Appalachian Trail S01E46

Dia 46, 30/05: south of VA 613 (660.2) a Niday Shelter (685.6)

Distância do dia:  25.4 milhas |  40,88 km

Distância total:  694.4 milhas |  1117,53 km


“Décimo terceiro das cinco últimas milhas. Ontem foram 45 hikers. Tem uma bolha gigante aí na sua frente…” Um caminhante que vinha no sentido oposto me deu a informação do que me esperava. “Na verdade acho que estou é no meio dela. A situação aí pra trás não é muito diferente não”, retruquei.


A trilha a partir de Pearisburg não tem muita variação de altitude. Pelo menos não igual aos estados anteriores. Mas isso não a deixa menos difícil. A coisa é assim: você está em uma estrada, quase sempre de terra e sem movimento. A partir daí a trilha sobe umas 3 milhas. Você vai desviando do barro ou das pedras, até chegar no topo, onde a trilha fica mais plana. São umas cinco milhas por pedras. Ou blocos irregulares de máximo um metro, que você vai pulando de um pra outro, ou grandes blocos inclinados, que te força a andar torto. Não tem água, pelo menos não aparente. Mas ela está lá, correndo por debaixo das pedras, o que justifica a vegetação: muitas samambaias… No final deste trecho, que já é bonito, uma vista. Na descida, mais três milhas de barro e pedras, até chegar a um riacho e um abrigo. Daí é descer um pouco mais e chegar em outra estrada de terra, e a coisa se repete.


É puxado. Se você vem fazendo quinze milhas por dia, é a conta de fazer um circuito desses. O que significa que você precisa carregar comida pra pelo menos uns 5 dias. A maioria dos hikers faz essa média. Pra piorar, com tanta pedra e tanto barro, são poucos os lugares pra acampar. Eu fiz 25 milhas hoje. Ontem também. Cinquenta milhas em dois dias. Quatro desses circuitos. Meus pés estão doendo, e pior: estou com uma leve torção no tornozelo direito…


Cinquenta milhas são 80 quilômetros. Nada irrita mais que esse sistema de medidas dos Estados Unidos. Ninguém mais no mundo sabe quanto é uma milha, um galão, uma onça. Coisa irritante. Eu uso um aplicativo pra converter, mas mesmo assim me embanano. A última vez com o tênis. No último hostel resolvi aproveitar uma promoção na REI e comprei tênis novos. Na hora de escolher a numeração olho o primeiro número na língua do tênis: 8.5. Como meu pé tá crescendo (acredite: seu pé cresce numa caminhada dessas) pedi o 9. Horas depois, sei lá porque, resolvi conferir. 8.5 era o número inglês. Nos EUA seria 9.5. Eu teria que comprar o 10, não o 9. Liguei e tentei trocar o pedido. Já era. “O que posso fazer é mandar pra você o correto e quando você receber você devolve o errado. Ó, no seu pedido está “please hold for Hiker”. No novo vou colocar “please hold for THRU Hiker”. Assim você sabe qual é o certo”. O sistema de medidas é péssimo, mas essa atenção ao cliente é demais…


Durante o dia fui contando. Passei pelo cara que deixou a mochila na beira da trilha pra ir ao banheiro, logo depois por outro que parou pra almoçar. No carvalho mais antigo da AT – mais de 300 anos – passei pelo cara de chapéu e na subida do morro – o terceiro do dia – pelos dois caras mais velhos. As duas amigas eu passei logo depois das torres de energia e não passei em nenhum dos dois abrigos, ambos uns metros fora da trilha, mas deveria ter alguém por lá. Metade dos 14, no mínimo.


