Pacific Crest Trail S01E20

A trilha da trilha: Baden Powell – Vou Por Aí

Wrightwood talvez seja a cidade da PCT mais amigável com os caminhantes. Se não bastasse a carona de ontem no Volkswagen Thing laranja 1973 – ele levou a Sydney e voltou só pra pegar a gente – no supermercado onde ele nos deixou havia chocolate quente de graça. As caixas, todas extremamente simpáticas, queriam saber de o de você veio e o que estava achando da trilha. No lado de fora haviam mesas de piquenique e tomadas. Na loja de conveniência do posto de gasolina no outro lado da rua cada caminhante tem direito a um cachorro quente de graça. Na loja de ferramentas e equipamentos esportivos você ganha um pin

da PCT e se gastar mais de 20 dólares ganha o gás para o seu fogareiro (que custa 7 dólares). Os hotéis permitem que até quatro pessoas dividam um quarto e conseguir carona pra voltar pra trilha depois do incrível café da manhã não demorou nem um segundo. Ao entrar no carro e comentar o quanto era a cidade era bacana e as pessoas gentis a motorista comenta: “É na lanchonete você ganha café e um patch da PCT. Não foram lá? Ah, então vou levar vocês lá agora…” E dá meia volta antes de deixar a gente na trilha.

Eu sabia que o dia, apesar de curto, seria intenso. Iria subir de 2000 a 2818 metros de altitude, teria pouca água, o dia estava que

quente, teria neve. Foi isso tudo é foi mais: foi a confirmação que eu não curto caminhar na neve. Fico tenso, suo de aflição, tenho medo. Coloco os microspikes no tênis mesmo quando as pessoas dizem que não precisa (seguro morreu de velho) e fico com o fiofó na mão quando tenho que atravessar um trecho com neve. Mesmo que eles sejam, sei lá, 1% da trilha de hoje os trechos estão lá. A neve está dura e escorregadia, não exige mais que duas dezenas de passos pra passar sobre ela mas um escorregão ali significa um tobogã montanha abaixo, até uma pedra ou árvore parar seu corpo que vem descendo a 200 quilômetros por hora. Não, obrigado.

Mas o risco, o medo, a adrenalina, o suor são o preço a se pagar para se ter a vista de cima do Monte Baden Powell. Da pra ver Los Angeles e o mar ao fundo. Do outro lado a imensidão do deserto. O dia estava bonito, chegamos os quatro quase juntos lá em cima e curtimos a conquista.

Mas tudo o que sobe, desce. E descer foi mais tendo que subir. Fiquei perdido na neve algumas vezes – a trilha desaparece e meu guia nessa hora é o gps do aplicativo no celular. Achava que às seis já estaria no camping mas só cheguei às 19:30. Mas o lugar é ótimo: mesas de piquenique, banheiro, bate-papo e jantar em voltada fogueira. A ideia era acordar às quatro pra ver o nascer do sol no monte Williamson, mas todos já falaram que não vai rolar. Como eu previa o dia foi curto, mas foi intenso.

Pacific Crest Trail S01E12

A trilha da trilha: Dirty Gold – California Sunrise

A chuva que a gente temia pra hoje não veio. O dia foi lindo: frio, mas de céu aberto quase o todo tempo. Acordei às 4, empacotei minha trilha e sai do acampamento antes de todos. O sol ainda não tinha nascido, eu ia com a lanterna na cabeça acessa, mas a medida que ia caminhando duas coisas iam ficando pra trás: a noite e a neve. Cada passo que dava estava mais baixo. O dia foi todo assim: ladeira abaixo.

O sol foi surgir por volta das 5:30. Parei pra ver o espetáculo: o céu escuro sendo clareado por tons de vermelho e laranja. Fazia tempo que não via um nascer do sol tão poderoso.

A mais de 2 mil metros de altitude, tinha a cidade lá embaixo coberta por nuvens. Acima de mim o céu continuava azul. Mas não demorou a névoa tomar conta de onde eu estava – ou eu descer de encontro a ela. Saí do acampamento, frio e com neve, a 2360 metros de altitude às cinco da manhã e cheguei à rodovia Interestadual 10, que leva à Cabazon, a 400 metros do nível do mar, sete horas e 30 quilômetros depois.

