Estrada Real S01E28: Guaratinguetá a Cunha

Distância do dia: 54,59 km. Distância total: 1.110, 95 km.

O hotel Frei Galvão, em Guaratinguetá, tinha tudo pra ser um sucesso. Está em um ponto excelente – em frente da catedral, que dá pra ser vista da janela do quarto – e tem quartos relativamente espaçosos. O preço também é bom: $60 é a média do que venho pagando, às vezes menos, poucas vezes mais. Mas apesar disso o pobre hotel não vê uma reforma há anos. As paredes estão sujas, as portas carcomidas, o banheiro mal cuidado. Mas ainda assim – pela localização, pelo preço – escolhi ficar ali. Apesar do refeitório não ser grande, esperava um café da manhã decente. Conversei com o Paulo, o recepcionista (talvez dono) e havia dito que o café era servido a partir das 6h. “Até um pouco antes, se você precisar”. Eu precisava. O dia seria longo e as 6 eu queria estar no caminho. Combinamos 5:45. 

Acordei 4:30 com cheiro de pão quente. Não mencionei que a Frei Galvão é em cima de uma padaria, o que garantia, pensava eu, o pão logo cedo. Me preparei e as 5:45 como combinado estava no refeitório (que era do lado do meu quarto). Luzes apagadas, nada posto. Não dava pra eu esperar. Desci as escadas e quando tirava o cabo de vassoura que fechava a porta ouço um grunhido vindo da recepção. A responsável pelo café dormia na cadeira e acordou com meu barulho. “Perdeu a hora do café, né?”, eu disse, mais pra constatar que provocar. “Perdi mesmo. Mas faço rapidinho”. Agradeci e saí de estômago vazio pra mais de 50 km de caminhada.

Eu estava prevendo. No do anterior passei no supermercado e comprei mais algumas barrinhas de cereal, dois pacotes de biscoito, uma barra de chocolate é uma garrafa pequena de vinho. O vinho bebi a noite no quarto, comendo um hambúrguer horroroso comprado na esquina. O resto das compras fui consumindo durante a manhã. Cinco barras de versos, um pacote de biscoito, meia barra de chocolate, antes que derreta toda…

O trecho de Guará a Cunha é chato. Muito asfalto, pouca paisagem. É como aquele episódio insosso antes do gran finale. Pelo menos espero. Esperava mais subidas – tem algumas, mas não tão fortes. A parte no asfalto é aquilo de sempre: ruído, barulho, atenção no talo, sinalização pros motoristas dizendo “olha eu aqui”. Depois de 10km de subida leva a planilha dizia de uma subida mais forte, até o km 20, em estrada de terra. Meu plano era superar esse trecho antes do sol sair “de verdade”, o que tem acontecido lá pelas dez. Era 9:40 quando voltei pro asfalto. A partir daí seriam mais umas 4 horas de mais ruído, mais carros. Com um diferencial: o sol começava a ficar quente, o que piorava as coisas.

Voltei pra terra quando as placas marcavam “Cunha: 10km”. Na planilha seriam mais quase 14. Entrei à esquerda e mais dúvida, mais descida, mais subida, mais cascalho, mais cachorro…. Mas nada de ruídos, barulhos ou carros – exceto aluna fusquinhas que passaram por mim.

Cheguei a Cunha bem: antes das 4 da tarde, como previsto, fazendo uma média de 5 km por hora. Peguei informações sobre o próximo trecho, carimbei meu passaporte e consegui uma pousada que a dona garantiu que meu café estará servido às 5h, quando pretendo sair.

O trecho final, até Paraty, é o mais longo da Estrada Real. São 57 km, uns 35 de subida braba da serra, o resto de descida até o mar. Existem várias opções de hospedagem no caminho. E muita gente divide o percurso em dois: um dia de subida, outro do só descendo. Resolvi encarar tudo numa tacada só: 57 km de caminhada amanhã. O gran finale. O episódio duplo de encerramento. Vamos lá. Chegar em Paraty muito antes do esperado.


