Pacific Crest Trail S01E28

A trilha da trilha: Johnny Mercer & The Pied Pipers – The Hills of California

(Tem episódio novo do podcast no ar. O link tá no perfil)

Tehachapi na língua da tribo Kawaiisu, que habitava o vale da região, significa “montanha difícil”. É isso que começo a fazer amanhã, quando deixar a cidade. Mas antes disso tenho uma coisa pra contar: eu pulei 8 milhas da PCT. Não fiz. Não vou fazer. Sem dor na consciência.

É que a trilha corta duas estradas que levam à cidade de Tehachapi. Primeiro na Willow Spring Road, onde parei ontem. Depois a trilha corta a Highway 58. O plano era voltar pra trilha hoje e andar esse trecho de 12 quilômetros. Mas achei melhor ficar na cidade. Ninguém vai me condenar por isso, eu acho.

Ou vai?

Os dois últimos dias foram intensos. Caminhar a noite, 60 quilômetros num dia, sol de 40 graus no outro, subidas, muita gente na trilha,

pouca água… quando acordei o sol já tava quente. Nascendo às 5 e se pondo às 8 da noite, são 15 horas de sol todo dia. E a temperatura fica em torno dos 35, 36 logo cedo.

O trecho cruzava mais um campo de energia eólica: dezenas, centenas de turbinas. Sobe morro, mais morro, mais morro… E depois desce até a única água do trecho. E sobe, sobe, sobe…

Eu segui tentando acompanhar Break Away, o coreano que se juntou ao grupo recentemente. Não vi mais nenhum dos outros todo o dia. E quando paramos na água comentei que não teria sentido acampar perto da estrada, já que estávamos tão perto da cidade.

Break Away concordou e ligamos para alguns Trail angels quando chegamos na estrada. Abel concordou em ir nos buscará nos levou pra sua casa – onde já tinha um casal de caminhantes – e passamos a noite ali. Foi ali, no deck da casa de Abel, comendo uma pizza, que decidimos não andar o próximo trecho.

Pela manhã Abel nos deixou no centro. O plano é ir para um hotel na cidade, onde reencontramos o grupo e dividimos um quarto. Hotel com piscina, claro. Pra aliviar do calor.

Pacific Crest Trail S01E26

A trilha da trilha: Eartha Kitt – Monotonous

Viver na trilha é como viver em qualquer outro lugar. Alguns dias são mais excitantes que outros. A vida é assim. Tem dia que acontece um monte de coisa, outros que não acontecem nada.

Hoje foi desses dias parados. Bem, depois de vivenciar Hiker Heaven e Casa de Luna tudo o que poderia vir a acontecer na trilha não seria tão bacana quanto esses últimos dias.

Vejamos: saímos de Casa de Luna às oito, depois do café, das panquecas e da foto. Ficamos meia hora na beira da estrada tentando uma carona que não rolava, até um Trail angel que levava outros hikers pra trilha – que fica a 4 km da cidade – voltar e pegar a gente (eu, Ed Rusty e Tyler Change).

Como saímos tarde (a gente começa a andar normalmente às seis, sete no máximo) e ainda demoramos na carona, a trilha estava cheia: toda a turma que havia passado a noite na Casa de Luna.

O percurso começava com três quilômetros de uma forte subida, seguindo de uma grande descida de quase dez quilômetros, outra subida gradual de quase 17 quilômetros para então descer até chegar ao camping. Água era um problema – nos 30 quilômetros do dia, só um ponto confiável.

Seguia na frente e íamos passando a maioria dos outros caminhantes. Quando chegamos na base pra grande subida, avisei ao Ed: “se prepara que são quase 11 milhas de subida”, eu disse. “Eu estou pronto”, ele respondeu. E disparou morro acima.

Não lembro quando Tyler se separou, mas jurava que ele tinha ficado pra trás, até chegar no camping e encontrar ele e Ed perto da água.

O dia não teve surpresas: sol, sobe e desce tranquilo, gente, mosquitos, duas cobras que espantei com o bastão de caminhada… Surpresa talvez tenha à noite. Tem um urso rodando a região e hoje, pela primeira vez na PCT, dependurei minha comida. Estou dormindo na barraca sem a cobertura pra chuva, então se ele aparecer pra pegar a comida vou poder vê-lo.