Nas conversas noite passada o plano era ficar ali, debaixo da ponte, até a chuva passar. Mas a chuva não vinha e quando cheguei os meninos não estavam. Mandei uma mensagem pro Tyler. “Viemos a Cabazon comer. Quer vir ou quer que leva alguma coisa pra você?”, ele respondeu.

Não queria ir: queria me abrigar antes da chuva chegar. Continuei andando e enfrentando, agora, o vento: a região é famosa por isso e as fazendas de energia éolica são parte da paisagem. Tentei acampar em um local, não consegui. Achei um outro e mandei outra mensagem: “estou na milha 211.8”.

Pensei que não iriam chegar. Preparei minha barraca, cozinhei dois pacotes de miojo, entrei no saco de dormir, começava a pensar em dormir (eram cinco da tarde) quando escuto o sotaque do Ed: “burrito delivery!” Tyler me entrega dois burritos e uma cerveja. “Que bom que a gente te encontrou”, ele disse. “Mas a gente não vai ficar aqui não. Vamos caminhar até a sede da wind farm”.

Eu não. Lá, dizem, é barulhento por causa das turbinas. Eu vou ficar aqui sozinho, comendo burritos e tomando cerveja até o sono chegar. E vou dormir tranquilo. Se a ventania deixar.

Pacific Crest Trail S01E11

A trilha da trilha: Beach Boys – California Saga (On My Way to Sunny California)

Fui o último do grupo sair do camping. Ainda estava cansado da noite anterior e sabia que o dia ia ser difícil. Oficialmente iríamos fazer apenas 14 milhas da trilha. Mas como o plano era chegar ao topo do Mount San Jacinto – e ele não é parte oficial da PCT – teríamos pelo menos mais umas 7 milhas que não seriam computadas. Pra complicar era tudo morro acima – e na neve.

Coloquei os microspikes que comprei em Idyllwild e segui os passos deixados pelos outros na neve. Pra registro, minha experiência com neve é zero.

A paisagem é linda, mas a trilha é dura. Seguimos a PCT até a encruzilhada para a subida ao topo do Monte San Jacinto. Dali mudamos de trilha e continuamos subindo.

A cada passo a neve ficava mais alta, caminhar ficava mais difícil. E era só subir, e subir.

Quando achava que já estava quase no topo um placa mostrava: San Jacinto Peak: 2.3 milhas. Ed, Austin e Tyler me esperavam ali – Sydney já tinha saído – e seguiram quando cheguei. Na próxima encruzilhada, mais uma placa: ainda faltaram .3 milhas.

Era o único do grupo com microspikes e não teria conseguido sem eles. No topo foram alguns minutos para fotos, comida e de volta a trilha morro abaixo. Mas ao invés de fazer o mesmo percurso ao contrário optamos por uma trilha paralela, que nos deixaria 4.5 milhas à frente na PCT.

A descida foi cruel. Com mais neve que subida, os tombos foram comuns – mesmo com os microspikes. Chegamos ao camping às cinco, todos exaustos – menos Sydney, que resolveu andar mais algumas milhas para amanhã estar mais próximo de uma cidade. Ed fez uma fogueira que ainda está acessa e o plano para amanhã é acordar às 4 da matina – para tentar evitar a chuva que irá cair no final da manhã. Estou ansioso por dias de sol na PCT…

Pacific Crest Trail S01E10

A trilha da trilha: Jungle – Heavy, California

Eu venho dizendo que a trilha é tranquila, gostosa de andar, mais fácil que a Appalachian Trail e hoje ela veio e BANG! Toma distraído! Pegou pesado, Califórnia…

Com a previsão de tempo ruim no domingo – mais neve, especialmente aqui onde estamos, a mais de 2500 metros de altitude – a decisão foi andar 34 quilômetros hoje, chegar o mais próximo do Mount San Jacinto para subi-lo amanhã. Até a base serão mais 8 quilômetros, depois cinco até o topo, a 3300 metros, mais cinco pra descer e outro tanto até o camping, a uma altitude similar à que estamos.

