Pacific Crest Trail S01E77

Dia 77 | Oregon Challenge Day 9

46 km hoje | 2524 km total

Elk Lake

As trilhas sempre trazem algo de especial. Seja uma lembrança, um aprendizado, um amigo. Eu tenho dado muita sorte nessas trilhas que tenho feito. Tem perrengues, claro, sempre tem. Mas não dá pra reclamar.

Primeiro pelo privilégio de simplesmente estar fazendo. Sou muito grato por isso. É algo que nunca nos meus sonhos de criança eu poderia imaginar.

E depois pelos amigos que tenho feito e reencontrado por causa dessas trilhas. Os primeiros trail angels que tive, antes mesmo da trilha começar.

Foi assim na Appalachian Trail com a Ingrid e o Yoav. Eu a conhecia pouco do tempo que ela morou em BH e eles me acolheram e foram minha base durante os meses por lá. Recentemente ela voltou ao Brasil e a Ale a recebeu lá em casa.

Aqui na PCT o Bruno, que eu conheço há 20 anos, não só me recebeu na casa por uma semana como recebeu e guardou por uns meses as coisas que ganhei do Badger Sponsorship. Sem esse apoio dele não sei como seria.

A Mara eu conheço há menos tempo. É cliente da Alê, a gente se falou bastante quando ela pensou em ir pra Australia, mas acabou indo pro Canadá. E foi pra casa dela em Vancouver que mandei uma caixa que só vou pegar no final de setembro.

A Adriane eu ainda não conheço pessoalmente, mas desde que ela ficou sabendo que eu iria fazer a PCT que mantemos contato. A casa dela virou minha agencia do correio, pra onde mando as coisas que não preciso mais na trilha – já foram 3 caixas! E ela ainda me escrevendo querendo me mandar “umas coisinhas” antes de eu chegar a Washington, onde ela mora.

Quando o pessoal da Therm-o-rest disse que iria demorar “umas semanas” pro isolante voltar ao estoque pedi pra mandar pra casa dela. Mas eis que hoje recebo um e-mail deles dizendo que havia sido enviado. Mando mensagem pra ela pedindo pra assim que chegar me avisar para que eu possa passar o endereço que vou estar nos próximos dias…

A Fernanda ofereceu abrigo na casa dela em Portland, o Renato viu que meu tempo está apertado e se ofereceu pra me pegar no final e me levar o aeroporto. Um monte de gente que não conheço pessoalmente me escreve diariamente comentando os posts, dando conselhos, pedindo dicas, batendo papo.

São essas coisas que deixam as trilhas que faço especiais. Estar aqui é legal, as paisagens são lindas, conhecer outros hikers é bom mas esse tipo de retorno, isso revigora a gente. Isso faz a gente acreditar. Nas pessoas, nos atos, no que estou fazendo.

Esse post é só pra agradecer a você. Muito obrigado.

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Pacific Crest Trail S01E76

Dia 76 | Oregon Challenge Day 8

30 km hoje | 2478 km total

Charlton Lake

No banheiro do resort onde tomei banho ontem à noite tinham duas coisas que eu não via há muito tempo: toalha (felpuda, macia, mais macia que meu colchonete…) e espelho. De corpo inteiro. Foi ali, antes do banho, que vi pela primeira vez o quanto eu estou magro. Os ossos aparecendo, o que justifica as dores ao dormir. Estou com cara de cansado. Meus braços e pernas estão queimados de sol. Meus pés estão inchados. Minhas mãos calejadas. Eu sou um quadro do Portinari…

Preciso comer mais, eu sei. Tenho feito a minha parte: esperei na porta do restaurante até ele abrir às sete da manhã e pedi meu desjejum: um café grande, um suco de laranja, cinco fatias de bacon, três ovos, batatas, um bagel. Comi tudo em cinco minutos e tomei um pote de meio litro de sorvete na sequência…

Quando a lojinha abriu fui comprar o repelente. “Acabou. Mas a gente deve receber hoje à tarde…”, me disse a atendente. Eu não iria esperar. Ainda tinha alguns do trail Magic e iria me virar com eles.

Saí dali por volta das nove, já tarde pros meus horários. Sabia que não iria andar muito, mas não pensei que fosse tão pouco. Ia tranquilo, parando nos lagos pelo caminho, nadando, curtindo a trilha. Os pernilongos deram uma diminuída para níveis aceitáveis. E o trecho começou a mudar minha visão do Oregon. Até então estava odiando o estado.

