Por trás dos muros do Kremlin

Deixamos para voltar à Praça Vermelha apenas no último dia de viagem. Desde que chegamos ela vinha, aos poucos, se transformando, ganhando arquibancadas e decoração especial. Começou então a fazer sucesso todo o processo de reforma e facelift que a região vinha passando: aquilo tudo era para sair bonito nas fotos e vídeos que todos os jornais e tvs do mundo, sem contar os zilhões de turistas, iriam fazer na parada militar do dia 9 de maio, daqui a duas semanas.

 

Fomos direto visitar o Kremlin, a fortaleza sede do governo russo. Como no lugar ainda funciona o Palácio do governo, além de algumas catedrais e um museu, a visita requer alguns cuidados. Primeiro, porque os ingressos para o Armoury, museu que guarda boa parte da história da aristocracia russa. O prédio é dividido em salões, onde é possível ver roupas, armaduras, jóias (incluindo uma sala de diamantes), objetos pessoais e carruagens usados pelos líderes do país entre séculos XV e XVIII, são vendidos apenas para sessões com horários fixos, às 10h, 12h, 14h30 e 16h30. A sala dos diamantes, entretanto, fica fechada entre 13h e 14h. As vendas se encerram cerca de 45 minutos antes de cada horário. Como o lugar é dos pontos mais visitados na cidade, é recomendado chegar cedo (as filas são quase sempre gigantes).

Outro ponto que é preciso ficar atento: teoricamente, bolsas e máquinas fotográficas não são admitidos (é preciso passar por detectores de metal na entrada). Entretanto, basta passar os portões para dar de cara com um bando de japoneses e suas Canons e Nikons fotografando cada detalhe do lugar. Dica: não faça como nós, que deixamos a câmera e mochilas no guarda volume. Tente entrar e só abra mão das suas fotos se for barrado. Mesmo assim ainda é possível registrar o momento com seu celular…

Os ingressos para visitar os jardins e as igrejas do Kremlin custam 350 rublos. Para o museu são outros 700 rublos. Com uma carteira de estudante internacional esse valor cai significativamente, para 100 e 200 rublos, respectivamente (na Rússia, com carteira de estudante, meia vale mais que a metade… Imagina se os produtores de show no Brasil descobrem isso e passam a superfaturar, ainda mais, os preços dos ingressos?)

Se vale gastar os R$65,00 para a visita? Claro que vale. Você está em Moscou, visitar o lugar é uma obrigação. Mais saiba que nenhuma das igrejas é tão bonita quanto São Basílico.

Se a manhã foi dedicada ao lado histórico de Moscou, o final da tarde (depois de uma almoço rápido na Gum, onde existe um bom restaurante self service que, ao contrário do My-My serve comida decente e barata) foi reservado para visitar o Winzavod, centro de arte contemporânea que exibe o que há de mais moderno do país. Montado nas instalações de uma vinícula o lugar abriga uma dezena de galerias, lojas, cafés e ateliês. Mas deixamos para visitar o lugar numa segunda, quando muitas das galerias estão fechadas.

Chegar ao Winzavod me trouxe, pela última vez na viagem, uma sensação que se repetiu durante toda a semana. Chegar à estação do metrô, mesmo com toda a complexidade da língua, é fácil e no segundo dia você já domina o sistema. No entanto, quando se sai da estação, é que os problemas começam: onde estou? Como pode ser aqui, neste lugar, o que estou procurando? Pra que lado eu vou? Como eu chego lá? Foi assim no mercado de Izmaylovo, no Parque de Tsaritsyno, no gigante prédio da Universidade e mesmo na Praça Vermelha. Moscou é tão vasta, tudo é tão longe, que a sensação que se tem, o tempo todo, é que você está é perdido (o que, muitas vezes, não foi mentira).

