Appalachian Trail S01E16

Dia 16, 30/04: Tri-Corner Knob Shelter (221.9) a Standing Bear Farm (240.6). Distância oficial: 18.7 milhas. Minha marcação: 26.5 km, 46.263 passos, 225 andares. Distância Total Oficial: 401,36 km

Na casa da minha avó, a que a gente tinha que caminhar uma milha pra poder chegar, tinha 5 pés de manga plantados lado a lado. Um de cada espécie. Comum, pequi, coração de boi, espada, coquinho. A grande diversão era subir no primeiro e ir pulando de galho em galho, até descer no último. E no caminho ir experimentando aquelas delícias. Na parte de baixo as árvores faziam um corredor de sombra boa, um corredor verde.

Rhododendron. Essa é o único arbusto que consigo lembrar o nome. Rhododendron. Eles estão por toda a trilha, exceto nas partes mais altas, onde são substituídos pelos pinheiros. Tem cerca de 3 metros de altura e suas folhas são grandes e verde-escuras, que me lembram as folhas dos pés de manga. São eles, os rhododendrons, que são à Appalachian Trail o apelido de Green Tunnel, Túnel Verde. E toda vez que passo por um túnel de rhododendrons lembro dos pés de manga da cada da minha avó.

Como passei os últimos 4 ou 5 dias acima dos 2.000 metros os rhododendrons estavam sumidos. Foram reaparecer hoje, quando comecei a descer as Grandes Montanhas Fumegantes. De novo, estavam por toda parte. 

E hoje foi só ladeira abaixo. Literalmente. Saí dos 2.000 metros de altitude e cheguei aos 400. O caminho foi até monótono. Desce, desce, desce. Trinta quilômetros descendo (de novo, essa marcação do IPhone tá me sacaneando). De diferente só um cobra pelo caminho e um casal passeando de cavalo (nas Smokies não pode passear com cachorro, mas pode andar de cavalo).

Na saída do Parque aquela surpresa: uma caixa de isopor com a mensagem “não desista! Você acabou de sair das Smoky Mountains! Maine está logo ali!”. Dentro, Trail Magic: Coca-Cola! Cerveja! Mexericas! Doritos! E logo depois, chegando na estrada, dois caras num barco inflável me perguntam: “você é thru-Hiker? Quer uma cerveja?” Sim e sim, essa é a resposta, meus caros! Os dois fizeram a trilha em 2012 e agora gerenciam uma agência de aluguel de barcos aqui perto. E logo depois uma moça abre o porta-malas do carro: “estou acabando de voltar do supermercado. Quer alguma coisa?” Uma banana seria ótimo!

São assim que as coisas funcionam nessa comunidade da trilha. As pessoas simplesmente te ajudam, e te dão comida, bebida, cerveja, só porque você está ali caminhando aqueles 2200 milhas. É fascinante. Me emociono todas as vezes que encontro um Trail Magic.

A chegada foi em uma típica fazenda do interior do Tennessee. Você consegue imaginar. Uma casinha do século XVIII, meio caindo as pedaços, mas com uma cama, uma fossa e um chuveiro, tudo o que eu queria pro dia. As cervejas que ganhei no caminho foram prêmios-extra. Inesperados, mas super bem-vindos.

Trail Magic é o nome que se dá a essas boa-ações que as pessoas fazem para os caminhantes. Pode ser qualquer coisa: um lanche, uma garrafa d’água, uma carona. Às vezes são simples caixas de isopor com algumas garrafas dentro. Outras vezes são organizados por grupos de voluntários – de igrejas, por exemplo – e tem de tudo. Alguns com churrascos e cachorros quente, dizem, mas ainda não peguei um desses.

Quem faz esse tipo de coisa é chamado de Trail Angel. Muitos são anônimos: deixam as coisas por lá, na beira da trilha, e voltam pra casa. Outras vezes ficam por lá. São ex-caminhantes ou simplesmente gente que queria fazer a trilha mas não tem o tempo ou à disposição pra fazer isso. E te invejam por você estar lá, passando 5 ou 6 meses caminhando.

