A trilha da trilha: Carnaval

A trilha da trilha faz um desvio essa semana pra cair no samba. Afinal é carnaval…

E se tem uma música que tem tudo a ver com a caminhada é essa. Boa folia. Semana que vem voltamos à programação normal.

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Qual a diferença entre hiking e trekking?

“Em todo o decurso da minha vida só encontrei uma ou duas pessoas que compreendiam a arte de andar, isto é, de dar passeios a pé” Henry David Thoreau (1817 – 1862) em Andar a Pé.

Quem retomou esse assunto foi a Anazélia Tedesco, do Mochilando com Elas. Dia desses ela me chamou no Facebook e me mandou o link  dessa matéria com a pergunta: “Que que você acha dessa separação simplista aí? Me parece tão errada…”

A matéria que ela mandou (o link tá aí acima, pra quem quiser ler) era um texto do Blog Descalada com o título “Saiba qual a diferença entre hiking e trekking na prática do montanhismo”. Resumindo o que o autor disse, ele afirma que hiking é uma caminhada de curta duração, bate-e-volta, saindo e chegando num mesmo ponto, sem pernoite. Trekking, por outro lado, é uma travessia, saindo de um ponto a e chegando em ponto b, normalmente de vários dias. Para o autor Caminho da Fé é um trekking. Santiago de Compostela também. Ele inclusive usa esses dois caminhos como exemplo. E seguindo o raciocínio do autor, a Appalachian Trail é um trekking

Concordo com a Aninha. A diferenciação que o autor faz é simplista. E errada. Convenhamos: muita gente usa as duas palavras aleatoriamente. Porque, no fundo, no fundo, elas significam a mesma coisa. Ou quase…

O Diffen é um site ótimo, onde você compara duas coisas quaisquer. Por exemplo, football e soccer. Ou Merlot e Shiraz. Ou hiking e trekking. A definição dessas duas atividades e o quadro comparativo que está neste site foi espalhado em vários blogs e sites internet a fora. Para eles hiking pode ser de um dia ou mais, mas sempre acontece por uma trilha já estabelecida. Trekking, por outro lado, é mais intenso e acontece em locais de difícil acesso, sem trilha.

Ah! Agora ficou claro, né? Hiking: tem trilha. Trekking: não tem trilha… Isso até você procurar pela definição das palavras em outra fonte. A Wikipedia, por exemplo. Lá diz que “hiking significa andar em uma trilha, ou sem trilha, para fins de recreação”. E que nos Estados Unidos hiking de vários dias, onde também se acampa, é chamado de backpacking (em português: mochilão). Mas aí você volta lá no Diffen e os caras falam que “trekking também é conhecido como backpacking mas não deve ser confundido com montanhismo”. Eita! Mas agora é que ferrou tudo…

Pra você ver que a separação não é mesmo simples… O melhor é pegar um dicionário e ver, de uma vez por todas, a definição de cada uma dessas palavras… (As traduções e grifos são meus, só pra ilustrar meu ponto de vista)

Backpacking: travel or hike carrying one’s belongings in a backpack (viajar ou caminhar com seus pertences em uma mochila).

Hiking: walk for a long distance, especially across country or in the woods (caminhar por uma longa distância, especialmente no campo ou no mato)

Trekking: go on a long arduous journey, typically on foot (sair em uma longa e árdua jornada, normalmente a pé).

Basicamente as três palavras significam a mesma coisa. Mas parece ser consenso que trekking é mais longo e desgastante que hiking. Certo? Talvez…

Veja a Appalachian Trail, por exemplo. Ela ou qualquer outra trilha de longa distância é longa, extenuante e árdua. Pergunte a qualquer pessoa que já fez a trilha, inteira ou parte dela. Muitos vão te dizer que foi a coisa mais difícil que já fizeram na vida. Mas apesar disso não é trekking. Claro que só pra te confundir ainda mais, o principal site sobre trilhas de longa distância nos Estados Unidos se chama The Trek… Mas niguém nunca se refere à AT ou à PCT como trekking… Para eles, se você vai caminhar pela AT, seja por um dia ou um final de semana, você vai fazer um hiking… E se você, assim como eu, se dispõe a fazer a trilha do começo ao fim em uma única temporada, você está thru-hiking the Appalachian Trail. Você não está trekking the Appalachian Trail…  Entendeu ou complicou mais? O mesmo vale para o Caminho da Fé ou o Caminho de Santiago. Para aqueles onde o inglês é a língua nativa, nenhum dos dois caminhos é um trekking. Nem aqui nem na China…

