Dia 122, 14/08: ME 27, Stratton, ME (2001.6) a Little Bigelow Lean-to (2016.9)

Distância do dia: 15.3 milhas | 24,62 km

Distância total: 2016.9 + 8.8 milhas | 3260,04 km

Distância que falta: 172.9 milhas | 278,25 km

Dias que faltam: 9

Stratton é assim: às margens da estrada tem o Stratton Motel, onde a gente ficou. Do outro lado da rodovia uma loja de conveniência. Pouco à frente um restaurante. O Looney Moose, o único local que serve café da manhã, está à uns 700 metros, e entre ele e o motel existe um posto de gasolina, uma lavanderia, uma floricultura, o correio e meia dúzia de casa. Só isso.

Nós quatro – eu, Wash Bear, Tooth e Senator – chegamos pro café pouco depois das sete. Meia dúzia de mesas, uma senhora servindo e cobrando, o marido na cozinha. Saímos dali pouco depois das oito, passamos na loja pra comprar comida pros próximos dias e às 9:30 estamos de volta à trilha, depois de pegar carona na carroceira de uma caminhonete…

Hoje foi o primeiro dia sem chuva em Maine. E o último dia com uma montanha alta, as Bigelows. “As” porque são duas: Bigelow e Little Bigelow, além do Avery Peak.

O visual é incrível, com montanhas e lagos. Fiquei um tempo ali no topo de cada montanha, fazendo fotos e curtindo o visual. Tooth e Senator estavam à frente, eu achava. Wash Bear apareceu quando eu estava na primeira, a Bigelow, e saiu antes de mim. Quando cheguei no shelter nenhum deles estava lá.

Primeiro chegou o Tooth, depois o Senator, por fim o Wash Bear. Tinham parado pra pegar água num abrigo que ficava fora da trilha. Eu passei direto… A partir de manhã espero que as coisas ficam mais fáceis. Nenhum montanha alta até o final. Vai ser caminhar tranquilamente por uma semana, até Katahdin. Menos de dez dias… Está chegando ao fim…
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Appalachian Trail S01E121

Dia 121, 13/08: Spaulding Mountain Lean-to (1988.1) a ME 27, Stratton, ME (2001.6)

Distância do dia: 13.5 milhas | 21,72 km

Distância total: 2001.6 + 8.8 milhas | 3235,42 km

Distância que falta: 188.2 milhas | 302,87 km

Dias que faltam: 10

O dia ia ser curto pra poder chegar cedo na cidade. Por causa disso acabei saindo mais tarde. Além disso duas montanhas deixavam o trecho mais puxado. Primeiro Spaulding Mountain, com a vizinha Sugarloaf, o Pão de Açúcar, e Crocker Mountain, pesada, com dois picos acima dos 4000 pés.

A chuva, claro, continuava. Caía de tempos em tempos. O tempo estava encoberto, nublado e frio. O marcou o dia mesmo foi passar a marca de 2000 milhas. A ALDHA – Appalachian Long Distance Hiking Association só reconhece 2000-miler hikers. Pra eles, thru hiker não existe. Se você fizer 2000 milhas, pronto. Se quiser nem precisa chegar a Katahdin: só de cruzar aquele trecho já tá valendo.

Cheguei ali e fiquei esperando os outros. Senator passou batido. Tooth chegou logo depois, e Wash Bear. Tirei fotos deles e descemos pra estrada pra pegar o shuttle até Stratton.

Não cometemos o mesmo erro: tínhamos ligado e reservado um quarto no hotel da cidade. Quando o motorista chegou, disse a cidade estava lotada. Não tinha mais nenhuma hospedagem disponível. Por causa disso Senator e Tooth acabaram ficando com a gente.
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Appalachian Trail S01E120

Dia 120, 12/08: ME 4, Rangeley, ME (1969.4) a Spaulding Mountain Lean-to (1988.1)

Distância do dia: 18.7 milhas | 30,09 km

Distância total: 1988.1 + 8.8 milhas | 3213,69 km

Distância que falta: 201.7 milhas | 324,60 km

Dias que faltam: 11

Rangeley é uma cidadezinha agradável. Entre dois lagos, tem um visual que atrai dezenas de noivos a cada ano, interessados em celebrar ali o casamento. Mas com o atraso do dia anterior não deu pra ver muito do lugar. Foi o bar ontem a noite e hoje pela manhã a ideia era um café reforçado, supermercado e voltar pra trilha no shuttle de 8:30.

Às sete, quando o café abria a gente já tava na porta. E o lugar só foi abrir 20 minutos depois… Quando chegamos no supermercado já passava de oito. O motorista chegou 8:40 e a gente ainda arrumava a mochila. “Pode esperar uns 20 minutos? Preciso só acabar de arrumar a mochila e ir ao banheiro”, perguntei. “O transfer é 8:30. Se quiser ir à 9 tem que pagar…” Fiquei puto. “Se eu não tivesse esperado você por duas horas ontem isso não teria acontecido. Ok. Você me cobrou o mesmo preço da pousada pra ficar nessa casa de merda, sem internet, onde tive que dividir a cama com outra pessoa. Ontem tive que esperar duas horas pra chegar aqui e você não pode esperar 20 minutos. Ok, foda-se. Eu pego uma carona”.

