Torres del Paine S01E05

Paso a Grey: 10km

Algumas coisas básicas que você precisa saber sobre Torres del Paine: faça as reservas que for precisar o quanto antes. Esteja preparado para o clima severo (ventos fortes, neve no verão, sol inclemente). Não confie na sinalização.

Tenho dito que um quilômetro chileno não mede mil metros, como no Brasil. Ele pode variar de 1200 a 1500 metros, dependendo da localização. Se a placa diz que a distância entre um abrigo e outro é de, digamos, 7 quilômetros (é o que diz o mapa do parque da distância entre Paso e Grey, por exemplo) isso pode ter, na verdade, uns 8 quilômetros ou dez. Nunca tem como saber com precisão.

Saímos do Paso mais tarde que o usual. Como o dia seria curto, ficamos enrolando na barraca até as 8, pra só começar a caminhar as 9. Diferente do mapa, a placa na saída do camping marcava 10 km até Grey. Outra, no meio do caminho, falava em 9 – nessa alguém riscou a numeração e escreveu “falso” abaixo. Confiamos num desenho feito em um pedaço de madeira no acampamento: 45 minutos até a primeira ponte, mais 1h30 até a segunda, 1h até a terceira, 45 minutos dali até Grey.

As pontes são, aliás, a verdadeira atração do setor. Suspensas a cerca de 20 metros do solo, dão um clima meio Indiana Jones à caminhada. De um lado a geleira, do outro a montanha, o vento forte soprando e você lá, cruzando aquela ponte, balançando a cada passo seu.

O Grey é o extremo oeste do Circuito W. Por causa disso foi difícil reservar um lugar pra dormir. Já em outubro o camping estava lotado. A solução foi passar a noite no refúgio em uma “cama armada”: cama com colchão e roupa de cama, travesseiro e edredom, em um quarto com duas beliches. Alê e eu ficamos em uma, um casal Franco-inglês na outra. Todo o conforto e privacidade que 80 dólares por pessoa (o dobro do preço dos ótimos hostels que ficamos em Puerto Natales e Punta Arenas) pode pagar.

Entrando no W esperamos encontrar a partir de amanhã à trilha cheia: até então só se podia caminhar no sentido que vínhamos fazendo, anti-horário. Agora não: além de mais popular, vai ter gente indo e vindo em qualquer direção. O mapa do Parque diz 11 km, 3,5 horas até Paine Grande, o próximo camping. Se vai ser isso mesmo a gente só vai saber ao chegar.

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Torres del Paine S01E04

Los Perros a Paso: 8km

Paso. O trecho mais temido do Circuito O. A maior elevação. O pior terreno. O pesadelo de todos os hikers que fazem o circuito.

Confesso que estava apreensivo. Alê estava em pânico. O trecho, de (dizem) 8km (marquei mais de dez…) vai de 600 a 1200 metros de altitude em cerca de 5 km pra depois cair a 400 em uns três.

Pra mim foi como um dia qualquer na Appalachian Trail. A primeira parte da subida, por entre as árvores e riachos formados pelo desgelo, é chata. Não é difícil, nem tão bonita: só chata. Depois, em meio às pedras e com muito vento, começa a ficar interessante. Pegamos um dia bonito – a visibilidade era boa, dava pra ver bem as geleiras. “Tem dia que a gente não vê dois metros à frente”, me disse um Sherpa. (Sim, em Torres tem sherpas, como no Nepal. Você pode comprar o pacote e não levar sua barraca ou comida: eles levam tudo pra você).

A descida, apesar de íngrime, é tranquila, com escadas, corrimão ou cordas em vários pontos. O único porém é a distancia: mas aquilo não tem só 8km de jeito nenhum.

Agora, pergunte pra Ale a opinião dela sobre o dia e você vai ter uma opinião completamente distinta. Ela odiou. Achou cansativo, difícil, traumatizante. Na descida, então, quase entregou os pontos. Faltando poucos metros pro camping, não se conteve.

Paso, o camping, é o mais simples até agora. Administrado pelo próprio governo, é gratuito – e bastante concorrido-, mas não oferece nada: uma área pra cozinhar, uma fossa e 20 espaços pra montar barraca. Só. A turma que viaja com os sherpas não pode ficar aqui: pra eles é preciso seguir até Grey, mais umas 5 horas de caminhada. Se tivesse sozinho encararia fácil. Mas felizmente conseguimos a reserva aqui: Alê não conseguiria andar mais cem metros.