Estava achando o Oregon bonito só de longe. Andando aqui eram dez poços de água parada para cada lago. E eles nem sempre estavam perto da trilha. Estava sendo chato caminhar por aqui. Mas hoje, com um lago a cada dez quilômetros, sempre ao lado da trilha, com águas límpidas e frias, a percepção foi mudando.

Resolvi dar o dia por encerrado por volta das seis da tarde, quando acampei às margens do lago Charlton. Montei minha barraca com vista pra água, abri um vinho que tinha comprado em Shelter Cove e finalmente consegui dormir por sete horas sem acordar.

Pacific Crest Trail S01E75

Dia 75 | Oregon Challenge Day 7

55 km hoje | 2448 km total

Shelter Cove Resort

Metade do tempo previsto pra completar o Oregon Challenge e está claro que eu não vou percorrer o estado em 14 dias. Talvez eu faça em 15. Mais certo em 16. Ainda assim, 730 quilômetros em 16 dias é coisa pra burro. É uma maratona por dia. Quem anima?

As horas que parei pra comer em Lake Fish e o tempo de espera em Crater Lake contribuíram pra essa certeza. Se quiser terminar em duas semanas tenho que fazer a doideira de andar 60 quilômetros por dia. Não vou fazer isso…

Agora é pensar macro: eu quero chegar ao Canadá até o final de agosto, para ter pelo menos três semanas pra fazer Sierra Nevada. Assim, a meta agora é andar 25 milhas, 40 quilômetros por dia até lá. Ainda é muito, eu sei. Tá puxado. Mas é o que temos no momento…

Os pernilongos continuam a mil. Sem repelente, só pensava em chegar no próximo resort pra comprar um. A manhã foi enlouquecedora: um passo, um tapa em cada braço. Em alguns momentos eu corria pra me livrar deles. Ajudava, mas não resolvia. Como não resolviam a calça, a blusa, o buff no pescoço, o boné, o tênis, as meias. Eles picavam por sobre a roupa.

Cheguei na estrada onde falaram que tinha água e notei outras caixas num canto. Fui abrindo: na primeira, carregadores de celular. Na segunda, absorventes e artigos íntimos. Na terceira, comprimidos e remédios. Na última, repelentes. Não acreditei. The trail provides, é isso? Eram do tipo de lenços umedecidos, sachês de uso individual. Peguei uma caixa, que seria suficiente até o próximo resort, o Shelter Cove.

Cheguei no resort quase nove da noite. O restaurante estava fechado, mas como era o único lugar com internet, umas pessoas estavam por ali. “O banho é 2 dólares por três minutos. Eu tenho umas moedas se você precisar”, me disse uma senhora sentada a minha frente. A princípio recusei: “acho que estou bem. Obrigado”. Mas olhando meu estado reconsiderei. Contei minhas moedas e vi que tinha 1,50. “Toma. Isso vai te dar seis minutos”, me disse ela, me entregando 2,50 em moedas de 25 centavos.

Agradeci, guardei as moedas e fui procurar um lugar pra acampar. Supostamente teria que pagar 10 dólares pra acampar ali, mas cheguei tarde não tive pra quem pagar. Achei o local reservado pra PCT Hikers entre o estacionamento de motor homes e caminhonetes e montei ali minha barraca. Dei o cano no camping.

Pacific Crest Trail S01E74

Dia 74 | Oregon Challenge Day 6

53 km hoje | 2392 km total

Six Horse Spring Junction

A Rim Trail segue próxima à PCT, mas com vista para Crater Lake. Havia seguido ela ontem e acampei no último lugar antes dela encontrar a PCT novamente. “Aqui vai ser tranquilo”, pensei. Às nove, já meia noite no relógio de um caminhante de longa distância, chega uma família. Paid, crianças, cachorro. Montam barraca, o cachorro late pros esquilos, os irmãos começam um jogo entre eles, os pais tentando acalmar a trupe e eu tentando dormir.

Mas não conseguia. Tomo melatonina e nada. Durmo ali uns minutos entre meia noite e cinco e tem sido isso nos últimos dias. Não acho jeito no colchonete, dói a bacia, o dedão, tudo incomoda…

Já disse que a trilha tem sido seca e hoje não foi diferente. Enchi as garrafas no water cache que tinha perto de onde dormi e depois num riacho, já no meio do dia. Parei por lá pra almoçar e encontrei outro hiker que estava vindo do norte. Pedi informações sobre os mosquitos (vão continuar), quanto tempo pra fazer Washington (três semanas é apertado) e água dali pra frente. Agradeci e perguntou rei seu nome. “My trail name is Jessie”, ele disse. Ok, Jessie. Valeu. “Não!”, ele corrigiu. “É a frase toda: meu trail name é My Trail Name Is Jessie…”.