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Appalachian Trail S01E15

Dia 15, 29/04: Mt Collins Shelter (202.5) a Tri-Corner Knob Shelter (221.9). Distância oficial: 19.4 milhas. Minha marcação: 28,8 km, 51.636 passos, 306 andares. Distância Total Oficial: 371,27 km

Eu preciso de um banho. Era isso que passava pela minha cabeça hoje. É incrível como nesses momentos onde você está privado dos confortos e comodidades da vida moderna como o que sempre vem à mente são as necessidades mais básicas. Sempre me perguntam o que penso quando caminho. Um mundo de coisas, claro, mas o pensamento sempre volta a coisas como quando vou poder comer?, onde será que vou dormir?, quanto falta pra eu conseguir água?, e eu preciso de um banho.Hoje o dia foi longo, o maior até agora. 19,4 milhas oficialmente. Mais as jardas pra chegar e sair dos abrigos, lá se vão uns 32 quilômetros (essa marcação do IPhone tá me sacaneando em marcar 28,8 km…) Andei tudo isso, confesso, pra ficar mais perto da saída e conseguir amanhã deixar as Grandes Montanhas Fumegantes. O Great Smoky Mountains não é tudo isso que pintam não. Não é fácil, mas imaginava bem mais difícil do que é. 

Hoje tiveram milestones também. Mais Trail Magic! Ê! (Parênteses aqui: caminhando desse tanto você fica com fome 24 horas por dia. E quando aparece alguém pra te oferecer uma banana que seja, deus do céu… É inexplicável) Entrei também no terceiro estado, o Tennessee. Mas ainda não saí oficialmente da Carolina do Norte. É que a partir de agora, por um bom tempo, a trilha vai seguindo a divisa dos dois estados. Então hora tô com um pé no Tennessee, outro na Carolina do Norte. Hoje também completei 10% da trilha. Dez por cento.

Veja bem: me propus a fazer a AT em 150 dias. Estou andando a 15 dias e hoje completei 10% das 2200 milhas do total. Parece que está indo tudo muito bem né? Só manter esse meu ritmo – até aqui uma média de 15.5 (ou 25 km) por dia – que tá tudo bem, vou terminar no tempo previsto. Mas a matemática não funciona da mesma forma aqui não. Primeiro porque tem os imprevistos – um tombo, uma torção no calcanhar, uma infecção, uma picada de mosquito – que podem dar uma atrapalhada na conta. Segundo porque pelo que dizem saindo daqui o caminho fica mais fácil e vai dar pra andar mais por dia – mas depois, chegando na Pennsylvania, o bicho pega. E se você estava andando 15 milhas por dia, passa a andar 5. Então ótimo que tô conseguindo manter uma boa média, mas nada que se comemorar. Ainda…

Mas tudo continuando como previsto pelo menos até amanhã, paro à noite num hostel, atualizo fotos no blog e redes e tomo um banho. Hoje isso é tudo que eu consigo pensar.

Appalachian Trail S01E14

Dia 14, 28/04: Derrick Knob Shelter (189.0) a Mt Collins Shelter (202.5). Distância oficial: 13.5 milhas. Minha marcação: 22,2 km, 39.615 passos, 264 andares. Distância Total Oficial: 340,05 km

Se estivesse pensando em desistir, ontem teria sido o dia. Lá estaria eu nas estatísticas dos 50% que desistem até o final das Smoky Mountains. Dia longo, cansativo, com imagens fantasmagóricas de neblina e árvores secas. Mas tem um ditado da trilha que diz o seguinte: nunca desista num dia ruim. E hoje veio provar que este ditado é batata.

Que dia! Sol, animais silvestres, o ponto mais alto da trilha, 200 milhas, Trail Magic! Teve de tudo! 

A expectativa do dia era subir até Clingsmans Dome, o ponto mais alto da AT. Está a 6667 pés, 2032 metros de altitude. Nem é tão alto assim, se você for ver. É mais baixo que a Serra da Mantiqueira, por exemplo. Mas é o ponto mais alto da trilha. E eu imaginando que pra chegar lá teria uma subida daquelas, mas nada. Foi bem mais tranquila que eu imaginava. Mas no caminho a vegetação foi mudando. Ficaram pra trás os arbustos e aquela cara meio Mata Atlântica, com samambaias e vários tons de verde e começou aquele típico cenário de floresta americana: pinheiros e musgos. E entre eles centenas de pequenas e delicadas flores brancas em boa parte do percurso.

Na subida dois animais cruzaram meu caminho. Primeiro, saindo de um ponto onde fui buscar água, uma ave grande, do tamanho de um peru, andando no mato bem perto de mim. Mais tarde, chegando em um dos abrigos pelo caminho, um cervo passa tranquilo. Só se assustou, claro, quando fiz menção em tirar o celular pra uma foto. Aí ele fugiu. Não consegui foto de nenhum dos dois.