Não sei se por causa disso ou por causa do tempo de novo ruim – neblina, frio, não se podia ver nada a sua frente – eu voei na trilha. Passei pelo Senator logo no início e subi a Saddleback Mountain bufando. Quando cheguei no topo soltei um berro e continuei. Nos outros dois picos do dia, a mesma coisa. Nada de visual, frio, vento.

Quando cheguei no shelter era seis horas em ponto. Tooth estava por ali. A última vez que tinha encontrado com ele foi no dia do Wildcat. Descendente de indianos, com umas pernas finas e tortas, ele teve um dente inflamado logo no início da caminhada. Daí o nome. “Pensei que você estava muito na minha frente”, ele disse. “Nada. As White Mountains e o sul do Maine sugaram toda minha energia. Não tô conseguindo andar o que queira. Mas a ideia é tirar o atraso nas 100 Miles”, contei, enquanto preparava um sanduíche e abria o litro de vinho, desses que vem em caixa de papelão, que tinha trazido. Wash Bear chegou uma hora depois. Senator quase duas. “Cara, você estava caminhando agressivo essa manhã”. Era verdade. Tanto que em determinado momento quebrei um dos bastões. Mas nem sei quando foi. Não parei pra descansar, não tirei a mochila um momento sequer. “É, eu sei… tá tudo bem. Só quero que essa trilha termine. Já não vejo a hora. Quando o dia terminar amanhã faltaram dez dias…”
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Appalachian Trail S01E119

Dia 119, 11/08: Bemis Mountain Lean-to (1951.7) a ME 4, Rangeley, ME (1969.4)

Distância do dia: 17.7 milhas | 28,48 km

Distância total: 1969.4 + 8.8 milhas | 3183,60 km

Distância que falta: 220.4 milhas | 353,69 km

Dias que faltam: 12

Ontem, quando chegamos no shelter, a água era um pocinho, minúsculo, onde a gente tinha que pegar a água com um copo e encher a garrafa. Hoje de manhã no mesmo lugar corria um riacho. Acordei às 5:30 e fiquei fazendo hora pra levantar.

Normalmente fico uma meia hora ali de bobeira, criando coragem pra sair no frio. Exatamente às seis, quando ia sair de dentro do saco de dormir, desabou um toró. Chuva, trovão, relâmpago, tudo que tem direito. Fiquei mais tempo ali esperando a chuva passar. Duas horas depois dava pra ouvir o riacho correndo…

Com a chuva o início do dia foi problemático. Nem cem metros a gente tinha andado e Wash Bear enfia o pé numa das poços de lama. Mais um tanto e eu escorrego, caindo de bunda no chão… foi meio assim o dia todo. Escorregões, tombos, pés ensopados. Mas a chuva tinha passado, o que era bom.

Mas não durou muito. Meio da tarde, ali pelas três, desaba o mundo de novo. Pelo menos mais duas horas de chuva. Eu andava com o Senador. Wash Bear alcançou a gente pouco antes de chegarmos à estrada – e a chuva parar. Os três molhados, fomos pra beira da estrada tentar uma carona pra cidade. Tinha um hostel perto da trilha – mas o guia que o Senador usava dizia que não tinha eletricidade… Optamos por outro.

Foi um erro. Quando chegamos estava lotado, mas ofereceram pra ficar em uma casa que eles acabaram de alugar, mais perto da cidade. Ótimo. Só que demorou pelo menos duas horas pra levarem a gente até lá… chegamos famintos. E uma das razões pra ficar numa cidade, claro, é comida de verdade (as outras são banho quente e eletricidade pra carregar os equipamentos. Cama, televisão, essas outras coisas não fazem a menor falta). Resolvemos ir comer antes de passar no supermercado. E com o atrasado, quando saímos do bar/restaurante o supermercado já estava fechado…

É bom destacar que a quantidade de comida que a gente consome nas cidades é assustadora. Tudo pra tentar recuperar algumas das calorias gastas durante os dias no mato. Eu, por exemplo, sempre peço o maior sanduíche que tem no lugar. É padrão americano, agora imagina. Vem, claro, com batatas. Que eu cubro de maionese e catchup… E ainda emendo com um porção de buffalo wings, as asas e coxinhas de frango. E sobremesa. E cervejas… E no café da manhã panquecas, com manteiga e syrup. E dois ovos, bacon, batatas, torradas, um litro de café… Se quando eu voltar pro Brasil comer a metade do que como aqui engordo 10 quilos em um mês…

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