Appalachian Trail – interlúdio

Volto a andar amanhã, domingo, dia 21 de maio, depois de praticamente uma semana parado aqui em Damascus. Parte por culpa da perda do telefone – se não fosse isso eu teria andado pelo menos de segunda a quarta – e parte por causa do Trail Days – se tivesse perdido o telefone mas não tivesse o festival provavelmente teria voltado e ficado aqui umas duas noites e teria voltado a andar na quarta ou quinta.

Fato é que eu já tinha tirado duas noites aqui quando cheguei e depois tirei mais seis – três no Woodchuck’s e mais três aqui no The Place. Sete zeros no total, além do que eu já tinha tirado na CeeCee… Foi demais.

Cheguei aqui em Damascus no dia 13 de maio, sábado, 29° dia de caminhada. Naquele dia completei 470 milhas oficiais, 488.8 incluindo a Approach Trail, 770 quilômetros em bom português. Tinha, então, uma média de quase 16 milhas por dia, 26,5 km diários. Mesmo que contasse o zero do 30° dia seria uma média de 15,5 km em trinta dias. Tirando dois zeros por mês eu faria a trilha em 142 dias. Ou me daria o direito de parar mais uns dias e terminar no 7 de setembro, como planejado.

Agora, com essa semana de folga – necessária, mas não deixa de ser de folga – eu estou no 36° dia. E a distância oficial está na milha 474.6 – incluindo aí as quase 5 que andei até perder o telefone. São 483.4 milhas incluindo a Approach Trail. A média diária caiu para 13,5 milhas. Pouco menos de 22 km por dia. A diferença parece pouca, mas se mantiver essa média só termino a Appalachian Trail na segunda quinzena de setembro. Lá pelo dia 25, na verdade…

O que quer dizer que se quiser mesmo completar no dia 7 de setembro vou ter que apertar o passo. Ainda me faltam 1715 milhas – 2760 quilômetros. É chão… E até o dia 7 de setembro, minha meta, faltam 110 dias. Ou seja: pra terminar quando eu quero vou ter que voltar a fazer as mesmas 15,5 milhas que vinha fazendo até então. Ainda posso prever dois zeros por mês, nada mais. A não ser que passe a render mais do que vinha…

Aí vem o problema: é quase certo que isso aconteça esse mês. Virgínia, dizem, é mais fácil. Mas a coisa complica quando se chega a Pennsylvania e New Hampshire. A ponto do seu rendimento cair a um terço do que era até então. Então eu preciso apertar o passo agora pra ter uma folga lá no final.

Tem mais: entro agora oficialmente​ na bolha. A grande maioria das centenas de pessoas que estão aqui em Damascus para o Trail Days estão aqui mesmo na trilha. Ou seja: começam a caminhar amanhã a partir aqui da cidade, como eu. Tenho a vantagem de já ter feito essas cinco primeiras milhas, o que me permite pegar uma carona ou seguir pela Creeper Trail, a que fiz de bike, mais plana e curta. Mas fato é que amanhã a trilha vai estar lotada…

Depois que publiquei o post anterior fui pro desfile. É uma Praia da Estação, um desfile tosco com a Rainha da Trilha (tem isso mesmo…) e gente fantasiada – o tema desse ano, me falaram, era irlandês. Mas tinha mais homem de vestido que qualquer outra coisa. Sério: alguém me explica essa fixação? Mas quem faz mesmo o desfile são os hikers. Tinha gente que fez a trilha em 1979! A ala final, a maior e mais barulhenta, são dos hikers desse ano. Fiquei ali um pouco na concentração, depois fui cortando caminho e ficando mais no meio fio que no desfile mesmo. Só me juntei quando vi Amanda, mas dei uns pouco passos do lado dela é saí à francesa, bem quando a chuva chegou.

Nesses dias de Trail Days cheguei à conclusão que a trilha vai revelando quem você é realmente. Na minha preparação queria estar aqui e tinha planejado fazer tudo que o festival oferecia. Mas acho tudo chato, bagunçado, gente demais, falação demais, alegria demais. Como carnaval. E eu definitivamente não gosto disso. Não me encontro nesses lugares, nessas ocasiões. Fico completamente sem lugar. Fogueira, tambores, Tent city, desfile? Tô fora. Nem coisas mais intimistas – a fiesta do The Trek, por exemplo – eu animo. Chatisse minha, eu sei. Mas não pra mim não rola…

Mas amanhã estarei de novo sozinho, no mato, tentando terminar essas 2760 quilômetros que ainda me faltam. Ainda tem muito chão. Ainda tem muita história…

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4 comentários sobre “Appalachian Trail – interlúdio

  1. Sigo você desde do início, quando vi você zerar uma semana , pensei vai fazer falta. Emprevistos acontecem , sou como você me sinto deslocado nestas ocasiões. Boa trilha, que consiga tirar a diferença é terminar no 7 de Setembro. Boa sorte

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