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Estrada Real S01E27: Embaú a Guaratinguetá

Distância do dia: 38,17 km. Distância total: 1.056,36 km.

Dona Adracir talvez seja a pessoa mais simpática e cativante que eu tenha encontrado na viagem até agora. Ela chegou quando eu começava a jantar (um prato enorme de arroz com feijão, um bife, um ovo frito, uma salada de alface e tomate que segunda a Adélia “um lugar ia entregar”). Ela é pequena, olhar firme, sorriso no rosto, cabelo branco cortado curto, o rosto cheio de rugas, mas a energia é tanta que ela não aparenta ter os 80 anos que tem. Chegou por trás, vindo de dentro da casa e pegou no meu braço esquerdo. Pediu desculpas por não estar na hora que cheguei, conversou mais algumas coisas e saiu. Já já volta ela com uma vasilhinha na mão. “Experimenta. É abóbora, aqui da fazenda mesmo”. Falou mais um pouco e saiu. E volta ela com um pé de alface na mão. “Olha que beleza. Daqui também”. Dona Adracir não sentava: ficava de pé do meu lado, segurando meu braço. Perguntou que horas eu ia sair e entrou pra dentro da casa.

Hoje de manhã acordei com ela batendo na minha porta. “Seis horas!”. Levantei, me arrumei e desci. O café já tava na mesa. “O problema aqui é o pão. Padeiro aqui não acorda cedo. Então eu esquentei o pão de ontem, tem pão de forma que você pode colocar na misteira e a Adélia fez esse bolo ontem. E tem queijo, que a gente faz aqui também”. Servi um café, começava a tomar a comer um pão ela volta. “Olha esse livro. É a história da minha família. Um rapaz que era filho de um empregado da minha avó que escreveu. Ela quando morreu deixou tudo arrumado. Um pedaço de terra pra cada empregado, pagou os estudos desse menino. Hoje ele é presidente do Centro Cultural de Cachoeira Paulista”, diz ela orgulhosa. O livro é da família Godói Fleming, e dona Adracir diz que boa parte das terras de Embaú a Cachoeira Paulista era deles.

Ela continuava de pé, contando histórias, eu encantado. Disse que a pousada existe há pouco tempo, mas que ali antes tinha uma peixaria. “Minha irmã que geria o negócio. Ela faleceu tem cinco anos, mas ainda continua na casa”, diz ela mostrando as fotos na parede. “Aquela ali não: aquela sou eu com quinze anos”. Com a morte da irmã, resolveu montar a pousada, incentivada pela turismo religioso de Cachoeira Paulista, sede da Canção Nova, comunidade ligada à Renovação Carismática Cristã. “O problema de turismo é que fica tudo muito caro. Aqui a gente consegue fazer um preço melhor”. 

A pousada fica em parte do terreno da fazenda dela, onde já criaram bicho de seda (“tinha num sei quantos alqueires de amoreira”). Hoje se dedicam ao leite. Mas Dona Adracir também já deu rumo pros seus pertences. “Já resolvi tudo. Fiz meu testamento e deixei as coisas pro meu povo. A fazenda ficou pra um menino que eu criei. Daqui a pouco ele passa aqui, trabalha entregando leite. A Adélia trabalha comigo há vinte anos. Já dei um terreno e uma casinha pra ela. Daqui a pouco ela chega e vai pra lá plantar. Uma moça que cuidou da minha irmã quando ela tava doente eu dei um lugar aqui também. Ela que planta aquela alface que você viu ontem. Agora tem uma família mudando aqui pro lado. Deixei eles ficarem aqui um tempo. Gente boa, você precisa ver”.

E ela em pé… “Senta Dona Adracir”. “Eu não sinto que tenho 80 anos, mas a idade chega né? Como tudo na vida é Deus que manda pra gente e a gente tem que aceitar. A vista já não está tão boa, eu já não escuto bem… Mas eu esqueço. De vez em quando subo na escada pra arrumar alguma coisa e vem a Adélia: desce da escada Dona Adracir! Porque o povo não sabe aproveitar as coisas né? Estraga quer jogar fora. Essa cadeira aí tem mais de anos. Essa porta também. Tudo de brechó. Eu adoro brechó. Essa imagem de Cristo tava lá no chão, o povo pisando, toda quebrada, eu queria comprar e eles me deram. Mandei arrumar e olha aí que beleza. Aquela nossa Senhora lá fora também, mesma coisa”.

