Uma conversa informal

Essa é uma obra de ficção. O diálogo abaixo não aconteceu realmente do jeito que está aí. Mas trechos dele têm acontecido diariamente, desde que decidi fazer a Appalachian Trail. A outra pessoa pode ser um amigo, colega, cliente, conhecido, não interessa. A história é sempre mais ou menos assim…

– Pô, Jeff, fiquei sabendo que você vai fazer uma trilha. Qual é?

– Pois é. A Appalachian Trail. Tô super animado.

– Deve ser massa. Quando você começa?

– Quinze de abril. Se tudo correr bem devo terminar no dia 7 de setembro…

– Peraí. Abril, maio, junho, julho, agosto, setembro. Seis meses? Você tá doido?

– Vai dar cinco, na verdade. Cento e cinquenta dias. Mas é isso mesmo. A trilha tem 3500 quilômetros. Segue uma cadeia montanhosa no leste dos Estados Unidos…

– TRÊS MIL E QUINHENTOS QUILÔMETROS?? Isso é tipo…

– Tipo daqui de BH até Machu Pichu andando. Sem pegar aquele atalho por São Tomé das Letras… Hehehe…

– Dá isso mesmo?

– É isso. Ou daqui até Manaus… Se fosse na Europa seria andar de Barcelona a Moscou…

– Meu… E a Alê?

– Ela não curte esse tipo de coisa… Talvez vai me encontrar alguma vez durante a caminhada, mas não tá nada certo ainda.

– Aqui, mas como você vai fazer pra comer?

– A cada quatro, cinco dias em média a trilha passa por uma estrada ou perto de uma cidade. Daí eu tenho que pegar um carona e comprar o que for precisar pros próximos dias. Tenho que carregar na mochila tudo o que for usar…

– E pra tomar banho?

– Não vou tomar, né? Devo ficar esses dias sem banho mesmo… No máximo lenços umedecidos… Mas mesmo eles vou ter que deixar secar, pra levar menos peso.

– E as outras coisas, tipo…

– Ir no banheiro?

– É.

– Mato também. E lá eles ainda tem essa história do Leave no Trace, então eu tenho que levar o papel higiênico de volta. Meio nojento, mas super concordo.

– Cê tá é doido… E não é perigoso não? Essa região onde você vai andar? Você vai levar spray de pimenta ou uma faca ou coisa assim?

– Acho que não, cara. É de boa. A região onde começa é o sul dos Estados Unidos, né? Tudo bem que é terra de eleitores do Trump, rednecks, hillbillies e tal. E nos grupos de discussão no Facebook tem um povo que fala em levar arma e tal. Mas a trilha é segura. Não tô preocupado com isso não…

– Nem com bicho? Deve ter um bichos estranhos por lá.

– É! O bicho que mais tem é o bicho-grilo, né? hahaha…. Mas também tem alce, veado, cobra, urso…

– URSO? Para…

– Tem, mas é urso preto, que é mais medroso. É de boa. Só não dar bobeira com comida. Tem que dependurar a comida toda noite quando chega no acampamento…

– ACAMPAMENTO? Não tem pousada não?

– Hahahaha… Não, meu! Tenho que levar barraca. E nessa história de bicho o que mais me preocupa mesmo é carrapato. Tem que checar todo dia, passar repelente, essas coisas.

– Saquei… Mas se acontecer alguma coisa você tem celular, né? Leva um carregador solar!

– Não adianta, já olhei. A trilha é toda no meio da floresta, não bate sol. Vou levar uma dessas baterias portáteis. Deixo o celular no modo avião. Com as cargas extras da bateria espero que dê pra usar até chega na próxima cidade, dali a quatro dias. Aí eu para num posto de gasolina, compro a comida, carrego o celular, essas coisas. O sinal não pega muito bem na trilha. Vou ter que resolver essas coisas todas quando chegar na cidade mesmo.

– Mas você não vai ficar em hotel nenhum dia?

– Então, eu tô com uns projetos aí. Tem uma série de podcasts que vou fazer com o Portal Extremos e umas outras coisas que estão rolando. Por causa disso uma vez por semana, mais ou menos, vou ficar num albergue ou hotel pra poder mandar texto, foto, gravar os podcasts, essas coisas.

– Aqui, desculpa falar isso… Mas você não tá velho pra isso não?

– Cara, acho que não… Tô com 45. Fisicamente nunca me senti tão bem. E tem gente 80 que já fez a trilha. Só saber meu ritmo e manter.

– E grana? Como é que você vai fazer?

– Ué, rolou esse patrocínio do The Trek, né? Um site gringo. Fui um dos vencedores da Badger Sponsorship, uma promoção deles. Daí ganhei boa parte dos equipamentos que vou usar… Só coisa foda: barraca Big Agnes, tênis Altra, mochila Gossamer Gear… Só equipamento de primeira. Massa demais. Ajudou pra caramba o custo inicial. Agora o resto das despesas é comida, hospedagem e passagem. No final das contas vou gastar a mesma coisa que se estivesse aqui.

– E quem mais vai com você nessa história?

– Eu vou sozinho…

– Hã?

– É. Eu vou fazer sozinho. Mas tem muita gente que tenta fazer, então com certeza vou encontrar alguém, fazer novos amigos…

– Cara, na boa… Cê pirou mesmo…

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Não, isso não vai acontecer. Não se preocupe…

 

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2 comentários sobre “Uma conversa informal

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