E no retorno para o hotel, pegando o metrô pela última vez (depois do perrengue da chegada e com as malas carregadas optamos pelo taxi), e desta vez em horário de pique, com as estações abarrotadas de gente, eu ficava pensando sobre a cidade. O metrô, com suas escadas rolantes intermináveis, sua beleza imponente mais repressora e seus alto-falantes constantemente dando ordens e informações, talvez seja a coisa mais “comunista” que eu tenha vivido. Pensava que mesmo com a Perestroika, a abertura econômica, a separação dos países e a democracia, que Moscou ainda seja um lugar completamente diferente do mundo que estamos acostumados. Pensava no quanto a presença de Stalin, Lenin, Trotsky havia influenciado o jeito daquelas pessoas com as quais eu cruzava todos os dias na rua, no metrô, nos pontos turísticos. E se os outros turistas que estavam ali também pensavam isso ou se Moscou, afinal, não havia se tornado apenas um destino “exótico” de férias. Conclusões? Nenhuma. A única é que eu quero voltar aqui um dia, certamente para alguma cidade do interior da Rússia, ou para algum país da antiga URSS. Se aqui é assim, imagina no Cazaquistão?

Direto ao assunto

Kremlin
* metrô para a estação Ploshchad Revolyutsii
* 700 rublos para Armoury e 350 para o resto
* visitas ao Armoury com horário marcado, as 10h, 12h, 14h30 e 16h30
* ignore os avisos de proibição de máquinas fotográficas

Winzavod
* metrô para a estação Chkalovskaya
* cento de arte conteporânea instalado em uma antiga vinícula
* galerias, lojas, ateliês, café
* fecha as segundas

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Cinco negócios em Moscou cujos donos devem ter falido

Cinco negócios em Moscou cujos donos devem ter falido:

1. Lava-jato: a relação do povo russo com seu carro é muito diferente da nossa. Carro ali é pra usar e pronto. Cuidar, como nós brasileiros cuidamos, não está nos planos. Água os coitados não veem nunca: não importa se é um velho Lada ou uma BMW novinha, os carros russos são sempre muito sujos, com uma camada de terra e barro sobre toda a lateria. No máximo o dono se encarrega em tirar a poeira em volta das maçanetas.

2. Escola de Finos Tratos: o campo parece promissor, mas o povo russo simplesmente não liga pro que você fala ou vai pensar. Conversam com você em russo e não ligam se você não entende a língua: eles não estão nem aí mesmo. Em qualquer lugar onde existe uma aglomeração de pessoas (no metrô, por exemplo) os empurra-empurra é generalizado. Cortesia e gentileza passam longe.

3. Fábrica de gelo: Mesmo que o calor esteja em quase 20 graus e o sol ardendo, bebida gelada é raridade. Não importa se é cerveja, água com gás ou refrigerante, elas continuam vindo à sua mesa na temperatura ambiente. Agora fala: tem coisa pioor que água com gás sem gelo?Ah neim…

4. Tradutor: placas, sinalizações, cartazes, indicações, visitas guiadas, tudo em Moscou é só em russo. Em pontos com grande concetração de turistas ainda é possível encontrar o textos em uma língua que se aproxima do inglês, mas no geral se você não entende cirílico, a coisa complica.

5. Alcoolatras Anônimos: sabe a história que russo bebe muito? É verdade. Praticamente todo dia vimos alguém escornado em ponto de ônibus, na calçada, na fonte do VDNKh.

Mercado de Izmaylovo e rua Arbat: onde os turistas se encontram

Existem dois lugares em Moscou, além do Kremlin, onde você vai certamente esbarrar com um grande número de turistas: o Mercado de Izmaylovo e a rua Arbat. Estes foram os dois lugares que visitamos no quarto dia viagem.

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Em teoria, chegar até a mercado de Izmaylovo não é complicado. Como qualquer outro destino em Moscou basta entrar em qualquer estação de metrô, seguir as placas até a sua linha (no caso, a linha 3, azul escuro) e continuar nela até seu destino. O problema é que para o mercado de Izmaylovo seu ponto final não é a estação de Izmaylovskaya, como se poderia imaginar (e que já li em alguns guias). O melhor é descer na estação anterior, Partizanskaya. Isso porque, pelo que entendi, até pouco tempo atrás seu nome era, na verdade, Izmaylovsky Park. A mudança e os dois nomes para uma mesma estação deixam alguns turistas perdidos (encontramos brasileiros que não encontraram o mercado) mas não impede que outros tantos cheguem àquele que, dizem, é o melhor lugar para se comprar matrioskas em Moscou.

