Pacific Crest Trail S01E120

Dia 120

Silver Pass

25 km hoje

4120 km total

O VVR fica às margens do Thomas Edson Lake e pra chegar ali a partir da PCT você pode pagar 13 dólares por trecho no barco pra cruzar o lago em cada direção ou caminhar. Primeiro morro abaixo, depois morro acima. Foi o que fiz.

O lugar, isolado do mundo, fura os olhos dos caminhantes. Tudo é caro: 7 dólares um banho, 15 dólares o café da manhã, 30 dólares só pra retirar os suprimentos que você mandou pra você mesmo… pra pagar com cartão de crédito são mais 2 dólares. Mas caminhantes da PCT tem uma cerveja grátis. Que eu peguei, claro, pra tomar à noite.

Contornar o Edson Lake e descer até o VVR me fez andar mais e também saltar um dos passes da PCT, o Silver Pass. Bem, tecnicamente eu fiz o passe, por outro caminho, mais logo. Daqui pra frente terei mais alguns, na ordem: Selden, Muir, Mather, Pinchot, Glen e Forester, até chegar ao Monte Whitney. A altitude vai subindo, partindo dos 3326 metros do Selden até os 4000 do Forester (e os 4421 metros de altitude do Whitney)

Subi de volta à trilha e voltei a caminhar a PCT rumo ao Selden Pass. A paisagem é linda: montanhas brancas, lagos, vegetação alpina. Mas nada que não tenha visto até agora:

De novo, o objetivo é chegar a um dos resorts, o Muir Trail Ranch. Ao contrário dos outros lá não é um resort, mas um rancho que organiza passeio de cavalos pela Sierra. Não tem restaurante, não vende comida mas tem, dizem, uma ótima hiker box (obrigado JMT hikers).

Daí, dependendo do que encontrar, tenho duas opções: ou seguir até chegar a Whitney sem descer à cidade (ganho pelo menos um dia com isso) ou desço e compro comida pros pros próximos dias. Estou a 150 quilômetros do fim da trilha pra mim, 180 da trilha pra sair da trilha. Podem ser que termine em cinco dias, talvez uma semana.

Pacific Crest Trail S01E119

Dia 119

Cold creek

38 km hoje

4095 km total

O foco tem sido lugar pra comer. E hoje não foi diferente. Explico: sair da Sierra Nevada é complicado. As trilhas paralelas são longas (15, 20 quilômetros extras em cada sentido) e quase sempre são uma descida até a estrada, uma carona até a cidade, outra carona pra voltar pra trilha secundária e mais 15 ou 20 quilômetros de subida até a PCT.

Por causa dessa logística, se puder ficar na PCT, sem descer pras cidades, melhor. Só que aqui as opções são limitadas. Nos mais de 600 quilômetros entre Kennedy Meadows no sul e Lake Tahoe no norte, o que marca a Sierra Nevada, são uns três “resorts” próximos da trilha.

Eu optei por não ir nas cidades e tentar fazer o máximo do meu resupply nos resorts, assim como fiz no Oregon. Além do mais no trecho que a PCT se confunde com a John Muir Trail (a maior parte da High Sierra) os hikers que fazem a JMT deixam muita, mas muita coisa nas hiker box…

Por isso eu decide andar um trecho extra até chegar ao Vermillion Valley Resort, o VVR. São pelo menos 16 quilômetros a mais, mas eu tinha certeza que chegando lá eu teria uma no refeição e uma hiker box recheada.

Na trilha paralela descendo ao VVR tive que cruzar um rio no final da tarde e resolvi acampar ali mesmo, pra tomar o café da manhã no resort. Quando acordei, pela manhã, minhas meias e tênis estavam congelados. É frio assim que está fazendo.

Chegando lá um café da manhã caro mas reconfortante: três ovos, bacon, batatas, panqueca, torrada… e uma hiker box como eu esperava. Varias barras de proteína, pacotes de atum e salmão, café, comida liofilizada. Pronto, os próximos dias estavam garantidos. Agora é chegar ao Muir Trail Ranch e esperar que lá seja tão bom quanto aqui para que eu não precise descer a Bishop ou Independence, uma das cidades próximas.

Pacific Crest Trail S01E118

Dia 118

Mammoth Pass

27 km hoje

4057 km total

Passei ontem os 4.000 quilômetros caminhados pelo Pacific Crest Trail e nem notei. Isso é mais do que ir de BH, onde moro, até Manaus, no Amazonas, segundo o Google Maps. Ou ir e voltar a pé da minha casa até Recife, em Pernambuco. É muito chão…

Mas ainda faltam pouco mais de 200 quilômetros. Duzentos quilômetros complicados, os mais difíceis da trilha. Que eu agradeço todo dia por não estar fazendo na neve…

Tem feito frio à noite. Temperatura negativa: menos 2 ou três graus. Mas não tem neve no chão. Quando acordo o orvalho tá congelado, placas finas de gelo cobrem os lagos, mas ainda tá de boa. Em alguns dias (faltam menos de duas semanas pra acabar) vou estar a quase mil metros mais alto que agora e o frio vai complicar mais. Isso me faz querer manter o passo e os dias longos e terminar o quanto antes.