Ainda assim quando cheguei no abrigo que iria passar a noite tava lotado. Além das 6 pessoas dentro, pelo menos uma dezena de barracas fora. Achei um canto plano e montei também a minha. Esbugalhado como estou, amanhã ando no máximo umas 16 milhas e paro num hostel, se bobear pra um zero. Só preciso garantir que chego antes da bolha…

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Appalachian Trail S01E45

Dia 45, 29/05: Pearisbourg (634.3) a south of VA 613 (660.2)

Distância do dia:  25.9 milhas |  41,68 km

Distância total:  669 milhas |  1076,65 km

Alguns dos melhores whiskies dos Estados Unidos são feitos no Tennessee. O Jack Daniels é só a marca mais famosa, mas existem diversas outras marcas menores e tão boas quanto. Algumas até melhores, diriam alguns. Uma em especial pode até salvar a sua vida. Pergunte a um hiker australiano que fazia a AT no ano passado. Ele ganhou uma dessas garrafinhas de dose do tal whisky (não me pergunte, não sei a marca), colocou em algum bolso da mochila e esqueceu. Certa noite, frio e chovendo, se levou da dose. Levantou da barraca e foi buscar a garrafinha na mochila. Nesse exato momento uma árvore desaba e acerta em cheio a barraca do australiano. Salvo pelo whisky do Tennessee

Lembrei dessa história porque o plano do dia era sair de Pearisbourg e andar umas 18 milhas até o Pine Swamp Branch Shelter. Mas ontem no hostel mesmo vi que o estava interditado, bem como uma boa área no entorno dele, devido ao risco de árvores caírem. A culpa não é nem da chuva nem da terra macia no lugar, mas da mariposa cigana. Tipo o que acontece com os ficus de Belo Horizonte. Muitas das árvores próximas ao shelter estão de pé, mas estão mortas.

O abrigo fica próximo a um rio, o Stony Creek. A descida para o vale e a saída dele é de impressionar. São dezenas de árvores tombadas, de todos os tamanhos. Algumas já foram serradas ou tiradas pelo pessoal que faz a manutenção da AT, mas em muitos casos é preciso passar por cima, por baixo ou desviar dos troncos.

Não foi só esse o desafio do dia. Longos trechos sem água e com bastante pedra marcam as proximidades dos dois outros abrigos que passei. Cheguei no Balley Gap, que fica a 5 km do Pine Swamp, já umas 5:30 da tarde. Mas estava lotado: era um dos poucos locais possíveis de ficar, mesmo acampando, em um longo trecho. Resolvi andar um pouco mais pelo menos até um ponto de água que existia logo depois. Mais pedras, nada de acampamento…

Já tarde e eu cansado, minha tática nessas situações é a seguinte: pegue o máximo de água que der e acampe no primeiro lugar que aparecer. Foi o que fiz. Três litros de água, sufiente pra fazer o jantar e matar a sede, e na primeira clareira que surgiu montei minha barraca.

Eu carregava na mochila o dia todo uma lata de cerveja que tinha sobrado de ontem. Fiz um frango teriaki, temperei com um vidrinho de Tabasco que tinha pegado numa Hiker box, abri minha cerveja e aqui estou. Nenhuma árvore caiu, mas essa cerveja salvou a minha vida.

Appalachian Trail S01E44

Dia 44, 28/05: Wapiti Shelter (616.5) a Pearisbourg (634.3)

Distância do dia:  17.8 milhas |  28,65 km

Distância total:  643.1 milhas |  1034,97 km

Sou uma pessoa extremamente conectada. Passo boa parte do meu dia “normal” na frente de um computador. Acesso a internet por qualquer motivo. Meu telefone é meu assistente pessoal. Vive no meu bolso e é minha agenda, despertador, bloco de notas, câmera, tudo. Minha vida atual depende de informática. A sua também, acredito.

Mas eu tenho uma teoria. Quando essas coisas tecnológicas começam a dar problemas em sequência eu acredito que é um sinal. Veja: perdi meu celular, o computador da Ale deu pau, depois o celular dela, aí meu Spot morreu e hoje meu celular novo, o que eu comprei há 15 dias, deu biziu. É um Motorola pré-pago da Verizon, que vem de fábrica com um sim card Verizon, mas desde ontem ele não funciona. Ele mostra a mensagem que o sim card não é Verizon…

Na minha cabeça isso quer dizer: se afaste da tecnologia. Embrace the Woods. Se entregue 100% à sua caminhada, esqueça essas coisas modernas, vá curtir a caminhada com as primeiras pessoas que caminharam essa trilha curtiram. Mas tem a Ale, que fica preocupada quando sumo por um tempo, e família, e tudo mais…

Independente de qualquer coisa, o fato é que fico sem celular pela próxima semana.