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Vizinho ao parque de mesmo nome, o Mercado de Izmaylovo é um misto de feira de antiguidades e artesanato. São dezenas de barracas próximas a prédios que reproduzem antigas habitações russas, que vendem tudo aquilo que você associa ao país: chapéus tradicionais, memorabilia da segunda guerra, bottons do comunismo, posteres construtivistas, ovos pintados e claro, bonecas matrioskas (algumas bem elaboradas, outras feitas, como dizemos, nas coxas). Nas barracas que ficam no nível da rua estão os produtos mais artesanais. Subindo as escadas no final da feira se chega à seção de antiguidades, onde é possível encontrar belas fotos antigas, discos russos de 78rpm e muita buginganga. Negociar é permitido e incentivado: na maioria dos quiosques se consegue um bom desconto nos produtos. Os melhores dias são os finais de semana, onde todos os expositores estão presentes e se cobra uma entrada simbólica de 10 rublos, mas também nos outros dias é possível visitar o Mercado de Izmaylovo.

 

IsamaylovoDaí seguimos à Rua Arbat. Na região central, não muito longe da Praça Vermelha (a estação Arbatskaya está a uma parada da Plotschad Revolyutsii), a rua Arbat é das mais antigas de Moscou e, sem dúvidas, a que atrai mais turistas. Com o trânsito exclusivo para pedrestres, os poucos quarteirões são recheados de lojas de souvenirs e filiais de cafeterias e lanchonetes e tem o mesmo charme e qualquer outro calçadão no mundo, seja a Las Ramblas, em Barcelona ou a Rua Halfeld, em Juiz de Fora (convenhamos: rua de pedestres é muito agradável. Deveríamos ter mais calçadões no Brasil). Comparado com o Mercado, os preços da Arbat são salgados: duas vezes mais caros ou mais,

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Resolvemos tentar um restaurante do Uzbequistão ali perto que era sugerido pelo Lonely Planet, mas estava fechado. A opção foi, então, almoçar no My-My (ou Mu-Mu, que é como se lê). O lugar era citado em vários dos guias que tinha pesquisado, quase sempre com a mesma descrição: cadeia de restaurante self service (na verdade, mais ou menos: o sistema está mais pro nosso bandeijão, onde você escolhe as opções e alguém te serve), barato e com vários endereços na cidade. O que os guias não contaram é que a comida parece de avião, sem textura ou sabor. E que o preço é barato sim, mas que vale mais a pena encontrar um bom lugar com almoço executivo (sai a mesma coisa). Se quiser fugir do lugar, é fácil: as lojas tem pinturas malhadas e impreterivelmente uma escultura de vaca, sempre montada por turistas, na porta.

Claro que este não foi o único dia que fomos ao Mercado de Izmaylovo: no dia seguinte Alê se deu conta de que o preço das bonecas era sim conveniente (em torno de R$6,00 as pequenas, com 5 bonecas em cada) e que mais algumas amigos e parentes mereciam ganhar a lembrança. Dali, devidamente abastecidos de matrioskas, tentamos, de novo, almoçar em um restaurante típico do Uzbequistão, que também estava fechado (alguma coisa relacionada com a Páscoa, talvez já que estava sendo comemorada naquele dia). A solução foi tentar o restaurante ao lado, chamado Sol Branco do Deserto. Também de comida Uzbeca (existe esse termo?) o lugar é guardado por soldados em uniformes do país. Extremamente decorado, o Sol Branco, vi depois, teve o nome e a decoração inspirados em um filme russo.

Além dos pratos típicos do Uzbequistão, o lugar tem também comida árabe e russa. E trabalha com dois sistemas: um buffet de saladas e pastas frias típicas ou este buffet e mais um prato principal e sobremesa. Os preços? 1300 e 2200 rublos por pessoa, respectivamente (R$80,00 e R$140,00 aproximadamente). Devíamos ter percebido que a quantidade de BMW e Audi na porta já antecipava o que nos esperava… Sem olhar o cardápio, Alê optou por beber um suco. De morango. Natural. A surpresa veio quando resolvemos checar o preço: só 950 rublos. Ou R$60,00. Mas estava ótimo, ela disse. A comida? Confesso que fiquei com um gosto estranho na boca depois de saber o preço do suco, mas o preço suco virou nossa segunda moeda em Moscou: “quanto custa isso? 800 rublos? Só? É mais barato que um suco de morango…” Cuidado, por tanto, com o que for pedir (e lembre-se de olhar os preços antes).