Quando perguntei a origem do seu nome, ela diz que quando nasceu o pai queria um menino. “Homem prefere ter filho menino né? Mas meu pai era sensível. Foi lá pro terreiro onde secavam café, ficou lá sentado e escreveu esse verso: 

Após longa caminhada

Já tirei meu guarda-pó 

Mocinha bem educada

Trago o nome da Vovó.

Ricarda se chama ela,

Adracir me chamo eu.

Meu nome é uma charada 

Igual a do Zé Bedeu”
Quando saí dei um abraço gostoso e deixei claro o quanto aquela conversa tinha sido agradável e o quanto ela havia me inpirado. Às sete estava de volta às Estrada.

O percurso? Plano, sem nada que chamasse atenção. Ou asfalto, muitas vezes sem acostamento, ou terra, quase sempre com cascalhos e pedras. E sempre com trânsito: caminhões e carros levantando poeira. Na chegada à Guará, uma subidinha longa, no asfalto. Mas o que valeu mesmo o dia foi a conversa com dona Adracir.

Estrada Real S01E26: Passa Quatro a Embaú

Distância do dia: 41,76 km. Distância total: 1.018,19 km.
Desde o início do meu planejamento pra Estrada Real que eu estava preocupado com esses últimos dias. Primeiro porque não sabia se iria conseguir chegar aqui. Por que tinha 32 dias livres, e com  esse tempo eu achava que chegaria em São Lourenço ou, com sorte, em Passa Quatro, quase na divisa. É também porque a partir da entrada em São Paulo a logística  parecia mais complicada. Os trechos eram maiores (por volta de 40km, alguns com mais de 50km) e as opções de hospedagem e alimentação eram mais raras. À chegada em Vila do Embaú, por exemplo, já deixava isso claro. Na planilha a informação era que não existiam pousadas ou hotéis na região. Isso depois de um trecho de 33 km.

Saí de Passa Quatro quando o relógio da Matriz tocava 7:30. Saí seguindo a linha de trem, e foi assim durante boa parte da manhã. Até chegar no asfalto e encontrar a marca da divisa entre Minas e São Paulo. Primeiro milestone do dia. A vista daquele ponto é sensacional. 

Atravesso a pista e entro na trilha da Garganta do Embaú, ponto mais baixo encontrado pelos bandeirantes pra cruzar a Serra da Mantiqueira. Pelo menos desde 1596, quando por ali passou João Pereira de Sousa Botafogo. Fernão Dias também, quase cem anos depois. De novo, a vista de tirar o fôlego. O lugar é cheio de história: ali também tem o túnel de trem da época de D. Pedro II, ponto estratégico durante a revolução de 32.

Quando volto ao asfalto, já no estado paulista, entro na região da Vila do Embaú, distrito de Cruzeiro. Tem a Serra da Mantiqueira como fundo e parece que o caminho só passa por ali pelo visual. É algum lugar na Vila que cruzo o segundo milestone do dia: os 1.000 km andandos desde o início da Estrada Real. 

Quando cheguei ao ponto final da planilha, a sub-prefeitura de Embaú, tinha como opção pegar um transporte até a cidade mais próxima (Cachoeira Paulista) ou seguir andando. Foi o que fiz. Ainda no segundo Marco fiquei em dúvida quando ao caminho, que seguia em direção a uma cerca. Pedi informação pro João Paulo, que mora ali. “É esse mesmo. O pessoal fica em dúvida, mas é isso. Tem outros desse cheio aí pra trás ou esse é o único?”. Expliquei que sim, tinham outras trilhas, mas que sempre que tinha uma cerca eu ficava em dúvida. E ficamos batendo papo e contei da falta de pousada e que iria andar até encontrar uma. “Olha, depois da trilha, logo que você pegar o asfalto, você vai passar Furnas, aí tem um condomínio do lado direito e logo depois uma pousada do seu lado esquerdo. Chama Pousada Rural. Pode procurar a Adélia”. Mas que notícia boa! Poderia até andar mais, mas uma pousadinha aí caiu como uma luva. 

