Appalachian Trail S01E14

Dia 14, 28/04: Derrick Knob Shelter (189.0) a Mt Collins Shelter (202.5). Distância oficial: 13.5 milhas. Minha marcação: 22,2 km, 39.615 passos, 264 andares. Distância Total Oficial: 340,05 km

Se estivesse pensando em desistir, ontem teria sido o dia. Lá estaria eu nas estatísticas dos 50% que desistem até o final das Smoky Mountains. Dia longo, cansativo, com imagens fantasmagóricas de neblina e árvores secas. Mas tem um ditado da trilha que diz o seguinte: nunca desista num dia ruim. E hoje veio provar que este ditado é batata.

Que dia! Sol, animais silvestres, o ponto mais alto da trilha, 200 milhas, Trail Magic! Teve de tudo! 

A expectativa do dia era subir até Clingsmans Dome, o ponto mais alto da AT. Está a 6667 pés, 2032 metros de altitude. Nem é tão alto assim, se você for ver. É mais baixo que a Serra da Mantiqueira, por exemplo. Mas é o ponto mais alto da trilha. E eu imaginando que pra chegar lá teria uma subida daquelas, mas nada. Foi bem mais tranquila que eu imaginava. Mas no caminho a vegetação foi mudando. Ficaram pra trás os arbustos e aquela cara meio Mata Atlântica, com samambaias e vários tons de verde e começou aquele típico cenário de floresta americana: pinheiros e musgos. E entre eles centenas de pequenas e delicadas flores brancas em boa parte do percurso.

Na subida dois animais cruzaram meu caminho. Primeiro, saindo de um ponto onde fui buscar água, uma ave grande, do tamanho de um peru, andando no mato bem perto de mim. Mais tarde, chegando em um dos abrigos pelo caminho, um cervo passa tranquilo. Só se assustou, claro, quando fiz menção em tirar o celular pra uma foto. Aí ele fugiu. Não consegui foto de nenhum dos dois.

O barro e a lama continuava, mas o dia era agradável, de sol. E a subida final felizmente bem mais fácil que eu imaginava. Quase na chegada, a melhor surpresa do dia. Um grupo de quatro thru-hikers tirou o dia de folga e resolveu fazer um Trail Magic para os outros caminhantes. Nos metros finais, já quase chegando ao topo, me deparo com eles. “Tá com fome?”, me perguntaram. “Sempre”, respondi. E eles tinham refrigerante, Doritos, Kit Kat e sanduíche de geleia de frutas e manteiga de amendoim. Tudo o que eu precisava! 

Essa cultura do Trail Magic me fascina cada vez mais. Os caras estão caminhando, tiraram um dia de folga, pegam um carro, viajam pra outra cidade só pra chegar lá e distribuir comida e bebida de graça pros outros caminhantes… Os caras começaram uma semana antes de mim e estão no NOC, aquele centro de esportes de aventura passei há 3 ou 4 dias. Estão fazendo 7, 8 milhas por dia. E ainda assim tiram um dia pra ir ali, naquele ponto que eles sabiam que todo mundo ia chegar quebrado, e oferecer comida e bebida pra quem eles não conhecem. É lindo. É emocionante. Foi meu primeiro Trail Magic de verdade (tiveram as maçãs dias atras) e é a melhor coisa que pode acontecer a um caminhante. 

Clingmans Dome, o tal lugar mais alto da trilha, tem uma torre de observação. E como quase tudo por aqui, da pra chegar de carro e tem lojinha de bugingangas. Que eu, de pança cheia, passei batido. Continuei andando e pouco depois aquela mistura de geleia e manteiga de amendoim bateu feio. Bem na hora de cruzar as 200 milhas dei uma desviada da trilha e nem tempo de tirar minha pazinha e cavar meu cat hole eu tive. 

Acabei passando a noite acampado em um abrigo bem próximo. Já era meio da tarde e o próximo iria demorar mais umas 3 horas pra chegar. Os próximos dois dias serão pesados, na faixa de 20 milhas cada. Melhor ficar por aqui.

Cat Hole é o buraco que você precisa cavar pra fazer suas necessidades, digamos, sólidas. Precisa ter, seguindo os princípios do Leave no Trace, quase 20 cm de profundidade e 10 cm de largura. Pra isso você precisa carregar o tempo todo uma trowel, a tal pazinha. Fez as necessidades? Joga dentro também o papel higiênico, cobre, e bota uma marcação, pra nenhum azarado cavar no mesmo lugar que você. 

Outra alternativa é usar as privies, as foçada que existem em alguns abrigos. Nesse caso é uma cabaninha sem porta, que fica num lugar mais alto, e um vaso de plástico sem fundo. Ou seja: você vê não só a merda que você fez como a de todo mundo que passou ali antes de você. Pra facilitar a decomposição, privies são só pra número 2. Um é no mato mesmo. E depois que fazer é aconselhável jogar um punhado de folhas secas, pra também agilizar a transformação daquela merda toda em adubo. Parece nojento, e é. Mas tenho preferido as privies aos cat holes.

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