De volta a trilha, o grande fato do dia foi passar a marca dos MIL quilômetros. Pouco menos do que fiz na Estrada Real. Fisicamente estou bem melhor. Nada de bolhas. Nada de unhas perdidas. Joelhos ok. Pernas ok. Nenhum problema físico. Muito culpa dos equipamentos.

A topografia da AT é próxima da ER, mas ao mesmo tempo é muito pior. Elevação é similar, mas enquanto na ER você segue por estrada, aqui é no mato, com muito mais obstáculos. O tempo aqui está muito pior do que o que peguei na ER. Isso, além dos dias zero em Damascus, explicam, em parte, o por quê de ter gastado 43 dias pra fazer 1000 km aqui e menos de 30 na ER.

O caminho até Pearisbourg foi tranquilo. Cheguei na estrada que dá acesso à cidade e fui “sequestrado” pelo Rabbit, que estava indo buscar outros hikers. Iria ficar no hotel, mas acabei indo pro hostel dele. Fiz bem. Às noite fizeram chili para os hikers e agora pela manhã um bom café, bem típico do sul dos EUA.

Tentei resolver a coisa do telefone, sem sucesso. Ontem fui numa loja da Dollar General, onde comprei, mas como não tenho mais o recibo, nada feito. Liguei na Verizon, nada.

Fui ao supermercado e de novo esbarro com o Dancing Bear. Ele tem o mesmo modelo de telefone que eu. “Ei, Dancing Bear, você ainda tem o recibo do seu telefone?” “Yes”. “Sério? Me empresta? Preciso trocar o meu.” “Não está aqui. Está no hotel.” “Beleza. Vamos lá pegar…” “o que é um recibo?” “Aquele papel que o caixa te entrega quando você compra um produto…” “Ah, não tenho. Joguei fora…” Comprei um six-pack de uma pale ale local e voltei pro hostel. Cerveja e chili. Quem precisa de celular, né não?

Appalachian Trail S01E43

Dia 43, 27/05: Norte de Helveys Mill Sherter (593.3) a Wapiti Shelter (616.5)

Distância do dia: 23.2 milhas |  37,33 km

Distância total: 625.5 milhas | 1006,32 km

Tô fazendo tanta confusão com esses dias e distâncias que nem mais sei que dia estou. No Saint Luke Hostel eu corrigi a contagem​ dos dias porque botei na cabeça que estava errado. Mas não. Os dias estavam certos. Quem estava errado era eu. Então hoje foi o 43° dia mesmo, já que comecei no dia 15 de abril. É isso mesmo né? Vou refazer as datas nos posts anteriores…

Outra coisa é a contagem dos quilômetros. Na distância total lá em cima eu já passei dos mil. Mas isso porque ali eu cobro a trilha de aproximação, que são pouco mais de 14 km. Na contagem da Appalachian Trail ela não conta. Então estou na verdade na milha 626.5 ou quilômetro 992,15. Deu pra entender? Passo os mil quilômetros da AT amanhã de manhã.

O dia foi daqueles chatos, mas tão chatos, que fiquei pensando em coisas pra poder escrever e encher linguiça, porque senão seria só reclamação. Uma era essa correção dos dias e quilômetros. Outra era contar como funcionam as trilhas por aqui. Em todos os pontos próximos a estradas ou rodovias – as principais, normalmente não nas estradas secundárias e de terra – existe um painel de informações para os caminhantes. Coisas como o que fazer se você ficar perdido, os telefones da polícia florestal ou dos responsáveis por aquele trecho, como se portar se encontrar animais como ursos ou cobras e dicas sobre a política de Leave No Trace, Não Deixe Rastros. Além disso os painéis tem cópias de documentos que comprovam que aquela área é uma área de Wilderness, uma reserva  selvagem que pode ser visitada pelo público. Outra coisa que existe nessas “entradas” são caixas de registro como essa aí da foto. Dentro da caixa um caderno e um lápis ou caneta onde quem passou ali deixa seu nome e a data. O mesmo acontece nos abrigos. E ali as pessoas deixam dicas e recados pra quem chegar depois. Eu, por exemplo, vinha acompanhando a Amanda por esses livros, e via que ela recentemente estava um dia na minha frente. Nesse abrigo que estou acampado tem informações sobre uma cobra preta que mora por aqui. “Ela é gente boa, deixa o abrigo livre de ratos. Cuide bem dela”, dizia alguém…