Adélia também tem uma lanchonete e restaurante no lugar, mas como hoje é segunda, ela não abriu. Ainda não sei o que vou jantar essa noite. E amanhã o dia vai ser longo de novo: pelo menos mais 35km até Guaratinguetá. E a partir daí são 50 até Cunha e 57 até Paraty. E pronto. Menos de 150 km e acabo a jornada.

Estrada Real S01E25: Pouso Alto a Passa Quatro

Distância do dia: 33,33 km. Distância total: 976,43 km
Quase. O dia do quase. Eu quase me perdi. Quase fui a Itamonte. Quase não parei em Passa Quatro. Os 1000 km estão quase chegando. A divisa de MG e SP também. E em consequência a Estrada está quase no final. Quase.

Depois da noite de ontem eu tinha que esperar o café da manhã. Comi bem, estava com fome. Coloquei três bananas na mochila e me despedi da Ana, a dona da pousada. Já tinha descido a escada quando ela me gritou. “Aqui, tava esquecendo. Leva um milhinho pra você comer no caminho”. Agradeci, sem mencionar que milho não era bem o alimento ideal pra se levar, que eu já tinha pegado as bananas. Meti o saquinho com as espigas no bolso e saí cruzando a ponte em frente à pousada. Naturalmente subi o morro que leva ao hotel SerraVerde, imaginando que o caminho era ali. Por sorte subia um senhor empurrando a bicicleta. Ofereci uma espiga, puxei conversa e depois de passar a entrada do hotel ele me alerta que o caminho não era aquele. “Por aqui até chega, mas se você tá falando que vai passar por São Sebastião e Capivari o caminho é outro. Tem que voltar e pegar o asfalto”. Só aí me dei conta que não tinha nenhum marco do CRER na encruzilhada (do IER eu já desisti de procurar dentro das cidades). Voltei e só aí notei o marco que tinha deixado passar bem no meio da praça.

Estava frio – em torno de 10 graus – e o rio que corta Pouso Alto deixava tudo em meio a névoas. Até São Sebastião do Rio Verde era asfalto, pouco trânsito e cheguei lá bem quando o sino chamava pra missa das oito. Logo depois peguei a estrada de terra pra Capivari. Tempo ainda encoberto, ótimo pra caminhada. Cheguei lá e tive que tomar uma decisão: à esquerda voltaria e pegaria a estrada rumo a Itamonte, pra depois descer e chegar a Itanhandu. A direita iria pelo asfalto direto a Itanhandu, uma economia de 30km e um dia a menos de caminhada. Peguei à direita. 

Itamonte ficou de fora do meu roteiro, mas como já não estou fazendo nenhum dos roteiros da Estrada Real completo não me arrependo (mais tarde até fiquei feliz em não fazer o trecho, já te conto). Em Itanhandu carimbei meu passaporte e segui pra Pé da Serra e Passa Quatro.

Os 12 km desse trecho são praticamente uma reta que segue o que restou da linha de trem e vai paralela à estrada. O guia da Estrada Real diz que “a paisagem tem como chamativo as inúmeras granjas de grande porte”, como se isso fosse um atrativo. Não se engane: é um alerta. O trecho chega a ser deprimente, com dezenas de galpões, cada um com centenas (milhares?) de galinhas confinadas, botando ovo após ovo. O cheiro é de titica. A cena te faz querer virar vegetariano.