Essa noite eu não sei, mas amanhã eu tenho certeza que vou ver um: segundo os relatos, um urso preto morreu no poço de água que tem a poucos quilômetros daqui e já está se decompondo. Por isso estou carregando um pouco mais de água daqui. A vida é assim…

Pacific Crest Trail S01E25

A trilha da trilha: Smash Mouth – Pacific Coast Party

Ontem contei sobre o Hiker Heaven, de como a coisa lá é organizado e bem administrada, de como tudo roda bem e tranquilo e hoje estou no Casa de Luna, que está no lado oposto em termos de organização. Pra chegar aqui são 40 quilômetros desde Agua Dulce. A trilha é tranquila, apesar do sol e de alguns morros. A caminhada ainda foi aliviada por dois Trail Magics que encontrei pelo caminho. Gatorade, chocolate, frutas. Nada mal.

Quando chegamos – eu e Tyler, agora Change, já que vive achando moedas na trilha – na estrada de San Francisquito Canyon, que leva até a cidade de Green Valley, conseguimos carona com o primeiro carro que passou, que nos deixou no posto de gasolina, a poucos quarteirões da Casa de Luna.

A Casa de Luna é a casa dos Andersons. O

lugar é, segundo eles próprios, um Hippie Daycare. Na entrada, ao lado dos banheiros químicos colocados na rua e de sacos e sacos de lixo, estão meia dúzia de sofás velhos e uma cozinha improvisada. Na outra ponta tem uma mesa com tinta e pincéis para que os hikers possam pintar pedras e colocá-las onde quiser na casa. O povo fica ali, relaxando, descansando, comendo e bebendo. As regras da casa estão na parede atrás dos dois grandes lençóis assinados por todos que passaram aqui esse ano (umas 2000 pessoas). As regras são simples: 1) dar um abraço na Terri. 2) vestir uma camisa havaiana. 3) passar pelos portões e achar um lugar pra montar sua barraca na florestinha nos fundos da casa…

Eles servem jantar – sempre a mesma coisa: taco salad – e cafe da manhã – panquecas.

A florestinha onde você acampa é incrível. Uma longa trilha por entre galhos e árvores, com pedra pintadas por todos os lados e barracas e gente cowboy camping. Tirando os insetos e abelhas, é uma delicia de lugar.

A Casa de Luna é um dos vórtex da trilha: os caminhantes chegam ali e ficam uma, duas, cinco noites, fazendo festa e sem querer continuar a caminhada. É uma zona, mas é bacana. Se tem um lugar que exemplifica o termo hiker trash é Casa de Luna.

Depois do jantar todo mundo tem que dançar para ganhar a bandana “oficial” da PCT. E depois café da manhã, antes de voltar pra trilha, todos têm que tirar uma em grupo. E se você ver as fotos no página deles no Facebook todo mundo está gargalhando. Não dá pra falar porquê. Tem que estar lá pra saber.

“Tomou seu café? Comeu panquecas? Tirou sua foto? Então dá o fora daqui. Se vocês não forem embora como vou sentir saudade de vocês?”, me disse Terri depois que dei nela o abraço de despedida.

Casa de Luna. Que lugar…

Pacific Crest Trail S01E27

A trilha da trilha: Squarepusher – Aqueduct

Acordei com o nascer do sol mais bonito da minha vida. Talvez por esse motivo eu estava tão emotivo pela manhã. Tentei ouvir o Podcast “Desert Island”, da BBC, onde a/o entrevista/o seleciona oito discos que levaria para uma ilha deserta, alguém escolhe Nina Simone, ela começa a cantar e eu caio no choro enquanto caminho. Resolvi mudar para Radio Ambulante, um podcast em espanhol sobre a América Latina, o tema é a Venezuela e as pessoas que, ao contrário de mim, precisam sair dali caminhando não por diversão ou opção mas porque não existe outra forma senão andar por dias até outro país, e caio no choro de novo. Resolvo não ouvir nada, apesar da trilha estar monótona e o dia quente.

Eu não iria parar pra ver o urso morto (pr quê?) e só me restava andar, tomar uma gole de água, limpar o suor, tomar mais um gole água, limpar as lágrimas e andar de novo.

A programação era ir até Hiker Town (um hostel montando como uma cidade do velho oeste). Mas quase chegando lá encontro com Tyler e Ed e decidimos pegar uma carona e ir até WeeVill, uma lanchonete algumas milhas mais longe mas com uma reputação melhor no aplicativo.