O dia foi chato não por causa de subidas e descidas, mas por causa da lama. Muita, todo o tempo, te obrigado a andar com cuidado. Leveiru primeiro tombo, se gravidade. Em alguns trechos o pessoal tenta ajudar colocando galhos ou pedras, mas nem sempre é possível. E a lama certamente estava pior por causa da chuva que caiu durante a semana – hoje felizmente fez sol – mas isso era só um detalhe. A região é quase um pântano, com água brotando por todo lado. Então a lama é parte do ambiente.

A cachoeira que existe no meio do caminho ajudou pra aliviar um pouco a tensão nos pés. Foi bom tirar os tênis e deixar a água gelada bater nos pés doídos. Passar a marca das 600 milhas também. Cada março desses é a certeza que o final está um pouco menos longe…

Com todo o barro, lugar pra acampar é mais difícil e a ideia era ficar perto do abrigo. Quando chego, lá pelas cinco, a primeira coisa que vejo é uma mochila branca na mesa de piquenique. “G.I.Jane! Pensei que só fosse te ver amanhã!” G.I.Jane é a Amanda. Ela ganhou o trail name não só porque raspou os cabelos mas também porque é durona: tá com os joelhos detonados, além de cabelos, mas continua firme. “Menina, vinha pensando que não tinha nada sobre o que escrever hoje e aqui está você! Já tenho assunto. The trail provides!”

Daí a pouco a dona do lugar aparece. A cobra cruza por trás do abrigo e se abriga debaixo dele. 

Ficamos batendo papo e montando as barracas até que chegam mais dois hikers. “Speedy Gonzalez!” Era o Dancing Bear. “Conseguiu chegar a tempo em Bland? Eu cheguei lá às quatro. Você deve ter chegado às três…” Eu tinha chegado às duas…

Mais gente vai chegando e o shelter vira a sala de encontro a que é. “Quanto falta pro próximo hostel? Em qual shelter você ficou noite passada? Quantas milhas fez hoje? Onde vai ficar amanhã?” As perguntas são as mesmas, os personagens mudam dia a dia. Mas alguns acabam se tornando frequentes.



Appalachian Trail S01E42

Dia 42, 26/05: VA 623, Saint Luke Hostel (574.3) a norte de Helveys Mill Sherter (593.3)

Distância do dia: 19 milhas |  30,58 km

Distância total: 612.3 milhas | 985,40 km

O papo rendeu ontem no hostel. Já na minha roupa habitual, ficamos um bom tempo conversando. O Bill cozinhou o melhor jantar​ da trilha até agora. Comida de verdade, do jeito que gosto. Fez um frango assado na gordura de bacon, purê de batatas e legumes cozidos. Confort food. Simples e gostoso. Com uma cerveja então…

Pela manhã, waffles e bacon, que dei bobeira e acabou antes de eu chegar na cozinha. Compensei com um abacate que estava ali e eu já estava namorando. Acho que saí no lucro…

Bill me deixou na trilha já era quase nove e meia. Eu tinha um objetivo: chegar a Bland, a 25 km dali, antes das quatro. Precisava pegar uma caixa no correio. Saí andando mais depressa que o usual. Duas da tarde eu estava chegando na estrada que corta a trilha. O correio fica a mais 5 km dali, fora da trilha. Ou pagava 10 dólares pro cara do armazém me levar e trazer de volta ou iria a pé.

Foi o que fiz. E foi a melhor opção. Cheguei no correio às três, peguei minha caixa – nota: só mandei uma caixa com comida pra três dias porque alguém tinha me dito que não existia nada perto. Mentira. O próprio armazém tem alguns itens básicos, existe um bom supermercado na cidade e Perisburgh, a próxima cidade, está a pouco mais de 35 milhas daqui. A caixa foi desnecessária… – e sentei no banco em frente à agência pra abrir e colocar as coisas, que eu nem lembrava mais o que era, na mochila.

