A trilha da trilha: West Virginia

Quando você acha que a Virginia acabou, chega West Virginia. O caminho é curto: são só 4 milhas no estado. E John Denver resume bem o estado de espírito por aqui:

“Almost heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountains
Shenandoah River,
Life is old there
Older than the trees
Younger than the mountains
Blowin’ like the breeze
Country roads, take me home
To the place I belong
West Virginia, mountain momma
Take me home, country roads”

 

 
Já me imagino cantando isso durante TODO o tempo que vou ficar no estado…

 

 
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A trilha da trilha: Virginia

A maior parte da Appalachian Trail é no estado de Virgínia. São mais de 800 quilômetros no estado, e ali estão algumas das maiores atrações do percurso, como a cidade de Damascus (onde acontece o festival Trail Days), e o Shenandoah National Park. Mas a distância percorrida no estado é tanta que muitos caminhantes dizem que Virgínia é entediante. Virginia Blues, esse é o termo usado.

Assim como as milhas percorridas na Virginia, a seleção de músicas sobre o estado também é gigantesca. Eu poderia escolher Sweet Virginia dos Rolling Stones ou Virginia Moon, do Foo Fighters com a Norah Jones, e esses seriam são só dois exemplos.

Mas preferi ficar com algo mais autêntico, original, de raiz. Take Me Back to Old Virginia, do Jerry Lee Lewis, é quase um hino não oficial do estado. E certamente vai me acompanhar pelos aquelas 500 milhas. Virginia Blues, ora bolas…

Treinamento de corpo e alma

Existe um grande debate entre as pessoas que tentam fazer uma trilha tão extensa quanto a Appalachian Trail. Para alguns a trilha não exige nenhum treinamento em especial: a própria trilha irá cuidar de deixar seu corpo em forma, pronto para os milhares de quilômetros que estão por vir. Um segundo grupo, no qual me incluo, acha que não: se você quer realmente chegar até o final é bom ir se preparando. Bastante.

Dentre as três grandes trilhas americanas a Appalachian Trail é a menor, mas é também, indiscutivelmente, a que tem a maior variação de altitude. São mais de 500 mil pés de sobe e desce. 16 Everests, eles pregam! E pra enfrentar um monstro desses não dá pra ir despreparado.

Faltando menos de 90 dias para meu início entro na reta final de treinos e exercícios. Reta final porque desde o início de 2016 já venho treinando, de alguma forma, para isso. Primeiro foram os livros, onde tentei entender a trilha. Depois a Estrada Real, que fiz em junho de 2016. Andar aqueles 1200 km foi uma prova: se conseguisse completá-la bem provavelmente conseguiria fazer a AT.

A partir de agora eu divido meu treinamento em três atividades: caminhadas com a mochila, corridas e exercícios físicos.

As caminhadas eu faço quatro vezes por semana. Segundas, quartas e sextas caminho na cidade. Encho minha mochila de livros – Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos são os escolhidos, por motivos óbvios: os 8 livros das duas coleções pesam mais de 8 quilos! – e saio caminhando pela capital mineira. E quem conhece Belo Horizonte sabe que a cidade não é para fracos. Tenho preferência pelos morros do Santo Antônio, Gutierrez e Sion. Ando umas três horas por dia com a mochila nas contas.

Aos sábados as caminhadas são nas várias trilhas nas proximidades da cidade. A do Topo do Mundo até Moeda, por exemplo, é um trilha que muita gente diz ser difícil. Na minha última caminhada resolvi medir a variação de altitude. Pra ir e volta são cerca de 23 quilômetros de distância e um pouco mais de mil metros de subidas e descidas. É daquelas que você chega no final pedindo penico, com tanto morro que atravessa. Gravei o vídeo abaixo explicando um pouco. Veja só:

Olha que coincidência: estou planejando andar a Appalachian Trail por 150 dias, uma média de 23 quilômetros por dia. Exatamente a distância da trilha do Topo do Mundo. E quer saber mais? Se a gente dividir a variação total da AT pelo número de dias que estou planejando caminhar (515 mil pés por 150 dias) vamos ter um ganho ou perda de elevação de 3400 pés por dia. Que são, acredite, 1036 metros. Sacou? Fazer a Appalachian Trail é, na verdade, fazer a trilha do Topo do Mundo até Moeda ida e volta por 5 meses, caminhando todos os dias. Quer saber? Choquei.