Tyler saiu super cedo do camping, antes das 6 da manhã, e eu saí logo depois. Parei no primeiro lugar que tinha pra buscar água e segui carregado dois litros por toda a trilha. Austin passou por mim, logo depois Ed, por fim Sydney. Eu ia lento, subindo e descendo a trilha.

Em determinado ponto encontramos todos na trilha. Ficamos ali curtindo o sol da tarde, papeando, comendo.

A segunda parte do dia foi pesada. Subíamos lentamente rumo ao camping próximo ao riacho Tahquitz, a mais de 2500 metros de altitude, num trilha estreia e perigosa, quando percebemos que a trilha estava fechada. Uma pedra gigante havia se desprendido e a única forma de continuar seria escalando. Polaroid estava no topo ajudando com as mochilas. Era perigoso, sem dúvida.

Entreguei a mochila pra ele e tentei escalar a pedra. Sem sucesso na primeira tentativa. Fiquei pensando em Free Solo, o filme sobre a escalada sem cordas no El Capitan, em Yosemite. Na segunda segurei com minha mão esquerda na parede da montanha, botei meu pé na pedra que havia rolado, dei um impulso, segurei com a mão direita mais acima, puxei meu corpo pra cima, coloquei o pé esquerdo e subi. Estava no topo da

Pedra. Agora era descer. “Pode colocar os pés no meu ombro”, disse Polaroid. Eu não iria fazer isso. Senti na pedra, puxei meu corpo pra direita – o desfiladeiro ali do meu lado – e me prendi a pedra até colocar os pés de novo na trilha. Havia passado.

A partir dali foi subir e subir até o camping. Cansado, exausto, preocupado, cheguei ao camping (que tinha uma vista linda) e fui direto pra barraca.

Pacific Crest Trail S01E09

A trilha da trilha: Joni Mitchell – California

Eu não tinha um plano para o dia. Ou melhor: tinha, mas ele foi desfeito pela tempestade que caiu durante a noite. Inseguro em continua na trilha com o frio e neve, resolvi seguir os outros que passaram a noite comigo no café. Saímos do lugar às sete da manhã, num cenário de névoa, e fomos para a estrada tentar uma carona para a cidade de Idyllwild. Com oito pessoas na beira da estrada precisaríamos de sorte para que todos chegassem à cidade em duas ou três viagens.

Depois de uma dezena de negativas uma senhora para sua caminhonete cabine dupla com placa do Arizona do nosso lado. “Oh, me desculpem. Estou indo ao Salvation Army levar umas doações e não sei se consigo levar todos vocês. Acho que cabem quatro na frente”, ela disse. Sydney completou: “se a gente levar as mochilas no colo os outros quatro podem ir aqui atrás”. Feito. Nos metemos todos no carro e seguimos por meia hora até a cidadezinha.

O plano era comprar roupas de frio e equipamentos de neve, reabastecer de comida para os próximos seis dias e voltar para a trilha. Comprei microspikes – espécies de correntes para se colocar nos tênis e aumentar a aderência na neve; outros compraram luvas e segundas-peles, fomos para o supermercado para as comidas e enquanto o grupo foi almoçar em uma pizzaria eu passei duas horas conversando com o Elias e gravando o podcast Extremos, que já está no ar. O único se da visita a Idyllwild foi não ter encontrado Max, o prefeito. Eleito numa votação democrática com a maioria absoluta dos votos, Max acabou de completar seis anos e é um cachorro da raça golden retriever. E não pense que brincadeira: o prefeito tem seu próprio carro – dirigido, claro, por uma assessora – e atende quase todos os dias na prefeitura local.

Voltar para a trilha também foi fácil: eu, Tyler e Austin entramos em outra velha caminhonete dirigida por um senhor que explicava o quanto o terreno do sul da Califórnia é propício para o plantio da maconha e rapidamente deixamos a névoa e a chuva pra trás. Na trilha surpreendentemente o dia estava claro. Andamos apenas seis quilômetros para chegarmos a um bom acampamento. Em breve Ed e Polaroid se juntaram a nós. “Não acho que veremos Sydney de novo”, Ed comentou.

Alimentado e equipados, o plano é andar 35 quilômetros amanhã a base do Monte San Jacinto para chegarmos ao topo no sábado. Porque domingo, já avisaram, o tempo vai piorar novamente.