Aí chega o Storyteller. E com esse nome, meu amigo, senta que lá vem história. Pra início de conversa ele fez a trilha de norte a sul em 1972. Eu tinha um ano. Hoje, além de cuidar da sua fazenda, cuida também da manutenção de boa parte da trilha. Ficamos mais de meia hora batendo papo. E como bom hillbilly, Storyteller me contou boas histórias. Como a do dia, já escurecendo, ele encontrou com uma hiker baixinha, miúda, e que vinha carregando uma mochila enorme. Do lado de fora da mocha quatro garrafas de vinho… “A mochila deveria estar pesando mais que o peso dela”, ele contava. E ele perguntou o porquê dos vinhos. A moça entrou numa loja e o vendedor disse: “pega o que você precisar que a gente tá fechando”. Ela olhou as horas e era pouco mais de três da tarde. Ela achou estranho a loja fechar naquele horário. O vendedor repetiu e aí caiu a ficha: a loja estava fechando pra sempre, saíndo do negócio. “Já imaginou falar isso pra um Hiker?”, comentou o Storyteller. E continuou: “ela pegou o que pode de comida pro resto da trilha. E quando a mochila já estava cheia ela viu os vinhos… não teve dúvida: colocou as garrafas do lado de fora da mochila e iria levar até o próximo abrigo, onde seus amigos estariam. Mas já estava escurecendo, e aquela deveria estar realmente pesada. Ela não estava conseguindo andar. Consegui ajudá-la por uma milha, mas ela ainda tinha umas cinco até o shelter. Deve ter chegado lá bem tarde. E acordado todo mundo. E aposto que ninguém​ reclamou…”

Contou também do dia que precisou ir prender a sinalização que mostrava o caminho para um outro abrigo, que ficava um pouco afastado da trilha. Como a estaca se soltou ficou no mistério por um bom tempo, até o dia que um hiker contou o que aconteceu. Tinha esse cara que gostava de duas coisas: caminhar até tarde e sempre ouvindo música​, sem fones de ouvido. E chegava nos abrigo e acordava todo mundo com o som saíndo do alto falante. “Como ele caminhava à noite, o pessoal foi lá, arrancou a placa, cobriu o buraco com folhas e o chato passou direto, até o próximo shelter. Na manhã seguinte eles foram lá e colocaram a placa de volta. Por isso ela está solta…”

Ótimas histórias. Fiquei até com vontade em passar a noite em Bland, mas na cidade só tem um hotel, caro. O hostel mais próximo fica afastado do centro… Passei no supermercado, comprei um sanduíche, que comi na mesa de piquenique da praça da cidade e voltei os 5 km caminhando. Depois foram só mais uns 4 até chegar onde estou agora, já noite, com a lanterna na cabeça acessa e ouvindo música no meu celular sem fones de ouvido. Mas estou acampado sozinho, sem ninguém por perto pra se incomodar…

Nota final: meu Spot morreu. Parou de funcionar. Já troquei de pilha e nada. Já tentei alimentação externa e nada. Então se você estiver acompanhando pela página do Spot foi ficar offline por um tempo…😑

Appalachian Trail S01E41

Dia 41, 25/05: O’Lystery Pavillion (556.5) a VA 623, Saint Luke Hostel (574.3)


Distância do dia: 17.8 milhas | 28,65 km

Distância total: 582.8 milhas | 937,92 km


Quando eu era criança, devia ter uns 2 ou 3 anos, minhas irmãs  mais velhas me vestiram de menina e me levaram na vizinha dizendo que eu era uma prima que morava noutra cidade e que estava ali de passeio. Não sei se a vizinha descobriu  o que era eu, mas na minha família sempre usam esse fato pra me sacanear…


A noite no acampamento foi dureza. Pode parecer loucura, mas o barulho do rio que passava ao lado do camping manteve acordado a noite toda. Aquele som continuo, de água correndo, não me deixava dormir. Ou achava que era chuva ou pensava que a barraca ia ser inundada. Ficar no meio do mato tem dessas coisas: tranquilidade é tranquilidade de verdade…

Acordei de madrugada ainda, mas enrolei até o dia clarear. Esperar o sol sair era em vão: ele iria ficar encoberto o dia todo. Ainda antes das 8 comecei a subir a montanha. A primeira do dia. 