“My Trail Name is Jessie…” Eu repeti em voz alta. “Tá bom. Gostei. Espero que a gente se encontre de novo em Sierra Nevada”.

Logo depois foi cruzar o ponto mais alto da PCT em Oregon e Washington. A pouco menos de 3000 metros, não impressiona, não tem uma vista, nem é bonito. Mas é mais um marco que ficou pra trás – e uma possibilidade a menos de neve…

Quando cheguei no local que iria acampar, próxima a um riacho, já tinham umas cinco pessoas ali. Perguntei onde era a água e todas, de dentro de suas barracas, foram unânimes em responder que não valeria a pena, por causa dos pernilongos. “Tem um water cache a menos de dez quilômetros daqui”, disseram.

Acatei o conselho. De novo sem jantar entrei na barraca com mochila e tudo. Mesmo porque meu repelente tinha acabado naquela tarde.

Pacific Crest Trail S01E72

Dia 72 | Oregon Challenge Day 4

50 km hoje | 2302 km total

Stuart Falls Junction

Foi o tempo de eu desmontar a barraca, guarda-la na mochila e dar no pé. A mochila, com tudo, exceto meu tênis e bastões de caminhada, estavam dentro da barraca. Comida inclusive: nada de dependurar como fazia na Appalachian Trail. Os pernilongos não davam trégua. Tirei a mochila já fechada e com tudo dentro, desmontei a barraca, coloquei de lado e fugi dali.

Queria andar bastante e chegar o mais próximo possível do próximo resort. Duas caixas me esperavam lá: o novo carregador de celular (aê terceira temporada de Stranger Things! Finalmente vou te assistir!) e meu isolante térmico inflável que a Therm-o-rest finalmente tinha me mandado depois da confusão de tê-lo enviado pra Kennedy Meadows. Eu precisava dele (não só pra assistir Stranger Things mais confortavelmente, mas pra dormir mesmo. Estou dormindo muito mal nesse Z-Lite).

Ainda pela manhã passo por um sujeito que a melhor forma de descrever é como fiscal de trilha. Calça jeans, bota, camisa manga longa, rede contra mosquitos sobre o rosto e um crachá, ele vinha andando calmamente no sentido contrário ao meu. Dei bom dia, ele respondeu e comentou: “você ainda vai encontrar uns troncos caídos na trilha aí pela frente. Mas não de preocupe: já pedi pra uma equipe vir corta-los”, ele comentou. Ok, faz parte da diversão, eu respondi, querendo mesmo dizer “e esses pernilongos, vocês vão dar jeito?”. Deve ser ele o cara que manda varrer e catar as pedras nos primeiros cem quilômetros quando você entra no Oregon…

Realmente tinham alguns troncos, mas nada demais. A situação no norte da Califórnia era bem pior. E pelo menos nessa parte ainda tinham troncos, porque alguns quilômetros depois já não tinha mais nada…

Era uma parte que na minha cabeça eu chamava de “A imagem do Brasil no exterior”. Queimado. Muito queimado. Resultado dos incêndios do ano passado, que devastaram boa parte das florestas do Oregon. Já não tinha cheiro de fumaça, mas a imagem era ao mesmo tempo arrasadora e esperançosa: era triste ver tudo carvão e feliz de ver em alguns pontos a floresta se reerguendo.

Foi ali que encontrei de novo o Bright Side. Eu o tinha visto quando tomava café da manhã no Fish Lake e ele comentou que nesse trecho a gente teria 40 quilômetros sem água. “Não da pra acampar aqui. Vou andar até onde não tiver mais queimadas”, ele disse.

Bright Side parou num elevado, sem árvores por perto, logo depois desse trecho. Eu continuei e acabei acampando já quase nove da noite ao lado de uma placa de sinalização. O app não mostrava nenhum local até chegar no resort e ali parecia plano suficiente pra mim. Montei minha barraca e apaguei.

Horas depois, meio dormindo, achei que ouvi passos e vi luzes de uma lanterna. Era o Bright Side. Ele não ficou no lugar onde tinha parado…

Pacific Crest Trail S01E71

Dia 71 | Oregon Challenge Day 3

35 km hoje | 2252 km total

Christi’s Spring

Eu tenho carregado muita comida, mas não resisto à comida de verdade. Mesmo que “comida de verdade” no caso sejam batatas congeladas, uma torrada estranha, ovo e bacon gordurento. Era isso que eu estava esperando de café da manhã no Fish Lake Resort quando saí às 5:30 da manhã disposto a chegar lá antes das nove.

