Pacific Crest Trail S01E48

A trilha da trilha: Gomez – California

Eu tinha um objetivo: se a neve deixasse, queria andar os 35 quilômetros que faltavam pra chegar na cidadezinha de Sierra City (população: 235 habitantes) e mandar pelo correio o ice axe (a machadinha de gelo que salvou a minha vida no Monte Whitney) e o bear canister (o frasco de comprimidos gigante que a gente tem que carregar na Sierra). Os dois juntos pesam dois quilos e queria me livrar desse peso extra.

Por isso saí do lugar onde acampei às seis e pouco, celular numa mão pra não errar a trilha, bastão de caminhada na outra pra não cair. Trazia meu microspikes (um adaptador com corrente e garras que você veste sobre os tênis pra não escorregar na neve) pendurado na cintura e era aparecer neve pra eu parar e calça-los. Pensava em também despacha-los.

Subi até o topo da montanha o de estava, a quase 3000 metros, desci, subi de novo e nesse vai e vem notei que abaixo dos 2000 metros quase não tinha neve. Acima disso era batata. Felizmente aquele era o último trecho nas próximas semanas que ia tão alto: depois ficava quase sempre abaixo dos 2000 metros, sempre abaixo dos 2500. “Melhor não mandar os microspikes…), pensei. Seguro morreu de velho, já dizia minha mãe.

Quando notei que já não teria mais neve do dia ainda não eram 8 da manhã. Aproveitei pra conferir a distância que faltava: 30 quilômetros. Aproveitei também pra conferir o horário de funcionamento do correio. “Deve funcionar até às 4, então tenho 8 horas, 4 km por hora, tá de boa”.

Mas não: o correio abria às 10 e fechava às 2, o que significava que se quisesse mandar as coisas hoje teria que andar numa média de 5 km por hora pelas próximas 6 horas.

Ontem eu estava tão cansado que quando montei a barraca entrei no saco de dormir e apaguei sem jantar. Planejava parar hoje mais cedo pra comer. Mas seria isso ou chegar a tempo.

Saí em disparada. Só parei 5 minutos pra filtrar água e segui. Cheguei 1:30 na estrada de acesso à cidade, e era arriscar pedir uma carona (sem ter certeza que iria conseguir) ou andar os 2 km até a cidade na meia hora restante.

Cheguei no correio ofegante à 1:55. Dispatches o que precisava e perguntei pro atendente qual o melhor lugar pra comer na cidade. “Eita! Você deu azar. É segunda, tá tudo fechado. A única opção é a mercearia aqui do lado”.

E foi lá que comi um hambúrguer com um bife de 450 gramas, tomate, alface, picles, pimenta, mais uma porção de onion rings e três copos grandes de refrigerante. Se era bom? Impossível de ser. Mas eu precisava daquilo depois de todo o esforço.

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Pacific Crest Trail S01E47

A trilha da trilha: Little Big Town – Lost in California

A melhor forma de superar um trauma é enfrentando-o. Parece que é isso que a trilha queria me mostrar. Porque tirando os primeiros dois quilômetros e um trecho ou outro na trilha que somados não dão mais um quilômetro (além, claro, do trecho que fiquei perdido e que não faz parte da PCT) o dia foi todo na neve.

Não foi ruim: estou caminhando em um trecho que não é tão alto (apenas 2500 metros de altitude, quase nada comparado com os 4300 de Whitney) e no geral a inclinação não é tão elevada. A neve não está no topo: uma avalanche recente fez que descesse toda pro vale, inclinando as árvores e destruindo qualquer marcação possível de trilha. O que obriga você a ou andar com o celular aberto no app em uma mão e o bastão na outra ou mirar um rumo, confiar e seguir. Foi o que fiz quando me perdi…

“Ah, a trilha segue por ali, eu to aqui um pouco à esquerda, a trilha vira lá em cima, então se eu seguir direto aqui eu chego nela”.

Pensei isso e fui. Vez ou outra conferia o app e a trilha tava ali do lado. Eu subia, subia, a trilha continuava ali. O que eu não percebia – e só fui perceber quando cheguei no topo – era que o “ali do lado” era do outro lado da montanha… andei bem umas três ou quatro milhas nessa, primeiro morro acima, depois abaixo (tudo sem neve, felizmente).