Torres del Paine S01E03

Dickson a Los Perros: 12 Km

A vida é feita de escolhas. E depois que elas feiras não adianta ficar se lamentando. Sua decisão já foi tomada, você escolheu aquilo que era o correto e o melhor pra você. Aproveite o momento.

Quando compramos as passagens e fizemos as reservas para o Torres del Paine, escolhi aquilo que achava que seria o melhor: um período não tão frio, não tão cheio, não tão chuvoso. Pra conciliar o tempo de chegada e retorno, a trilha ficou entre os dias 1 e 11 de março. Teoricamente um período ótimo.

Mas na semana passada, checando a previsão de tempo, ela só mostrava chuva para esse período. Sol até 28 de fevereiro e depois do dia 12. Entre 1 e 11 nem um dia limpo ou nublado. Chuva, todos os dias.

Paciência. Não havia nada que eu poderia fazer. Passagens estavam compradas, reservas feitas. Era encarar a chuva e ser feliz.

No primeiro dia, mesmo prevista, ela não apareceu. Ontem só veio na parte da tarde, mas veio pra ficar. Choveu à noite inteira e pela manhã também. Passamos a noite no refúgio – beliches, com colchão, confortáveis e quentes – mas saímos já molhados às 8h: nossos sapatos ficaram do lado de fora da casa e não secaram durante a noite.

Não fez diferença: com meia hora de caminhada não só os sapatos mas toda a roupa já estava encharcada. A chuva só foi dar uma trégua depois do almoço – pra voltar no final da tarde. Foi justamente no momento de estiagem que chegamos à melhor parte do trajeto: a vista para o Glaciar Los Perros.

Por causa da lama, o dia foi mais lento que o previsto. A distância também não parecia certa: na sinalização interna do Parque diz 10,5 km entre Dickson e Los Perros. No mapa impresso fala-se em 12km. A minha marcação deu 14km. O fato é que andando lento, desviando das poças e parando quando se tinha vontade saímos às 8h e chegamos às 14:30. Foi o tempo de montar a barraca, fazer o jantar e a chuva voltar a cair.

Alê parece que está bem. Curtindo, mas não amando. Cansada, mas não quebrada. Mas preocupada com amanhã, quando cortamos o Paso: a maior altitude da trilha. Mas preocupar pra quê? A decisão já foi tomada, já estamos aqui, agora é curtir o momento e encarar a subida logo cedo. Com ou sem chuva.

Torres del Paine S01E02

Serón a Dickson: 19 km

Para alguns acontecimentos de nossas vida nada resta a não ser agradecer por estar no lugar certo, na hora certa. Aquele show histórico de sua banda predileta, a vitória na final do campeonato do seu time do coração, o encontro inesperado com seu ídolo, esbarrar um dia em alguém e aquela pessoa se tornar o seu grande amor. Chame de sorte, privilégio, presente, milagre. Chame como queira, mas agradeça por estar ali, naquela hora.

Saímos hoje às 7:30 do acampamento Serón. Antes de nós só outros dois caminhantes. “Ah, mas eles são homens e não tem que ficar esperando a mulher se arrumar”, brincou a Ale. De Serón a Dickson são 19 km e aquele seria o primeiro desafio dela. Estava assustada com a distância. Ainda mais depois do dia de ontem. Mas hoje, mais leve e com o visual da manhã, foi mais tranquilo pra ela.

As primeiras quatro horas do dia foras aqueles que estou até agora agradecendo. Um arco-íris completo nos acompanhou por toda a manhã. Gigante no céu, deixava no chinelo a beleza dos lagos e montes da Patagônia. Às vezes vinha duplo, com dois arcos se sobrepondo, nascendo no lago e morrendo na montanha. “É um presente, né?”, disse a Alê. “Não, é só um fenômeno físico, porque o sol está forte já de manhã e tem uma chuvinha fina vindo, mas agradeço por estar aqui, agora. É lindo”, respondi.

E a chuva, meio que pra me mostrar minha indelicadeza, só aumentou. Foi crescendo, apagando do céu o arco-íris e a parte da tarde foi toda debaixo d’água.

