A trilha da trilha: Gomez – California

Eu tinha um objetivo: se a neve deixasse, queria andar os 35 quilômetros que faltavam pra chegar na cidadezinha de Sierra City (população: 235 habitantes) e mandar pelo correio o ice axe (a machadinha de gelo que salvou a minha vida no Monte Whitney) e o bear canister (o frasco de comprimidos gigante que a gente tem que carregar na Sierra). Os dois juntos pesam dois quilos e queria me livrar desse peso extra.

Por isso saí do lugar onde acampei às seis e pouco, celular numa mão pra não errar a trilha, bastão de caminhada na outra pra não cair. Trazia meu microspikes (um adaptador com corrente e garras que você veste sobre os tênis pra não escorregar na neve) pendurado na cintura e era aparecer neve pra eu parar e calça-los. Pensava em também despacha-los.

Subi até o topo da montanha o de estava, a quase 3000 metros, desci, subi de novo e nesse vai e vem notei que abaixo dos 2000 metros quase não tinha neve. Acima disso era batata. Felizmente aquele era o último trecho nas próximas semanas que ia tão alto: depois ficava quase sempre abaixo dos 2000 metros, sempre abaixo dos 2500. “Melhor não mandar os microspikes…), pensei. Seguro morreu de velho, já dizia minha mãe.

Quando notei que já não teria mais neve do dia ainda não eram 8 da manhã. Aproveitei pra conferir a distância que faltava: 30 quilômetros. Aproveitei também pra conferir o horário de funcionamento do correio. “Deve funcionar até às 4, então tenho 8 horas, 4 km por hora, tá de boa”.

Mas não: o correio abria às 10 e fechava às 2, o que significava que se quisesse mandar as coisas hoje teria que andar numa média de 5 km por hora pelas próximas 6 horas.

Ontem eu estava tão cansado que quando montei a barraca entrei no saco de dormir e apaguei sem jantar. Planejava parar hoje mais cedo pra comer. Mas seria isso ou chegar a tempo.

Saí em disparada. Só parei 5 minutos pra filtrar água e segui. Cheguei 1:30 na estrada de acesso à cidade, e era arriscar pedir uma carona (sem ter certeza que iria conseguir) ou andar os 2 km até a cidade na meia hora restante.

Cheguei no correio ofegante à 1:55. Dispatches o que precisava e perguntei pro atendente qual o melhor lugar pra comer na cidade. “Eita! Você deu azar. É segunda, tá tudo fechado. A única opção é a mercearia aqui do lado”.

E foi lá que comi um hambúrguer com um bife de 450 gramas, tomate, alface, picles, pimenta, mais uma porção de onion rings e três copos grandes de refrigerante. Se era bom? Impossível de ser. Mas eu precisava daquilo depois de todo o esforço.

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