Pacific Crest Trail S01E08

A trilha da trilha: A Tribe Called Quest – Can I Kick It?

No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Que nem no poema de Drummond. Era uma pedra ordinária, igual a milhares de outras pedras que passo todos os dias. Não era maior, nem mais rara, nem mais bonita, nem mais redonda. Era uma pedra tão comum que nem a tinha notado até aquele instante em que apoiei o peso do meu corpo no meu pé direito, levantei a perna esquerda como faço 25 mil vezes por dia e tentei passar o pé por sobre ela. Nesse instante, com meu pé na vertical, meu dedão esbarra no topo da danada. Uma onda de dor percorre da ponta do dedão ao meu cérebro em frações de segundo e uma sequência de palavrões sai pela minha boca. Minha unha está rachada ao meio, debaixo dela meu dedo está roxo. Acho que vou perde-la.

Os tênis que uso, da marca Altra, modelo Superior, vem de fábrica com uma segunda palmilha, mais rígida que as palmilhas tradicionais, juntamente para proteger seus pés dos impactos com as pedras. Mas como toda palmilha ela protege o solado, não o topo. Acho que ninguém esperava por isso…

Como ninguém esperava pela mudança do tempo. Saí do Mike’s Place às seis, esperando pelo pior. Da última vez que tinha olhado a previsão parecia que o dia seria de chuva e frio. Mas não foi o que aconteceu: começou com vento, mas ainda cedo tirei duas das três blusas. Fazia um friozinho gostoso, que o andar aquecia, mas quando parava sentia a baixa temperatura. Quando cheguei a um dos reservatórios de água, a uma da tarde, tirei os tênis, botei os pés pra cima, curti o sol por uns momentos e chequei de novo a previsão do tempo. Ainda faltavam 15 quilômetros para o destino, a lanchonete Paradise Valley Cafe, que vende, segundo muitos, o melhor hambúrguer da PCT. Pelas minhas contas chegaria lá por volta das quatro da tarde, antes da chuva que a metereologia previa para as cinco. Fui sem me preocupar.

Batizado em homenagem a um poema de Walt Whitman, o Brooklyn Ferry é um espaço com chuveiro de balde, mesa de piquenique, sombras, uma pequena biblioteca – com poemas de Whitman impressos que os caminhantes podem levar – e impressões em tamanho natural de três gênios da literatura americana: além de WW, John Muir e Henry David Thoreau. Mais que grandes escritores os três tem em comum a paixão pela natureza e isso fica claro em seus textos. E tê-los ali, no meio da trilha, fazia pra mim total sentido. E se não chorei no bicudo que dei na pedra, soltei umas lágrimas de emoção ali.

Apertava o passo pra chegar antes da possível chuva quando o tempo mudou. Primeiro encoberto, depois pequenas pedras de gelo, depois a neve. No sul da Califórnia. No final de maio. Nem eu, nem ninguém que estava caminhando hoje, esperava por isso. De calção, camiseta de manga longa e capa de chuva corria tentando evitar o frio. Cheguei ao Cafe e aos poucos os outros foram chegando, todos sem saber o que fazer: comer e continuar na trilha? Pegar uma carona até a cidade e dividir um hotel? Ir até um camping e ter pelo menos um banho quente?

A solução veio de onde ninguém esperava: a garçonete do lugar convidou a todos para passarem a noite ali, no chão da lanchonete. “A gente fecha as oito. Me deem dez minutos pra limpar e passar pano e vocês dormem aqui. Eu deixo o alarme desligado e vocês saem amanhã antes das oito”, a disse. Perfeito. O lugar é claro, os refrigeradores fazem barulho, um relógio desperta a cada hora exata, mas espalhados pelo chão do Paradise Valley Cafe estão 15 caminhantes cansados, mas felizes por uma noite quente e de barriga cheia com o melhor hambúrguer da lanchonete mais amigável da PCT.