O que EU acho disso? Pra mim isso é tudo uma grande bobagem. No meu entender hiking e trekking são apenas hashtags que uso nas fotos no Instagram. O que eu vou fazer na Appalachian Trail não é hiking, não é trekking, não é backpacking, não é bushwalking, como eles chamam na Austrália. O que vou fazer na Appalachian Trail é o mesmo que eu fiz no Caminho da Fé e na Estrada Real: eu vou andarCaminhar. Só isso. Tão mais simples! Tão mais fácil! Tão mais abrangente!

E na minha visão caminhar não é esporte nem aventura. Na orelha do livro Caminhar: Uma Fiolosofia, o autor, o francês Frédéric Gros, aborda justamente este ponto. Diz ele que ao contrário do esporte, onde técnicas e regras são necessárias, no andar a pé “só há um desempenho que de fato conta: a instensidade do céu, o viço das paisagens”. Menos técnica, menos discussão, mais contemplação. E deixe me ir. Preciso andar.

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Hiking, trekking, backpacking… Forget about it. It´s just walking…

 

A trilha da trilha: New Jersey

A medida que o caminho da Appalachian Trail vai subindo ao norte o cenário muda completamente. Não apenas a paisagem: muda também o cenário musical. Menos bluegrass, menos country. Mais rock, mais baladas.

New Jersey é a terra do Yo La Tengo e bem que poderia colocar uma música deles na seleção (Night Falls on Hoboken, talvez?). Mas nada me faz lembrar mais do estado que Jersey Girl. Bruce Springsteen gravou a faixa, mas ainda gosto mais da versão original com o Tom Waits, do grande disco Heartattack and Wine (aliás, um dos que estão no meu Ipod durante a trilha).

Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

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Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

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Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

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Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

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Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

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Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.

A trilha da trilha: Pennsylvania

Todos os relatos que li sobre a Appalachian Trail contam que a Pennsylvania é pedrada. Literalmente: o terreno é de pedra o tempo todo, o que dificulta a caminhada e diminui seu tempo em até um terço do que você vinha fazendo.

Pittsburg é uma cidade da Pennsylvania e Lemonheads foi a banda mais pedrada com que já trabalhei. Não musicalmente. Mas os caras deram muito trabalho….

E nessa música Evan Dando canta coisas como “você pode ser deixado pra trás”, e “devagar, devagar, saltitando, devagar” ou ainda “as coisas que eu faço para empurrar a minha sorte, eu não sei…”. Tudo a ver…

O que levar para a Appalachian Trail

Li não sei onde que a preparação para uma trilha como a Appalachian Trail (ou qualquer outra trilha de longa distância) é mais complicada que a trilha em si.

Vocês não fazem ideia o quanto estou lendo de livros, blogs, relatos e sites. Nem passa pela cabeça de vocês a quantidade de fóruns e grupos de discussão que participo ou o sem-número de pessoas que sigo no Instagram, Twitter, Facebook, Youtube. Até o Pinterest, acredite você, eu desenterrei…

Tudo pra tentar chegar no equipamento ideal para a trilha. Ainda assim não tenho a mínima certeza se as decisões que estou tomando são as melhores. As dúvidas, pelo visto, não são só minhas: as perguntas sobre tipos de equipamentos são frequentes nas redes sociais.

Para quem quiser ver minha lista completa do que vou levar é só clicar aqui.

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Tô pronto! Levando só o necessário…

Big 3

Pra começar, é preciso definir o seu Big 3. É assim que são chamados os três equipamentos mais importantes da caminhada: sua mochila, sua barraca e seu saco de dormir.

Essas três peças são as mais caras e pesadas da viagem. Dá pra gastar fácil mil dólares por aqui. E foi justamente nesse ponto que ter ficado em segundo na promoção do The Trek mais me ajudou (obrigado a cada um de vocês que votou ou tentou votar! Valeu mesmo! Ainda estou pensando numa forma de recompensar essa ajuda… 🙂

Tomamos a mochila como primeiro exemplo. A que tenho hoje é uma Quechua Forclaz 40 litros. É relativamente leve – pesa 1.020 gramas – e me sinto confortável com ela. Mas será suficiente para levar todas as outras coisas que preciso? 40 litros me parece pouco para levar tudo o que vou precisar por cinco meses…

A mochila que estava na lista de desejos era a Mariposa, da Gossamer Gear. Uma Ferrari: leva 60 litros e 15 quilos de carga e pesa só 800 gramas (927 com os adicionais). Mas a belezura custa mais de 250 dólares… E foi justamente essa a mochila que ganhei na promoção. Transbordei de felicidade!