Cheguei a Passa Quatro uma da tarde e tinha outra decisão pela frente: ficar ou seguir? O problema, que eu já tinha identificado quando programei a caminhada, é que a partir daqui as opções de hospedagem são mais raras. Depois de Passa Quatro poderia ficar em uma pousada a 20km dali. Cheguei o preço: 250 reais. Nope. Fui carimbar o passaporte na São Rafael: 135. Nope. Tentei a Eco, ninguém atendeu. Olhei o hotel da cidade, que todo mundo diz que é péssimo. 100. Procurei outras pousadas, ali ou mais pra frente, no bairro de Pinheirinhos. Tudo caro. E aí já era quase três da tarde, e eu sem decidir o que fazer e pra onde ir. Já não daria pra ir pra nenhum lugar. Acabei voltando pra Sai Rafael.

Estou eu indo pro hotel escuto alguém chamando: “Jefferson!”. Espera: eu? Aqui? Olho pra trás e tá lá o Adilson, que conheci na casa do Roberto. Ele chegou faz tempo, mas foi subir a serra e tinha acabado de voltar. Ótimo revê-lo, despedimos e tinha certeza que não o veria mais.

Quarto ótimo. Banho bom. Tudo ok. Hora de comer. Quatro da tarde. O que tem aberto? Nada, claro. A não ser um café perto da Pousada, onde poderia pelo menos comer um salgado. Entro pra pedir e quem eu encontro? Adilson. Tinha só passado pra comprar uma água, mas paramos pra falar um pouco dos últimos dias de cada um. E ele me conta que a ida pra Itamonte foi pesada, e que ficava pensando em mim fazendo o trajeto. Que a cidade não tem nada de mais, que o visual é bonito mas nada que a gente já não tenha visto e que fui feliz na escolha de deixar Itamonte de lado.

A empada, os cafés e o croq monsieur ajudaram na fome, mas precisava de mais. E a cervejaria Napoleão já estava aberta às cinco. Fui pra lá querendo algo com mais sustança. Sanduíche e cerveja, ótimo. Mas o problema é que o lugar também reúne os fãs de futebol, que discutiam os resultados do domingo. E como trilha sonora as discussões as caixas de som do lugar tocavam Engenheiros do Hawai, que se misturam ao som dos cantos religiosos que saiam dos altos falantes da igreja em frente. O caos. 

Mas comi, não vou dormir com fome, mas vou dormir mais pobre. Passa Quatro é cidade de fim de semana de paulistanos, e segue os preços de lá. Ao final do dia gastei quatro vezes mais do que vinha gastando em Minas. E ainda nem cruzei a divisa.

 

Estrada Real S01E24: Caxambu a Pouso Alto

Distância do dia: 51,03 km. Distância total: 943,10 km.
Terminei o dia tão cansado que o máximo que consegui foi comer um pão com linguiça e experimentar dois dos refrigerantes locais, o Guaranita e o Mantiqueira. São bons os danados. Deveria ter comido mais, mas o cansaço bateu, a vontade de comer sumiu e aposto que vou acordar a noite com fome…

O cansaço e a falta de vontade de comer são consequência da bagunça que o IER faz nas planilhas da Estrada Real. Veja: a planilha diz que de Caxambu a São Lourenço são 26,85 km. Nas marcações nos marcos é menos, já que quando você chega na periferia da cidade, no último marco, a distância até o ponto final – a Estação de Trem – é zero. Mas ainda faltam 3 quilômetros. E da estação de trem é preciso ir até ao Parques das Águas para o carimbo – mais uns dois. E depois seguir até a rodoviária, onde começa o próximo trecho, até Pouso Alto. Some mais uns 5, por baixo. Ou seja: são 10 km a mais no dia, que já somava 41. Terminei o dia andando mais de cinquenta quilômetros, o que só estava prevendo voltar a fazer no último dia, entre Cunha e Paraty.