O barro e a lama continuava, mas o dia era agradável, de sol. E a subida final felizmente bem mais fácil que eu imaginava. Quase na chegada, a melhor surpresa do dia. Um grupo de quatro thru-hikers tirou o dia de folga e resolveu fazer um Trail Magic para os outros caminhantes. Nos metros finais, já quase chegando ao topo, me deparo com eles. “Tá com fome?”, me perguntaram. “Sempre”, respondi. E eles tinham refrigerante, Doritos, Kit Kat e sanduíche de geleia de frutas e manteiga de amendoim. Tudo o que eu precisava! 

Essa cultura do Trail Magic me fascina cada vez mais. Os caras estão caminhando, tiraram um dia de folga, pegam um carro, viajam pra outra cidade só pra chegar lá e distribuir comida e bebida de graça pros outros caminhantes… Os caras começaram uma semana antes de mim e estão no NOC, aquele centro de esportes de aventura passei há 3 ou 4 dias. Estão fazendo 7, 8 milhas por dia. E ainda assim tiram um dia pra ir ali, naquele ponto que eles sabiam que todo mundo ia chegar quebrado, e oferecer comida e bebida pra quem eles não conhecem. É lindo. É emocionante. Foi meu primeiro Trail Magic de verdade (tiveram as maçãs dias atras) e é a melhor coisa que pode acontecer a um caminhante. 

Clingmans Dome, o tal lugar mais alto da trilha, tem uma torre de observação. E como quase tudo por aqui, da pra chegar de carro e tem lojinha de bugingangas. Que eu, de pança cheia, passei batido. Continuei andando e pouco depois aquela mistura de geleia e manteiga de amendoim bateu feio. Bem na hora de cruzar as 200 milhas dei uma desviada da trilha e nem tempo de tirar minha pazinha e cavar meu cat hole eu tive. 

Acabei passando a noite acampado em um abrigo bem próximo. Já era meio da tarde e o próximo iria demorar mais umas 3 horas pra chegar. Os próximos dois dias serão pesados, na faixa de 20 milhas cada. Melhor ficar por aqui.

Cat Hole é o buraco que você precisa cavar pra fazer suas necessidades, digamos, sólidas. Precisa ter, seguindo os princípios do Leave no Trace, quase 20 cm de profundidade e 10 cm de largura. Pra isso você precisa carregar o tempo todo uma trowel, a tal pazinha. Fez as necessidades? Joga dentro também o papel higiênico, cobre, e bota uma marcação, pra nenhum azarado cavar no mesmo lugar que você. 

Outra alternativa é usar as privies, as foçada que existem em alguns abrigos. Nesse caso é uma cabaninha sem porta, que fica num lugar mais alto, e um vaso de plástico sem fundo. Ou seja: você vê não só a merda que você fez como a de todo mundo que passou ali antes de você. Pra facilitar a decomposição, privies são só pra número 2. Um é no mato mesmo. E depois que fazer é aconselhável jogar um punhado de folhas secas, pra também agilizar a transformação daquela merda toda em adubo. Parece nojento, e é. Mas tenho preferido as privies aos cat holes.

Appalachian Trail S01E13

Dia 13, 27/04: Birch Spring Gap (171.8) a Derrick Knob Shelter (189.0). Distância oficial: 17.2 milhas. Minha marcação: 27,1 km, 48.167 passos, 391 andares. Distância Total Oficial: 318,33 km

Morro. Lama. Lodo. Morro. Lama. Morro. Lama. Morro. Lodo. Lama. Morro. Lama. Morro. Lama. Lodo. Lama. Morro.

Sério. Esse foi o resumo do dia. Podia parar por aí. Não iria acrescentar nada dizer que ontem o dia foi sol, onde quando acordei ainda não chovia e foi botar o pé pra fora da barraca e a chuva começar a cair. Voltei, fiquei mais umas duas horas esperando e quando deu uma maneirada resolvi andar.

Durante todo o dia a chuva ia e vinha, o sol fazendo um esforço danado pra sair, mas a neblina era mais forte. O dia todo. Dez horas de neblina, chuva, lama, lodo. E morro. Sobe, e desce, e sobe, e desce, e sobe, e desce. E lama. E quando tem pedra, lodo.

