AT: Preparações

Ao mesmo tempo que me recupero fisicamente dos 1200 km da Estrada Real estou na preparação psicológica e na contagem regressiva para a Appalachian Trail 2017 (faltam 270 dias).

As unhas ainda estão no cai-não-cai: por enquanto só a 5 se desprendeu, mas a 4 e a 7 estão roxas. Os pés já não doem e as bolhas se curaram, o que me deixou com um casco no solado. Os joelhos também estão bem, mas vez ou outra um deles dói um pouco, o que me deixa preocupado. Mas a dor logo passa, eu esqueço e não me incomada mais.

Foram duas palestras até agora, a terceira por vir. A primeira, no Guaja, foi excelente. Público interessado, boas perguntas, bom bate papo. A segunda, na Sincero, nem tanto. Muita conversa paralela e eu não estava nos meus melhores dias. Acho que poderia ter sido melhor. A próxima é em Divinópolis, no dia 6 de agosto. E promete: a tarde, em uma livraria, um clima mais adequado.

As vendas do zine estão indo muito bem (na verdade a primeira edição está praticamente esgotada) e as cobranças para um livro continuam. Acho que dá pra intercalar causos e um guia melhor que os atuais. Ainda preciso pensar e formatar melhor a ideia, mas é algo que acredito que possa acontecer.

E enquanto isso passo as tardes tentando decidir qual o melhor tênis, a melhor barraca, o melhor fogareiro, se preciso de outra mochila, se uso isolante inflável ou de enrolar, se levo só o guia em pdf ou também impresso, se compro mais um carregador portátil, se levo só celular para as fotos ou também um câmera e se levar câmera compro uma point-and-shot ou mirrorless… Até setembro compro o que falta e até lá quero ter tudo muito bem definido. Claro que vou querer trocar alguma coisa no meio da viagem, mas o ideal é ir com tudo o mais acertado possível.

O que mais dá dor de cabeça é a logística de alimentação. Mas já decidi que não vou usar o sistema de enviar caixas pra mim mesmo pelo correio. Vou comprar o que preciso a medida que estiver viajando, tentando manter os pesos – meu e da mochila – sempre o mais baixo possível. Acho que esse é o melhor sistema pra quem não pode perder tempo como eu. Talvez seja um pouco mais caro, mas não vou correr o risco de ficar esperando uma caixa chegar em uma cidade nada a ver. Também não quero correr o risco de comer sempre a mesma coisa durante toda a viagem…

E decidi também que como preparação vou fazer mais uma viagem relativamente longa aqui no Brasil. Tanto no Caminho da Fé quanto na Estrada Real o trecho mais desafiador foi o da Serra da Mantiqueira. Assim, estou elaborando um roteiro Transmantiqueira, primeiro cruzando a serra sul-norte de São Francisco Xavier a Monte Verde e depois seguindo sentido oeste-leste, até Aiuruoca. Em parte esse é o roteiro que o Pablo Bucciarelli fez em 2015, com algumas variações de percurso e decisões: ele começou em Monte Verde e não passou por algumas trilhas que vou passar. Eu vou andar um pouco mais que ele, vou carregar mais peso e certamente vou gastar três vezes o tempo que ele gastou. Ao contrário do aparato que ele montou, não tenho equipe de apoio, vou acampar e carregar meus alimentos, assim como vou fazer na Appalachian Trail. Também não vou ter fotógrafo, nem assessor de imprensa, nem piloto de drone para registrar a jornada. O que é uma pena. Os registros que a equipe do Pablo fizeram são ótimos.

Meu objetivo inicial é fazer os mais de 400 km do percurso em 20 dias. A altimetria é um fator importante: o percurso tem um variação de 14000 metros pra cima e pra baixo. Quase um Everest e meio. Passo por três dos pontos mais altos do Brasil, todos ali na divisa de Minas, São Paulo e Rio. Nesses 20 dias planejados não cruzo mais que 5 cidades, e talvez passe pelo mesmo número de vilas ou distritos. No geral, estou buscando algo similar ao que vou encontrar nos Estados Unidos. Vou precisar andar com comida para 3 ou 4 dias, além de 3 ou 4 litros de água diariamente. Nas três semanas de viagem devo dormir em pousada duas ou três vezes – ou uma vez por semana, como espero fazer lá. Em média serão 20 quilômetros por dia, também o que espero fazer por lá. E pode parecer estranho, mas queria pegar algum dia de chuva, o que com certeza vai acontecer na Appalachian.