O dia só não foi mais lesado (ok, corredor, era pesado mas lesado ficou bom também) porque o caminho a partir de Caxambu é tranquilo e cheio de retas. É tranquilo até a chegada a São Lourenço. Primeiro, quando você acha que está chegando – o asfalto e a linha do trem estão logo à frente – o caminho faz uma curva e sobe um ladeira sem sentido. Depois a confusão de chegar à Estação de Trem e sair da Rodoviária. Foi pouco antes da estação que encontrei com o Allan, também de BH. Fazendo a trilha de bicicleta, esperava um parceiro que tinha ficado pra trás. Conversamos as coisas de sempre de quem faz a estrada: vindo de onde, até onde, fazendo quantos quilômetros por dia, dormiu onde ontem… “No Roberto. Dormiu lá também? Cara, o que é aquilo! Passei mal o dia inteiro. Tive que ir no banheiro umas dez vezes…”, disse o Allan. Ou alguém divulga o telefone da dona Chiquinha ou o Roberto ainda vai mandar alguém pro hospital.

Não vi mais o Allan durante o dia: deixei recado pra ele no Centro de Informações ao Turista, onde ele poderia passar pra carimbar o passaporte, que eu estaria no Unique Café até uma da tarde, quando continuaria pra Pouso Alto. Era o único lugar que poderia parar na cidade: considerado uns dos melhores cafés do Brasil e uma loja/lanchonete conceito no centro da cidade, o Unique não me decepcionou. Fiquei ali uns 40 minutos, experimentando cafés e descansando. Quando saí, foi mais uma hora até a rodoviária.

São Lourenço era minha meta no início da Estrada. Pela minha previsão, só chegaria aqui lá pelo dia 30. Mas mesmo com os quatro dias sem caminhar acabei andando mais que o previsto. O jeito era continuar na estrada, ir até Pouso Alto e de lá continuar até Paraty.

No início do trecho de terra vi o Jean seguindo alguns metros à minha frente. Cabelo descolorido, tênis cano alto, camiseta de time basquete, mochila mas costas e laptop na mão esquerda, só consegui identificar que ele ouvia música saindo do computador quando cheguei do seu lado. “É Racionais que você tá ouvindo?”, perguntei. “É, aquele disco mais antigo. (Era o Nada Como Um Dia Após O Outro Dia, de 2002). Você também fuma um?”, me pergunta ele assim, na lata. E seguimos uma meia hora batendo papo, até o rio que separa São Lourenço de Pouso Alto. Foi ele quem me disse que dois caras de bicicleta – provavelmente Allan e seu amigo – haviam passado por ele pouco antes.

Quando cheguei à cidade, fui procurar o Hotel SerraVerde, o único local aberto pra carimbar o passaporte (como hoje é sábado, o outro local credenciado, a Secretaria de Turismo, estava -claro – fechada). Perguntei o preço da diária: “Seiscentos e sessenta reais”, me disse a recepcionista. “Tenho certeza que o conforto é proporcional ao preço, mas está bem acima da minha verba de viagem. Na verdade, é mais do que tenho disponível pro resto da minha viagem inteira”, comentei.

Acabei vindo pra Pousada Estrada Real (que não está entre as indicadas pelo IER),  negociando o valor da minha diária e pagando 1/11 do valor da outra. E pra jantar, a opção é sair do centro da cidade e  ir até a rodovia, onde comi meu pão com linguiça na Casa da Linguiça. Mas alertei: já estou com fome, queria ir ali comer mais um, mas cadê coragem?


 


Estrada Real S01E23: Cruzília a Caxambu

Distância do dia: 30,28 km. Distância total: 892,07 km. 

É impressionante como caminhadas de longa distância conseguem te surpreender. Pode ser a Estrada Real, Santiago de Compostela, Caminho da Fé. Independente. O fato é que quando você já acha que viu de tudo, que o caminho já deu, que nada mais pode fazer diferença é lá vem o destino e cataplof!, toma desavisado, que a vida é desse jeito. Surpresas acontecem, o tempo todo, e isso que deixa tudo mais fascinante.