Em compensação, o resto do dia foi todo com o pé molhado. O resultado é essa beleza aí da foto.

A partir do momento que achei a trilha de volta passei a andar com o celular em uma mão, aberto no app da trilha, e os bastões na outra. Seguindo a trilha original da pra ver que na neve minguem faz isso. As pegadas estão por todo lado, todo mundo querendo achar a forma mais fácil de chegar no destino.

O meu hoje seria um campsite a 5 km daqui. Mas li nos comentários do app que está coberto de neve. Por causa disso simplesmente desmontei no primeiro lugar plano e seco que achei. Estou cansadíssimo com o esforço de caminhar na neve. Gostaria de chegar em Sierra City ainda hoje, mas pelo jeito vai ser difícil. Quero mandar de volta o Bear Canister e o Ice Axe que estou carregando. Mando pra agência dos correios no final da Sierra e pego quando for fazê-la, em agosto.

Pacific Crest Trail S01E46

A trilha da trilha: Roberto Carlos – Se você pensa

Antes de tudo eu preciso agradecer a todos que deixaram mensagens aqui e nas outras redes depois do incidente. Muito obrigado. Elas ajudaram bastante na decisão de continuar na trilha. Fiquei bastante abalado psicologicamente com a história e a cada mensagem de apoio que chegava era a certeza que eu deveria continuar.

Tenho que agradecer também aos amigos que fiz por aqui. A força que me deram foi fundamental. (Eu sei que vocês estão lendo isso com tradução automática, portanto sintam-se abraçados mais uma vez. Vocês sabem quem são…)

O hostel onde fiquei por três noites em Bishop é incrível – talvez o melhor que tenha ficado, seja na AT ou aqui – e era difícil sair dali. Mas era preciso.

Por isso hoje depois do café da manhã resolvi dar no pé. Acertei a noite que estava devendo e as 11 fui pra estrada pegar uma carona. Queria chegar a Ashland, Oregon, mas sabia que era difícil: é uma viagem de 800 quilômetros. Mas qualquer lugar após Sierra Nevada já era vantagem. Por isso fiz duas placas pra carona: a primeira dizendo simplesmente “norte”. A segunda com os nomes das principais cidades: Reno, Chester e Ashland.

Na minha primeira tentativa, no local que a dona do hostel me indicou, na entrada da cidade, não tive sorte. Tentei por uma hora e nada. Resolvi seguir meu instinto: fui para um posto de gasolina no outro lado de Bishop e quinze minutos ali um casal me ofereceu levar até Mammoth Lakes, 70 km adiante. Aceitei. O filho deles também está fazendo a trilha e também pulou a Sierra.

Em Mammoth Lakes peguei outra carona que me levou até mais 50 km adiante, até Lee Vining. Desta vez com o um ex-dono de um hostel que fez a trilha três vezes e que me garantiu que o melhor lugar seria ficar em posto numa estrada que leva ao parque de Yosemite. Depois de meia hora sem sucesso ali, resolvi de novo seguir meu instinto: andei até a cidadezinha e antes que me desse conta uma moça parou e me ofereceu levar um pouco mais ao norte.

No caminho ela liga pro namorado e combina de ir até onde ele está, fora do caminho original que ela iria fazer mas bem mais próximo da trilha. E me deixa, algumas horas depois, na entrada da trilha em Donner Pass. Eu poderia ter ficado em Truckee e pegado um ônibus de lá até Ashland, mas resolvi ir andando. Quero ver como está a neve a partir daqui. Se sentir que está complicado, vou até a cidade e pego o ônibus para o norte. Afinal, sigo sozinho e daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Pacific Crest Trail S01E43

Quando acordei pela manhã vi que eu estava a cinco minutos da trilha. O GPS, claro, estava correto. Em meia hora eu havia chegado ao ponto que queria estar ontem, na interseção da PCT com a Cottonwood Pass, que dá acesso à cidade de Lone Pine.

