Appalachian Trail S01E61

Dia 61, 14/06: Pass Mountain Hut (943.2) a Front Royal Hostel (965.3)

Distância do dia: 22.1 milhas | 35,56 km

Distância total:  974.1 milhas | 1567,66 km

Dois meses de trilha. Vocês não tem ideia de como uma coisa dessas muda você. Fisicamente, psicologicamente, emocionalmente. Num tempo desses tudo pode acontecer. Perdi até agora pouco mais de dez quilos. Isso porque tenho comido tudo o que tenho direito: torres de panquecas, um frango assado inteiro, uma garrafa de dois litros de refrigerante. Manda ver. E o corpo só afinando… Já sofri com dores nos joelhos, nas canelas, nos tornozelos, nos ombros, nas costas, nos fêmures! Já tive caganeira no meio do mato, já fui atacado por mosquitos, já peguei sol, chuva, neve. Já senti frio de não conseguir dobrar os dedos pra montar a barraca. Já suei bicas. Mas me sinto bem, apesar de tudo. Mais focado, mas ciente dos meus limites. Estou mais despreendido, mais desapegado. O botão do foda-se agora é acionado bem mais facilmente… Vejo com mais clareza onde posso chegar. Não estou me preocupando demais, estou mais relaxado. Tenho me socializado mais, apesar de ainda achar que 90% do que as pessoas falam não merece meu comentário. Estou com saudades de tudo e de todo mundo, mas sei que estão lá – aí, no caso – e muito provavelmente ainda estarão quando eu voltar. Não tenho domínio sobre todas as coisas. Melhor assim.


Nesses 60 dias já perdi amigos e parentes. Outros quase se foram, mas felizmente ainda estão por aí. Já sofri pra cacete, já vivi momentos incríveis. Como diria o Robertão, já chorei, já sorri, e mais importante, emoções vivi. Caminhar a Appalachian Trail, tá cada dia mais certo, não é pra qualquer um. Todo dia vejo gente que eu jurava que iria até o fim jogando a toalha. O trem né mole não, filhão… E olha que ainda não cheguei nem na metade…


Ontem caminhei boa parte do dia com o Candyman. Ele está na mesma faixa de idade que eu, caminha um pouco mais lento, mas segura bem o pique. Saiu antes de mim do acampamento e passei por ele sentando ao telefone no topo de uma das montanhas. Logo depois ele me alcançou, quando a gente chegava em um camping. Ele tomando um sorvete, eu um mega café da manhã com tudo que tinha direito, os dois sentados em uma mesa de piquenique. “Preciso chegar em Front Royal até amanhã de manhã. Minha esposa está vindo passar uns dias comigo. Comecei dia 5 de abril. Já tem muito tempo que a gente não se vê…”


Queria eu poder ter essas possibilidades que os americanos tem. Muitos fazem isso: a família vem encontrar na trilha, ou tiram uns dias e vão pra casa, como eu fiz durante a Estrada Real. Mas no meu caso não rola. Ou até rola, mas é financeiramente inviável.


Candyman saiu antes de mim. Terminei meu café e comprei um sanduíche e uma cerveja pro almoço. Ela esquenta, claro, mas as calorias extras ajudam. E melhor cerveja quente que Coca-Cola. Subindo a montanha passo por ele de novo. “Meu, já engoli tantos mosquitos que nem vou precisar de proteína extra no final do dia”, brinquei. “Você disse que estava sem comida…”, ele respondeu. Era verdade: o sanduba e a cerveja eram as últimas coisas de comer que eu tinha na mochila. Pior: tinha olhado a minha carteira e só tinha 50 dólares. E o meu cartão do banco não tem funcionado direito…


Parei em uma vista e enquanto tomava a cerveja ouvi os bastões​ de caminhada do Candyman batendo nas pedras do caminho. Não o vi mais depois disso. Fiquei ali um tempo e segui. O hostel que escolhi ficar é próximo do último marco da AT dentro do Shenandoah. Cheguei e não vi ninguém. Um aviso na porta mandava entrar e ficar  vontade. Abri a geladeira, peguei uma lata de refrigerante e colocava o gelado na canela quando Mike, o dono, chegou. “Ih, torceu o tornozelo…”, ele comentou.


Expliquei pra ele minha situação: eu tinha 50 dólares no bolso. Não sabia se ficaria uma noite ou duas. Queira ficar duas, mas pra isso precisaria tentar sacar dinheiro num banco. Senão ficaria só uma e teria dinheiro pra comprar comida pros próximos dois dias, quando chegaria em Harpers Ferry, onde sei que além de um novo par de tênis tem uma caixa com comida e uma nota de cem dólares me esperando. “Não se preocupe”, ele disse. “Você dorme aqui hoje. Amanhã te deixo à norte na trilha e você volta caminhando. E quando chegar a gente vai à cidade. Hoje já não consigo te levar. Relaxa e toma um banho e amanhã a gente vê isso”.


O preço da diária no hostel, 30 dólares por dia, inclui uma pizza e um refrigerante, além da cama e suas roupas lavadas. Por 50, o que eu tinha, ele ainda te deixava em outro ponto da trilha, além da segunda noite. Era o que queria.


Tomei meu banho e quando olho para a Hiker box do lugar tinha tudo o que eu precisava: umas 20 barras de proteína; saquinhos de oatmeal, grits e chocolate em pó; fitas adesivas pra contusões, dessas que atletas usam; cremes à base de mentol… The Trail provides..


Por precaução peguei toda a comida que tinha. Procurei no YouTube um vídeo de como colocar as tais fitas, que nunca tinha usado. Passei o creme e fui pra sala conversar com o resto do pessoal. Desliguei a TV e fiz uma seleção dos discos de vinil do Mike. Passamos horas batendo papo e ouvindo Dylan, Cohen, Simon & Garfunkel, Janis. Eu de perna pro ar, trocando os discos e costurando minhas meias. 


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