Estrada Real S01E03 – Serro à Tapera

Distância do Dia: 52,88 km. Distância Total: 130,45 km. Vezes que eu parei pra fotografar essa serra: 16.

Tenho dormido mal. Apesar do cansaço da caminhada – ou por causa dele – o sono custa a vir e quando chega vem partido, intercalado com pensamentos e dores nas pernas. Coxa, joelho, panturrilha, canela, calcanhar, dedos e outras partes que meu limitado conhecimento de anatomia não sabe descrever doem constantemente em intensidade diferentes. Não me lembro de ter sido assim quando fiz o Caminho da Fé. Tenho evitado tomar Vitamina I (Ibuprofeno, pra aliviar as dores) mas acho que hoje não vai ter jeito. Pelo menos os joelhos, que são minha maior preocupação, não estão ruins. Culpa dos bastões, que tem ajudado bem na subida e descidas, com a longa até chegar no Serro.

Outra coisa é que minha sede noturna aumentou bastante. Já faz um tempo que tenho que dormir com uma garrafa ao lado da cama, pra dar um ou dois goles no meio da noite. Mas agora, apesar de me hidratar bem durante o dia, estou tomando fácil um litro de água entre o deitar e o acordar. E logo antes de sair estou fazendo o que os americanos chamam de ‘camel up’: tomando mais um litro, que nem camelo, pra já ir pra trilha estocado.

O fato é que como o trecho seria pequeno – 18km até Alvorada de Minas – me permiti ficar na cama um pouco mais que o normal e coloquei o despertador para as 6h. Programava tomar o café (e comer uma fatia do queijo do serro) e sair lá pelas 7, pra chegar na hora do almoço. Mas acordei às 4h com uma sinfonia de galos e o sonho que eu tinha reaberto o buteco do meu pai, transformando o lugar num armazém à moda antiga, só com produtos regionais de qualidade. No sonho eu conversava na porta do bar com minha esposa e uma irmã: o lugar não tinha dado certo, Divinópolis não entendia um conceito daqueles e o que o bairro precisava era mesmo de algo que atendesse à população local.

Enrolei (na verdade finalizei esse blog, que vinha enrolando faz tempo) até as 6h e desci pro café. Fiquei conversando com a Dona Tuca, a dona da pousada (comprovadamente a mais barata do Serro #ficaadica). Ela me contava de quando mudou pra fazenda (a fazenda é a pousada…), há 53 anos. Que o pai do falecido marido tinha ali o primeiro açougue da cidade. Falamos dos filhos, da neta Duda, da minha caminhada. Fiquei ali até as 7h, intercalando café e queijo, e beliscando outras coisas. 
Sabia o que esperar do caminho: um roteiro chato, burocrático, de asfalto, até a cidade de Alvorada de Minas. 18km, asfalto, sem muita subida? Moleza. As 10h já tinha chegado. Achei Alvorada de Minas uma cidade sem personalidade, com construções recentes para os padrões da Estrada Real. Só não passei batido pelo centro porque precisei comprar uma pomada para uma assadura que já começava a me incomodar. Subi até a igreja matriz e ali mesmo, em frente ao altar, enfiei a mão por dentro da calça e apliquei o remédio.

Como era cedo, eu estava disposto (e agora devidamente prevenido de assaduras) resolvi chegar até Itapanhoacanga. O guia dizia que o caminho seria agradável, com sombras, por estrada de terra, com uma chegada triunfal, por fazendas centenárias…. Por que não, né não? Saí antes das onze e fui.

Sol castigando, uma poeira danada, cenário sem graça (fazendas, gado, gramados, eucaliptos… Você já imaginou como era) e eu indo, querendo chegar pro dia acabar logo. Afinal, mesmo em aventuras existem dias melhores que outros. Já havia entendido que se estivesse no escritório seria daqueles dias que estaria olhando o relógio a cada cinco minutos, querendo apenas ir pra casa. Quando parei pro almoço – duas maçãs que a Dona Tuca tinha me dado – o Wesley chegou de cavalo, puxando conversa, perguntando sobre a caminhada e contando que Alvorada nunca foi parte da Estrada Real. Segundo ele, o roteiro original era onde onde está a MG10, que peguei apenas um trecho. Não sei os fatos históricos, mas na prática faz sentido: além de ser mais nova, ao ir dela pra Itaponhacanga e preciso fazer suas curvas em 90 graus sem lógica.
Cheguei em Ita (pode ser Ita né? Não sei falar o nome dessa cidade. E nem sei se o que escrevi aí acima está certo…) já me arrastando. No primeiro mercadinho comprei duas latas de refrigerante e fui entender se ficaria aí ou seguia viagem. Quando li o descritivo do trecho até Tapera no guia “Durante a travessia, o viajante encontrará inúmeras subidas em terreno de cascalho, porém, combinadas com pequenas curtos trechos retos ou de declive, permanecendo desta forma por 10 km. A partir deste ponto, o trajeto passa a apresentar descidas íngremes com características bastantes técnicas, principalmente durante os primeiros quilômetros” a primeira vontade foi entrar na primeira pousada e ficar ali. Mas o relógio já marcava 15h, o trecho era curto (só mais 14km) e a vista lá de cima com o sol se pondo parecia promissora. Comprei mais 3 litros d’água, descansei mais uns minutinhos e subi. E subi. E subi.

E uma hora e meia depois ainda não tinha andado 4km (normalmente dá pra fazer o dobro disso). A cada nova subida o  visual ficava mais bonito. E a terra fofa, com muitas pedras, e eu escolhendo onde pisar e aquela serra ali do lado, que pedia mais uma foto. E o sol foi se pondo e a beleza não tinha fim. Foto, filme, selfie, e o tempo correndo. 

Tinha previsto chegar em Tapera as 6h, dando um folga de meia hora a mais pros tais 14h. Escureceu, botei a lanterna de cabeça e andei um bom tempo ainda. Cheguei depois das 19h, casado dos 50 e poucos quilômetros e 12 horas de estrada.

Tapera (parênteses: o nome de Tapera não é Tapera. É Santo Antônio do Norte) , pelo pouco que vi é um charme. Uma cidade onde a pousada fica dentro de um hotel e a janta é servida na cozinha da dona não pode ser ruim. Talvez ela seja a pérola perdida da região. Quero voltar.
  

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