Os 19 km de Serón a Dickson são divididos ao meio por um posto da Guarda Florestal Chilena. A primeira parte é incrível: lagos, árvores retorcidas, o Passo dos Ventos, onde é difícil ficar em pé e onde perdi meu boné (era seu destino: já o havia encontrado no meio da trilha na Appalachian Trail e agora alguém irá encontrá-lo em Torres del Paine, só pra perde-lo de novo em outra trilha) e quase perdi meus óculos. A segunda parte é monótona: plana, onde o único atrativo é a chegada ao belíssimo local do Refúgio Dickson. E tenho que confessar que minha percepção pode ter sido alterada pela presença do arco-íris por quase toda a primeira parte e pela chuva durante toda a segunda metade.

Além de cortar a trilha ao meio o posto da guarda também marca a entrada no parque de Torres del Paine. Todo o famoso Circuito W – que vai, em sentido anti-horário, de Paine Grande a Serón, incluindo as Torres em si e onde ficam a maioria dos turistas e estão os campings mais caros – é privado, operado pela Fantastic Sur. A outra metade é o parque federal, onde os refúgios são operados pela Concessionária Vértice. O próprio governo também mantém duas áreas de camping mais simples, sem refúgio, uma em cada metade do circuito, e que são gratuitos.

Parece confuso, e é. São três operadoras, e pra percorrer o Circuito O como estamos fazendo é preciso ter as reservas nos campings das três – ou pelo menos das duas empresas. Só que os sistemas não são integrados: você pode reservar em uma e quando for tentar a reserva na outra não ter mais vaga. Aí você não tem alternativa a não ser mudar os planos, porque sem reserva em todos os campings que você planeja ficar os guardas florestais simplesmente te mando embora, sem dó nem piedade. Quando a gente estava fazendo as reservas – ainda em outubro – não conseguíamos de jeito nenhum reserva em alguns dos campings. Por causa disso acabamos ficando em refúgios em alguns deles.

Essa é outra opção: você pode acampar, ou pode alugar uma barraca, ou pode ficar em um refúgio simples, ou no mesmo refúgio com um pouco mais de luxo, ou pode ter as alimentações inclusas… Você pode fazer o Circuito O gastando em média 50 reais por dia (acampanando) ou 500 reais por dia (ficando em refúgios, com cama feita e alimentação inclusa). A escolha é sua.

Torres del Paine S01E01

Laguna Amarga a Serón: 13 km

17:30. Ainda é dia e o sol vai demorar a se por. O dia escurece por volta das dez da noite. Apesar disso ela dorme profundamente. Não se importa com o grupo de garotas que conversa em espanhol na tenda ao lado. Não se importa com o barulho do pequeno gerador que alimenta a energia na casa que serve como recepção do camping. Mais que isso: não se importa com o vento que faz nossa barraca curvar completamente e faz com que o teto encoste no seu saco de dormir. Ela dorme profundamente, e deve continuar assim até a manhã.

O dia começou cedo. Acordamos às 5:30 e às 6:15 deixamos o ótimo Ameríndia Hostel (reservei pelo Booking.com e pagamos US$70 pelo quarto duplo, com banheiro compartilhado), em Puerto Natales, com destino à rodoviária. O café só seria servido às 6:30, mas havia combinado na noite anterior de deixaram preparado um kit pra viagem: um misto frio, alguns biscoitos, uma maçã verde, azeda e com a casca dura e sabor intenso. Foi isso o que prepararam: não o que eu pedi.

Caminhamos por meia até chegar ao terminal. Dali foram mais duas de ônibus (15000 pesos ida e volta) até a entrada do parque. O cenário é de tirar o fôlego, com lagos e as torres dominando a paisagem.

Na chegada à entrada principal, em Laguna Amarga, é preciso descer, preencher seu formulário de entrada, pagar a taxa (21000 pesos por pessoa), assistir a um vídeo do parque (não faça fogo ou você pode pegar 2 anos de cadeia e pagar 2 mil dólares de multa e se tiver incêndio são 5 anos e 6 mil dólares de multa, não alimente os animais, leave no trace e lembre-se: não faça fogo ou…) e só então pegar sua mochila e subir em outro o ônibus (mais 3000 pesos por pessoa), que vai te deixar no estacionamento. Dali começa a trilha.