Mas hoje tinha um restaurante no caminho… Pensava em chegar no Reds Meadows e comer um sanduíche e beber uma cerveja. Mas as coisas nem sempre saem como planejado…

Cheguei lá por volta das 13h, depois de passar pela formação rochosa de Devils Postpile, um monumento nacional. Cheguei no lugar e antes de ir ao restaurante fui ver o que tinha na hiker box, que muita gente dizia ser boa. E os comentários eram verdadeiros. Era tanta coisa boa que resolvi economizar os 18 dólares do sanduíche (pois é …) e comprar só a cerveja.

Dali foi andar apenas mais 6 quilômetros até um lugar pra acampar (lá o camping custava 23 dólares por pessoa…) e preparar o frango com arroz e legumes que peguei. Antes das sete, quando o sol se pôs, já estava no saco de dormir. O frio tá de lascar.

Pacific Crest Trail S01E117

Dia 117

Agnew Meadows

35 km hoje

4030 km total

Na conversa à noite no camping um dos assuntos eram os acidentes nos parques americanos e como as autoridades encontrem a divulgação disso. “Eu moro perto de Tahoe. Vira e mexe morre alguém lá. Nunca sai na imprensa. É ruim pro turismo”, dizia o Bake. “Morreu uma garota no Half Dome. Eu estava lá no dia. Ela despencou lá de cima”, disse outra pessoa. (Isso foi no início desse mês. E sim, saiu na imprensa. Eu pesquisei. Ela foi a 12ª pessoa a morrer ali desde 1995).

Talvez por causa da conversa na noite, talvez por causa da ressaca do vinho, talvez porque pensei “deixa de história e foca na PCT” quando passei pelo posto da guarda florestal pela manhã eu não parei. Na verdade parei, pensei, andei um pouco, voltei, parei de novo, fiquei relutante e não fui pra fila. Yosemite Valley é lindo, imagino, mas vai ficar pra outra vez.

Daqui até o Monte Whitney a PCT e a John Muir Trail se confundem. São quase que a mesma trilha, tirando pequenos trechos. E é, parece, o trecho mais bonito e difícil de todo o percurso (acho que falei isso mas não custa repetir).

E se levar em consideração o dia de hoje a afirmação é verdadeira. A vista do topo do Donohue Pass, a 3375 metros, é de tirar o fôlego. Parei lá pra almoçar e aproveitar o (raro) sinal de celular pra falar com a Alê.

A corrida pra pegar o tênis e não ida ao Yosemite Valley me fez ficar adiantado no meu cronograma. Assim, preciso andar apenas 25 quilômetros por dia pra terminar quando preciso. Mas quem disse que eu consigo? Mesmo com as subidas, andando mais lento, quando parei pra almoçar já tinha feito quase vinte. No final foram 35 quilômetros até um local pra acampar bem agradável, no topo de uma das montanhas, com uma vista linda.

Daqui é andar mais uns 20 quilômetros pela manhã pra chegar ao Reds Meadows, um dos resorts da região. Dali posso ir à cidade de Mammoth Lake, mas não tenho motivos: minha comida é suficiente pro próximo trecho. Melhor continuar focado aqui. E se tiver que parar e descansar, que seja quando acabar.

Pacific Crest Trail S01E116

Dia 116

Tuolumne Meadows

24 km hoje

3995 km total

Eu tinha andado ontem até mais tarde pra não ter que acordar mais cedo hoje. Mas às cinco eu já estava desperto, bem antes do meu horário usual. Foi meio por causa da ansiedade, meio por causa do frio: como cheguei tarde ontem e a noite parecia clara, não coloquei a cobertura de chuva da barraca. Mas como estava perto de um riacho a condensação foi braba. Meu saco de dormir ficou molhado e como disse, às cinco estava de pé.

Mas só saí pra caminhar quando clareou, às 6:30. E saí chutado: além de querer pegar o correio aberto (sabia que fechava às 13h) botei na cabeça que queria tomar o café da manhã em Tuolumne Meadows. Eles param de servir às 11h… Vai que dá.

Passei batido pela fonte de água mineral gasosa que tem pelo caminho, pela linda cachoeira e ia contando um tempo. Até um guarda florestal me parar pra pedir minha autorização e checar se eu estava carregando o bear canister. Tirei a mochila, mostrei tudo, pedi desculpas de sair correndo porque queria pegar o correio aberto. “Espero que tenha tênis novos esperando por você”, ele disse. Isso aí…

Tuolumne Meadows é onde a PCT encontra s John Muir Trail. Chegando no lugar, um choque. Dezenas de carros, uma multidão de gente. Eu esperava por isso, mas não tanto assim. Entrei no restaurante – uma lanchonete sem mesas nem cadeiras, onde você paga, pega a comida e vai comer nas mesas de piquenique do lado fora – e o gerente disse, apontando pra mim: “a gente vai fechar por 15 minutos pra mudar o cardápio do café da manhã pro almoço. Você é o último ok?” Ufa. Deu tempo. “Você está feliz com esse tênis? Eu tenho um do mesmo modelo”, ele completou. “Sim”, eu disse. “Usei esse par por quase mil milhas…”