Pra você acompanhar os altos e baixos da rotina de se achar uma cama: primeiro foi Roberto, casa caindo aos pedaços, imunda, caminha de solteiro, colchão ruim. R$70 com a janta. Vale a experiência, foi divertido, ele é bacana e tal. Dia seguinte, Pousada Cruzília, o local mais confortável até agora (e eu incluo aí as duas noites com Alê em Santo Antônio do Leite e quiça minha própria cama). Camão king size, TV 40″, chuveiro quente e abundante, telefone no quarto, atendimento surpreendentemente simpático da Dani, café da manhã com pão, bolos, suco natural, iogurte, frutas… R$50. R$60 incluindo os 3 chocolates e a água do frigobar. Hoje, Pousada Filipenses. Quarto de 2×1 sem janela. Nada de café. Colchaozinho fuleiro, travesseiro idem. R$40 pratas, no dinheiro. 

Cruzília, eu já disse, foi uma grata surpresa. Da loja de queijos na entrada da cidade – o que foi aquele queijo quente?? Alguém me explica??? – à Pousada, que eu antes estava em dúvida entre ela e o Hotel Central, ao jantar na Pizaria do Lelinho. O Lelinho, deu pra sacar, é o cara também por trás da pousada, que fica acima do seu comedouro. Quando cheguei ele me cumprimentou, separou a mesa e sentou comigo. Me explicou um a um os pratos – é pizzaria, mas também tem jantar – com detalhes do tipo “esse aqui você não pede não. Esse também não: salmão você come em qualquer lugar”. Me serviu um chope da Ecobier na temperatura correta, com o colarinho no tamanho certo é uma picanha exatamente no ponto que pedi. Eu queria mudar pra Cruzília no dia seguinte.

Mas no dia seguinte eu já tinha compromisso. Esperei até as 7:00 pro café – depois de tudo que já tinha visto não iria perder por nada desse mundo – e segui rumo à Baependi. Lá ia eu achando tudo meio monótono, chato, quando passo pelo seu Célio tomando sol na porta de casa. “Esquentando um solzinho aí né?”, mexi com ele. “É! É bão né? Você não deve estar com frio. Indo pra Aparecida?”. Jogou a isca, eu fisguei. Já fui entrando pelo portão batendo papo, dando bom dia pra fria e a esposa. Ele contando que já andou muito por essas bandas todas, ia levando lenha no carro de boi, isso lá pelos anos 50, porque só com a dona Valteresa, que é sua segunda esposa, já está a 52 anos. E que quando jogava como meio de campo do Flamengo de Caxambu, ninguém passava por ele não. Mas agora não: “caí aqui no quintal e fudi esse joelho”, conta ele, levantando a perna esquerda da calça. 

E quando fui chegando mais perto de Baependi que me dei conta de como ela e Caxambu são coladas uma na outra. Não são 6 quilômetros. Não tinha ouvido falar de Baependi até recentemente, quando meu cunhado batizou a filha lá, na Igreja de Nhá Chica. Como já tinha passado no lugar onde a beata nasceu, em Rio das Mortes, e lá era o lugar pra carimbar o passaporte, passei também na igreja dela, e na Matriz, que fica pertinho do bar Fecha Nunca, que tava fechado.

E segui pra Caxambu. Estradinha de terra, uma pedraiada danada, eu ia tranquilo, canela sem doer (tinha tomado Vitamina I antes de sair), até chegar no Parque das Águas e carimbar o passaporte de novo. E da entrada eu olhei pra dentro do parque e já achei aquilo bonito demais. Olhei o preço da entrada: 5 reais. “Isso é só um parque?”, perguntei desavisado. “É um parque, tem piscina, pedalinho, doze fontes de água mineral…” Para. Doze fontes de água mineral? Posso vir trazer minha garraf e enxer? E é Caxambu, né? A água Caxambu, ora bolas! A fábrica da água, se é que se pode falar assim… Achei a pousada, deixei as coisas, tomei um banho rápido e voltei, garrafas vazias na mão. Aí que fui notar o povo vendendo pets vazias na porta. E o povo carregando garrafas vazias na rua. A onda é essa: paga cinco contos, leva 50 litros da melhor água mineral gasosa natural pra casa.