Pra encarar isso eu intercalo as caminhadas com mochila com corridas, que faço às terças e quintas. Estou aumentando tanto a distância quanto o ritmo gradualmente. No momento estou fazendo 5 km em 30 minutos e até abril a ideia é correr 15 km duas vezes por semana.

E finalmente, pra conectar isso tudo, tenho feito Gyrotonic, um método de condicionamento físico que foi criado ainda nos anos 70 por um  ex-bailarino romeno. A ideia por trás do Gyrotonic são exercícios fluidos, circulares, de rotação e torção em aparelhos. A ideia aqui é reforçar a musculatura e evitar lesões, um dos motivos que mais tiram os caminhantes da trilha.  Faço também três vezes por semana: vou pras aulas andando, levando minha mochila. As aulas de Gyrotonic são mais ou menos assim:

Não mudei tanto a alimentação. Tenho diminuído o consumo de álcool nessa reta final, mas sem deixar de lado um taça de vinho de vez em quando. Também tenho comido menos carne vermelha e mais vegetais, mas porque sei que durante a caminhada minha alimentação vai se restringir, quase exclusivamente, à macarrão instantâneo, barras de cereais e outras porcarias. Vou tentar me alimentar bem sempre que possível, mas como vou ficar na dependência do que encontrar em cada parada, realmente não sei o que vou comer…

A preparação é pra chegar na trilha no melhor condicionamento físico possível. Sei da dificuldade da caminhada. E quero dar o melhor de mim para chegar ao final no prazo previsto.

Mas o treinamento físico é só uma parte. É preciso se preparar também psicologicamente e emocionalmente para a caminhada. E essa, eu acredito, é a parte mais difícil. Nenhum dos livros que eu li (nem o Appalachian Trials, um guia para se preparar psicologicamente e emocionalmente para a Appalachian Trail)  vai conseguir me deixar pronto pra esse desafio. Eu só vou saber o que é ficar 5 meses longe de casa, no mato, na chuva, no tempo, falando uma língua diferente, comendo comida desidratada, passando sede e perrengues mil, quando realmente passar por isso. Vinte dias do Caminho da Fé? Moleza! 1200 km e um mês na Estrada Real? Fichinha.

Tenho total consciência da encrenca em que estou me metendo. Sei que vai ser mais difícil que estou pensando. Mas tenho meu objetivos claros: sei porque quero fazer a trilha, sei o que vai acontecer se eu conseguir. E sei também o que vai rolar se não chegar no final. Corpo são, mente sã. É assim que quero dar o primeiro passo.

 

Preciso do seu voto!

Você deve ter uma ideia do que uma caminhada como a da Appalachian Trail envolve. O planejamento, a preparação, o custo, os equipamentos…
Pois bem: estou participando de um concurso que pode me ajudar bastante nessas duas últimas etapas, custo e equipamento. Eu posso ganhar boa parte do que vou precisar, incluindo mochila, saco de dormir, barraca e algumas caixas de comida desidratada.
Sou finalista da promoção The Badger Sponsorship, do site The Trek, a principal referência para quem planeja fazer a Appalachian Trail ou a Pacific Crest Trail. Para participar eu precisei fazer um vídeo, falando a) porque queria o patrocínio, b) porque estou fazendo a trilha e c) porque acho que vou completar a trilha. Meu vídeo está aí embaixo. Se quiser assistir os outros concorrente só ir no The Trek.

A escolha do vencedor é baseada 50% no voto dos patrocinadores e outros 50% NO VOTO DO PÚBLICO. A votação é online: se você quiser me ajudar (Ajuda, Luciano!) é só seguir o passo a passo que fiz aí abaixo. Não demora mais de 2 minutos:

1. Entre no link https://goo.gl/VvJKOI
2. Ache o meu nome (Jeff) e clique nele.
3. Agora insira seu email no campo branco (email address) e clique em Confirm (pode ser que a tela fique preta, nesse caso é só rolar a barra pra cima ou pra baixo pra achar)
4. Por fim, vá até a sua caixa de email (pode estar na caixa de entrada ou ter ido pra pasta de spam) e clique no quadro azul (Confirm Your Email Address).
5. Pronto! Se você tiver feito tudo certo vai ver quantos votos tiveram e quantos porcento eu tenho. Só aí o voto é válido.
Se o email não chegar na mesma hora, paciência. Pode ser que ele demore um pouco. Durante todo o dia de ontem o sistema de votação ficou instável, demorando horas pro email chegar… Só você se lembrar de depois ir lá e confirmar o seu voto. Mas atenção: se você não confirmar o email que chegar seu voto não é válido. TEM QUE CONFIRMAR.
Quer ajudar mais? Repita os passos acima com seu email pessoal e seu email profissional. Quantos mais votos, melhor.
Ainda quer ajudar?? Divulga essa mensagem pros seus amigos, grupos de Whatsapp, Facebook ou email.
A votação vai até meia noite de terça, dia 24.
Obrigado a todos(as). Vamos lá! Me ajude a ser o primeiro brasileiro a completar a Appalachian Trail!