É um lugar simples, uma loja de conveniências com um puxadinho do lado onde os caminhantes podem ficar. Como vendem um double bacon burger barato ($8.99) e cerveja, atrai muita gente: era pelo menos meia centena de gente por ali. Todos comendo, bebendo e esperando o sol se por para encarar o aqueduto: um trecho de 27 quilômetros plano e fácil, mas sem sobras ou água.

Saímos todos as sete da noite, mas as coisas não saíram como planejado: Lost Boy resolveu fazer ali o desafio 24x24x24 (24 milhas em 24 horas tomando 24 cervejas) e tombou faltando 7 cervejas e pelo menos 10 milhas. Tyler ficou com ele pra ajudar. Mantis parou para um descanso faltando algumas milhas e não o vimos mais. Ed chegou na milha final esbugalhado, assim como eu e Brake Away, o coreano que está caminhando esses dias com a gente. Como nosso grupo ia no pelotão de frente não vi, até pela manhã, os outros mais de quarenta caminhantes da madrugada.

O trecho é longo e monótono. E depois de quase 60 quilômetros no dia você está um bagaço. À meia noite foi chegar, montar a barraca e apagar, pra acordar com o sol já quente às seis. Objetivo do dia é chegar à estrada para Tehachapi.

Pacific Crest Trail S01E23

A trilha da trilha: Cal Tjader – Agua Dulce

Acontece que ontem, quando chegou nos Bombeiros bem antes de todo mundo, Lost Boy pegou uma carona, foi até a cidade, comprou quatro pizzas e voltou. Ele deixou um recado no livro de registros que eu mesmo assinando não vi. Quando ele voltou encontrou os meninos e ficaram lá até o final da tarde. Por eles só foram chegar no camping às 22:30, quando eu já dormia faz tempo.

Quando acordei lá estavam eles: Lost Boy dormindo em cima da mesa de piquenique, Sydney e Tyler cowboy camping, Ed acampando mais abaixo. Saí às sete mas logo eles me passaram: meu tendão esquerdo doía enormemente e eu ia devagar.

Tudo o que queria era chegar a Agua Dulce, onde iria tirar um dia off, tomar banho, lavar as roupas, comer comida de verdade. O dia continuava quente, o suor escorria pelo meu rosto, minha mão e minha camisa encharcadas. Dei uma parada rápida pra água na sede dos guardas florestais e segui.

Encontrei com os meninos novamente quando chegava a Vasquez Rocks, um parque de formações rochosas que já foi usado em dezenas de filmes, de Star Trek a Austin Powers, de Little Miss Sunshine a Planeta dos Macacos. Fiquei passeando por ali, tirando fotos, jurando que também tinha sido usado em Star Wars (não foi) e me perdi deles novamente. Já estava a poucos quilômetros de Água Dulce e segui pela estrada até a pequena cidade.

Hiker Heaven, o lugar onde estou, merece um capítulo só pra ele. Por isso, como não ando hoje, amanhã escrevo sobre aqui. O que é preciso contar é que além do banho, da roupa lavada, da comida, quando eu cheguei ainda tinha minha barraca nova me esperando e minha caixa da Joe’s Chocolates. Esse povo sabe te tratar bem: além dos ótimos chocolates, comida de qualidade, queijos e delicadezas que me deixaram emocionados.

Quando os meninos chegaram fomos jantar em um restaurante mexicano, encontrar outros caminhantes, socializar. Sem preocupação de ter que acordar cedo para andar no dia seguinte.

Pacific Crest Trail S01E22

A trilha da trilha: Portastatic – Lamento Sertanejo

Cheguei ao Messenger Flat Campground às seis da tarde. Eu estava sozinho: havia deixado Ed e Tyler quando paramos na hora do almoço no Corpo de Bombeiros de Mill Creek. Encontrei com Old Fox e Mantas na parte da tarde, mas eles também não estavam ali. Peguei a trilha auxiliar que leva ao camping e estava sentado em uma das mesas de piquenique tentando decidir onde montar a minha barraca quando escuto um carro se aproximar. Uma caminhonete preta para no portão e descem três pessoas. “Mesmo se os meninos não chegarem vou ter companhia essa noite”, pensei. E voltei pra minha análise do terreno: aquele é bom mas é perto do banheiro, aquele outro é meio inclinado, daquele ali eu consigo ver o por do sol (essa é um dos motivos porque gosto de chegar antes dos outros nos campings: poder escolher o melhor lugar).