E o parque é lindo, e eu ia de fonte em fonte experimentando as águas, como se eu estivesse degustando vinhos em Bordeaux ou Mendoza. “Hum, muito terrosa. Alto nível de magnésio. Poderia ter um pouco menos gosto de ferrugem…” E ia passando de fonte em fonte, até achar duas que me agradavam (fiquei na Leopoldina e Viotti, se querem saber). E conversava com o pessoal que ia pegar água, cada um defendendo sua fonte predileta como se defende seu time do coração. Não fui na piscina (cara, uma piscina de água mineral! É muita ostentação!) nem no balneário (massagens, alguém?) mas amei o parque e a cidade. Mais uma pro roteiro de volta. E mais uma lembrança de que você não sabe nada dessa vida, meu amigo.


Estrada Real S01E22: Traituba a Cruzília

Distância do dia: 45,21 km. Distância total: 861,79 km.



Quando o Paulo e o Adilson passaram por mim eu já tinha andado 15 km. Fizemos fotos (na verdade eles fizeram), gravamos vídeos, batemos um pouco mais de papo e  o Paulo descreveu bem a experiência na casa do Roberto. “É o lugar mais sujo que eu já fiquei na vida”. E olha que os dois são aventureiros experientes, com anos de viagens, passeios, corridas, ultramaratonas, escaladas a dois dos sete cumes, e já ficaram em todo tipo de lugar. “Cara, você o teto? Aquele tanto de roupa suja dependurada, parece que nunca lava… A panela que ele fez o frango ele disse que deve ter 100 anos. Adilson disse que só que ele não a lava tem 50”. Adilson completa: “fui lavar um copo pra tomar a cachaça e quando passei a bucha ele ficou mais sujo que antes”. Mas foi Paulo quem teve o insight: “esse cara teve alguma grande decepção na vida. Profissional ou amorosa. Ele é estudado, culto, é simplesmente deixou tudo pra lá”. 

Eu tinha saído bem antes deles, às 7. E logo depois que eles passaram chegou a chuva. Durou pouco, mas uma garoa permaneceu chata durante boa parte da manhã. E junto com a chuva voltou a dor na canela direita. Ontem notei um inchaço, um ovo. E pela manhã passei pomada, mais Salompas, enfaixei, mas a dor continuava. Andava lento, demorado, sofrido. A dor só passou depois que tomei um Cataflan e uma vitamina I (Ibuprofeno). 

O trecho é todo decorado por fazendas centenárias: Favacho, Brinco de Ouro, Narciso, Tapera. Mas a estrela do percurso é mesmo a Traituba: a fazenda é cheia de histórias, a mais famosa dela envolvendo D. Pedro I. Contam que fascinado pela fauna local, D.Pedro marcou uma caçada pela região com a corte. Por isso a família Junqueira mandou construir a fazenda, em 1827. Mas D.Pedro nunca apareceu. Seu Roberto diz que não foi bem assim: que a fazenda já existia e só um quarto foi preparado. Historiadores ainda discutem se o imperador se hospedou ou não na região. Mas a fazenda lá está, tem um quarto reservado para D. Pedro e sua construção a toque de caixa e preço de ouro deve ter deixado os encravos ainda mais descontentes que o usual: alguns anos depois aconteceu ali a Revolta de Carrancas, uma das principais rebeliões de escravos da nossa história. Recentemente a família vendeu o imóvel e na região o povo jura que os donos são Daniel Dantas e Lulinha (que junta a Traituba à Fazenda Fortaleza, em Valparaiso, São Paulo, que também colocaram na sua conta).

Na planilha do IER o trecho, que vai da fazenda à Cruzília, tem 37 km. Como sai antes, da casa do Roberto, ao lado da estação de trem inoperante de Traituba, marquei 45 km. Cheguei à Cruzília quase às cinco, andando pesadamente. Mas fui bem recebido: primeiro com o melhor pão com queijo quente que já comi na vida, na loja de queijos na entrada da cidade. E depois na confortável Pousada Cruzília, que por um quarto limpo, TV a cabo, telefone, banheiro privado, chuveiro quente e barrinhas de chocolate me cobraram menos que o Roberto.