A trilha da trilha: A Tribe Called Quest – Can I Kick It?

No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Que nem no poema de Drummond. Era uma pedra ordinária, igual a milhares de outras pedras que passo todos os dias. Não era maior, nem mais rara, nem mais bonita, nem mais redonda. Era uma pedra tão comum que nem a tinha notado até aquele instante em que apoiei o peso do meu corpo no meu pé direito, levantei a perna esquerda como faço 25 mil vezes por dia e tentei passar o pé por sobre ela. Nesse instante, com meu pé na vertical, meu dedão esbarra no topo da danada. Uma onda de dor percorre da ponta do dedão ao meu cérebro em frações de segundo e uma sequência de palavrões sai pela minha boca. Minha unha está rachada ao meio, debaixo dela meu dedo está roxo. Acho que vou perde-la.

Os tênis que uso, da marca Altra, modelo Superior, vem de fábrica com uma segunda palmilha, mais rígida que as palmilhas tradicionais, juntamente para proteger seus pés dos impactos com as pedras. Mas como toda palmilha ela protege o solado, não o topo. Acho que ninguém esperava por isso…

Como ninguém esperava pela mudança do tempo. Saí do Mike’s Place às seis, esperando pelo pior. Da última vez que tinha olhado a previsão parecia que o dia seria de chuva e frio. Mas não foi o que aconteceu: começou com vento, mas ainda cedo tirei duas das três blusas. Fazia um friozinho gostoso, que o andar aquecia, mas quando parava sentia a baixa temperatura. Quando cheguei a um dos reservatórios de água, a uma da tarde, tirei os tênis, botei os pés pra cima, curti o sol por uns momentos e chequei de novo a previsão do tempo. Ainda faltavam 15 quilômetros para o destino, a lanchonete Paradise Valley Cafe, que vende, segundo muitos, o melhor hambúrguer da PCT. Pelas minhas contas chegaria lá por volta das quatro da tarde, antes da chuva que a metereologia previa para as cinco. Fui sem me preocupar.

Batizado em homenagem a um poema de Walt Whitman, o Brooklyn Ferry é um espaço com chuveiro de balde, mesa de piquenique, sombras, uma pequena biblioteca – com poemas de Whitman impressos que os caminhantes podem levar – e impressões em tamanho natural de três gênios da literatura americana: além de WW, John Muir e Henry David Thoreau. Mais que grandes escritores os três tem em comum a paixão pela natureza e isso fica claro em seus textos. E tê-los ali, no meio da trilha, fazia pra mim total sentido. E se não chorei no bicudo que dei na pedra, soltei umas lágrimas de emoção ali.

Apertava o passo pra chegar antes da possível chuva quando o tempo mudou. Primeiro encoberto, depois pequenas pedras de gelo, depois a neve. No sul da Califórnia. No final de maio. Nem eu, nem ninguém que estava caminhando hoje, esperava por isso. De calção, camiseta de manga longa e capa de chuva corria tentando evitar o frio. Cheguei ao Cafe e aos poucos os outros foram chegando, todos sem saber o que fazer: comer e continuar na trilha? Pegar uma carona até a cidade e dividir um hotel? Ir até um camping e ter pelo menos um banho quente?

A solução veio de onde ninguém esperava: a garçonete do lugar convidou a todos para passarem a noite ali, no chão da lanchonete. “A gente fecha as oito. Me deem dez minutos pra limpar e passar pano e vocês dormem aqui. Eu deixo o alarme desligado e vocês saem amanhã antes das oito”, a disse. Perfeito. O lugar é claro, os refrigeradores fazem barulho, um relógio desperta a cada hora exata, mas espalhados pelo chão do Paradise Valley Cafe estão 15 caminhantes cansados, mas felizes por uma noite quente e de barriga cheia com o melhor hambúrguer da lanchonete mais amigável da PCT.

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