Se tudo correr como o planejado, saio no início de outubro. Vou informando o andar da carruagem por aqui.

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Inspirações: Robyn Davidson

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A australiana Robyn Davidson ainda não tinha 25 anos quando chegou em Alice Springs. O ano era 1975. Quando eu visitei a cidade, em 2014, Alice Springs ainda guardava algumas semelhanças com aquela época. Mas 40 anos atrás a cidade deveria ser ainda mais preconceituosa, sexista, e isolada. Fica bem no centro de um país com dimensões similares ao Brasil e tudo o que se vê no seu entorno é o outback, o deserto australiano. Os turistas que visitam o lugar vão ali por um motivo: Ayers Rock, ou Uluru, o monólito sagrado dos aborígenes. Mas mesmo Uluru não fica perto: está a quase 500 km de distância. O calor é insuportável. Por 6 meses do ano, a temperatura é na casa dos 40 graus. O clima é seco: o Red River não passa de um leito.

Nos anos 70 Alice Springs devia ser uma terra de ninguém. A população local não chegava a 6 mil habitantes e uma das atividades econômicas locais era (e ainda é) a venda de camelos. Trazidos do Oriente Médio para servir de condução e trabalho na construção de estradas de ferrovias, muitos animais fugiram, se reproduziram e hoje a Austrália tem a maior população de camelos do mundo. Robyn foi trabalhar em um das fazendas que caçavam e treinavam os animais. Levou cano, ficou em receber, mudou de fazenda e dois anos depois conseguiu o que queria: um casal de camelos. Com eles (e Diggity, sua cadela de estimação) saiu em uma jornada de 2800 km rumo ao sul. Por quase 200 dias cruzou o deserto sozinha com seus bichos.

Ela conta que quando planejou a viagem “tinha essa ideia maluca de cruzar o deserto do meu país. Eu tinha esse desejo de ficar sozinha, eu precisava ficar no deserto sozinha. Foi uma gesto muito pessoal. Não queria envolver ninguém. Não queria que ninguém em particular soubesse. E eu não pensava em escrever sobre isso. Eu não pensava que era estranho uma mulher fazer isso sozinha. Era só o que eu queria fazer”. Mas apesar disso a viagem de Robyn virou um ótimo artigo para a revista National Geographic. Depois livro. Depois filme. E é um ótimo exemplo de superação de desafios e persistência que serviu de inspiração para minhas caminhadas.

 

 

Blog&Zine&Palestra

Ontem tive o prazer de participar do primeiro bate-papo, fruto da minha experiência caminhando os quase 1200 km da Estrada Real. O convite veio da Renata Ávila Alamy, amiga de longa data e uma das cabeças responsáveis pelo Guaja, espaço coworking aqui em BH. No Guaja funciona também o Bar do Convés e toda segunda eles abrem espaço pra profissionais exporem suas experiências no projeto Santo de Casa. Foi aí que me encaixei.

E a coisa funcionou bem demais. Me chama atenção como esse tipo de “aventura” fascina as pessoas. Mais do que eu esperava, confesso. Renata disse que foi o Santo de Casa mais cheio de todos, o que me deixou extremamente feliz (consegui tirar aquele tanto de gente nunca segunda-feira à noite de casa, no inverno!). Além da Estrada Real, contei um pouco também sobre o Caminho da Fé (que fiz em 2015) e a Appalachian Trail (que faço ano que vem), além dos motivos e razões para se caminhar. Foi bom rever amigos de longa data que há muito não via, conhecer gente nova interessada em caminhadas e trilhas e pessoas que já fizeram a Estrada ou trechos dela, de bicicleta, a pé e de moto. Obrigado a todos, de coração, pela presença.

Tentei também transmitir a palestra via Facebook para quem não pode ir. Foi meio frustrante, mas os problemas são fáceis de resolver para uma próxima edição, que deve acontecer em breve. O formato blog > zine > palestra parece funcionar bem: um segundo bate-papo, desta vez na Bodega Sincero, já está agendado (detalhes ainda essa semana) e o pessoal do Mesha, outra daquelas iniciativas geniais que surgiram em BH nos últimos anos, assim como o Guaja, também está estudando um encontro dentro da série Mesha Talks. Marcando conto pra vocês.

