Estrada Real S01E16: Entre Rios de Minas a Casa Grande

Distância do dia: 31,29 km. Distância total: 609,12 km.

A dúvida era se eu incluiria Casa Grande ou seguiria direto pra Lagoa Dourada. Tanto em Congonhas quando na Secretsri de Turismo de Entre Rios a opinião era que Casa Grande era muito fora do roteiro e que não valeria a pena a passagem. Indo direto pra Lagoa Dourada seriam pelo menos 30 km a menos. Mas o caminho seria pela 383, e quando saí pela manhã já tinha a certeza que não iria enfrentar essa estrada de novo. Não como ontem.

Mas passar por ela era inevitável. Os primeiros 4 km, mesmo indo por Casa Grande, passagem pela 383. Saí um pouco mais tarde do que queria – na pensão o café começava às 6:30 mas até as 7:00 não tinha nada na mesa – e ainda assim a neblina encobria tudo. Não se via um palmo à frente e de novo o tempo na rodovia foi tenso. Ia abanando minha bandana pra chamar a atenção dos motoristas que tiravam um fininho de mim. Quando peguei a estrada de terra foi um alívio.

O sol só foi surgir mesmo depois das 10h. Até lá era névoa e frio. O termômetro do telefone marcava 8 graus quando sai, e antes do sol não passava dos 11°C. O caminho é tranquilo, e eu ia subindo curtindo o frio, a paisagem e não encontrava ninguém. Unha, pé e perna não incomodavam mais que o usual e o dia ia rendendo. Quando parei em Camapuã, na porta do Bar dos Amigos Dazonze e Meia, uma senhora saiu de casa. “Com esse tempo desse jeito periga o povo perder a hora”.

Uma hora depois foi a vez do Seu Anemércio cruzar meu caminho. Vinha todo bem vestido, de camisa de flanela, calça social, chapéu e óculos escuros montado em seu cavalo branco. “Ih, esse aqui tem mais de 50 nomes”, ele me disse quando perguntei o nome do animal. Estava indo na casa de uma das filhas. A outra mora em Carmópolis. “Ela quer me levar pra lá mas eu não vou não. Não gosto desses lugares onde até pra mijar e cagar tem que pagar. Aqui não: deu vontade vai ali atrás”. Aos 80 anos, Seu Anemércio começou a tomar remédios só recentemente. “Fui casado 40 anos. E depois que eu casei que fiquei sabendo que na família dela todo mundo sofre dos nervos. Minhas cunhadas, uma delas advogada, metida a sabida, veio aqui e tirou minha mulher de mim. Tanto fez que pediu o disquite. Eu toquei os caramujos. Depois minha mulher ficou sabendo que tava com câncer no cérebro. Morreu faz dois anos”. Ficamos ali nuns 15 minutos de prosa, que valem uma vida. Quando despedimos, ele já indo, se vira pra trás e fala: “mas agora eu quero arrumar outra companheira. Tem 16 anos que moro sozinho. Mas nova demais eu não quero não. Nem velha…”

A dica de seu Anemércio era ir seguindo os piquetes (“como é que chama esses mourões de cimento? Marco? Pra mim é piquete”) até Serra do Camapuã, a próxima cidade. No caminho iria passar pela capela de Santo Antônio do Madruga (que eu vi) e depois pela Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Olhos D’água, que queria muito ver, mas passei batido. Acho que não segui todos os piquetes, passei errado em alguma curva e cheguei na Serra pela rua de baixo, e não na de cima. Ia entretido respondendo às perguntas que minha amiga Sara Michelini havia me enviado para uma matéria no jornal Agora, de Divinópolis, minha terra natal. 

Em Serra do Camapuã revi a planilha e vi que a Igreja dos Olhos D’Água ficava a quase 5 km. A Igreja, pelo que haviam me falado em Entre Rios, era por volta do ano de 1700, parecia um charme mas não havia a menor chance de andar mais 10 km só pra vê-la. Fui em frente subindo devagar – nesse horário o sol já estava forte, mas ainda mantinha uma das blusas – até a entrada de Casa Grande.

Na chegada, uma surpresa. Espalhado por uma das pistas do asfalto estava um tapete de feijão, com um moço – que eu de tão surpreso nem perguntei o nome – espalhando os grãos pra secar. “Quanto têm aqui?”, perguntei. “Ah, deve ter uns 1500 quilos. Molhou vindo da fazenda e secando aqui agora de tarde tá pronto”.

Casa Grande é uma cidadezinha simples, com uma ou outra casinha charmosa. É a primeira cidade onde não pega celular (“só lá pra cima, depois do campo de futebol”) e na pousada da dona Irene, que nem placa na porta tem, não tem “esse trem de Internet”. Passo a noite aqui, depois de comer um pão com linguiça e um x-egg-bacon-burger do bar do Negão, enquanto a janta da Dona Irene não fica pronta.

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