No Parque Nacional das Montanhas Fumegantes, como disse, não pode acampar em qualquer lugar. Tem que chegar em um dos shelter. Passei o primeiro cedo e tava cheio. A chuva tinha dado uma trégua (o morro, a lama e o lodo não) e andei mais 5 km até o segundo. Cheguei lá por volta de uma. Ainda tava cedo, o próximo não era tão longe (mais 10 km) e resolvi ir até ele. E volta a chuva, e toma morro, e lá vai mais lama e lodo porque você teve pouco até agora. Só mais um pouquinho…

Por causa dos escorregões, deslizes e percalços – mas sem nenhum tombo – levei uma hora a mais que o previsto. Cheguei já quase seis no shelter que estou. E que está lotado, por isso acampei do lado. E quando estava chegando o White Walker estava saindo. “Uai, achei que você tivesse machucado o joelho. Alguém tava falando de alguém que machucou o joelho e pensei que fosse você”, me perguntou ele (se bem que acho que ele não falou uai). “Eu? Não. Ainda tô no jogo. Vai ficar aqui?” E o cara que não é um White Walker por acaso disse que não, que tem preferido acordar tarde e andar à noite. E foi.

Amanhã, parece, não tem chuva. Mas aposto que os mortos, a lama e o lodo continuam por aqui.

Appalachian Trail S01E12

Dia 12, 26/04:  Cody Gap (155.7) a Birch Spring Gap (171.8). Distância oficial: 16.1 milhas. Minha marcação: 24,7 km, 42.264 passos, 220 andares. Distância Total Oficial: 290,65 km

Quando você se propõe a fazer uma coisa dessas, andar 3.500 km, você sabe que está abrindo mão de um mundo de coisas. Do conforto da sua casa, da comodidade que a tecnologia lhe proporciona, de trabalhos que poderia fazer. Mas mais que isso um projeto pessoal como a Appalachian Trail te separa das pessoas que você gosta. E quando algo que é marcante na vida dessas pessoas acontece e você não pode estar perto, essa é a pior parte da caminhada.Venho me preparando emocionalmente há tempos pra isso. Quando planejei a viagem eu sabia não iria ao cinema com a Jade nas férias, que não veria a festa junina da Lis, que não comemoraria com a Tati e a Ale os aniversários delas. Vinha me exercitando, tentando prever minha reação pra quando esses dias chegassem. E o primeiro chegou. E não foi nada como eu tinha planejado.

Passei as quase dez horas de caminhada hoje pensando na Ale. A cada um dos 42.264 passos que dava minha mente ia a um ponto desses 23 anos de relação. Fiquei pensando na menina mais bonita faculdade, no início de namoro meio inesperado, nos perrengues que passamos juntos. Nas vezes que por bobeira minha eu quase a perdi. Nas risadas, nas bobagens, nas viagens, nas poucas discussões. Em quando eu ia de ônibus pega-la no shopping que ela trabalhava, nas noites que ela passava comigo quando discotecava. Na chegada das netas, nos amigos que fizemos juntos nesse tempo. Andava e minha cabeça ia me trazendo esses momentos.

Tenho a sorte de estar junto da Ale há quase meio século. Mais da metade da minha vida foi ao lado dela. E por todo esse tempo ela continua sendo a pessoa mais amável, bondosa, talentosa e especial que conheço. É uma pessoa iluminada. E a cada dia que passo quero estar mais junto, envelhecendo junto, como a gente falava há 23 anos. 

Ale apoiou 100% a minha ideia de passar cinco meses caminhando. Ela sabe o que isso me propicia. Por isso ela deva estar encarando essa data bem melhor que eu, que já derramei algumas lágrimas de saudade. Não se chora na trilha, é o que dizem. Mas não resisti. Não saiu como eu tinha planejado…

Além de choro e saudades o dia hoje foi de, adivinha? Subidas e descidas. Sempre. Se você é de Belo Horizonte é fácil imaginar: pense que você more na Cristina com Leopoldina. A rua não é ainda asfaltada, mas de terra, cheia de pedras e raízes. Choveu ontem, então tem lama também. Agora pense que você precisa ir até a Contorno e voltar. Agora repita essa percurso por 10 horas. É mais ou menos isso.

O que deixou o caminho especial foi a entrada no Great Smoky Mountains National Park. O Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes. O bicho papão da primeira metade da trilha. O ponto onde metade dos caminhantes desistem. O ponto mais alto da Appalachian Trail. A única parte onde é preciso pagar. O lugar onde você é proibido acampar: precisa ficar obrigatoriamente em um dos abrigos. 

