Appalachian Trail S01E94/95

Dia 94, 17/07: Zero em Upper Goose Pond Cabin

Dia 95, 18/07: Upper Goose Pond Cabin (1548.1) a Dalton, MA (1568.7)

Distância do dia: 20.6 milhas | 33,15 km

Distância total: 1568.7 + 8.8 milhas | 2538,74 km

Distância que falta: 621.1 milhas | 999,56 km

Eu estava correndo em uma das ladeiras de Belo Horizonte. Fugia de alguma coisa, ou de alguém. À medida que ia subindo, segurava nos para-choques dos carros, velhos Fuscas e Fiats 147, pra pegar impulso. Finalmente vi um prédio e entrei. Subi correndo os degraus, até que uma corda prendeu minha perna. Tentei soltar, e outra prendeu o meu braço. Então eu entendi porque eu estava correndo: era uma caçada. A caça era eu. Finalmente me pegaram. Me amarraram de cabeça pra baixo e quando a faça entrou na minha barriga eu gritei.

Ouvi os resmungos das pessoas nos beliches ao lado e pelo menos um “what da fuck?”. Eu estava suando, com a boca seca e a respiração pesada. Tomei um gole de água, acalmei e voltei a dormir. Eu tenho pesadelos de tempos em tempos, desses de acordar gritando, mas era a primeira vez que eu tinha pesadelo “em público”.

No café da manhã comentei com Ruth e um section hiker que já estava também de pé as seis. “Eu ouvi alguém tendo um ataque de ansiedade à noite. Então foi você?”, ele comentou. A noite passada também tinha sido estranha: uma senhora estava ali com as crianças e uma delas, de uns oito anos, caiu do beliche. Da parte de cima… Não se machucou, felizmente. Além disso tinham os três cachorros zanzando pelo lugar. E Ruth e sua filha acordam cedo, às 4:30, pra fazer o café e as panquecas… Dormir ali, à noite, é complicado.

Durante o dia, ao contrário, o lugar é uma tranquilidade. Nadei, fui de canoa buscar água com Michael, o marido da Ruth, numa nascente, tirei uma soneca à tarde e consertei o forno à gás do lugar, que* tinha pifado. Por causa disso me convidaram pra jantar: salmão, salada e pão feito ali mesmo. No forno que eu tinha consertado… Me senti útil.

Eu e o section hiker, também mais idoso, fomos os primeiros a tomar o café. Quando saí me despedi de Ruth, Michael e Eleonor com um abraço e desejei “happy trails” pros hikers que estavam à mesa. Ninguém respondeu. Disse de novo, mais alto, e ouvi um ou dois retornos.

Saí determinado a chegar a Dalton antes do correio fechar pra pegar meu cartão de crédito. Andava rápido, mas no ritmo que costumo andar. Quando passo pelo quarto hikers do dia, ainda antes das oito, desejo um “bom dia” e escuto de volta um “onde é o incêndio?”. Sem parar solto um “hike your own hike”, o mote da AT. Ao pé da letra, “caminhe seu próprio caminho, meu caro”. Na minha tradução livre, “vai se fuder e fica na sua, seu filho de uma puta”.

Eu poderia acampar 3 milhas depois da cidade ou ficar ali, no quintal do Tom, um senhor bacana que há 37 anos deixa os caminhantes acamparem por ali. A casa fica bem na rota da trilha e quando fui passando ele me ofereceu um refrigerante. Casa bacana, quintal com grama boa, ar.ei a barraca e por ali fiquei. Fui buscar meu cartão (chupa Itaú!) no correio e voltei pra casa pra carregar o celular e a câmera. E outros hikers foram chegando, inclusive os do café da manhã na cabine.

Já final da tarde resolvi voltar à cidade. Talvez comer alguma coisa, com certeza tomar uma cerveja. “ Vou à cidade (city), alguém quer alguma coisa?”. O macho Alpha do grupo em pé ao meu lado, me olha e comenta: “À cidade? Vai demorar muito tempo”. “Eu vou ao vilarejo (town). Melhor assim?”. “Agora sim”, disse ele. Eu respondi: “você sabe como diz isso em outra língua?”. “Não”, ele disse. Eu soltei um hã e fui saindo…

Na volta passo por ele indo pra cidade e não resisto: “hey, qual a graça em ficar tirando onda se eu não falo a sua língua perfeitamente? Qual é a sua?” Ele diz que não queria me ofender, que só fez um comentário… E eu possesso…

Talvez um hiker que encontrei outro dia esteja certo. Ele diz que fez quatro vezes o Caminho de Santiago e que tudo o que ele mais amou por lá – os peregrinos – ele está odiando aqui. “A maioria dos hikers é o lixo da sociedade. Um bando de moleques que só quer saber de fazer farra”. Não tem nada que eu odeie mais na trilha que as Trail families, esse bando de gente andando junto. Amanhã, se tudo correr bem, saio cedo e deixo esse bando pra trás.

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