“Virgínia é plana”, a mentira do século… foram pelo menos três subidas brabas no dia. Na última delas o destino era o Chesnut Knob Shelter, um abrigo fora dos padrões da AT. Todo de pedra, ele tem porta, ao invés das paredes abertas dos outros. Fica no topo de uma montanha aberta, sem árvores, o que explique. Cheguei lá pouco depois do meio dia, tremendo de frio – a temperatura tinha caído pra 5 graus e a neblina impedia de se ver um metro à frente. No shelter estavam o Tripod é o Dancing Bear.  Eu só queria entrar, botar uma blusa de frio – vinha caminhando com short e camiseta, as únicas coisas que estavam secas depois de dias de chuva – fazer um café e seguir andando.


Quando comentei meus planos, Dancing Bear se interessou. Parênteses para o Dancing Bear: ele é alemão, e começou a trilha com uma mochila que pesava 30 quilos. Desapega daqui, se vira dali, chegou a 18. Ainda pesado pra uma trilha como a A T ( a minha está em 12 e não tem dia dia que não penso em como aliviar isso…). Quando comentei que meus planos era ficar em um hostel a 6 milhas dali ele resolveu me acompanhar…


Falei pra ele que quando chegasse à estrada que leva ao hostel eu iria esperar por ele mas não adiantou. Dancing Bear tentou seguir os passos de Speedy Gonzalez e se deu mau. Eu descia a trilha quase correndo, e ele veio atrás. Quando vejo o cara leva um trupicão e se estatela na trilha, perna prum lado, braço pro outro, bastão de caminhada pra todo lado. Um hematoma aqui, um sangramento ali, mas tudo bem. Nada quebrado, nada muito sério. Reafirmei: “olha, meu Trail name é Speedy Gonzalez… eu ando rápido. Fica de boa que te espero na estrada…” e assim foi…


Quase. Queria que ele achasse que eu era realmente rápido, mas não tem muito isso. Por mais que alguém ande rápido na trilha ele está 5, 10 minutos na frente do próximo Hiker. E como antes de chegar na estrada parei pra tirar a blusa, logo o Dancing Bear me acompanhou. Fizemos as últimas milhas juntos, conversando sobre a Ângela Merkel, o Trump e outras bobagens.

O hostel era uma casa principal e um celeiro. O que eu precisava era de um banho quente e roupas limpas, tudo na casa principal. A gente iria dormir no celeiro. E quando​ o Bill, o dono do lugar, nos deixou no celeiro perguntei se tinha alguma roupa que poderia usar enquanto lavava as minhas. Não tinha. E eu com todas as minhas peças molhadas e sujas de lama…


Hiker box são caixas que existem nos lugares onde a gente passa onde os caminhantes deixam tudo o que não querem mais. Comida, equipamentos, e roupas. Olho na Hiker box do hostel e entre as poucas coisas dentro tinha um vestido. Não tive dúvidas. Tirei a camiseta e o calção ensopados, botei o vestido e fui pra casa principal tomar um banho e lavar as roupas, crente que as únicas pessoas ali eram eu, o Bill e o Dancing Bear (que nessa hora já falava que quando me encontrou nunca imaginaria que no final do dia eu estaria num vestido…)


Abro a porta e lá estão mais cinco pessoas. “Já ouviram a expressão ‘the trail provides?’ Pois é…” Foi só o que eu disse, e subi pro banho. Na volta ficamos ali de bate-papo e Bill cozinhou o melhor jantar até o momento. Só tirei o vestido quando minha roupa já estava limpa e seca. 

