Inspirações: Elaine Bissonho

“Se o Google não encontrar é porque não existe”. Você já ouviu isso, eu também. E você sabe que a coisa não é bem assim: não dá pra confiar 100% no resultado de uma busca na Internet. O mundo, felizmente, vai muito além disso.

12-1

Elaine “Brazil Nut” Bissonho: a primeira (única?) brasileira a completar a Appalachian Trail

Por isso mesmo redobrei a atenção quando minha pesquisa com as palavras-chave “Brasil” e “Appalachian Trail” não deu em nada. Pesquisei em inglês (“Brazil”, “Brazilian”), pesquisei frases inteiras (“brasileiro completa Appalachian Trail”, “Brazilian completes AT”). Nada. Nadica de nada. Pesquisei no site da Appalachian Trail Conservancy (ATC), que gerencia a trilha: na lista, em ordem alfabética, de nacionalidades que já completaram a trilha, o Canadá vem logo depois de Bélgica. Ou seja: nada de Brazil por ali. Na ALDHA, a Associação Americana de Caminhantes de Longa Distância, também nada. Parecia estranho, mas pelo jeito nenhum brasileiro tinha mesmo feito uma das trilhas mais famosas do mundo. Surpreendentemente eu seria o primeiro…

O sinal amarelo começou a apitar quando, em uma matéria sobre a Pacific Crest Trail, um leitor do Extremos afirmou que uma brasileira já tinha, sim, feito a trilha do oeste americano. “Lá eles tem por hábito criar ou receber codinomes, desta brazuca é ‘coconut’, o sobrenome é +/- Bezozo”, afirmava Antonio Arias. Elias, o editor do site, averiguou, e dias depois deu o parecer: uma brasileira havia sim feito a PCT. Elaine Bissonho era o nome correto. Brazil Nut seu nome de trilha. E ela tinha feito não só a PCT em 2010 como também a AT em 2011. E a Continental Divide Trail, a CDT, em 2012. Ela tinha completado a Triple Crown, a Tríplice Coroa, as três grandes trilhas americanas.

Começou então minha procura por Elaine. Escrevi tanto a ATC quando a ALDHA. As duas responderam que sim, Elaine estava registrada e tinha completado as trilhas como o Extremos havia noticiado. Mas nos dois casos sua identidade constava como americana, moradora do estado de Massachussets. Brazil ali era só seu trail name, escolhido aleatoriamente (ela poderia ter ganhado o nome por comer muita Castanha do Pará, por exemplo….).

Com o nome correto fiz também uma pesquisa mais detalhada na web. Vi, por exemplo, que a moça também corria ultra-maratonas: em 2013 uma Elaine Bissonho havia feito três corridas de 50 quilômetros, em três estados americanos, um deles Massachussets. Seria muita coincidência ser outra pessoa com o mesmo nome. E que a primeira trilha de longa distância de Elaine Bissonho foi a de Vermont, também nos Estados Unidos. A trilha tem 272 milhas (440 quilômetros), e ela completou o percurso ainda em 2001. E Vermont é vizinho sabe de qual outro estado? Isso, Massachussets. E que há mais de 10 anos ela já havia feito a AT: não sei se chegou a completar, mas em 2005 Elaine Bissonho, naquela época chamada de “Tartaruga” (assim mesmo, em português), foi fotografada no Appalachian Trail Museum…

10801_10900atc009

Elaine “Tartaruga” Bissonho, 2005

E vi ainda que em 2013 ela tinha completado a Te Araroa, a trilha 3.000 quilômetros que cruza a Nova Zelândia de norte a sul. Mas por mais que eu pesquisasse eu não conseguia encontrar uma forma de entrar em contato com ela. Parecia que essa Elaine Bissonho era uma lenda.

ka-032

Elaine Bissonho na Te Araroa, Nova Zelândia

Foi através de um blog sobre a caminhada pela Te Araroa que conseguir chegar a ela. Mandei, sem esperanças, uma mensagem para Jetpack, a autora do post onde aparecia uma foto da brasileira, achando que não teria retorno. Afinal, o blog não era atualizado desde 2014. Na mensagem eu contava que estava planejando a Appalachian Trail esse ano e que tinha ouvido falar da Brazil Nut, sem ter certeza se ela era mesmo brasileira ou não. E que queria, se possível, entrar em contato com ela, bater um papo, saber mais sobre sua vida de thru-hiker.

A resposta veio alguns dias depois. Para minha surpresa recebi um mensagem não da autora do blog, mas da própria Elaine! Em um email curto, com um português escrito com sotaque gramatical clássico de quem mora há muito tempo no exterior, ela me contou que estava de férias no Rio até o início de março, quando então retornaria à Boston. E que realmente foi a primeira, talvez a única brasileira a fazer a Triple Crown: havia completado as 2,650 milhas (4.250 km) da Pacific Crest Trail em 2010, as 2,200 milhas (3.540 km) da Appalachian Trail em 2011 e as 3,100 milhas (5000 km) da Continental Divide Trail em 2012. No ano seguinte seguiu para a Nova Zelândia, onde cruzou o país de norte a sul na linda e difícil Te Araroa.

ka

Brazil Nut & Jetpack

Não era só isso. Elaine também me contou que conseguiu sua primeira Tríplice Coroa fazendo as trilhas americanas Northbound, ou seja: do sul para o norte. E que no ano passado começou o projeto de conseguir sua segunda Tríplice Coroa, desta vez Southbound (do norte para o sul). Em 2016 ela já havia feito as 3,100 milhas da CDT em 3 meses e 9 dias – uma média de 30 milhas (48 km) por dia. E que este ano iria fazer tanto a PCT quanto a AT, a primeira a partir de junho, a segunda a partir de setembro. “Esse é o meu Sport favorito e amo o estilo de vida o qual é viver nas montanhas”, ela completava.

Escrevi de volta extasiado: queria agendar uma entrevista, bater um papo, tomar um café, saber um pouco mais sobre sua vida, como se interessou pelas caminhadas, quais os planos depois da segunda Tríplice Coroa. Nada. Nenhuma resposta. Escrevia de novo uma semana depois, pedindo desculpas pelo tom eufórico da primeira mensagem. E disse que se preferisse eu abriria mão do café e da entrevista mais formal e apenas enviaria umas perguntas por email mesmo… De novo, nada. Não sei se ela está apenas curtindo as férias no verão carioca, se está ocupada ensaiando os passos para o carnaval, se resolveu fazer alguma trilha por aqui, ou se está me evitando. Talvez queira mesmo ficar no anonimato, guardar para si estes feitos sensacionais. Mas o fato é que desde então não tive mais nenhuma resposta.

ATCosaCamera 008.jpg

Elaine e outras caminhantes no Mount Katahdin, fim da Appalachian Trail

Sem as respostas dela, resta mim fazer um exercício de imaginação. Acredito que Elaine tenha nascido no Brasil e se naturalizado americana. Se registrou como tal nas vezes que fez as trilhas da Tríplice Coroa. Por isso é considerada americana tanto para a ALDHA quanto para a ATC. Mas no fundo no fundo a gente sabe que ela é brasileira. E eu, caso consiga terminar, posso ser o primeiro homem brasileiro a completar a Appalachian Trail. Mas não sei o primeiro brasileiro: esse feito é da Elaine Bissonho, a Brazil Nut.

Do meu lado, só espero que a data que ela escolher para iniciar a Appalachian Trail no Mount Katahdin, em setembro, coincida com a minha chegada. O meu prêmio por completar a trilha vai ser encontrar pessoalmente esta lenda brasileira das caminhadas de longa distância.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s