Desde o início da AT as Smoky Mountains rondam o imaginário dos caminhantes. Pra chegar nela é preciso antes passar em Fontana Damn, uma vila/hotel às margens de uma represa. Lugarzinho pra milionários, que ficam passeando entre a marina e o hotel em carros conversíveis a 20 por hora. Como este é o único local “civilizado” antes das Smokies todos os caminhantes dão um passada ali pra comprar algum item ou pegar sua caixa com mantimentos. A minha meus anjos Ingrid e Yoav haviam mandado na semana passada. Comida para 5 dias, suficiente para atravessar o parque.

Pra chegar ao hotel, onde minha caixa me esperava, é preciso pegar um van do próprio hotel (3 dólares cada trecho) ou andar mais 6 milhas no total. E pra pegar a caixa o hotel te cobra mais 5 dólares. Cheguei cedo e meio dia já seguia em direção ao parque. Antes é preciso cruzar a represa e passar pelo luxuoso – para os padrões da trilha – abrigo de Fontana Damn. Tão luxuoso que é carinhosamente chamado de Fontana Hilton. Lembra que falei dos abrigos como sendo pontos de ônibus? O Hilton não. Tem banheiro (banheiro mesmo, não uma fossa como nos outros) e luxo dos luxos, chuveiro. 

A partir dali é subir, subir e subir. A natureza colabora: flores brancas e rodas, diversos tons de verde, nascentes. Andei 5 milhas (8 km) parque a dentro (ou melhor: parque a cima) e parei no único local onde é possível acampar pela próxima semana. Precisava hoje de um dia sozinho, quieto, sem gente falando. Um dia pra ficar pensando na Ale. Parabéns meu bem.

Appalachian Trail S01E11

Dia 11, 25/04: Nantahala Outdoor Center (137.3) a Cody Gap (155.7). Distância oficial: 18.4 milhas. Minha marcação: 31,8 km, 53.663 passos, 385 andares. Distância Total Oficial: 264,74 km

A grande preocupação de todo mundo que encontrei no NOC ontem era a subida de hoje. O mapa assustava: mais de 2000 pés de elevação. Acordei e saí preparado pra ficar já no primeiro shelter…

A subida foi braba, mas não tanto quanto eu tava imaginando. Cheguei ao Sassafras shelter inteiro e continuei andando. O que matou não foi essa subida, mas a soma dela e das outras que vierem na sequência. Essa é a história da AT: o que pega é o todo, não um trecho em particular.

Esse lado da Carolina do Norte não sofreu com as queimadas do ano passado, então a natureza tá deslumbrante. Árvores enormes, flores de vários tipos, quedas d’água, bicas. Trechos de pedras com lodo, outros de terra. Foi gostoso andar.

A primeira parte da manhã, como sempre, tudo fechado. Neblina, a sensação era que caminhava dentro da nuvem. O tempo só foi abrir no final do dia, o que ainda garantiu um vista do vale.

Em um dos cruzamentos com a estrada – a trilha fica o tempo todo próxima a estradas, sejam elas de terra ou asfaltada. A gente nunca tá longe da civilização – alguém deixou meu primeiro Trail Magic. Em cima de um mesa de piquenique alguém deixou várias maçãs. E uma banana. Fui nela de cara. Antes de acabar de descascar a banana quebra e cai no chão. Sem cerimônia pego, tiro a areia que cobria a banana que nem empanado e como a fruta. Mas eu não iria deixar passar aquela banana era de jeito nenhum! Depois ainda comi mais duas maçãs – pode ser a fome, mas achei as melhores que já comi na vida.

Vinha caminhando meio que perto do Greg, que tinha conhecido no jantar ontem. Além dele estavam na mesa o Jacob e o Matt e a Gretchen, um casal de Maine que parecia que já conhecia todo mundo. Foram eles que chegaram quando eu terminava a segunda maçã. Saímos juntos, mas essa moçada – todos ali na faixa dos 20 e poucos – caminha bem mais rápido que eu. Principalmente nas subidas. 

Passei batido também pelo próximo shelter, onde eles provavelmente estariam. E acabei andando 18 milhas. Como o próximo shelter ainda está a 2 milhas daqui, parei na primeira lareira que não tinha ninguém e montei minha barraca. Minutos depois chega o Frank, professor de inglês na Coreia do Sul. E já tem umas duas horas que não passa ninguém na trilha, em nenhum dos lados. Então essa noite vai ser isso. Pelo menos o tempo abriu e apesar de frio ainda tem sol lá fora, às 7:30 da noite.