Appalachian Trail S01E40

Dia 40, 24/05: Partnership Shelter (532.4) a O’Lystery Pavillion (556.5)

Distância do dia: 24.1 milhas | 38,78 km

Distância total: 565.3 milhas | 909,76 km

Um quarto de trilha. O dia mais longo. O dia onde a chuva só deu trégua na hora que eu entrei num restaurante pra almoçar…

Mas antes disso: já viu bucho? A iguaria? Já viu cru? Meu pé tá parecendo um bucho. Branco, desbotado e enrugado, com umas dobras estranhas e um cheiro forte pra dedéu. Adoro bucho. Amo de paixão. E vendo o meu pé no final do dia lembrei da dona que vendia bucho lá no Sidil, onde eu morava. Eu via ela descendo a rua a lata de óleo na cabeça e já correia pra ir pedir minha mãe pra comprar. Quer me agradar? Cozinhe bucho.

A trilha hoje passava muito dentro de pastos. Grama, terra mais solta, sem árvores… ou seja: muita lama. No início até tentava desviar das poças, buscava o lado seco, saía pra fora da trilha… Mas depois que o pé já estava encharcado já n ligava e saia pisando no barro mesmo.

Dormir em Shelter é sempre estranho. Aquele tanto de gente amontoado, cada um com seus costumes e habitos, aquela confusão… Eu fico com a impressão que quando acampo sou o primeiro a sair, lá pelas 8 da manhã. Mas no shelter às 5:30 já tinha gente levantando, arrumando mochila, fazendo barulho. Com isso lá pelas 7 eu já estava na trilha.

Ainda pela manhã cruzei com um trail magic colocado dentro de uma escola/museu. Um cômodo, uma sala pra uns 20 alunos, que funcionou ali até 1890. Hoje tinha lá dentro tudo que os caminhantes pudessem precisar: rolos de papel higiênico, absorventes, pomadas, bandanas, balas, chicletes e pirulitos, frutas e refrigerantes. Era entrar e pegar. Quando cheguei tinham outros caminhantes na porta, os que tinham acordado madrugada. Dei um oi, desejei bom dia e ficou por isso. Pouco depois, quando paro pra fazer uma foto, um deles passa por mim, pirulito na boca, a gente comenta algo sobre a chuva. Depois que ele passou fiquei reparando sua mochila laranja, pouco comum na trilha, e fiquei pensando onde tinha visto aquela mochila…

Só depois de um tempo que caiu a ficha: o cara que jogou o lixo na trilha! Nem reconheci o sujeito… Fiquei pensando que poderia ter brincado alguma coisa com ele. Mas ele seguiu, pirulito na boca.

Logo depois a trilha cruza a linha de trem e pega um caminho de madeira, por causa da lama. E bem no meio do caminho tá lá o pauzinho do pirulito… ou ele deixou só pra me irritar ou tem realmente um problema em carregar o lixo.

Bem no meio do dia a trilha cortava uma estrada, entre um posto de gasolina e um restaurante, o The Barn. Ele é famoso pelo Hiker Burguer, um hamburgão com 450g de carne. Mas eu estava seco mesmo era em café e panquecas, mas cheguei lá só meio dia e já não serviam. Tive que ir no hambúrguer mesmo… Mas não fui no gigante: peguei um menorzinho, só com 300g, e pedi couve-flor empanada de acompanhamento. Se eu estivesse no meu estado normal teria dito que achei tudo uma bosta, sem gosto, mal feito. Mas aqui, meu amigo… posso falar que foi o melhor hambúrguer que comi.

Uma coisa que caminhante tem que acostumar é deixar a mochila no lado de fora dos estabelecimentos. Nesse não era diferente. Antes de entrar, além da mochila, deixei também meus sapatos sujos de lama e minhas meias molhadas e entrei de chinelo. Na saída tô lá calçando o tênis, olho de lado e tá lá a mochila laranja… Só de birra peguei o palito no meu lixo e coloquei na mochila do cara…

Com o tempo úmido como está, o dia longo como foi, eu imundo e cansado, estava planejando ir pra um hostel. Um banho quente e roupas limpas – mesmo que amanhã voltassem a ficar sujas de barro – iria ajudar. Tentei falar com os dois perto, mas não consegui sinal. O jeito foi acampar. E torcer pra eu conseguir falar no hostel que estou planejando ficar amanhã.