Pacific Crest Trail S01E07

A trilha da trilha: Luna – California (All the Way)

Eu não assisto muito pouco TV, mas um tipo de programa que adoro, e se deixar assisto por horas, é daqueles onde caçadores de tesouros modernos saem à procura de objetos para serem vendidos em antiquários. Um carro de 1940 que só foram fabricados mil unidades parado em uma garagem de um fazenda, a placa de um posto de gasolina que pode ser vendida por 2000 dólares, um bule feito na China na dinastia Ming jogado em uma caixa debaixo de um piano, o single raro do Elvis que todo mundo quer e ninguém tem. Aqueles arqueólogos conseguem isso tudo barganhando com velhinhos rabugentos em algum lugar perdido no tempo nos Estados Unidos. Acho fascinante: como aquilo pode ter ficado ali tanto tempo e ninguém ter notado? Como a história da primeira gravação do Velvet Underground, a caixa de revistinhas com a número 1 do Homem-Aranha, o autógrafo perdido do ídolo do esporte. Pedaços da cultura pop jogados em um porão.

O Mike’s Place, onde fiquei ontem à noite, poderia estar muito bem nesses programas. Tinha mil discos de vinil na prateleira que ninguém tocava a anos, uma dúzia de toca discos, outro tanto de tapes, amplificadores e caixas de som. Brinquedos antigos nas caixas, um piano, um equipamento chamado Baldwin Tempo-matic que não sei para o que serve e um Cadillac dos anos 70. Sem contar as dezenas de panelas de ferro enferrujando, os equipamentos agrícolas antigos, tranqueiras de tudo quanto é jeito, tudo jogado em uma propriedade longe de tudo: Warner’s Spring, de onde vim, está a 28 km ao sul e a próxima estrada – e próximo ponto de água – 40 km ao norte. Energia elétrica é por gerador, mas tem um forno a lenha onde fazem pizza regularmente para os caminhantes. Não tem sinal de celular e o vento sopra sempre forte e frio – o que faz com que os caminhantes, cerca de 25 essa noite, se amontoem por entre as tralhas.

Cheguei ali por volta de uma da tarde, sem saber se ainda estaria aberto – algumas pessoas diziam que a última semana que aceitariam os caminhantes era a última. Mas uma placa na estrada dizia o contrário. Cheguei no lugar e só encontrei dois caminhantes que tinha resolvido não sair pra caminhar por causa do mau tempo. Me mostraram o lugar – a garagem, a tenda que serve de cozinha e ainda tinha frango assado e torta da noite anterior, o banheiro no meio do mato. O responsável pelo lugar não estava, mas deve voltar mais tarde pra fazer o jantar.

Me adaptei, peguei um refrigerante na caixa de isopor, explorei um pouco mais o lugar e depois de algum tempo o resto do pessoal foi chegando: Tyler e Sydney, Ed e Austin, gente que tinha começado antes de nós, e cada vez mais, todos sem querer encarar a ventania e o frio.

Quinze pessoas dividiam o pequeno quarto no fundo da garagem quando Austin chega com seu Tyvex, um tipo de papel impermeável e durável usado para proteger a barraca do solo, e abre no chão do lugar. No verso ele havia desenhado o mapa de uma continente imaginário. “Ok pessoal, essa é a ocasião ideal pra gente jogar Dungeons and Dragons”. E as próximas horas foram em meio a ogros, fadas, sapos cantores e duendes com mandíbulas de aço.

O jogo só foi interrompido quando Steve, o cuidador do lugar, chegou convocando voluntários para ajudar na cozinha. Entretido com o jogo não fui, mas passados alguns minutos que era lá que deveria estar. Quando cheguei quatro pessoas tentavam sem sucesso fritar salchichas e tortillas em uma churrasqueira a gás. Vendo o fracasso eminente e frustração de 25 caminhantes famintos, pulei na linha de frente, pedi pra três deles saírem e fiquei ali fazendo uma centena de cachorros-quentes mexicanos: tortilla, salsicha, queijo e jalapeños.

Amanhã enfrento o tempo e o frio para chegar ao, dizem, melhor hamburger da trilha. Por hoje tenho por companhia umas latas de óleo dos anos 60, um Cadillac, ferramentas enferrujadas e 24 outros caminhantes que também estão dormindo de barriga cheia. Me sinto feliz como em um programa de tv. A primeira semana de PCT não poderia terminar melhor.