A definição sobre qual vai ser a sua “casa” durante a caminhada começa a complicar as coisas. A primeira coisa é definir o que você busca: uma barraca, uma rede ou um tarp. O tarp é uma lona simples e leve, que proporciona algum abrigo em chuvas, mas para mim não é ideal. O mesmo vale para rede: é confortável, mas eu preciso de paredes e gostaria de alguma privacidade. Então optei por barraca. Decidido. Então está pronto? Claro que não. Ainda é preciso balancear preço, peso e qualidade. E parece que desses três atributos, apenas dois andam juntos. Se é barata e leve, certamente não é boa. Se é boa e barata, com certeza é pesada. E se é leve e boa, justamente o que estou procurando, pode saber: é cara. Os preços chegam fácil nos 500 dólares.

O que eu queria? Uma Big Agnes Fly Creek UL2, claro. Com espaço pra até duas pessoas, pesa menos de um quilo! Mas, de novo, o preço era o problema: quase 400 dólares… Já tinha me conformado em ir com a minha REI Quarter Dome 1, que não é ruim, pelo contrário. É fabricada e vendida exclusivamente pela rede de lojas de esportes americana, a Recreational Equipments Incorporated, ou simplesmente REI (ou paraíso para quem gosta de esportes outdoor). Mas pesa pouco mais de um quilo e tem um espaço interno de 2,15 x 1 metro e 80 centímetro de altura (contra 2,18 x 1,07 metro e 97 cm de altura da BA). Com um preço em torno de 230 dólares, A REI Quarter Dome 1 era o que cabia no meu bolso. Mas também ganhei a Fly Creek que queria…

Pra decidir minha cama nos próximos 5 meses o dilema foi o mesmo. Saco de dormir no formato múmia ou envelope? Com enchimento natural ou sintético? Com qual temperatura limite e conforto? Levo lençol? E travesseiro? E o isolante térmico, de ar ou espuma? De novo, para cada decisão dessas era acessos e mais acessos a sites, fóruns, leituras de listas de equipamentos de outras pessoas, conversas e tudo mais. O que é importante pra mim nesta situação é não passar frio e ter conforto. E como não saio antes de abril, quando ainda tem neve, nem devo chegar depois do final de setembro, acredito que um saco de dormir de 0 graus é suficiente. O REI Flash é no formato múmia, com enchimento natural de pena de ganso. Custa 170 dólares e pesa 750 gramas. Tá ótimo. E quer saber? foi justamente esse que ganhei…

A diferença entre o isolante de ar e o de espuma é o conforto e o peso. Eu prefiro o primeiro, mais leve e confortável, apesar de barulhento. O modelo é o Therm-a-Rest NeoAir XLite. Pesa só 225 gramas.  Iria de versão mini, que tem pouco mais de 1,20 metros de comprimento – nesse caso a manha é usar a mochila sob os pés. Mas acabei ganhando isso também e optei pela versão maior, com 1,95 metros. É 200 gramas mais pesado, mas acho que vai valer a pena. Não vou levar travesseiro e lençol vou comprar só se esfriar um pouco, já que alguns modelos aumentam a temperatura do saco de dormir. E pra deixar isso tudo seco iria levar tudo dentro de um saco de lixo (25g), dentro da mochila. Mas o pessoal da Gossamer Gear mandou o saco a prova d´água deles de brinde também…

Nesse kit que vou usar meu big 3, os três grandes, a parte mais importante e pesada que vou carregar por esses 5 meses, está pesando no total 2,99 kg. Queria muito abaixo dos 3kg e fiquei ali na tábua da beirada. Veja: menos de três quilos pesam minha mochila, minha barraca, meu saco de dormir e meu isolante térmico SOMADOS…

Cozinha

Cafeteira elétrica, grill, forno de microondas, taças Riedel de cristal, talheres pesados de prata, panelas de pedra e guardanapos de seda. Nada disso infelizmente vai rolar. Minha cozinha vai ser minimalista ao extremo.

