Estrada Real S01E22: Traituba a Cruzília

Distância do dia: 45,21 km. Distância total: 861,79 km.



Quando o Paulo e o Adilson passaram por mim eu já tinha andado 15 km. Fizemos fotos (na verdade eles fizeram), gravamos vídeos, batemos um pouco mais de papo e  o Paulo descreveu bem a experiência na casa do Roberto. “É o lugar mais sujo que eu já fiquei na vida”. E olha que os dois são aventureiros experientes, com anos de viagens, passeios, corridas, ultramaratonas, escaladas a dois dos sete cumes, e já ficaram em todo tipo de lugar. “Cara, você o teto? Aquele tanto de roupa suja dependurada, parece que nunca lava… A panela que ele fez o frango ele disse que deve ter 100 anos. Adilson disse que só que ele não a lava tem 50”. Adilson completa: “fui lavar um copo pra tomar a cachaça e quando passei a bucha ele ficou mais sujo que antes”. Mas foi Paulo quem teve o insight: “esse cara teve alguma grande decepção na vida. Profissional ou amorosa. Ele é estudado, culto, é simplesmente deixou tudo pra lá”. 

Eu tinha saído bem antes deles, às 7. E logo depois que eles passaram chegou a chuva. Durou pouco, mas uma garoa permaneceu chata durante boa parte da manhã. E junto com a chuva voltou a dor na canela direita. Ontem notei um inchaço, um ovo. E pela manhã passei pomada, mais Salompas, enfaixei, mas a dor continuava. Andava lento, demorado, sofrido. A dor só passou depois que tomei um Cataflan e uma vitamina I (Ibuprofeno). 

O trecho é todo decorado por fazendas centenárias: Favacho, Brinco de Ouro, Narciso, Tapera. Mas a estrela do percurso é mesmo a Traituba: a fazenda é cheia de histórias, a mais famosa dela envolvendo D. Pedro I. Contam que fascinado pela fauna local, D.Pedro marcou uma caçada pela região com a corte. Por isso a família Junqueira mandou construir a fazenda, em 1827. Mas D.Pedro nunca apareceu. Seu Roberto diz que não foi bem assim: que a fazenda já existia e só um quarto foi preparado. Historiadores ainda discutem se o imperador se hospedou ou não na região. Mas a fazenda lá está, tem um quarto reservado para D. Pedro e sua construção a toque de caixa e preço de ouro deve ter deixado os encravos ainda mais descontentes que o usual: alguns anos depois aconteceu ali a Revolta de Carrancas, uma das principais rebeliões de escravos da nossa história. Recentemente a família vendeu o imóvel e na região o povo jura que os donos são Daniel Dantas e Lulinha (que junta a Traituba à Fazenda Fortaleza, em Valparaiso, São Paulo, que também colocaram na sua conta).

Na planilha do IER o trecho, que vai da fazenda à Cruzília, tem 37 km. Como sai antes, da casa do Roberto, ao lado da estação de trem inoperante de Traituba, marquei 45 km. Cheguei à Cruzília quase às cinco, andando pesadamente. Mas fui bem recebido: primeiro com o melhor pão com queijo quente que já comi na vida, na loja de queijos na entrada da cidade. E depois na confortável Pousada Cruzília, que por um quarto limpo, TV a cabo, telefone, banheiro privado, chuveiro quente e barrinhas de chocolate me cobraram menos que o Roberto.

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