E mais: meus amigos da editora Entrecampo lançaram no evento um fanzine de 24 páginas, impresso em papel pólen, com trechos dos meus relatos aqui do blog e de fotos do passeio pela Estrada Real. O trabalho do Grazi e do Portilho é primoroso: impressão em risografia, capa especial, design caprichado, acabamento de primeira. Muito, mais muito feliz com o resultado. O zine pode ser comprado diretamente com eles. Só entrar em contato.

E tenho pensado em outros frutos dessa experiência. Aproveitando o frescor da chegada (tumultuada) em BH e formatando mais uma coisinha ou outra pra muito em breve.

Perguntas e respostas

IMG_5805Foram 32 dias de Estrada Real, quase 1200 quilômetros percorridos a pé. Muita gente fica curiosa com alguns detalhes de uma viagem como essa. Me perguntam como a coisa funciona na prática, o que se leva, o que se come, quanto se anda por dia, quanto custa, que horas sai, que horas chega, coisas assim. Vou tentar responder a algumas dessas perguntas nesse texto.

De modo geral, a Estrada Real é muito bem dotada de estrutura de hospedagem e alimentação. Minas Gerais é o estado brasileiro com o maior número de cidades, então dá pra se ter uma ideia. O que não quer dizer que as pousadas sejam boas, nem que você vai conseguir jantar todos os dias…

Fiquei em lugares decadentes e sujos como a casa do Roberto, em Traituba, e paguei R$70, por uma cama de solteiro e um banheiro compartilhado (ok, ele fez uma janta e me deixou chupar quantas laranjas eu quisesse). Em Cruzília, gastei R$50 no quarto mais confortável da viagem, com cama king size, chuveiro privado excelente, TV a cabo, travesseiros à escolha. Por mais R$30 eu teria hidromassagem. Em Morro do Pilar o quarto era simples, mas o café da manhã era excelente. E custou R$35, o mais barato da viagem. O mais caro que paguei foi em Passa Quatro: R$135, mas o conforto do lugar vale o preço. Poderia ter ficado no albergue, mas tava lotado. Em média os quartos custavam entre R$50 e R$60 por noite.

Alimentação em Passa Quatro também foi caro: duas cervejas e um Hamburger, R$68, sem 10%. A janta na Pousada Rural de Embaú, com arroz, feijão, carne, ovo, salada e purê de abóbora, saiu por R$12. Ficando no trivial, na janta, o preço era em torno de R$15.

Eu não almocei nenhum dia. Minha rotina era acordar meia hora antes do horário do café na pousada (meu limite era as 7h. Se a pousada começasse a servir café só as 8h, meu plano era a) convencer a servir mais cedo, b) negociar de deixar um café já preparado, com o que tivesse, pra eu tomar quando acordar e cair fora e c) pedir um desconto na diária. Quase sempre a) funcionava), comer bem no desjejum e só parar pra comer quando chegasse ao meu destino.  Na mochila eu levava barrinhas de cereais, frutas secas e frutas que tivesse na pousada – quase sempre bananas e maçãs. Com isso – e três litros de água, em média – me sustentava até a janta.

Minha estratégia era começar a caminhar o mais cedo possível. Como clareava às 6:30 mas o sol só saía mesmo às 10h, esse horário era excelente. A partir das 10 já começava a ficar quente, depois das 11 já suava bicas. Parava lá pelas 3 ou 4 da tarde em um dia normal. Um dia extrapolei: quando fui do Serro a Tapera, quando poderia ter parado em Alvorada de Minas ou Itaponhacanga. Cheguei já noite. Outro dia saí ainda noite: no último, quando precisava andar os 60km de Cunha a Paraty. Em média andava o que me deixava satisfeito: entre 35 e 40km por dia (7 ou 8 horas, sem parar pra almoço). Meu objetivo era sair cedo e chegar cedo.

Na minha mochila eu levava o básico do básico. Quatro sacos, que eu chamava de roupas, primeiros socorros, tecnologia e comida.

