A trilha da trilha: Portastatic – Lamento Sertanejo

Cheguei ao Messenger Flat Campground às seis da tarde. Eu estava sozinho: havia deixado Ed e Tyler quando paramos na hora do almoço no Corpo de Bombeiros de Mill Creek. Encontrei com Old Fox e Mantas na parte da tarde, mas eles também não estavam ali. Peguei a trilha auxiliar que leva ao camping e estava sentado em uma das mesas de piquenique tentando decidir onde montar a minha barraca quando escuto um carro se aproximar. Uma caminhonete preta para no portão e descem três pessoas. “Mesmo se os meninos não chegarem vou ter companhia essa noite”, pensei. E voltei pra minha análise do terreno: aquele é bom mas é perto do banheiro, aquele outro é meio inclinado, daquele ali eu consigo ver o por do sol (essa é um dos motivos porque gosto de chegar antes dos outros nos campings: poder escolher o melhor lugar).

Eu ainda estava sentado quando escuto uma voz masculina atrás de mim: “Ei, o que você está fazendo?”, ele perguntou, com um forte sotaque latino. Quando olho na direção dele pra responder levo um susto, mas mantenho a calma: ele ter uma pistola na cintura, um rifle dependurado no ombro e uma cerveja na mão. Os outros dois atrás dele trazem rifles com visores de longo alcance, espingardas, um cooler, caixas de munição. “Estou caminhando, acho que vou acampar aqui hoje”, respondo calmamente. “E você está sozinho?” “Sim, mas tem mais um monte de outros hikers vindo aí. Uns vinte”, completei. “Eu não disse?”, ele comenta com os outros dois. “Não vai dar pra ser aqui.” E voltando pra mim, completa: “a gente vem aqui pra caçar. Ainda não está na época, mas a gente veio alinhar os fuzis”. “É, melhor procurar outro lugar. Vai ser perigoso aqui. Tem muita gente caminhando”.

A gente troca mais umas palavras (eles não sabiam da PCT, vem aqui caçar veados e ursos etc) e eles partem.

Ontem Tyler e Ed acabaram andando 15 quilômetros a mais depois de se perderam duas vezes. Chegaram ao camping já noite. Mas não acho que tenham de perdido hoje de novo. A gente tinha decidido em ficar nesse camping mas na parada do almoço rolou uma indecisão se valeria a pena ou não andar dez quilômetros além dos quarenta que a gente já iria fazer pra chegar até ao posto dos guardas florestais. Com o calor do dia, a falta de água e as paradas que fizemos – gastamos mais de uma hora definindo de iríamos ou não pedir pizza pro almoço nos bombeiros pra decidir que não valeria a pena pagar quase 90 dólares em duas pizzas gigantes – chegamos à conclusão que era melhor ficar no camping.

Mas são nove da noite, ninguém apareceu e eu continuo sozinho, ouvindo ao longe os tiros de fuzil do pessoal que encontrei mais cedo.

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