O correio é um guichê entre a lanchonete e a loja. Ainda antes de pegar minha comida peguei minhas caixas: tênis e chocolates. Perfeito. Passei a tarde ali, conversando com o povo, comendo, bebendo cerveja e fazendo hora pra tentar pegar uma autorização pra fazer o trecho da John Muir Trail dali até o Yosemite Valley. Quem sabe subir o Half Dome… os comentários no guia dizia que era fácil: só ir ao posto da guarda florestal por volta das quatro. Duas ou três pessoas que estavam por ali já haviam conseguido suas permissões. Quando deu quatro da tarde fui até lá. “Não tem mais lugar. Posso te colocar na lista de desistências. Você vai ser o primeiro. Volta aqui amanhã às oito”. Droga…

Voltei pra lanchonete e fui procurar um lugar no grande e cheio camping. Nunca vi nada igual. Dezenas de carros, centenas de pessoas, uma verdadeira multidão. Achei um canto e quando fui pagar os 6 dólares da noite o Bake, que eu estava conversando mais cedo, me disse: “olha, esse pessoal aqui disse que pagou 20 dólares, que não tinham trocado, então não precisa pagar. Eles já pagaram por nós dois”. Beleza. Abri o vinho que tinha comprado e fiquei ali, bebendo até a noite e o frio chegarem.

Pacific Crest Trail S01E115

Dia 115

Spiller Creek

49 km hoje

3971 km total

Por mais difícil que tenha sido o dia de ontem – rios pra cruzar, o tênis rasgado, a altitude, eu chegando no local pra acampar já escurecendo – não se compara ao que foi hoje.

Um sobe de desce digno da Appalachian Trail. Pelo menos quatro montanhas sofridas pra tentar chegar o mais próximo possível de Tuolumne Meadows para ter que andar menos amanhã.

Virou lugar comum mas é impossível descrever o cenário. Veja as fotos – as poucas que consegui tirar – e tire suas conclusões.

Durante todo o dia foram pelo menos 5 rios que tive que cruzar. E mais uma vez agradeço por não estar fazer a trilha na neve. O nível de todos eles está baixo, no máximo na canela. Molha o pé, claro. E com o rasgo no tênis entra uma tonelada de pedras. Mas ainda assim é melhor neve.

Eu tinha duas opções: ou parava com o dia ainda claro e acordava às cinco pra chegar antes de uma no correio ou andava um pouco à noite e saia no horário de sempre, às 6:30, quando já amanheceu. Optei por andar à noite. Ainda assim parei antes do que gostaria, logo depois de cruzar mais um rio.

E escuro, não achei o local certo pra montar a barraca. Sabia que estava ali – só não sabia onde. Depois de gastar uns minutos procurando, me dei por vencido. Montei a barraca num local plano, perto da trilha. E quando fui ao rio buscar água vi os locais pra montar a barraca. Tarde demais. Agora só saio daqui amanhã.

Pacific Crest Trail S01E114

Dia 114

Falls Creek

49 km hoje

3922 km total

Eu estava a 10 minutos da estrada que leva à Kennedy Meadows. Fiz hora pra sair da barraca e quando cheguei à estrada esperei um bom tempo por um carro. Nada. Resolvi caminhar.

Minha decisão tomada na noite anterior foi essa: se chegar na estrada e conseguir uma carona fácil eu vou. Caso contrário continuo andando. Continuei andando.

E a decisão foi acertada. A chuva que ameaça ontem acabou caindo hoje. Por sorte eu já tinha descido das montanhas – foram mais de 20 quilômetros acima dos 3000 metros de altitude. Quando cheguei no ponto mais baixo do dia – por volta dos 2500 metros, a chuva caiu. Ouvia raios e trovões ao longe, talvez na montanha onde passei mais cedo. Mas aqui embaixo era só uma chuva leve. Chata, mas leve.

O cenário era, de novo, de tirar o fôlego. É tudo tão bonito, tão cinematográfico, tão impressionante que não da nem vontade de tirar foto. É sério: a vontade é só ficar admirando…

O tênis, que estava prestes a morrer, morreu de vez. Rasgou completamente. Tentei consertar com silver tape, mas com a quantidade de rios que tenho cruzar durante o dia não aguentou. Peguei uma corda que estava carregando (e estava prestes a jogar fora) e amarrei em volta do meu pé. Vai ter que funcionar assim até chegar a Tuolumne Meadows.

Aí tem o problema de mandar caixas: para que eu consiga pegar o tênis ainda no sábado antes das 13h, quando o correio fecha, tenho fazer dias longos e difíceis hoje e amanhã. Cinquenta quilômetros por dia, nesse terreno; com um pneu furado. E no sábado acordar cedo pra chegar lá antes de uma da tarde. Tenho certeza que vai dar…