O roupas é um saco estanque de 20 litros que ia com o seguinte:

  • 1 camiseta extra de caminha
  • 1 camiseta pra cidade
  • 1 calça de compressão extra
  • 1 par de meias extra de caminhada
  • 1 par de meias soquete
  • 1 calça de nylon pra cidade
  • 1 calça quente pra dormir
  • 1 segunda pele pra dormir
  • 1 manga longa pra cidade
  • 1 Mini toalha de alta absorção

Tudo leve, nada de algodão, tudo de secagem rápida.

O primeiro socorros era o mais pesado. Com os machucados no pé durante a caminhada foi ficando maior e no final tinha o seguinte:

  • Kit óculos: porta-óculos, óculos, lente de contato, 100ml de soro pra lente
  • Kit dental: escova, creme, fio
  • Kit primeiros socorros: pomada anti-inflamatória, pomada pra alergia, pomada pra assadura, linha e agulha (pras bolhas), esparadrapo microporos, bandaid, gase, protetor labial (que nunca usei), Salompas
  • Kit higiene: Mini sabonete, desodorante, papel higiênico, lenços umedecidos, protetor solar
  • Kit comprimidos: ibuprofeno, Cataflan (só usei esses dois), tylenol, aspirina
  • Kit unha inflamada (comprei quando a unha 5 caiu): algodão, água oxigenada, mertiolate

Cada kit desse ia em saco plástico e todos eles em uma sacola de tecido.

O tecnologia tinha:

  • Dois adaptadores usb-tomada
  •  T
  • Carregador extra celular
  • Lanterna de cabeça
  • Cabo iPhone
  • Cabo mini-usb (carregador e lanterna)
  • Mini tripé
  • Fone de ouvido

Na sacola comida ia o que eu tivesse de comida naquele dia. E um par de tênis de iatismo da Tribord (um achado, pesa menos que um par de havaianas) era meu sapato pra cidade e ia numa sacola de supermercado.

Os três primeiros sacos iam dentro de um saco de lixo dentro da mochila, uma Quechua 40l. Assim, caso eu pegasse chuva, minhas coisas não molhariam. Na parte de cima da mochila ia o kit comida, o passaporte da estrada real (num saco plástico) e um capa de chuva barata (coisas que eu precisaria usar em emergência ou assim que chegasse na cidade, e que caso precisasse não teria que abrir a mochila toda). Num bolso na frente da mochila, na cintura, eu levava um canivete e duas ou três barrinhas de cereal. Dependurado na alça da mochila uma bandana multi-uso. Nas laterais, duas garrafas pet 1,5l de água. Só de água eram 3 quilos, mas a mochila toda, completa, não chegava a 9. O peso base, sem comida e água, era pouco menos de 5 quilos. Tudo muito enxuto. Andar leve é o segredo.

Eu usava tênis (um Asics Fuji), meia, calça que vira bermuda, calça curta de compressão, camiseta, camisa manga longa, corta vento, boné. Óculos de sol eu perdi em Entre Rios. Levava também dois bastões de caminhada, essenciais tanto em subidas quanto descidas. No bolso esquerdo da calça o celular. Numa pochete, dinheiro, cartões de crédito e débito e um iPod Mini, que usava pra marcar a distância percorrida.

Na chegada de cada cidade ia até o ponto final indicado na planilha, onde desligava a contagem da distância. A partir daí ia procurar local pra carimbar o passaporte e pousada (às vezes era no mesmo lugar). No local de estadia, um ritual: tirava tudo da mochila, conferia se estava tudo ok, tomava um banho quente e demorado, botava a roupa de cidade, descansava um pouco e ia procurar o que comer e conhecer a cidade. Voltava, atualizava o blog e normalmente já estava dormindo antes das nove.

Como a maioria das cidades é bem pequena, não tinha muito o que ver. A igreja (que em muitas era o ponto de chegada) e muitas vezes só. Mas acontece que em muitas dessas cidades as atrações mesmo estão no entorno, como as cachoeiras em Carrancas ou Milho Verde. Aí não dava pra visitar, mas ia anotando mentalmente os lugares que quero voltar (Diamantina, Milho Verde, Serro, Morro do Pilar, Circuito das Águas).