A decisão aqui passava pelo tipo de combustível (álcool ou gás), o peso final do fogareiro, o custo, a praticidade, a velocidade para se ferver água e a eficiência para trabalhar sob stress – vento ou neve. Cheguei a fazer um fogareiro a álcool com latinha de cerveja – a forma mais barata, leve e divertida – mas não gostei do resultado. Além disso, álcool é proibido em alguns trechos. Mudei o foco então para o gás.

A escolha foi entre o Jetboil Minimo,  um sistema completo, com o fogareiro já acoplado na panela para quase um litro d´água. Além disso, durante o transporte o combustível vai dentro da panela, economizando espaço. Custa salgados 135 dólares. A outra opção era um MSR Pocket Rocket, que pesa míseros 90 gramas e custa 40 dólares, mas iria me exigir a panela. Optei por começar com algo daqui mesmo (daqui = da China). Comprei no Mercado Livre, por R$50,00, uma cópia do Pocket Rocket. Um pouco mais pesado, pode ser que segure o tranco (se não segurar, compro por lá o original). E a panela vai ser também chinesa, simples, mas com pegador, e que vai me servir de copo, se necessário. O kit que comprei vem duas, mas só levo a maior, de 1100 ml. Além disso incluí uma colher de cabo longo de bambu (também presente do pessoal da Gossamer Gear).

Pra acender o fogareiro um isqueiro Bic mini e como plano b um kit de faíscas de magnésio que já inclui também apito e bússola, o Survival Spark Magnesium Survival Fire Starter, que achei na Amazon por dez dólares. Na minha cozinha entra também um saco estanque, onde vou levar minha comida. Assim, quando chegar no acampamento é dependurar em alguma árvore para que os ursos não comam. Pois é…

Para tratamento de água, as opções passavam por filtros, pastilhas e gotas de dióxido de cloro. Água é abundante na Appalachian Trail, e acredito que a maioria de boa qualidade. Mas ainda assim ganhei um filtro portátil da Sawyer que pesa menos de 100 gramas. Ainda penso em levar Aquamira como plano b. São dois compostos, que você combina algumas gotas de cada na água, aguarda 15 minutos e está pronto pra beber. Custa 15 dólares e pesa 90 gramas. Vamos ver, pode ser que deixe de lado. Para transportar a água, duas garrafas de água mineral de um litro cada.

Fechando a cozinha, um canivete suíço do mais básico. Além da faca eu precisava de um que tivesse tesoura (para cortar unha) e pinça (para tirar carrapato). O que meu genro me emprestou (valeu Rick!), além do lado sentimental, pesa só 75 gramas, e faz trabalho.

Seis ítens. Menos de meio quilo. Essa vai ser minha cozinha.

Eletrônicos

Em casa, no dia a dia, sou cercado de tecnologia. Meu Macbook pro, minha tv Samsung, minhas caixas de som Sonos, meu Ipad, meu Kindle. Uso nas viagens minha câmera Canon. E tenho, claro, meu celular, onde controlo quase tudo. Vejo Netflix, ouço Spotify, navego pelo Facebook, busco no Google, curto fotos no Instagram. Tenho luz elétrica, banho quente, ar condicionado, geladeira. Durante a trilha quase tudo isso vai ser uma memória distante.

Optei, mais uma vez, por não levar outra câmera que não seja a do celular. Nada de DSLR. Nada de GoPro. Vou trocar meu Iphone 6 por um 7 Plus. Ele que vai registrar os momentos, seja em foto ou vídeo. Para ajudar na tarefa levo um tripé da Gorillapod. E como fico alguns dias sem acesso à energia elétrica, penso em levar dois carregadores extras: o meu Cygnett atual, que pode fazer às vezes de lanterna, e comprar um Anker de 10 mil.

Um Ipod Nano e fones de ouvido vão ser um artigo de luxo para as noites na barraca. Pesando 42 gramas, vale o esforço. E pra carregar as baterias de tudo isso quando chegar à uma cidade levo um Anker Powerport4, onde dá pra ligar até quatro equipamentos ao mesmo tempo.

Pra dar luz, minha lanterna também vai ser chinesa. Importante aqui é ter luz vermelha, pra não atrapalhar as outras pessoas. Funciona com pilhas aaa e deve dar pro gasto.