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A trilha da trilha: Tennessee

O terceiro estado por onde a Appalachian Trail passa é o Tennessee. São pouco mais de 140 quilômetros dentro doestado, mas a AT segue a divisa entre a Carolina do Norte e o Tennessee, cruzando entre um estado e outro, por mais de 250 km.

O ponto alto deste trecho – na verdade o ponto alto, literalmente, de toda a trilha é Clingmans Dome, no Parque Nacional de Great Smoky Mountains. Ele fica a pouco mais de 6600 pés (2000 metros) de altitude. É nesse parque também que está o segundo ponto mais alto da trilha, o Mount Guyot, também acima dos 6600 pés. Como comparação, a Serra do Cipó chega a 5600 pés (1700 metros). O Pico do Itacolomi, perto de Ouro Preto, tem quase 6000 pés (1800 metros). E na Serra da Mantiqueira todos os principais picos, como Mina, Três Estados e Agulhas Negras, estão bem acima dos 8000 pés (2000 metros).

Voltando à trilha da trilha: os Osborne Brothers, uma dupla de bluegrass que começou ainda nos anos 50, tem duas músicas sobre as montanhas do Tennessee: Rocky Top e Don´t Let The Smokey Mountain Smoke. A primeira chegou a fazer algum sucesso nos anos 60, mas gosto mais de segunda, cuja letra diz:

Don’t let Smoky Mountain smoke get in your eyes

If you do, I’m telling you

You’ll want to live there the rest of your life

If Smoky Mountain smoke gets in your eyes

Longa Distância no Senac Minas

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No final de 2016, depois de ter completado a pé três dos caminhos da Estrada Real, recebi uma mensagem de Alexandre Biciati, do Senac Minas. Ele queria agendar uma entrevista para o Aprendi no Senac, o blog oficial da instituição.

O bate papo aconteceu ainda em dezembro e foi ao ar essa semana. A conversa com a repórter Roberta Almeida foi gostosa: conto um pouco do que foi fazer os 1.200 km da Estrada Real a pé, os desafios e planos para o futuro, incluindo a Appalachian Trail.

É muito gratificante ver que esses passeios servindo de inspiração para uma galera que está agora indo em busca de seus sonhos. Uma das razões das caminhadas é isso: mostrar pra Jade e Lis, minhas netas, que é preciso ir atrás de suas paixões, não importa quais sejam.

Pra assistir e ler a matéria é só ir no Aprendi no Senac. Ou você pode assistir a conversa aí embaixo.

Obrigado ao Alexandre, à Roberta, ao cinegrafista Evandro Gangana e a toda equipe do Senac pela oportunidade.

 

Faltam cem dias… Não! Menos!!

Entrei na contagem regressiva para a trilha.

Mesmo sabendo que a Appalachian Trail é uma trilha extremamente sociável, queria fugir da “bolha”, o período onde a maioria das aspirantes a thru hikers começam. Ele vai do início de março ao meio de abril. Historicamente os primeiros dias de cada um desses dois meses são os que recebem a maioria dos caminhantes. No ano passado mais de 50 pessoas começaram nesses dias.

Mas mesmo começando em maio, no ritmo que eu normalmente ando, eu inevitavelmente iria encontrar com esse bando em algum lugar nas próximas semanas. Para fugir da multidão por completo eu deveria a) começar antes deles e seguir sempre a frente, ou b) fazer a trilha no sentido SOBO (não sabe o que é SOBO? Lê lá no Dicionário Apalache-Português) ou c) optar pelo Flip Flop. Nenhuma das três opções me agravada: para fazer a primeira deveria começar ainda em fevereiro, com neve e temperaturas muito baixas. E optando por qualquer das outras duas eu não terminaria em Mount Katahdin, o meu objetivo. Afinal, a maioria das pessoas faz do sul pro norte por algum motivo, não?