Eu ainda estava sentado quando escuto uma voz masculina atrás de mim: “Ei, o que você está fazendo?”, ele perguntou, com um forte sotaque latino. Quando olho na direção dele pra responder levo um susto, mas mantenho a calma: ele ter uma pistola na cintura, um rifle dependurado no ombro e uma cerveja na mão. Os outros dois atrás dele trazem rifles com visores de longo alcance, espingardas, um cooler, caixas de munição. “Estou caminhando, acho que vou acampar aqui hoje”, respondo calmamente. “E você está sozinho?” “Sim, mas tem mais um monte de outros hikers vindo aí. Uns vinte”, completei. “Eu não disse?”, ele comenta com os outros dois. “Não vai dar pra ser aqui.” E voltando pra mim, completa: “a gente vem aqui pra caçar. Ainda não está na época, mas a gente veio alinhar os fuzis”. “É, melhor procurar outro lugar. Vai ser perigoso aqui. Tem muita gente caminhando”.

A gente troca mais umas palavras (eles não sabiam da PCT, vem aqui caçar veados e ursos etc) e eles partem.

Ontem Tyler e Ed acabaram andando 15 quilômetros a mais depois de se perderam duas vezes. Chegaram ao camping já noite. Mas não acho que tenham de perdido hoje de novo. A gente tinha decidido em ficar nesse camping mas na parada do almoço rolou uma indecisão se valeria a pena ou não andar dez quilômetros além dos quarenta que a gente já iria fazer pra chegar até ao posto dos guardas florestais. Com o calor do dia, a falta de água e as paradas que fizemos – gastamos mais de uma hora definindo de iríamos ou não pedir pizza pro almoço nos bombeiros pra decidir que não valeria a pena pagar quase 90 dólares em duas pizzas gigantes – chegamos à conclusão que era melhor ficar no camping.

Mas são nove da noite, ninguém apareceu e eu continuo sozinho, ouvindo ao longe os tiros de fuzil do pessoal que encontrei mais cedo.

Pacific Crest Trail S01E21

A trilha da trilha: Art Garfunkel – 99 Miles from L.A.

No final da tarde eu cruzei, pela terceira e última vez no dia, a Highway 2. Dirigindo por ela na direção oeste é só descer a serra e em poucos minutos você está em Pasadena e depois Los Angeles. Não deve dar nem as 99 milhas da música do Art Garfunkel que escolhi pra trilha da trilha de hoje (já ouviu o playlist? Entra uma música por dia lá no Spotify).

A proximidade com a cidade tem umas vantagens: parques bem estruturados, com banheiros, papel higiênico, mesa de piquenique e bons locais pra acampar. O camping de ontem era assim, o de hoje também e assim será o de amanhã. A estrutura lembra a da Appalachian Trail.

Infelizmente o sobe e desde da trilha lembra também. Com a desvantagem que aqui tem a sombra que lá normalmente tem.

Como a ideia de ir ver o sol nascer no topo do Monte Williamson não foi pra frente foi difícil sair da cama. O sol já tinha nascido faz tempo. Pensei que todos já estavam acordados e tinham saído mas quando saí da barraca vi que não era o único com preguiça. Aos poucos as pessoas foram levantando e comecei a caminhar só às oito.

Quando cheguei na encruzilhada que ia ao topo do monte sentei, tomei uma água e decidi não subir. Não é parte da PCT, os comentários no app diziam que não valia a pena e decidi continuar. Encontrei Ed quando chegava à estrada pela primeira vez e Tyler logo depois.

A partir dali a gente tinha cinco quilômetros de desvio pelo asfalto: a trilha está fechada para preservar uma espécie de sapo que vive na região.

No final do desvio pelo asfalto a trilha chega a um parque e paramos ali por uns minutos. Saí antes, sabendo que o dia seria quente e cansativo, e os meninos ficaram tirando um cochilo.

Segui encontrando com outros caminhantes que venho esbarrando nos últimos dias (Lost Boy, Mantas, Long John) e nada do meu grupo. Cheguei ao camping por volta das 18h, preparei meu canto, jantei, nada. Por volta das 20h chega Sydney contando que ao sair do camping e voltar pra trilha eles pegaram a direção errada. Ela ainda tentou avisar, mas os dois andam mais rápido que ela e estavam com fones de ouvido…

São nove da noite e até agora nada dos dois.