Appalachian Trail S01E10

Dia 10, 24/04: Wayah Bald Shelter (120.8) a Nantahala Outdoor Center (137.3). Distância oficial: 16.5 milhas. Minha marcação: 27,1 km, 45.203 passos, 200 andares. Distância Total Oficial: 235.12 km

Minha mochila estava pesando pelo menos uns dois quilos a mais por causa da roupa molhada. As meias também estavam. O sapato, encharcado. Saí do Shelter com a roupa que dormi, coloquei por cima uma blusa de manga comprida e a jaqueta. A meia molhada ia fazendo fricção no tênis, completamente sujo de barro. A trilha tinha hora que parecia uma raia de piscina, de tanta água. Se não era assim, era o barro. Tinha que sair pisando no mato e procurando os pontos mais altos – uma pedra, por exemplo- pra evitar não enfiar ainda mais o pé na lama (e olha que de enviar o pé na lama eu entendo…).

Imagina um abrigo de ponto de ônibus. Duas paredes laterais, uma parede no fundo, um teto inclinado. Agora imagina isso feito de madeira, com uns 2 metros de altura, uns 2 de profundidade e uns 4 de largura. É assim um abrigo típico na Appalachian Trail. São chamados de Shelter e estão dispostos a mais ou menos uns 10 quilômetros um do outro. São vários, mas eu tenho evitado usar, porque na maioria das vezes são enfestados de ratos. Mas ontem não teve jeito. Com a chuva caindo o dia inteiro, eu ensopado, no primeiro shelter que passei eu fiquei. Tava andando com o Jacob, que ainda ficou em dúvida. Eu não: primeira vaga que abriu (a regra nos shelters da AT é clara: quem chegar primeiro tem direito) tratei de colocar meu saco de dormir no lugar. Quando a gente chegou tava cheio, mas felizmente pra gente as pessoas foram encarando a chuva. Exceto um cara que já tava ali a dois dias…

Esse Shelter especificamente era pra 6 pessoas. Quando chegamos tinham 6. E um cachorro gigante (sério, nunca vi um bicho tão grande). As outras duas pessoas que desistiram o Nick e o Jacob pegaram. Ficamos eu, os dois, o cara que tava morando ali a dois dias, a dona do cachorro e o cachorro. A tarde foi chegando e ela não aguentou: ligou pro marido e pediu pra ele ir buscá-la. Antes distribuiu a comida que tinha desidratado em casa pra gente. A trilha pra ela terminava ali.

Caímos os quatro no sono e quando acordei deviam ter umas 20 pessoas se amontoando no abrigo. Gente dependurando rede, fazendo varal pra secar roupa, tentando se encaixar em cada pedaço de madeira ou terra seca que ainda existia. A chuva continuava e a temperatura tinha caído muito – beirava zero grau. Só cheguei meu saco de dormir um pouquinho pro lado, botei o fone e voltei a dormir. 

Pela manhã a multidão tinha se dissipado. Um tanto tinha ido embora, outro tanto montado barraca ali perto. Éramos 6 onde deveria ser isso mesmo, mas ainda tinha um sujeito numa rede enfrente à gente. O dia estava fechado, mas dava pra ver que não iria chover mais. Botei toda a roupa molhada numa sacola, um calção seco por cima da ceroula que tava usando, as meias molhadas e os tênis encharcados e saí por volta das sete.

Uma das vantagens de tênis sobre botas é que o troço seca rapidinho. Evitando as poças e a lama, ainda na parte da manhã meus pés já estavam secos. O dia ficou encoberto, sem dar pra ver nada da paisagem. Só chegando no destino do dia a coisa mudou. O dia clareou e a vegetação mudou pra quase uma Mata Atlântica, com muito verde e cachoeiras. 

O NOC – Nantahala Outdoor Center é um espaço gigante dedicado à esportes de aventura. Caiaque, bote, bike, trekking, tem de tudo aqui. Além de um albergue, dois restaurantes e uma loja de equipamentos. Com essa infra deu pra lavar e secar as roupas, comer uma pizza, comprar gás que tá acabando e recuperar as energias pra amanhã: 16 quilômetros de subida, mais de mil metros de elevação.