Pós-trilha

Tô sumido daqui, né? Não escrevi desde que voltei ao Brasil. Um misto de cansaço e desânimo tomou conta de mim nos primeiros dias, mas agora a coisa começa a voltar ao normal. Foi a depressão pós-trilha. Sim, ela existe. Não, não é lenda.

Quando estava nos últimos dias da Appalachian Trail pensava que quando chegasse ao Brasil iria fazer um churrasco para a família, um encontro em um bar de com os amigos, iria sair todos os dias para encontrar todo mundo… Mas não foi nada disso que aconteceu.

Passei os primeiros trinta dias em casa, sem colocar o pé pra fora. Só encontrei com minha família próxima – esposa, filha, netas, genro. Desmarquei o churrasco, não marquei o encontro no bar. Depois de um tempo comecei a melhorar um pouco: saí, encontrei umas pessoas, bati um bom papo com o pessoal do Esquema Novo (falo sobre isso abaixo), estava começando a me sentir melhor… e voltei de novo pro fundo do poço.

Os últimos dias foram difíceis e complicados. Estava bastante deprimido, irritado com tudo, cansado da minha vida. Não foi a primeira vez: já havia ficado assim antes. Algumas vezes. Sei o quanto essa instabilidade me atrapalha, pessoal e profissionalmente. Mas não é algo que consiga controlar. Caminhar foi uma das formas que encontrei pra enfrentar isso. Conversar também. O apoio de pessoas próximas é outra ajuda fundamental. Dessa última vez foi uma conversa com a Alê me puxou pra cima. Mais uma vez tenho que agradecer a ela.

E agora, dois meses após terminar a Appalachian Trail, começo, de novo, a colocar minha vida nos trilhas. É uma constante: construo, saboto, destruo, recomeço do zero. Desde que me conheço foi assim. Quando criança fazia karatê. Quando fiz a prova pra mudar de faixa pela primeira vez sabotei, chutei o balde, saí. Na adolescência, fazendo fanzine, a mesma coisa: quando estourou, começou a ficar reconhecido, deixei de lado e parei de fazer. Quando tive banda a mesma coisa: briguei com o povo e alguns deles não falam comigo até hoje. Depois teve faculdade, Motor Music, Austrália. Discotecagem, empregos, casamento. É a coisa começar a acertar, eu começar a ficar feliz e me saboto. Não deixo. Tristeza não tem fim, felicidade sim: fico deprimido, nervoso, perco o controle, brigo com todo mundo, penso em suicídio, abandono não só aquilo que começava a dar certo como todo o resto. Aí passo um período péssimo, na lama. Mas até agora conseguir sair e recomeçar.

Não, não gosto disso. Mas também não tenho controle. Infelizmente. Gostaria controlar mais, agora que sei que é assim. Tenho tentado. Caminhar me ajuda mentalmente com isso. Fisicamente também. Sei que só depende de mim, sei que não posso e não devo desistir. Solvitur ambulando, não é isso que eu mesmo digo?

“Nossa, te admiro demais. Que força de vontade você tem…”, já me falaram. Ah, se vocês soubessem…

O fato é que a trilha acabou, fiquei deprê por uns dias e agora estou voltando. Aos poucos.

Além dessa fase negra, algumas coisas (boas) aconteceram desde que pisei de novo no Brasil. A primeira foi a entrevista com o pessoal do Esquema Novo que falei aí acima. James, Terence e Fernanda são amigos das antigas, que me acompanham desde que vim pra BH. Encontramos pouco (menos do que eu gostaria) e sou fã de carteirinha do programa deles. O bate papo foi gostoso, informal, divertido. Dá pra assistir aí embaixo.

Outra coisa que rolou foi um podcast extra com o Elias para o Portal Extremos sobre (adivinha?) depressão pós-trilha. Fiquei mais na minha, não falei como gostaria, não expus tanto o problema. O Elias foi um amigo que fiz por causa da Appalachian Trail, deu um super apoio no projeto. Junto com a gente estava a Rose Eidman, que acabou esse ano a PCT. O podcast pode ser ouvido no Soundclound do Extremos ou na página do Portal. O link tá aí, só clicar.

Teve um bate-papo na Nerea, uma loja de aventura em BH que também me apoiou no projeto. Tinha prometido pra eles que voltaria lá pra uma conversa e fui cumprir a promessa. Foi vazio, mas com um público interessado. Tentei transmitir a conversa na minha página do Facebook e a maior parte da conversa tá aqui.

O último final de semana foi incrível, com família, peça infantil com a neta, ópera e show de novos grupos de BH com a esposa, onde reencontrei amigos que não via desde o início da AT. Talvez um dos melhores finais de semana (que se entendeu até segunda!) da minha vida. De verdade.

Também comecei a fazer alguns trabalhos, dos quais um em particular tem me deixado muito animado. Ainda não posso dizer o que é, mas é desafiador. Vou precisar estar focado, com a cabeça no lugar. Estou me dedicando a isso e espero que dê os resultados esperados.

Por fim, começo a fazer uns pequenos passeios. Estou no Rio, onde encontrei alguns amigos que me proporcionaram uma noite inesquecível. E amanhã participo de um Seminário em Itatiaia sobre a implementação de uma trilha de longo percurso por aqui. No final de semana cruzo com o grupo que estará no Seminário a Serra Negra, entre Itatiaia e Maromba, aqui no estado do Rio. Mas meu corpo dói como não doeu em nenhum momento durante a caminhada de 3500 km. Coxa, canela, pé, tudo incomoda logo nos primeiros passos. Pode ser a falta de costume, pode ser que tenha realmente extrapolado em algum ponto. Não fui ao médico, não procurei um profissional. Meu pulso direito também tem me incomodado alguns momentos. Estou esperando essa primeira caminhada pra ver como me saio. Se continuar doendo, procuro alguém. Se melhorar, deixo como está. Depois conto pra vocês como foi.

Recomeçar. É isso. Mais uma vez. Continuar caminhando em frente, pra que tudo volte ao lugar. Solvitur ambulando. Conto com vocês também nessa jornada.

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