 

IMG_2246O dia terminou com um passeio no estranho (mas fascinante) VDNKh. O lugar abriga mais de 70 pavilhões celebrando todas as conquistas e tradições russas além de parque de diversões e o Museu das Conquistas do Espaço. Ali é possível ver cenários que reproduzem interior do país, ver um foguete de verdade ou assistir a um filme 5D (pois é…). Num domingo de Páscoa o lugar fervilhava. A impressão que se tinha era que pelo menos um terço dos 13 milhões de habitantes de Moscou estava ali. Todos com seus patins, bicicletas, pernas de pau, monociclos, skates e o que mais desse na telha, aproveitando um dia de calor torrencial: 16 graus.

 

IMG_2183Direto ao assunto

Mercado de Izmaylovo
* metrô para a estação Partizanskaya
* bom lugar para compra de souvenirs e lembranças
* melhor visitar nos finais de semana
* entrada: 10 rublos (R$0,50)

Arbat
* metrô para a estação Arbatskaya
* rua turística, com várias (e caras) lojas de souvenir

Sol Branco do Deserto
* restaurante de comida típica do Uzbequistão

VDNKh
* metrô para a estação VDNKh
* mais de 70 prédios mostando as conquistas do povo russo
* Museu das Conquistas do Espaço
* parque de diversões, no melhor sentido da palavra

Moscou: Umas coisas que deixei de dizer

Deixei algumas coisas passar em branco no relato do primeiro dia. Terminei o texto com a Praça Vermelha e outros locais simplesmente ficaram de fora.

O Bolshoi, por exemplo, também foi visitado neste dia. Aliás, tentamos visitar. Assim como boa parte da cidade o teatro está fechado para reformas e só deve reabrir em outubro. É possível fazer fotos na fachada do prédio, mas para assistir àquela versão do Quebra-Nozes que você queria será preciso se contentar com outro teatro (são vários nas proximidades da estação Teatral’naya).

Bem ao lado do Bolshoi, do outro lado da rua que passa à direita, está a Tsum, talvez uma das lojas de departamento mais caras de todo o mundo. Não necessariamente de bom gosto, as peças de estilistas famosos e preços superfaturados se esparramam por seis andares. Os dois prédios não ficam longe da Praça Vermelha.

Visite o ponto turístico mais famoso de metrô também a noite. O lugar se transforma com as luzes na Gum, na Catedral, no Museu e no Kremlin.

Viajar junto é um jogo de poquer (ou: como chegar à Ikea Moscou)

“Ai meu deus… Se eu for num país que tem Ikea e eu não vou, eu passo mal…” Alê Faria, minha esposa

Ikea MoscouViajar junto é como um jogo de poquer. Você precisa abrir de algumas cartadas, blefar algumas vezes e de vez em quando confiar na sorte e na experiência. Nosso terceiro dia em Moscou foi dos mais divertidos e aventureiros.

Pela manhã, no hotel, trocados dicas e comentários de viagens com duas brasileiras de Natal que estavam vindo dos balcãs (eu, que tinha acabado de ler Sarajevo, do Joe Sacco, e adoro a música da região, fiquei ainda atiçado em fazer o mesmo roteiro). As duas, que trabalham em um banco na capital potiguar (meninas, se acaso lerem isso aqui, entrem em contato) pareciam estar secas de saudade do português e desfilavam casos da viagem metrô a fora. O destino delas era Lubyanka (espero que tenham ido ao Loft) e o nosso o parque de Tsaritsyno, ao sul de Moscou. Não lembro onde havia lido sobre o lugar. Nas minhas anotações tinha escrito: “construída entre 1775 e 1795. Fontes dançantes, o lugar mais bonito de Moscou. Metro Tsaritsyno (linha 2, verde). Não fica longe do hotel”.

O “não fica longe”, desnecessário falar, foi inútil. A pé seriam umas duas horas de caminhada. De metrô foram uns 45 minutos, com duas trocas de trens e alguns minutos desorientados ao sair da estação. Como acredito que sempre é possível tirar proveito desses momentos de “onde estou e como faço pra chegar onde eu quero” que as viagens propiciam (eu gosto me perder), deste, em particular, tiramos um que usamos o resto todo da viagem. Queríamos ir pro parque mas saímos da estação pro lado errado (pro lado esquerdo, quando deverímos sair, como o Leão da Montanha, pela direita) e acabamos chegando num típico mercado regional, com barracas de doces e verduras. Tirando fotos, ouvimos de uma das feirantes: “turistov, hahaha…” Ou: turistas, hahaha… Como que querendo dizer: o que diabos vocês estão fazendo aqui, no meio do nada, fotografando uma feira regional? Sem entender que o bom de viajar é justamente isso, conhecer também o local e não apenas os pontos turísticos. Depois disso, em qualquer conversa com os locais (na negociação em uma compra, por exemplo, ou quando víamos que tinhamos entrado numa roubada), a frase final era sempre “turistov, hahaha…”.