Às 6:30 eu ouço a voz da Ale no telefone. Ela estava mais calma que eu. “Está tudo bem. O pessoal do Spot me contactou, os park rangers me ligaram, eu recebi seus recados e vi que você está voltando”, ela disse.

Desci até o estacionamento e rapidamente peguei uma carona até a cidade de Independence. Depois outra até Bishop. Espero aqui esse incrível grupo de amigos que fiz na trilha pra ver se algum deles mudou de opinião. A minha está tomada: pulo Sierra Nevada e vou pro norte. Estou conversando com outros hikers e locais pra saber a melhor opção: se pro Canadá e descer até aqui, se pra algum ponto ao norte daqui, seguir até O Canadá e depois fazer a Sierra.

O certo é que vi a morte de perto. Se antes eu estava ansioso, agora estou assustado. Como sempre disse, minha segurança antes de tudo. Fico uns dias em Bishop pra me recompor.

Por causa do incidente ontem e da decisão de não continuar na Sierra Nevada, a contagem de dias e KM que venho fazendo aí nas telas da direita vai ficar meio confusa.

Whitney Creek está na milha 766.3, ou KM 1233 da PCT. Esse foi o ponto mais ao norte da trilha que cheguei. Estou em Bishop (milha 788.5) mas não cheguei até aqui a pé. Quando decidir meu destino vou somar os quilômetros que andei aos 1233 já andados até chegar aos 4250 quilômetros totais da Pacific Crest Trail. Deu pra entender? Se for pra divisa com o Canadá, por exemplo, vou estar na milha 2650 mas no KM 1270, ou coisa parecida. É, vai virar uma confusão… e eu talvez mude isso. Vamos ver.

Mas continuo. Do norte pro sul, ou fazendo Oregon e Washington e depois terminando a Califórnia, não importa: mantenho o plano de fazer a PCT em uma temporada. E agora com um novo objetivo: terminá-la no topo do Monte Whitney, em setembro.

“Up, down, turn around

Please don’t let me hit the ground”

Temptation, do New Order, foi a primeira música que tocou no modo aleatório do meu playlist quando comecei a seguir o caminho de volta. Claro, ela é a trilha da trilha.

Os projetos paralelos também continuam:

Tem texto lá no O Eco sobre os primeiros 30 dias e 900 km de trilha e sobre o trabalho interminável de manutenção de uma trilha como essa.

Vai ter podcast do @extremos mês que vem o de vou contar em detalhes como tudo aconteceu.

E a Ale resolveu fazer o @loongaespera , onde ela expõe suas apreensões em me acompanhar de longe. Segue ela lá. Dou mais notícias em breve.

Pacific Crest Trail S01E42

25/06, terça.

Dia 42 da trilha.

45 km (28 milhas) caminhados.

Chicken Spring Lake.

KM 1208 da PCT. “Você consegue, Jeff. Você consegue…” Era nove horas da noite e eu falava isso em voz alta. Não havia ninguém por perto. Eu estava tentando chegar a um ponto onde havia passado no dia anterior e que eu sabia que havia sinal de celular. Eu estava voltando na trilha, refazendo em um dia o que eu havia feito em dois. Eu estava sozinho. Eu estava cansado. Eu estava emocionalmente abalado. Eu havia visto a morte de perto.

Não existe uma forma rápida e simples de contar o que havia acontecido mas últimas 20 horas, mas eu vou tentar.

Acordamos meia noite para subir o Monte Whitney. Saímos 00:40. Chegamos na base por volta de 2:00 e começamos a subida. Neve, noite. Por volta das 3:30, a 4.000 metros de altitude, quase mil metros acima do acampamento, a trilha desaparece. Algumas pessoas começam a escalar a neve até o próximo nível da trilha. Eu faço o mesmo. Faltando dez metros pra chegar eu perco o controle e deslizo montanha abaixo. Tento parar a queda com meu ice axe uma, duas, três vezes. Bato em uma pedra, consigo parar no espaço entre ela e a neve. “Eu estou bem!”, grito. Não consigo ver o que tem abaixo de mim, nem acima. Vejo que é possível sair do gelo e subir na pedra, e é isso que faço.

