Appalachian Trail S01E47

Dia 47, 31/05: Niday Shelter (685.6) a VA 624, Newport Rd (702.4)

Distância do dia:  16.8 milhas | 27,03 km

Distância total:  711.2 milhas |  1144,56 km


Audie Leon Murphy é um herói americano. Foi o soldado mais condecorado da Segunda Guerra Mundial, com 24 medalhas. Com o final da guerra, Murphy foi capa da revista Life, o que o levou a Hollywood. Trabalhou como ator em dezenas de faroestes, contracenando com James Stuwart e John Huston. A importância de Murphy é tão grande que 20 de junho, o dia do seu nascimento, é conhecido como Audie Murphy Day. Ele lutou na Europa, sobreviveu aos horrores da guerra e morreu em um acidente de avião exatamente há 46 anos, em maio de 71.


Tentei acordar cedo pra sair na frente da bolha mas ela se move rápido. Às sete boa parte das barracas já estavam desmontadas. Conversei o usual com o Birdie, uma rapaz falador de vinte e poucos anos. Por dois dias a gente vem caminhando perto um do outro, ele sempre de papo com alguém. Nessa manhã ele me perguntou o de sempre: como dormiu, quantas milhas espera andar, onde vai dormir. “Acho que no Four Pines Hostel”, respondi. “Ouvi dizer que é uma experiência”, ele disse. “Um party hostel. Tem gente que gostou, outros que odiaram. Você paga o quanto quiser, mas o dono de lá parece ser bem legal. Mas é uma experiência… Nos vemos lá mais tarde”. Eu saí algum tempo depois, um dos últimos a deixar o shelter.


Na manhã​ fui passando o pessoal que tinha acampado comigo. O último foi o Birdie. Ele estava sentado ao lado da Spitfire, uma garota de cabelos ruivos, no topo da montanha, em um dos bancos próximos ao monumento à Audie Murphy. “Ei! Como foi sua manhã? Pode sentar aqui com a gente, se quiser. O monumento é logo ali na frente”. O avião em que Murphy viajava se chocou exatamente na montanha onde a gente estava.


Não sentei. Ainda tinha mais pelo menos dez milhas pela frente e queria chegar ao hostel o quanto antes. Não falava com a Ale há quase três dias e queria resolver a história do meu telefone. Dei uma olhada no monumento e segui direto. Mais uma descida, outra subida, uma última descida e pronto, cheguei.


Fui imaginando que o caminho seria similar aos dos dias anteriores. Mas na trilha cada dia é uma surpresa. No meio da descida uma caminhante já alertou: “assim que você chegar na estrada tem um rio, e ali é seu último local de água pelos pelas próximas 8 milhas. Melhor se prevenir…” Enchi a garrafa e comecei a subir. E o caminho era só pedra. Diferente dos dias anteriores, os trechos aqui eram complicados, exigindo mais preparo físico e concentração.


No topo, logo depois de cruzar a marca de 700 milhas, encontrei com Turquoise e Dyogenes sentado em uma vista. “A gente guarda uma dose de whisky pra cada marco que a gente passa”. Logo depois foi a vez de encontrar com o Stick in The Wood, um professor de quase 60 anos que já havia esbarrado em Damascus. Ele começava a se preparar pra descida. “Pode ir na minha frente. Você é mais rápido que eu”, ele disse.


A descida era uma parede. Literalmente. Em alguns pontos uma escada foi colocada pra ajudar. No geral os bastões eram inúteis: era preciso usar as duas mãos para se segurar nas pedras pra descer. Mais um de quilômetro de escalada. Estava planejando chegar à pousada bem antes das duas. Cheguei depois das três.


O lugar é mesmo uma experiência. Parece um bar moderno e descolado. Uma garagem nos fundos de uma fazenda transformado em hostel pros caminhantes. Sofás e poltronas dividem espaço com geladeiras e caixas de ferramentas. Um único banheiro pros 20, 20 e poucos caminhantes que passam a noite – e as vezes o dia – ali. Na porta o recado: “se for líquido faz na grama que é ok. Se for sólido use o banheiro”. Banheiro esse que também é o chuveiro… E sim, o dono é bacana. Te leva de graça até o mercado próximo – uma loja de conveniência ao lado de um posto, mas que vende pizza, sorvete e cerveja, tudo o que eu precisava – e passa o fim da tarde batendo papo e tomando cerveja com você. O pagamento do hostel é por meio de uma caixinha perto da porta: deixe quanto quiser.


Passo a noite em um dos sofás e saio amanhã cedo. O dia vai ser curto novamente, mas cheio de emoção: vai ser dia de cruzar McAfee Knob, o ponto mais fotografado da Appalachian Trail. 

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