Dos 32 dias de Estrada Real, andei efetivamente 28. Tirei quatro dias “zero”, onde fiquei parado. Não andei os dias 12, 14, 19 e 20. Quando cheguei a Caeté, do lado de BH, passei a ir dormir em casa ao invés de procurar pousada. Era mais barato e mais confortável. Além de Caeté, fiz isso em Sabará e Rio Acima. Tirei um dia zero antes de voltar a Rio Acima e seguir a Glaura, onde Alê foi me encontrar e tirei o segundo zero. Depois voltei de São João Del Rei pra BH para um final de semana com a família. Nos 28 dias caminhados foram percorridos 1.172,45 quilômetros. O que dá uma média de uma maratona (quase 42km) por dia. Não conto aqui as caminhadas pra procurar pousada, restaurante, farmácia ou sinal no celular. Meu ritmo de caminhada é puxado e paro raramente. Nos dias que andei pouco, fiz quase 30 km (de Conceição do Mato Dentro a Morro do Pilar e de Capela do Saco a Carrancas). Vários foram os dias com mais de 50. O último, de Cunha a Paraty, bateu nos 60, doze horas de caminhada quase sem parar.

Mas tenho que confessar: eu não fiz a Estrada Real completa. Além do Caminho Novo (Ouro Preto a Petrópolis), ficaram faltando trechos em todos os caminhos que fiz. O Caminho dos Diamantes, por exemplo, sai de Diamantina e vai a Ouro Preto. A partir de Cocais segue para Barão de Cocais, Santa Bárbara, Catas Altas, Santa Rita Durão, Camargos e Mariana. Por causa do acidente em Bento Rodrigues, que ficava entre Santa Rita e Camargos, a estrada está bloqueada a partir de Santa Rita, o te obriga você a pegar um asfalto com grande número de caminhões e sem acostamento. Por causa disso optei por pegar o Caminho do Sabarabuçu, que começa em Cocais. No caminho do Sabarabuçu não andei o trecho final, de Glaura a Ouro Preto. E no Caminho Velho, o trecho inicial, que sai de Ouro Preto, passa por Glaura e vai a Santo Antônio do Leite, também foi omitido (fiz de carro com a Ale). Sem contar que saltei Itamonte. Se tivesse feito todos esses trechos seriam pelo menos mais 150 quilômetros. Mas não acho que tenham comprometido a caminhada e seu objetivo.

Estrada Real S01E29: Cunha a Paraty

Distância do dia: 61,50 km. Distância final: 1.172,45 km
Se essa caminhada fosse mesmo uma série de TV, como venho brincando, esse último dia seria aqueles season finale com o dobro de duração, com direito a flashback, novos personagens, choro e mudanças supreendentes no final.

O dia começou cedo. Quando acordei, às 4:30, já vi a luz da cozinha acessa. Cida tinha cumprido a promessa e acordado antes de mim pro café. Subi e ela já tava na porta, com a mesa posta. “Dormiu bem, Jef-fer-son?” Ela fala o meu nome pausadamente, destacando bem as sílabas. Eu tinha dormido super bem. A pousada do Sossego é realmente o que o nome sugere. “Olha, Jef-fer-son, aqui tem pão. Pode comer. E queijo de Cunha. É muito bom. O café é torrado em casa, viu? Infelizmente não tenho banana, mas tem maçãs e laranja serra d’água. E esse bolo é ótimo pra você. Não tem nada de gordura. É cremoso mesmo. Gosta de suco de laranja? É natural. Foram sete laranjas. E nada de água, viu Jef-fer-son?” Eu ia comendo, ela me mostrando mais coisas, até que falei pra ela sentar pra gente conversar. Você é daqui mesmo? “Sim, sou nascida em Cunha. Fui professora de primeira a quarta série por 25 anos. Dez na zona rural, 15 na cidade. Antes fui empregada doméstica, mas estudei e me formei. Dormia acima de onde ficam os porcos na fazenda”. Casada? “Fui casada duas vezes, com dois homens com o mesmo nome, José Luis. Mas os dois morreram. Meu segundo marido morreu faz dois anos”. E toda vez que fala do segundo fala com saudade na voz. Do primeiro não: bebia muito e ficaram casados por seis anos. Com o segundo foram 30. 