O nome resort parece pomposo mas esses locais são simples: uma casinha de madeira, uma lojinha, meia dúzia de mesas. Base pra gente que vem acampar e pescar nos lagos da região. São perto da trilha – menos de cinco quilômetros – mas é uma caminhada extra, além do computado pela distância oficial da trilha.

Antes das seis eu já tinha visto um urso – o meu segundo até agora. Ele tava de boa, ao lado da trilha, e nem notou minha presença. Foi ali que percebi que urso pra mim é que nem neve: eu gosto, mas à distância. Fique você aí, eu aqui e está tudo bem…

Apesar de estar esperando ovos e bacon o resort não tinha: me contive com um omelete grande e bem recheado. Estava bom. Deixei o celular carregando e no meio tempo entre a digestão do omelete e o bateria atingir 100% notei que só aquilo não seria suficiente: eu teria que comer mais… Já eram onze, o cardápio do almoço começava ao meio dia e eu resolvi esperar.

Foi nesse meio tempo que chegou o Bagpiper. A trowel que tinha achado era dele: ele tinha passado por mim quando eu estava no banho. “Que bom que você achou. Como eu iria fazer pra, é, como de diz, você sabe…” ele disse.

No início do Oregon a trilha parece ter sido toda limpa e nivelada: nada de morros ou pedras, tudo lindo e arrumado. Mas aqui a coisa começa a mudar. Trechos com mais pedras que a Pennsylvania. O que vai deixando a caminhada mais lenta. Além disso foram algumas horas no restaurante, comendo e carregando o celular. O resultado é que andei menos que precisava.

Acampei ao lado de um riacho e os pernilongos resolveram aparecer em peso. São tantos que não consegui fazer meu jantar. Montei a barraca, entrei pra dentro dela com mochila e tudo e quebrei uma de minhas regras: nunca comer dentro da barraca. Matei ali um pacote de atum e uns chocolates, as coisas que eu tinha e que davam pra comer sem esquentar.

Pacific Crest Trail S01E70

Dia 70 | Oregon Challenge Day 2

53 km hoje | 2217 km total

South Brown Mtn Shelter

O Oregon é mais seco que eu pensava. Olhando o mapa no aplicativo via vários pontos azuis indicando água, mas a maioria está seco. Por isso tenho carregado mais água aqui que no deserto. Eu não contava com isso…

Depois do longo dia de ontem não sabia se iria conseguir chegar onde queria, o South Brown Shelter. Lá tinha água – uma bomba difícil de operar, pelo que diziam os comentários – por isso peguei água no último local antes, um riacho 13 quilômetros antes. Qualquer coisa eu parava na beira duma das estradas que iria cortar antes de chegar lá.

Peguei água no acampamento – um cano quebrado, que levava água pra uma cisterna desativada – e achei que ela daria pro dia todo. Não deu. Está quente e no meio do dia ela acabou. Foi quando passei o Bagpiper. Apesar do nome remeter à Escócia ele é espanhol e estava sentando no meio da trilha fazendo seu almoço. “Acho que vou naquele camping que tem aqui perto. Lá tem água”, disse à ele.

É bom esclarecer umas coisas: o que chamo de acampamento é só um pedaço de chão plano e batido, às vezes perto de água mas não sempre. Os campings são mais estruturados. E quase sempre pagos (e pode ser que eu tenha feito confusão com esses dois termos antes, porque campings são poucos pelo caminho. Exceto aqui no Oregon…)

Esse em particular além de água potável e banheiro tinha banho, com tempo ilimitado, e aparentemente de graça. Eu estava precisando. Apesar de limpar os pés toda noite com lenços umedecidos a caraca não sai. Fiquei lá na água quente até notar que o ralo tinha entupido (areia demais, talvez?) e a água já saia pela porta. Acho que era hora de desligar…

Quando parei pra pegar água mais tarde conheci a Bobo e a Turtle. Queria saber se era delas a trowel – a pazinha que a gente usa pra enterrar o cocô no mato – que eu tinha achado. Não era. Como não tinha encontrado ninguém indo pro sul, deve ser de alguém que pesou eu e elas…

O acampamento da noite foi em um abrigo de inverno, mas que estava lotado. Acampei numa estrada perto e saí mais cedo que o usual, disposto a tomar café da manhã no próximo resort que iria passar.