O parque Tsaritsyno, apesar de judiado pelo inverno que havia passado (as águas do lago ainda mantinham uma fina mas visível camada de gelo) é realmente o lugar mais bonito de Moscou. Não tem muito: um grande e bem cuidado parque, com bancos e grandes recém-pintados (Alê vai levar um pouco da tinta russa como lembrança em sua calça jeans), um bonito lago, com uma pequena ilha, uma igreja, um palácio e ruínas de uma habitação anterior, além de outros prédios. O palácio foi reformado em 1984 e se mantém muito bem cuidado. Mas o lugar é mágico, de uma harmonia única.

Do parque a idéia era não deixar a Alê passar mal e visitar uma das três Ikea que existem em Moscou. Optamos por uma também na parte sul que parecia ser a maior e que fica ao lado de um shopping chamado Mega, também do grupo sueco. Segundo o site, exclusivamente em russo, era só pegar o metrô para a estação de Temply Stan e daí o ônibus para a Ikea/Mega. Doce engano… De onde estávamos até a estação voaram quase 50 minutos. Outros tantos foram tentando achar o ponto do ônibus, sem sucesso. Mais outros procurando uma rede wi-fi, dentro do shopping, para conferir as informações no site até se chegar a (errada) conclusão que afinal, a Ikea não fica tão longe assim de onde estamos. Realmente não fica, mas o caminho era uma via expressa vencida com uma caminhada pelo acostamento e cruzamentos perigosos. Chegamos, cansados e famintos. Se Alê tivesse que passar mal, que não fosse por não visitar sua loja predileta.

No retorno optamos, sensatamente, por um taxi. Que, depois de quase meia hora, não havia dado sinal de vida. Com o pouco inglês da atendente (se limitou a um ten minutes) ela apontou o ponto de onibus: uma alternativa que resolvemos arriscar. E víamos, a cada minuto, a estação onde achávamos que iríamos pegar o metrô se afastar mais e mais e mais. Quando o ônibus parou, em frente a outra estação que não fazíamos ideal qual era, nossa reação foi de alívio. Que só melhorou, ao ver que esta, ao contrário da outra, estava a apenas 4 paradas do nosso hotel.

Viajar junto é como em um jogo de de poquer…

Os preços de Moscou

Você já ouviu que Moscou é umas cidades mais caras do mundo, certamente a mais cara da Europa. O quão caro é esse caro? Que tal uma lista de alguns preços russos? Não tem preços de McDonalds, infelizmente: em minhas viagens economizo em tudo, menos com restaurantes… Afinal, quando eu poderia experimentar pratos típicos do Uzbequistão ou da Georgia? Os preços em reais são aproximados. A cotação de um rublo (руб) para um dólar era em torno de 28 rublos por dólar para câmbio (o que dava cerca de 17 rublos por real), mas um pouco melhor para saque da conta no Brasil.

Transporte:
* AeroExpress (trem do aeroporto ao centro, incluindo metrô): 350 руб (R$22,00)
* Taxi Aeroporto/cidade: a partir de 1500 руб (R$95,00), dependendo do destino
* Metrô: 28 руб (R$1,75)

Alimentação:

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* Almoço em restaurante popular, incluindo bebida: em torno de 500 руб (R$33,00)
* Almoço executivo (entrada, sopa, prato principal): em torno de 500 руб (R33,00)
* Bife com batatas fritas: 650 руб (R$40,00)
* Jantar em um bom restaurante típico: 1000 руб por pessoa (R$65,00), sem bebidas
* Jantar em um restaurante típico top: 2500 руб por pessoa (R$160,00), sem bebidas
* Chopp local grande (500ml): 180 руб (R$11,00)
* Suco artificial em restaurante (copo de 200ml): 100 руб (R$6,00)
* Suco natural de laranja em restaurante (copo de 200ml): 250 руб (R$15,00)
* Suco natural de tangerina em restaurante (copo de 200ml): 400 руб (R$25,00)
* Suco natural de morango em restaurante (copo de 200ml): 970 руб (R$60,00)
* Expresso: 100/150 руб (R$6,00/R$10,00)
* Cappuccino: 170 руб (R$12,00)
* Coca-Cola: 100 руб (R$6,00)
* Vodka: a partir de 150 руб a dose (R$10,00)