Ou seja: mais cedo ou mais tarde eu iria cruzar com a bolha.

Comecei ainda no final de dezembro a pesquisar várias opções de passagens para os Estados Unidos. Saindo de Belo Horizonte, ou Rio, ou São Paulo, ou Brasília, ou Recife. Chegando em Atlanta, ou Miami, ou New York, ou Charlotte, ou Orlando. Não me importava: poderia fazer os trechos internos com milhas que tenho acumuladas, mas o importante seria sair do Brasil e chegar aos Estados Unidos gastando pouco. Os preços variavam muito, mas sempre acima dos US$1,000.00 . Até que encontrei uma passagem saindo de BH e chegando a Orlando por cerca de 800 dólares. Comecei a monitorá-la, a pesquisar datas próximas, a chegar outras companhias. Curiosamente o preço vinha caindo: do final de dezembro até agora já está 140 reais mais barata. Continuo um monitoramento diário, mas a tendência é de queda: fica cerca de US$5 mais barata a cada dia. Ainda não emiti, mas vou fazer assim que sentir a tendência mudar de rumo. O problema: essa passagem sai do Brasil dia 10 de abril. Com isso adianto o início da caminhada em duas semanas. Vou encontrar com a bolha antes do que imaginava.

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Assim devo começar a caminhada por volta do dia 15. Também não defini o dia exato. Mas se for mesmo começar no dia 15 faltam 93 dias.

Não defini o dia porque outro gráfico que monitoro é o do registro de caminhantes que pretendem fazer a trilha inteira, os chamados thru hikers. Não é um registro obrigatório, mas dá uma boa noção da tendência de quais dias são mais concorridos. Até o momento os dias 1 e 15 de março são os hits desse nosso verão. O gráfico é atualizado semanalmente. Os números de abril como um todo ainda são baixos, mas por lá também a tendência é que as pessoas se registrem mais próximo da data de início. Ninguém ainda se registrou para o dia 15, e continuando assim é bem provável que peça ao pessoal da Appalachian Trail Conservancy, que teve a iniciativa do registro, que adiante minha data do dia 1 de maio para 15 de abril.

O planejamento final contempla, além da viagem BH-Orlando, também o aluguel de um carro, que dirijo até Atlanta, passando por Jacksonville, FL, onde encontro uma amiga e compro as coisas que estivem faltando; o trem do centro de Atlanta até a estação no norte da cidade, onde pego uma van até as proximidades da trilha. No primeiro passo uma noite no Hiker Hostel (que fica a 120 km da estação de trem) e no dia seguinte pela manhã eles me deixam no Amicalola Falls Park (outros 45 km). Mas ali ainda não é o início da trilha: são mais 13 km na Approach Trail (a trilha de aproximação) até chegar ao marco inicial da Appalachian Trail.

O que vou encontrar por lá é isso:

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O primeiro marco da Appalachian Trail (a foto é do blog Atlanta Trails)

Uma placa marcando o início da trilha e a primeira white blaze. A partir dali serão só mais 3540 km de caminhada até o Mount Katahdin, no Maine, onde planejo chegar no dia 7 de setembro.

O que falta pra fazer nesses próximos 93 dias parece uma enormidade. Ainda tenho equipamentos pra comprar, alguns dos quais só vou ter contato quando chegar nos Estados Unidos. Tem alguns apoios e parcerias que tenho conversado que preciso fechar nas próximas semanas. Tenho alguns livros que gostaria de ler antes de começar a trilha. Tenho que vender algumas coisas coisas para ajudar a pagar as despesas (alguém aí interessado numa Canon T1i? Uma Canon D70?)

Tenho que terminar o treinamento que me propus (falo dele depois). Preciso comprar um bom seguro de viagens. Preciso testar os novos equipamentos que devo receber essa semana (barraca, saco de dormir, isolante térmico) em condições mais adequadas (vou fazer um vídeo sobre esses equipamentos, não se preocupe).

Nesses 93 dias ainda tenho pelo menos dois trabalhos que vão me deixar fora de Belo Horizonte por alguns dias. Aniversário de 15 anos da neta. Viagens pra visitar os irmãos em Divinópolis e Juiz de Fora. Contas para deixar programadas para serem pagas. Preciso faz um check up, ir ao dentista, consultar minha oftalmologista…

Mas tenho a sensação que tudo está andando no tempo certo. A partir de agora é manter o ritmo, o foco e começar a contagem. 93, 92, 91…