Ontem quando cheguei Cida estava com uma camiseta de Istambul. Perguntei se era por causa dos ataques. “Não, eu estive lá. Eu e meu segundo marido, que morreu há dois anos, viajamos muito. Fomos a vários países: Turquia, Portugal, Aracaju, Maceió…” E quando conta das viagens se alegra. Conta dos passeios de navio no Nordeste, de balão na Capadócia, de ser assaltada em Portugal. “Roubaram todo o meu dinheiro, até o que eu tinha no Brasil. Só não levaram meu passaporte. Levaram 3 mil euros, meu cartão, a senha… Tiraram até meu dinheiro de aposentadoria”. Mas depois que o segundo marido morreu Cida não viajou mais. Tento incentivar, tirar um final de semana e ir pra Minas, que é perto e ela não conhece.

Quando vejo já são 5:30, hora de despedir e pegar estrada. Quando entro na estrada de terra ainda é noite e fico pelo menos uma hora com a lanterna na cabeça. O caminho vai subindo devagar, passando por propriedades rurais, pousadas, fazendas, restaurantes, vilas, cachoeiras, até chegar de novo no asfalto. É um pouco de tudo que a gente vê durante toda a Estrada Real. E quando chega no asfalto,  mais subida. Ao todo são 35 km serra acima, até a divisa com o estado do Rio.

É meio dia e o pessoal que terminava a colocação das placas na recém-pavimentada estrada Paraty-Cunha começava o horário de almoço. (Na verdade a Estrada ia ser inaugurada só amanhã, dia 1. Ainda faltavam muitos acertos, mas é ano de eleição, você sabe…) A partir da divisa tudo muda. A vegetação é esplendorosa: samambaias gigantes, orquídeas, bromélias, cipós. E é só descida. Vinte e dois quilômetros ladeira abaixo. Logo no início uma clareira na mata revela Paraty lá embaixo. É difícil segurar a emoção vendo a linha de chegada tão perto.

Faltando poucos quilômetros para a cidade paro em frente a um ateliê de cerâmica pra apreciar a vista da cidade mais uma vez. “Aqui é o nosso belvedere”, diz Jorge, o artista, tentando fazer sua voz soar mais alto que os dois gansos que passavam por ali. Sento pra tomar uma água e bater um papo e sou surpreendido por Acajá. Ela corre e se joga no meu colo. E aquela cadelinha branca de orelhas negras fica ali ganhando carinho no colo enquanto Jorge conta que é paulista, formado em artes na   USP, professor, e que um dia, ainda nos anos 80, um aluno veio lhe dizer de uma chácara que estava à venda em Paraty. Ficou em dúvida, pegou conselho com uma amiga, e comprou. Mudou pra lá faz 15 anos, e hoje nem contato com os antigos clientes de São Paulo tem. Mas acha que a estrada nova pode trazer clientes paulistas para o negócio. “Hoje, por exemplo, estou aqui de plantão o dia inteiro e ainda não vendi nada. Acho que os cariocas, como tem a praia e um cenário lindo ao redor, não são tanto valor pra coisas de casa. Mas os moradores de nossas metrópoles cinzas não. Eles valorizam mais coisas como as que eu faço”. Ele fala num português correto, voz bem empossada e aparenta ter menos que os 60 anos que diz ter. Quando me despeço, ele agradece. “Obrigado. Quando voltar pra estes lados lembre-se de mim”.

A estrada desce, desce, e parece nunca chegar. Faz curvas, passa por diversas pousadas e restaurantes, um bairro e finalmente chego ao trevo de Parary. Mais alguns minutos e entro no Centro de Informações Turísticas. Ainda não são cinco da tarde. “Posso te ajudar?”, me pergunta a Juliana. “Agora não. Deixa cair a ficha primeiro”, respondo. Ela fica olhando sem entender, eu com lágrimas de emoção nos olhos, até que falo que quero o carimbo e o certificado. Conversamos, dei dicas, recebi informações, Laíse, que também trabalha lá, me pede uma foto e o endereço do blog e eu saio pra ver o último marco da Estrada Real.

Já são seis da tarde, está escuro e a cidade fervilhando por causa do Flip. Eu andando cansando pelas ruas de pedra, começo a ir pra pousada que o Allan havia reservado pra mim ontem, e começo a me imaginar ali, no meio daquela tanto de gente, tendo que enfrentar fila pra comer, andando com os pés doloridos naquelas ruas de pedra, quando dou meia volta e compro a primeira passagem pra fora dali. Daqui a algumas horas estou no Rio e amanhã cedo em BH. Pronto pra começar a preparar a próxima caminhada.