E como estou desenvolvendo outros projetos, estou pensando em levar um gimbal, um estabilizador para o Iphone, que deve pesar mais meio quilo, e um gravador portátil.

E é isso. Sem os apetrechos extras são 800 gramas de equipamentos. Que talvez aumente um pouco com um gimbal e o gravador. Mas isso só decido chegando lá.

Roupas

A máxima na trilha é: se você não vai usar uma coisa todos os dias não vale a pena carregar. E isso vale pra roupas. Você tem dois uniformes: o de trilha e o de acampamento. Nada de camiseta extra. A exceção são as roupas de frio.No meu caso, vou usar e levar o que tenho. Se sentir necessidade de algo vou comprar na próxima cidade.

Vou vestir diariamente (você vai cansar de ver essa roupa em fotos) um boné Quechua que tenho e que vem com protetor de pescoço. Ganhei também um boné massa do The Trek, e talvez leve esse pra cidade. A camiseta vai ser uma Kalenji. Um calça 2×1, dessas que viram bermuda, e uma cueca de compressão. Vou levar minha “pochete” da Spibelt, onde vou carregar passaportes, dinheiro e cartões num saco Ziplock.

Como os pés são as partes mais importes do corpo, a ideia aí era não economizar. Mas ganhei três pares de meias de merino da Wigwam, outro par da Injinji, e dois pares de tênis Altra, também a marca que queria.

No backup, dentro do saco estanque, vão mais uma camisa (a da meia maratona de BH, leve e confortável), um short de corridas da Nike (veeelho…), duas bandanas multi uso e os tenis da Tribold, basicamente o que tenho usado esses dias (leves, super confortáveis e antiderrapantes). Pro frio uma segunda pele, uma blusa e ceroulas, tudo da Decathon. Por fim, levo um quebra ventos/capa de chuva/blusa de frio da Quechua e nas mãos, os bastões de caminhada que tenho, também da Quechua. Ao todo visto 2 kg de tralhas.

A questão aqui é se preciso ou não de uma jaqueta mais poderosa, de pena de ganso ou coisa assim. Pesa quase nada, mas custa uns 200 dólares, por baixo. Como começo no verão estou pensando em ir sem ela e se esfriar demais compro uma jaqueta dessas por lá. Mas acho que se isso acontecer vai ser só pro final da trilha.

Higiene e Primeiros Socorros

E aí vem aquele mundo de tralha miúda, chato de conferir, mas que tem que ter. Tipo escova de dentes (daquelas de viagem, mais leves), pasta de dente e fio dental (mil e uma utilidades na trilha). Tampão de ouvido. Papel higiênico e lenços umedecidos. Sacolinhas plásticas de supermercado, pra servir de lixo. Um kit básico de primeiros socorros, com ibuprofeno, cataflan, tilenol, agulha e linha pras bolhas. Outro kit mais pessoal, com as pomadas que uso pra alergia, repelente. Uma trowel, pazinha pra cavar meu banheiro. Uma caneta e um bloco de anotações (vai que acaba a bateria do celular…). E corda, pra dependurar a comida longe dos ursos…

Comida e Água

Comida e água não entram nessa conta de peso base. Porque variam diariamente: você pode levar comida pra dez dias e 6 litros de água num dia e no dia seguinte isso já é menor.

Meu plano inicial era reabastecer e comprar comida exclusivamente nas cidades e vilas por onde vou passar, mas como ganhei algumas caixas de barras de cereal e comida desidratada, vou despachar algumas para mim pelo correio.

E isso é tudo. Minha casa e meus pertences para os próximos 5 meses. Tudo o que vou ter , no corpo e na mochila, vai pesar menos de 10 quilos. Será isso a minha casa, minha cama, minha cozinha, meu guarda roupas. Menos do que é permito levar na bagagem de mão do avião. É como isso que vou viver por 150 dias.

 

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A trilha da trilha: Maryland

A Appalachian Trail corta apenas 40 milhas (65 quilômetros) do estado de Maryland. Por mais que o trecho por ela seja lembrado pelos americanos como o cenário de algumas das batalhas da Guerra Civil, não consigo deixar de pensar em uma das minhas músicas prediletas. A versão original de Baltimore, com o Randy Newman, é ótima. Mas a interpretação da Nina Simone é descomunal.