Ano passado, nesse mesmo dia 23 de agosto, às 11h23 hora local, eu chegava ao topo da última montanha da Appalachian Trail, o Monte Katahdin. Terminava ali uma jornada de mais de quatro meses de caminhada por uma das cadeias montanhosas mais antigas do mundo. Terminava ali minha trilha que passou por 14 estados americanos, percorreu mais de 3.500 km, subiu ao topo de mais de trezentas montanhas. Uma trilha onde gastei três pares de sapatos, emagreci uns 12 quilos, me fez conhecer um outro lado de mim.

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Desde então muita coisa aconteceu. Minha mente já foi do “isso nunca mais” ao “quando é que vou fazer isso de novo”. Mostrei que nem tudo é tão bonito quanto parece e contei um pouco sobre depressão pós-trilha isso num texto para o Anuário 2017 do Extremos – que você pode comprar aqui. Pensei em nunca mais fazer trilhas. Dei algumas palestras sobre minha experiência e estou escrevendo um livro sobre isso. Caminhei o Circuito O de Torres del Paine no Chile com a Alê e foi uma experiência incrível (você pode ouvir o podcast sobre essa caminhada aqui). Pensei em nunca mais fazer trilhas (é, eu pensei muito sobre isso).

Mas recentemente isso tem mudado. A depressão pós-trilha passou e já faz alguns meses que venho pensando “poxa, eu realmente deveria fazer uma outra trilha longa, como eu tinha imaginado antes de fazer a Appalachian Trail…”.

Há algumas semanas comecei a pesquisar as possibilidades, sobretudo na Europa e Oceania. As trilhas dos Alpes devem ser lindas, mas nada muito longo como gosto. Além disso não é permitido acampar em boa parte da trilha. Santiago de Compostela é algo que só toparia fazer se Alê fosse comigo (o que pode acontecer em alguns anos. Ainda preciso de melhores argumentos para convencê-la). O Sentiero Italia, a maior trilha do mundo segundo algumas pessoas, ainda não está completamente estruturada. A Te Araroa, na Nova Zelândia, é uma que está no meu radar faz algum tempo, mas quanto mais pesquisava menos animado ficava. As trilhas da Austrália são incríveis, mas já conheço bem aquela lado.

E daí me lembrei de algo que havia pensado antes de me decidir pela AT, ainda em 2016. A AT não era minha primeira opção. Pelo visual, pela beleza das paisagens, eu havia pensado em fazer a Pacific Crest Trail, no oeste americano. Havia lido pouco sobre a trilha, confesso, mas pelas características do terreno optei pela AT,  por ter uma altimetria mais similar que o que encontramos aqui em Minas: montanhas, montanhas, montanhas…

“E se agora for a hora de fazer a PCT?”, pensei. E comecei a pesquisar um pouco mais…

É uma trilha mais longa que a AT mas por ser menos acidentada é possível caminhar em média 40% a mais (na AT minha média foi de 27 km, ou 17 milhas, por dia). É uma trilha que exige uma logística mais apurada para compra de alimentos. É uma trilha que se estende por regiões muito específicas – deserto, altas montanhas, planícies, florestas. Que passa do nível do mar a mais de 14000 pés, quase 4500 metros de altitude, no Monte Whitney, a montanha mais alta dos Estados Unidos Continental (ficando abaixo apenas do Denali, no Alaska). Que alguns brasileiros já completaram – além da Brazil Nut, a Rose Eidman a completou em duas jornadas – metade em 2016 e o restante em 2017. 2017 foi também o ano que o Guilherme Bromberg completou a trilha e em 2018 está sendo a vez do Edinho e da Bia percorrem o caminho.

A PCT cruza os Estados Unidos de cabo a rabo, literalmente – da fronteira do México ao Canadá. É um trilha mais técnica, que exige um período mais definido de início e término – comece muito depois no final de abril e saiba que você vai sofrer com a seca no deserto de Mojave e a neve no estado de Washington. Comece muito no início do mês e o perigo é não conseguir cruzar a Sierra Nevada, no centro do estado da Califórnia. É uma trilha que exige o uso de machado pra neve, de garras nos sapatos, que as pessoas sofrem com a seca e com o excesso de água e que é infestada de mosquitos.

A PCT é também a trilha que a Cheryl Strayed caminhou uma parte e serviu de inspiração para o livro e filme Wild (Livre no Brasil). O sucesso do livro e do filme, aliás, são motivo de preocupação para a Associação que cuida da trilha. Chamado de “Wild Effect” ele fez que o número de pessoas que tentassem a trilha crescesse exponencialmente nos últimos anos. Pra se ter uma ideia, em 2011, antes do livro ser lançado, 156 pessoas completaram a trilha. Em 2016 foram mais de 700 (2017 teve um número menor, 491, mas foi um ano extremamente difícil por causa da neve e queimadas). Isso fez com que a Pacific Crest Trail Association estabelecesse um número limite de pessoas que podem começar a trilha a cada dia – são 50, definidos em uma inscrição online que acontece em novembro.

Decidi que vou fazê-la no ano que vem. Com meu passo rápido e determinado de Speedy Gonzalez planejo começar na primeira quinzena de maio, enfrentar o calor do deserto e chegar antes do degelo em Sierra Nevada e completar a trilha ainda em setembro, antes da neve começar a cair na divisa com Canadá. Pra isso vou ter que fazer de novo em menos de 5 meses.

PCT 2019. 4.290 km. 150 dias caminhando. Ou menos.

PCT 2019. Faltam 8 meses. A contagem regressiva já começou.

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