Paine Grande a Italiano: 7,5km

Eu deveria ter ouvido o atendente…

Ontem, quando chegamos, ele disse que o melhor lugar pra montar a barraca era perto do morro, por causa do vento. Mas não tinha um bom lugar: os lugares planos eram tomados pelas barracas do próprio camping – ele também tinha mencionado pra não montar dentro das cordas. Optei por montar atrás do refeitório, na frente do banheiro. Achei que ali o vento não seria tão forte.

Eu estava enganado.

As dez da noite começou a ventar forte. Mas um forte tipo o que tínhamos pegado em Serón. Eu não conseguia dormir, provavelmente por causa de um café que Ale e eu tomamos lá pelas quatro. Fiquei acordado, ouvindo música e depois podcasts, conversando com a Ale. Por volta de meia noite ouvi as pessoas das barracas perto reforçando as amarras. Eram pelo menos umas dez, todas a menos de um passo uma da outra. “Até que a minha está segurando bem”, pensei. E dormi logo depois disso.

Acordei à uma com a Ale dizendo: “parece que soltou ali. E acho que tem um buraco…”. Não tinha soltado: a vareta tinha quebrado ao meio. E o buraco era um rasgo de 20 cm na capa. Procurei meu kit reparo e claro: não trouxe. Peguei a silver tape e ela estava na última volta – tinha usado pra arrumar meu óculos que soltou a haste logo que desci do ônibus no primeiro dia e para fazer uma correia, já que quase o perdi duas vezes. A única coisa adesiva que tinha eram duas KT Tape – essas fitas para lesões. Peguei uma estaca extra que tinha e amarrei com as fitas. Não adiantou nada. A cada rajada de vento – era uma por minuto o teto batia no chão. Alê dizia que sentia dentro de um saco sendo fechado à vácuo. Saí para tentar reforçar as cordas – uma tinha arrebentado, outra provocou um segundo rasgo na capa. Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser passar a noite segundo a barraca com os braços.

Eu sou um péssimo marido, só posso ser. Alê sempre disse que não gostava de acampar, que tinha trauma de quando tinha ido à Cachoeira das Ostras na adolescência, e eu insisto que ela venha comigo para não só caminhar, mas também acampar por mais de uma semana… Fiquei pensando isso enquanto segurava a barraca durante as três horas que ela conseguiu dormir essa noite.

Levantamos às 6:30, desmontei a barraca, soquei tudo na mochila pra avaliar melhor o estrago na refeitório que abria as sete. No refeitório ninguém tinha Silver Tape. Eu mostrava pro pedaço que segurava a haste dos meus óculos: “isso! Você tem?”. Ninguém tinha… desisti de consertar ali. O dia seria curto e eu tentaria ao chegar no Acampamento Italiano.

Guardei as coisas e fui trocar de roupa pra começar o dia. Indo pro banheiro tropeço em uma esquadrilha de alumínio do diâmetro exato da vareta. Dei uma de McGayver e fiz o conserto, esperando que a barraca aguente as próximas noites…

O Italiano é o outro acampamento do governo, então ali certamente vamos ter que dormir nessa barraca mesmo. Se ela não aguentar o plano é tentar alugar uma barraca montada ou beliche nos outros campings que faltam – Francês, Central e Chileno.

A caminhada, de menos de oito quilômetros em três horas, foi tranquila. A cada vento que vinha, lembrava da noite não dormida. No lago Sköttsberg o vento dançava por cima das águas, um balé que deixou claro o que aconteceu na noite: ele vem soprando forte, rajada após rachada, e depois de cinco ou seis elas se cruzam e combinam, promovendo um redemoinho, que levantava a água do lago.

O Italiano é simples, parecido com os locais que acampava na AT. Mas com uma vantagem: é cercado de árvores, que o proteje dos ventos. No posto da guarda florestal, onde as pessoas deixam mochilas para irem ao Vale Francês (3 horas de caminhada, ida e volta) e ao Mirador Britânico (7 horas ida e volta) uma placa mostrava a previsão do tempo de ontem, hoje e amanhã: ontem o vento chegou a quase 100 km por hora…

Não está ventando forte, mas uma chuva fina chegou e a barraca está segurando bem. Sigo pensando em como a Alê deve estar realmente se sentindo. Eu sou um péssimo marido…

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