Quando consigo enfim ver as luzes das lanternas de meus colegas, a expressão no rosto deles é de desespero. Eu havia deslizado 15, 20 metros. Eles viam minha luz se afastando até sumir por completo. “Eu estou bem”, repeti. “Podem seguir e espero vocês na volta”. Quatro foram, outros dois ficaram. Quando o sol surgiu, quase duas horas depois, eu finalmente pude ver que a pedra que parei era a última. Abaixo dela apenas um paredão de neve de quase um quilômetro, numa inclinação de 75 graus. Eu nunca teria subido ali se estivesse vendo onde eu estava.

Ben estava na trilha abaixo, cerca de 30 metros de mim e Mahni, que havia chegado na mesma pedra que eu. “O melhor é a gente subir pelas pedras até a trilha e depois descer também pelas pedras até onde o Ben está”, concordamos. Subimos. Pra chegar às pedras era preciso cruzar mais uns 15 metros de neve. Tentei ir na frente. Não consegui.

Tive um ataque de pânico, choro, respiração ofegante, meu corpo tremia. Depois outro. E mais outro. Eu precisava sair dali. Às 6:30 eu acionei o botão de SOS do meu Spot.

Os park rangers chegaram às 9:30. Meu grupo já estava de novo reunido, depois de chegarem ao topo. Me acalmaram e descemos da montanha, quase sempre pelas pedras. Me fizeram uma avaliação médica, confirmaram que estava tudo ok. “Só essa semana tivemos nove chamados e duas mortes”, me disse um deles. “Você fez o correto”. Cheguei ao camping base uma da tarde. A única coisa que eu queria era falar com a Ale. Não havia conseguido pelo telefone de satélite dos rangers. Desmontei minha barraca e voltei pela trilha que havia feito nos dias anteriores até o ponto que eu sabia que havia sinal de celular.

Por volta das oito da noite, cansado, desorientado, eu me perdi. Não acreditava no que o GPS me mostrava. Subi ao invés de descer. Achava que estava em um lugar quando estava em outro.

Às nove da noite me dei por vencido. Montei a barraca no único espaço que achei. Não iria falar com a Ale hoje. Mas certamente falaria pela manhã.

Pacific Crest Trail S01E41

24/06, segunda.

Dia 41 da trilha.

12 km (7.5 milhas) caminhados.

Crabtree Ranger Station.

KM 1234 da PCT.

Estamos uma milha, 1,5 km, fora da PCT, na trilha que da acesso ao Monte Whitney. Andamos pouco hoje e o plano é sair meia noite e meia para chegarmos ao topo às cinco, ver o nascer do sol e descermos. Estamos todos apreensivos e ansiosos. Mas conversamos com algumas pessoas que fizeram o topo esses dias e parece que não tem problemas.

O dia foi super agradável, andando pouco, quase sempre morro acima, e fazendo paradas frequentes pra esperar os outros. Na maior das paradas cruzamos um rio e aproveitamos pra tomar um banho gelado e esperar os outros.

Os próximos dois dias serão intensos.

Pacific Crest Trail S01E

23/06, domingo.

Dia 40 da trilha.

27,3 km (17 milhas) caminhados.

Tentsite @ Rock Creek.

KM 1223 da PCT.

Luke chegou dizendo que foi o dia mais difícil na trilha até agora. Apesar de curto em relação ao que a gente vinha fazendo no deserto a elevação na Sierra é um problema.

BA e eu vínhamos na frente. Saímos cedo do camping, paramos quando chegamos na neve para eu praticar com o ice ace e quando chegamos numa parte mais baixa esperamos pelos outros. A ideia era ir até um lago que tem pelo caminho e almoçar por lá, mas todos estávamos tão quebrados que não aguentamos.

De novo BA e eu saímos antes, passamos pelo lago e seguimos. A neve e a elevação deixam tudo mais complicado.

Acampamos antes do tínhamos programado: teríamos que cruzar um rio que passa ali e aquele parecia o melhor lugar. E como cheguei mais cedo que os outros, recolhi lenha pra fogueira. Squirrel e Scallywag chegaram já quando eu estava na minha barraca. E não eram nem nove da noite.