Passeios:
* Visita à principal atração da cidade, a Praça Vermelha: grátis
* Entrada para o Armory: 700 руб (R$44,00) ou 200 руб (R$12,00) com carteira de estudante
* Entrada para o Kremlin: 350 руб (R$22,00) ou 100 руб (R$6,00) com carteira de estudante
* Entrada para o Mosteiro de Novodevichy: 150 руб (R$10,00)
* Entrada para o Museu Mayakovsky: 180 руб (R$ 11,00)
* Entrada para a Feira de Izmaylovsky: 10 руб (R$0,50)
* Entrada para o VDNKh: grátis

Compras:
* Matrioskas: a partir de 100 руб (R$6,00)
* Reproduções de posteres russos: a partir de 200 руб (R$12,00)
* Bugingangas da época do comunismo: a partir de 200 руб (R$12,00)
* Garrafa de vodka de boa marca em supermercado: a partir de 500 руб (R$33,00)
* Roupas, sapatos, eletrônicos: Lembre-se da piada: dois milionários russos se encontram. O primeiro diz: que gravata linda! E o outro: comprei por 500 dólares em Paris. E o primeiro responde: Otário. Poderia ter economizado a passagem e comprado aqui em Moscou por 2000…

Moscou – dia 2

Quando eu escrevi, no post anterior, que Moscou era eu cidade que te cansava eu não tinha noção do que estava dizendo. Moscou não te cansa: te deixa em frangalhos. Desde que cheguei, a 4 dias, não consegui mais escrever. E não consegui ver metade do que havia me proposto. Ainda não entrei em nenhum museu, nem no Kremlin, e nem sei se vou conseguir. A sensação que se tem, viajando de uma estação a outra do metrô, é de uma viagem intermunicipal. O que, pelas minhas pesquisas, eu conseguiria fazer em uma tarde, eu gasto o dia inteiro. E mesmo assim deixo a metade sem ver (não confie no meu guia: ele se mostrou uma furada. Serve muito bem como referência dos lugares. Como guia de programação é inútil).

O que eu ainda não vi (e, acredito, não vou ver): o Winzavod, centro russo de arte contemporânea, a galeria Solyanka, cinco dos sete arranha-céus stalinistas, o Parque Victory, com seus tanques da segunda guerra mundial, Museu Pushkin… Em uma semana é impossível visitar todos estes lugares. Moscou precisa de tempo. E não é pouco…

No dia seguinte a nossa chegada visitamos, como escrevi, a Praça Vermelha, Lubyanka e o bairro de Kitay Gorod, ainda assim deixando algumas das atrações de fora. Outras, como o Bolshoi, estavam fechados para reforma e rendeu apenas algumas fotos na entrada.

No segundo dia fomos direto para o Jardim dos Monumentos Depostos, que fica no parque ao redor da Nova Galeria Tretyakov (são duas, igualmente grandes). O Jardim foi o lugar escolhido para se colocar as estátuas retiradas após a revolução russa. A elas foram se juntando trabalhos recentes de artistas russos. Dentre a centenas de obras, muitas são medíocres, mas o passeio vale a pena. A entrada para o parque é de graça, se você for russo. Na mínima desconfiança da sua nacionalidade você é cobrado em 100 rublos (cerca de 6 reais) por um ingresso (este é outro ponto interessante de Moscou: sendo nativo, muitas das atrações são gratuitas ou quase. Dos estrangeiros é normalmente cobrados mais caro em ingressos. Dica: faça uma carteira de estudante internacional, que te dá direito a significativos descontos em muitas atrações).

Jardim dos Monumentos Depostos

Lenin nos Jardim dos Monumentos Depostos

Passamos batidos pela galeria e seguimos para o vizinho Parque Gorky. O que costuma ser um dos lugares mais festivos de Moscou estava quase as moscas. As duas montanhas russas (sem trocadilhos, por favor) estavam fechadas e nem o foguete russo que nunca foi para o espaço e virou um cinema 4D, seja lá o que isso significa, funcionava.