A cotação atual do real para o peso chileno está em em 1 pra 190. Ou seja: a entrada do porque custa 110 reais, o ônibus de Puerto Natales ao parque ida e volta quase 80 e os 10 minutos da portaria ao estacionamento mais 15 golpes por pessoa. Sim, as coisas aqui na Patagônia são caras, e dentro do parque muito mais: 21 reais uma cerveja lager em lata, 100 um Casilero del Diablo, 120 um jantar. Por isso trouxemos nossa comida pros 11 dias de trilha. Isso significa que economizamos no bolso e ganhamos em peso. As mochilas estavam com 12 quilos a da Alê, quase 15 a minha.

“Estavam” porque faltando uns três quilômetros pra chegar ao acampamento a Ale arriou. Achei que não fosse querer continuar, mas ela é durona. Chorou de cansaço depois de 10 km entre Torres e Serón (e já tinha andado mais dois da pousada pra rodoviária). Coloquei na minha mochila a comida que estava na dela – uns 4 quilos – e chegamos ao acampamento no meio da tarde.

E agora, 17:30, ela já está dormindo profundamente, sem ligar pras rajadas de vento que quase levam ao chão a barraca.

A Trilha da Trilha

Sempre me impressiona como nós brasileiros somos ignorantes com relação à música dos outros países das Américas. Nada sabemos do que rola nos países vizinhos. Conhecemos uma coisa ou outra, e só.

Da música do Chile atual, por exemplo, não chega nada. Não consigo lembrar de cabeça nenhum artista dos últimos 10, 20, 30 anos. O nome de Violeta Parra, o principal nome da Nova Música Chilena (um movimento contemporânea ao Tropicalismo, ali do final dos anos 60) é o único que lembro quando penso em música chilena.

Ano passado um amigo chileno que conheci no Chile me mandou algumas indicações de artistas não só de lá mas de toda a América Latina. Ouvi as musicas incessantemente por uns meses. Quando decidi fazer a trilha com a Alê preparei um playlist com alguns artistas chilenos contemporâneos. Pesquisei alguns dos discos presentes nas listas dos melhores do ano passado. O link está aqui. É sua chance de conhecer um pouco mais da atual música chilena. Desfruta.

E lá vamos nós…

Daqui a pouco mais de 24 horas começa tudo de novo…

Ainda não tinha dado três meses que eu tinha terminado a Appalachian Trail e a vontade de voltar pra trilha era grande. Sentia falta da rotina, do cansaço, das paisagens. Numa noite de outubro, depois de fazer um jantar pra Ale, perguntei se ela não teria coragem de fazer uma trilha comigo. “Uai, dependendo do lugar, até Topo. Mas será que dou conta?” Minutos depois aparece no meu celular uma promoção de passagens pra Punta Arenas, na Patagônia chilena. Coincidência? Não acho…

A Patagônia Argentina foi dos lugares que a Ale mais gostou. A gente foi pra lá em 2012, numa viagem onde combinamos El Calafate, El Chalten e Ushuaia. Fazíamos umas trilhas pequenas durante o dia e voltávamos pro hostel. A Alê não iria dizer “não” pra um retorno à Patagônia…

Compramos a passagem naquela mesma noite. E decidimos que já que era pra ir caminhar, seria o Circuito O de Torres del Paine. Já que é pra fazer, bora fazer direito…

Daqui a 24 horas começa tudo de novo… Desta vez serão “apenas” 130 km. Tudo igual, mas tudo diferente: vai ser minha primeira longa caminhada acompanhado. Mas não de uma pessoa qualquer: vou estar com ela, a mulher que me escolheu como marido. Os desafios vão estar presente, mas serão outros. As emoções também.

Vou escrever os relatos aqui, mas como não vou ter acesso à internet a partir de amanhã os textos entram a la Netflix: todos de uma vez, no final da caminhada.

Por enquanto o que posso dizer é que a previsão é de tempo nublado amanhã, chuva do dia 1 ao dia 11 de março e sol a partir do dia 12. A gente caminha do dia 1 ao dia 11…

Quem quiser acompanhar a nossa jornada em tempo real, a dica é surgir pelo Spot. Só clicar aqui pra ir pra página.