Onibus Espacial

Sim, um ônibus espacial que virou cinema 4D (?)

O passeio, a pé, seguiu até a Stolle, lanchonete de tortas que, dizem, é imperdível. Discordo: qualquer viagem pode passar sem a visita a este lugar, seu serviço ruim e suas tortas secas e sem graça. Dos quase 10 sabores salgados no cardápio, apenas dois estavam disponíveis: coelho e repolho. Por motivos óbvios optei pelo primeiro, que se não é algo memorável, também não decepciona. Das doces escolhemos a de limão: amarga e intragável.

Já o convento de Novodevichy, que fica ali perto, vale a visita.

NovodevickyConstruído ainda no século XV, o lugar já foi um forte importante para a segurança da cidade, uma vez que fica numa das margens do rio Moscou. Patrimônio da Humanidade pela Unesco, ainda é possível assistir a belíssimas missas da Igreja Ortodoxa Russa no lugar. Vimos uma as 17h e é algo de uma força impressionante: todas as mulheres presentes com velas e a cabeça coberta, um coral com vozes femininas conduzindo a cerimônia todo o tempo, contrastando com a voz extremamente grave do celebrante. Mesmo sem entender uma palavra, exceto “amém” – que, creio, entendi por contexto, já que era repetida ao final de cada frase do celebrante – é de trazer lágrimas nos olhos. Ao lado do convento está o cemitério mais “pop” de Moscou, o similar russo ao Pere Lachese, provavelmente. Ali estão enterrados de Serguei Eiseinstein a Boris Yeltsin, num verdadeiro “quem é quem” das artes, política e ciência do país. Neste também não conseguimos entrar. E aqui fica o conselho: ao sair so convento, vire à direita para o cemitério. Caso contrário é uma caminhada quilométrica ao redor do prédio (agradável nos primeiros minutos, à margem do rio, terrível na segunda metade, perto de uma movimentada avenida).

De novo, chegar à estação de metrô mais próxima requer uma boa sola de sapato: dali iríamos para um parque ao lado da Universidade de onde se tem uma boa vista da cidade. Para se chegar até a Vorob’evy Gory (ou Sparrow Hills, a Colina dos Pardais) são duas opções de metrô: a primeira, e mais usada, é até a estação do mesmo nome, que fica sobre o rio Moscou. Daí até o ponto é uma caminhada pela mata morro acima (de novo, duas opções: o caminho normal, mais longo, mas acessível ou a “eco trail”, eufemismo para “atralho”, pelo meio do mato). A segunda opção é descer do metrô na estação Universitet e daí passar pelo prédio sede da universidade, um dos sete arranha-céus stanilistas. O caminho também é longo (ok, vou parar de dizer que tudo é longe…). Da Colina dos Pardais se tem, de um lado, Moscou (com o estádio em primeiro plano) e do outro a universidade.

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A universidade de Moscou, um dos 7 arranha-céus de Stalin

Se não bastasse a maratona o primeiro dia ainda terminou com uma passada na Catedral de Cristo O Salvador e um jantar em restaurante de comida típica da Georgia. O lugar, por si só, é impressionante. Se chama Galereya Khudozhnikov (indispensável dizer que na fachada vai estar grifado de forma completamente diferente) e fica anexo a uma galeria de arte. O restaurante é formado por cinco salões decorados com motivos típicos e tanto o serviço quanto a apresentação são divinos. Posso estar puxando a sardinha pro nosso lado mas achei a comida do lugar com um quê de mineira. Primeiro, porque a coisa mais típica de lá é um pão de queijo. Não como o nosso: o khachapuri (que em kartuli, a língua deles, significa justamente pão de queijo) é uma espécie de pizza, recheada e coberta com um queijo branco e suave, quase uma mussarela. É delicioso.

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Khachapur: o pão de queijo da Georgia


E segundo, porque meu prato principal foi uma carne de porco com batata, coisa bem mineira, chamado objakhuri. Alê optou por um kharcho pomengrelski, uma mistura de porco e boi num rico molho de nozes e adjika. Bom, mas pesado. E concordo: nada de mineiro nisso, mas tanto o pão quanto o outro prato poderiam se passar por coisa nossa.